sexta-feira, 11 de agosto de 2017

PIZARRO, CAVALOS, OVOS E O FIM DA LAVA-JATO, POR ALEXANDRE MEIRA.

Então todo esse salseiro pra passar o Brasil à limpo foi pra acabar assim?
Como um menino mimado no meio de chuva de ovos de pata, o país assistiu ao arquivamento da denúncia decorativa contra o ex-vice corrupto (você pode trocar os adjetivos se preferir). Não sendo suficiente nos vêm o tal do “Sistema Distritão” entrando em campo como um camisa 10 do Íbis para assinar de vez o acordão da classe política... com o STF e tudo!  E a Democracia (clique aqui)? Não a do Maduro, a daqui! E pra fechar com chave de ouro o coro que come feio na Venezuela chama mais atenção dos brasileiros do que o nosso coro sendo tirado na marra pra virar tamborim de samba atravessado por 14 milhões de desempregados! É nessa "família muito unida" da casa da mãe Joana que chegamos ao mais óbvio e triste desfecho de novela dos últimos tempos em horário nobre na TV: Sim, meu filho, você pode não ter percebido, ou até não concordar, mas a Lava-Jato acabou. Faça o teste, acabou de vez (clique aqui)!
E antes de, emocionado, limpar as lágrimas no colarinho da camisa da seleção brasileira, continue lendo. Vale a pena ver de novo. O final da história quando for passado no cinema (Já tem filme!) ou apresentado no musical sobre a famosa força-tarefa necessariamente deverá ser modificado. Afinal, algo de final feliz deve ter, caso contrário, será realidade demais para ser pago pra ver. Fora isso, só se inscrevendo em alguma palestra do Dallagnol.
Imagine! O Ministério da Justiça sendo feito de Torquato e sapato, derramando todo o peso do seu calibre institucional sobre o outrora diligente diretor-geral da Polícia Federal, que acabou vendo sua operação padecer de fome e sede, sem recursos! Sim, com o exaurimento das verbas repassadas para a instituição, A PF ficou sem capacidade logística e produtiva para que a força-tarefa se dedicasse com o mesmo afinco às investigações da corrupção no sistema político. O que não deixa de ser também curioso, a operação morrer à míngua, justamente porque, segundo seus críticos, ela partidarizou violentamente as investigações fulminando o partido político, que enquanto no poder, mais apoiou a própria Polícia Federal e o MP. Não que os "malditos bolivarianistas" não merecessem tal tratamento, mas uma operação tão arriscada e importante para o país não merecia uma estratégia de atuação melhor traçada, não? Uma espécie de blindagem de credibilidade, que viria se ela fosse minimamente... imparcial? A maneira seletiva de agir, e as hipóteses pautadas em preconceitos e convicções ideológicas de seus próprios agentes, permitiu uma perigosa vista grossa aos “parças”, contra os malvados comunistas. “Parças” estes que ao sentarem no trono de Ferro tupiniquim, imediatamente promoveram uma verdadeira noite de São Bartolomeu, adivinhe você contra quem? Contra os próprios jovens idealistas do PF e MP que os pouparam, e que prometiam passar o Brasil à limpo, contra os stalinistas comedores de crianças venezuelanas.
 
Uma pausa, agora, para a sonora salva de palmas para o melhor roteirista da base do governo. Sem surpresas, e ainda com as ruas cheias, os vazamentos dos áudios de Sérgio Machado deram ao senador Romero Jucá (PMDB) a possibilidade de apresentar ao Brasil o funcionamento das entranhas da política brasileira, em plena gestação do “grande acordo nacional” para parar a Lava-Jato (“estancar a sangria”). Sambando na cara do Brasil como um todo. Uma imensa e maquiavélica jabuticaba que, para descer goela abaixo, precisava apresentar na bandeja, a cabeça da presidente eleita Dilma Roussef (clique aqui). Fora tão, mas tão perfeito na execução do plano, que nem mesmo com o vazamento na íntegra dos diálogos anti-republicanos sendo repetido por dias e dias nas redes sociais do país inteiro, houve qualquer tipo de mudança de estratégica ou recuo tático até hoje. Tudo correu conforme manda o figurino. Isso porque no cérebro de um corrupto contumaz, como Jucá e afins, há o reconhecimento imediato da falta de ética e caráter em qualquer um, dos "parças" aos seus potenciais algozes. Corruptos reconhecidos, pronto: Dobra-se a aposta! Os chefes da quadrilha sempre souberam que as panelas arranhadas dos filhotinhos da grande pata mãe da FIESP, nunca perderam indignados uma noite de sono sequer com a corrupção do país! Aceite que dói menos, caro colega, nunca foi pela corrupção! O tal “combate à corrupção” foi a bela roupa de festa usada nas ruas para mascarar um ódio de classe, um rancor, um saudosismo colonial, e principalmente a ira preconceituosa contra uma agenda desenvolvimentista de redistribuição de renda, que por mais problemas que tivesse, e tiveram, vigorava sob o aval democrático de ter sido aprovada em quatro eleições subsequentes (clique aqui). Registre-se a isso a afinada atuação casada das oligarquias, grupos financeiros e de mídia, para fazer o bolo amargo da revolta da classe média fermentar e crescer.
Como saldo, hoje, temos a classe política mais podre dos anos de redemocratização no comando, um verdadeiro Parlamentarismo de conveniências! E tendo, esta mesma classe política, apodrecido aos olhos da sociedade civil a forma como qualquer brasileiro enxerga a política enquanto forma de atuação cidadã (clique aqui). É grave. Para que se enxergue melhor o problema desculpe inclusive decepcioná-lo, mas política e políticos não são a mesma coisa. Fato é que durante essa carnificina, algo de imaterial perdeu-se no caminho, espero que não tenha sido uma expectativa de futuro minimamente viável. Crianças e jovens precisam de diferentes utopias, das mais leves, doces, pueris que sejam, mas eminentemente diferentes. Nem que seja para que as sacrifiquem cruamente depois em nome de outras menos etéreas, mas diferentes sempre. O que não se pode é padroniza-las, unifica-las, viabiliza-las em um discurso messiânico, a ser repetido incontestavelmente sob a luz de tochas tal qual um neófito da Ku Klux Klan. O que não pode é o discurso matar o diálogo. Quem dirá as nossas crianças no futuro que tudo isso hoje serviu para que Aécio, Jucá, e Loures, só para ficar nos que foram pegos em flagrante, mais as esposas de Cabral e Cunha..., todos, simplesmente todos, estão livres. Nota que acerca dos resultados da operação hoje sequer orgulho se percebe nas entrevistas de procuradores, juízes, jornalistas partidários... não conseguem sequer se orgulhar do que foi feito. Há apenas um lamento resignado. Veja, mandatos parlamentares permanecem intocáveis, a despeito da falta de dignidade que deva ser para um representante popular usar tornozeleira eletrônica. A presença de Alexandre de Moraes no STF e sua proximidade com Gilmar Mendes dia após dia, noite após noites, dos próximos anos dessa República servirá para intoxicar cada projeção de futuro dos brasileiros. Essa é a marca da desesperança, é a implacabilidade de um projeto de país que deu certo: Um país oligárquico, estúpido, cínico e vil. O conservadorismo brasileiro é bronco, chucro e sem  classe (sem trocadilho marxista).
Mas onde hospedou-se o erro esse tempo todo? Todos os que foram as ruas, e de suas belas varandas ressoaram panelas, são tão maus-caracteres assim por silenciarem tanto o grito preso na garganta, quanto o metal com teflon justamente durante a hora mais escura? Não acredito. Não acredito mesmo. E por conta de um cálculo muito simples: Nunca subestime quem quer ser enganado. Os jogos maiores, geopolíticos, históricos, a dança das grandes forças manipuladoras que se manifestaram tanto de dentro pra fora, como de fora pra dentro durante esses tempos golpistas, não se preocupe, esqueça: Eles mal as enxergam! Seguem apenas a voz, a imagem e o discurso de alguém que personifiquem uma ideia que espelhe seus medos e preconceitos. Basta algum idiota útil para personificá-lo, que os seguidores seguirão... porque só sabem seguir. Não sei quem foi que me disse uma outra frase, mas ela é ótima e ilustra muito bem os dias de hoje: “Não tenha ídolos, não cultue heróis, pois cedo ou tarde você acaba descobrindo que eles são tão ou mais imbecis do que você”. Há sim um toque de ingenuidade por trás de toda jornada messiânica, moralista e purificadora. A mesma ingenuidade que prega durante toda a história da humanidade peças incríveis a quem dela se vale, seja grego ou troiano, nativo americano ou europeu, coxinha ou mortadela. Independentemente se há justiça ou não pra quem atira a flecha ou se defende dela. Até por que, como diria a acusação: “Enquanto houver bambu, vai flecha!”. Quem dera, se fosse fácil assim. Agora, Inês (para não citar outra figura feminina) é morta. Lembro-me de histórias contadas, sabe-se lá se verdadeiras ou não, sobre a conquista espanhola. Ambos conquistadores, Cortês e Pizarro contra Astecas e Incas, respectivamente, aproveitaram-se desse elemento ingênuo para transformarem situações adversas de inferioridade estratégica em massacrante vitória. Cruel vitória, inclusive. Como deve ter sido revelador para ambos, que os nativos americanos em muito maior número e conhecedores exímios da região possuíam verdadeiro pavor... dos cavalos! Nunca vistos antes nas Américas, chegavam a confundi-los com seus cavaleiros como sendo uma só entidade. A tal ponto que Cortês pendurava chocalhos coloridos para que fizessem bastante barulho nas frentes de batalha; e quando mortos alvejados o exército de Pizarro os recolhia rapidamente para que os nativos continuassem com a falsa crença de que cavaleiros e cavalos eram uma coisa só. O pouco que isso durou durantes aqueles dias foi o suficiente para que os espanhóis superassem as primeiras dificuldades no front para depois implementar um profundo genocídio nas Américas. Como deve ter sido frustrante para os primeiros nativos quando se aperceberam que o foco de sua ira e medo não deveria estar nos cavalos. Penso muito nessa epifania aplicada ao idealismo de certos grupos de hoje. Quanto tempo foi perdido. Quantas vidas se perderam. Imaginar o quão duro pode ser um golpe de realidade contra uma visão de mundo, preconceituosa, utópica, religiosa que seja, independente se justa ou não. O quão destrutivo pode ser para nossas convicções de powerpoint, assumir o desastre provocado pela realidade quando ela implode de uma só vez, nosso próprio idealismo. Quanto de dor e expectativas perdidas pelos nativos, o quanto de esperanças de seu próprio povo foram queimados por uma crença ingênua, mesmo que visto agora, confortavelmente à distância. Independentemente aqui de qualquer tipo de julgamento etnocêntrico que isso possa gerar, faço apenas essa provocação. Falo apenas do mais simples de tudo. Atenho-me ao elemento ingênuo e puro que se encontra dentro de cada idealista, e que pode fazê-lo tanto voar mais alto, quanto matá-lo de uma vez, impiedosamente. O quanto disso foi necessário aqui em nosso país em pleno século XXI para entendermos, hoje, que uma operação como a Lava-Jato, que nasceu para revolucionar a política e a vida dos brasileiros, atacou um partido como sempre ao invés de mirar as nocivas oligarquias como nunca. Uma operação que cerrou fileiras única e exclusivamente contra um projeto político, ao invés de cerrar fileiras contra uma arraigada prática política! Acreditou-se que derrubando um governo eleito, um país novo em folha nasceria no lugar, mas ao invés disso viu um país desmoronar sobre suas próprias cabeças. Exigindo agora mais do que nunca seu sangue de trabalhador para manter por mais tempo privilégios historicamente alheios, quando o que você mais queria ao fim de tudo era o contrário: justamente acabar com privilégios. Quem dirá para seus filhos que você trocou o pouco que ele tinha por cacos de espelhos? Quem dirá para os seus filhos que o Brasil que ele vai herdar amanhã, foi você quem ajudou a construiu hoje?
É para desespero? Não. Ao menos... não, ainda. É tempo de paciência histórica. Por mais que seja engraçado o dito popular que reverberou na Bahia ultimamente, e que diz, que “Quem com pato fere, com ovo será ferido!”, não é tão simples assim! A história nos exige mais! Hoje sabemos que Incas e Astecas, preocupados que estavam com inimigos internos, erradamente ignoraram até o último minuto a presença de estrangeiros barbudos desembarcando e contatando os seus em suas próprias terras. Não foi só o medo dos cavalos que deu a vitória aos espanhóis. A eficiente articulação dos espanhóis com diferentes povos e etnias massacrados tanto por Incas quanto por Astecas, reverberando suas rivalidades e ressentimentos internos, potencializados por uma evidente superioridade tecnológica foram a marca da força bruta para a conquista sanguinária das Américas. O que deve-se pontuar aqui é que: Se o idealismo não for uma proposta verdadeiramente coletiva e altruísta, uma utopia no melhor sentido da palavra; se for uma luta com base em preconceitos, rancores, e ódio... a realidade pode ser implacável com seus próprios erros. Uma visão de mundo simplista é uma visão de mundo invariavelmente míope. Se Ned Ludd não tivesse iniciado uma quebradeira irreprimível contra as máquinas da tecelagem, nas quais ele e seus colegas se debruçavam nas intermináveis horas de exploração de trabalho da insalubre Leicestershire, nos primórdios da revolução industrial, adiar-se-ia por quanto tempo a cegueira quanto ao regime de trabalho massacrante nas fábricas inglesas do século XIX? Entende a diferença?
O que Pizarro e Cortês teriam a dizer para Sérgio Moro, afinal?
Resta sabermos se quando nos houver nova oportunidade histórica, em defesa do nosso futuro, alvejaremos dessa vez o cavaleiro, ou novamente o cavalo? Em nome do quê lutaremos? O roteiro desse filme tanto os espanhóis, quanto Gregos, e infelizmente o próprio PMDB de Romero Jucá conhece muito, mas muito melhor do que nossos meros idealismos de facebook.

Nenhum comentário:

Postar um comentário