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quarta-feira, 25 de julho de 2018

POR QUE EU MATEI MARIELLE? POR ALEXANDRE MEIRA

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Faz cento e trinta e três dias hoje. Era uma quarta-feira à noite de jogo do Flamengo quando recebi a notícia. O suficiente para jogar nas sombras a alma de qualquer democrata. O suficiente para me fazer lembrar do país em que vivo e suas poderosas correntes arrastadas. Não deu para vibrar com o golaço de Vinícius Junior. Não deu. Na minha cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em chamas nesses últimos dois anos, sob uma intervenção federal/militar aplaudida nas redes sociais sedentas e colocada em cheque por especialistas, o observador mais atento não conseguiria jamais se desfazer de um provável gosto amargo, de chumbo, talvez, na garganta.
Dez de Maio de 2018. É tornado público aqui no Brasil, um documento, de 11 de abril de 1974, que fora redigido pelo diretor da CIA à época, William Egan Colby, encaminhado aos cuidados do então secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger. Devido a uma lei americana específica, fora tornado público recentemente pelo governo americano e revelado pelo pesquisador Matias Spektor, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ela reserva ao cidadão americano a abertura de documentação sigilosa relativa as ações de Estado depois de um determinado período de tempo transcorrido.
O documento em questão descreve uma reunião entre os Generais Ernesto Geisel, presidente do país, João Batista Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), e os também generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, dentro do confidencial Centro de Inteligência do Exército (CIE). Nessa reunião, Milton, o responsável pelas operações do DOI-CODI, segundo o documento, disse a plenos pulmões que o Brasil não poderia ignorar a "ameaça terrorista e subversiva", e que os tais métodos "extra-legais deveriam continuar a ser empregados contra subversivos perigosos". Tudo isso na presença e condescendência de Ernesto Geisel. No ano anterior, 1973, simplesmente 104 pessoas "nesta categoria" foram sumariamente executadas pelo Centro de Inteligência do Exército". Depois dessa reunião, mais 89 pessoas em todo o país, e também fora dele, entraram nessa “estatística”.
Pra quem não se importa com uma “reuniãozinha” fora da agenda entre um presidente ilegítimo e tipos suspeitos às escuras de um Palácio Jaburu, por exemplo, saiba o que esse tipo e “reuniãozinha” com bolinho e café quente pode fazer com a sua própria vida e com a consequente história do país.
Geisel, um dos Generais da “Ditabranda” brasileira, autorizava pessoalmente a execução de seus opositores. Algo que especialistas sobre Ditadura como Élio Gáspari em seus cinco volumes tiveram uma imensa dificuldade em afirmar. Um único documento demoliu essa resistência. O presidente da República, um militar, durante um Regime Militar proveniente de um Golpe de Estado valia-se da força desproporcional do braço armado desse mesmo Estado para exterminar civis, opositores políticos, dentre os quais, jornalistas, escritores, professores, operários e estudantes. Pois é, há quem ame esse país, o povo desse país, por isso busque estudar com afinco sua história. Não a ignora. Se você não suar frio para controlar a raiva ou não se entristecer profundamente com essa informação, não se trata apenas de uma dormência política conveniente por parte de mais um espírito saturado de tanto se indignar. Pode ser mais, meu amigo. Saiba que o problema principal talvez não esteja apenas na brutalidade de nossa própria história, mas em seus próprios valores pessoais de sua estreita visão de mundo. Heranças estas de um tempo em que a banalidade do mal, o ódio e inúmeros preconceitos podem ter feito morada em você. Pense nisso. Saiba que desgraçadamente, e a sua revelia, alguns valores pa lá de questionáveis tenham lhe feito bem menor do que tudo aquilo que você pensa acerca de coexistência.
Pesado demais para um leitor despretensioso? Injusto até? Talvez, mas também não me excluo do alvo da crítica, até por que há nisso tudo algo ainda que eu considere pior, e tem a ver com uma chaga social incurável. Você irá entender.
Dia 07 de Maio de 2018, Donald Glover, um artista multiperformático americano publicou nas redes sociais seu mais novo videoclip. Sob a alcunha de Childish Gambino o rapper implodiu o status quo americano com uma bomba semiótica devastadora. Salpicada de inúmeras referências simbólicas à política de Estado racista que vigorou nos Estados Unidos durante anos, o clip perturbador é dançante e alegre ao mesmo tempo que revisita no segundo plano inúmeros massacres ocorridos na História americana contra a população negra. “This is América” canta o refrão durante uma tensa expressão corporal de Childish neste verdadeiro thriller psíquico sobre o racismo em tempos de “America First”. As reações acaloradas nas redes sociais foram imediatas, trazendo questionamento entre brancos, negros, imprensa, supremacistas, grupo em defesa de minorias, dentro e fora dos Estados Unidos, fazendo que a postagem chegasse a 100 milhões de visualizações apenas uma semana depois.
Não precisa de muito para que a aparente harmonia de um sistema altamente desigual possa ser colocada em cheque. Em qualquer lugar do mundo. Seja dentro de um país, seja dentro de um grupo de amigos. Costuma-se pensar em transformações sociais sempre através de movimentos grandiosos, revoluções, feitos monumentais, momento de grandes lideranças. Não. Bastam apenas vinte centavos, uma ocupação, uma bala de borracha, um movimento, uma presença, a representação de uma identidade, um questionamento a uma ofensa, a uma piada. Mas não, as vezes uma pessoa encarna a mudança pelo simples fato de ser quem ela é. Ela não precisa agir, basta apenas que ela exista, basta que ela se ponha em movimento, basta que ela apareça, através de uma conquista pessoal, um trabalho, um discurso em um meio "não reservado" para que ela. E pronto, a estrutura começa a tremer em toda sua assimetria e desigualdade. Independente de qual estrutura seja. Estado, escola, mídia, igreja, família... amigos. Independentemente de qual época seja. Não há nada mais anárquico do a mobilidade social, à revelia de qualquer dominância, dentro de um espectro pré-determinado. Não há nada mais perigoso do que mexer com uma visão de mundo, por mais necessária que essa mudança seja e por mais brutal que esse mundo possa ser. Basta que você não aceite o lugar que atribuíram a você antes de você nascer... e se mova. Não precisa de muito.
No dia 14 de Março de 2018 Marielle Franco, uma vereadora da cidade do Rio de Janeiro foi até à Casa das Pretas, na rua dos Inválidos, na Lapa, centro histórico da cidade do Rio de Janeiro, para fazer uma mediação em um encontro com debates promovidos pelo Partido Socialismo e Liberdade, o PSOL, envolvendo jovens negras, por volta das dezenove horas. Ela, Marielle, sozinha, representava ao mesmo tempo mulheres, negros, homossexuais, e sua comunidade pobre de origem o Complexo da Maré. Só que como já foi dito acima... e por conta de sua essência transformadora, ela não saberia não se movimentar contra as aberrações da estrutura. Ela foi eleita. Ela, mesmo dentro da democracia soluçante brasileira, representava uma agenda ocultada pelos ferrolhos oligárquicos do país. Ela participava politicamente de um lugar historicamente não reservado a ela, a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, ela por si só era uma bomba semiótica no ventre de um Estado misógino e desigual, moedor de gente pobre e preta. Ela, gay, negra, mulher e de origem pobre... parada na Câmara dos Vereadores do Rio, sendo vista por onde quer que ela passasse, já era o elemento mais transgressor possível para um país que nunca tolerou a civilização e suas consequências. Ela se moveu. Ela quis se mover. Segundo imagens do local do encontro, mais tarde entregues a polícia, um Cobalt com placa de Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, estava parado próximo a casa das Pretas. Lá pelas vinte e uma horas, Marielle deixou o local com uma amiga e um motorista. O Cobalt iniciou uma perseguição silenciosa. Por volta, então, das vinte e uma horas e trinta minutos, na Rua Joaquim Paralhes, no bairro Estácio, berço da cidade do Rio de Janeiro e reduto negro, as imagens mostram um veículo, Cobalt, emparelhar com o carro de Marielle e fazer treze disparos a partir de uma submetralhadora. Nove acertam a lataria e quatro acertam o vidro. Uma mulher eleita por ser uma voz negra, homossexual, e representante popular foi atingida por três tiros fatais na cabeça e um no pescoço e o motorista Anderson, um pai de família, levou três tiros nas costas, causando sua morte, e a morte da vereadora. Ele, Anderson, também é digno de todas homenagens que lhe são feitas. A amiga de Marielle, assessora na câmara, foi atingida por estilhaços, levada a um hospital em estado de choque e depois liberada. A polícia declarou acreditar que o carro dela fora perseguido por cerca de quatro ou cinco quilômetros. Os executores do crime fugiram do local sem levar quaisquer bens.
Primeiro ponto: Crime político não é, nem nunca será a mesma coisa que violência urbana, por mais dolorosos que ambos possam ser. E são.
Nunca houve nada mais perigoso para quem tem medo de uma verdadeira mudança do que algo que abra à fórceps sua estreita visão de mundo para um futuro viável sem seus preconceitos. Mesmo que o medroso por si só não saiba disso. Basta que se libertem os monstros que habitam o fascio interior de qualquer um. 
Ela representava essa mudança.
Não foi pouca coisa que se ouviu sobre esse assassinato brutal. Sobre os tais monstros internos saberemos identificá-los melhor num futuro mais frio, longe dessa febre toda. Mas realmente não foi “pouca coisa” que se ouviu: “Também, coitada, ela foi mexer com quem? Logo com PM e milicianos?!”, ou “Achei exagerada essa mobilização toda a favor dela, foi forçar a barra demais...”, ou ainda “Quando um PM morre não é essa mobilização toda...”, ou o mais absurdo “Ela não morreu porque era uma mulher e preta, morreu porque mexeu com bandido...”. Reservei essas primeiras assertivas após excluir de qualquer análise pessoal as chamadas Fake News, absurdas, que se seguiram às redes após a morte de Marielle. Fake News é caso de polícia, reservo-me nesse parágrafo o direito de comentar as meras opiniões, motivações por mais desprovidas de sentido que sejam. Contudo, diga-se de passagem, da pior leitura que se possa ter delas, são elas emanações do chamado senso comum, e como tal tem essa, digamos, “prerrogativa”. Absurdas, mas legítimas. Mas o que chama a atenção é como um conceito de pertencimento a um certo local prévio e inamovível concernentes a classe, origem, gênero e muitas vezes, quando não a maioria das vezes, raça, atua como justificativa à barbárie. Talvez seja, esta a característica mais brutal destes tempos trevosos que estamos vivendo, a tentativa de racionalizar, quando não permissivamente, sobre algo brutal e injustificável. “Como poderia uma mulher tentar lutar contra PM e milicianos?” Talvez essa fosse a pergunta real brotada das entrelinhas daqueles que a viam como uma coitada, como se a capacidade de se indignar com a injustiça não coubesse a determinados grupos, gêneros, segmentos sociais, representados por Marielle, mas somente a dor e o sofrimento. Você passa a entender um pouco desse discurso rasteiro e covarde quando conhece a história de 400 anos de violências como a história desse Brasil. O fato mais curioso é que essas opiniões se caem ao primeiro confronto com os dados: Atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no país, 71 são negras. De acordo com informações do Atlas da Violência no Brasil publicado em 2017, os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontado o efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência. Ou seja, no Brasil as pessoas morrem porque são negras, e não porque são pobres. Mas somos ainda obrigados a discutir com manifestoches acríticos que repetem que Marielle morreu porque mexeu com bandido, não por que era mulher, preta e de origem pobre. Quer outro dado? Ele mostra mais claramente a persistência da relação racial com a violência no Brasil: Enquanto a mortalidade de não-negras (brancas, amarelas e indígenas) caiu 7,4% entre 2005 e 2015, entre as mulheres negras o índice subiu 22%. Pois é, meu amigo, mas você vai ouvir que ela morreu porque mexeu com bandido, e não porque era uma mulher, preta e pobre. Esse país é covarde. O seu país é racista, misógino, homofóbico e principalmente covarde. Aceite que dói menos. Mas aquele seu amigo vai insistir, vai dizer nas entrelinhas que ela foi morta porque não deveria ter saído de seu prévio lugar social de potencial “caça” nessa meritocrática cadeia alimentar. Seria explorada, humilhada, vítima eterna, junto com os seus, mas “ao menos” estaria viva. O mesmo cabe para quem achou um “exagero” a mobilização em torno de sua morte. Sinceramente acho que essa linha de pensamento me entristece mais do que revolta, até porque ela é completamente vazia de sentido. Eu, particularmente, consigo até me imaginar indignado quando um assassinato injusto, cruel e covarde não tem a devida mobilização ou repercussão, mas simplesmente não consigo conceber a ideia de algum ser humano querer dosar para baixo o grito de justiça de quem quer que seja ao se deparar com a desgraça advinda de um evento injusto, cruel e covarde. A quanto de escuridão está submetida a alma que racionalmente conclui que um grito de dor diante de uma ferida de morte deve ser mais baixo para não incomodar muito? Um assassinato, cujos indícios apontam para agentes e ex-agentes do Estado, muitos da instituição que deveria proteger civis. Bem à moda... Geisel. Mas... não diga isso, não reclame..., fale baixo..., é “exagero”, diria o capitão do mato, ao ouvir a repercussão de uma surra, aos olhos dele, “dura demais” aplicada sob gritos dentro da senzala. Esse país sempre precisou de homens melhores do que capitães do mato, sejam vestidos de toga, de farda... ou andando por aí como civis, travestidos de homens de bem. E por último, e não menos importante, vem a incapacidade de se compreender que um crime cometido pelo Estado, especialmente, um crime de morte cometido por agentes de Estado é muito, muito mais grave do ponto de vista estrutural do que um crime cometido entre civis sem viés político, embora igualmente dolorosos aos envolvidos. Isso se dá pela incomensurável desproporção de forças entre as duas vias em choque. Quando há a presença do braço armado do Estado para cometer crimes, além de se trair letra legal-constitucional, potencializa-se um desequilíbrio de forças que acentua a desigualdade avassaladora que existe no país, legitimando-a, cujos efeitos perversos a população negra, pobre, indígena, homossexual e feminina já sente historicamente. Esse raciocínio seletivo tacanho é o mesmo que considera a mesma carga simbólica para dois slogans diferentes, como 100% branco e 100% preto. São cargas infinitamente desproporcionais em termos de significados porque num país com 500 anos de história, 400 deles foram sob um regime escravocrata mal resolvido que rende seus frutos até hoje por conta de seu racismo estrutural, além de números revoltantes revelando que a população negra é a que mais morre, que mais é presa, que ganha salários menores, que é mais demitida, etc.
Por definição o racismo é um sistema de sentidos, material e histórico, e tá longe de ser subjetivo. É um modelo de organização social em que uma ‘raça’ acaba por se sobrepor a outra, por violência, simbólica ou não, afirmando-se como paradigma, naturalizando-se como regra, cuja resultante é a opressão das demais. O racismo não é algo subjetivo, individual, que se manifesta simplesmente entre pessoas. Ele carrega o peso estrutural em si. Ele está imiscuído na forma como a sociedade se organiza e se reproduz, no mercado de trabalho, na mídia, entre as vítimas da violência, entre o público do sistema carcerário, entre os pobres em todo o mundo, entre os proprietários e os não proprietários. Ela é quase onipresente. O nó da contra-argumentação é o suposto racismo de negros contra brancos, acionado como falso antídoto retórico, ou, como gostam de chamar esse absurdo conceitual: Racismo reverso. Primeiro, é necessário se ater aos conceitos já colocados: Racismo é necessariamente um sistema de opressão e, para haver racismo, principalmente do ponto de vista legal, deve haver microrrelações de poder. Negros não possuem o poder do Estado para serem racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que simplesmente a exclui.
Um exemplo recente é o do comediante Danilo Gentili que quis comparar constrangedoramente o fato de ser chamado de palmito com o fato de um negro ser chamado de carvão. Acredite. E disse ser vítima de racismo. Isso só mostra o quanto ignorante em relação ao conceito este cidadão é. Ser chamado de palmito pode até ser chato, ofender, e de um mau gosto tremendo, mas nunca será racismo. Um fato é que a estética branca não é, nem nunca foi estigmatizada por aqui. Ao contrário disso, ela é considerada como padrão de beleza. Danilo Gentili cresceu num País onde pessoas como ele estão em maioria na mídia, ele desde sempre pôde se reconhecer em altos cargos, nas mídias, no Estado. Sempre teve uma oferta muito maior de referências brancas. Pode até ser problemático para ele, mas ele não é discriminado por isso. Nunca foi. Que poder tem uma pessoa negra de impactar a vida pessoal, profissional, financeira dele por chamá-lo de palmito? Cite um. Agora, um jovem negro pode ser morto simplesmente por ser negro, citei os dados no início do texto, pode ser demitido por ser uma apresentadora negra sob a justificativa de não ter perfil tão “neutro” em uma grande emissora de TV, ter bem mais dificuldades para chegar à universidade por conta do racismo estrutural que sempre reservou aos negros os piores sistemas educacionais, mesmo após o advento das cotas. Isso sim tem poder de influenciar/impactar a vida de alguém. Racismo vai além de ofensas, é um sistema que essencialmente obsta, impede, nega direitos. Ao ser reproduzido nas relações de contrato, cíveis, tem relevância penal. Quando reproduzido apenas entre amigos ou entro de famílias gera chagas, as vezes imperceptíveis até para que as tem, mas gera. Para haver racismo, deve haver relação de poder, entenda! E a população negra não está nem nunca esteve no comando do Estado. Acreditar em racismo reverso é mais uma evasiva, uma apologia sem sentido para mascarar o verdadeiro racismo: Não o reverso, mas o perverso.
Lembre se puder do clip de Chilswish Gambino e sua menção a Jim Crow, personagem caricato negro que fazia piada sobre o modo de vida e o estigma da população negra no sul dos USA. Lá era comum os proprietários chamarem seus escravos de “corvos” - Crow - por causa da cor da pele. O personagem popular de um humorista nova-iorquino branco acabou virando o nome de uma Lei que durante quase cem anos avalizou um verdadeiro apartheid dentro do país. A cisão produziu inúmeras chacinas dentro da população negra durante a história. Só um personagem. Só uma piada que fazia rir as famílias brancas e até as negras. Era só um Meme.
Pois é, amigo, não existe racismo reverso, nem Jim Crow às avessas nos USA. Da mesma forma que é necessário falar, por outro lado, que a mortandade absurda de PMs por mais brutal e injusta que seja, e é, de fato, revela-se muito mais fruto de um despreparo e falta de proteção a esses agentes de linha de frente do Estado que tem a honrosa função profissional de se colocar em risco em nome da defesa da sociedade civil. E que, aí sim, entra a questão racial, por serem estes profissionais, mal remunerados, pobres, e em grande maioria negros, por serem tratados como cidadãos de segunda classe, verdadeiras buchas de canhão do Estado, mantido pelo status quo, que não está nem um pouco interessado em uma redução da violência urbana contra seus concidadãos, mas na mera segurança patrimonial da parcela mais aquinhoada.
Ou você acha que nas reuniõezinhas do Geisel, fora da agenda, ele estava tratando da infraestrutura e preparo da polícia?  
Não é só isso. É necessário falar sobre as bases de nossa civilização brasileira. Nossa base humanista. Nosso marco civilizatório. Basta comparar visões de mundo. Por isso aqui trago, longe de querer generalizar, mas apenas ilustrar, o discurso de duas pessoas diametralmente opostas no espectro de percepção de seus papeis sociais. E como isso pode expressar o nocivo peso histórico da profunda desigualdade social e violência do país. Cada um à sua maneira e discurso. O maniqueísmo é proposital: trago uma juíza e um condenado quando confrontados sobre seus próprios crimes. É didático para também percebemos o nível de desestruturação institucional que o país atravessa hoje. Além de conhecermos esses tais... “homens de bens”.
Segundo ampla divulgação nas mídias brasileiras uma Desembargadora do TJ disseminou nas redes sociais que Marielle ‘estaria engajada com bandidos’. Sim. As famosas Fake News tomam conta das redes brasileiras e baseada em uma delas, Marília Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, afirmou em comentário que vereadora morta 'havia sido eleita pela facção criminosa ‘Comando Vermelho'.
 A afirmação principal fora feita através do Facebook e gerou uma onda de repercussões negativas. Alegou posteriormente, contudo, que o comentário fora feito como resposta a uma postagem do advogado Paulo Nader, que reconheceu a parlamentar como “lutadora dos direitos humanos”. Fato é que, ao fazer o post, a desembargadora se baseou descuidadamente nelas, as fake news (notícias falsas), que correm deliberadamente pela web. Sob uma monta assustadora, as tais fake news prometem, inclusive, segundo canais de controle nas redes, interferir fortemente nas eleições presidenciais deste ano, assim como ocorreu em outros países. Segundo a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, que revelou em sua coluna o conteúdo do comentário nocivo, Marília, a desembargadora, afirmou ainda que sequer conhecia Marielle até saber de sua morte e que publicou as informações simplesmente porque leu no texto de uma amiga. Como evasiva, criticou duramente o que chamou de “politização” do assassinato de Marielle. “Outro dia uma médica morreu na Linha Amarela e não houve essa comoção. E ela também lutava, trabalhava, salvava vidas.” Aqui cabe uma análise: Ressalte-se que, além de ser obviamente uma figura desagradável por julgar gratuitamente e de forma preconceituosa pessoas que sequer conhece, a desembargadora cai no lugar comum de hoje, que é a perigosa demonização da política enquanto instrumento eminentemente civilizatório. Faz isso ao não reconhecer que um político stricto sensu, principalmente um político orgânico com fortes laços com o lugar em que crescera, é um representante legítimo e popular entre seus iguais, e que sua voz não é nem nunca será apenas uma só voz. E principalmente, que isso é sagrado. A representante do Judiciário confunde primariamente efeitos da violência urbana, igualmente dolorosos às famílias e a toda sociedade como a morte da médica, com o crescente número de crimes políticos cujo impacto tem um potencial bem maior de gerarem revolta por serem historicamente o caminho cruel mais eficiente de calar principalmente vozes populares. Vozes eleitas, como nesse caso, que fazem valer a opinião de grupos amordaçados pelo desequilíbrio atroz de nossa estrutura social, já citado parágrafos acima. Marielle representava a esperança na mobilidade política social de grupos acossados, contra a estrutura piramidal excludente do país. Seu assassinato se deveu pelo fato de que outros grupos, criminosos, provavelmente de dentro do próprio Estado, quiseram impedir que uma parte da população negra, mulher, homossexual, gritasse pela sua sobrevivência política. Seja qual for a justificativa do assassinado. Mas prossigamos, ela escreveu em seu famoso comentário:
“A questão é que a tal Marielle não era apenas uma ‘lutadora’; ela estava engajada com bandidos! Foi eleita pelo Comando Vermelho e descumpriu ‘compromissos’ assumidos com seus apoiadores”, escreveu a magistrada, que insinuou que a morte da vereadora foi consequência de cobrança de “dívidas”. “Qualquer outra coisa diversa é mimimi da esquerda tentando agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro”, finalizou.
Para além do caráter de formação humana, de valores e notadamente indigno da desembargadora, cabe aqui uma outra versão para efeitos de comparação entre discursos diametralmente opostos no tecido social.
Nem, uma alcunha, é o ex-chefe do tráfico da Rocinha, talvez a principal favela do Rio de Janeiro. Em uma entrevista ao jornal El País, Nem responde perguntas sobre a violência no Rio, sobre ação da polícia e outros temas como Educação. Com uma visão surpreendentemente humanista para o senso comum o detento é provocativo ao questionar valores de uma sociedade que flerta cada dia mais com um pseudopunitivimo salvador. Embora ainda caia em armadilha fáceis como a demonização da política. Ao responder sobre a violência carioca, por exemplo, Nem fica em silêncio por segundos. Em seguida, solta a bomba: “Você acha que os políticos não sabem como resolver o problema da violência?”. A pergunta retórica é desdobrada em seguida: “O problema é que eles sabem que não serão reeleitos se fizerem isso. Sabem que isso exige um investimento em educação e políticas sociais que não têm retorno na urna, no curto prazo, mas que é algo para o médio prazo, para daqui a dez ou 15 anos. A preocupação maior é o mandato, não é resolver nada”, desabafa. Para Nem, políticos de olho no voto apostam no velho discurso de enfrentamento, “de botar polícia na rua e endurecer penas”. “Mas está mais que provado que nada disso dá resultado. Nada disso funcionou até agora”. O detento Nem nivela hierarquias sociais ao sugerir que há uma indústria da violência no alto escalão do governo do Rio de Janeiro, assim como houve com os mesmos objetivos durante muito tempo no Nordeste, a famosa Indústria da Seca. A Seca, um problema básico que perdurou durante anos, e que criou miséria aos nordestinos e ao país, ficou famosa muito mais por gerar um imenso capital político, a cada quatro anos, para reeleição imediata de quem sempre se valeu da própria seca promovendo-se eleitoralmente, do que pela incapacidade do Estado de resolvê-la por si só. A grosso modo, era um problema, que se sabia por todas as oligarquias nordestinas contornável, através de ações políticas coordenadas, mas que renderia muito mais voto se permanecesse insolúvel. Comprovável apenas anos mais tarde com a vigência de um nordestino na presidência e suas obras da transposição do Rio São Francisco.
Mas o detendo em seu discurso não cai na outra armadilha dos dias de hoje: O punitivismo provinciano. Ao questionar os políticos e a danosa corrupção, ele aprofunda a camada de análise ao ser perguntado sobre qual seria a solução efetiva do problema da violência.
A ortodoxia de Nem da Rocinha assusta pela obviedade: “Além de investir em educação, se você quer acabar com o tráfico você precisa legalizar as drogas. Quer tirar todo o poder do traficante? É só legalizar”, afirma, porém argumenta “Não adianta só legalizar. É preciso falar sobre isso nas escolas. Ensinar desde cedo o que é a droga. Não adianta falar apenas ‘droga é ruim’, ou ‘ não usa’. O jovem tem curiosidade com isso”. O ex-traficante ainda sugere uma série de medidas para que o Estado possa obter lucro com a venda ou taxação de um comércio legal de drogas como principais justificativas para a legalização. Para ele ainda é óbvio que há um componente estrutural grave sobre a questão do tráfico e violência do Rio de Janeiro. Algo que reverbera no senso comum e é amplificado pela parcela conservadora da população, e suas visões estritamente moralistas, típicas dos chamados homens de bem. Lembra disso quando receber uma Fake News em seu aplicativo de conversa. Não seria difícil imaginar o que Nem, totalmente envolvido com, e eterna ferramenta do mecanismo de violência urbana, pensaria da volta dos assassinatos políticos, no melhor estilo do horrendo Regime Militar. Mesmo que você evite o discurso dele por medo ou preconceito, reconhece-se nele a mesma hipótese de desigualdade estrutural a qual estamos submetidos e que interessa a um pequeno grupo da pirâmide social. Ela também permeia sua visão sobre o funcionamento do mecanismo do combate ao tráfico de drogas e suas microestruturas. Apesar de admitir que “não é santo”, para ele as autoridades “com o apoio da grande mídia”, inteligentemente, usam o traficante “da favela, negro e pobre” como verdadeiro bode expiatório, quando na verdade ele seria apenas a parte de uma engrenagem muito mais complexa e deixada convenientemente invisível. “E o helicoca? Quem foi preso? E o filho da desembargadora? ”, disse ainda.
Por vezes é tentador imaginar se esse país conseguisse realizar uma de suas utopias: A de se acabar definitivamente com toda a corrupção entranhada levando aos últimos fins sua sanha punitivista. Pois é, caso conseguisse realizar tal feito a cabo desse idealismo ingênuo, passando o país “verdadeiramente a limpo”, mesmo assim, após tudo isso restaria um país profundamente desigual, embora incorrupto, no fim. Contudo, imagine se por outro lado esse país combatesse inapelavelmente suas desigualdades internas sem evasivas, mantendo até o limite a marcha de sua redução, como vínhamos fazendo nos últimos anos até o Golpe? Digo sem medo que no médio prazo, após cumpridas duras reformas, teríamos um país que além de ser herdeiro inevitável da força revolucionária do acesso igual à educação, estaríamos com altíssimos índices educacionais, livre de sanhas punitivistas e... igual. Justa e exatamente por esses motivos, e por força da educação, incorrupto.
O Brasil precisa entender que é muito mais vítima de suas interrupções democráticas do que suas práticas políticas, por piores que sejam. Você pode ainda não ter se dado conta, mas se há um ressentimento de sua parte com o toque profundo na ferida que Childish Gambino provocou, saiba que homens como Geisel e sua forma de pensamento produzem essas feridas. E a ferida de hoje se chama Marielle. Acostuma a ideia de que ela vai doer pra todo mundo, antes de tentar curá-la.
Apaixonado pelos dois? O traficante e a desembargadora? Então: Separados por papeis sociais distintos, duas visões de mundo se digladiam por versões antagônicas de um mesmo país. É didático. Vítimas que são de soluções ora fáceis, ora difíceis, mas que não escondem de si mesmas o aspecto necessário da formação pessoal básica para uma visão de mundo minimamente cidadã. É disso que falaremos. Formação essa que deve definir um conceito de alteridade e respeito ao próximo mínimos para o reconhecimento e a não reprodução das violências estruturais. Sejam essas simbólicas ou físicas, para que não matemos a cada semana uma médica vítima da violência humana, para que não matemos a cada dia sem respostas uma nova Marielle. Mortes e esquecimentos, feridas... em série.
Sim. Somos assassinos contumazes em potencial. Só não temos coragem de admitir. A diferença está em como lidamos com ele. Mas aqui vai um esforço pessoal, pequeno proporcionalmente, mas necessário, no que diz respeito às minhas mãos sujas de sangue.
Soube de Marielle tardiamente, essa primeira vez foi na apuração das eleições municipais de 2016. Fiquei feliz quando soube que uma representante orgânica de tal monta havia sido eleita com muita relevância. Fiquei feliz pela minha cidade. Fiquei com esperança. Mas eu não a conhecia. Sequer havia ouvido falar dela para ser sincero, mesmo tendo já votado em candidatos do partido dela inúmeras vezes antes.
Marielle tinha a minha idade, optou pela mesma carreira que eu optei na mesma cidade. Sabemos da efervescência acadêmica. Provavelmente muitos de nós esbarramos com ela em inúmeras oportunidades, ativa que era, e no meu caso, ainda, além dos eventos comuns à carreira universitária, em manifestações, em festas, congressos, etc. Até aí, nada demais. Ela e eu também dividimos a mesma origem étnico racial, como a maioria da população, cada qual enfrentando sua própria dificuldade, familiar, financeira, etc, provando a cada dia sermos duas vezes melhores do que o necessário para sermos, enfim, vistos como iguais. Vivemos em lugares distintos da cidade, mas na mesma cidade, cujos problemas, mazelas são de conhecimento de todos. Algo se justifica no fato de termos, uma visão de país, de cidade bem parecida. Até aí, tudo bem, mais uma vez. Talvez ela soubesse tanto quanto eu soube, tendo descoberto assim como eu, aos poucos, como as pessoas desse país, dessa cidade, lidam com a desigualdade. Senti várias vezes na pele a reação a uma crise de estrutura no país, uma revolução silenciosa enfrentei ao entender que assimetrias históricas ameaçam ruir vítimas do avanço civilizatório e que as pessoas... reagem. Sentir na pele, é exatamente o que você leu. Sentir na pele os efeitos transformadores de seguir ao pé da letra o determinado pela Constituição cidadã: Tratar desigualmente os desiguais na medida de sua desigualdade. Algo como ser a personificação do acinte à velha estrutura. Principalmente quando isso se dá de maneira sutil, diáfana, não menos brutal e naturalizada, quase forma subliminar. Essencialmente simbólica. As pessoas reagem. Classes sociais reagem. Como Marielle teria percebido o revés ainda jovem, pela primeira vez? Quando ela sentiu que seu cabelo aos olhos dos outros agredia? Quando percebeu que sua pele, sua simples presença em determinados lugares, gerava reações? Quando se sentiu interrompida pela primeira vez?
Posso falar de mim. E asseguro que para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, alegar mimimi é coisa de vítima sim, mas de uma espécie inanição político social. Quase como uma incapacidade simbólica, abstrata. Mas confesso, em mea-culpa, que você só consegue entender certos símbolos muito, muito mais tarde. Sem ódio, sem repulsa, às vezes transitando sentimentos confusos. Aprendendo a sair das bolhas. Certa feita, me recordo bem, ainda criança expandindo os limites da rua onde morava num sábado à tarde qualquer, corria com outras crianças feito doido até o cansaço bater. Aprendi que no final de tudo quando batia a sede, sentados na calçada, abordávamos a mãe de qualquer um de nós atrás de um copo de água. Que entrava pacientemente como se fosse mãe de todos e trazia os copos de vidro com a água gelada. Às vezes um pedia em nome de todos, que logo após chegavam. Não importava, ela cuidava da cria da rua. A mãe de um era a mãe de todos. E assim o vínculo se criava, mesmo sem intimidade. Por inúmeras vezes foram as mesmas crianças, a mesma senhora, com o mesmo carinho, afeto e sempre a mesma água pura em copos de vidro. Cristalina. Até que um dia, pela primeira vez tomei a liberdade de pedir sozinho, vencida a timidez ainda a espera dos outros para chegar, para a mesma mãe em frente a porta de sua casa. E assim se deu: O mesmo sorriso, o mesmo carinho, as mesmas brincadeiras partiram dela. O mesmo afago. Que entrou, ligou a mangueira e trouxe para mim, à porta, para que eu abrisse a boca.
Foi a única vez em que isso aconteceu.
Vi a cor da água. Lembrei do copo de vidro e a água cristalina. Matei a sede.
Quando os outros chegaram entre risos infantis ela entrou e trouxe a bandeja de outrora com aqueles mesmos copos de vidro com água cristalina. Foi a vez de eles matarem a sede.
E tudo seguiu.
Note. O carinho e receptividade dessa mãe permaneceram ainda os mesmos de antes por muitos e muitos anos depois, e juro que nesse dia não pensei em nada que fosse diferente do que pensara antes, em mesmas ocasiões, a respeito disso. Mas eu nunca mais pedi água, afogado numa vergonha estranha, que não era minha, que nem mesmo a reconhecia. Estranhamente nunca senti dor, mas não esqueci que quando pedi água pela primeira vez, a minha água de beber era a da borracha do quintal, a que fica do lado de fora da casa.
Eu vi a cor daquela água.
Foi como uma concha de mar, daquelas grandes, que ganhávamos antigamente e guardávamos na gaveta. Dessas que você não experimenta colocar no ouvido sempre, por não achar graça no som que ela faz. Mas eu pude juntar várias delas durante a vida. Mais do que gostaria. Quem sabe um dia alguém transforme o som dessas conchas em música para que possam ser ouvidas, já pensou? Sobre o que essa música falaria? Como seria o seu videoclipe?
Eu tenho certeza absoluta que essa senhora, carinhosa senhora das minhas lembranças infantis, nunca percebeu ou imaginou que eu pudesse lembrar disso para toda a vida. Da mesma forma que não duvido, nem nunca duvidei de sua boa-fé, do seu carinho e de sua amizade. Eu explico o porquê. O Pré-conceito é uma palavra autoexplicativa, uma qualidade do nome. Por ser anterior a formulação de um conceito acaba não sendo racional, ou se é acaba envolvendo valores, paixões, julgamentos, visões de mundo localizadas que mal permitem uma antecipação de juízo. Isso não se trata de uma apologia, justificativa ou evasiva, até porque para quem é vítima a chaga produzida na alma permanece igual. Mas é uma constatação de que o racismo, o preconceito, a misoginia, homofobia, etc, podem estar escondidas dentro de atos de afeto, carinho e amor sem que os emissores sequer percebam. Um pai, um amigo, uma mãe, podem ser racistas, homofóbicos com os seus. Em suma: Eles podem ser preconceituosos com seus próximos que dizem amar, sem que eles mesmos percebam o impacto do que fazem. O que não quer dizer que quando os percebam não os possam ignorar, o que é igualmente grave.
As amizades escondem relações de poder, reproduzem assimetrias e quase todas são capazes de infligir golpes duros contra a alma atrás de risos, comentários, declarações, julgamentos. Justamente por serem permissivas essas amizades, no bom sentido, laços duradouros aturam golpes, e na minha modesta opinião amizades devem ser resilientes, mas de forma alguma pode-se assumir que não exista preconceito em suas variadas formas dentro delas. Entre amigos, por exemplo: aquele seu amigo fraterno é racista, e atrás das piadas, dos memes, da intimidade pode ter sido preconceituoso contigo. Sim, pode. Quem compartilha uma Fake News a aprova, quem reproduz um preconceito, seja numa brincadeira entre amigos, o aprova, deixa sua marca, sua assinatura. Independentemente do fato de serem verdadeiramente amigos. Até porque são.
Parece contraditório, mas não é. Como disse acima o preconceito é anterior a razão. Imiscui-se e manifesta-se através dele, mas é anterior. Isso não faz dele menos nocivo, muito pelo contrário: o faz pior, através dele pode-se inclusive roubar uma necessária capacidade de indignação ao se misturarem a ele sentimentos de afeto e carinho. É triste.
Isso faz com que você possa ser chamado por aquele seu amigo de “neguinho do meu coração”, “crioulo querido”, “viadinho”, ou “comunista moreno”, ou ainda ouvi-lo dizer, com injustificável menosprezo, que suas conquistas foram “fruto de cota”, ao contrário das deles, obviamente fruto de mérito. E como fim ainda ser apresentado ao filho como o grande amigo preto, assim mesmo quase na concessiva, depois de um longo e fraterno abraço, tudo isso em nome da amizade. Sinceras, como disse antes, são essencialmente sinceras, disso não duvido, mas eminentemente primais, uma vez que não reflexivas em suas práticas e fundamentos. Agora, note: Quaisquer movimentos feitos no sentido de desafiar tais violências simbólicas viram mimimi, dúvida quanto ao valor da amizade, fraqueza emocional ou por fim até carência. Lembre-se do que foi dito parágrafos acima, experimente se movimentar? Seja uma Marielle! Lembre-se de seu exemplo de vida? Agora saiba que tudo ocorrerá em nome da defesa de um meme, de uma piada, de um cântico racista de infância e suas inocências, fechando-se ao máximo as possíveis saídas de uma relação desigual preestabelecida que não começou contigo, mas que você é herdeiro, simplesmente por ser o que é, não pelo que faz ou pensa. Ainda que isso possa piorar as coisas. Aquele seu amigo não precisa estar num Cobalt Prata para calar suas ideias. Aquelas piadas, que você aprendeu desde pequenino, aprendeu sobretudo a amá-las, a amar quem as conta, amar seus personagens antes de entendê-los melhor. Eles te seguem à espreita. Fatos repetitivos, incessantes, contínuos, para que você sempre os lembre como uma rajada de submetralhadora. Recheados de risos, abraços e manifestações de carinho sinceros para que você jamais as questione... amém. Uma vez lustrados e limpos você os coloca na gaveta como provas de amor resiliente. Pode chamá-los de conchas que quiser um eufemismo. Fechando-se ao máximo em uma espécie de campo de concentração emocional se quisermos achar uma metáfora histórica mais recente, mas poderia ser chamado de também de uma espécie de senzala psíquica.
Só que ao ser interrompido, ao aceitar ser interrompido suas mãos também restarão sujas de sangue. Por que eu matei Marielle?
Você pode me perguntar se há mágoa? Não. Talvez uma dor, mas mais de culpa.  Falo do fundo do meu coração. Por isso o título desse texto. Se você leu com atenção os parágrafos anteriores vai entender que a ausência da mágoa não é nem de longe positivo. Entendo que algum leitor pode chegar q esse final de texto com reservas, se negro, até. Sempre soube que a análise crítica é um exercício, demanda esforço. Principalmente hoje ao vivermos uma época em que um presidenciável fala orgulhosamente que descendentes de quilombolas, obesos, não servem nem para procriar. Achou graça, vá em frente: Eu não pareço com você. Não adianta fugir sempre, a menos que você opte definitivamente por não se esforçar a nada. Só entenda que transformam em demanda o que os outros enxergam como conchas.  Chochas não são sofrimento, mortes, sacrifício e dor. É o seu país, e isso gera indignação. Isso acumula. Chegará o dia em que por mais que você não goste de mim, o seu filho gostará. E isso será ótimo porque de todas as perdas que a população negra historicamente vem sofrendo e poderia sofrer nesse país, a pior delas com certeza seria a capacidade de se indignar. A capacidade prévia de se reconhecer. Seria a morte da consciência. Seria como o pássaro, cuja gaiola fora aberta, negasse o voo livre não porque não queira, mas porque não sabe que tem que voar para sair.
Saibam também que todas as evasivas possíveis e justificativas plausíveis foram aplicadas por mim mesmo para polir essas “conchas” durante quase três décadas. Lustraram por um tempo, embaçaram, empoeiraram e definitivamente perderam o brilho. Acrescentado ao fato de que esse país te dá outras conchas para guardar, até lotar sua gaveta e você ter de lidar com elas definitivamente. Você pode até jogar fora, mas nunca irá deixar de receber uma concha, invariavelmente, principalmente se começar a transitar nos tais lugares não reservados a você no tecido social. Se optar por mover-se. Se arriscar sua própria sobrevivência a brincar com tais assimetrias.
E o que isso tem a ver com o assassinato de uma liderança negra, lgbtq e feminista?
A resposta está mais uma vez na nossa própria história. Certa vez, durante uma palestra do ilustre professor doutor Roberto Kant de Oliveira, experimentei uma epifania em uma descrição dele de no máximo cinco minutos sobre a onda punitivista que nos faz lembrar daqueles anos de chumbo, principalmente atravessando esses atuais trevosos. Ao reconhecermos a péssima formação humanista de nossos advogados e futuros desembargadores esbarramos na estranha capacidade hodierna de tais togados julgarem com base em seus próprios preconceitos, assumidamente, por entenderem muitos desses profissionais que a lei é um instrumento sem vida, cujo sentido ou “sopro vital”, só pode ser dado através de sua interpretação jurídica, ou seja, por uma análise menos afeita aos seus próprios valores pessoais. Longe de experimentarem a imparcialidade/neutralidade presumível de suas atribuições, há uma geração de togados que vê a atividade jurídica sem autocrítica quase como uma designação divina, somada à constatação “meritocrática” de serem vencedores concursados em pleno exercício de sua merecida visão de mundo. “Eu sou a lei” seria a expressão no melhor estilo o “Estado sou eu” de Luis XIV. Reproduzem, sim, na medida em que são também frutos de seu meio, quase sempre oriundo da mesma classe social, bebendo quase sempre da mesma fonte comum de valores, juízos, preconceitos, desigualdades, e por que não reproduzindo as mesmas visões políticas. Não seria surpresa numa análise atual de sentenças, constatar que elas variam de acordo com a visão de classe de um juiz, mesmo para iguais contextos. Juízes, que não são servidores, mas órgãos da Justiça por força legal, são capazes de fulcrar em sentença o enterro de quem quer que seja ou em um cemitério ou em uma vala comum, com base apenas em sua visão de classe. São estes preceitos, questionáveis sob a ótica humanista, que um dos poderes da República, hoje sob forte ativismo, embasa sua atividade constitucional.
Mas é só isso?
Não. Porque isso retroalimenta os desequilíbrios do tecido social. Ainda sob a genial condução do professor ficou claro entender que a formação do Direito brasileiro, diferentemente dos países centrais que atravessaram crises monumentais em suas revoluções burguesas ou até separatistas, não se deu a partir de uma carta de direitos civis, base essencial para construção de uma visão humanista do ponto de vista de legal para qualquer nação. Sim, nós não tivemos nossa base civilizatória assentada sobre os direitos civis. Aqui, no Brasil Império, e não lá nos países centrais, por exemplo, convivia-se com a figura do escravo como uma propriedade passível de enquadramento apenas pelo direito penal, e não pelo direito civil, vez que era por definição uma propriedade. E nada no país rompeu essa premissa simbólica, porque a maioria esmagadora de pobres e miseráveis no Brasil pré-abolição era composta de escravos. Como nos falta um marco civilizatório sustentado no Direito Civil, de base inicial, desde a abolição da escravatura atravessamos um período de adaptação da população negra, e historicamente pobre, ao benefício de proteção social que veio a ser estabelecido pelo Direito Civil tardiamente. E ainda não conseguimos fazer isso completamente. Fato. Tal constatação é tão grave que a partir desse ponto hipotético pode-se observar com mais clareza a reprodução dessa inconsistência legal em toda a estrutura social brasileira. Quem não conhece a expressão: “Para rico Direito Civil, para pobre Direito Penal”? A legitimação das ondas punitivistas em nossa história, atreladas “coincidentemente” a golpes de Estado, são só uma das expressões mais visíveis disso. Você pode perceber hoje no desequilíbrio de poderes institucionais vividos nos últimos três anos. A nossa polícia, para além do que é sabido acerca de sua versão militarizada - uma aberração institucional com base histórica -, é também uma expressão viva de sua história de proteção meramente patrimonial e não civil. Tente explicar a um europeu porque temos uma Polícia Militar para atender a população civil? É quase impossível despi-lo do estranhamento que isso lhe causa. O símbolo da nossa Polícia Militar do século XXI ainda é a coroa de Dom João VI, o rei absolutista e pré-constitucional, o que nos fornece muito de sinais para explicar o aparato repressivo montado contra as populações pobres, em sua maioria negra, herdeira dessa carência de um anteparo no Direito Civil para resolução de conflitos. Não é à toa que o tal estranhamento que sente o estrangeiro pelos motivos acima, ele sente também ao ouvir nas ruas ou nas redes sociais as expressões mais monstruosas dessa sanha punitivista anticivilizatória que acomete o país, seja aos negros, aos pobres, muitas vezes gays, lésbicas e mulheres, e principalmente em relação aos apenados ou a população marginalizada em conflito: “Tem que matar!”, “Mordomia na cadeia, com o meu dinheiro, não!”, “Tinha que ficar sem água!”, “Ainda quer remedinho?”, tudo isso ouvido ainda hoje principalmente contra a defesa dos Direitos Humanos, que nada mais são do que a garantia do direito às leis à todos sem exceção. Quando se ouve isso através da boca de presidenciáveis se diz muito também sobre nossa própria história. Para esse mesmo gringo citado há pouco, um criminoso, ao ser preso, por mais odiosa que tenha sido sua pena, por mais dor que ele provocar, ele deve ter restrita sua possibilidade de locomoção, uma vez que passa a ser aos olhos da sociedade um risco, e precisa ser trabalhado para enfim ser reinserido adequadamente à sociedade, minimizados os riscos de reincidência, mas de forma alguma ele deixa de ser um indivíduo sem seus direitos adquiridos, e devidos, enquanto preso. Isso porque não estamos no século XI, e isso nos deu padrão civilizatório minimamente confortável em defesa da vida e propriedade, fora disso só restará a barbárie, a mesma barbárie que potencializa hoje a letalidade de criminosos reincidentes dentro de nossas cadeias mal preparadas, viabiliza carteis de criminosos fazendo das celas quartéis-generais da violência urbana e tudo isso com o dinheiro do contribuinte, quer se queira, ou não. Só uma ótica despida de qualquer base humanista, e estupidamente masoquista, discordaria disso, e aqui nessas terras nossas bases históricas produziram não só indivíduos, mas um Estado negligente quanto a necessária proteção civil. Reproduzindo um verdadeiro ethos na formação de seus agentes policias e mais profundamente, nos órgãos da Justiça.  
Mais de cento e vinte dias sem resposta. Quase cinco meses. Um assassinato com as prováveis digitais de ex-agentes do Estado, muito provavelmente profissionais formados pelo próprio Estado. Uma apuração e busca por respostas feitas pelo próprio Estado acerca de vestígios desse mesmo assassinato: o assassinato de uma valente defensora dos Direitos Humanos, mulher, negra e de origem pobre. Defensora que tinha como ofício o combate a este mesmo Estado policialesco que se arvora sobre a nossa cidade em um período de Intervenção Militar. Geisel está morto, não estamos em 1964 e nem no sul dos USA, você está certo disso? Você está pensando o mesmo do que eu?                   
“This is not America”, então... por que eu matei Marielle?
Foi porque eu não vi nada demais aos dez anos de idade? Foi porque eu não via nada demais quando era orientado a tomar os elevadores de serviço sempre prontos para me receberam nos condomínios de meus amigos da Zona Sul? Foram os olhares de desconfiança dos seguranças que me seguiam ao entrar de chinelo num shopping até relaxarem ao me ver encontrar meus amigos brancos, confortáveis também em seus chinelos, na praça de alimentação? Foram blitz? As duras? As abordagens grosseiras? Foi a “concessão” dos amigos ao dizerem... “mas você nem preto é”, por que ficaria chateado?  Foi porque ri das piadas, dos memes, dos apelidos de cunho racial? Foi porque sempre achei divertido quando meus amigos brancos me ligavam saudosos para mais piadas no dia Vinte de Novembro?
Esse é o meu modesto videoclipe. Posso dizer que não tenho mais conchas guardadas.
Deixo aqui um pequeno fato sobre a história de José do Patrocínio, o Negro Redentor, sobre a figura do qual ainda muito devemos. Após lendários embates teóricos em longos discursos contra Rui Barbosa, cuja admiração era recíproca, exausto no gabinete recebera a visita de Benjamin Constant e os cegos do Instituto. Entraram e acotovelaram-se no espaço pequeno. Após uma verdadeira ode na Tribuna sobre a difícil condição do negro no final do Império, na qual todos puderam ouvir com o coração apertado, mas admirados, Constant emendou:
“José, eles me pediram, eu os trouxe aqui para que pudessem te VER!”
Foi inevitável. A homenagem constante no emprego do verbo fez todos se emocionarem. Reconheceram ali o mais belo discurso que Patrocínio poderia ter feito em vida: Não o feito na Tribuna minutos antes, mas aqueles que só com o coração se compreende, ao se condoer pelo sentimento de irmandade, fraterna indignação, ou até pela compaixão, por se sentir, por se colocar no mesmo lugar do outro, mesmo que feito sob o mais ensurdecedor silêncio.
Você decide o que fará com seu próprio silêncio.  
Por que eu matei Marielle?

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