segunda-feira, 9 de julho de 2018

Partiu #OcupaPolítica, por Outras Palavras.

on 07/07/2018Categorias: Brasil, Destaques, Políticas
Encontro de construção do #OcupaPolítica, em Belo Horizonte, dezembro de 2017. Ao centro, Marielle Franco
Movimento que traz à tona a crise da democracia e falência do sistema de representação e lança manifesto nacional. Objetivo central é eleger bancada parlamentar cidadã, que enfrente privilégios históricos e abra perspectivas de novo país
Leia a Manifesta #OcupaPolítica
Ousamos sonhar outro futuro, no qual se expandem as possibilidades de vida livre, feliz, integrada com a natureza, fundada nos interesses coletivos e na democracia real.
A política do nosso país virou terra arrasada e cabe a nós reconstruir esse lugar. Agir agora é mais do que necessário – é uma tarefa vital.
Precisamos ocupar o espaço controlado há tanto tempo por latifundiários, herdeiros, lobistas, patriarcas e endinheirados que só legislam em causa própria.
A esperança e o destino das pessoas não podem ser reféns da ganância de poucos que se acham donos do poder. Nós somos a maioria e estamos unidas em torno de IDEIAS, SONHOS e LUTAS.
Somos mulheres, pessoas negras, trabalhadoras, LGBTs, povos tradicionais, jovens, pessoas com deficiência, ativistas de muitas causas.
Viemos das periferias e dos centros urbanos, das zonas rurais, de quilombos e aldeias indígenas, de movimentos populares, praças, palcos e salas de aula.
Compartilhamos a disposição de construir outra política: radicalmente democrática, laica, diversa, a partir das lutas sociais, com afeto e cooperação.
Essa outra política possível já está sendo praticada em mandatas, gabinetonas e ocupações  de espaços legislativos em todo o Brasil. Com essas experiências, lutamos pela democratização do país, fortalecemos a cidadania ativa, criamos o poder desde baixo. Há exemplos de participação, transparência e abertura que precisam se expandir.
Estamos aqui porque nossas vidas importam. A todo momento, corpos negros, de mulheres e LGBTs são vítimas de brutal preconceito, intolerância e violência. Basta! Lutamos por vida plena para todas as pessoas e vamos retomar a democracia com nossos corpos políticos!
O crescimento absurdo da violência, aliás, comprova que não adianta investir em mais armas e repressão militar. Chega! Defendemos uma política de segurança cidadã para proteger nossas vidas e comunidades, com respeito aos direitos humanos.
Queremos outra política de drogas. A chamada “guerra às drogas” é um fracasso miserável e só produz violência, extermínio de jovens negros e pobres, racismo estrutural e proliferação de máfias e facções. É urgente sair da lógica da criminalização para atuar decididamente na perspectiva do cuidado.
O modelo econômico dominante – colonialista e predatório – é também injusto e insuportável, a ponto de apenas cinco homens acumularem mais riqueza do que a metade mais pobre da população brasileira. Esse modelo envenena, desmata, polui, destrói e faz sofrer. Mar de lama nunca mais!
É urgente fortalecer economias pelo bem viver, de base comunitária, solidária e popular. Agroecologia, coleta e reciclagem de lixo, produção energética renovável, cooperativas produtivas, empreendimentos autônomos nas periferias e tantas outras possibilidades já fazem parte dessa agenda anticapitalista.
Além disso, passou da hora de equilibrar as contas, para que os pobres, a classe média e os ricos contribuam com impostos de acordo com as suas capacidades. É inaceitável que os pobres continuem pagando mais do que os ricos!
A cultura constitui nossas formas de vida e atravessa todas as lutas. Está em terreiros, quilombos, favelas, teatros, praças, ruas, blocos de carnaval, saraus de poesia. Cultura não é caso de polícia nem pode ser censurada por fundamentalistas. Cultura é direito e a arte liberta!
Não aceitamos a apropriação privada dos bens coletivos. É urgente remodelar as instituições para desconstruir privilégios, aumentar a transparência e garantir a qualidade da gestão pública.
Acreditamos que o Estado deve funcionar com excelência para entregar serviços e políticas públicas eficientes para a sociedade. Da educação ao transporte, da saúde à assistência social, a população exige que os seus recursos sejam bem aplicados e que os agentes públicos tenham compromisso com os direitos de cidadania.
Para que essas transformações se viabilizem, a política não pode ser monopólio de ninguém. Precisamos de uma ampla reforma política que corrija o sistema, com candidaturas cívicas, controle e participação social e representatividade nas instituições.
Outra política é possível e não dá mais para esperar. Em 2018 vamos ocupar as eleições com ousadia e alegria e tomar o poder para distribuir potência.
Não estamos aqui para perder. Nossa luta é ancestral e nossas vitórias nos anos recentes são sementes que vão florescer. Estamos aqui com e por Marielle. Venceremos!
São Paulo, inverno de 2018

Brasil não podia ser campeão?, por Wilson Roberto Vieira Ferreira.

Por que o


A máquina semiótica da Guerra Híbrida faz nesse momento um pesado investimento ideológico para justificar os efeitos do atual modelo neoliberal imposto ao Brasil: crise, desemprego e precarização do trabalho, no qual milhões de desempregados foram promovidos repentinamente a “empreendedores”. E no rescaldo da eliminação do Brasil diante da Bélgica na Copa da Rússia está sendo mobilizado uma operação de emergência para salvar o alto investimento semiótico-ideológico feito no futebol pela grande mídia e mercado publicitário: salvar Tite e Neymar e colocar em ação o tradicional sacrifício do bode expiatório – o volante Fernandinho. Por que? Ao contrário do “pão e circo” que cercava o futebol nos anos da ditadura militar, hoje a função é mais sofisticada: a de “cimento ideológico” através de um discurso mérito-empreendedor no qual Tite é o maior garoto-propaganda. Enquanto isso, Neymar é o reflexo da “commoditização” do futebol brasileiro: jogadores exportados com baixo grau de transformação para, nos clubes europeus, se transformarem em “craques-commodities” de alto valor agregado. Mas cronicamente disfuncionais em suas seleções de origem.
Em cada época, o futebol reflete o modismo linguístico do seu momento. Na Copa de 1978 o técnico da Seleção Cláudio Coutinho tinha um discurso repleto de conceitos estranhos como “overlapping”, “ponto futuro” e “polivalência”. Refletia a europeização do futebol com estrangeirismos ao gosto de uma nova classe média que surgia do breve “milagre econômico brasileiro” da ditadura militar – uma classe que ansiava tudo que emulava o “estrangeiro” como o Play Center em SP e cantores brasileiros que se passavam por gringos como Morris Albert.

Nos anos 1990 termos como “qualidade do passe”, “excelência tática” e “gestão do time” passaram a ocupar o discurso dos técnicos nas coletivas com a imprensa pós-jogos. Outro reflexo, dessa vez do modismo da Reengenharia e dos certificados de qualidade ISO 9000, febre nos meios corporativos. E de um futebol que buscava se profissionalizar. Pelos menos na aparência discursiva.

E agora nesse início de século XXI, na boca dos jogadores e técnicos em preleções e entrevistas pós-jogo, é um tal de “fazer a diferença” de um lado e “estar focado” do outro... Principalmente no paroxismo desse modelo linguístico atual – o jargão mérito-empreendedor-motivacional de dez em cada dez palestrantes corporativos. Cujo reflexo está no discurso do técnico da Seleção Tite, celebrado pelos comerciais do banco Itaú. “Fazer por merecer”, “desempenho”, “trabalho”, “estar determinado” e assim por diante.

Em meio aos anos da ditadura militar brasileira, as seleções de 1970 a 1978 serviram à função ideológica mais primária de “pão e circo” – como falsa consciência, cujo papel era o de encobrir os “anos de chumbo” de censura, perseguições, torturas e assassinatos políticos.

Cláudio Coutinho na Copa 78: ditadura militar, "pão e circo" e jargão europeizado.

Mas desde o Golpe de 2016 o futebol, principalmente o da Seleção, passou a ter um papel ideológico mais sofisticado do que de um mero tapume erguido para esconder a realidade. Passou a ter uma função de “cimento ideológico”. De função motivacional para 14 milhões de desempregados e outros tantos milhões de “desalentados” – aqueles que nem emprego procuram mais. A incumbência não de negar a crise (papel da velha função da falsa consciência), mas de narrar por um outro viés a conjuntura de crise: como oportunidade de crescimento ou empreendedorismo individual – a chance de “fazer a diferença”.

Um papel tão sofisticado quanto das bombas semióticas da guerra híbrida a partir de 2013 (clique aqui) e da qual essa nova função ideológica do futebol faz parte.

A desclassificação do Brasil pela Bélgica no jogo pelas quartas de final na Copa da Rússia deve ser analisado como um revés momentâneo no futebol, visto como peça ideológica da atual guerra híbrida cujo País é o alvo do momento.

Uma peça dentro do grande “mecanismo” (esse sim, o verdadeiro “mecanismo”) semiótico para criar duas narrativas midiáticas bem claras para justificar (e não legitimar) todo o processo político de golpe e posteriores efeitos deletérios das medidas neoliberais aceleradas – desemprego, crise econômica, inflação, precarização do trabalho etc.

Falsa consciência e "meganhização" diária na TV

a) o discurso da corrupção


Narrativa midiática diária com o Mensalão e a interminável Lava Jato com o meganhamento da Justiça e o bordão diário na TV: “policiais federais nas ruas!...”.

Aqui, com uma função ideológica clássica de falsa consciência: estratégia de desvio da atenção, de dissimulação. Enquanto estudos da própria Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (a Fiesp dos inesquecíveis patos amarelos e de um sapo verde tardio) projetavam em 2014 que enquanto as ações corruptas no Brasil roubavam de 1,38% a 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), as altíssimas taxas de juros levavam o pagamento da dívida pública a ocupar 57% do PIB.

Da mesma forma como as “pandemias” como gripe suína ou zika vírus ocuparam mais espaço midiático (enquanto gripe comum, diarreia ou sarampo matam em escala muito maior – clique aqui), da mesma maneira a grande mídia criou uma relação metonímica de contaminação da corrupção com todas as mazelas nacionais – da crise econômica à deterioração da saúde, educação, segurança etc.

Enquanto isso, bancos, instituições financeiras, empresas de investimento, o mercado de crédito, de capitais, de câmbio e monetário nadam de braçadas em um ambiente dos juros altos (garantidos pelo do Banco Central), tomando o próprio Estado e a Nação como reféns do pagamento da dívida pública – decisivo para a crise brasileira.

E numa estratégia clássica de agenda setting (forçar o agendamento na mídia de determinadas pautas), bancam os intervalos publicitários dos telejornais que martelam a agenda do combate à corrupção como o saneador de todos os problemas nacionais.


b) O discurso do mérito-empreendedorismo


Ao bancar os intervalos publicitários, estimulam peças de propaganda que consolem as massas dos efeitos das medidas neoliberais a toque de caixa – no final, medidas para garantir o ambiente de juros altos do mercado financeiro. 

Aqui entram o futebol e a Seleção como vitrines de uma função semiótica mais sofisticada que a mera falsa consciência: a de “cimento” ideológico – não negar a realidade da crise, mas torna-la tão verossímil quanto um acidente natural que deve ser superado pela narrativa individualista do “fazer a diferença” daquele que trabalha. Ou melhor, empreende, que “faz por merecer”.

O problema para tornar a Seleção uma peça desse mecanismo para injetar cimento ideológico nas massas estava na distância desses jovens milionários brasileiros europeizados da realidade do dia-a-dia do brasileiro. Por isso, dois personagens foram destacados para criar algum laço de empatia: Tite e Neymar Jr.

A participação de treinadores da Seleção em comerciais é algo comum desde os anos 1970, e foi progressivamente aumentando até atingir o ápice com o Felipão, na Copa de 2014, com 7 participações de comerciais. O personagem que desempenhou se encaixou no clima de instabilidade emocionou e política envolvendo a Copa e a Seleção: Felipão era figurado como um personagem cômico que tentava lidar com as cobranças da torcida, representada como exigente e que gosta de palpitar.

Ao contrário, nos comerciais dos patrocinadores atuais da Seleção (Itaú, Samsung, Cimed) Tite reina como protagonista absoluto, com aura de líder com discursos que unem estímulos motivacionais, sensatez e sabedoria.

Enquanto Neymar Jr, apesar de todos os seus chiliques, desequilíbrio e grosserias, foi definido em uma mesa de debates como “transparente emocional” e “caçado em campo”. Aquele que deverá “superar as adversidades”, criando uma empatia com os brasileiros também “caçados” pela crise e desemprego...

A derrota brasileira, enquanto o mundo ria dos memes do Neymar que atravessou a Copa tecnicamente apagado, fez nesse momento a grande mídia disparar os dispositivos semióticos para salvar todo investimento linguístico e ideológico nesse rescaldo pós-derrota.


(1) O ritual de sacrifício do bode expiatório


O volante da Seleção, Fernandinho, foi escolhido como o bode expiatório da tragédia. “Fernandinho, como no 7X1, repete falhas em nova queda do Brasil”, estampa o jornal Folha de São paulo. No JN da Globo, “Lukaku passou como quis por Fernandinho” na origem do segundo gol da Bélgica. “Um dos vilões do 7 X 1, Fernandinho marca gol contra e decepciona mais uma vez”, fuzila o Estadão.

Vão-se os anéis, ficam os dedos... sacrifica-se o culpado e salva-se todo o investimento ideológico feito na seleção até aqui.

E o resultado previsível: açodado pela grande mídia no ritual de sacrifício, Fernandinho sofreu ataques racistas em redes sociais após a eliminação do Brasil. É o modus operandi midiático desses últimos tempos.


(2) Cadê o Tite?


Estranhamente nesse momento, os críticos de plantão da grande mídia sentem-se pisando em ovos com Tite. Afinal, ele parece criar um estranho efeito nos jornalistas: sempre tão solicito, didático e paciente nas coletivas, parece fazer os jornalistas se sentirem inteligentes.

Não há o costumeiro pelotão de fuzilamento e a escolha do técnico como o previsível culpado. Por exemplo, o comentarista PVC da Fox Sports fala de “erro de diagnóstico da comissão técnica”. Outros falam que o “Brasil demorou para entender a mudança tática da Bélgica”.

O nome Tite é substituído por “comissão técnica” e “Brasil”. Há de se salvar o investimento semiótico que os patrocinadores fizeram em Tite. E tudo que o técnico representa como garoto-propaganda do mérito-empreendedorismo que se enfia goela abaixo dos brasileiros na guerra híbrida.

Edu Gaspar: "Não é fácil ser Neymar..."

(3) Cadê o Neymar?


Outro investimento semiótico que precisa ser poupado. Deixou a Arena Kazan sem falar com a imprensa após a eliminação contra a Bélgica. Aliás, só falou duas vezes com os jornalistas nessa Copa. Por muito menos, técnicos como Dunga foram execrados pela grande mídia (e principalmente a Globo) - para a costumeira autoindulgência jornalística, sempre foi um pecado capital.

Mas diante do alto investimento financeiro e ideológico em Neymar, até a autoindulgência da imprensa foi supreendentemente neutralizada. Enquanto , condescendente, o coordenador técnico Edu Gaspar declarou numa coletiva aos jornalistas: “Não é fácil ser Neymar...”.


Craques-commodities


  Terminada as quartas de final, todas as seleções sul-americanas deixaram a Copa. Parece sintomático.

Sintoma da “commoditização” do futebol desse continente, reflexo da condição de nações sub-industrializadas reduzidas em exportadoras de commodities – exportar produtos primários de baixo grau de transformação para serem beneficiados lá fora. Modelo que favorece a própria banca financeira e mercado publicitário que patrocinam a Seleção.

De maneira análoga, o continente exporta jovens jogadores como simples commodities que serão transformados em craques nos clubes europeus, além de ganharem alto valor agregado em marketing, publicidade e mídia. Craques que jamais funcionarão nas seleções dos seus países de origem.

Craques-commodities serão sempre cronicamente disfuncionais nas suas seleções nacionais. E nas seleções sul-americanas essa realidade parece ser mais dramática.

Globo cria "crocodilo napolitano" na Copa da Rússia quarta-feira, por Wilson Roberto Vieira Ferreira.



Em 2009 o jornal inglês “The Telegraph” contou a pitoresca história de um mafioso napolitano que ameaçava comerciante locais com um imenso crocodilo. Qualquer um deles poderia ser a próxima refeição do bicho se não lhe pagasse proteção. É melhor ser temido do que amado, como afirmava Maquiavel? Depois de pouca mais de uma década de pauta diária com Mensalão e Lava jato, intimidação virou um “modus operandi” tautista da Globo. Traquejo tão natural que até invadiu outras editorias. Assim como a hábito do cachimbo entorta a boca. Até na cobertura da Copa da Rússia. Às vésperas do jogo das oitavas do Brasil contra o México, a Globo colocou sob suspeita o árbitro italiano em possíveis conspirações no VAR (árbitro de vídeo) e, de quebra, requentou notícia antiga sobre suposto envolvimento de jogador mexicano com cartéis de drogas. A Globo apresentou o juiz e o jogador para o seu “crocodilo napolitano” intimidando-os caso se intrometessem em seus interesses? Na verdade a mensagem da Globo não foi para nenhum dos dois. Foi para os seus potenciais inimigos internos. Principalmente porque, ao contrário da Copa de 2014, agora o sucesso da Seleção é estratégico para Globo e mercado publicitário.

Conta-se que em 2009 a polícia italiana encontrou um crocodilo, com quase dois metros, na casa de um chefe da máfia napolitana. O mafioso justificou dizendo que era de estimação, alimentado com ratos e coelhos vivos. Mas era de conhecimento de todos que ele usava o imenso réptil para intimidar os comerciantes locais a “pagar favores”.

Os comerciantes eram “convidados” pelo mafioso a visitarem sua casa, para serem apresentados ao bicho que vivia preso em um terraço. E ficavam sabendo que se não pagassem os “favores”, seriam a próxima refeição do crocodilo. Mas apesar de tudo, o mafioso acabou sendo detido mesmo por posse ilegal de animal selvagem... – clique aqui.

“É mais seguro ser temido do que amado”, escreveu Maquiavel. Intimidar surte efeitos mais imediatos do que criar legitimidade.

E a TV Globo, convertida em partido política de oposição na última década, entende bem essa máxima maquiavélica: pavimentou o seu poder (o quarto poder) por décadas com muita intimidação, na melhor tradição dos mafiosos locais napolitanos.

Exemplos recentes não faltam como, por exemplo, para manter o Judiciário com rédeas curtas: transmissões ao vivo das sessões do STF; dizer quem era quem do TRF-4, em rede nacional no JN, na véspera de julgar o recurso de Lula; a repercussão do tuite do General Villas Boas (exigindo dos juízes que atendessem ao “clamor da sociedade” sob ameaça velada de um golpe militar), também no JN às vésperas do julgamento do pedido de habeas corpus de Lula no STF, são alguns dos “crocodilos napolitanos” que a Globo exibe para aqueles que potencialmente possam importunar seus interesses.

Globo mantém Judiciário em rédeas curtas


O linchamento é a próxima refeição...

O linchamento midiático pelo “clamor popular”, em rede nacional, poderá ser a “próxima refeição” do crocodilo do chefe mafioso.

A prática tornou-se tão recorrente e sistemática que acabou virando um modus operandi tautista (tautologia + autismo midiático) da emissora. Não importa editoria, tema ou notícia: se há alguém, uma situação ou um resultado que potencialmente possam contradizer sua narrativa interesseira, certamente será levado pela Globo a fazer uma visita ao crocodilo do terraço.

Nem a Copa da Rússia e os adversários da seleção brasileira escaparam do “convite” intimidatório. Aliás, como vimos em postagem anterior, mesmo um evento esportivo como a Copa de futebol na Rússia é alvo do tautismo crônico da Globo: diante da ameaça do tradicional vilão do cinema e do telejornalismo (a “estranha” Rússia, terra dos soviéticos, comunistas, hackers que ameaçam eleições de outros países etc.) ser humanizado ou ocidentalizado demais pelas transmissões ao vivo, o viés do jornalismo esportivo passou a descrever russos como “frios”, que “não saem nas ruas”, vítimas da “ditadura” de Putin em um país “intolerante à diversidade sexual”, e assim por diante – clique aqui.

Pois o “crocodilo napolitano” da Globo reapareceu nos dias que antecederam a partida das oitavas de final entre a Seleção e o México.


Agora o Brasil precisa ser campeão!

Como todos sabemos, a necessidade do sucesso da Seleção na atual conjuntura político-econômica brasileira é fundamental. Ao contrário de 2014, cuja Copa no Brasil foi conduzida pela grande mídia como um evento que caminhava para a catástrofe (e o “mineiraço” dos 7 X 1 da goleada alemã foi o ato final conveniente por essa narrativa midiática), nesse momento Globo e mercado publicitário aguardam ansiosamente a melhor performance do Brasil na Copa da Rússia.

 Primeiro, para criar alguma atmosfera otimista para um negócio publicitário que vive mais da percepção do que da realidade - depois que foram saqueados pelos brasileiros a panaceia dos saldos do FGTS como solução de curto prazo.

E segundo para uma função, por assim dizer, de “cimento ideológico”: num País de 14 milhões de desempregados e outros tantos de “desalentados”, repentinamente promovidos a micro-empreendedores, a Seleção é a vitrine do discurso mérito-empreendedor. Por exemplo, na campanha publicitária do Itaú a Seleção não é uma equipe, mas um conjunto de técnicos e jogadores “que fazem a diferença” – jargão individualista do dicionário do mérito-empreendedorismo.

Por isso, nada melhor do que fazer a arbitragem e os adversários jogadores mexicanos fazerem uma visitinha ao “crocodilo” global nos dias que antecederam o jogo das oitavas.


Juiz e mexicano sob suspeitas

De início, colocando o árbitro italiano Gianluca Rocchi sob suspeita, sugerindo bizarras conspirações. Para começar, repetindo na cobertura de TV e no portal “Globo.com” a informação de que o italiano tinha sido o assistente do V.A.R (árbitro de vídeo) do “polêmico” Brasil 1 X 1 Suíça, quando a Seleção reclamou de faltas e pênalti não marcados. Além de ter “tomado bolada de Neymar e ter dado cartão amarelo ao jogador” na vitória do Real sobre o PSG de 3 X 1 na Liga dos Campeões.

Para depois requentar e expandir uma notícia que a própria emissora tinha dado discretamente no ano passado: na véspera do jogo, no programa “Fantástico”, retomou de forma sensacionalista a notícia de que o jogador Rafa Márquez (veterano na sua quinta Copa do Mundo) é investigado pelo Tesouro americano por suposto envolvimento com cartéis mexicanos de drogas.  Em uma matéria bem editada, mostrando o jogador nos treinos do seleção, trajando camisetas sem patrocinadores – “nenhuma marca quer se envolver com um jogador suspeito”, deixou bem clara a reportagem.

Porém, o leitor pode perguntar: mas o crocodilo napolitano da Globo tem assim tanto poder de intimidação num evento internacional como a Copa na Rússia?

Afinal, a própria imagem da emissora e seus jornalistas no exterior não é nada boa. Por exemplo, em tuite do jornalista inglês Jonathan Wilson (cobrindo a Copa pelo jornal The Guardian) escreveu: Não tenho nada contra o Brasil, mas quanto mais cedo a TV Globo sair desse torneio, melhor. Milhares deles, barulhentos e rudes no que deveria ser uma área de trabalho”... Tão chatos que os 197 jornalistas enviados para a Rússia foram multiplicados em milhares na cabeça de Wilson.

"... como são irritantes!"

A impressão do jornalista inglês foi confirmada pelo colega Marcus Speller em outro tuite: “Pode ser que a minha paciência esteja encolhendo mas... Jesus, como são irritantes!”.

É claro que essa prática mafiosa de intimidação não tem nenhum efeito em um grande evento internacional como esse. Na verdade o “crocodilo napolitano” é para consumo interno. É apenas um lembrete, um reforço subliminar, para mostrar aos potenciais e possíveis inimigos internos (do passado, presente e futuro) do que a emissora é capaz.

Martelar o seu modus operandi, simular que seus atos intimidatórios tenham alguma repercussão internacional: “tenham medo de nós, seus ímpios! Um dia poderemos voltar o nosso canhão contra vocês!”.

Ou também podemos encarar como um mero repique do tautismo crônico do jornalismo da emissora: afinal o hábito do cachimbo entorta a boca – após anos do martelo do Mensalão e Lava Jato diário na pauta do jornalismo, o “crocodilo napolitano” acaba se esgueirando para outras editorias.


Certamente, é nesse pano de fundo que deve ser interpretado o overacting do jogador queridinho da emissora e do mercado publicitário: Neymar Jr. Numa conjuntura na qual o cimento ideológico do mérito-empreendedorismo precisa ser injetado entre milhões de desempregados, a imagem de um jogador “que faz a diferença” caçado por árbitros e jogadores suspeitos  é o melhor exemplo de “superação” criado para incautos bestificados e desempregados sem esperança.

"Transparência emocional"

Enquanto o mundo ri dos memes impagáveis que circulam nas redes sociais, aqui o mercado alisa a cabeça do jogador enquanto mesas de debates da SporTV falam que Neymar Jr. tem apenas “transparência emocional”...

Talvez Neymar Jr. seja vítima do “jequismo” da Globo e de seus rudes e grosseiros jornalistas. Assim como eles, Neymar joga para o público brasileiro na esperança de criar alguma empatia publicitária com ele.

Afinal, quem sabe até ele e seu pai empresário tenham medo de que a Globo, um dia, faça um convite para visitar o “crocodilo napolitano”.
Com informações do The Telegraph, Jornal GGN, G1, The Guardian.

Sobre Jair Bolsonaro, “posso estar errado”, por Juan Arias.

Jair Bolsonaro participa de evento em Brasília nesta quarta.
Jair Bolsonaro participa de evento em Brasília nesta quarta. EFE


No lúdico Brasil, que já viveu as trevas da ditadura e a queima das liberdades no altar do autoritarismo, pode-se brincar com tudo, menos com a democracia


Faltam três meses para as eleições presidenciais. Sem Lula candidato, o ex-paraquedista militar Jair Bolsonaro aparece em primeiro lugar nas pesquisas. Por sua biografia, o líder da extrema direita gera desconfianças quanto a sua fidelidade à democracia e às liberdades civis caso chegue ao Planalto. Tanto é que até o famoso economista Paulo Guedes, escolhido por Bolsonaro como possível ministro da Fazenda e fiador do candidato perante o mercado financeiro, chegou a ter dúvidas sobre seu compromisso com a democracia.
Em uma entrevista ao jornal Valor Econômico, despertou temores por sua resposta à seguinte pergunta "Se o senhor sentir que o Bolsonaro tem proposta que não represente compromisso com a democracia, se afastaria dele?". Depois de ter confirmado que nesse caso "seguramente" se afastaria, e após ressalvar que não acredita que ele "seja capaz de dar esse passo", acrescentou, deixando no ar uma dúvida assustadora: "Posso estar errado".
Guedes não é um economista qualquer. Doutorado pela Universidade de Chicago e fundador do think tank brasileiro Instituto Milenium, é considerado como um dos maiores pensadores do liberalismo econômico neste país. Apresenta-se como um duro crítico tanto da esquerda como da direita brasileira, sobre a qual escreveu que "afundou-se com a redemocratização, associada ao autoritarismo político e à insensibilidade social do regime militar".
Surpreende que um intelectual que critica a direita por seu autoritarismo e seu compromisso com a ditadura seja o responsável por pensar a política econômica do ultradireitista e ex-militar Bolsonaro, sobre quem admite que pode se enganar a respeito de sua integridade democrática.
Guedes está convencido de que nas próximas eleições nenhum candidato dos velhos e tradicionais partidos políticos, nem sequer os não comprometidos em escândalos de corrupção "terão a chance de derrotar os outsiders nas urnas". Com isso daria a entender que considera Bolsonaro um outsider da política. Isso depois de ter militado em sete ou oito partidos, de estar há 27 anos como deputado no Congresso Nacional (tempo em que só aprovou dois projetos de sua autoria) e de não existir em sua biografia e na de sua família nada destacado fora da militância política.
Talvez, no entanto, o guru econômico de Bolsonaro tenha razão em não colocar a mão no fogo sobre o compromisso do candidato com a democracia. Algumas de suas propostas, como a de cogitar um general do Exército como vice e de colocar outros quatro generais em postos-chaves de seu eventual Governo, e a mais recente, de querer elevar de 11 para 21 o número de ministros do Supremo Tribunal Federal, algo que já aconteceu no Brasil durante a ditadura – em 1965, Castello Branco ampliou de 11 para 16 o total de ministros da Corte –, começam a delinear seu perfil autoritário. Isso levanta sérias dúvidas sobre o respeito democrático que poderia demonstrar caso chegue à presidência.
Sem dúvida, muitos dos que já anunciam seu voto no ex-capitão do Exército consideram que o Brasil precisa de um governo forte e até militar, que ponha ordem nas instituições. Para eles, as dúvidas do famoso economista Guedes, que admite a possibilidade de estar enganado quanto à vocação democrática de Bolsonaro, não fariam senão confirmar suas convicções de querer votar num candidato autoritário. Acham que numa ditadura há menos violência e menos corrupção. Não sabem que no Chile a Suprema Corte acaba de obrigar a família de Augusto Pinochet a devolver cinco milhões de dólares que o ex-ditador tinha escondido. A corte chilena também condenou ex-militares à prisão pela tortura e assassinato do cantor Victor Jara, que cometeu o crime de cantar.
Entretanto, muita gente, inclusive jovens universitários, flerta com a candidatura de Bolsonaro não só por estar convencida da sua fé democrática, como também chega a pensar que só ele seria capaz de sanear a doente democracia brasileira. Esses deveriam ser levados à dúvida aristotélica ao ouvirem seu próprio economista dizer que espera que o candidato seja fiel aos valores democráticos, mas que admite, ao mesmo tempo, que pode estar enganado.
No lúdico Brasil, que já viveu as trevas da ditadura e a queima das liberdades no altar do autoritarismo, pode-se brincar com tudo, menos com a democracia. Fechada sua porta, não existe por trás dela nada além da barbárie e da miséria que arrasta consigo.
As urnas estão às portas. Os brasileiros, cuja jovem democracia dentro de um continente com tentações autoritárias foi sempre respeitada e até admirada no mundo livre, deverão hoje, mais que no passado, pensar duas vezes na hora de escolher quem deverá defender e ampliar os valores da democracia e das liberdades que parecem ter começado a rachar. Não se pode esquecer que o preço das feridas na carne das liberdades recai sempre e em todas as partes sobre a cabeça dos mais pobres e desamparados.

Água no Brasil: Insípida, incolor, inodora e com agrotóxicos, por Marco Antonio Delfino

Água no Brasil: Insípida, incolor, inodora e com agrotóxicos


O chamado "PL do Veneno" está pronto para ser votada em Plenário e, na prática, representa uma flexibilização perigosa das regras de controle dos agrotóxicos no Brasil


Na última semana, Comissão Especial da Câmara dos Deputados aprovou, por 18 votos a nove, o PL 6.299/2002, também conhecido como “PL do Veneno”. A proposta está pronta para ser votada em Plenário e, na prática, representa uma flexibilização perigosa das regras de controle dos agrotóxicos no Brasil. Os defensores do projeto apontam a suposta necessidade de modernizar a legislação brasileira, que estaria “atrasada” em relação ao cenário internacional. Mas será que é adequado copiar leis estrangeiras sem levar em conta as diferentes características dos países?
A funesta realidade brasileira foi desconsiderada pela Comissão Especial ao aprovar o PL 6299/2002. Como importar e utilizar técnicas de avaliação de risco de uso de agrotóxicos de “primeiro mundo” com uma estrutura de “terceiro mundo”? Como permitir a liberação de agrotóxicos carcinogênicos (que causam câncer), mutagênicos (que causam mutação genética) e teratogênicos (que causam má-formação fetal) sem que tenhamos a devida infraestrutura para monitorar os riscos envolvidos?

Um exemplo ilustra o problema: o monitoramento da atrazina na América do Norte. O agrotóxico, banido da Europa em 2004, é um herbicida usado nas culturas de cana-de-açúcar, milho e sorgo. O produto possui elevada persistência em solos e alto potencial de escoamento superficial, motivo pelo qual é o principal agrotóxico encontrado em água para consumo humano nos EUA e Canadá. Estudos relacionam a atrazina à mudança de sexo em sapos e danos ao meio ambiente aquático. A exposição crônica estaria associada à perda de peso, degeneração muscular e danos cardiovasculares.
Nos EUA e Canadá, programas específicos monitoram os resíduos de atrazina na água. Nos Estados Unidos, cerca de 150 municípios são monitorados de forma intensiva. Durante os picos de utilização, a coleta de água é feita semanalmente. Nos demais períodos, a coleta é quinzenal. Nos demais municípios do país, a coleta é trimestral.
E no Brasil? O último relatório disponível do Ministério da Saúde sobre monitoramento de agrotóxicos em água para consumo humano é de 2014. O relatório tem dados de apenas 13% dos municípios brasileiros. Em outros termos, 87% dos municípios brasileiros não têm sua água monitorada para resíduos de agrotóxicos.
Segundo as “Orientações técnicas para monitoramento de agrotóxicos para consumo humano” do Ministério da Saúde, a frequência das amostras deveria observar “a periodicidade de uso de agrotóxicos e a sazonalidade das culturas (período de chuvas ou início da seca)”. No entanto, não há dados disponíveis sobre a periodicidade mínima ou dos municípios prioritários. E o mais importante: todas as amostras deveriam ser remetidas para um único laboratório, o Laboratório da Secção de Meio Ambiente do Instituto Evandro Chagas (IEC).
No ano de 2018, o laboratório do IEC, em resposta a questionamento sobre a capacidade de análise, respondeu que não dispunha de todos os padrões necessários para realizar os exames relacionados aos 27 princípios ativos de agrotóxicos necessários para cumprimento das exigências do Ministério da Saúde.
Diante desse quadro, a pergunta retorna: com esta estrutura, como evitar que agrotóxicos carcinogênicos, mutagênicos e teratogênicos possam estar presentes na sua água? O risco de que substâncias altamente prejudiciais à saúde e ao meio ambiente contaminem solos e mananciais é real, caso o PL 6.299/02 seja aprovado da forma como está.
Nunca é demais lembrar: agrotóxico sem controle, monitoramento e fiscalização adequados é veneno.
Marco Antonio Delfino é procurador da República, coordenador do Grupo de Trabalho Agrotóxicos e Transgênicos do Ministério Público Federal.

Por que Lula já ganhou?, por Juan Arias

Lula
Lula discursa no Fórum Social Mundial de Salvador (BA) em março deste ano AFP

A tragicomédia judicial do domingo serviu para deixar mais a descoberto a fragilidade de todo o sistema jurídico brasileiro, que ameaça contagiar o restante das instituições

O dia de ontem, 8 de julho, foi apelidado de “domingo da loucura judicial”. E é possível que seja lembrado como a data em que Lula ganhou uma batalha maior que a de sua libertação. Graças a tudo o que se mobilizou em torno de sua luta judicial, cuja condenação em segunda instância o impede de disputar as eleições presidenciais apesar de estar à frente nas pesquisas, o Brasil descobriu que seu sistema judicial está podre.


Foi a importância da figura política e mítica de Lula posta em discussão o que levou toda a cadeia jurídica, da primeira instância ao Supremo, a descobrir a urgência de uma reforma que não pode esperar mais, sob pena de uma convulsão social. Lula continua na prisão e é possível que novas condenação caiam sobre sua cabeça, embora ninguém seja capaz de profetizar seu futuro. O que é certo mesmo é que Lula, inocente ou culpado, fez ver que o rei supremo da Justiça está nu. Foi ele quem atiçou o fogo, e os ratos, que sempre existiram, começaram a sair de suas tocas.
Não foi um simples plantonista, entre ingênuo e malicioso, que provocou a tempestade, com seu desejo de não ficar atrás na corrida de egos que atravessa, por exemplo o Supremo. Se Dias Toffoli, por sua conta e risco, com uma decisão monocrática que contradizia a do colegiado do Supremo, tirou da prisão José Dirceu, condenado a 30 anos, por que ele não poderia libertar Lula?
A tragicomédia judicial do domingo serviu para deixar mais a descoberto, se possível, a fragilidade de todo o sistema jurídico brasileiro que ameaça contagiar o restante das instituições. O caso Lula poderá um dia ser estudado como o revulsivo que revelou que não dá mais para esperar a reforma da Justiça, a começar pelo Supremo, cada vez mais se revelando, com o espetáculo pouco exemplar do protagonismo dos altos magistrados, o ponto crucial de toda a insegurança política e até social que agita o Brasil.
Já não resta dúvida de que o espetáculo oferecido pelos ministros da alta corte chegou ao ápice. A guerra de egos entre os 11 juízes supremos é evidente até para os analfabetos do país. Hoje magistrados como Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Barroso e Carmem Lucia são mais protagonistas em nível popular que muitos atores das novelas, o que é uma aberração democrática.
Ou o Brasil recompõe a legalidade jurídica ou a crise política já em curso com ameaças de volta aos tempos obscuros do autoritarismo acabará se agravando. É nas águas da insegurança jurídica que melhor se reproduzem as bactérias de todos os totalitarismos.
Uma das tarefas mais urgentes do novo presidente da República será pôr ordem nos tribunais e mudar um Supremo que parece estar agindo mais na pequena política partidária do que na defesa da Constituição. É urgente uma reforma profunda da instituição que deveria ser a coluna mestra das demais instituições. É urgente renovar o sistema de escolha dos magistrados para que não acabem sendo meros seguidores de quem os nomeou. É urgente despojar o Supremo das funções meramente judiciais que o levam às vezes ao limite do ridículo, tendo que julgar um habeas corpus de um condenado por ter roubado um par de tênis usados. É urgente retirar-lhes a vaidade de que votos intermináveis e crípticos sejam televisionados. Se por um lado isso pode ser visto como uma abertura democrática, acaba sendo um caldo de cultura da vaidade dos togados.
É possível que sem o caso Lula, que ainda não sabemos como será resolvido pessoalmente, os reis do Supremo seguissem protegidos pela reverência de suas togas capazes de ocultar pequenas e mesquinhas misérias que acabam envenenando não só a política, como também a confiança na Justiça. Lula, embora através do paradoxo de sua condenação, está servindo para que todo o Brasil, dada a notoriedade de seu caso penal, esteja descobrindo que a deusa grega da justiça está arrancando a venda de seus olhos ficando livre para tentações inconfessáveis.

O gol contra das elites brasileiras Por Joaquim Ernesto Palhares.


09/07/2018 09:54
 

Finda a Copa do Mundo, o Brasil retoma o cotidiano de desmontes. Estamos, após o mundial, muito mais pobres e desprotegidos. Três exemplos bastam, aprovação da PL do Veneno, a entrega dos 70% do pré-sal às estrangeiras e, claro, a venda da Embraer nesta semana.

A festa do agrotóxico – impedida em vários países, por isso eles jogam agrotóxico nas nossas terras – foi garantida por parlamentares que ignoraram todos os laudos científicos apresentados contra o projeto de lei. Estamos falando de comida envenenada, de trabalhadores envenenados, de imensas extensões de terra envenenadas.

A entrega do pré-sal, que analisamos na última semana, é outro descalabro que passou durante a Copa, levando à publicação da Carta do ex-presidente Lula, indignado, como todos estamos, com o roubo do pré-sal, um patrimônio de todos nós, sobretudo, das novas gerações.

O terceiro exemplo da virulência do desmonte, perpetrado durante o mundial, foi a venda da Embraer que, juntamente com a Petrobrás, atuava no centro do projeto de desenvolvimento nacional e econômico dos governos Lula, abordado, aliás, no livro organizado pelo economista Pedro Chadarevian a pedido da editora Routledge, para explicar ao público acadêmico internacional o que aconteceu e está acontecendo no país (mais aqui).

O terceiro desmonte foi a venda da Embraer, imenso golpe à política de desenvolvimento nacional dos anos Lula, assim como a Petrobras, um patrimônio nacional, segunda maior em exportações e uma das propulsoras de pesquisas em tecnologia. Um verdadeiro gol contra do Brasil, à favor da norte-americana Boeing, com direito a escancarado apoio das Organizações Globo.

Vivemos em tempos de mudança. Ao contrário da “ponte do futuro” de Temer que nos trouxe a esse brejo, o desenvolvimento tecnológico é o único caminho para entrarmos no século XXI. Em junho, a National Science Foundation (NSF) dos Estados Unidos publicou um relatório sobre os Indicadores de Ciência e Engenharia dos Estados Unidos que merece atenção, confira aqui (em inglês)

Em 2015, os Estados Unidos investiram 2,74% do PIB em pesquisa em desenvolvimento; a China, que já ultrapassou os norte-americanos em número de publicações científicas, investiu 2,07% naquele ano. Em 2014, quando ainda havia governo, nós investíamos 1,17% do PIB.

Segundo reportagem da Câmara dos Deputados, em 2014, foram injetados R$ 8,4 bilhões em Ciência e Tecnologia; em 2018, o governo programava investir apenas R$ 2,7 bilhões. Vejam o que aconteceu, na prática, de janeiro até agora, conforme detalha a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC):

"Dos cerca de R$ 1,6 bilhão gastos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), R$ 83 milhões foram utilizados pela Secretaria de Telecomunicações (Setec), enquanto a Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação obteve pouco mais de R$ 19 mil. Também sob a rubrica da pasta, o Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene) recebeu, até o momento, de R$ 740 mil, dos quais R$ 680 mil serviram para cobrir apenas despesas correntes, sobrando R$ 60 mil para investimentos" (leia mais na RBA).

Enquanto as potências mundiais investem em Ciência e Tecnológica, nós estamos deixando de investir. O estrangulamento do setor, pelo corte de verbas, alia-se ao desmonte de toda uma estrutura – puxadas pela Petrobras e Embraer – de criação, desenvolvimento e geração de tecnologia nacional. As decisões de Temer, sem exceção, visam impedir a entrada do Brasil no século XXI. Um ataque evidente à soberania nacional.

E por falar em soberania nacional, não deixem de ler a entrevista exclusiva de Celso Amorim, “López Obrador é um exemplo para América Latina”, sobre a eleição de AMRO no México. Em sua avaliação, a vitória de Obrador “desmente o argumento de que a onda progressista na região se esgotou. Este é o primeiro governo de esquerda no México nos últimos 90 anos”.

Amorim também comenta a visita de Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos, ao Brasil. Para o chanceler, essa visita tem dois objetivos: garantir um maior isolamento da Venezuela e que o petróleo brasileiro seja explorado pelas multinacionais.

“A posição dos Estados Unidos como potência hegemônica não se explica nas posições de Donald Trump. Estou falando dos interesses do chamado ´Estado profundo´ que existe nos Estados Unidos, onde estão os interesses dos grandes grupos econômicos, da comunidade de inteligência, da indústria militar. Todos esses fatores vão trabalhar para isolar a Venezuela”, aponta.

“Sabemos que a criação dos BRICS (bloco de novas potências, com Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) causou uma grande preocupação a esse “estado profundo” norte-americano. E além de tudo isso, é preciso considerar o descobrimento do Pré-Sal, e a decisão de mantê-lo sob o controle da Petrobras”, complementa. (Leia a íntegra da entrevista aqui).

Daí a importância das eleições em outubro próximo. A direita, não tenhamos dúvidas, não terá pudores em abraçar a ultradireita até porque, bem lembra Gilberto Maringoni em “O empresariado ligou o foda-se”, para eles “pouco importa se as mãos de quem dirigirá o país estiverem sujas de sangue, se há apologia de Brilhante Ustra, ou se há pregação misógina, homofóbica ou de ódio aos pobres. Isso é bobagem. Estamos falando de negócios”.

O mais grave é que não apenas o empresariado ligou o botão de foda-se. No alto de suas cadeiras, a Corte Suprema não apenas assiste ao desmonte do país, como dele participa. Vê, a olhos nus, a democracia ser corroída no seio de suas instituições e nada faz. Ou melhor, faz: acelera ou retarda o processo histórico, esquivando-se do papel central que lhe cabe: proteger a democracia e, sobretudo, a soberania do Brasil.

Não é preciso, nessa altura do campeonato, salientar o quanto é fundamental a luta da mídia alternativa nesse contexto. Dependesse das Organizações Globo, o Brasil inteiro estaria jogando contra a nossa soberania. Torcendo pela Boieng, pela Exxon, pela Shell, os patrões da elite brasileira. Uma das elites mais imbecis da nossa história.

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Joaquim Ernesto Palhares

Diretor da Carta Maior