segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O socialismo chinês e a equação desafiadora de Xi Jinping, entrevista com Yann Moulier-Boutang.

Na entrevista, Boutang reflete sobre o papel geopolítico e econômico da China no mundo de hoje, sobre a influência de Mao na política chinesa, sobre a liderança de Xi Jinping e sobre as revisões que o Partido Comunista Chinês tem feito da Revolução Cultural

11/01/2018 08:18
 

Por: Patricia Fachin | Tradução André Langer

Apesar da autoridade de Xi Jinping, atual presidente chinês e Secretário-Geral do Partido Comunista da China - PCC, “as relações de força são menos favoráveis a Xi do que parecem”, diz Yann Moulier-Boutang à IHU On-Line, ao analisar o 19º Congresso do Partido Comunista da China, que aconteceu em outubro do ano passado. Na avaliação do economista francês, “Xi Jinping ganhou a batalha do 19º Congresso do PCC, mas não a guerra que será travada no 20º Congresso em 2022”. Segundo ele, “de acordo com alguns analistas estrangeiros, mas também de acordo com a opinião de chineses que acompanham de perto a situação, as aparências de unanimidade em torno de Xi escondem um confronto abafado com Jiang Zemin e, especialmente, com Hu Jintao. Esse confronto não se refere à política econômica nem ao uso da força repressiva do Estado central, mas a três pontos cruciais: 1) à personalização e à centralização do exercício do poder; 2) à questão dos direitos da oposição dentro e fora do Partido; 3) uma ruptura quase agressiva com os valores ocidentais”. E adverte: “O presidente Xi não diz outra coisa; ele quer do Ocidente apenas a ciência e o mercado, mas não as ciências humanas. É uma combinação tradicional no Extremo Oriente, especialmente na Coreia e no Japão: ciência ocidental e cultura oriental”.
Na avaliação dele, o mandato de Xi Jinping dependerá da resolução da seguinte equação: “como perseguir um desenvolvimento econômico na harmonia social (entenda-se reduzindo as desigualdades sociais) ao mesmo tempo que luta contra o aquecimento global e a poluição sufocante nas principais cidades”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Boutang reflete sobre o papel geopolítico e econômico da China no mundo de hoje, sobre a influência de Mao na política chinesa, sobre a liderança de Xi Jinping e sobre as revisões que o Partido Comunista Chinês tem feito da Revolução Cultural. “Após a condenação oficial dos erros teóricos da Revolução Cultural (e não apenas os erros esquerdistas da “Camarilha dos Quatro”), especialmente a tese errônea do primado da luta de classes, percebe-se uma distância crescente em relação ao pai fundador da China moderna. Não há dúvida de que as próximas etapas serão, nos próximos Congressos, o reexame dos efeitos desses mesmos erros no período do Grande Salto Adiante (até o presente imputa-se a responsabilidade dos milhões de mortos dessa tentativa de forçar o desenvolvimento e transformar os camponeses ao zelo obsequioso dos funcionários públicos nas Províncias e ao... clima!). O gigantesco retrato de Mao ainda fica no portão de entrada da Praça da Cidade Proibida Tiananmen, assim como o seu corpo embalsamado, mas pode-se imaginar o que será em 2032”.


Yann Moulier-Boutang | Foto: Ricardo Machado/IHU

Yann Moulier Boutang é professor de Ciências Econômicas na Université de Technologie de Compiègne - Sorbonne Universités, na França, membro do laboratório Connaissance, Organisation, Systèmes Techniques - COSTECH EA 22 23, Trivium CNRS. Leciona também na China, na Universidade de Shanghai - UTSEUS, na Ecole Nationale Supérieure de Création Industrielle - ENSCI, Paris, no curso Master Innovation by Design. É um dos fundadores e coordenadores da revista Multitudes. Trabalha com o tema das migrações internacionais, a escravidão, as transformações contemporâneas do capitalismo, a economia digital, os direitos de propriedade intelectual, a inovação. Entre suas obras mais recentes, estão Cognitive capitalism (2012, Polity Press, Cambridge, UK) e L’abeille et l’économiste (Paris 2010).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que avaliação o senhor faz do 19º Congresso do Partido Comunista da China, que aconteceu em outubro passado? O que o Congresso do Partido Comunista sinaliza para as próximas décadas?

Yann Moulier-Boutang - Uma advertência: eu sou apenas um de muitos observadores do que está acontecendo na China. Durante a minha última estadia para ensino na Universidade de Xangai, o 19º Congresso do Partido Comunista Chinês - PCC estava reunido. E eu não sou um cientista político, mesmo que considere ser um dever político de todo o cidadão (francês acessoriamente, europeu de coração e “do mundo” por necessidade) prestar uma atenção escrupulosa a este evento.

Da modéstia à retórica assertiva

Aparentemente, este Congresso representou uma vitória para o presidente e secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping. A linha de constante renovação do Partido Comunista, para manter sua liderança infalível na condução do país mais populoso do mundo sob sua autoridade pessoal, obteve a aprovação unânime dos 2.800 delegados da Assembleia Nacional anual. Uma comissão disciplinar do partido, encarregada de monitorar a campanha contra a corrupção, que é uma das principais características da primeira presidência do presidente Xi desde 2012, foi oficializada.
O presidente fixou um programa para o desenvolvimento econômico e social da China até 2030 que nenhum social-democrata europeu rejeitaria a priori: desenvolvimento econômico com vistas a tirar definitivamente a China do status de país ainda pobre ou de “renda modesta mas suficiente” (para retomar as palavras de Deng Xiaoping), perseguição da redução de desigualdades gritantes (uma proporção de 1 a 36 entre a região rural da província de Gansu e as áreas urbanas mais ricas, Xangai ou Shenzen, começou em 2009 com um plano de apoio massivo às regiões mais pobres), modernização do aparelho produtivo, especialmente das grandes empresas estatais.
Em termos da presença da China no cenário internacional, assistimos à passagem de uma posição de reserva cautelosa e de modéstia a uma retórica mais assertiva de afirmação da legitimidade dos interesses nacionais da China sempre insistindo na sua compatibilidade com as relações de boa vizinhança e a paz mundial.
A China não responde ao “America First” de Trump com um “China First” ameaçante, mas antes com “A peaceful world needs a strong China”. Este poder chinês recuperado mostrou três lados cuidadosamente organizados:
1) Acalmar Trump na situação muito tensa com a Coreia do Norte e suas gesticulações para negociar o mais caro possível, a exemplo do Irã, uma renúncia à arma atômica;
2) Mostrar sinais de firmeza para com os poderes fracos – Filipinas e o Vietnã no Mar da China do Sul;
3) A iniciativa de grande amplitude das novas rotas da seda (One road, one Belt combinada com o Banco Asiático de Investimentos e Infraestruturas).

Condenação da Revolução Cultural Proletária

O que surpreendeu os observadores oficiais (penso na inteligente, mas orientada China Global Television Networks) é a garantia afável de seu dirigente e sua sua entronização no 'panteon' ainda em vida, já que sua “doutrina” foi incorporada à Constituição com o mesmo título que o pensamento de Mao Tsé-Tung, uma honra que Den Xiaoping não teve. A China está segura nos trilhos até 2030, diz-se. Acabaram-se os dias da digestão do período dos “grandes problemas” – a “Revolução Cultural Proletária”, 1966-1976: alguns dias antes da abertura do 19º Congresso do Partido Comunista, esta última foi abertamente condenada não mais apenas pelos seus erros circunstanciais, mas por seus erros teóricos (particularmente o banimento violento de Confúcio e a afirmação do princípio da luta de classes).
Quanto ao período das grandes reformas de Deng Xiaoping (1978-1998), ele foi confirmado (o que foi o caso dos dois sucessores de Deng (Jiang Zemin e Hu Jintao), mas também superado por um programa iniciado pelo primeiro mandato do Xi Jinping (2012-2017). Da China da decolagem industrial e econômica, àquela da prosperidade interna, da redução das desigualdades, da auto-afirmação, da proposição ambiciosa de uma reativação moderna da rota da seda tanto para o Norte (Rússia), como para o Sul (Indochina, Índia, Paquistão, Oriente Médio, África Oriental, Turquia, África), tudo em uma ordem mais centralizada do que nunca e em “harmonia”, conceito neo-confuciano de respeito filial da autoridade e da rejeição da violência.

Retorno a Mao

Aos olhos da população culta não comunista ou comunista (mas pouco favorável a Xi Jinping), a onipresença do líder, a personalização do poder, sua apresentação midiática de todos os aspectos positivos do balanço do governo, mas também sua centralização dos poderes de Chefe dos Exércitos, de Presidente da República, de secretário-geral do PCC, sua gestão da campanha anticorrupção, suas diatribes contra a democracia ocidental, os direitos humanos e as liberdades formais (na mais pura tradição soviética) evocam um retorno preocupante ao período de Mao, um Mao afável, mas com mão de ferro. Xi Jinping se reivindica ao mesmo tempo como o grande e o pequeno timoneiro, mas, na realidade, ele se afasta deles.

“Internamente, sem que a noção tenha desaparecido completamente, a oratória pública está fazendo cada vez menos referência ao ideal de uma sociedade “moderadamente próspera” herdada da antiga história chinesa “ xiaokang shihui”, ao passo que no flanco externo, o “sonho chinês ” do renascimento afirma-se sem complexos, dando as costas aos conselhos de prudência dos últimos anos de Deng, que, antes da sua morte, aconselhava a “cultivar seus talentos na sombra – tao guang yang hui” (François Danjou – http://www.questionchine.net/un-nouveau-bureau-politique-sans-asperites-devoue-au-volontarisme-renovateur-de-xi).

Confrontos abafados

Mesmo dentro do Partido Comunista Chinês, apesar das aparências de unanimidade e rigor, mais forte do que nunca, havia sérios confrontos de tendências, clãs e pessoas. É sempre mais interessante procurar os debates on-line e de conteúdo atuais por trás das eternas brigas de pessoas e da luta pelo acesso ao poder e pela sua manutenção.
De acordo com alguns analistas estrangeiros (pensamos em Alex Payette, “Le 19ème Congrès du Parti Communiste Chinois: clôture sur l’ancien régime et ouverture de la Chine de Xi JinPing” (pdf)), mas também de acordo com a opinião de chineses que acompanham de perto a situação, as aparências de unanimidade em torno de Xi escondem um confronto abafado com Jiang Zemin e, especialmente, com Hu Jintao. Esse confronto não se refere à política econômica nem ao uso da força repressiva do Estado central, mas a três pontos cruciais:
1) à personalização e à centralização do exercício do poder. Os predecessores de Xi são alinhados à ala “modesta” inaugurada por Deng – o exercício do poder não ocupando o centro do palco, mas manipulando as cordas de um poder colegiado sem a personificação à maneira de Mao;
2) à questão dos direitos da oposição dentro e fora do Partido, à qual aspira parte das novas classes médias que têm apenas apetites materiais;
3) uma ruptura quase agressiva com os valores ocidentais (universalismo, direitos humanos, democracia plural representativa que compreende eleições de sufrágio universal, o fim do monopólio do PCC, portanto o pluripartismo, o Estado de direito de acordo com os critérios da independência do Poder Judiciário).
Ora, ou Xi Jinping toma posições muito rígidas em relação a essas questões por temperamento “autoritário”, por ambição pessoal ou por medo de uma degradação da situação que poderia resultar de falhas na questão de Taiwan, tensão com a Coreia do Norte, com os países que fazem fronteira com o Mar da China Meridional, de uma crise financeira com grandes consequências para o emprego ou, enfim, de uma explosão ecológica e social vinculada ao agravamento da poluição do ar ou ao envenenamento de rios, solos, alimentos, o resultado está aí, ele quer ter as mãos livres e trabalhar no longo prazo.
O primeiro desses longos prazos diz respeito ao seu mandato de secretário-geral do PCC (as eleições para Presidente da República serão em 2018) e Xi está certo de que será eleito para um terceiro mandato. Se retornarmos ao posto chave, o de secretário-geral do PCC, ele começa seu segundo mandato de 5 anos e a verdadeira questão é a possibilidade de ele se suceder a si mesmo em 2022 e depois em 2027. A Constituição não autoriza um terceiro mandato. Por outro lado, as aposentadorias são imperativas. A idade foi ampliada de 65 para 68 anos. Em 2017, o Presidente Xi está com 64 anos de idade. Ao final do seu novo mandato (2017-2022), ele estará com 69. A regra definida pela prática em vigor propõe que seu sucessor seja escolhido entre os 5 a 8 membros do Comitê Permanente do Birô Político do PCC (instância com cerca de 25 membros, incluindo vários do Exército), a instância suprema de governo. À primeira vista, o resultado final é uma vitória total para o Presidente Xi: o Comitê Permanente do Birô Político formado por um grupo restrito.
Ora, depois do voto do Birô Político previamente eleito pelo Comitê Central do PCC, os 5 membros do Comitê Permanente em formação limitada pertencem todos a gerações nascidas nos anos 50 e 60, o que significa que não estarão em condições de se candidatarem ao cargo de secretário-geral do Partido, assim como Xi Jinping: eles teriam entre 67 e 69 anos no início de um novo mandato, quase a mesma idade que Xi. Isso deixaria o campo aberto para esse último se apresentar para um terceiro mandato.
No entanto, a Secretaria-Geral tem, em uma lista complementar muito menos apresentada oficialmente, o nome de Hu Chunhua, que tem apenas 54 anos e pertence à geração dos anos 1960, membro do Birô Político desde 2012. Ao contrário de Sun Zhengcai, protegido por Xi Jinping, que tem a mesma idade que ele, outra estrela ascendente, ele não deve a sua ascensão ao atual presidente chinês, mas a Hu Jintao. Como escreve François Danjou (5 de junho de 2017), “ele foi, desde os 38 anos, o n. 1 no Tibete (2001-2007) e, aos 45 anos, foi governador de Hebei (2008-2009). Imediatamente depois, ele assumiu a Mongólia interior (2009-2012), onde teve que administrar a revolta dos criadores, um episódio durante o qual mostrou grande habilidade política”.
Com a saída de Sun Zhengcai do Birô Político e que não será elegível para a secretaria permanente no próximo turno para suceder Xi Jinping, esse último não poderá mais agir indiretamente, como seus predecessores Deng, Jiang Zemin e Hu Jintao, como “imperador retirado” (no Japão, o imperador retirado em um mosteiro exercia mais poder do que durante o seu reinado). Ele estará condenado a tentar alterar a Constituição.
Hu Chunhua, a esperança da oposição
Hu Chunhua, protegido de Hu Jintao (sem nenhuma relação familiar) e de Li Keqiang, parece carregar todas as esperanças da oposição interna contra a via autoritária de Xi na questão-chave do 20º Congresso de 2022, mesmo que não apareça explicitamente na lista restrita de membros oficiais da Secretaria Permanente excluídos de uma sucessão automática, o que preocupa os liberais (no sentido político americano do termo), isto é, a verdadeira esquerda, diante de uma direita autoritária que defende o desenvolvimento econômico na linha do que foi praticado de 1978 a 2008 a qualquer preço. Contudo, as relações de força são menos favoráveis a Xi do que parecem. Do contrário, o primeiro-ministro teria sido substituído, Hu Chunhua não teria sido nomeado para o Birô Político e Sun Zhengcai o teria substituído. O presidente Xi enterrou de vez as pretensões de Jiang Zemin, e seus partidários não hesitam em deixar perseguir Zeng Qinghong por corrupção, mas teve que compor seriamente com Hu Jintao.
Isso significa dizer que a linha do poder pessoal e a luta ideológica de cara aberta contra as “visões ocidentais equivocadas sobre a China” e os valores “ditos universais” não prevaleceram completamente. Xi Jinping ganhou a batalha do 19º Congresso do PCC, mas não a guerra que será travada no 20º Congresso em 2022. Os seus sucessos ou fracassos tanto em questões internas (Taiwan e Hong Kong, as questões do Tibete, da Mongólia Interior e de Xinqian, a questão ecológica, a questão da dívida) como externas (as relações com seus vizinhos e os Estados Unidos) desempenharão um papel decisivo na manutenção ou em uma inflexão estratégica da evolução para uma “democracia com características chinesas”.

IHU On-Line - Qual é a composição do Comitê Central?

Yann Moulier-Boutang - O Comitê Central do PCC é composto por 204 membros. Ele é eleito pela Assembleia de Representantes do Povo (2287 delegados no último Congresso), além dos membros ex-ofício (da cúpula do Estado, do Partido e das minorias não-Han). Esta assembleia de representantes é uma representação complexa e indireta da realidade política da China, pois seus membros são designados para um mandato de cinco anos. Esses delegados são eleitos em listas preparadas pela hierarquia do Partido, que oferecem as possibilidades que os eleitores têm. Neste sentido, há boas escolhas para os 90 milhões de membros do PCC. A principal função da Assembleia de Delegados do Partido é escolher o Comitê Central, que elege os 25 membros do Birô Político e os membros da Secretaria Permanente do Birô Político, o verdadeiro corpo colegiado de poder.

A agência oficial Chine Nouvelle forneceu a composição da Assembleia: “Este ano, os 2287 delegados são distribuídos da seguinte maneira: representando os grupos étnicos, 11,5%; trabalhadores, 8,7%; mulheres, 24,2%; mais de 55 anos, 29,4%; menos de 55 anos, 70,6%; militantes de base, 33,8%; executivos, 66,2%; educação do ensino médio e superior, 94,2% (43% dos quais têm nível universitário)”. A feminização, o rejuvenescimento e a progressão do nível de escolaridade são as principais novidades.

IHU On-Line - Como explica a ascensão do presidente Xi Jinping no Partido Comunista da China, que é visto hoje como o homem mais poderoso da China, e terá seu nome inscrito na Constituição, junto com outros nomes, como o de Mao Tsé-Tung? Como ele obteve esse poder?

Yann Moulier-Boutang - Xi Jinping teve uma carreira clássica no PCC. Ele percorreu metodicamente todas as etapas necessárias para os dirigentes, especialmente a de ter trabalhado em muitas províncias. Ele tem a reputação de ter construído metodicamente em cada etapa da sua ascensão colaboradores e amigos leais, não hesitando em ir além do seu clã. Por outro lado, ele aproveitou, em 2012, a oportunidade para chegar ao seu primeiro cargo supremo, no contexto da turbulenta queda de Bo Xilai entre 2010 e 2012.

Este último, muito bonapartista, havia construído a partir da tentacular cidade de Chong Qing (mais de 35 milhões de habitantes) um verdadeiro império. Ele defendeu um retorno a uma linha mais à esquerda, neomaoísta, insistindo na luta contra as desigualdades. Seu autoritarismo visível surtiu pouco efeito no centro e na direita do Partido. A habilidade de Xi Jinping consistiu em aparecer como o continuador das políticas de estabilidade econômica, sendo suficientemente ambíguo sobre a questão das liberdades e uma possível liberalização do regime e sobre a colegialidade do poder, para se apresentar como sucessor mais liberal de seu antecessor, da Província de Guandong, ao contrário de Bo Xilai, que assustou a direita do Partido Comunista por seu lado bonapartista, seus métodos autoritários para diminuir a grande criminalidade em Chong Qing e sua invocação de Mao.

Concentração do poder

Mas, desde que foi conduzido à frente do país e do Partido, ele começou a concentrar os poderes e a se apoiar em um clã de dirigentes muito leais. Nunca desde Mao um dirigente chinês concentrou tanto poder sobre o Exército, a inteligência, o Estado e, claro, sobre o Partido. Ele quebrou gradualmente o tabu que havia sido estabelecido pelos sucessores de Mao: a colegialidade, os pequenos arranjos para obter esta última. Ao lançar a luta contra a corrupção, que é um fractal na sociedade chinesa e que existia em todos os níveis, colocou todos os seus possíveis rivais políticos na defensiva.

IHU On-Line - Por quais razões o Partido Comunista da China tem conseguido se manter no poder desde 1949? Como era a China antes desse período e como ela foi se transformando ao ser governada pelo Partido Comunista?

Yann Moulier-Boutang - O Partido Comunista Chinês conseguiu se manter a partir de 1949 atravessando vários acontecimentos terríveis: o fracasso do Grande Salto Adiante (1959-1961), a ruptura sino-soviética e os Grandes Distúrbios (com outras palavras, a Revolução Cultural, 1966-1976). De fato, o Partido Comunista passou por testes ainda mais difíceis desde a sua fundação (seu virtual aniquilamento nas grandes cidades com a insurreição fracassada de 1927 em Xangai, a guerra civil com o Kuomintang, a retirada ou Longa Marcha de 12 mil km (1934-35) da Província de Jiangxi a Sichuan passando pela Província de Guizhou e, finalmente, pela de Shaanxi. Mao tornou-se o líder do Partido nesta situação de considerável adversidade, não lhe restando mais de 30 mil homens dos 86 mil que teve no início.
Mas a guerra com os japoneses, que começou em 1931 com a conquista da Manchúria e que se tornou geral em 1937, salvou o Partido do aniquilamento pelas tropas nacionalistas. A habilidade de Mao, a qualidade do grupo dirigente do Partido e a sorte desempenharam o seu papel; mas o extremo cansaço da população chinesa, que a partir de então sofreu tratados desiguais, a humilhação sob a última dinastia manchu dos Qing para conhecer a década dos Senhores da Guerra de 1911 a 1921, a sanguinária guerra civil, as atrocidades japonesas, a corrupção e o cinismo do governo nacionalista, acolheu com grande esperança a entrada das tropas do Exército Nacional de Libertação em Pequim e a proclamação da República Popular da China em 1º de outubro de 1949.

Quatro estrelas ao redor do PCC

Na bandeira adotada pelo novo regime, a maior estrela representa o Partido Comunista Chinês, e quatro outras estrelas ao redor simbolizam as quatro classes sociais do povo chinês mencionadas por Mao Tsé-Tung na Ditadura Democrática Popular: os operários, os camponeses, a “pequena burguesia”, ou mais classicamente os comerciantes e os “capitalistas patrióticos”, e os intelectuais. Os empresários capitalistas não vendidos, ou seja, aqueles que não se vendiam ao exterior, faziam parte da unidade nacional proposta pelos comunistas. Até 1953, data do endurecimento do regime numa direção classicamente soviética, o pequeno patronato decepcionado pelo Kuomindang foi incluído nesta união nacional. Mas, a partir de 1953-54, ele foi tratado como um inimigo de classe. Os intelectuais ou letrados (estenda-se conjuntamente estudantes e professores) foram, às vezes, convidados a se expressar (a Campanha das Cem Flores, em 1957) e, às vezes, brutalmente reprimidos (durante a Revolução Cultural, em 1986 e em 1989-90).
Erros do PCC e a visão ortodoxa sobre Mao
Os graves erros de Mao e do Partido que se seguiram, no Grande Salto Adiante, depois na Revolução Cultural contra o Partido que o marginalizou (erros que só foram tratados como tais muito tardiamente – em 1978, em relação ao primeiro acontecimento, e pouco antes do 19º Congresso que acaba de ser realizado, em relação ao segundo, notadamente a famosa tese do primado da luta de classes), não apagaram o “mandato do céu” do Partido Comunista, porque ao seu líder supremo foi creditado o fato de ter devolvido à China seu lugar no mundo após 150 anos de eclipse. A popularidade do Grande Timoneiro permanece forte no campo e, até o último Congresso do Partido, a opinião ortodoxa sobre Mao foi que ele teria sido “tudo de bom” não fosse a Revolução Cultural.

Após a condenação oficial dos erros teóricos da Revolução Cultural (e não apenas os erros esquerdistas da “Camarilha dos Quatro”), especialmente a tese errônea do primado da luta de classes, percebe-se uma distância crescente em relação ao pai fundador da China moderna. Não há dúvida de que as próximas etapas serão, nos próximos Congressos, o reexame dos efeitos desses mesmos erros no período do Grande Salto Adiante (até o presente imputa-se a responsabilidade dos milhões de mortos dessa tentativa de forçar o desenvolvimento e transformar os camponeses ao zelo obsequioso dos funcionários públicos nas Províncias e ao... clima!). O gigantesco retrato de Mao ainda fica no portão de entrada da Praça da Cidade Proibida Tiananmen, assim como o seu corpo embalsamado, mas pode-se imaginar o que será em 2032.

Quanto ao pequeno timoneiro, Deng Xiaoping, ele ganhou seu mandato do céu alcançando a “decolagem industrial” da China; seus dois sucessores imediatos administraram esse legado e o consolidaram mesmo durante a prova de fogo que foi a terrível crise de 2008. E isso não foi nada: lembremo-nos dos muitos “milagres econômicos” que o Brasil conheceu desde a era de ouro do pau-brasil no século XVI, dos diamantes no século XVIII, do algodão, da seringueira, do café nos séculos XIX e XX, todos sem futuro. A nova dinastia Han, após o primeiro primeiro Imperador Qin Shi Huang Di (Mao), tem seu contrato cumprido.

A equação de Xi Jinping

Mas, para Xi Jinping, o mandato do céu dependerá em grande medida de outro tipo de mandato do céu – a resolução da seguinte equação: como perseguir um desenvolvimento econômico na harmonia social (entenda-se reduzindo as desigualdades sociais) ao mesmo tempo que luta contra o aquecimento global e a poluição sufocante nas principais cidades.

O sucesso do objetivo da luta contra a corrupção ocupa o segundo plano, mesmo que dependa da possibilidade de o país ter sucesso na melhoria de sua indústria e na manutenção de seus excedentes de exportação. Desde a virada de Tiananmen em 1989, a alternativa para manter o domínio indiviso do Partido (a grande estrela da bandeira chinesa) parecia ser a liberalização ou a democratização política. O medo da desordem recorrente na China, suscetível de ser alimentado pelo crescimento das desigualdades, e a natureza aguda dos problemas ecológicos tornam-se, paradoxalmente, os melhores aliados para manter a solução “autoritária”. Xi Jinping foi capaz de jogar admiravelmente bem. Ordem e progresso, como o lema de Auguste Comte na bandeira brasileira.

IHU On-Line - Quais foram as influências da então Internacional Comunista, sediada em Moscou, na orientação do Partido Comunista da China? Ainda nesse sentido, qual é a influência do marxismo-leninismo na formação e constituição do Partido Comunista da China? Que aspectos dessas influências ainda se mantêm?

Yann Moulier-Boutang - A influência da Terceira Internacional dominada União Soviética teve várias fases muito distintas e opostas. Desde a fundação do PCC até 1927, a linha soviética marxista-leninista do papel de líder da classe trabalhadora urbana domina e Mao destaca-se como um suspeito herético de convicções enfadonhas sobre o papel do campo (a centelha que incendeia a planície, o cercamento das cidades pelo campo, o papel determinante do Exército de Libertação Nacional). O giro de 1934 da Internacional, que substitui a linha classe contra classe por aquela da frente unida contra o fascismo, e a preservação das posições de poder do PCC em Yan'An após a Longa Marcha, farão evoluir lentamente a Terceira Internacional, que é obrigada a levar em consideração a liderança absoluta de Mao. Na prática, a Internacional mais estalinista que Stalin aplica à carta da Frente Unida com a burguesia nacional contra o fascismo japonês e quer impor novamente ao PCC a união com o nacionalista Guo Mindang. Ela acredita que Mao não pode ser uma alternativa por si só, especialmente porque as forças de Chiang Kaichek (em pinyin: Ji%u0CEngJièshí) ocupam a China útil desde que os japoneses, que as forçaram a se refugiar em Chong Qing, se retiraram.

Tratado de cooperação e amizade entre Stalin e Mao

Entre 1945 e a vitória final de Mao, quatro longos anos correm e Stalin mantém dois ferros no fogo. Com o líder nacionalista, ele assinou, em 15 de agosto de 1945, o primeiro pacto de “amizade e cooperação” sino-soviético. A URSS ocupa então uma grande parte da Mongólia e o norte da Manchúria. Mas Stalin, no fundo, financia o PCC apesar dos compromissos com os nacionalistas. Isso explica as relações bastante frias por trás de uma unidade de fachada entre os dois gigantes do comunismo mundial. Em 1949, surgiram as primeiras dificuldades do regime na China continental para fazer funcionar um setor moderno construído em grande parte pelos japoneses na Manchúria para que se observe um degelo. Dada a escala dos problemas econômicos e as dificuldades para este país tentacular romper com os Estados Unidos e o mundo capitalista que penetrou profundamente na sociedade desde a década de Nanking (1927-1937), Mao fez uma longa viagem (a primeira de sua vida fora da China) a Moscou. Os dois chefes de Estado são muito desconfiados e levam quase dois meses para assinar um tratado de cooperação e amizade.

Os primeiros três anos (1950-53) foram bem: técnicos soviéticos e engenheiros ajudaram no desenvolvimento da indústria pesada da China. Dois obstáculos rapidamente aparecem: as ambições nucleares da China e a desestalinização realizada por Kruschov no XXº Congresso em 1956, inicialmente mantida em segredo. Se durante os levantamentos na Alemanha Oriental, depois na Hungria, a China apoia a União Soviética, Zhou Enlai participa da Conferência de Bandung em abril de 1955, que vê o nascimento do movimento dos Não Alinhados, e Mao não faz nenhum segredo que esse Sul é aquele de onde virá a centelha que porá fogo na planície muito mais do que o bloco socialista proletário.
Desde a dissolução da Terceira Internacional, decidida por Stalin mas implementada em 1943, a União Soviética não pode se imiscuir abertamente em questões teóricas. Mas Mao, que já submeteu à rude prova o “marxismo ortodoxo” de antes da guerra, que flerta abertamente com o Terceiro Mundo rural, que inicia o programa nuclear, acaba exasperando os soviéticos com sua crítica do economicismo do socialismo que subordina a libertação socialista ao desenvolvimento das forças produtivas por uma acumulação extraindo dos camponeses o excedente necessário para a criação do setor 1, o dos meios de produção. E isso não para apoiar uma heresia do tipo iugoslava (autogestão das cooperativas industriais e desenvolvimento de bens de consumo), mas por querer criar um novo camponês nas brigadas dos Comuns que ultrapasse o caminho clássico da industrialização sob a liderança do partido do proletariado, tudo em uma atmosfera de culto da personalidade que lembra desagradavelmente o culto de Stalin denunciado no Relatório Secreto do XXº Congresso.

O cisma sino-soviético

O Grande Salto Adiante lançado em 1958, portanto, pelo aventurismo de Mao, a ambição atômica que frustrou a proposta de Khruchchov de uma coexistência pacífica para substituir a Guerra Fria e a denúncia do “revisionismo soviético” levaram, no verão de 1960, à retirada brutal dos cooperadores russos, no momento em que o Grande Salto Adiante estava em pleno marasmo. Mais precisamente, os soviéticos precipitam Liu Xaoqi e Deng Xiaoping como possíveis sucessores de Mao, desacreditado pelo fracasso do Grande Salto.

O cisma sino-soviético entra em uma fase aguda: terá consequências significativas no resto do mundo e particularmente no Ocidente. Dois modelos de socialismo se enfrentam abertamente: durante a invasão da Checoslováquia de Alexandre Dubcek pelas tropas do Pacto de Varsóvia em agosto de 1968, depois os distúrbios da Polônia em 1970, a China – que está muito longe das aspirações democráticas da Europa Oriental, todas tão “revisionistas” para ela quanto a direção do PCUS – não apoia mais a URSS como na década de 1950; os partidos comunistas pró-russos e pró-chineses entram, doravante, em conflito. Uma parte da esquerda extraparlamentar europeia sairá dessas divisões. Durante a Grande Revolução Cultural Proletária, os dois gigantes do comunismo se enfrentam no rio fronteiriço Amur de 02 de março a 11 de setembro de 1969.

China pós-Mao

Com a morte de Mao (1976) e após a liquidação da Camarilha dos Quatro, o retorno ao poder do Pequeno Timoneiro Deng Xiaoping, as relações se aquecem levemente, já que a linha “modesta” deste último inclina-se para os soviéticos, especialmente depois da intervenção no Afeganistão, mas ambos os países enfrentam graves dificuldades internas; na China, Deng tem grandes dificuldades para impor reformas econômicas radicais diante dos conservadores sem liberalizar o regime da oposição democrática sobre a sua esquerda. Em 05 de junho de 1989, o Partido chinês escolhe a repressão: o destino caótico da URSS da Perestroika de Gorbachev.

A queda do Muro de Berlim, a explosão centrífuga da União Soviética e a desastrosa transição para a economia de mercado sob Yeltsin, a guerra da Chechênia, tudo isso funciona como um contraste perfeito para os dirigentes chineses. Pode-se dizer, paradoxalmente, que a influência da Rússia comunista nunca foi tão grande quanto no momento da sua queda, quando se tornou para os chineses o contra-exemplo perfeito. Com a chegada de Vladimir Putin e a marginalização do Partido Comunista Russo e as relações sino-russas tornam-se muito melhores e muito convergentes: regime autoritário, reafirmação do poder do Estado, nacionalismo, insistência nos valores morais tradicionais (na China, Confúcio; na Rússia, a Igreja Ortodoxa), lugar para a economia de mercado sob o controle de um poderoso setor estatal. A referência ao socialismo desapareceu sob Putin, mas o socialismo com características chinesas compartilha amplas características comuns. A China tem tanto menos complexos quanto possui a significativa vantagem de se tornar a segunda maior economia do mundo por seu peso.

IHU On-Line - O que foi a chamada “Revolução Cultural” realizada pelo Partido Comunista, que tentou laicizar o Estado, a religião e a população chinesa? Ainda nesse sentido, qual é o significado do conceito de sinização?

Yann Moulier-Boutang - A revolução cultural, hoje os chineses referem-se a este período como “os anos de turbulências”, corresponde a três coisas:

1) substituição do sistema de purgas controlado de cima por um sistema de renovação de baixo canalizando a oposição da juventude (que estava em fase e mesmo adiantada antes do movimento mundial de 1968);
2) a um questionamento profundo das “virtudes tradicionais da cultura chinesa”, como a obediência à autoridade; nisto, o movimento, no princípio, se assemelhava ao de 1921 em Pequim e Xangai;
3) o meio para Mao, marginalizado após a catástrofe do Grande Salto Adiante, recuperar o controle do Partido e do Exército e retomar o seu projeto de transformação voluntarista da China pela chegada de um homem novo que dificultaria a submissão às necessidades econômicas.

A partir de 1969-70, o projeto escapou das mãos de Mao; ele fez a China entrar num verdadeiro caos: as universidades foram fechadas por quase 10 anos, a produção foi extremamente prejudicada e o medo e a delação se instalaram em quase todas as famílias. As vítimas colaterais deste período são estimadas em quase 16 milhões.

Sinização
A chamada “sinização” é uma reação aos excessos da revolução cultural que se queria universal. O cauteloso Deng Xiaoping, que detesta esse longo período de desgraça que ele conhecia, achou conveniente, até mesmo indispensável, não conjugar uma revolução econômica com valores iconoclastas do passado. Vale lembrar que a grande palavra de ordem de Mao durante a Revolução Cultural foi: abaixo Kong (Confúcio) e abaixo Liu (o revisionismo de tipo soviético em questões de desenvolvimento)! Confúcio entrou gradualmente em graça e a destruição de evidências do passado da China pré-1949 foi considerada vandalismo.

A afirmação do passado chinês como componente essencial do socialismo com características chinesas foi uma consequência lógica, especialmente porque os defensores de uma liberalização do regime se referiam à liberdade, à separação dos poderes, às eleições, à democracia como valores universais ocidentais (especialmente a estátua da Democracia erguida na primavera de 1989 durante os eventos de Tiananmen). Os adversários desses valores progressivamente apontaram que havia variações chinesas e, portanto, nacionais, do Estado de Direito e dos regimes representativos do Povo.
Neste sentido, Xi Jinping não fez outra coisa senão levar essa lógica até o fim. Ele teve, recentemente, palavras particularmente duras e críticas para com a tradição ocidental e os liberais a ponto de atrair a resposta irônica do presidente da Universidade de Beida (abreviação para Beijing Dasue): atenção camarada Xi, Marx, Engels e Lênin também eram ocidentais. Mais seriamente, o presidente Xi Jinping não faz outra coisa senão retomar uma tradição que remonta à última dinastia Qing, Feng Gufeng %u9AE%u642%u8AC (1809-1874). Este pensador da modernização, necessária para ele, mas no limite da China humilhada pelos tratados desiguais, escreveu sobre a ocidentalização dizendo que era necessário tomar as ciências (matemática) e as armas, mas não o resto. O presidente Xi não diz outra coisa; ele quer do Ocidente apenas a ciência e o mercado, mas não as ciências humanas. É uma combinação tradicional no Extremo Oriente, especialmente na Coreia e no Japão: ciência ocidental e cultura oriental.

IHU On-Line - Quais são os principais impactos da Revolução Cultural nos dias de hoje?

Yann Moulier-Boutang - Os valores de contestação da autoridade, de Confúcio, dos mandarins do concurso de recrutamento dos funcionários públicos, abolido em 1906, e dos modernos mandarins, quase desapareceram por completo da China atual: os manifestantes da Revolução Cultural, especialmente se persistiram e assinaram os movimentos de 1986 e 1989, pagaram seus “erros” muito mais caro que os franceses de 68. Por outro lado, slogans anti-autoritários (falamos na França de anarco-maoístas) como, “temos razão em nos revoltar”, persistiram além da Grande Muralha da China.

IHU On-Line - Como a China lida com a tradição confucionista?

Yann Moulier-Boutang - Periodicamente na história chinesa, de acordo com as dinastias, o verdadeiro pensamento de Confúcio foi objeto tanto de ataques como de apropriação interessada. Sob a dinastia Han e mais tarde a dinastia Song, o pensamento de Confúcio (um verdadeiro catecismo) foi objeto de uma síntese e de trechos habilmente selecionados de sua obra. Foi extraído deste grande pensador e conselheiro político (cujo destino em vida [551-479 a.C.] não é diferente de Maquiavel, o de um fracasso em aconselhar o Príncipe) aquilo que interessava acima de tudo à autoridade (ênfase na educação, respeito pela tradição, obediência aos pais e ao imperador %u5E0, (a lealdade), xiào, %u55D (a piedade filial) e a observância dos ritos, l%u0D0.

Ao mesmo tempo abandona alguns aspectos muito menos tradicionais, como a legitimidade de “retificar o nome da dinastia”(Zhèngming %u663%u50D), caso o governante fosse incompetente ou violasse a lei, o desprezo do sábio e do educador pela riqueza e o poder e a universalidade da noção de humanidade e de levar em consideração esse caráter humano(ren %u4C1), seja qual for o lugar e o país. O fato de que a China de Deng tenha dado o nome de Confúcio aos seus institutos criados no exterior (uma rede de promoção da língua e da cultura chinesas) é emblemático do desejo do Partido Comunista Chinês e de seus líderes de retratar uma dinastia sábia, poderosa, pacífica e que promove “a harmonia, a paz e a prosperidade”.

IHU On-Line - O senhor sabe como estão as relações entre o Vaticano e o Governo chinês nos dias de hoje? Notícias da imprensa informam que o governo não aceita que o Vaticano tenha autonomia na escolha dos bispos.

Yann Moulier-Boutang - A China, assim como todos os poderes temporais fortes (os poderes comunistas não escapam a esta regra), quer ter uma palavra a dizer sobre a nomeação de um clero, especialmente se for de obediência estrangeira. A Idade Média europeia, a era moderna napoleônica e até mesmo republicana até 1905, experimentaram em todas as suas formas a disputa das investiduras. Como o Rei Sol (Luís XIV) ou os regimes franceses após a Revolução, o poder pretende ter o controle sobre as nomeações de bispos (aprovação a posteriori ou a priori).

O fato de que no catolicismo haja o primado do Papa e a centralização da organização da Igreja dotada com um governo e um estatuto de Estado, torna o Estado chinês muito cauteloso, mais do que no caso dos cristãos ortodoxos e especialmente protestantes quando não são episcopais. Isso é verdadeiro no caso do budismo do Grande Veículo tibetano, que promete fidelidade ao Dalai Lama. A China obrigou esse último ao exílio na Índia e escolheu Panchen Lama, um líder temporal muito “compreensivo” em relação ao governo comunista. Trata-se de configurações que a Igreja experimentou na Europa, o que deve permitir-lhe adaptar-se a esta situação. Imputar-lhe o ateísmo ou o anticlericalismo do regime seria ilusório.
O regime age acima de tudo em função dos seus objetivos de controle de sua população. Ele não quer deixar qualquer espaço para possíveis fatores de cristalização da oposição, assim como não deixa espaço para uma “oposição” independente do Partido sobre questões ecológicas, por exemplo. Nos últimos 15 anos, ele liberalizou em grande medida o culto budista, desde que não expresse nenhuma solidariedade com o budismo tibetano.
IHU On-Line - No Congresso do Partido Comunista da China, o presidente chinês disse que continuarão as políticas de combate à corrupção. Hoje, fala-se que embora o governo adote esse tipo de medida, há muita corrupção dentro do próprio governo. Que informações o senhor tem sobre isso? Por que a pauta da corrupção tem sido central para o governo?

Yann Moulier-Boutang - A corrupção na China é uma praga recorrente. O Partido Comunista tomou o poder sendo muito menos corrupto do que o Partido Nacionalista. Sessenta e sete anos de exercício do poder mudaram a situação. O método de resolução das tensões políticas, inevitáveis seja qual for a forma democrática ou despótica de um regime, pode encorajar ou desencorajar a corrupção. Com os princípios de Mao de prioridade conferida à luta de classes (“um se divide em dois”) e inclusive no Partido e no Estado e, portanto, na administração, a corrupção não era bem vista e os ricos deviam se sentir culpados.
Sob Deng e seus sucessores, o conselho dado à população para se enriquecer (Guizot fez o mesmo na França sob a Monarquia de Juillet) levantou a proibição sobre a exibição da riqueza e fez eclodir os milionários (900 novos por ano). Por outro lado, a regra da colegialidade oficial não eliminou as tensões e forçou todos os níveis a encetar uma unanimidade de fachada. Para alcançar esse consenso, a corrupção permitiu suavizar as tensões. Em todos os níveis, do Birô Político aos dez milhões de quadros do Partido, desde esses últimos até os 90 milhões de comunistas, e destes ao bilhão e trezentos milhões de chineses, a corrupção provou ser o lubrificante da máquina e, portanto, um verdadeiro fractal.

Aumento da desigualdade

Se acrescentarmos a isso o fato de que o aumento das desigualdades desde 1978 não foi compensado pela criação de um Estado Providência (uma tímida inflexão nesse sentido só apareceu após 2009), a corrupção tornou-se o modo normal de redistribuição de renda. O presidente Xi foi o primeiro a se dar conta da gravidade do problema e a fazer da luta contra esse fenômeno em todos os níveis a ponta de lança de sua política e um poderoso fator de popularidade para além do Partido. Por que ele teve esta convicção? Pode-se apenas fazer suposições, mas é provável que não seja por simples exigências morais ou pelo cuidado de colocar sob a defensiva os seus adversários políticos. A motivação econômica certamente exerce um papel importante.
De fato, o país deve passar por uma nova fase: após ter sido a fábrica do mundo de produtos de base, a preços baixos, deve ser de luxo, introduzir a robotização, incorporar mais tecnologia e inovação para poder vender mais caro produtos e serviços com alto valor agregado, no momento em que a introdução de um embrião de segurança social, de um sistema de aposentadoria em um país envelhecido pode ter um impacto significativo na remuneração e na competitividade das exportações. A troca que o poder pode propor aos funcionários do setor privado e público é, por um lado, garantir uma vida melhor sem aumentar os salários, graças a uma clara melhoria na vida urbana (especialmente menos poluição), e, por outro lado, consentir um aumento salarial de 30% em troca de maior produtividade dos trabalhadores. Mas se uma grande parte dessas pessoas já obtém uma boa parte desses 30% através da corrupção (e a redistribuição da renda que ela implica), por que você quer que haja um grande entusiasmo para esse esforço e grande zelo para pagar contribuições sociais por um Welfare State consequente? A luta contra a corrupção está se tornando uma passagem obrigatória de uma estratégia industrial de elevação de categoria.

IHU On-Line - No Congresso do Partido Comunista da China, o presidente chinês disse que o partido não irá tolerar visões separatistas, como a de Dalai Lama, nem a reunião de líderes mundiais com o líder espiritual tibetano. Quais são hoje as tentativas de dissidência na China e quais são as razões dessas tentativas?

Yann Moulier-Boutang - A única coisa que eu me permito dizer sobre este assunto tão delicado é que as regiões chinesas, onde há um risco separatista, por menor que seja, representam um desafio considerável para o governo chinês. Mongólia Interior, Xin Qiang, Tibete e o extremo sul da China limítrofe com o Vietnã e o Laos, Mianmar e a Tailândia representam para a China útil e tradicional dos Han desafios estratégicos tão consideráveis (em termos de matérias-primas, terras raras, água, petróleo, gás, carvão) que o Partido tomou muito a sério as políticas de desenvolvimento econômico e de monitorando da população pelos meios mais modernos. O peso demográfico muito baixo dessas Províncias, possivelmente (mas não atualmente) irredentes, é tão pequeno que não acredito que seja uma prioridade ou mesmo um problema muito grave para o governo. Mas posso estar enganado não sendo absolutamente um especialista nestas questões.

IHU On-Line - Considerando o desenvolvimento da economia chinesa nos últimos anos, alguns historiadores têm dito que o comunismo na China é apenas de fachada, porque o país já se tornou um país capitalista e é hoje a segunda maior economia do mundo. Concorda com esse tipo de avaliação?

Yann Moulier-Boutang - Este tipo de julgamento expeditivo me incomoda por duas razões. A primeira é que já se poderia dizer da URSS no seu auge que era uma forma de acumulação de capital, portanto, capitalismo de Estado. Esta classificação feita por “esquerdistas históricos” (os da época de Lênin e da revolução bolchevique), como Gorter e Pannekoek, não levou em conta as observações feitas por Trotsky. Para traduzir a não-redutibilidade da URSS a um Estado capitalista, este último preferiu usar a expressão “Estado Operário degenerado”. E, de fato, como mostrou a desagregação da URSS em 1990-91, esse império não era realmente um país capitalista como os outros. Caso contrário, como explicar que a transição para uma economia de mercado foi tão caótica? A Rússia, a Ucrânia e as repúblicas autônomas da Federação Russa que emergiram também não são países capitalistas como os outros. No caso da China, a fortiori, onde o Partido Comunista não perdeu o poder e mostrou-se capaz de dominar e domesticar o tigre da economia de mercado, falar de capitalismo não ajuda muito. Um otimista como Michel Aglietta diria que o regime chinês tomou o melhor do capitalismo e o melhor do socialismo. Um pessimista poderia facilmente argumentar que o híbrido realizado na China reúne o pior do capitalismo e o pior do socialismo.

Eu acredito que a formulação que o Regime encontrou – “socialismo com características chinesas” – é bastante fiel à realidade, se entendemos por “socialismo” uma forma particular de acumulação de capital e por “características chinesas” a superposição tradicional da autoridade e do poder sem qualquer outro rival: hoje no Partido Comunista, ontem na burocracia e na pessoa do Imperador.
IHU On-Line - Alguns historiadores também têm dito que a China vem se abrindo econômica e politicamente. Em que contexto, como e por que esse processo de abertura iniciou e qual diria que é o grau de abertura econômica e política na China hoje?

Yann Moulier-Boutang - Se a abertura da China é uma previsão determinista que subordina mecanicamente o grau de desenvolvimento político ao da economia, trata-se de uma ilusão enganosa. Parafraseando Keynes, eu diria que a abertura da China a uma perspectiva de democracia liberal representativa ao estilo ocidental é um caso de longo prazo e que, no longo prazo, estaremos todos mortos!

Por outro lado, a China sempre forneceu a ilustração de que dois ou três séculos de estabilidade de uma dinastia podem ser riscados do mapa e dar lugar ao caos. As revoltas na China são violentas e imprevisíveis. Elas podem ter causas endógenas (desigualdades, desastres econômicos, lutas pelo poder das classes dominantes) ou exógenas (invasores do Norte, depois do Oriente e do Sul). E muitas vezes por conjugação desses dois tipos de fatores, como o encontro de duas séries independentes. Na China, como em toda configuração particularmente complexa, pequenas causas podem ter efeitos gigantescos. Pensemos no grão de areia de pequenos separatismos, ou pensemos também na península coreana ou no Mar da China.

IHU On-Line - Qual é o impacto da China na geopolítica, especialmente em termos políticos e econômicos?

Yann Moulier-Boutang - Esta é uma questão muito ampla. Limito-me a dizer que, pelo seu peso econômico atual de segunda maior economia do mundo do ponto de vista quantitativo (a massa do PIB) e por seu futuro de maior economia do mundo em 2035 (mesmo se em termos de PIB per capita a China esteja apenas entre as 15 primeiras potências), este país figura como central e está prestes a ter um peso político, o que até agora tinha feito pouco (isolado sob Mao e confundido com a URSS, modesto sob Deng). Xi Jinping mostrou com a iniciativa das duas novas Rotas da Seda que a China oferecerá ao mundo sua visão e sua concepção de prosperidade. Se para nós, na Europa e nos Estados Unidos, ainda não passa de um programa, para a Rússia, a Índia, o Sudeste Asiático, a América Latina e a África, trata-se de uma realidade de todos os dias.

IHU On-Line - O governo chinês é conhecido por manter um rígido controle sobre a imprensa e à internet, e não tolera dissidências. Qual é a sua leitura sobre a autoridade exercida pelo Partido Comunista nesse quesito e sobre a possibilidade de democracia no país?

Yann Moulier-Boutang - Como todos os regimes que temem que a internet não estatal seja um fator de desordem, a China não poupa seus esforços internamente, mas também na arena internacional, para exigir uma reordenação da web. Como a Rússia de Putin, ela é mais bem sucedida nesta forma, embora não seja certo que os regimes ocidentais sejam exemplares defensores da liberdade da internet. A recente ofensiva de Donald Trump sobre o fim da neutralidade da rede nos Estados Unidos abre a porta para um amaldiçoamento muito mais eficaz dos cibernautas do que o autoritarismo aberto. Não ficaria surpreso se na China o Estado acabasse por dar às suas próprias grandes empresas acesso aos mesmos privilégios e delegasse a elas a caça aos potenciais dissidentes.
IHU On-Line - Como os chineses em geral reagem a esse controle do Estado, e ao fato de muitos chineses que vivem no campo serem considerados estrangeiros dentro do próprio país? Ainda nesse sentido, qual é a adesão da população ao Partido Comunista da China?

Yann Moulier-Boutang - Os chineses têm um ótimo costume de um Estado e de um Partido muito dotado no controle, na censura implícita. Isso os obrigou a serem muito mais reativos, inteligentes e vigilantes entre os ativistas da internet do que o público da Europa ocidental. Há uma corrida constante em relação ao policiamento das palavras-chave, as palavras criptografadas, para despistar os censores ainda muito atenciosos. O problema com um controle capilar do mundo dos internautas chineses é o seu número – mais de 700 milhões de usuários da internet. Cerca de cem milhões de chineses usam línguas estrangeiras. E, como sempre, a censura na China não tem como objetivo proibir qualquer disseminação, mas circunscrever a divulgação de notícias consideradas subversivas a uma elite e impedir que o “bom povo” seja contaminado por más ideias. O único problema é que, dado o número de usuários da internet, a diversidade e a quantidade de informações elaboradas, a censura é forçada a mobilizar muitas pessoas. E a automação desse processo pelo uso de algoritmos de extração de sentidos permite subterfúgios recorrentes e resilientes.

IHU On-Line - Qual é o papel da China no mundo hoje? Alguns falam que ela está emergindo como a única potência mundial e que teria condições de vencer uma guerra mundial. Como o senhor vê a China nesse sentido?
Yann Moulier-Boutang - A China voltou a ser a potência que já era na época do Império Romano, na Idade Média. Seu eclipse manifestou-se apenas no século XIX, mesmo se no fundo ela começou quando perdeu simultaneamente o mundo muçulmano (século XIV-XVI) e a virada da ciência moderna. A China voltou como sujeito da história universal, depois que ela tinha sido o homem doente do Extremo Oriente, o que a Turquia tinha sido no Oriente Médio.

As discussões sobre o papel hegemônico da China parecem-me muito enganosas e interessadas. Esta é a nova forma do “terror amarelo”, visado pelo Japão quando surgiu na década de 1920. O que eu percebo, excetuando a área regional do sul da China, do Mar da China Meridional e da fronteira da Índia com o Vietnã e a península coreana, é que a China desempenha um papel cauteloso e não atiça as tensões. Transtornos internos sérios podem mudar o jogo. Mas, por enquanto, até mesmo o fracasso da estratégia de sedução de Taiwan (devida principalmente à situação em Hong Kong na sequência da “Revolta dos Guarda-chuvas”) não se traduziu em manobras belicosas. Se compararmos a China com a Rússia, o contraste é muito grande.
IHU On-Line - Quais diria que são hoje os principais parceiros da China e, de outro lado, seus principais opositores em termos políticos?

Yann Moulier-Boutang - Os parceiros da China, agora uma grande potência econômica do mundo, são muito numerosos: os Estados Unidos, a União Europeia, a Europa em geral, a Federação Russa, a América Latina, os países da África, particularmente a África oriental, a Índia, o Paquistão, Bangladesh, para não falar do Japão, que investiu fortemente aí, estão fazendo negócios ativamente com ela.
Em termos políticos, é muito diferente. A China suscita sérias preocupações nos Estados Unidos; em alguns países da África e da América Latina teme-se esse “novo imperialismo”.
Podemos comparar a forma da expansão global da China com a colonização holandesa por “feitorias”. Isto significa que o Império do Meio faz, principalmente, comércio e consolida esse comércio através da sua diplomacia. Ela tem pouco de a priori ideológico e leva em consideração as realidades muito mais do que as intenções não seguidas de efeitos.
Os inimigos políticos da China em seu ambiente imediato são a Coreia do Sul (e, pior ainda, a perspectiva de uma Coreia reunificada que se tornaria rival), o Japão, mesmo se as realidades econômicas não coincidem com um imaginário de filmes de guerra (todos se concentrando na guerra de 1937-1945) muito antijaponês. Com o Vietnã e as Filipinas, as relações são tensas pelas disputas territoriais que realmente visam o compartilhamento dos direitos de exploração subaquática de hidrocarbonetos.
IHU On-Line - Qual é a relação da China com país como os EUA e Trump, e de outro lado com países como Japão e Índia?

Yann Moulier-Boutang - A diplomacia chinesa sabia que estava na mira de Donald Trump quando comparada com as relações que existiam com Barack Obama. Mas ela jogou um jogo hábil e pagou.
Ela não enfrentou um adversário cujos conhecimentos econômicos são muito sumários: em suas diatribes contra as deslocalizações da indústria para fora do território americano, Trump não considerou a complexidade da cadeia de valor global que faz com que o coeficiente de importação das exportações norte-americanas garantisse à China os seus mercados de exportação. E, como, além disso, ela quer sofisticar sua indústria, uma limitação voluntária das exportações de produtos básicos com baixo valor agregado só pode acelerar essa transformação. Índia, Paquistão, Bangladesh, Vietnã, Indonésia e Etiópia suportarão a fúria protecionista dos Estados Unidos. Em relação à Coreia do Norte, a China é o árbitro que viu com satisfação o presidente Trump pedir sua ajuda para resolver a questão nuclear, com as condições de uma reunificação das duas Coreias.

IHU On-Line - De outro lado, qual é a relação da China com a América Latina?

Yann Moulier-Boutang - A relação da China com os países da América Latina cresceu muito (como de resto com a África) na última década. Inicialmente, a China representou uma saída para os produtos primários (agricultura, energia) desses países. Rapidamente, no entanto, a China investiu nos setores manufatureiros locais para se tornarem fornecedores da indústria e dos projetos de desenvolvimento da
América Latina. Também implantou vários mecanismos de ajuda econômica através do investimento direto, mas também empréstimos ou ajuda vinculada. De sorte que alguns puderam apontar que a América Latina se tornou menos dependente dos países europeus e norte-americanos para cair na dependência da China. O que é impressionante, no entanto, é a natureza ainda bastante exploratória e muito modesta da cooperação política.
IHU On-Line - Como é para o senhor viver, de um lado, na China, onde há restrições da liberdade de expressão e, de outro, na França, onde a liberdade é um elemento central?

Yann Moulier-Boutang - Conheço as restrições de liberdade e de expressão que existem para os opositores chineses e espero profundamente que desapareçam, porque confio na contribuição de uma oposição liberal de esquerda para o desenvolvimento de uma “democracia com características chinesas”, de um Estado de direito no sentido de Montesquieu, bem como para uma redução das desigualdades e os progressos de uma prosperidade pacífica deste imenso país.

Eu não teria a pretensão e a arrogância de medir a liberdade do povo chinês ou de meus colegas chineses que fazem o mesmo trabalho que eu com a liberdade que desfruto na China como professor, pesquisador e hóspede.

Quando você vai para a China durante dois meses por ano para ensinar, você deve observar uma neutralidade política rígida. Se alguém sente a necessidade de prestar atenção ao que se faz e diz, é uma experiência útil que desenvolve a inteligência. Isso faz com que você compreenda que uma grande parte do mundo pode legitimamente se beneficiar de todos os espaços de liberdade que desfrutamos na Europa, mas dos quais devemos fazer bom uso, ou seja, contribuir para fazer deles um verdadeiro bem comum da humanidade.

A política no julgamento de Lula, por Marcus Ianoni.

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Toda decisão do Estado, em qualquer dos Três Poderes, é política, pois implica em cursos de ação com obrigatoriedade de cumprimento, garantida, no limite, pelo uso monopolístico da força, que o poder público proclama assentar-se na legitimidade. O veredito jurídico é uma decisão política do Poder Judiciário. No entanto, enquanto tende a ser aceitavelmente alto o grau de politização de uma decisão sobre política pública ou sobre as regras do jogo político (a chamada reforma política, por exemplo), a decisão jurídica deve se pautar em critérios de racionalização técnica de corte mais universal, como as teorias doutrinárias e a jurisprudência. Afinal, a Justiça não é cega, ainda que ela seja um órgão político cumpridor de uma função institucional essencial do poder do Estado? Em que medida o julgamento de Lula não tem sido conduzido pelo processo de politização que tem caracterizado a ação do populismo jurídico emergente no Brasil, onde a polarização política alcançou expressão inédita?
Como já apontado nessa coluna, o ativismo do sistema jurídico-policial abriu seu caminho de ação no processo político movido pela vontade de passar o país a limpo e inaugurar uma nova etapa da história nacional. Mas não compete a esse sistema, composto por pessoal não eleito pelo voto popular, assumir as rédeas de um projeto de país, adentrar no terreno contingente da política programática e desincumbir-se dos procedimentos técnicos regulamentados aos quais seus integrantes são investidos do poder-dever de cumprir.
Segundo a Constituição, todo poder emana do povo, que escolhe seus representantes políticos em eleições livres e regulares. As flagrantes ilegitimidade e ilegalidade da usurpação da soberania popular pelos estamentos jurídico-repressores, assim como a irresponsabilidade de sua conduta, motivada por um projeto salvacionista de “lavar a jato” o país, sem atentar para as conseqüências de suas escolhas e ações, colocam os sistemas político, econômico e social do Brasil em uma encruzilhada histórica. Perante tais ambições higienistas, onde fica a maioria da população, que depende de políticas públicas para ter acesso a um mínimo de bem-estar? Onde fica a produção nacional, questão estratégica não só internamente, para o abastecimento doméstico dos cidadãos, mas também para a segurança internacional, dada a competição interestatal? E onde ficam os direitos civis? Em março de 2015, por exemplo, o juiz Sérgio Moro deixou vazar conteúdo de grampo telefônico ilegal, que prejudicou tanto Lula quanto a então presidenta Dilma.
Há uma grande disputa política no Brasil na qual o Poder Judiciário está inserido, mesmo que, formalmente, por via indireta.  Por um lado, estão Lula e o PT e a esquerda com capacidade e disposição de governar, defensores de um projeto de desenvolvimento com inclusão social, experimentado, com sucessos e fracassos, de 2003 até a deposição de Dilma Rousseff, em 2016, após quatro vitórias consecutivas nas urnas.  Tais forças estão sob fogo cruzado desde as eleições de 2014, alvos prioritários da Operação Lava-Jato, iniciada em março daquele ano (lembremos, por exemplo, das capas da revista Veja durante o pleito presidencial ou do centro do PowerPoint de Deltan Dallagnol). Por outro lado, há a direita, o projeto neoliberal-conservador, no qual, por várias mediações, abriga-se a Lava Jato. Esta, em nome do combate à corrupção, tornou-se peça-chave na conjuntura do golpe institucional contra a presidenta eleita e na função de criminalização do partido que é ainda hoje a única ameaça efetiva à política de Estado mínimo e de terra arrasada ditada pelos interessados nos mercados livres.
Não há santos nem de um lado e nem de outro, como o ingênuo maniqueísmo poderia imaginar. O julgamento de Lula é a cereja do bolo da Lava Jato e insere-se nesse cenário político polarizado.  A burocracia togada tornou-se ator político no sentido amplo do termo, e não meramente no natural sentido estrito, decorrente da sua função oficial no Estado. Conforme vários juristas e criminalistas têm apontado, constituem indícios da politização indevida do Judiciário no processo do ex-presidente, entre outros pontos: a sua condenação por corrupção passiva, não associada a ato de ofício; a não-comprovação de que ele possuía o triplex; o reconhecimento de Moro, por escrito, em resposta a um embargo de declaração da defesa, de que o réu não se beneficiou de vantagem indevida com os recursos da Petrobras desviados pela construtora OAS; a tramitação veloz da ação penal em Curitiba e o agendamento do recurso no TRF-4 compassado ao calendário eleitoral, ambos desviando-se da média temporal de procedimentos técnicos afins, ensejando avaliar que um poder do Estado sem mandato e legitimidade para interferir na política competitiva está extrapolando suas funções.
A declaração do procurador Dallagnol de que Lula deverá ser preso logo após ocorrer a por ele desejada confirmação da condenação do réu pela Corte Recursal também evidencia o caráter político do processo.  Seria no mínimo controversa a necessidade de prisão no caso em tela. Recentemente veio a público, pelas redes sociais, que a chefe de gabinete da Presidência do TRF-4, Daniela Tagliari K. Lau, milita pela prisão de Lula. Não à toa, seu direitismo se faz acompanhar do apoio ao Exército nas ruas, ao MBL e ao “Escola sem Partido”.
Mas a hipótese do caráter político da condenação de Lula e do julgamento do recurso, agendado pelo TRF-4 para 24 de janeiro, não se esgota no Judiciário. Há uma coalizão de interesses em torno da condenação do líder isolado nas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais de 2018. Poucas semanas atrás, em 12 de dezembro, editorial de O Globo, supostamente em defesa da igualdade de todos perante a lei, afirmou o seguinte, ao criticar Fernando Henrique Cardoso, que disse preferir combater Lula nas urnas a vê-lo preso: “O Brasil de hoje felizmente é outro: um país em que as instituições republicanas estão sendo reconstruídas a duras penas”. Tamanha desfaçatez para um órgão da grande mídia só é inteligível considerando-se que se trata de “imprensa com partido”, que investe na criminalização do PT e de seu líder máximo. Por duas vezes, nos últimos seis meses, escândalos gêmeos de repercussão internacional envolveram a enlameada Câmara dos Deputados: vitaminada com uma liberação recorde de emendas parlamentares pelo Executivo, que alcançou a bagatela de R$ 10,7 bilhões em 2017, a casa dos representantes do povo se negou a autorizar processo de Temer pelo STF.
Jamais o mercado, a grande mídia e a sociedade civil da direita, como os paneleiros revoltados das varandas elegantes e pró-MBL, aceitariam tal desfecho se fosse para livrar os ex-presidentes Lula e Dilma de processo semelhante. Porém, como o governo tem sido generoso com os endinheirados dos mercados, o sentimento desses poderosos, que financiam e estimulam as novas direitas, não foi de indignação, mas de alívio e euforia. Assim informou a Folha de S.Paulo em 3 de agosto, quando o presidente escapou da primeira ação penal: “Investidores aproveitaram a quinta-feira [...] para embolsar lucro após cinco sessões seguidas de alta da Bolsa brasileira e depois de os aliados do presidente Michel Temer conseguirem barrar, no Congresso, a denúncia contra o peemedebista por corrupção passiva”. O sumido “Vem pra Rua”, que nada fez contra Temer, saiu da toca agora para informar que está organizando manifestações simultâneas em várias cidades, na véspera do julgamento do recurso da defesa de Lula, para demandar e apoiar a confirmação de sua condenação.
O TRF-4 encontra-se perante uma decisão política crucial, de grande envergadura histórica, que deve ser tomada no mais rigoroso insulamento burocrático e no rigor do Direito. No entanto, o relator do recurso, desembargador João Pedro Gebran Neto, é amigo muito próximo do juiz Sergio Moro, cuja isenção funcional está sob suspeita. Aliás, a popularidade do juiz de Curitiba vem caindo. Segundo pesquisa recente do Ipsos, 53% dos entrevistados o reprovam. Ademais, o presidente do TRF-4, Carlos Eduardo Thompson Flores, que não é relator do recurso e nem compõe a Turma de julgamento do caso, elogiou a sentença condenatória. Segundo alguns especialistas, tal posicionamento fere a Lei Orgânica da Magistratura, por se tratar de processo em tramitação.
Enfim, é muito preocupante que, diante de uma decisão de profundo impacto na ordem política nacional, agentes institucionais do Poder Judiciário exibam, de algum modo, sua suscetibilidade às intensas pressões da coalizão antipetista, em relação à qual não haveria outra postura aceitável a não ser o isolamento hermético. A polarização política aberta desde 2014 tem feito o Estado Democrático de Direito retroceder substantivamente em seus níveis de democracia e de legalidade. Aliás, veio do TRF-4, no contexto da Lava Jato, uma das aberrações monstrengas do ideário sombrio atual da direita emergente: “uma situação excepcional exige condutas excepcionais”. O vir-a-ser do processo de desadjetivação do Estado brasileiro sinaliza a versão pós-moderna do Leviatã de Thomas Hobbes? (Agradeço à colaboração de Felipe Maruf Quintas.)
* Marcus Ianoni é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador do INCT-PPED, realizou estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford e estuda as relações entre Política e Economia

“O Brasil está experimentando uma das maiores desindustrializações da história da economia”, por Regiane de Oliveira.

Ha-Joon Chang economista da Universidade de Cambridge
Ha-Joon Chang,especialista em economia do desenvolvimento da Universidade de Cambridge Divulgação

Considerado de direita na Coreia do Sul e de esquerda na Inglaterra, economista critica rumo das políticas brasileiras e defende protecionismo nos países emergentes


Você se considera de esquerda? Mesmo acostumado a dar entrevistas, essa pergunta ainda faz gaguejar Ha-Joon Chang, professor de economia da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, que se tornou conhecido por expor os problemas do capitalismo. “Bem...eu possivelmente sou”, respondeu um pouco reticente o acadêmico, como quem confessasse um pecado. Para ele, no mundo polarizado de hoje, admitir-se de qualquer tendência ideológica pode significar uma sentença de morte para um potencial diálogo. Além disso, em diferentes países, a percepção de direita e esquerda é diferente. “Na Coreia do Sul e Japão, por exemplo, o tipo de política industrial que defendo é considerada de direita. Já na Inglaterra, onde vivo hoje em dia, é uma política de esquerda”, afirmou o autor sul-coreano do best-seller Chutando a Escada: A Estratégia do Desenvolvimento em Perspectiva Histórica (Editora Unesp), que veio ao Brasil participar do Fórum de Desenvolvimento, em Belo Horizonte. Ha-Joon Chang conversou com o El PAÍS sobre polarização política, história econômica e o futuro do sistema econômico mundial, que, para ele, não é nem capitalista, nem socialista.
Pergunta. Como a polarização política afeta o desenvolvimento econômico?
Resposta. A polarização é a pior coisa que pode acontecer para a economia. Tudo se torna simbólico. Você começa a se opor a determinada política simplesmente porque ela está associada a um partido de esquerda ou direita. Os debates estão se tornando cada vez mais difíceis. Ambos os lados, ao invés de debater, gritam uns com os outros. Eu gosto de me descrever como um pragmatista. Não importa de onde vem determinada política para o desenvolvimento econômico, contanto que ela funcione.
P. Desde o Consenso de Washington, no final da década de 1980, muitos países pobres abraçaram as recomendações internacionais para propagar o livre comércio como uma das formas de combater a miséria e se desenvolver. Como você avalia o resultado dessa medida?
R: Hoje, quando olhamos para os países ricos, em sua maioria, eles praticam o livre comércio. Por isso, é comum pensarmos que foi com esta receita que eles se desenvolveram. Mas, na realidade, eles se tornaram ricos usando o protecionismo e as empresas estatais. Foi só quando eles enriqueceram é que adotaram o livre comércio para si e também como uma imposição a outros Estados. O nome do meu livro, Chutando a escada, faz referência a um livro de um economista alemão do século XIX, Friedrich List, que foi exilado político nos Estados Unidos em 1820. Ele critica a Inglaterra por querer impor aos EUA e à Alemanha o livre comércio. Afinal, quando você olha para a história inglesa, eles usaram todo o tipo de protecionismo para se tornar uma nação rica. A Inglaterra dizendo que países não podem usar o protecionismo é como alguém que após subir no topo de uma escada, chuta a escada para que outros não possam usá-la novamente.
“O Brasil está experimentando uma das maiores desindustrializações da história da economia”
P: Como se deu o desenvolvimento dos países ricos na prática?
R:Estes países cresceram com base no que Alexander Hamilton [1789-1795], primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos [que estabeleceu os alicerces do capitalismo norte-americano], defendeu como o argumento da indústria nascente. Do mesmo jeito que mandamos nossas crianças para a escola ao invés do trabalho quando são pequenas, e as protegemos elas crescerem, os Governos de economias emergentes têm que proteger suas indústrias até que elas cresçam e possam competir com as indústrias de países ricos. Praticamente todos os países ricos, começando pela Inglaterra no século XVIII, Estados Unidos e Alemanha, no século XIX, Suécia no começo do século XX, além de Japão, Coreia do Sul e Taiwan...todos estes países se desenvolveram usando protecionismo, subsídios estatais, controle do investimento direto estrangeiro, e em alguns casos, até mesmo empresas estatais.
P: Como esse passado dialoga com as medidas atuais de austeridade, que se tornaram fetiche em todo mundo como promessa de crescimento?
R: A receita de austeridade usada na Grécia é a mesma tentada na América Latina, na África e em alguns países da Ásia nas décadas de 1980 e 1990, e que criou desastrosos resultados econômicos. Investir em política de austeridade é contraproducente. As pessoas que defendem esse tipo de política entendem que, quando você tem uma grande dívida pública, um jeito de reduzir essa dívida é cortar os gastos do Governo a fim de reduzir o déficit fiscal. Mas um jeito melhor de reduzir o déficit é fazer a economia crescer mais rápido. Depois da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha tinha uma dívida mais de 200% de seu PIB [Produto Interno Bruto], mas sua economia estava crescendo rápido. E depois de algumas décadas, isso deixou de ser um problema. Hoje, a Inglaterra tem tentado uma política de austeridade, mais amena que a da Grécia, é verdade, mas também sem sucesso em reduzir o déficit público proporcionalmente a renda nacional. Isso porque o PIB está crescendo muito lentamente. Se você corta os gastos, seu endividamento pode ficar um pouco menor, mas a renda precisa crescer.
P: O país corre o risco de ficar estagnado?
R: Exatamente. O que é incrível é que essa política vem sendo usada várias vezes, como no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, e nunca funcionou. Albert Einstein falava que a definição de loucura é fazer a mesma coisa várias vezes e esperar resultados diferentes. O problema é que muitos economistas que defendem essas medidas, quando sua teoria não funciona, culpam a realidade. Como se a teoria nunca estivesse errada.
P: Você é bastante crítico da desindustrialização dos países emergentes. Por que é tão ruim ser dependente das commodities?
R: As pessoas têm que entender como é séria a redução da indústria de transformação no Brasil. Nos anos 80 e 90, no ponto mais alto da industrialização, esse setor representou 35% da produção nacional. Hoje não é nem 12% e está caindo. O Brasil está experimentando uma das maiores desindustrializações da história, em um período muito curto. O país tem que se preocupar. E eu não estou dizendo nada novo. Muitos economistas latino-americanos já levantavam o problema da dependência de commodities primárias na década de 1950 e 1960. Quando você é dependente de commodities primárias há uma tendência de que o preço dos produtos caia no longo prazo em comparação com os produtos manufaturados. Além disso, os países dependentes de commodities não conseguem controlar seu destino.
P: Por exemplo?
R: Quando alguém inventa uma alternativa para o seu produto, isso pode devastar o valor de sua economia. A indústria brasileira de borracha foi um grande hit até que os americanos e russos inventaram a borracha sintética nos anos 1930 e 1940. Quando os alemães inventaram a chamada síntese de Haber-Bosch para a produção de amônia, a ser usado na fabricação de fertilizantes, Chile e Peru, que costumavam ganhar muito dinheiro exportando o fertilizante natural guano, que foi o mais valioso fertilizante nos século XIX, tiveram anos de estagnação econômica. Isso sem contar o potencial lento de crescimento das commodities e relação a outras indústrias, como a de tecnologia.
P: Mas o caso do Brasil não seria diferente, já que o país investe em tecnologia na área agrícola, e não só extração de commodity?
R: Para ser justo, eu sei que o Brasil tem tido algum sucesso na área agrícola, como produzir soja no Cerrado, que é uma região muito árida, onde tradicionalmente esta espécie não cresceria. É realmente impressionante. Mas quando você se especializa em soja você não pode aumentar sua produtividade da mesma forma que um país especializado em alta tecnologia, que pode aumentar sua produtividade em 20%, 30% ao ano. Sinceramente, o Brasil é um dos países que parece estar voltando no tempo no seu desenvolvimento econômico.
P: Como você avalia o papel do Estado neste cenário?
R: Ao contrário de outros países em desenvolvido, o Brasil tem a habilidade de fazer as coisas acontecerem por meio da intervenção governamental. A Embraer, por exemplo, é uma empresa de economia mista. A agricultura no Cerrado é subsidiada com recursos do governo. Em vários setores, o país já mostrou que quando quer fazer uma coisa, ele consegue. Infelizmente, os responsáveis por fazerem as políticas públicas parecem que perderam o rumo. Eles basicamente desistiram do modelo de desenvolvimento econômico por meio de um upgrade na economia, com investimento em indústrias de alta tecnologia.
P: Onde você acha que a política pública falhou?
R: Eu conheci vários empresários irritados em São Paulo pois as pessoas no Governo não parecem estar preocupadas com o declínio da indústria manufatureira no país. Sei que muitos economistas defendem que não importa se você está exportando soja ou aviões, desde que esteja fazendo dinheiro. E, no curto prazo, isso pode até ser verdade. Mas no longo prazo, é muito ruim para a economia. Além disso, as políticas macroeconômicas têm sido muito ruins para o setor industrial, especialmente a alta taxa de juros, uma das maiores do mundo.
P: No Governo Dilma, vários setores receberam subsídio e mesmo assim, os empresários não pareciam estar satisfeitos. O que faltou?
R: O Governo de Dilma canalizou vários subsídios em alguns setores em particular. Mas isso só foi necessário por conta da política de alta taxa de juros, uma vez que as companhias brasileiras não conseguem competir no mercado global de outra forma. Não sei todos os detalhes. Mas sei que houve erros, corrupção. As metas governamentais também foram determinadas de forma equivocada...sempre privilegiando a estabilidade macroeconômica. Já o declínio da indústria não foi considerado um problema. Focou em ações como Bolsa Família, mas sem prestar atenção em dar um upgrade na economia.
P: A Coreia do Sul pode ser considerada um exemplo de economia que conseguiu dar esse upgrade?
R: Depende de qual Coreia do Sul que estamos falando. A Coreia do Sul depois da crise asiática de 1997 abraçou o neoliberalismo, não tanto como os países da América Latina, mas desregulamentou o mercado financeiro e alavancou políticas industriais. O resultado é que uma economia que costumava crescer 6%, 7%, 8% até 1990, agora está sofrendo para crescer 3%. Isso porque as mudanças que criaram líderes globais na área industrial, automotiva e eletrônica, também produziram baixo crescimento, falta de trabalho e não impediram que estas indústrias migrassem para outros países. E mesmo assim, não tivemos o colapso industrial que se vê no Brasil.
P: Qual foi o papel da educação no crescimento da Coreia do Sul?
R: No começo, a educação teve um papel muito importante. Até os anos 80, era possível alguém de uma família pobre se tornar juiz, governador ou cirurgião. Infelizmente, a partir dos anos 90, tivemos um sobreinvestimento em educação, com o crescimento dos negócios privados. Tínhamos o maior investimento em educação do mundo. Mas hoje, considerando o valor que estamos investindo, e o tempo que os estudantes estão gastando para conseguir suas qualificações...o sistema se tornou bem ineficiente. A mobilidade social caiu muito nos últimos anos, porque as políticas educacionais deixaram de ser coordenadas com políticas industriais.
P: Você comenta que estamos entrando no fim da abordagem neoliberal ao desenvolvimento. O Brexit seria um exemplo desse começo do fim?
R: Poderia ser. Mas temos que considerar que há três tipos de pessoas que  votaram pelo Brexit. Um deles são os liberais que votaram para se livrar das regulamentações impostas pela União Europeia. Há ainda o grupo anti-estrangeiros e anti-imigração. E um terceiro grupo, os trabalhadores no Norte da Inglaterra, que já foi o centro produtor do país, e que experimentou uma desindustrialização massiva. Estas pessoas perderam seus trabalhos, e agora culpam trabalhadores da Polônia, Romênia e Hungria pela sua sorte. Podemos dizer que é o começo do fim no sentido em que isso aconteceu com a insatisfação que muitas pessoas têm com a globalização e o livre comércio.
P: Há algum lugar onde estaria sendo gestada uma solução para o modelo de desenvolvimento econômico dos países?
R: Cingapura é hoje o exemplo mais bem sucedido de um país com desenvolvimento pragmático e não ideológico. Quando lemos sobre Cingapura nos jornais The Wall Street Journal e na revista The Economist sempre ouvimos falar da política de livre comércio e o acolhimento positivo que o país tem com o investidor estrangeiro. O que é verdade. Mas não se fala que 90% das terras do país são de propriedade do Governo; 85% das casas são de propriedade do governo; e 22% do PIB é produzido por empresas públicas. Eles têm um modelo pragmático de economia, que mistura elementos do capitalismo de livre mercado e do socialismo. Eles não são capitalistas, nem socialistas. São pragmatistas. Uma de minhas frases favoritas é de Deng Xiaoping, o ex-líder Chinês: “Eu não ligo se o gato é preto ou branco, contanto que seja bom em pegar ratos”. Isso é o pragmatismo.

“Jedi” virou “Kane”: a infantilização da cultura chega ao auge, por André Barcinski.

15/01/2018 05h59

Amo a cultura pop e passo a maior parte de minha vida profissional escrevendo sobre ela. Diferentemente de muitos, nunca vi gravadoras, estúdios e editoras como vilões, mas como pilares de uma indústria cultural que deu ao mundo grandes discos, filmes e livros. Não acho que arte e comercialismo sejam excludentes (basta lembrar que “O Poderoso Chefão”, um dos maiores filmes já feitos, foi uma superprodução de grande apelo comercial).
Entender a necessidade de lucro da indústria, no entanto, não significa elevar tudo que ela produz a status de grande arte.
Quando leio críticos discorrendo sobre os “tons anticapitalistas” de “Star Wars: Os Últimos Jedi” ou defendendo indicações de “Mulher Maravilha” ao Oscar, é sinal de que muitos estão confundindo sucesso comercial com qualidade artística.
Não vou entrar no mérito dessas opiniões. Se alguém quer acreditar que a Disney, dona da Lucasfilm, fez um libelo contra o capitalismo, ótimo. Só peço duas coisas: a primeira é me avisar quando a Disney doar para cineastas independentes de Cuba o 1,2 bilhão de dólares de bilheteria de “Os Últimos Jedi”. A segunda é admitir que, se “Jedi” é contra o capitalismo, então “A Escolinha do Professor Raimundo” é um manifesto pela diversidade na educação e “Curtindo a Vida Adoidado” é apologia anarquista.

Essa tentativa de legitimar artisticamente produtos ultracomerciais é o último passo num processo de infantilização que já domina quase totalmente a indústria cultural.
Cada vez mais, são produzidos filmes, séries, discos e livros que apelam indiscriminadamente a um público que varia de crianças de 12 anos a adultos de 40.
E está dando certo: mais da metade dos livros adolescentes (“Harry Potter”, “Jogos Vorazes”) são lidos por adultos; séries como “Stranger Things” apelam tanto a jovens quanto a quarentões nostálgicos pelos anos 80, e filmes como “Os Últimos Jedi” atraem aos cinemas crianças e adultos. E não podemos esquecer dos livros de colorir para adultos – que, felizmente, parecem estar em declínio.
Não estou criticando adultos que consomem produtos adolescentes. Acho sensacional levar meus filhos pequenos ao cinema e vê-los lendo “Harry Potter”. O problema é quando “Harry Potter” vira referência literária de toda a família e “Guerra nas Estrelas” ganha ares de sofisticação intelectual.
O processo de infantilização da cultura parece ser irreversível. Muitas pessoas que hoje estão no comando de estúdios, gravadoras e editoras têm entre 40 e 50 anos e cresceram num mundo em que a referência de grande cinema era “Guerra nas Estrelas”. E “Guerra nas Estrelas”, sinto informar, não é “Cidadão Kane” ou “Rashomon”.
Caso seu negócio seja música pop, faço outra comparação: os discos do Kiss são divertidíssimos e fizeram parte da vida de muita gente (inclusive da minha), mas as letras de Paul Stanley não podem – e nem devem – ser comparadas às de Bob Dylan, Joni Mitchell ou Leonard Cohen. São universos distintos, apesar de, teoricamente, habitarem a mesma seara do pop comercial.
A qualidade de filmes, discos e livros cai ano após ano, e as razões são muitas: a padronização de temas e estruturas narrativas; o aniquilamento da crítica e sua substituição por Youtubers jabazeiros; a formatação de conteúdo por meio de algoritmos e pesquisas de mercado; o declínio do mercado independente de música e livros; a cultura do “blockbuster”; a monopolização do mercado de shows; a falácia da teoria da “cauda longa” (que levou muita gente a acreditar na democracia digital como pilar do ecletismo cultural) e, por fim – e mais triste – a constatação de que o público, mais que nunca, só quer mais do mesmo.