sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Tuiuti e Beija-Flor, entre o País da exploração e o da corrupção por Miguel Martins

por Miguel Martins publicado 13/02/2018 17h31, última modificação 14/02/2018 17h18
A primeira escola elegeu a escravidão como raiz de nossos problemas. A segunda contou a história do Brasil a partir dos desvios morais
Mauro PIMENTEL / AFP
Tuiuti
Tuiuti abordou a exploração do trabalho, enquanto a Beija-Flor retratou o assalto aos cofres públicos
Os desfiles das escolas Paraíso do Tuiuti e Beija-Flor de Nilópolis na Sapucaí chamaram atenção pela dimensão política dos sambas-enredo e por referências nada sutis ao atual estado do País.
Em sua apresentação na madrugada da segunda 12, a primeira retratou manifestantes de verde e amarelo em trajes de pato e manipulados por um vampiro presidente inspirado em Michel Temer. Enalteceu ainda os "guerreiros da CLT", representados nas fantasias como uma espécie de deus Shiva dos trabalhadores, munido de martelo, foice e outros instrumentos em seus quatro braços. Os integrantes da ala carregavam ainda uma enorme carteira de trabalho avariada, uma crítica à reforma trabalhista aprovada no ano passado. 
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Já a Beija-Flor "ergueu" o Congresso e o prédio-sede da Petrobras em um de seus carros alegóricos na madrugada desta terça-feira 13. Tomado pela criminalidade, o edifício da estatal transforma-se aos poucos em uma favela: a pobreza como consequência da corrupção. O saque à Petrobras é acompanhado de perto por corruptos com panos na cabeça, uma clara alusão à "farra dos guardanapos" do ex-governador Sérgio Cabral, hoje preso, e de seus ex-secretários com o empreiteiro Fernando Cavendish. 
Vigorosos no carnaval de rua, os temas políticos ganham força na Sapucaí em reflexo do ano eleitoral e de um País dividido sobre diversos temas, a começar pela narrativa mais apropriada para explicar o atual drama brasileiro. Os desfiles da Paraíso do Tuiuti e da Beija-Flor não se resumiram aos fatos atuais, mas adotaram abordagens históricas distintas da formação brasileira.
O início do desfile da Beija Flor trouxe alegorias que remontam à história do doutor Frankenstein, escrita há 200 anos, e a relação entre o criador e sua criatura. O monstro de Frankenstein, no caso, é o próprio Brasil.
Na sequência da apresentação, surgem as alas dos piratas e dos espólios, das santinhas do pau oco usadas para sonegar impostos da Coroa no ciclo da mineração, dos ratos e abutres que integram a "quadrilha da mamata" instalada no poder. O desfecho dessa parte é a ala dos roedores dos cofres públicos, que abre o caminho para a alegoria da Petrobras e dos corruptos atuais.
O ponto de partida da Tuiuti é a escravidão. Chamada "Grito de Liberdade", a comissão de frente trouxe negros escravizados que libertam-se por meio da força dos seus ancestrais. Em seguida, o desfile traz temas da história geral e brasileira do cativeiro, até relacionar a perda de direitos trabalhistas na atualidade com a herança escravista de superexploração do trabalho no Brasil.
As escolas optam por caminhos distintos, que estão por trás de um debate relevante sobre nossa história. A alegoria do País da corrupção trazida pela Beija-Flor é uma das interpretações mais antigas de nossa historiografia. Escrito nos anos 1920, "Retrato do Brasil" de Paulo Prado, buscava explicar a suposta tendência nativa ao desvio moral em razão do tipo imoral de europeu que nos colonizou.
"No Brasil, logo nos anos que se seguiram ao descobrimento, se fixaram aventureiros em feitorias esparsas pelo litoral. Eram degredados que abandonavam nas costas as primeiras frotas exploradas, ou náufragos, ou gente mais ousada desertando das naus, atraída pela fascinação das aventuras. Dessa gente, raros eram de origem superior e passado limpo", escreve Prado.
Mais à frente, intelectuais como Sergio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro também buscariam em nossa colonização razões para nossos desvios civilizatórios, embora com interpretações muito mais robustas. Rejeitado na academia atualmente, o argumento de Prado sobre a degeneração e nossa suposta essência corrupta por vezes se reproduz no senso comum, sendo tratado como verdade absoluta por grande parte da população em meio às investigações da Lava Jato. 

Se a Beija-Flor foi a porta-bandeira da tese do "País da corrupção" na Sapucaí, a Paraíso do Tuiuti alinhou-se com uma interpretação acadêmica que ganhou força nas últimas décadas: mais do que a corrupção, a preservação do sistema escravista e da superexploração do trabalho é a principal característica das elites econômicas da Colônia e do Império.
Nas últimas décadas, diversos historiadores buscaram consolidar a escravidão como tema definitivo de nossa formação social e cultural, a exemplo de Luiz Felipe de Alencastro, que aborda em "Trato dos Viventes" a construção do império ultramarino português a partir das redes comerciais no Atlântico Sul, notadamente às do tráfico negreiro. Um dos principais críticos atuais da tese do "País da corrupção", o sociólogo Jessé Souza costuma afirmar que a escravidão é o principal pilar da nossa formação histórica, e não os desvios éticos, comuns a todos os povos.
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Embora partam de pontos de vista distintos, as abordagens históricas das duas escolas também se entrecruzam. As alas destinadas a retratar a corrupção no início do desfile da Beija-Flor dão lugar a alegorias e fantasias contra a intolerância e o preconceito.
Temas como a xenofobia, a discriminação, o feminícidio e a apresentação do carnaval como espaço da redenção democrática ganham espaço. O abandono dos filhos "da pátria que os pariu", tema do desfile da escola de Nilópolis, não é apenas fruto da corrupção, mas também das violências simbólicas contra as minorias. 

Por outro lado, a corrupção não está ausente do desfile da Tuiuti. Pelo contrário: enquanto a comissão de frente aborda a escravidão, o último carro alegórico a passar pela Sapucaí não traz apenas um vampiro presidente. Rodeado de notas de dinheiro, o sangue-suga está a serviço do enriquecimento ilícito.
O combate à corrupção surge no desfile da Tuiuti não como ponto central de nossa formação histórica como povo, mas como um discurso muitas vezes utilizado por integrantes da elite, também corruptos, para manipular a opinião pública contra seus algozes. 
A discussão sobre o Brasil estar assentado principalmente na corrupção exposta pela Beija-Flor ou na exploração denunciada pela Paraíso do Tuiuti não se encerra em um simpósio de historiadores ou em um desfile de carnaval. O fato de duas escolas terem transformado esse debate em festa e música mostra, porém, que os problemas do País não são mais adiados para a quarta-feira de cinzas.  

Os mercados balançam, por Luiz Gonzaga Belluzzo.

 Bolsa de Nova York
Até 2 de janeiro, as bolsas dos EUA e os juros nanicos dos bônus do Tesouro fumegavam os vapores que sopraram às alturas os preços dos treasuries e os índices do S&P e do Dow Jones. O economista nobelizado autor do livro Exuberância Irracional, Robert Shiller, advertiu recentemente: não são desprezíveis os riscos embutidos no comportamento dos mercados financeiros pós-crise, empurrados para outra bolha nas bolsas e nos preços elevados (e juros baixos) dos bônus privados e públicos.
Na crise de 2008, o Federal Reserve e seus pares no mundo desenvolvido não vacilaram. Assustadas com a derrocada dos ativos lastreados nos empréstimos imobiliários, as autoridades trataram de prover liquidez para administrar a desalavancagem e conter a qualquer custo a contração do mercado interbancário e a evaporação dos money markets.
Em seus últimos relatórios, o Bank for International Settlements (BIS) avaliou o comportamento dos mercados financeiros pós-crise empurrados para outra bolha nas bolsas e nos preços elevados (e juros baixos) dos bônus privados e públicos.
“Isso tem tudo a ver com a forma de expansão do crédito. Em vez de financiar a aquisição de bens e serviços, o que eleva os gastos e o produto, a expansão do crédito está simplesmente financiando a aquisição de ativos já existentes, sejam eles ‘reais’ (imóveis ou empresas), sejam financeiros."
A política de inundação de liquidez (quantitative easing) descarregou trilhões nos bancos. A crise impôs aos governos manobras desesperadas de transformação de passivos privados em débitos públicos. Os bancos centrais, uns mais, outros menos, cuidaram de absorver ativos privados em seus balanços, enquanto os Tesouros se incumbiam da emissão generosa de títulos públicos para sustentar a liquidez das carteiras de ativos dos bancos privados.
As análises e avaliações dos efeitos do quantitative easing quase sempre ignoram a importância da expansão da dívida pública para o saneamento e recuperação dos balanços dos bancos. Salvos da desvalorização dos ativos podres que carregavam e agora empanturram o balanço dos bancos centrais, os bancos privados e outros intermediários financeiros garantiram a qualidade de suas carteiras e salvaguardaram seus patrimônios carregando títulos públicos com juros reduzidos, mas valorização assegurada.
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Nos Estados Unidos, à sombra do quantitative easing, o volume de crédito destinado a financiar posições em ativos já existentes cresceu a uma velocidade muito superior àquela apresentada pelos empréstimos destinados ao gasto produtivo.
Como proporção do PIB, o valor dos financiamentos para outras instituições financeiras, sobretudo para “alavancar” posições nos mercados de derivativos, é quatro vezes maior do que os créditos destinados a financiar a criação de emprego e renda no setor produtivo.
As empresas e bancos “financiam” os mercados de ações ao tomar crédito barato para comprar de volta os papéis (buy back) negociados e abrigá-los em tesouraria, com o propósito de turbinar os preços e agradar aos acionistas, proporcionando ganhos para os administradores remunerados com stock options.
As estratégias financeiras valorizam os ganhos de curto prazo e por isso estimulam os programas de buy back de ações (compra das próprias ações com o propósito de valorizá-las e favorecer a distribuição de dividendos). Alterou-se a relação entre os recursos destinados ao investimento e aqueles utilizados para propiciar a elevação “solidária” dos ganhos dos acionistas e a remuneração dos administradores (“stock options”).
Nos anos 1960, a cada 12 dólares gastos com compra de máquinas ou construção de novas fábricas, apenas 1 dólar era gasto com os dividendos pagos aos acionistas. Nas décadas seguintes, a proporção começou a se inverter: mais dividendos, mais “juros sobre o capital próprio” e menos investimento nas fábricas e na contratação de trabalhadores.
A história do capitalismo está infestada de episódios de crises de liquidez, sempre deflagradas depois de uma expansão do crédito criado ex-nihilo pelo sistema bancário. Quando a euforia se converte em medo e incerteza, os “agentes racionais” transformam-se num tropel de búfalos enfurecidos na busca da “liquidez”, ou seja, na captura do dinheiro em sua determinação essencial de forma geral do valor e da riqueza.
Em 2008, um gênio representativo da finança global proclamava na televisão: “Os investidores são racionais, mas estão em pânico”. Imaginei que, antes da emboscada do subprime e de outros ativos alavancados, os investidores racionais estivessem apenas no exercício de sua peculiar racionalidade.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Guerra antimídia no sambódromo, zumbis no Carnaval e Grau Zero na política... mas não conte prá esquerda!, por Wilson Roberto Vieira Ferreira



Enquanto a escola Paraíso do Tuiuti no Rio de Janeiro deixava Fátima Bernardes e Alex Escobar constrangidos ao vivo, quebrando o silêncio com cacos de falas desconexas enquanto alas de passistas mostravam Temer como “o vampiro neoliberatista”, “manifestoches” com patos amarelos da Fiesp e operários bradando carteiras de trabalho, em Curitiba o Carnaval era assombrado por uma Zombie Walk em plena cidade-sede da Lava Jato. Ao mesmo tempo a esquerda pensa em “frentes suprapartidárias” para ganhar tempo na eminente prisão de Lula e simplesmente se exime em ocupar o campo semiótico da sociedade. E a grande mídia ganha a guerrilha semiótica por W.O.. Com raras exceções como mostrou a Paraíso do Tuiuti... mas não conte para a esquerda, sempre muito ocupada com o jogo parlamentar no qual cada um tenta salvar a própria biografia com narrativas de “luta” e “resistência”. Será que alcançamos o “grau zero da política” como anteviu o pensador Jean Baudrillard, a Matrix política que simula escândalos e golpes para colocar em movimento signos vazios? Teoria da Conspiração? E se descobrirmos que essa expressão foi criada pela CIA em 1967 para tentar desacreditar todas as narrativas não-oficiais?

Até aqui, depois de quatro anos de bombas semióticas detonadas pela grande mídia (pelo menos desde 2013, quando então passaram a ser orientadas pela logística de Guerra Híbrida do Departamento de Estado dos EUA) que culminou com o impeachment e golpe político de 2016, todas as iniciativas de contra-ataque no mesmo campo semiótico midiático partiram ou de iniciativas isoladas, ou de ações espontâneas que visaram o varejo mas acertaram no atacado.

... Enquanto a esquerda vive sua luta parlamentar de “resistência”. E que, agora, há poucos dias, deu mais um estoico passo: lançou uma “frente suprapartidária contra as reformas de Temer  e pelo direito de Lula ser candidato” pelas mãos de dirigentes do PDT, PCdoB, PSOL e PSB. Como sempre, passando ao largo da questão da guerrilha semiótica. E acreditando no jogo parlamentar e no exército brancaleone de advogados na luta hercúlea e solitária em busca de novos recursos para adiar a prisão de Lula.

Sabem que a missão é ingrata... mas, afinal, também sabem que o mundo está de olho neles. E todos parecem querer salvar suas próprias biografias.

Guerrilhas anti-mídia espontâneas e nem tanto


Em 2009 o jornalista Ricardo Kauffman criou o personagem Ary Itnem Whitaker, um suposto executivo de relações humanas que estaria no Brasil representando uma confraria britânica que defendia a chamada “terapia do abraço” para humanizar as metrópoles e as organizações. 

A grande mídia mordeu a isca e o personagem concedeu entrevistas a rádios, TVs e jornais, como fosse um fato noticioso. Sequer os repórteres pensaram em checar a procedência da tal confraria. Revelada a pegadinha, rendeu um documentário (clique aqui) desmoralizando o jornalismo corporativo.

"Pegadinha" do Haddad: um momentâneo lapso da esquerda

Em 2013 um estudante da USP simulou ser um candidato atrasado do Enem, cujas fotos ocuparam primeiras páginas de jornais e portais de Internet. Ele sabia que naquele momento a grande mídia fazia uma campanha de desmoralização contra o Enem. E a recorrência das imagens de candidatos atrasados nos locais dos exames chorando, desesperados tentando escalar grades, acendeu a imaginação de uma “pegadinha” estudantil: “foi apenas uma brincadeira com alunos de uma faculdade rival. Pretendia divulgar o vídeo na Internet”, disse o aluno da faculdade de Ciências Contábeis.

A grande mídia teve que engolir a foto de uma “pegadinha” nas primeiras páginas de jornais e portais de notícias (clique aqui).

E em 2016, um breve (mas, muito breve) momento de iluminação na esquerda: sem mais paciência para aguentar os escândalos que o historiador Marco Antônio Villa queria arrancar na leitura diária da agenda do Prefeito Fernando Haddad nos últimos três anos, o prefeito de São Paulo aprontou uma pegadinha: disponibilizou uma agenda trocada (na verdade, do governador Geraldo Alckmin), cheia de espaços em branco. “Está em branco! Em Branco! É a incapacidade de alguém pouco afeito ao trabalho!”, gritou no microfone da Rádio Jovem Pan. Enquanto, certamente, o prefeito se rachava de rir.

Que tal a esquerda lutar no mesmo campo semiótico no qual a direita nada de braçadas? A iniciativa de Haddad (mais por uma rivalidade intelectual com Villa do que por um vislumbre estratégico) pouco inspirou os dirigentes das esquerdas, mais preocupadas com o wishful think da contagem de votos no Congresso que supostamente livrariam Dilma Roussef do golpe final.


Guerrilha semiótica ao vivo no sambódromo


Fora do radar das esquerdas, no Carnaval que supostamente aliena as massas, eis que a escola de samba Paraíso do Tuiuti passou pelo sambódromo do Rio de Janeiro nesse domingo com críticas diretas ao atual governo desinterino do “vampiro neoliberalista” como também àqueles que ajudaram a tomar o poder exibido na ala “Manifestoches” da escola: passistas de patos amarelos da Fiesp, paneleiros e jogadores da seleção brasileira sob o comando de enormes mãos, como fossem fantoches – alusão às chamadas “teorias conspiratórias” do 7X1 da Alemanha? – sobre isso clique aqui. Ou aos manifestantes que ironicamente vestiram camisas amarelas da corrupta CBF para protestar contra a corrupção?

Transmissão ao vivo exclusiva da Globo, diante dos constrangidos narradores e comentaristas Fátima Bernardes, Alex Escobar e Milton Cunha – longos silêncios na locução e falas, até então fluentes e animadas, de repente ficaram fragmentadas e desconexas: “o vampirão”... “tá com faixa de presidente esse vampiro”... “É o regime de exploração nos mais diversos níveis”... “Manipulados”... “os manifestoches”, numa sequência de cacos que faria inveja ao Caco Antibes do antigo “Sai de Baixo”.

Passistas, com capacetes de operário, brandindo carteiras de trabalho e uma ala inteira acusando a reforma trabalhista do “vampiro neoliberalista” como mais uma modalidade de escravidão na história brasileira. Enquanto o imenso carro alegórico apresentando o livro aberto com a Lei Áurea mostrava que ela não foi o suficiente para impedir a reprodução das relações de exploração.

As entrevistas posteriores com os membros da escola e as matérias nos telejornais ou evitaram tocar em “vampiros” e “manifestoches” ou foram inseridos na edição dos desfiles em imagens de poucos segundos.


O rendimento midiático de uma ação anti-mídia


Os carnavalescos da escola Paraíso do Tuiuti deram para as esquerdas mais uma simples lição do que é lutar no mesmo campo das bombas semióticas. Uma estratégia que não rende apenas o divertimento de ver uma Fátima Bernardes em silêncio constrangido entremeado por cacofonia – mas tanto a crítica da escola quanto o constrangimento global ao vivo repercutirem ao longo de dias como tema de conversas interpessoais ou postagens e pitacos nas redes sociais.

Lutar no mesmo campo semiótico das bombas simbólicas da grande mídia, não significa apenas fazer “pegadinhas” ou “trolar” uma transmissão ao vivo. Mas a importância do seu efeito de “agendamento” posterior: virar pauta de discussões nas conversas interpessoais e nas diferentes mídias.

Aqueles mais velhos como esse humilde blogueiro (e agora, de volta, também um humilde professor) deverão lembrar do carnaval de 1980, posterior à Revolução Iraniana na qual o regime-fantoche dos EUA do Xá Reza Pahlevi foi derrubado pelo líder islâmico aiatolá Khomeini. Enquanto a grande imprensa brasileira descrevia a revolução como obra de um fanático religioso homicida, no carnaval das ruas máscaras do aitolá Khomeini tomavam conta e pessoas cantavam em plena ditadura militar: “Aitolá-á-á, vem nos salvá-á-á!”.

Os instrumentos teóricos e práticos de comunicação existem e estão aí, à disposição para se tornarem instrumentos de uma guerrilha semiótica no mesmo campo no qual a grande mídia é hegemônica não tanto pela inteligência, mas por ganhar sempre por W.O. – a esquerda simplesmente não quer ocupar esse campo da sociedade.

“Aitolá-á-á, vem nos salvá-á-á!”

O Grau Zero da Política


E os anos de governos trabalhistas só tornaram ainda mais evidente essa inapetência ou desinteresse pela comunicação, mesmo sob o bombardeio sem trégua das bombas semióticas da mídia corporativa.

E ainda pior: sempre reticente em relação à implementação da Lei dos Meios e a discussão dos monopólios midiáticos, enquanto o Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social do Poder Executivo Federal) alimentava a grande mídia com grossas verbas publicitárias com sua orientação “técnica” e “republicana”. E nesse meio tempo, membros dos governos petistas ainda sonhavam com um espaço em jornais e entrevistas nas TVs.

Como, por exemplo, em 2013 a carta ao jornal Folha de São Paulo do então ministro da Educação Aloízio Mercadante em defesa da memória de Octávio Frias Filho diante das acusações da Comissão da Verdade de que o falecido proprietário da Folha colaborou ativamente na repressão e tortura na ditadura militar. Sempre reverentes à grande mídia. Talvez porque os centímetros de colunas nos jornais ou os minutos em rede nacional na TV sempre foram objetos de desejo da síndrome de patinho feio das esquerdas.


Por que? Infelizmente tudo isso faz lembrar a hipótese niilista do pensador francês Jean Baudrillard: o “Grau Zero da Política”: (1) os comunistas não mudarão nada se chegarem ao poder; (2) os comunistas não querem chegar ao poder; (3) a tese mais niilista: não há perigo em ganhar o poder porque o poder, de fato, não existe – leia BAUDRILLARD, Jean. Partidos Comunistas: Paraíso Artificial da Política, Rocco, 1985 – sobre o conceito clique aqui.

E se todo o sistema político tornou-se autônomo e fechado em si mesmo em relação à sociedade e a economia? Um sistema cujos signos tornaram-se intransitivos, reversíveis, onde as distinções (Direita/Esquerda, Oposição/Situação) não são dadas como representação de algo externo, referencial, ao sistema (ideologias, História, Classes sociais etc.), mas como simples distinções binárias em um sistema fechado em si mesmo.
Baudrillard imaginava o sistema político como uma imensa e elaborada simulação, movida a escândalos e golpes para colocar signos vazios em movimento. Como zumbis ou mortos-vivos, paródias dos antigos conflitos ideológicos que não mais existem.

Por isso, é sincrônico que o evento “Zombie Walk” ocupe a cidade de Curitiba (sede da “República de Curitiba”, da Lava Jato e do herói nacional de segunda instância Sérgio Moro) no Carnaval: zumbis desfilando no epicentro do principal escândalo que põe a simulação política em movimento onde todos apenas tentam salvar suas próprias biografias numa grande cortina de fumaça dissuasiva – clique aqui.

Teoria conspiratória? Matrix na Política? Sabendo-se que a expressão “teoria da conspiração” foi cunhada em 1967 em despacho da CIA com o carimbo “Psyop” (“Operação Psicológica”) como uma das práticas para desacreditar narrativas não oficiais (sobre isso clique aqui), esse humilde blogueiro acredita que é hora de levar mais à sério as teses provocativas de pensadores do naipe de Baudrillard.

E pensar em práticas políticas fora da Matrix, lá no deserto do real das guerrilhas semióticas. 

Tem Vampiro no samba, por Ricardo Miranda.


Crédito: reprodução TV
“Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar”
Chico Buarque, trecho de “Vai passar”
Você vai ler nos jornais hoje que as belíssimas Império Serrano e Vila Isabel foram o diferencial da Avenida, no primeiro dia de desfiles do Grupo Especial do Rio. Mas quem saiu mesmo da curva – aliás, despencou da curva -, como mostra a tremenda repercussão nas redes sociais, foi a modesta Paraíso do Tuiuti, que passou pela avenida, na madrugada deste dia 12, com a mais contundente crítica ao governo Temer jamais vista em horário nobre, transmitida ao vivo pela TV Globo. Ovacionada na Sapucaí, fez o desfile mais politizado e crítico em muitos anos de Carnaval, remetendo aos tempos do carnavalesco Joãozinho Trinta, que em 1989, era Collor, levou para a avenida o enredo “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia”. Nenhum protesto anti-Temer fez estrago igual, com tamanha audiência.
Dessa vez, usando como enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, a escola do carnavalesco Jack Vasconcelos trouxe críticas à reforma trabalhista, bandeira número um do governo, com uma ala de carteiras de trabalho sujas, vistas como as novas cartas de alforria, retratando a forma mercantilista das relações de trabalho. A ala “guerreiros da CLT” representava os trabalhadores que, com múltiplos braços, estão tentando se proteger dos ataques à legislação trabalhista. No último carro, para não deixar dúvidas, um “presidente vampiro”, interpretado pelo professor de história Léo Morais. Chifres, faixa presidencial purpurinada, gola alta feita de maços de dinheiro, e um rosto nitidamente familiar. Temer, claro.
Repleto de críticas sociais, o desfile da escola de São Cristóvão apresentou uma ala em que ironizava os “panelaços”, com passistas vestidos com camisas das cores do Brasil, dentro de patos e manipulados por uma mão gigante, como se fossem marionetes. Logo após a apresentação, vista como histórica nas redes, a escola foi parar no primeiro lugar dos trending topics do Twitter, com o assunto mais comentado na rede social no Brasil; e segundo no mundo.
Mas poucas coisas foram tão divertidas quanto a saia justa por que passaram os comentaristas da Globo, ao vivo, com as imagens do Tuiuti esfregadas na telinha. Do camarote de vidro, onde narravam o desfile, Fátima Bernardes, Alex Escobar e Milton Cunha puxaram o freio diante do surpreendente protesto, como se estivessem constrangidos. “As desigualdades vem vindo até os dias de hoje”, ensinou Fátima. “O vampirão!”, quase berrou Milton, diante do óbvio Temer. Alex Escobar apenas riu. E Fátima observou: “É o regime de exploração nos mais diversos níveis”. Um pouco depois, Escobar disse o que todos viam: “Tá com a faixa de presidente, esse vampiro”. E Fátima, lendo o roteiro: “Vampiro neoliberalista”. Temer! Ninguém falou em Temer! Encerrado o desfile, como de praxe, o camarote da Globo recebeu vários participantes do desfile da Tuiuti. O vampirão não foi convidado.
Sobrou também para o prefeito da IURD, Marcelo Crivella, que, mais uma vez, se recusou a acompanhar, no Camarote da Prefeitura, a festa mais popular da cidade que administra. Trocou o sambódromo, onde desfilam representantes das principais favelas do Rio, por um tour por Alemanha, Áustria e Suécia. Em seu desfile, a Mangueira deu o troco: um dos carros representou Crivella como um boneco de Judas, acompanhado da frase: “Prefeito, pecado é não brincar o carnaval”. O enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco” tratava do corte de verbas da Prefeitura do Rio às escolas de samba.
A Acadêmicos da Rocinha, que este ano desfilou pela Série A, levou um enredo sobre a história da xilogravura para a Marquês de Sapucaí. Mas o que mais chamou a atenção ficou na comunidade. Uma faixa colocada na entrada da favela diz, literalmente: “STF – Se prender Lula, o morro vai descer”. A faixa foi estendida pouco tempo depois de vir à público as declarações de Jair Bolsonaro sobre metralhar a comunidade. Que tiro foi esse?!.

Como o Brasil lida com a imigração venezuelana, por João Paulo Charleaux .

Foto: Nacho Doce/Reuters - 11.12.2017
Imigrantes venezuelanos
Imigrantes venezuelanos em centro de acolhida nos arredores de Boa Vista
 
O presidente Michel Temer anunciou na segunda-feira (12), em Boa Vista, que liberará recursos adicionais a Roraima, além de criar um “comitê nacional” para lidar com os 40 mil venezuelanos que, de acordo com a prefeitura, vivem hoje em abrigos da cidade. Na quarta-feira (14), o governo anunciou que decretará emergência social no estado, medida que reduz burocracias para o repasse dos recursos.
O fluxo de venezuelanos para fora do país caribenho já foi classificado como “êxodo”, “diáspora” e “crise migratória”, e tem como origem a turbulência política, social e econômica. Não há, entretanto, dados confiáveis sobre o número de imigrantes venezuelanos no Brasil, uma vez que muitos entram e saem do país apenas para comprar mantimentos, enquanto outros entram e permanecem sem registro formal.
1 milhão
É o número de venezuelanos que deixaram o país caribenho entre 2014 e 2017, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados
Para um número cada vez maior de países, organismos internacionais e organizações não governamentais, o presidente Nicolás Maduro transformou a Venezuelas numa ditadura na qual adversários políticos são perseguidos, presos, torturados e mortos e as eleições são fraudadas. Ao mesmo tempo, o país vive uma recessão marcada pela escassez de produtos básicos e pela explosão no número de casos de desnutrição.
Maduro, por sua vez, se diz vítima da pressão de uma oposição incapaz de conquistar o poder pelas vias eleitorais, que atua respaldada sobretudo pelos EUA, cujo secretário de Estado, Rex Tillerson, já sugeriu em público que o governo da Venezuela fosse deposto por força militar. O presidente venezuelano também refuta as acusações de fraude eleitoral e diz que o país está aberto a observadores internacionais.
Com o fracasso das negociações entre governo e oposição que vinham ocorrendo na República Dominicana, no dia 7 de fevereiro, e com a proximidade de uma nova eleição presidencial, anunciada por Maduro para o dia 22 de abril, crescem os preparativos para receber que o Brasil receba novos imigrantes venezuelanos.

Porta de entrada

Mapa mostra localização de Pacaraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela
 
O governo Temer diz que há perseguição política contra opositores de Maduro na Venezuela. Entretanto, não aplica à maioria dos venezuelanos o Estatuto do Refugiado, criado em 1951 para os casos em que exista um “fundado temor de perseguição” por razões políticas, entre outras causas.
Além disso, Temer diz que dará uma “abordagem humanitária” para a questão. Entretanto, o presidente foi a Roraima acompanhado de ministros da área de segurança. Prometeu lidar com a situação enviando as Forças Armadas para a região.
O Nexo conversou por telefone, nesta quarta-feira (14), com dois especialistas em migração que vêm acompanhando de perto a situação dos venezuelanos no Brasil. Eles analisaram as aparentes contradições do governo a esse respeito e a dimensão que o fenômeno tem quando comparado ao quadro migratório mais amplo do país. Os especialistas ouvidos são:
  • Camila Asano, coordenadora do Programas da ONG Conectas Direitos Humanos, formada em Relações Internacionais pela USP, com mestrado em ciência política pela mesma universidade
  • João Carlos Jarochinski, coordenador do curso de relações internacionais da Universidade Federal de Roraima e vice-coordenador do programa de mestrado Sociedade e Fronteiras, na mesma universidade

Qual a dimensão do fluxo migratório venezuelano, hoje, no Brasil? Ele é grande? Ele sobrepassa a capacidade de absorção brasileira? Como ele se compara a fluxos anteriores? Enfim, é uma ‘crise migratória’?

Camila Asano As autoridades brasileiras não têm números confiáveis, o que nos impede de ter uma ideia precisa. Os dados mais confiáveis são os publicados até agora pela Polícia Federal. De acordo com eles, até o final de 2017, cerca de 30 mil venezuelanos pediram regularização no Brasil. Destes, cerca de 22 mil solicitaram refúgio e 8.000 solicitaram a residência pela Resolução 126 do CNIg [resolução do Conselho Nacional de Imigração, de março de 2017, que facilita a residência temporária de estrangeiros no Brasil].
Muitos entram por Roraima, mas buscam, em seguida, outros países. Outros, entram, fazem compras e saem, num movimento migratório pendular. Então, usar o número de entrada das pessoas pela fronteira, na cidade de Pacaraima, não significa necessariamente contar as pessoas que de fato estão no Brasil.
Seja como for, se trata de um fluxo migratório considerável. É o maior fluxo no Brasil hoje, mas está longe de sobrepassar a capacidade de absorção brasileira. O país registra um número baixo de imigrantes, em comparação com o PIB, com a extensão territorial e com a população total. Todos os imigrantes, regulares e irregulares, correspondem hoje, no Brasil, a 1% da população total do país. Nos EUA, é 14%. Na Argentina, 4%. O Brasil recebe pouco e poderia receber muito mais. A questão é que a cidade de Boa Vista e o estado de Roraima não têm capacidade de receber mais, mas o Brasil, sim. Por isso, é preciso realizar um estudo sério de interiorização, para absorver imigrantes venezuelanos que chegam a Roraima, mas querem ir para outras partes do Brasil.
Chamar de “crise migratória” é uma opção do Brasil, mas a verdade é que eles fogem de uma crise na própria Venezuela. É a falta de respostas adequadas aqui que dá a sensação de crise no Brasil. Mas não há uma crise humanitária aqui.
João Carlos Jarochinski Eu não uso o termo “crise migratória”. Há um exagero. A demanda não se compara a outros locais nos quais esse fluxo é ainda mais efetivo. A saída dos venezuelanos é num contexto de crise, lá, mas a vinda para o Brasil é bastante residual quando comparada a outros países. Na Colômbia, os dados mostram uma variação que pode ir de 550 mil a 1 milhão de venezuelanos. Há muitos irregulares, daí a imprecisão. Na metade de 2017, já se falava em 40 mil venezuelanos em Trinidad e Tobago, por exemplo, que é muito menor que o Brasil.
Eu calculo que, hoje, no Brasil, deva haver algo na ordem de 50 mil a 60 mil venezuelanos no território todo. Houve três momentos da imigração venezuelana em Roraima. O primeiro momento foi pendular. Com a crise de desabastecimento de 2015, os venezuelanos vinham, trabalhavam poucos dias, compravam coisas e retornavam para a Venezuela. No segundo momento, houve uma fixação perto da fronteira. E, finalmente, hoje, há um trânsito, há uma entrada de pessoas que deixam Roraima na direção de outros centros. O número preciso de tudo isso é, entretanto, muito difícil de determinar.
Em termos nacionais, o número de entrada de venezuelanos é muito baixo. Estamos falando, na hipótese mais exagerada, em 60 mil. Acho muito estranho o dado que a prefeitura de Boa Vista tem passado, de que há 40 mil venezuelanos aqui [em Boa Vista] agora. Isso equivaleria a mais de 10% da população. Há muita gente, sim, mas os serviços estão funcionando sem registro dessa demanda. Desconfio. O Brasil tem 1% de imigrantes. A média mundial é de 3,7%.

O Brasil considera que há perseguição política na Venezuela. No entanto, não concedeu refúgio a nenhum venezuelano, nos termos da lei, que fala em ‘refúgio por fundado temor de perseguição por razões políticas’, entre outras. Há, nisso, uma contradição?

Camila Asano Dos 30 mil pedidos de regularização apresentados até o final de 2017, 22 mil são pedidos de refúgio. Isso mostra que muitos venezuelanos estão procurando essa via para se regularizar. O que diz a lei brasileira e a convenção das Nações Unidas sobre refúgio é que cada caso precisa ser avaliado individualmente. O Brasil tem tardado em fazer essa análise. Logo, há um passivo muito grande de casos acumulados que deixam essas pessoas em situação temporária de proteção. Ser solicitante de refúgio já traz alguns direitos, como o de não ser devolvido a seu país de origem e o de receber CPF e Carteira de Trabalho, mas, ainda assim, é uma situação temporária de proteção.
Como o maior número de pedidos de refúgio no Brasil vem de venezuelanos, é preciso que o Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) faça um esforço e delibere sobre esses casos. Agora, veja: a lei brasileira de refúgio não fala apenas em “fundado temor de perseguição”, mas também em “grave e generalizada violação de direitos humanos”. Esse seria um caminho para a concessão de refúgio. Então, o Brasil precisa se posicionar com mais clareza a respeito da concessão de refúgio. O que não pode é se acomodar e deixar as pessoas que procuram refúgio como forma de proteção sem uma resposta.
João Carlos Jarochinski Para conceder refúgio é preciso, antes, fazer uma análise de cada caso. Você pode ter ditadura ou outros tipos de governo que possam gerar perseguição, mas a concessão do refúgio dependerá de o solicitante comprovar o “fundado temor de perseguição”. Depende da análise de cada caso e do conjunto comprobatório que está ali naquela solicitação.
O contraditório é que o Brasil tem um discurso contundente contra a Venezuela, mas não sequer reconhece os venezuelanos como refugiados pela segunda hipótese possível pela lei brasileira, que é o de “grave e generalizada violação de direitos humanos”.
O que acontece na Venezuela, em relação aos atendimentos médicos, em relação à questão alimentar, é uma dado que justificaria o reconhecimento de “grave e generalizada violação de direitos humanos”. Isso o governo brasileiro tende a não conceder, por razões políticas. Apesar do tratamento crítico [do governo brasileiro em relação a Maduro], há interesses comuns. É um país fronteiriço. Além disso, teme-se que isso possa gerar aumento da demanda, já que a lei de refúgio dá mais garantias [que as demais leis brasileiras de migração. Por exemplo: a regra de não devolução do solicitante ao país de origem, conhecida como regra de non refoulement].

O presidente fala da dimensão humanitária da resposta brasileira à imigração venezuelana, mas levou para reunião em Boa Vista apenas ministros das áreas militar e de segurança pública. Não estavam presentes ministros da Saúde, do Trabalho, dos Direitos Humanos e da Educação. Há uma contradição nisso?

Camila Asano Há uma enorme contradição na fala do presidente Temer. Ele diz que há uma abordagem humanitária, mas a resposta tem sido desenhada mais no âmbito da segurança. Isso mostra uma visão anacrônica, de que a abordagem do tema migratório está mais no âmbito da segurança nacional do que no âmbito dos direitos humanos. Além de anacrônico, vai contra a própria Lei de Imigração que entrou em vigor no Brasil [regulamentada em novembro de 2017]. Essa nova lei trouxe uma mudança de paradigma. Antes, o Estatuto do Estrangeiro via a questão da imigração como uma questão de segurança nacional. A nova lei vê como uma questão de direitos humanos.
É preocupante a fala do presidente Temer que, em alguns aspectos, fala em maior controle de fronteira e em respostas militarizadas. No entanto, é positivo quando ele traz a dimensão humanitária. A questão é converter isso em ações concretas, dando soluções jurídicas para essa população. A nova lei dá autorização de residência por razões humanitárias. Isso deveria ser aplicado aos venezuelanos que não buscarem o refúgio, pois seria condizente com a fala do presidente e com a posição do Grupo de Lima [formado pelos governo do Brasil, Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai e Peru, no dia 8 de agosto de 2017 para assumir posições coletivas na região a respeito da crise venezuelana], do qual o Brasil faz parte, e que classifica a situação venezuelana como uma crise humanitária de fato.
João Carlos Jarochinski Tem uma contradição, sim. Quem está construindo essas respostas [federais] é o setor de segurança. A própria demanda apresentada pelos governos locais chama atenção para as questões de de segurança e de saúde. Antes da visita do presidente, houve uma visita do Conselho Nacional de Direitos Humanos. Esse Conselho fez algumas recomendações. Parte delas foi incorporada ao discurso de Temer. Mas, efetivamente, na hora de bater o martelo, na hora de o governo federal assumir um compromisso mais efetivo, a predominância foi da área de segurança. Tanto é assim que o ministro que mais tem falado da demanda em relação à Venezuela é [o ministro da Defesa] Raul Jungmann.
Fala-se muito da questão humanitária, mas as ações são muito engessadas ainda, dentro de um panorama de segurança. É contraditório. A questão humanitária está muito no discurso, um discurso que politicamente é interessante para se fazer a crítica da Venezuela, uma vez que atacar o atual governo da Venezuela é também uma forma de atacar forças políticas nacionais, aqui no Brasil.

Esse fluxo é comparável ao fluxo de haitianos, de 2012? O Brasil está aplicando lições aprendidas naquela ocasião?

Camila Asano Ambos são fluxos intensos e por terra, em cidades que não têm expertise nem condições de receber essas populações. Um ponto parecido com o caso dos haitianos é a demora ou a omissão do governo federal em assumir sua responsabilidade na coordenação da resposta ao fluxo migratório.
Muitas lições foram aprendidas naquele momento [em 2012]. A cidade de Manaus, por exemplo, possui hoje um sistema de acolhida que teve como base as lições aprendidas na época dos haitianos. Isso é positivo. Por outro lado, ainda há lições não implementadas, como a interiorização coordenada. É preciso evitar que se repita um erro ocorrido no caso dos haitianos, que foi a ação unilateral do governo do Acre, sem a devida coordenação com o governo do estado e com a prefeitura de São Paulo [que começou a receber ônibus com haitianos enviados do Acre sem aviso prévio]. Esse ponto é fundamental. E seria inaceitável que isso se repetisse.
João Carlos Jarochinski A similaridade está no fato de serem fluxos migratórios nas fronteiras amazônicas, nessa espécie de porta dos fundos, com dificuldade de acesso, de atendimento, com a prevalência de uma visão de que a fronteira é negativa, que ela traz coisas negativas, traz tráfico de pessoas, de drogas, de armas. A fronteira vira a periferia do país, nos dois casos. Mas, no caso dos haitianos, eles têm a questão migratória muito mais presente dentro da sua história. O Haiti tem uma trajetória de mais de cem anos de migrações, o que, obviamente, cria redes migratórias e influencia na maneira de se comportar diante do fenômeno migratório também. Se existe uma nacionalidade que pode ser considerada hiper móvel é a haitiana. No Brasil, assim que os haitianos começaram a sentir os efeitos negativos da crise começaram a se dirigir para o Chile, por exemplo. Eles têm uma perspectiva migratória de pouca vinculação com o destino.
Os venezuelanos são diferentes. Eles são de um país que, tradicionalmente, era um país de chegada de imigrantes. Nos anos 1980, mais de 7% da população venezuelana era de estrangeiros. Não tinha tradição de saída. É algo que está se constituindo agora. Então, é distinto. A forma de lidar com a migração é distinta.
Outra questão: os haitianos usavam o norte como rota de entrada, de passagem. No caso dos venezuelanos, há uma grande permanência na fronteira, que é o que garante vinculação com o local de origem, que permite fazer o circuito rodoviário e permite a remessa de dinheiro em espécie [de volta para a Venezuela]. Eles também compram os produtos e mandam para lá, pois às vezes não adianta enviar dinheiro, pois os produtos, lá, simplesmente não existem.

A folia antidemocrática em tempos de golpe, por José Ernesto Palhares.

05/02/2018 18:12
Reprodução

Neste ano, a Constituição de 1988 completa três décadas de existência. Trinta anos se passaram e em vez de comemorarmos, mais uma vez, estamos na trincheira em defesa dos princípios que a inspiraram. O ataque é descarado e episódios inimagináveis naquele momento se tornam realidade.

Retrocesso de direitos, ameaça à soberania nacional, perseguição política, condenações sem provas e excrescências como a liberação, pela juíza Daniela Pazzeto Meneghine Conceição da 39ª Vara Cível do Tribunal de Justiça de São Paulo, de um bloco de carnaval intitulado “Porão do DOPS”, com explícita apologia à tortura e a seus carrascos (leia nota de repúdio), compõem o indigesto cardápio imposto a todos pelos golpistas.

Em meio ao desmonte, escancaram-se as fissuras das instituições criadas para proteger e não atacar o Estado Democrático de Direito. O comportamento da imprensa, após os resultados da pesquisa Datafolha na última semana, é exemplar. Não apenas pedem a prisão de Lula, que detém preferência de 37% do eleitorado, mas levantam falsas suspeitas, incensando uma fuga do ex-presidente e utilizam do expediente canalha de sempre, vide a reportagem “As mortes que rondam o edifício do tríplex de Lula”, da Isto É (se tiver estômago, clique aqui).

Quem irá conter tamanha violência? Certamente não será o nosso Judiciário, infestado de promotores e juízes midiáticos em busca de popularidade. Funcionários públicos que, sem constrangimentos, fazem política em vez de justiça, condenam sem provas e invertem princípios do Direito, como estamos vendo com a utilização às avessas do chamado “domínio do fato”.

Não nos esqueçamos da AP 470, quando o jurista alemão Claus Roxin, autor da teoria do domínio do fato, manifestou-se contra a utilização deste princípio pela Corte Suprema brasileira, afirmando que “a posição hierárquica não fundamenta, sob nenhuma circunstância, o domínio do fato” e que “quem ocupa posição de comando tem que ter, de fato, emitido a ordem. E isso deve ser provado” (saiba mais).

Como bem destaca Guilherme Boulos, em Supremo ou pequeno?, “o Supremo, tão chamuscado pela omissão diante dos desvarios da República de Curitiba, se apequenará ainda mais caso não reveja a sentença do TRF4. Esperemos que não. Permitir a condenação de Lula do modo como ocorreu e – ainda mais grave – não agir para evitar sua prisão transformará, no entanto, o STF num Pequeno Tribunal Federal”.

Após o julgamento da AP 470, do impeachment de Dilma Rousseff, da condenação de Lula e tantas outras atrocidades, quem cobrará que a Justiça faça o seu trabalho? A imprensa, reduzida em aparato político pronto a manipular, ocultar ou turbinar notícias de acordo com seus interesses? Aliás, aos que preferem descanso à folia, está em cartaz “The Post – A Guerra Secreta”, o último filme do Steven Spielberg, sobre a divulgação dos documentos do Pentágono (Pentagon Papers) na imprensa sobre a Guerra do Vietnã (saiba mais).

Encomendados por Robert MacNamara, ex-secretário de defesa de Nixon, a divulgação desses documentos foi fundamental para destruir a narrativa de Nixon sobre a Guerra. Isso só foi possível porque Daniel Ellsberg, ex-analista militar norte-americano e funcionário do Pentágono, copiou e entregou os documentos à imprensa que os divulgou. Em 2015, Ellsberg foi laureado para o Nobel da Paz e veja só: ele acaba de assinar o manifesto “Eleição Sem Lula é Fraude!”.

Quem traz a boa nova é o diplomata Celso Amorim no artigo Perda irreparável. “Até que ponto se pode esperar que algum Daniel Ellsberg denuncie a trama diabólica para barrar o ideal de um país justo e independente, representado pelos governos petistas (apesar dos eventuais erros que possam haver sido cometidos) é uma questão em aberto”, avalia Amorim.

Além de Ellsberg, também assinaram o manifesto os filhos de Julius e Ethel Rosenberg, injustamente acusados de passar segredos militares à União Soviética. O casal foi levado à cadeira elétrica nos Estados Unidos. “O caso provocou, à época, comoção mundial, em razão da insuficiência das provas e à evidente ´armação´ das autoridades americanas para incriminar o casal”, lembra Celso Amorim.

Uma armação jurídica, como a que estamos vendo hoje. “É exasperante constatar que funcionários públicos investidos na função de administrar a justiça possam, ignorando normas e princípios legais consolidados, produzir um resultado que afeta diretamente o direito de uma sociedade escolher o seu soberano representante”, afirma Carol Proner, professora de Direito de UFRJ e organizadora do livro “Comentários a uma sentença anunciada. O processo Lula”, em seu artigo O lawfare neoliberal e o sacrifício de Lula.

Recomendamos também Fale Lula fale, há um grito de resposta engasgado no ar, editorial de Saul Leblon que avalia o comportamento da direita, destacando que “mais que prender, é preciso calar a voz rouca [de Lula] e tudo o que ela simboliza no imaginário dos deserdados”, afinal, a figura de Lula “condensa um método pacífico de luta pelo desenvolvimento, mas que empurrou os limites da negociação até o ponto em que se tornou necessário erguer linhas de passagem para um outro estirão, onde a busca da justiça social convoca a democracia participativa a entrar no jogo”.

E voltamos, novamente, à questão da democracia. Daí a importância dos ensinamentos do professor Boaventura de Sousa Santos que, em O novo interregno, mostra como a democracia vem sendo “radicalmente desvirtuada pelo neoliberalismo global” a partir de 1989. O objetivo? “Erodir o princípio do Estado, quer retirando-o da regulação social, quer convertendo esta numa outra forma de regulação mercantil”.

Não deixe de ler, também, Redes sociais: como regular sem censurar, reportagem de Anahit Miridjanian, publicada no Libération, que traduzimos para você. Uma discussão importante sobre o discurso de ódio na web e a enxurrada de fake news feita por especialistas da França, Itália, Alemanha e Estados Unidos. A preocupação é tamanha que a Alemanha adotou uma lei que obriga Twitter, Facebook e YouTube a remover um conteúdo indesejado em 24 horas, sob risco de multas de até 50 milhões de euros.

Como já dissemos, aqui, várias vezes, a única saída contra o ataque das fake news e o fechamento de espaço para a mídia alternativa nas redes sociais é nos mantermos fortemente conectados. Inscreva-se no nosso cadastro e receba nossos Boletins, por e-mail, com os destaques de cada dia.  E não se esqueça de contribuir para a continuidade deste projeto que há mais de 17 anos vem disseminando o melhor do pensamento da esquerda brasileira e internacional.: torne-se um parceiro doador da Carta Maior (saiba as opções de colaboração aqui).

Boas leituras,

Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior

Ciro, Alckmin e Marina medem forças para evitar Bolsonaro e novo outsider, por El País.

 Eleições 2018
Embora o PT insista em manter o ex-presidente Lula como pré-candidato à presidência, o petista está cada vez mais longe da disputa, depois de condenado em segunda instância pelo TRF4. E sem seu nome entre os pré-candidatos, o cenário eleitoral fica ainda mais incerto. Segundo a última pesquisa Datafolha, disputam o segundo lugar a ex-senadora Marina Silva (Rede), o governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) e o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT). Todos, atrás de Jair Bolsonaro (PSC), que lidera o pleito sem o ex-presidente petista no páreo.
Embolados, os três pré-candidatos terão que correr para passar na frente não somente um do outro, como de dois outros potenciais grandes adversários: o surgimento de um outsider, que pode se materializar na figura do apresentador Luciano Huck, por enquanto sem partido, e a rejeição da população à classe política. Sem Lula, até um terço dos brasileiros dispensa qualquer outro candidato e prefere anular ou votar em branco, aponta a mesma pesquisa.
A briga é grande não só pela herança de votos de Lula mas também diante de um eleitorado cada vez mais refratário aos nomes da política atual. Pesquisa feita pelo instituto Locomotiva revela que 93% da população acha que é preciso formar novas lideranças políticas para mudar o país e 96% dizem não se sentir representada por nenhum político em exercício. Neste aspecto, tem razão Marina Silva quando diz que “o adversário mais forte é o descrédito que a população está colocando na política”, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, na última segunda-feira.
Neste vácuo político, cada um dos três pré-candidatos elegem suas estratégias para sair na frente. Marina Silva adota o discurso da coerência, afirmando incansavelmente que é "a mesma desde 2010”, lembrando que não está envolvida em nenhum caso de corrupção e evitando apontar o dedo para possíveis adversários. Defende que a justiça seja feita “para todos”, mas que Lula tem o direito de recorrer a todas as instâncias com recursos que lhe são permitidos. E se diz a candidata que combaterá o ódio "com amor". Coincidência ou não, na sequência em que a pesquisa Datafolha foi publicada, a ambientalista deu início a uma maratona de entrevistas a jornalistas. Marina não esconde sua contrariedade ao desenrolar do debate sobre a reforma da Previdência durante o Governo Temer, que, segundo ela “fala somente com os empregadores, e não com os trabalhadores”. 
Nesse mesmo sentido, Ciro Gomes também faz críticas diretas à reforma de Temer, e ao crescente desemprego. Tanto Ciro como Marina têm pela frente o trabalho contra o 'estigma' que os persegue em suas campanhas políticas. . Ciro, por um supostamente ter um gênio intempestivo, enquanto a pré-candidata da Rede é tida como indecisa e com viés conservador, sempre a raiz de sua religião, evangélica, que poderia contaminar seu governo, na visão de quem a teme. “ Não imagino que depois de tanta luta para que tivéssemos um estado laico, iríamos reeditar a ideia de um Estado teocrático”, disse Marina à jornalista Carla Jiménez, do EL PAÍS. “Fui militante das causas ambientais, da educação, de direitos humanos, causa indígenas ”, lembrou. Seu desafio, no entanto, é fazer chegar essa mensagem para além dos 20 milhões de eleitores que ela conquistou na última eleição. Com pouco tempo de TV e um fundo partidário de 280.000 reais, a Rede agora conversa com os mesmos partidos da coligação que a acompanhou em 2014 para compor o programa.
Ciro Gomes, por sua vez, refuta as críticas a seu estilo pessoal e cerca-se de cuidados para evitar embates com lulistas. Para alguns analistas, ele é quem mais tem poder para se beneficiar da ausência de Lula no Nordeste, região que tem a maior preferência do petista (60%). Em um cenário sem o ex-presidente Ciro pode crescer na região onde já foi governador, e teria chances reais de herdar votos de Lula. A campanha do pedetista tem trabalhado para divulgar vídeos com as falas de Bolsonaro em relação a mulheres e às minorias para apontar seu perfil mais agressivo.
Já Geraldo Alckmin pode se beneficiar por ser o único, entre os três, a ter um partido maior por trás, o que lhe garante maior tempo de televisão e mais verba partidária para a campanha. Ao mesmo tempo, porém, o PSDB pode ser o maior trunfo ou o pior problema para o governador paulista. Após cotoveladas com seu afilhado político, o prefeito de São Paulo João Doria, Alckmin segue disputando espaço dentro do partido. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acena, constantemente, para uma possível candidatura do apresentador Luciano Huck. “Seria boa para o Brasil”, disse o ex-presidente em entrevista à Jovem Pan, uma das rádios mais populares do país, apontando uma manobra que ainda se tenta decifrar.
Fora do ninho tucano, Alckmin ainda tem outra batalha, a das alianças. Seu vice, Marcio França (PSB), já anunciou que será candidato no âmbito estadual. o que pode colocar em xeque a união dos dois partidos na campanha majoritária. Sem alianças fortes, o precioso tempo na TV fica mais curto.  Por isso, PSDB e o MDB, de Michel Temer, estão flertando. Neste caso, o apoio do MDB pode ser bem-vindo, por garantir o maior tempo na televisão de toda a campanha, e uma fatia mais encorpada do fundo partidário. Mas pode ser também um tiro no pé, já que 87% dos brasileiros não votariam em um candidato a presidente apoiado por Temer, segundo o Datafolha.
Além disso, para uma aliança entre PSDB e o MDB, o partido do presidente da República teria de abrir mão de seus possíveis candidatos: o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ou o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e até mesmo o próprio Temer, que vem confessando seu desejo de entrar na disputa.
Enquanto as peças se movem lentamente, Alckmin usa as redes sociais para promover seu governo e se dizer "preparado para o Brasil". Mas, assim como seus adversários, o governador evita debater propostas concretas por enquanto.
Para André Torretta, marqueteiro político da Cambridge Analytica Ponte, vai sair na frente justamente o candidato que tratar de temas palpáveis para o eleitor. “Ninguém está falando de segurança pública e desemprego”, diz. “O projeto dos partidos para diminuir o desemprego qual é? Para melhorar a segurança do país, qual é?”. Na opinião de Torretta, por enquanto, apenas Lula está falando com a população. “Enquanto a direita discute se o Estado é pequeno ou grande, o outro [Lula] está viajando e abraçando a população”. Ele se refere às caravanas realizadas pelo petista desde o ano passado.
De acordo com Torretta, a quantidade de pré-candidatos ainda não está definida, embora os partidos cravem que todos estão na jogada. “É preciso ver quanto tem de verba de fundo partidário para todos esses partidos e ver se haverá dinheiro para uma campanha nacional”, diz Torretta. “Aí sim será possível saber se haverá essa quantidade toda de candidatos”.
Nem mesmo a retirada da candidatura de Luciano Huck pode ser vista como certa. Ainda que o global tenha afirmado, no fim do ano, que estava fora da disputa, o EL PAÍS apurou que, mesmo após sua retirada do tabuleiro, ele segue monitorando as pesquisas e acompanha de perto as movimentações na corrida eleitoral.
Enquanto as peças deste xadrez ainda não se posicionam de uma maneira clara, o relógio corre para o cenário econômico. A Moody’s, agência de classificação de risco, emitiu um comunicado na semana passada afirmando que as próximas eleições na América Latina “apresentam riscos para as reformas fiscais e estruturais na região”. Isso porque, segundo a agência, “os novos governantes podem estar menos interessados em prosseguir com os programas ambiciosos de reformas, após vários anos de crescimento fraco”. Ainda que o compromisso seja mantido, segue a Moody’s, a implementação dessas reformas pode ser dificultada pela falta de apoio político. Algo que o presidente e, quem sabe, pré-candidato, Michel Temer está vivendo na pele com a reforma da Previdência.