sexta-feira, 20 de outubro de 2017

UberCapitalismo: a contrarrevolução do século 21 Por Ricardo Abramovay.

on 18/10/2017Categorias: Desigualdades, Destaques, Mundo, Sociedade
171018-Precariadoc
Como um punhado de megacorporações ameça colonizar a internet, arrasar o projeto de uma rede não-mercantil e realizar a distopia da precarização permanente
Por Ricardo Abramovay

A explosão da cultura digital durante o século
XXI revigorou os mais importantes ideais emancipatórios, combalidos pela queda do muro de Berlim. As pessoas e as comunidades passariam a dispor dos meios técnicos que lhes permitiriam estabelecer comunicação direta umas com as outras. A informação, os bens e os serviços poderiam ser oferecidos de forma eficiente sem que as condições objetivas de sua produção estivessem nas mãos de grandes empresas.
O mantra da teoria microeconômica segundo o qual eficiência supõe concentração de recursos parecia desmentido pela comunicação em rede e, mais ainda, pelo surgimento dos smartphones e de equipamentos como as impressoras em três dimensões e as máquinas de corte a laser. Dispositivos eletrônicos com um poder cada vez maior estavam nas mãos das pessoas e operavam em rede.
A oposição entre o pinguim e o Leviatã, no título do importante livro de Yochai Benkler, apontava para a importância cada vez maior dos comuns (commons), de tudo aquilo que operava para ampliar o domínio da esfera pública não só sobre a vida social, mas sobre a própria relação entre sociedade e natureza.
Jeremy Rifkin foi além, vinculando a abundância trazida pela revolução digital ao próprio fim do capitalismo. A Economia do Compartilhamento, cujas expressões mais emblemáticas são a Wikipedia e os softwares livres, exprimiria a capacidade humana de cooperação, não apenas entre pessoas que se conhecem, num círculo limitado por laços de parentesco e amizade, mas de forma anônima, impessoal e massificada. As bases materiais para a transição do reino da necessidade para o de liberdade pareciam asseguradas.
Não demorou muito para ficar claro que esta narrativa edificante subestimava a mais importante transformação do capitalismo do século XXI: a emergência da empresa-plataforma. O aumento na capacidade de processar, coletar, armazenar e analisar dados foi de tal magnitude que seu custo, que era de onze dólares por gigabyte em 2000 caiu para dois centavos de dólar em 2016.
Esta foi uma das bases objetivas não só para que Google e Facebook estivessem entre as mais poderosas empresas do mundo, mas também para que um conjunto cada vez mais amplo de bens e serviços fosse oferecido não mais por empresas ou conglomerados especializados, mas por plataformas que, a custo quase zero, tinham o poder de conectar imediatamente consumidores e varejistas, reduzindo os custos envolvidos em suas transações.
A Amazon, assim, deixa de ser uma livraria e uma loja de discos e passa a promover a ligação entre milhares de fabricantes e comerciantes a consumidores de todo o mundo. E o poder da Amazon aumenta à medida que ela consegue ampliar o alcance de sua rede. Quanto mais gente comprar e vender por meio de sua plataforma, maior será a dificuldade de que surjam concorrentes capazes de enfrentar o seu poder. O mesmo ocorre com a Netflix ou com o mecanismo de busca do Google. É a lógica do “vencedor leva tudo”, em que quem não estiver dentro da rede terá dificuldade para obter os benefícios que ela propicia.
O mais impressionante é que estas empresas-plataforma estão entre as mais valiosas e poderosas do mundo atual, sem que, para isso, precisem deter patrimônio, propriedades, estoques, almoxarifado, frota de caminhões, máquinas ou custosas instalações. A Walmart, por exemplo, possui mais de 150 centros de distribuição, uma frota de seis mil caminhões que anualmente rodam um bilhão de quilômetros para levar produtos a 4500 lojas apenas nos Estados Unidos. Seus ativos em 2016 valiam 180 bilhões de dólares. Com tudo isso, a Walmart vale menos que a chinesa Alibaba, que vendeu um trilhão de dólares em 2016 e que atende mensalmente um público maior que a população norte-americana.
O livro de Tom Slee tem o mérito de desmistificar a aura de esperança com que a Economia do Compartilhamento foi encarada em seus primórdios. Ele é inspirado, como diz o autor na conclusão, por um sentimento de traição: muito longe de exprimir a cooperação direta entre indivíduos, o suposto compartilhamento deu lugar à formação de gigantes corporativos cujo funcionamento é regido por algoritmos opacos que em nada se aproximam da utopia cooperativista estampada em suas versões originais. O livro apoia-se numa sólida pesquisa empírica, mostrando consequências sociais desastrosas das corporações digitais. Sob a retórica do compartilhamento escondem-se a acumulação de fortunas impressionantes, a erosão de muitas comunidades, a precarização do trabalho e o consumismo.
O Airbnb, por exemplo, acabou por estimular que, em cidades turísticas importantes, como Barcelona, Paris e Amsterdã, as pessoas vendessem seus domicílios a empresas que operavam como se fossem indivíduos. Ao mesmo tempo, em muitas destas cidades o turismo se expandiu muito além dos limites da rede hoteleira. No verão de 2014, mostra Slee, o bairro parisiense do Marais recebeu 66 mil visitantes, mais que os 64 mil habitantes que ali residem de forma permanente. O resultado é que as regiões centrais das cidades atingidas, cujo atrativo era exatamente o de conciliar a beleza arquitetônica com o cotidiano de quem ali vivia, corriam o risco de serem convertidas em cenários de Disneylândia. Não é à toa que várias prefeituras impuseram regulamentações limitando o poder destes novos protagonistas da degradação urbana.
A ideia de que se eu precisar de algo posso contar com a ajuda dos outros e que isso vai gerar sentimentos e práticas de reciprocidade acabou se convertendo na oferta generalizada de trabalhos mal pagos e sem qualquer segurança previdenciária. Num ambiente em que os sindicatos estão cada vez mais fracos e os direitos trabalhistas sob aberta contestação, os resultados são devastadores. A utopia de que a relação peer to peer ampliaria o bem-estar, reduziria o desperdício e traria significado humano para as relações econômicas, tão fortemente cultivada pelo discurso do Vale do Silício, transformou-se no seu contrário, como mostra de forma documentada e inteligente Tom Slee. E o curioso é que a tão badalada Economia do Compartilhamento inclui gigantes digitais como Uber, Lyft e Task Rabit, mas nunca as cooperativas do sistema espanhol Mondragón, as inúmeras iniciativas de gestão comunitária de recursos ecossistêmicos comuns ou o que na América Latina se conhece como economia solidária.
Este livro é uma importante denúncia contra o cinismo dos que se apresentam ao grande público como promotores da cooperação social e do uso parcimonioso dos recursos, mas que na verdade estão entre os mais importantes vetores da concentração de renda, da desregulamentação generalizada e da perda de autonomia dos indivíduos e das comunidades no mundo atual.
Um dos capítulos mais interessantes deste livro é o que trata da confiança. A resposta do Vale do Silício aos estudos que mostravam a erosão da confiança na sociedade norte-americana a partir dos anos 1980 consistiu em enaltecer os sistemas digitais que atribuem reputação ao comportamento dos indivíduos e permitem, supostamente, que todos saibam quem é confiável. Slee mostra que estes sistemas são altamente distorcidos e que em hipótese nenhuma eles poderiam substituir o sentimento de identidade e pertencimento comunitário que formam a base real de qualquer democracia.
Uma das mais dramáticas consequências do capitalismo de plataforma é a drástica redução da responsabilidade socioambiental corporativa. Slee cita diversos exemplos em que, embora as plataformas sejam as maiores beneficiárias das operações comerciais que intermediam, elas renunciam a qualquer responsabilidade sobre suas consequências. E os gigantes digitais que hoje aparecem como expressão emblemática do capitalismo de plataforma insistem na narrativa de que são simples intermediários e que a responsabilidade pela relação comercial entre os que oferecem os bens e os serviços e os que os demandam não lhes cabe.
O livro de Tom Slee não é uma condenação ou uma expressão de ceticismo diante do fenômeno da cooperação social. É claro que a vida social depende do fato de os indivíduos e as organizações, nas mais variadas dimensões de suas vidas (inclusive na economia), compartilharem não apenas bens e serviços, mas sobretudo informação e conhecimento. As inúmeras práticas de ajuda mútua — que vão desde o cuidado com as crianças dos vizinhos até a formação de sistemas informais de microfinanças — são generalizadas no mundo todo.
Além disso, no interior da cultura digital há várias plataformas em que o compartilhamento se realiza, de fato, entre pessoas ou entre empresas, sem que isso abra caminho à concentração de fortunas e de poder que marca a face hoje mais visível da Economia do Compartilhamento, e à qual Tom Slee dedica mais atenção.
Parte crescente da inovação tecnológica contemporânea apoia-se em práticas pertencentes ao knowledge commons. Da mesma forma que ocorre com inúmeras situações em que recursos naturais são geridos por comunidades como pertencentes a todos (e cujo estudo respondeu pelo prêmio Nobel de Economia a Elinor Ostrom), há um vasto campo de comuns cuja administração não é centralizada num punhado de empresas altamente lucrativas.
É claro que o avanço cada vez maior da conectividade e dos meios para que ela chegue ao maior número de pessoas pode ser benéfico. Mas a distância entre conexão e bem-estar social será tanto maior quanto mais poderosos forem os gigantes digitais que determinam as regras segundo as quais funciona o maior bem comum criado pela inteligência humana: a internet.
Contrariamente à crença dos protagonistas dominantes da Economia do Compartilhamento, a revolução digital só vai melhorar a vida das sociedades contemporâneas se ela se apoiar em real abertura, em participação transparente e em redução das desigualdades. O livro de Tom Slee é uma contribuição fundamental nesta direção.

A sociedade dos afetos regredidos por Fran Alavina.

on 19/10/2017Categorias: Brasil, Capa, Cultura, Sociedade
171019-Afetos
Num tempo de sensibilidades afloradas, certas emoções ocupam o centro da política. É neste ambiente que grupos primitivos porém hábeis em manipulação de afetos, como o MBL, tentam emergir
Por Fran Alavina | Imagem: William Gropper, Leilão de Arte (1959)
A experiência do mundo contemporâneo parece ter gerado um consenso estético de que vivemos tempos de insensibilidade. Ainda que possa soar como algo piegas, e independentemente do espectro político – progressista ou conservador – é cada vez mais audível o discurso de que o caos atual, essa desordem programada a que assistimos atônitos, como se fosse uma pura ficção, seria fruto de uma ordem de coisas de natureza insensível. Para direita e para a esquerda, o certo é que este mundo atual não é o melhor dos mundos possíveis.
Bastaria, por exemplo, ouvir os discursos de Jean-Luc Mélenchon (à esquerda) ou de Marina Le Pen (à extrema direita), nas últimas eleições presidenciais francesas para se ter certeza de que seus pressupostos eram, antes de tudo, estéticos. Um “amontoado” de elementos discursivos contra a insensibilidade. Não se quer com isso afirmar que os dois são iguais, mas sim que os dois estão submetidos a uma ordem presente que faz dos afetos, das emoções e de todo campo sensível o lugar político mais determinante. É preciso sensibilizar, emocionar, ganhar os afetos individuais como se eles fossem somente uma mera determinação subjetiva, uma disposição pessoal sem nexo com outras determinações histórico-sociais.
De fato, os usos perversos de nossas disposições afetivas criaram esta ilusão de que somos pequenos átomos sensíveis, de funcionalidade própria: sentiríamos sobre o que bem quiséssemos e como quiséssemos. A realidade seria apenas o ativador dos circuitos sensíveis que funcionariam de acordo com a nossa livre decisão. Ocorre, porém, que nossas disposições sensíveis e afetivas não estão autonomizadas da cultura, ou seja, elas não são meramente naturais, pois também são um construto social.
Nossa sensibilidade nunca é solitária, ela se forma na interação com o mundo, que nos aparece em um primeiro momento como uma comunidade sensível, isto é, como um lugar de seres que sentem de modo semelhante e em conjunto. Se alguém ri daquilo que nos faz chorar, conjecturamos que esta pessoa não é um dos nossos, pois incapacitada de formar conosco solidariedade afetiva. Do mesmo modo, se perante algo que causa profunda comoção social, alguém parece não se comover, dizemos que é um insensível; e, dependendo da situação, chega-se mesmo a colocar em questão sua humanidade. Aprendemos a medir o grau de humanização a partir de uma teia sensível, de uma gama de afetos que construímos ao longo do tempo, e que por nos conectar com nossa intimidade, acabamos naturalizando como se fosse algo já dado de uma vez por todas.
Em virtude dessa naturalização de algo que não é natural, quase não se percebe que no momento histórico que nossas capacidades sensíveis estão expostas a um grau máximo de excitação, diz-se que são tempos de insensibilidade: o período da sensibilização intermitente é dito insensível. Será que o nosso sentir tornou-se um não sentir? Será que na verdade nada sentimos quando achamos sentir?
A ascensão do virtual retirou do real a capacidade de ativador primeiro de nossa sensibilidade. Não que o real não nos excite mais, porém ele somente nos sensibilizará se nos for dado na forma do virtual. Uma mistura que quando subordina o real à forma do virtual leva a considerar, de modo estapafúrdio, que há uma “realidade aumentada”. Dessa mistura gesta-se uma confusão entre real e virtual, confusão que cria o paradoxo de que os tempos da sensibilidade absurda são tempos insensíveis. Mas aí o que se chama insensibilidade, na maioria das vezes, é incapacidade de lidar com os novos recursos que expandem nossa sensibilidade; em outros casos, é o contrário, trata-se da capacidade de gerir estes recursos de modo a se realizar uma gestão política dos afetos. Fazendo parecer que a manipulação sensível-afetiva possa se passar por espontânea e legítima, já que estamos acostumados a pensar que nossa sensibilidade age autonomamente perante seus ativadores.
As manifestações destituintes de 2015 e 2016 marcaram para nós um modelo de gestão política dos afetos. Nelas, os afetos da política foram transformados cada vez mais na política dos afetos. Do nosso lado, alguns contentaram-se com uma explicação superficial, que até hoje ainda vem à tona, de que o ódio explicaria por si só todo o circuito afetivo de uma passionalidade política reacionária. Se é certo que há uma boa parcela de ódio, ele não age sozinho, e, ademais, não pode ser assumido abertamente, uma vez que é uma das marcas da construção social de nossa sensibilidade que odiar não é o mais nobre dos sentimentos.
Neste modelo de gestão política dos afetos destacou-se um grupo gestor preparado: o MBL. Foi um dos principais articuladores de como se deveria sensibilizar para as manifestações. A desculpa de que a corrupção era o principal alvo, criou uma normalização dos afetos, pois quem não se moveria contra ela, quem não se indignaria contra o roubo? Contra a corrupção todos as reações eram legítimas, espontâneas, corretas, em uma palavra: eram naturais.
Esta naturalização vulgar dos afetos, que se não eram completamente manipulados, não se poderia dizer meramente espontâneos, deu lugar a um discurso que deve manipular a sensibilidade política para daí criar a ilusão que há um consenso, quando, na verdade, há apenas uma aglutinação de indivíduos que se movem por uma sensibilização que lhes é externa, e sobre a qual não possuem domínio, mas que para eles se mostra como algo espontâneo-natural.
Assim, a excitação que partiu do virtual, fez das ruas uma espécie de “realidade aumentada”, já que as manifestações continuavam a ocorrer mesmo depois de se ter ganhado as ruas e saído delas; e nestas mesmas ruas, elas ocorriam sob a forma do virtual. Era como se os vídeos assistidos nas páginas virtuais do MBL pudessem ser vistos apenas em outro lugar que não o computador, ou o aparelho celular, obedecendo, contudo, as mesmas formas. Era preciso excitar, de modo que ativação do estado de excitação política perdurasse o máximo possível, pois como bom gestor da manipulação emocional, o grupo sabe que não se pode exercer um domínio ininterrupto sobre um estado de excitação por demais prologando. O organismo excitado cansa, além de se dar por satisfeito quando desconfia ter alcançado o ápice de suas aspirações.
O orgasmo político já aconteceu, posto que a destituição foi realizada. Como nos momentos de pós-gozo, o grupo e seus mais fiéis seguidores aproveitaram-se dos rendimentos de sua estratégia política, elegeram vereadores alguns de seus mais destacados agentes excitadores, sem, logo após as manifestações destituintes provocar um novo estado de excitação do mesmo tipo. Era preciso elaborar um discurso legitimador da experiência orgástica, para que ela pudesse ser recordada e colocada em uso nos momentos em que não podendo ser de novo ativada, ao menos prometesse a repetição da experiência.
Sem a promessa de repetição, o grupo perderia sua legitimidade, já que se mostraria incapaz de conduzir novamente os mesmos estados de excitação. Daí ter chegado o tempo de realizar um novo circuito de comoção emocional e obscurecimento afetivo. Todavia, se agora não há mais um estado político capaz de pôr em marcha as estratégias da sensibilidade manipulada do grupo, como excitar de novo, já que seus seguidores já estavam sob um longo período de abstinência?
Ora, a estratégia foi então voltar-se para aquele campo que apela mais diretamente ao sensível: a Arte. Neste âmbito, como na Política, todo nosso campo afetivo pode liberar-se dos usos cotidianos e das experiências hodiernas que excitam pouco, e que se mostram para nós carentes de maior sentido. O deslocamento dos canhões midiáticos do grupelho, que se desviou dos eventos mais essencialmente políticos, não foi um simples desvio de foco, mas a tentativa de continuar chamando atenção, vinculando entre seus seguidores um estado de excitação como aquele de 2015 e de 16.
Pode-se identificar aí o mesmo princípio viciante dos narcóticos: após um longo período de abstinência, é preciso repetir a dose. Afirmar que o MBL é uma droga não é uma sentença de sentido metafórico, mas plenamente literal. Por conseguinte, é preciso ficar atento, já que uma vez estabelecido o ciclo vicioso, a tendência é que a dosagem seja aumentada. De fato, funcionando como um tipo de ópio – talvez se pudesse dizer o ópio dos liberais, se liberais por aqui houvesse – o MBL descaracteriza a realidade, dando a seus seguidores aquilo que pode excitá-los mais uma vez. O princípio de realidade é substituído pelo princípio de prazer, pois a ilusão e a farsa, na grande maioria dos casos, são mais prazerosas que a realidade.
De fato, não estava em questão uma discussão de cunho estético sobre as obras que o grupo se empenhou em destratar em obsessivos expurgos. A experiência artística foi deixada em segundo plano para dar lugar a um tipo de julgamento moral. Este joga com a vulgarização e o empobrecimento do campo sensível-afetivo. Na verdade, quando perguntamos a alguém que se deixou contaminar pela manipulação do MBL, declarando-se contra as exposições, sobre qual justificativa estética embasou a crítica, no geral ouve-se que não é arte. Então, quando se pergunta qual a sua respectiva definição de arte para que se possa separar o artístico do não artístico, o silêncio é a resposta mais frequente e menos vergonhosa. Depois de mais algumas indagações, apenas se repete: “aquilo lá não era Arte”! Mas baseado em que se diz que não é Arte? De novo o silêncio, ou o balbuciar de uma tentativa de resposta que não vai além de uma referência ensimesmada.
Se o grupo fosse honesto em suas condenações estéticas, e até mesmo, um pouco menos embrutecido, poderia ter acrescido às suas justificativas uma noção de poética, de quais regras considera válidas no plano do fazer artístico. Ou mesmo poderia apresentar exemplos daquilo que consideram como arte autêntica. Contudo, isso seria exigir demais…
Em recente entrevista-almoço, uma das suas lideranças mais destacada, ao justificar os atos contra as exposições, mostrou quão ricos são seus conhecimentos. As exposições devem ser fechadas, segundo ele, por serem financiadas com dinheiro público. Não aparece, uma única vez, um mísero argumento de caráter estético. Tudo se passa como se ele estivesse tratando de um delito comum, ou de uma de suas simplificações de economia liberal. Segundo ele, em tempos de crise, Arte não é prioridade. Depreende-se de sua resposta que o artístico é um bem de luxo, não uma necessidade humana essencial. Sua resposta deixa ver que, como já desconfiávamos, nunca se tratou de Arte, mas de reativar a sanha manipuladora de afetos do MBL.
Esta sanha, porém, não pode se mostrar como é: embrutecida e criadora de afetos repressores. É preciso dar uma roupagem de civilidade. Durante suas respostas, Kim usa chavões como dizer que defende os pilares da civilização ocidental “que basicamente são a filosofia grega, o direito romano e a religiosidade judaico-cristã”. Quase no fim da entrevista afirma que “de inspiração filosófica, sou platônico, acho que a ideia precede a matéria, acho que isto ajuda a ter a compreensão de que existe certo e errado, minha visão anti-relativista vem daí, de Platão”. Qualquer estudante de Filosofia do primeiro semestre sabe que está frase é uma das maiores vulgarizações do pensamento platônico, coisa de quem, de fato, nunca se dedicou seriamente à leitura dos diálogos do pensador grego — é aquele tipo de coisa que se diz à mesa para se parecer mais culto. Ah, tinha esquecido que a entrevista foi durante um almoço!
Contudo, no caso do afilado Kim, que se diz liberal, isto é ainda pior, pois se tivesse lido um dos diálogos do autor que diz ser sua fonte de inspiração, saberia que no seu modelo político ideal, o Estado deve exercer um tipo de controle quase absoluto, bem mais além das intervenções estatais que o moço do MBL tanto combate. Seria apenas tragicamente contraditório, se também não fosse cômico: eleger como uma de suas fontes de inspiração alguém que afirma o contrário do que você defende. A explicação dessa contradição, contudo, está em uma declaração dada um pouco antes. Sobre uma obra citada, ele diz: “esse, eu confesso que não li inteiro, só uns capítulos porque é grande o negócio”. Talvez ele nunca leia A República, de Platão, sua inspiração filosófica, para se dar conta da contradição, pois, como ele mesmo diz, “é grande o negócio”…
Kim parece gostar de livros tão curtos quanto suas ideias.

Brasil entre a pós-verdade e o teatro do absurdo, por Juan Arias.

Plenário do Congresso Nacional
Plenário do Congresso Nacional Agência Senado


O país precisa de um banho de realidade contra as mentiras dos políticos, cujo desejo é enganar a grande massa de pessoas fascinadas pelos discursos messiânicos


O Brasil, às vésperas da eleição presidencial de 2018, está vivendo uma mistura explosiva entre a mentira emotiva da pós-verdade, e a obra de teatro do absurdo, materializada na genial peça, “Esperando Godot”, do dramaturgo Samuel Beckett. Na obra do dramaturgo irlandês sabemos que Godot nunca vai chegar e, mesmo assim, todos continuam esperando por ele. O escritor ironiza que a vida é o que está acontecendo e não o que estamos esperando, do contrário, acabaríamos não vivendo a realidade. Ou alguém imagina que em 2018 vai chegar o Godot para redimir o Brasil de todos seus males? Ou que teremos o milagre de contar com um Congresso novo, expurgado dos caciques que dominam hoje, com políticos limpos de corrupção? Ou um Supremo que, finalmente, também colocará os políticos de luxo na prisão, que seja apenas a garantia da Constituição, sem se sujar em obscuros jogos políticos? Ou que dedique seu tempo discutindo se os cigarros podem ter sabor? O tabaco mata, com ou sem sabor. Todos sabem.
Não é pessimismo, é simples observação da realidade. Logo iremos ver, por exemplo, repetida pela terceira vez, uma com Dilma e duas com Temer, a votação para decidir se condenam ou absolvem um presidente. Será uma nova peça de teatro do absurdo. Podemos observar, se ainda tivermos paciência para ouvir, o vazio da linguagem de suas senhorias, a oferta de seu voto às suas famílias, a mentira da pós-verdade coberta pela emoção da pobreza de suas palavras. O verdadeiro Brasil parece não existir ou contar. Não conta o Brasil das pessoas normais que gostariam que as palavras significassem a verdade, que, por exemplo, fosse abolido o foro privilegiado, que é realmente um refúgio seguro contra os crimes dos políticos, privilégio que possuem hoje, no Brasil, 20.000 pessoas enquanto que nos Estados Unidos nem o Presidente da República conta com isso. Ou que o voto fosse livre e não obrigatório. Ou que as pessoas entrassem na política não para se enriquecer nem para acumular privilégios, mas para estar a serviço dos eleitores.
O Brasil precisa hoje de um banho de realidade contra as mentiras da pós-verdade, manuseadas pela linguagem dos políticos que é mais perigosa do que jocosa, porque, em sua grosseria está escondido o desejo de enganar principalmente a grande massa de pessoas com pouca cultura, fascinadas pelos discursos messiânicos dos novos ou velhos Godot, que são na verdade mais um fantasma da mídia do que uma realidade e uma solução. A sociedade brasileira moderna precisa abrir os olhos para não ser arrastada pela ilusão de que são os políticos, com suas mentiras ou meias-verdades, os únicos que podem tirar o país do poço em que ele foi jogado. É preciso uma reação inteligente, racional e não emocional da rua e dos meios de comunicação para saber distinguir entre aqueles que se apresentam como meros salvadores e aqueles que realmente sentem e se interessam pela vida das pessoas, cada dia mais ameaçadas e manipuladas.
Hoje existe no Brasil uma parte da sociedade mil vezes mais bem preparada do que a geração de seus pais. É uma reserva imobilizada, frente a uma porta fechada para impedir sua entrada na vida política. Uma parte da sociedade que seria capaz de entender o perigo da pós-verdade e o absurdo dos messianismos já desgastados. É dever de todos deixar que passem, abrir as portas do poder a eles e para isso é essencial que, quando chegar a hora de decidir nas urnas, seja punida a velha política que agora funciona como tampão para evitar a chegada de uma nova sabedoria. Votar de novo, por exemplo, nos caciques de sempre, sabendo que estão condenados ou são culpados de crimes de corrupção, seria a constatação de que o Brasil prefere esperar sentado a chegada de Godot. Ou que, no fundo, prefere e acha divertido se embalar na ambiguidade da pós-verdade, o novo maná dos políticos que se recusam a morrer.

Não há porque ter medo de espíritos, por Marcos Villas Boas




Não há porque ter medo de espíritos
por Marcos Villas Boas
Pelo crescimento da procura por ajuda e por cursos, como os de educação mediúnica, em casas espiritualistas, nota-se que cada vez mais as pessoas estão descobrindo a espiritualidade e esse processo crescerá nos próximos meses e anos. O que dificulta tal descoberta, ou o seu aprofundamento, é o medo que as pessoas têm dos espíritos, sobretudo daqueles ditos “trevosos”.
Denominar um espírito de “trevoso” é um preconceito e significa uma crítica ao que nós mesmos fomos algum dia, talvez num passado bastante recente, ou ainda pode ser uma realidade presente dentro da carne. Estar em “trevas”, segundo muitos espíritos explicam, é ter o lado sombra ou o lado luz desequilibrado, e isso ainda acontece com boa parte dos espíritos desencarnados e encarnados.
De acordo com o item 115 do Livro dos Espíritos e com interpretações apresentadas no programa Diálogo com os Espíritos, todo espírito é criado divino, perfeito, mas simples e ignorante, com diferentes corpos os quais deverão ser “jogados fora” ao longo de muitos milhares de anos de encarnações.
A vida, tanto nos planos dos desencarnados quanto no plano dos encarnados, é, portanto, um processo de constante aprendizagem para sutilização do ser, para que os corpos possam ir sendo sutilizados e, um a um, “jogados fora”.
É por isso que os seres humanos da Terra, em geral, não conseguem identificar vida em outros planetas do nosso sistema solar. A vida neles habita em outros corpos, de modo que a densidade é outra, a dimensão é outra, não sendo possível vê-los com os nossos olhos de encarnados na terceira dimensão.
Se o objetivo primordial da vida é aprender, a personalidade criada durante a encarnação, o ego, é apenas uma ferramenta de aprendizagem, e não um fim em si. Deste modo, todos os sentimentos presos ao ego, todas as posses, desejos e paixões, se não equilibrados, terminam atrapalhando o objetivo primordial, que é o espírito, a centelha divina dentro de cada um, aprender o máximo possível.
Um sábio espírito nos disse outro dia o seguinte, com essas palavras: “o medo é o principal alimento do mal”. O medo é o sentimento que mais nos afasta do nosso espírito, do Deus dentro de nós, e mais nos prende a ilusões do ego. É ele que trava ou atrasa o processo de aprendizagem, desde, por exemplo, a possibilidade de se abrir para a espiritualidade.
Pautados em filmes, livros e outras fontes socioculturais, as pessoas não conseguem sentir, não conseguem entender que somos todos espíritos, pois, além de preconceitos e outras ilusões criadas no ego, têm medo de serem assombrados. Uma vez que alguém ateste: “espíritos existem”, a pessoa terá que lidar com eles, com a possibilidade de estar sendo acompanhada 24 horas, de ter gente com ela dentro do quarto à noite etc.      
Isso realmente importa tanto? Se espíritos existirem e nos guiarem para o que se chama de “bem” e para o que se chama de “mal” o tempo todo, não é melhor saber? “Ah, eu prefiro nem saber”. “Ah, prefiro não mexer com essas coisas”. Entendam, amigos, “não mexer com essas coisas” significa passar a encarnação inteira iludido e, portanto, atrasando o processo de aprendizagem.
Ninguém vive aquilo que não atrai. Quando se começa a entender a espiritualidade e as relações vibratórias, compreende-se que não há o que temer. Se passarmos por algo, é porque precisamos daquele algo para evoluir. Você preferia não passar pela aula necessária e ficar travado na evolução porque espírito lhe dá medo?
Já dissemos em textos passados publicados neste blog que a coragem, a confiança no divino, na espiritualidade, está muito associada à fé. Muitas das situações que assustam os encarnados são aulas de fortalecimento da fé, necessárias à sutilização do espírito.
Ter medo é como querer entrar num esquadrão de elite e não passar pelos testes porque eles são supostamente perigosos, ou seja, desiste-se do fim maior por conta de inseguranças e de fraquezas.
Ficamos sabendo recentemente que um grupo espírita teria parado de utilizar as técnicas de apometria, pois, após tê-lo feito, aconteceram alguns fatos que os assustaram e que foram atribuídos a espíritos “trevosos”. É uma pena deixar de utilizar ferramentas avançadas de prática do bem, e de aprender muito mais com elas, por medo de espíritos que querem a balbúrdia e que teriam seus fins atrapalhados pelo uso de  tais ferramentas.
Não se deve ter vergonha de ter medo, contudo. É um sentimento comum, que faz parte do processo de aprendizagem. Destituí-lo é uma das fases do jogo. Outro sábio espírito nos disse poucos dias atrás: “Apenas tem vergonha quem a tem”. Leia-se: apenas tem vergonha quem tem vaidade e orgulho. Vaidade e orgulho são medos, ou seja, medo de ser exposto, medo de perder algo a que se está apegado, medo de não ser admirado etc.
Não se deve ter vergonha das deficiências. Aliás, expô-las e lidar com elas é parte importante do processo evolutivo, segundo Osho e vários outros sábios, inclusive muitos dos principais estudiosos da Psicologia na história humana. Quanto mais se esconde as sombras de si próprio e dos outros, quanto mais se “joga a poeira para debaixo do tapete”, mais fica difícil de “arrumar a casa” de verdade.
Todos são dotados de sombra e luz. Esses dois lados precisam viver em equilíbrio. O desequilíbrio em qualquer deles gera o que se chama de trevas. O bonzinho demais e o malzinho demais terminam desequilibrados, e isso pode gerar atos chamados de trevosos, até mesmo por desencarnados, inclusive por muitos que se acham e que são tidos por bonzinhos. Deste modo, o trevoso é apenas alguém em desequilíbrio, pouco desperto em termos de consciência. É alguém que precisa de ajuda, e não de medo e aversão.   
Não há porque ter medo de espíritos, pois uma parte deles está aqui para nos ajudar e a outra parte, que quer nos atrapalhar, é apenas ignorante e útil ao processo de aprendizagem, pois nos proporciona diversos testes. São amigos que, por raiva, vaidade, orgulho e outros sentimentos negativos querem lutar contra a natureza e seus processos evolutivos. Ao fim e ao cabo, eles não percebem que estão ajudando a providência divina e, portanto, nos ajudando a nos melhorarmos.
Quem participa de reuniões de desobsessão cansa de ver irmãos, semanalmente, que chegam lá se dizendo demônios, com a mão em posição de garras, arranhando a mesa, dizendo que vão matar a todos e que saem de lá, após passes, esclarecimentos e outros tratamentos, pedindo desculpas, afirmando que perderam muito tempo em ilusões. Esse é o destino de todos eles, mais cedo ou mais tarde, pois, por uma lei da natureza, todos caminham em direção ao divino, ao esclarecimento, à iluminação interior.
Nessa linha, não há porque clarividentes terem medo de espíritos que se plasmam como serpentes, lobos, demônios etc. São formas usadas para assustar, para impor respeito ou por ilusões próprias. Todos eles, por estarem na Terra, fazem parte desta humanidade. No final das contas, são todos humanos, quase todos já encarnaram neste planeta em algum momento e a forma humana deles pode ser restituída.
Ter medo desses amigos apenas deixa as pessoas ainda mais suscetíveis a eles. A vibração do medo é muito densa e, como apenas podemos sofrer ataques por afinidades vibratórias, o medo é exatamente o que eles buscam para poderem atingir as vítimas.
É preciso dialogar despretensiosamente com esses espíritos, ajudá-los, emanar amor para eles e, em caso de recalcitrância, deixar na mão da espiritualidade que nos guarda, pois todo aquele que tem bons sentimentos e boas intenções é muito bem guardado.
Em último plano, também, raciocinemos: qual o pior que pode acontecer? Desencarnar? Se desencarnar, continua vivo, e para toda a eternidade. Continua-se o processo de aprendizagem, porém em outra densidade, em outra dimensão. Ter medo de que, então?
“Ah, mas eu posso ser desencarnado por um espírito trevoso e depois ele ainda pode me escravizar no plano astral”. Se isso acontecer, é porque você precisa passar por aquilo. Enfrente de bom grado. Desencarne e seja escravizado com fé e serenidade, que a ajuda chegará no momento certo e a fé antecipará esse processo de socorro. Tudo isso servirá para a evolução, pois passamos por aquilo que exatamente devemos passar.
Questionar esses processos é não entender ou não querer aceitar as leis da natureza, de Deus, do cosmo, seja lá como se prefira denominar. Não há o que temer. Aceitemos o que vier de bom grado, mas não nos sujeitando ao que não nos deixa pleno. Parte do processo de evolução é conseguir se manter em vibrações elevadas de plenitude.
Não defendemos a busca do sofrimento e da dor; aliás, muito pelo contrário. O espírito deve buscar a plenitude, viver com o máximo de realização e amor. Defende-se a fé, a serenidade, o equilíbrio, a paciência, a tolerância nos momentos em que enfrentamos inevitáveis dificuldades.
Como as pessoas gostam de filmes e são imensamente “manipuladas” por eles, é interessante lembrarmos do personagem Jack Sparrow da série de filmes, de enorme sucesso, Piratas do Caribe. Sparrow é uma figura espetacular, que revela, a nosso ver, altíssima evolução espiritual.
Nos filmes, Sparrow se mostra uma figura quase que altista, desligada da realidade que se passa à volta, sempre fazendo gracinhas, mas, no final dos filmes, descobre-se que ele sempre estava à frente de todos os demais. Ele não se estressa, não se preocupa, não perde a cabeça, tratando tudo com tranquilidade e graça.
Nos momentos de perigo, Sparrow não sente medo, mas, quando é necessário, não tem vaidade e sai correndo dos riscos. Apesar de não perder a cabeça com isso e de não parecer, nota-se, sempre mais ao final, que ele se preocupa com todos e que quer ajudar.  
Jack Sparrow vive pleno, alegre, despretensioso, com fé, sem apego a posses, paixões e desejos. Esse é o objetivo do ser humano: amar o cosmo, a natureza, Deus; amar a si mesmo e todos os demais espíritos desencarnados e desencarnados; e desapegar do material sem precisar negá-lo ou reprimi-lo.  
Não falamos aqui em fé cega, mas na compreensão da natureza e dos seus processos. É uma fé raciocinada, um sentimento de segurança de que estamos em processo de aprendizagem e de que somos guardados.
Não se fala aqui em desapegos ilusórios impostos por religiões e filosofias espiritualistas mal interpretadas, mas de um equilíbrio no gozo do material, não deixando de ter experiências e de aproveitar as chances de aprendizado que a vida na carne dá. Não é nada mais do que isso que viemos fazer aqui: ter um tipo de experiência, num dado planeta, num dado contexto de processo evolutivo.
Reprimir-se, querer ser santo muito antes da hora, é muitas vezes medo de enfrentar a realidade e/ou orgulho de querer sentir-se evoluído e de parecer aos outros evoluído. Quando o ser se reprime, ele não será pleno, pois é preciso cada um trabalhar em cima da sua verdade. Ao se reprimir, cria-se um personagem, fortalece-se o ego com ilusões, em lugar de expor os lados sombra e luz do espírito para que possam ser trabalhados.
O início do processo de real entendimento sobre a espiritualidade e sobre o que viemos fazer aqui nesta encarnação passa pelos temas acima. O próprio processo de aprendizagem vai nos dando maior entendimento sobre esses temas, não havendo que se pretender esgotá-los em uma encarnação.
Com esse intuito, no entanto, é preciso começar a deixar as ilusões do ego de lado para utilizá-lo - o ego, essa personalidade que tem um nome transitório, que tende a durar uns 70, 80 ou 90 anos – em favor do processo de aprendizagem maior, do espírito, e não contra ele, como uma âncora que nos prende aos mesmos erros do passado.
Não há porque ter medo da encarnação, não há porque ter medo de espíritos desencarnados, não há porque ter medo dos encarnados. Tudo é aprendizagem, até mesmo sofrer um assassinato. Esse desapego não acontece de uma hora para a outra, mas, quanto antes começarmos o processo, melhor.

Para a CIA Plano Astral existe e é potencial arma de Parapolítica, por Wilsom Ferreira Vieira



Após dois anos de batalha judicial na qual ativistas processaram a CIA através da FOIA (Freedom of Information Act), a Agência foi obrigada a disponibilizar 800 mil documentos em sua biblioteca virtual disponível na Internet. Entre as 13 milhões de páginas revela-se o interesse da Inteligência militar por investigações sobre percepção extra-sensorial (ESP) e o Plano Astral. Dois documentos se destacam. O primeiro faz um resumo das investigações da CIA sobre o Plano Astral. E o segundo, um pequeno manuscrito sobre os perigos que envolvem essas pesquisas com referência a Aleister Crowley e o “ocultismo profano” Nazi. É sabido que durante a Guerra Fria os EUA fizeram intensas pesquisas sobre visão remota para espionagem. Mas os documentos dos anos 1980 sugerem algo além: contato com “energias inteligentes e não corporais” de outras dimensões e projeções da consciência ao passado e futuro. Será que, assim como no ocultismo nazi, também a Inteligência militar dos EUA tenta manipular potenciais armas de Parapolítica?

Almino Afonso, ministro do Trabalho no governo João Goulart (1962-64), era entrevistado no programa Roda Viva da TV Cultura/SP. A certa altura a jornalista Eliane Catanhêde interpelou o entrevistado a dar os nomes daqueles que traíram o presidente Goulart dentro da base parlamentar, fragilizando-o diante da eminência do golpe militar. Almino Afonso respondeu dessa maneira:
“A maioria deles... eu enfrentaria problemas terríveis em um plano que não sei absolutamente conviver, um plano de outra dimensão da vida (ele fala gesticulando as mãos para o alto)... é muito complicado, e eles quase todos estão mortos... imagina quantos no conjunto já morreram. Sou um dos raríssimos ministros que ainda está vivo”
Uma resposta curiosa: Afonso parece afirmar que o quê impede de delatar os nomes dos traidores não é apenas o bloqueio moral (delatar pessoas que já morreram), mas também respeito e temor pela “outra dimensão da vida” e “problemas terríveis” como se alguma represália o aguardasse por aqueles que estão na “outra dimensão”.

As conexões entre o mundo da política e dos políticos com o oculto sempre mereceu pouca atenção tanto da mídia quanto de acadêmicos. A não ser quando o tema é tratado ou como bizarrice, curiosidade folclórica; ou como “teoria conspiratória” sem qualquer validade científica.

Tudo que podemos encontrar são, aqui e ali, pistas, sinais, evidências de que a Política não  se limita apenas a uma atividade unidimensional marcada pela luta por interesses materialistas como dinheiro e poder.

Túnel suíço, Bohemian Grove e o “Indiana Jones” nazi


O mais recente foi a “bizarra” cerimônia de inauguração transmitida ao vivo, no ano passado, do túnel ferroviário nos Alpes suíços (o mais longo do planeta) com uma massiva simbologia hermética, pagã e religiosa num grande show teatral multimídia. Com a presença de altos dignitários europeus – clique aqui.

Cerimônia de inauguração do "Gotthard Base Tunnel" no ano passado

Ou o encontro anual, há mais de um século, no Bohemian Club na Califórnia, de mais de dois mil membros da elite mundial (política, econômica e midiática), sempre no mês de julho. Sempre recebido com protestos de manifestantes anti-globalização, o ponto alto do encontro (registrado secretamente por uma câmera digital pelo jornalista Alex Jones no ano 2000) é um estranho ritual ocultista chamado “Cremation of Care” aos pés de uma estátua de coruja com 12 metros de altura – clique aqui.

Isso é o que o Cinegnose chama de “Parapolítica”, abordagem esotérica da política iniciada pelo jornalista e escritor francês Jacques Bergier no livro clássico “O Despertar dos Mágicos”. Com um farto conjunto de dados e referencias, Bergier aborda como o nazismo foi um movimento que transcendeu a mera política terrena: originado em sociedades fechadas ocultistas, seus líderes pertenciam a um mundo de videntes, médiuns e astrólogos. Seus planos militares e políticos tinham forte envolvimento com o Oculto.

Por exemplo: é historicamente documentado como a SS enviou historiadores e arqueólogos como Otto Rhan (conhecido como o “verdadeiro Indiana Jones”) atrás de relíquias como a Arca da Aliança em incursões pela França Meridional, em cavernas no entorno da fortaleza de Montsegur, na qual os gnósticos cátaros foram massacrados como hereges pela Igreja no século XII. Heinrich Himmler acreditava que, mais do que relíquia religiosa, a Arca poderia conter energias ocultas que poderiam ser direcionadas para fins de conquista – clique aqui.

Jacques Bergier

CIA e o Plano Astral


Outro exemplo é a recente liberação de documentos da CIA envolvendo pesquisas sobre Percepção Extra-Sensorial e a existência do chamado “Plano Astral”.

Depois de muita pressão dos defensores da lei de liberdade de informação a CIA liberou recentemente on line 800 mil documentos classificados como secretos até os anos 1980 e que, até então, somente eram acessíveis ao público nos anos 1990 em computadores nos fundos de uma biblioteca nos Arquivos Nacionais, em Maryland.

Entre os registros mais “exóticos” são aqueles que envolvem OVNIs e pesquisas em percepção extra-sensorial. Entre eles, dois se destacam: um de Wayne Mcdonnell (da Inteligência do Exército dos EUA) intitulado “Analysis and Assessment of Gateway Process” de 1983 – endereçado ao comando da US Army Operational Group com um resumo das investigações da CIA sobre o que muitas vezes é chamado de “Plano Astral” entre ocultistas e esotéricos.

E outro, um curioso manuscrito sobre os perigos das pesquisas em Percepção Extra-sensorial – “ESP Research and Its Dangers” de 1985.

A noção de Plano Astral está associado a certas religiões orientais como o hinduísmo, jainismo e budismo – noção fundamental para o conceito de “nirvana”. Ou para os espiritualistas, um plano além do mundo material que consiste em diversos planos vibratórios ou “regiões” através das quais poderíamos viajar ao mudar o foco da consciência.


Algumas religiões acreditam que o Plano Astral somente poderia ser acessado depois da morte. Mas a partir das pesquisas e experiências da chamada “Projeciologia”, seria possível projeções da consciência e experiência fora do corpo (projeção astral), isto é, a “saída” da consciência do corpo físico e a manifestação em uma dimensão extra-física.

Embora a Ciência descarte essas experiência apenas como solipsistas estados alterados da mente, parece que a CIA e a USAISCOM (United States Army Information Systems Command) levaram tudo isso muito a sério.

O documento inicia fazendo um resumo das técnicas mais conhecidas de projeçãoo astral e seus fatores biomédicos: hipnose, biofeedback, meditação transcendental.

Hemi-Sync e o Instituto Monroe


Mas o documento trata principalmente do chamado “Gateway Process” e a técnica “Hemi-Sync” – sincronização dos hemisférios cerebrais, técnica desenvolvida por Robert A. Monroe (1915-1995) e o seu Instituto Monroe dedicado a pesquisas sobre estados de consciência e experiências da consciência fora do corpo.

Monroe desenvolveu o Hemi-Sync - sincronizar a amplitude de frequência dos dois hemisférios cerebrais para criar estados alterados que permitam à consciência transitar por diversos “focos”, até chegar ao “21” no qual escapamos das restrições de tempo e espaço indo tanto para o passado quanto futuro.

O Instituto Monroe manteve diversos contratos com o complexo de Inteligência Militar dos EUA, até o ano da morte do seu fundador em 1995. Como podemos perceber no documento de Wayne Mcdonnell, havia o interesse em treinar agentes na arcana ciência da visão remota como ferramenta de espionagem.

Há diversos documentos relatando que durante o período da Guerra Fria entre EUA e URSS nos anos 1970 foram realizadas diversas ações de visão remota em áreas de testes militares soviéticos, áreas de instalações nucleares e de construção de submarinos.

Em 1988, um visualizador remoto teria localizado o local onde estava preso no Líbano o Coronel William Higgins e durante a Guerra do Golfo teria sido utilizada para localizar o esconderijo de Saddam Hussein.


Viagens da consciência no Tempo


Mas parece que o documento sugere algo muito maior, para além das missões de espionagem ou resgate de oficiais sequestrados.

O documento também discute o conceito de consciência como energia aprisionada num espaço tridimensional no qual todo o Universo se apresentaria como um holograma. Porém, essa energia pertence ao “Absoluto” (“The Absolute”) um estado original e infinito que transcenderia os diversos hologramas pelos quais cada realidade é representada em cada nível vibratória do Plano Astral.

O objetivo seria expandir a consciência até alcançar a dimensão do Absoluto no qual nenhum holograma é gerado sobre si mesmo. Sem mais restrições de tempo/espaço, a consciência alcançaria o “focos” de 15 a 21 – viagem da consciência no tempo do passado ao futuro.

Mas o curioso é uma das conclusões finais do documento que abrem para possíveis pesquisas futuras: preparar intelectualmente os projetores astrais para “possíveis encontros com formas de energias inteligentes e não corporais quando os limites de tempo espaço forem excedidos”.


Os Perigos das Pesquisas no Plano Astral


Isso se liga ao enigmático documento apócrifo “Pesquisa em Percepção Extra-Sensorial e seus Perigos”. O texto faz alusão às experiências ocultistas da chamada Vril Society - grupo ocultista por trás de Hitler e da SS de Himmler e o “ocultismo profano” de Aleister Crowley, membro dessa sociedade. Como esse ocultismo foi a tentativa de um atalho para a busca do poder da percepção extra-sensorial. E que resultou em “canibalismo social”, violência e assassinatos com a ascensão do nazismo.

E os perigos desse mesmo “ocultismo profano” fazer parte do “poder dos EUA” e ameaçar “pessoas decentes” - clique aqui.

Tanto o livro "O Despertar dos Mágicos" de Bergier quanto a série espírita Nosso Lar (psicografada por Chico Xavier) descrevem a ação das chamadas “forças das trevas” nas regiões do Plano Astral próximas da Terra (o “Umbral”) com cidades, fortalezas e exércitos disciplinados com o objetivo de conquistar corações e mentes dos encarnados – principalmente seus líderes políticos.

O momento histórico era o da Segunda Guerra Mundial e essas forças manipulavam substâncias etéreas como as “formas-pensamentos” (termo teosófico para designar como o pensamento humano projeto no astral formas plásticas até formar egrégoras que, em muitos casos, se autonomizam ganhando força própria) caóticas sobre o continente europeu como uma nuvem magneticamente negativa.

E o ocultismo nazi parecia estar consciente da existência dessa convergência entre o Plano Astral e o material e procurou de todas as formas tirar proveito dessas energias etéricas.

Com a revelação desses documentos da Inteligência militar dos EUA sob a imposição da FOIA (Freedom of Information Act), poderíamos fazer a seguinte questão: assim como no trágico episódio do ocultismo nazi, será que o complexo militar norte-americano também busca “atalhos” para dominar as ferramentas de Parapolítica?

 E mais: será que agora com pretensões de manipular tanto o passado quanto o futuro? Tudo no melhor estilo da série Netflix Os 12 Macacos?