sexta-feira, 11 de agosto de 2017

PIZARRO, CAVALOS, OVOS E O FIM DA LAVA-JATO, POR ALEXANDRE MEIRA.

Então todo esse salseiro pra passar o Brasil à limpo foi pra acabar assim?
Como um menino mimado no meio de chuva de ovos de pata, o país assistiu ao arquivamento da denúncia decorativa contra o ex-vice corrupto (você pode trocar os adjetivos se preferir). Não sendo suficiente nos vêm o tal do “Sistema Distritão” entrando em campo como um camisa 10 do Íbis para assinar de vez o acordão da classe política... com o STF e tudo!  E a Democracia (clique aqui)? Não a do Maduro, a daqui! E pra fechar com chave de ouro o coro que come feio na Venezuela chama mais atenção dos brasileiros do que o nosso coro sendo tirado na marra pra virar tamborim de samba atravessado por 14 milhões de desempregados! É nessa "família muito unida" da casa da mãe Joana que chegamos ao mais óbvio e triste desfecho de novela dos últimos tempos em horário nobre na TV: Sim, meu filho, você pode não ter percebido, ou até não concordar, mas a Lava-Jato acabou. Faça o teste, acabou de vez (clique aqui)!
E antes de, emocionado, limpar as lágrimas no colarinho da camisa da seleção brasileira, continue lendo. Vale a pena ver de novo. O final da história quando for passado no cinema (Já tem filme!) ou apresentado no musical sobre a famosa força-tarefa necessariamente deverá ser modificado. Afinal, algo de final feliz deve ter, caso contrário, será realidade demais para ser pago pra ver. Fora isso, só se inscrevendo em alguma palestra do Dallagnol.
Imagine! O Ministério da Justiça sendo feito de Torquato e sapato, derramando todo o peso do seu calibre institucional sobre o outrora diligente diretor-geral da Polícia Federal, que acabou vendo sua operação padecer de fome e sede, sem recursos! Sim, com o exaurimento das verbas repassadas para a instituição, A PF ficou sem capacidade logística e produtiva para que a força-tarefa se dedicasse com o mesmo afinco às investigações da corrupção no sistema político. O que não deixa de ser também curioso, a operação morrer à míngua, justamente porque, segundo seus críticos, ela partidarizou violentamente as investigações fulminando o partido político, que enquanto no poder, mais apoiou a própria Polícia Federal e o MP. Não que os "malditos bolivarianistas" não merecessem tal tratamento, mas uma operação tão arriscada e importante para o país não merecia uma estratégia de atuação melhor traçada, não? Uma espécie de blindagem de credibilidade, que viria se ela fosse minimamente... imparcial? A maneira seletiva de agir, e as hipóteses pautadas em preconceitos e convicções ideológicas de seus próprios agentes, permitiu uma perigosa vista grossa aos “parças”, contra os malvados comunistas. “Parças” estes que ao sentarem no trono de Ferro tupiniquim, imediatamente promoveram uma verdadeira noite de São Bartolomeu, adivinhe você contra quem? Contra os próprios jovens idealistas do PF e MP que os pouparam, e que prometiam passar o Brasil à limpo, contra os stalinistas comedores de crianças venezuelanas.
 
Uma pausa, agora, para a sonora salva de palmas para o melhor roteirista da base do governo. Sem surpresas, e ainda com as ruas cheias, os vazamentos dos áudios de Sérgio Machado deram ao senador Romero Jucá (PMDB) a possibilidade de apresentar ao Brasil o funcionamento das entranhas da política brasileira, em plena gestação do “grande acordo nacional” para parar a Lava-Jato (“estancar a sangria”). Sambando na cara do Brasil como um todo. Uma imensa e maquiavélica jabuticaba que, para descer goela abaixo, precisava apresentar na bandeja, a cabeça da presidente eleita Dilma Roussef (clique aqui). Fora tão, mas tão perfeito na execução do plano, que nem mesmo com o vazamento na íntegra dos diálogos anti-republicanos sendo repetido por dias e dias nas redes sociais do país inteiro, houve qualquer tipo de mudança de estratégica ou recuo tático até hoje. Tudo correu conforme manda o figurino. Isso porque no cérebro de um corrupto contumaz, como Jucá e afins, há o reconhecimento imediato da falta de ética e caráter em qualquer um, dos "parças" aos seus potenciais algozes. Corruptos reconhecidos, pronto: Dobra-se a aposta! Os chefes da quadrilha sempre souberam que as panelas arranhadas dos filhotinhos da grande pata mãe da FIESP, nunca perderam indignados uma noite de sono sequer com a corrupção do país! Aceite que dói menos, caro colega, nunca foi pela corrupção! O tal “combate à corrupção” foi a bela roupa de festa usada nas ruas para mascarar um ódio de classe, um rancor, um saudosismo colonial, e principalmente a ira preconceituosa contra uma agenda desenvolvimentista de redistribuição de renda, que por mais problemas que tivesse, e tiveram, vigorava sob o aval democrático de ter sido aprovada em quatro eleições subsequentes (clique aqui). Registre-se a isso a afinada atuação casada das oligarquias, grupos financeiros e de mídia, para fazer o bolo amargo da revolta da classe média fermentar e crescer.
Como saldo, hoje, temos a classe política mais podre dos anos de redemocratização no comando, um verdadeiro Parlamentarismo de conveniências! E tendo, esta mesma classe política, apodrecido aos olhos da sociedade civil a forma como qualquer brasileiro enxerga a política enquanto forma de atuação cidadã (clique aqui). É grave. Para que se enxergue melhor o problema desculpe inclusive decepcioná-lo, mas política e políticos não são a mesma coisa. Fato é que durante essa carnificina, algo de imaterial perdeu-se no caminho, espero que não tenha sido uma expectativa de futuro minimamente viável. Crianças e jovens precisam de diferentes utopias, das mais leves, doces, pueris que sejam, mas eminentemente diferentes. Nem que seja para que as sacrifiquem cruamente depois em nome de outras menos etéreas, mas diferentes sempre. O que não se pode é padroniza-las, unifica-las, viabiliza-las em um discurso messiânico, a ser repetido incontestavelmente sob a luz de tochas tal qual um neófito da Ku Klux Klan. O que não pode é o discurso matar o diálogo. Quem dirá as nossas crianças no futuro que tudo isso hoje serviu para que Aécio, Jucá, e Loures, só para ficar nos que foram pegos em flagrante, mais as esposas de Cabral e Cunha..., todos, simplesmente todos, estão livres. Nota que acerca dos resultados da operação hoje sequer orgulho se percebe nas entrevistas de procuradores, juízes, jornalistas partidários... não conseguem sequer se orgulhar do que foi feito. Há apenas um lamento resignado. Veja, mandatos parlamentares permanecem intocáveis, a despeito da falta de dignidade que deva ser para um representante popular usar tornozeleira eletrônica. A presença de Alexandre de Moraes no STF e sua proximidade com Gilmar Mendes dia após dia, noite após noites, dos próximos anos dessa República servirá para intoxicar cada projeção de futuro dos brasileiros. Essa é a marca da desesperança, é a implacabilidade de um projeto de país que deu certo: Um país oligárquico, estúpido, cínico e vil. O conservadorismo brasileiro é bronco, chucro e sem  classe (sem trocadilho marxista).
Mas onde hospedou-se o erro esse tempo todo? Todos os que foram as ruas, e de suas belas varandas ressoaram panelas, são tão maus-caracteres assim por silenciarem tanto o grito preso na garganta, quanto o metal com teflon justamente durante a hora mais escura? Não acredito. Não acredito mesmo. E por conta de um cálculo muito simples: Nunca subestime quem quer ser enganado. Os jogos maiores, geopolíticos, históricos, a dança das grandes forças manipuladoras que se manifestaram tanto de dentro pra fora, como de fora pra dentro durante esses tempos golpistas, não se preocupe, esqueça: Eles mal as enxergam! Seguem apenas a voz, a imagem e o discurso de alguém que personifiquem uma ideia que espelhe seus medos e preconceitos. Basta algum idiota útil para personificá-lo, que os seguidores seguirão... porque só sabem seguir. Não sei quem foi que me disse uma outra frase, mas ela é ótima e ilustra muito bem os dias de hoje: “Não tenha ídolos, não cultue heróis, pois cedo ou tarde você acaba descobrindo que eles são tão ou mais imbecis do que você”. Há sim um toque de ingenuidade por trás de toda jornada messiânica, moralista e purificadora. A mesma ingenuidade que prega durante toda a história da humanidade peças incríveis a quem dela se vale, seja grego ou troiano, nativo americano ou europeu, coxinha ou mortadela. Independentemente se há justiça ou não pra quem atira a flecha ou se defende dela. Até por que, como diria a acusação: “Enquanto houver bambu, vai flecha!”. Quem dera, se fosse fácil assim. Agora, Inês (para não citar outra figura feminina) é morta. Lembro-me de histórias contadas, sabe-se lá se verdadeiras ou não, sobre a conquista espanhola. Ambos conquistadores, Cortês e Pizarro contra Astecas e Incas, respectivamente, aproveitaram-se desse elemento ingênuo para transformarem situações adversas de inferioridade estratégica em massacrante vitória. Cruel vitória, inclusive. Como deve ter sido revelador para ambos, que os nativos americanos em muito maior número e conhecedores exímios da região possuíam verdadeiro pavor... dos cavalos! Nunca vistos antes nas Américas, chegavam a confundi-los com seus cavaleiros como sendo uma só entidade. A tal ponto que Cortês pendurava chocalhos coloridos para que fizessem bastante barulho nas frentes de batalha; e quando mortos alvejados o exército de Pizarro os recolhia rapidamente para que os nativos continuassem com a falsa crença de que cavaleiros e cavalos eram uma coisa só. O pouco que isso durou durantes aqueles dias foi o suficiente para que os espanhóis superassem as primeiras dificuldades no front para depois implementar um profundo genocídio nas Américas. Como deve ter sido frustrante para os primeiros nativos quando se aperceberam que o foco de sua ira e medo não deveria estar nos cavalos. Penso muito nessa epifania aplicada ao idealismo de certos grupos de hoje. Quanto tempo foi perdido. Quantas vidas se perderam. Imaginar o quão duro pode ser um golpe de realidade contra uma visão de mundo, preconceituosa, utópica, religiosa que seja, independente se justa ou não. O quão destrutivo pode ser para nossas convicções de powerpoint, assumir o desastre provocado pela realidade quando ela implode de uma só vez, nosso próprio idealismo. Quanto de dor e expectativas perdidas pelos nativos, o quanto de esperanças de seu próprio povo foram queimados por uma crença ingênua, mesmo que visto agora, confortavelmente à distância. Independentemente aqui de qualquer tipo de julgamento etnocêntrico que isso possa gerar, faço apenas essa provocação. Falo apenas do mais simples de tudo. Atenho-me ao elemento ingênuo e puro que se encontra dentro de cada idealista, e que pode fazê-lo tanto voar mais alto, quanto matá-lo de uma vez, impiedosamente. O quanto disso foi necessário aqui em nosso país em pleno século XXI para entendermos, hoje, que uma operação como a Lava-Jato, que nasceu para revolucionar a política e a vida dos brasileiros, atacou um partido como sempre ao invés de mirar as nocivas oligarquias como nunca. Uma operação que cerrou fileiras única e exclusivamente contra um projeto político, ao invés de cerrar fileiras contra uma arraigada prática política! Acreditou-se que derrubando um governo eleito, um país novo em folha nasceria no lugar, mas ao invés disso viu um país desmoronar sobre suas próprias cabeças. Exigindo agora mais do que nunca seu sangue de trabalhador para manter por mais tempo privilégios historicamente alheios, quando o que você mais queria ao fim de tudo era o contrário: justamente acabar com privilégios. Quem dirá para seus filhos que você trocou o pouco que ele tinha por cacos de espelhos? Quem dirá para os seus filhos que o Brasil que ele vai herdar amanhã, foi você quem ajudou a construiu hoje?
É para desespero? Não. Ao menos... não, ainda. É tempo de paciência histórica. Por mais que seja engraçado o dito popular que reverberou na Bahia ultimamente, e que diz, que “Quem com pato fere, com ovo será ferido!”, não é tão simples assim! A história nos exige mais! Hoje sabemos que Incas e Astecas, preocupados que estavam com inimigos internos, erradamente ignoraram até o último minuto a presença de estrangeiros barbudos desembarcando e contatando os seus em suas próprias terras. Não foi só o medo dos cavalos que deu a vitória aos espanhóis. A eficiente articulação dos espanhóis com diferentes povos e etnias massacrados tanto por Incas quanto por Astecas, reverberando suas rivalidades e ressentimentos internos, potencializados por uma evidente superioridade tecnológica foram a marca da força bruta para a conquista sanguinária das Américas. O que deve-se pontuar aqui é que: Se o idealismo não for uma proposta verdadeiramente coletiva e altruísta, uma utopia no melhor sentido da palavra; se for uma luta com base em preconceitos, rancores, e ódio... a realidade pode ser implacável com seus próprios erros. Uma visão de mundo simplista é uma visão de mundo invariavelmente míope. Se Ned Ludd não tivesse iniciado uma quebradeira irreprimível contra as máquinas da tecelagem, nas quais ele e seus colegas se debruçavam nas intermináveis horas de exploração de trabalho da insalubre Leicestershire, nos primórdios da revolução industrial, adiar-se-ia por quanto tempo a cegueira quanto ao regime de trabalho massacrante nas fábricas inglesas do século XIX? Entende a diferença?
O que Pizarro e Cortês teriam a dizer para Sérgio Moro, afinal?
Resta sabermos se quando nos houver nova oportunidade histórica, em defesa do nosso futuro, alvejaremos dessa vez o cavaleiro, ou novamente o cavalo? Em nome do quê lutaremos? O roteiro desse filme tanto os espanhóis, quanto Gregos, e infelizmente o próprio PMDB de Romero Jucá conhece muito, mas muito melhor do que nossos meros idealismos de facebook.

Kafka, Buñuel e García Márquez na noite obscura do Congresso, por Juan Arias.


Os motivos para salvar ou condenar o presidente quase nunca mencionavam se ele era inocente ou culpado

Ao desligar a televisão, na quarta-feira passada, a tarde do processo contra Temer no Congresso brasileiro, tive a sensação de que as obras-primas da literatura e da arte mundial, como as dos escritores Kafka e Gabriel García Márquez e do cineasta Luis Buñuel, amigo de Lorca, não são mais surreais que o vivido ali.
Deputados de oposição protestam contra a votação surrealista da Câmara que barrou abertura de ação penal contra o presidente Michel Temer
Deputados de oposição protestam contra a votação surrealista da Câmara que barrou abertura de ação penal contra o presidente Michel Temer EFE

Ninguém sabia se se tratava de uma festa ou de um funeral. Alguns se debulhavam, gritando ao pronunciar seu “não” para acabar com Temer, e outros pareciam estar nas pontas dos pés, sussurrando um “sim” para salvá-lo, como se estivessem no quarto de um doente em coma ou tivessem vergonha de seu voto.

Ninguém entendia nada, como no Processo de Kafka, porque era difícil saber se se tratava de salvar um inocente ou de aniquilar um criminoso, porque todos dizia o mesmo para bendizê-lo ou maldizê-lo.

Uns queriam que Temer não fosse investigado “pelo bem do Brasil”, e outros, também por esse mesmo ânimo, preferiam que fosse. Os que queriam salvá-lo pronunciavam um “sim” seco, quase com medo de ser descobertos, e os que queriam tirá-lo bradavam como para reforçar com seus gritos uma derrota anunciada.
Os motivos para salvar ou condenar o presidente quase nunca mencionavam se ele era inocente ou culpado. Eram a economia, as reformas, a estabilidade do país ou a maldade da direita, que odeia os pobres. Temer era como um fantasma que ninguém sabia para que servia.
A noite kafkiana parecia também uma reencarnação do filme de Buñuel O Discreto Charme da Burguesia, no qual, dentro de uma sala em que se desenrola toda a trama, todos se odeiam enquanto fingem ser amigos, em que todos vão a lugar nenhum, em que se escondem atrás de religião ou da ideologia para que não apareçam seus lados podres.
Naquela noite de Temer, o surrealismo atingiu seu ápice quando um deputado sobre o qual pesam graves suspeitas de crimes cravou um “voto ‘sim’ contra a corrupção”. Disse-o com tanta convicção que quase se sufocou.
Ganha o prêmio milionário quem for capaz, depois daquela tarde de realismo mágico à García Márquez, de entender o que se passa hoje na política brasileira, da qual a tarde do Congresso foi símbolo e emblema.
Acho que o escritor colombiano poderia reescrever Cem Anos de Solidão, revisado à brasileira, porque, queira ou não, o Brasil é parte do continente do realismo mágico, no qual é difícil distinguir o que é real ou imaginário.
Caso se contasse, por exemplo, no exterior, que na tarde do processo kafkiano de Temer, os discípulos do Partido dos Trabalhadores (PT), que despojavam a gritos o presidente corrupto, provavelmente o preferem de pé até 2018, para que chegue ao fim exangue e exausto e possa ser usado eleitoralmente, ninguém acreditaria. Mas por que o PT, mestre em mover as ruas, não levou a Brasília nenhum dos seus para gritar “Fora Temer”? E o silêncio de Lula?
Por que parecem se tornar amigos de repente, mesmo que seja nas sombras dos bastidores, governo e oposição, como no processo contra Cristo, toda a velha guarda dos principais partidos, junto com o poder econômico e com os outros poderes fáticos? Parecem unidos num abraço para evitar que em 2018 possa surgir alguma novidade nas urnas que quebre o poder cristalizado da velha política desgastada e acima de tudo que possa não comungar desta anistia geral aos corruptos e não esteja disposta a terminar a Lava Jato.
Confesso que estamos diante de um novo surrealismo do processo kafkiano, no qual não se sabe onde está o culpado ou o inocente nem o que significam as palavras esquerda e direita, que mais parecem uma noz oca.
E se há algo de absurdo e de labiríntico, em que a política se envolve em si mesmo e nos obriga a apelar à pureza da arte e da literatura para desentranhá-la como um novelo embaraçado, é o divórcio entre a rua e o palácio, entre as pessoas e os políticos, como ficou evidenciado na longa, sombria e surrealista tarde do kafkiano processo contra Temer.

 

Fogo Cruzado, por El País.

    As possibilidades de guerra são muito distantes, como explicou o secretário de Estado Tillerson, bombeiro peculiar nesse fogo cruzado. Nem os aliados da Coreia nem os de Washington são favoráveis a facilitar um conflito armado. O comportamento de Trump, inativo diante de provocações anteriores, desmente suas verborreias. Mas, por mais distante que esteja a guerra hoje, há motivos para se preocupar com qual seria a atitude de Trump no caso de um risco real.
    Kim Jong-un segue o roteiro previsto. Quer que a Coreia do Norte seja reconhecida como potência nuclear e se empenha em um desafio explícito e absurdo à comunidade internacional. O preocupante da última escalada verbal é a presença na Casa Branca um presidente que, ao contrário de seus predecessores, vem se deleitando em descer ao nível dele. Kim é um ditador que se comporta como tal em um regime despótico; Trump é o presidente de um país democrático, sujeito a regras. Seus apelos ao “fogo e à fúria” confirmam um descontrole narcisista e que o seu mandato está cheio de disparates perigosos.
    A provocação e a definição dos Estados Unidos como inimigo externo fazem parte da estratégia da Coréia do Norte. Kim Jong-un sustenta quase toda a estrutura ditatorial do regime em uma suposta ameaça norte-americana. Mas nos últimos dias, desde que o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma nova rodada de sanções contra o regime norte-coreano, disparou-se uma escalada verbal ameaçadora e de tom apocalíptico que preocupa os mercados de investimento e os cidadãos de torno o mundo. Com sua retórica excessiva, Donald Trump disse que os Estados Unidos responderiam à próxima provocação de Pyongyang “com fogo e fúria jamais vistos no mundo”. A Coreia do Norte respondeu com a ameaça direta de atacar e “envolver em fogo” a base em Guam, a 3.400 quilômetros de distância, com seus mísseis balísticos.


    Temer se salva, por El País.

    Votação da denúncia na Câmara
    O presidente Temer, nesta quarta-feira
    Dilma Rousseff foi destituída no ano passado da Presidência do Brasil com a desculpa de que seu Governo tinha maquiado as contas públicas. Mas no discurso dos dirigentes políticos que promoveram sua queda estava subjacente uma ideia mais poderosa: era preciso acabar com um Governo corrupto. Quase um ano e meio depois, esses argumentos soam como um pretexto
    Só os militantes mais cegos podem negar que o Partido dos Trabalhadores de Lula e Rousseff se enlameou em uma monumental trama de corrupção. Sobre o envolvimento pessoal de Rousseff, porém, sempre houve sérias dúvidas. Bem ao contrário do atual presidente, Michel Temer, que teve a duvidosa honra de ser o primeiro chefe de Estado brasileiro denunciado por delitos penais. Uma denúncia apresentada pela própria Procuradoria-Geral da República depois de reunir sólidos indícios de que Temer montou um sistema para arrecadar subornos de grandes empresários

    A era do engano, por Fabio de Oliveira Ribeiro.

    A era do engano
    por Fábio de Oliveira Ribeiro
    Abro um livro ao acaso e https://www.youtube.com/watch?v=qV_cvRhf8hc a realidade explode em câmera lenta na minha consciência.
    “O espaço político como tal realiza e garante a liberdade de todos os cidadãos e a realidade discutida e testemunhada pela maioria. Mas a busca  de um significado para além da esfera política só pode ser levada a cabo se, como os filósofos da polis,  se opta  por interagir com a minoria e se convence de que  falar livremente com os outros sobre alguma coisa não produz realidade, mas engano, e não cria verdade, mas mentiras.
    Parmênides parece ter sido o primeiro a assumir esse ponto de vista. O crucial em seu caso não foi, por exemplo, separar a maioria dos sem valor da minoria dos homens bons como fez Heráclito e era típico do espírito agonal que marcava a vida política grega, em que cada homem se esforçava o tempo todo para ser o melhor. Parmênides distinguia o caminho da verdade, aberto somente ao indivíduo como indivíduo,  dos caminhos do engano trilhado por todos que estão na estrada com seus semelhantes para quaisquer propósitos.”  (A Promessa da Política, Hannah Arendt, Difel, Rio de Janeiro, 2008, p. 187)
    Segundo Parmênides, a política (como construção coletiva que é) não pode almejar o predomínio da verdade. No máximo, ela possibilita a criação de consensos. Mas não é possível estabelecer qualquer tipo de consenso quando vários grupos de pessoas divergem sobre quais que temas serão discutidos e que regras serão válidas ou revogadas.
    Isto explica, porque todas as democracias modernas substituíram a busca do predomínio da verdade pela construção de espaços que conferem legitimidade às decisões tomadas pela maioria. A guerra política justa (aquela em que cada grupo pretende impor ao outro sua verdade) é substituída pelo respeito às regras oriundas do processo legislativo que culmina na promulgação da Lei.
    Ao governo competiria fazer aplicar a norma e ao judiciário teria como incumbência dirimir os conflitos resultantes de sua aplicação. Nem o Executivo, nem o Judiciário deveriam ter o poder de criar normas jurídicas, exceto aquelas que regulamentam as Leis que definem os parâmetros de sua atuação.
    A crise da democracia se instala quando o equilíbrio deixa de existir. Foi o que ocorreu no Brasil. Encarregado de executar o orçamento respeitando a Lei de Responsabilidade Fiscal, o governo Dilma Rousseff rejeitou aumentar o salário dos juízes e vetou a realização de obras sugeridas pelos deputados. Aproveitando a instabilidade econômica amplificada pela imprensa, o presidente da Câmara dos Deputados iniciou um processo de Impedimento que, apesar de ser injusto e absurdo, não foi interrompido pelo Judiciário.
    A imposição ao conjunto da sociedade brasileira da verdade dos deputados (o desejo que eles tinham de realizar obras nos seus currais eleitorais para garantir suas reeleições) e da verdade dos juízes (sua ganância desmedida e mesquinha por aumento salarial) provocou a destruição da racionalidade do nosso sistema político. Foi assim que o Brasil caiu no colo de um usurpador cuja única verdade é o medo de ser preso pelos crimes que cometeu.
    Com o intuito de consolidar seu poder ilegítimo, Michel Temer colocou em prática um programa de governo que não foi aprovado pelos eleitores, mas que era muito desejado pela imprensa e pelo mercado. A verdade dos jornalistas e dos banqueiros conseguiu sobrepujar a vontade legítima da população brasileira de conservar seus direitos sociais, trabalhistas e previdenciários. A reação previsível apenas agravou a crise política e econômica.
    O contexto econômico não melhorou, o desemprego aumentou, o comercio encolheu, a arrecadação tributária estagnou e até as empresas de comunicação já começaram a cortar gastos. Preocupados com o estrago que fizeram aos seus próprios interesses, os amigos de Michel Temer querem jogar ele ao mar, não sem antes destruir o presidencialismo e, eventualmente, a unidade territorial do Brasil.
    Aqueles que caminharam ao lado de Dilma Rousseff foram enganados pelos aliados do PT e pelos juízes sedentos por salários nababescos e privilégios senhoriais. Os que caminham com Michel Temer tentam construir uma mentira, mas a realidade os impediu de fazer o país crescer para que eles pudessem colher dividendos eleitorais. A queda ou não do usurpador é irrelevante, pois ninguém conseguirá enganar uma população faminta e desesperada.
    De golpe em golpe, a crença popular na democracia enfraqueceu. A validade das Leis tem sido negada pelo Judiciário em diversos casos (vide  http://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/o-sanatorio-geral-nao-vai-passar-ele-voltou-por-fabio-de-oliveira-ribeiro). Abandonada a própria sorte, a população brasileira imagina sair do inferno neoliberal pelas mãos de alguém como Jair Bolsonaro (um inimigo declarado das liberdades democráticas).
    Parmênides e Hannah Arendt poderiam ter ensinado algo útil aos jornalistas, banqueiros, empresários, parlamentares, juízes e artistas que arquitetaram e instrumentalizaram o golpe de 2016. Agora eles terão que aprender outra lição. Uma que será muito mais dolorosa. A era do engano está apenas começando.

    Congresso e a Lei de Murphy, por Carlos Motta.




    Ninguém pode dizer que o nosso Legislativo não entende de leis.
    Legislar em benefício próprio, por exemplo, é uma prática mais que comum entre os nossos congressistas - eles adoram achar modos de melhorar de vida, a deles, é claro.
    Também são mestres em exercitar o conjunto de enunciados pragmáticos que se convencionou chamar de "Lei de Murphy".
    Um deles parece ter sido feito na medida para os nossos deputados e senadores, que volta e meia se debruçam em sua aplicação: "Nada é tão ruim que não possa piorar."
    Tome-se o caso dessa reforma política que está saindo de suas mentes brilhantes.
    E o tal "Distritão", em particular.
    Ele não é uma beleza?
    Ao mesmo tempo em que suprime a necessidade de partidos políticos, já que elege o candidato mais votado, não importa se o seu agrupamento, coletivamente, é irrelevante, ele dá oportunidade para o poderoso negócio de compra de votos funcionar a todo vapor - em tempos de desemprego bravo, essa não deixa de ser uma boa notícia.
    Dá até para imaginar como será alta a taxa de renovação do Congresso, esse Congresso que está sendo notícia no mundo todo, não exatamente por sua qualidade.
    Ah, mas o "Distritão" vai valer apenas como transição para o sistema definitivo, o Distrital Misto, que deve entrar em vigor apenas a partir de 2022, dizem os seus defensores.
    E a polêmica esquenta, enquanto um desses nossos mais que essenciais parlamentares resume o enredo da ópera-bufa da qual participa: “O modelo atual está esgotado. Não dá para fingir que está tudo bem e continuar com o sistema atual."
    Pura verdade.
    Afinal, o sistema atual fez brotar Bolsonaros e Tiriricas, Cunhas, Malafaias e Felicianos, e toda uma fauna defensora intransigente da família, do poder de Deus, do verde-amarelo da nossa bandeira, e de tudo o mais que a canalhice e a hipocrisia possam abrigar.
    Portanto, urge mudar.
    Mudar e mudar, em nome da transparência, da democracia, de fazer a vontade do povo ser seguida no Parlamento.
    O país precisa de reformas, quanto mais houver, melhor.
    Mas, essencialmente, para que a ponte para o futuro não trema, ou, desgraça das desgraças, desabe, é necessário que a renovação seja conduzida e efetuada por quem tem competência para tal.
    E quem melhor para isso que este brilhante Congresso que tantos ótimos serviços já prestou à nação?
    Que venha, portanto, o "Distritão", o "Distrital Misto", e todo esse aparato normativo que, com certeza, fará o eleitor finalmente ter consciência de seu papel como cidadão - como é que ninguém pensou nisso antes?

    1E-mail




    Dobre a Finados, esvai-se o projeto de Nação por Pedro Augusto Pinho.



    Após 63 anos de falecimento do dirigente que ousou, pela primeira vez, construir verdadeiramente a nação brasileira, o que nos ficou, além da profunda tristeza?
    Os mesmos males, a mesma ignomínia de uma classe que vive em águas turvas e se agarra como cracas ao Estado para entregar das riquezas do Brasil.
    O exemplo, o tiro daquele personagem tumular que, nas páginas de seu jornal,  escreveu a 6 de agosto de 1954:
    ".... perante Deus acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o desta noite. Este homem chama-se Getúlio Vargas" (Tribuna da Imprensa).
    No dia 23 daquele agosto, injustamente acusado pelo oportunista – que como todos os seus seguidores, sempre foi inimigo da nossa soberania – responde o grande Presidente, na manchete do único jornal que lhe dá acolhida:
    " Apenas morto sairei do Palácio do Catete" (Última Hora).
    Na distância de mais de meio século, com volumosa literatura desvendando diversas vertentes deste momento infeliz de nossa história, procurarei traçar um paralelo com a desdita de hoje.
    Como se forma a mente de um brasileiro, sem qualquer ganho com a submissão aos interesses estrangeiros, às potencias coloniais ou sistemas dominadores, que busca na mentira da publicidade enganosa dos fatos, no engodo das falsidades evidentes, em sua própria miséria, condenar os que lutam pela emancipação nacional e defender os traidores da Pátria? Não é resposta fácil, nem aceito a paranoia de ter a verdade. Coloco em questão a formação da cidadania.
    Quantos já reproduziram piadas degradantes, quantas vezes se manifestaram desilusão, descrença na força da nação, em quais situações procuram demonstrar nossa irresponsabilidade, nossa vocação para o êrro, o escamotear? E por que esta autodepreciação? O que é a cidadania, ser cidadão? Em primeiro lugar a dificílima aceitação da paridade; considerar que todos os brasileiros são iguais, pares nas decisões sobre o País.
    Esta é uma questão crucial, mas me deterei neste artigo à importância de Vargas em nossa história. Sem dúvida polêmica. Se prendeu e torturou brasileiros, cujo crime era discordar de sua administração, foi o primeiro governante a promover o efetivo desenvolvimento da indústria brasileira e a reconhecer a importância do trabalhador na formação nacional. Vinte anos após, por coincidência, outro presidente, que também prendeu e deixou que se torturasse opositores, Ernesto Geisel, promoveu a capacitação industrial brasileira nos segmentos de ponta, que hoje nos fazem falta: informática, nuclear e aeroespacial. Também este sofreu um golpe para designar seu sucessor.
    Getúlio foi crescendo na compreensão do Brasil e do mundo durante seu primeiro governo e chega ao segundo, eleito pelo povo, com a certeza de que só o Estado, atuando com profundidade na economia, poderia desenvolver o Brasil. Isto era, e ainda é, constatado em todo mundo, e só os ideologicamente contrários ao Brasil Soberano podem defender a invasão estrangeira, com as falsidades liberais ou neoliberais, promovidas pela banca, o sistema financeiro internacional. E como vemos, não se trata de esquerda ou direita, mas de nacionalismo ou entreguismo.
    Vargas viveu um momento em que as ideologias mais extremas galvanizavam as opiniões, restando um espaço desprezível para posições menos radicais. E como é óbvio, foi arrastado nesta disputa. Daí a acusação de ser um simpatizante do fascismo, como apontam alguns historiadores e biógrafos.
    Mas no inconsciente popular ele foi e continua sendo "O Grande Presidente", que defendeu o trabalhador, os menos afortunados, o "Pai dos Pobres".
    Tive, há dois anos, uma experiência significativa. Meu amigo do tempo de faculdade, o poliemérito intelectual, artista e escritor Nei Lopes lançava seu romance "Rio Negro, 50", cuja história transcorre em 1950. Participavam do evento amigos sambistas do Nei, que usaram a rua, transformada em de pedestre naquele sábado, para homenageá-lo com músicas da época. Haveria bem mais de 100 pessoas, entre os convidados e os que ocupavam as mesas do bar próximo. Surge o samba que fala de Vargas. Um uníssono e arrepiante aplauso se delonga, vindo de todos. A referência a Getúlio Vargas, num ambiente de classe média, em 2015, despertava esta manifestação. Não é outro o motivo que desde os governos militares, do entreguismo tucano de FHC, mesmo de Lula, para nem falar dos golpistas de 2016, há o desejo de extinguir a Era Vargas. E seus verdadeiros ou pretensos herdeiros sempre foram atacados, caluniados e criminalizados nas páginas da "grande imprensa".
    Que possamos prosseguir, com a adequação temporal, social e tecnológica, a Era Vargas, é uma verdadeira saída para o impasse brasileiro.
    No blog "Meu Lote", Nei Lopes publicou, em 03/08/17, "Outro agosto, muitos anos atrás", sobre suas recordações do 24 de agosto de 1954. Recomendo.
    Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado