sexta-feira, 11 de agosto de 2017

PIZARRO, CAVALOS, OVOS E O FIM DA LAVA-JATO, POR ALEXANDRE MEIRA.

Então todo esse salseiro pra passar o Brasil à limpo foi pra acabar assim?
Como um menino mimado no meio de chuva de ovos de pata, o país assistiu ao arquivamento da denúncia decorativa contra o ex-vice corrupto (você pode trocar os adjetivos se preferir). Não sendo suficiente nos vêm o tal do “Sistema Distritão” entrando em campo como um camisa 10 do Íbis para assinar de vez o acordão da classe política... com o STF e tudo!  E a Democracia (clique aqui)? Não a do Maduro, a daqui! E pra fechar com chave de ouro o coro que come feio na Venezuela chama mais atenção dos brasileiros do que o nosso coro sendo tirado na marra pra virar tamborim de samba atravessado por 14 milhões de desempregados! É nessa "família muito unida" da casa da mãe Joana que chegamos ao mais óbvio e triste desfecho de novela dos últimos tempos em horário nobre na TV: Sim, meu filho, você pode não ter percebido, ou até não concordar, mas a Lava-Jato acabou. Faça o teste, acabou de vez (clique aqui)!
E antes de, emocionado, limpar as lágrimas no colarinho da camisa da seleção brasileira, continue lendo. Vale a pena ver de novo. O final da história quando for passado no cinema (Já tem filme!) ou apresentado no musical sobre a famosa força-tarefa necessariamente deverá ser modificado. Afinal, algo de final feliz deve ter, caso contrário, será realidade demais para ser pago pra ver. Fora isso, só se inscrevendo em alguma palestra do Dallagnol.
Imagine! O Ministério da Justiça sendo feito de Torquato e sapato, derramando todo o peso do seu calibre institucional sobre o outrora diligente diretor-geral da Polícia Federal, que acabou vendo sua operação padecer de fome e sede, sem recursos! Sim, com o exaurimento das verbas repassadas para a instituição, A PF ficou sem capacidade logística e produtiva para que a força-tarefa se dedicasse com o mesmo afinco às investigações da corrupção no sistema político. O que não deixa de ser também curioso, a operação morrer à míngua, justamente porque, segundo seus críticos, ela partidarizou violentamente as investigações fulminando o partido político, que enquanto no poder, mais apoiou a própria Polícia Federal e o MP. Não que os "malditos bolivarianistas" não merecessem tal tratamento, mas uma operação tão arriscada e importante para o país não merecia uma estratégia de atuação melhor traçada, não? Uma espécie de blindagem de credibilidade, que viria se ela fosse minimamente... imparcial? A maneira seletiva de agir, e as hipóteses pautadas em preconceitos e convicções ideológicas de seus próprios agentes, permitiu uma perigosa vista grossa aos “parças”, contra os malvados comunistas. “Parças” estes que ao sentarem no trono de Ferro tupiniquim, imediatamente promoveram uma verdadeira noite de São Bartolomeu, adivinhe você contra quem? Contra os próprios jovens idealistas do PF e MP que os pouparam, e que prometiam passar o Brasil à limpo, contra os stalinistas comedores de crianças venezuelanas.
 
Uma pausa, agora, para a sonora salva de palmas para o melhor roteirista da base do governo. Sem surpresas, e ainda com as ruas cheias, os vazamentos dos áudios de Sérgio Machado deram ao senador Romero Jucá (PMDB) a possibilidade de apresentar ao Brasil o funcionamento das entranhas da política brasileira, em plena gestação do “grande acordo nacional” para parar a Lava-Jato (“estancar a sangria”). Sambando na cara do Brasil como um todo. Uma imensa e maquiavélica jabuticaba que, para descer goela abaixo, precisava apresentar na bandeja, a cabeça da presidente eleita Dilma Roussef (clique aqui). Fora tão, mas tão perfeito na execução do plano, que nem mesmo com o vazamento na íntegra dos diálogos anti-republicanos sendo repetido por dias e dias nas redes sociais do país inteiro, houve qualquer tipo de mudança de estratégica ou recuo tático até hoje. Tudo correu conforme manda o figurino. Isso porque no cérebro de um corrupto contumaz, como Jucá e afins, há o reconhecimento imediato da falta de ética e caráter em qualquer um, dos "parças" aos seus potenciais algozes. Corruptos reconhecidos, pronto: Dobra-se a aposta! Os chefes da quadrilha sempre souberam que as panelas arranhadas dos filhotinhos da grande pata mãe da FIESP, nunca perderam indignados uma noite de sono sequer com a corrupção do país! Aceite que dói menos, caro colega, nunca foi pela corrupção! O tal “combate à corrupção” foi a bela roupa de festa usada nas ruas para mascarar um ódio de classe, um rancor, um saudosismo colonial, e principalmente a ira preconceituosa contra uma agenda desenvolvimentista de redistribuição de renda, que por mais problemas que tivesse, e tiveram, vigorava sob o aval democrático de ter sido aprovada em quatro eleições subsequentes (clique aqui). Registre-se a isso a afinada atuação casada das oligarquias, grupos financeiros e de mídia, para fazer o bolo amargo da revolta da classe média fermentar e crescer.
Como saldo, hoje, temos a classe política mais podre dos anos de redemocratização no comando, um verdadeiro Parlamentarismo de conveniências! E tendo, esta mesma classe política, apodrecido aos olhos da sociedade civil a forma como qualquer brasileiro enxerga a política enquanto forma de atuação cidadã (clique aqui). É grave. Para que se enxergue melhor o problema desculpe inclusive decepcioná-lo, mas política e políticos não são a mesma coisa. Fato é que durante essa carnificina, algo de imaterial perdeu-se no caminho, espero que não tenha sido uma expectativa de futuro minimamente viável. Crianças e jovens precisam de diferentes utopias, das mais leves, doces, pueris que sejam, mas eminentemente diferentes. Nem que seja para que as sacrifiquem cruamente depois em nome de outras menos etéreas, mas diferentes sempre. O que não se pode é padroniza-las, unifica-las, viabiliza-las em um discurso messiânico, a ser repetido incontestavelmente sob a luz de tochas tal qual um neófito da Ku Klux Klan. O que não pode é o discurso matar o diálogo. Quem dirá as nossas crianças no futuro que tudo isso hoje serviu para que Aécio, Jucá, e Loures, só para ficar nos que foram pegos em flagrante, mais as esposas de Cabral e Cunha..., todos, simplesmente todos, estão livres. Nota que acerca dos resultados da operação hoje sequer orgulho se percebe nas entrevistas de procuradores, juízes, jornalistas partidários... não conseguem sequer se orgulhar do que foi feito. Há apenas um lamento resignado. Veja, mandatos parlamentares permanecem intocáveis, a despeito da falta de dignidade que deva ser para um representante popular usar tornozeleira eletrônica. A presença de Alexandre de Moraes no STF e sua proximidade com Gilmar Mendes dia após dia, noite após noites, dos próximos anos dessa República servirá para intoxicar cada projeção de futuro dos brasileiros. Essa é a marca da desesperança, é a implacabilidade de um projeto de país que deu certo: Um país oligárquico, estúpido, cínico e vil. O conservadorismo brasileiro é bronco, chucro e sem  classe (sem trocadilho marxista).
Mas onde hospedou-se o erro esse tempo todo? Todos os que foram as ruas, e de suas belas varandas ressoaram panelas, são tão maus-caracteres assim por silenciarem tanto o grito preso na garganta, quanto o metal com teflon justamente durante a hora mais escura? Não acredito. Não acredito mesmo. E por conta de um cálculo muito simples: Nunca subestime quem quer ser enganado. Os jogos maiores, geopolíticos, históricos, a dança das grandes forças manipuladoras que se manifestaram tanto de dentro pra fora, como de fora pra dentro durante esses tempos golpistas, não se preocupe, esqueça: Eles mal as enxergam! Seguem apenas a voz, a imagem e o discurso de alguém que personifiquem uma ideia que espelhe seus medos e preconceitos. Basta algum idiota útil para personificá-lo, que os seguidores seguirão... porque só sabem seguir. Não sei quem foi que me disse uma outra frase, mas ela é ótima e ilustra muito bem os dias de hoje: “Não tenha ídolos, não cultue heróis, pois cedo ou tarde você acaba descobrindo que eles são tão ou mais imbecis do que você”. Há sim um toque de ingenuidade por trás de toda jornada messiânica, moralista e purificadora. A mesma ingenuidade que prega durante toda a história da humanidade peças incríveis a quem dela se vale, seja grego ou troiano, nativo americano ou europeu, coxinha ou mortadela. Independentemente se há justiça ou não pra quem atira a flecha ou se defende dela. Até por que, como diria a acusação: “Enquanto houver bambu, vai flecha!”. Quem dera, se fosse fácil assim. Agora, Inês (para não citar outra figura feminina) é morta. Lembro-me de histórias contadas, sabe-se lá se verdadeiras ou não, sobre a conquista espanhola. Ambos conquistadores, Cortês e Pizarro contra Astecas e Incas, respectivamente, aproveitaram-se desse elemento ingênuo para transformarem situações adversas de inferioridade estratégica em massacrante vitória. Cruel vitória, inclusive. Como deve ter sido revelador para ambos, que os nativos americanos em muito maior número e conhecedores exímios da região possuíam verdadeiro pavor... dos cavalos! Nunca vistos antes nas Américas, chegavam a confundi-los com seus cavaleiros como sendo uma só entidade. A tal ponto que Cortês pendurava chocalhos coloridos para que fizessem bastante barulho nas frentes de batalha; e quando mortos alvejados o exército de Pizarro os recolhia rapidamente para que os nativos continuassem com a falsa crença de que cavaleiros e cavalos eram uma coisa só. O pouco que isso durou durantes aqueles dias foi o suficiente para que os espanhóis superassem as primeiras dificuldades no front para depois implementar um profundo genocídio nas Américas. Como deve ter sido frustrante para os primeiros nativos quando se aperceberam que o foco de sua ira e medo não deveria estar nos cavalos. Penso muito nessa epifania aplicada ao idealismo de certos grupos de hoje. Quanto tempo foi perdido. Quantas vidas se perderam. Imaginar o quão duro pode ser um golpe de realidade contra uma visão de mundo, preconceituosa, utópica, religiosa que seja, independente se justa ou não. O quão destrutivo pode ser para nossas convicções de powerpoint, assumir o desastre provocado pela realidade quando ela implode de uma só vez, nosso próprio idealismo. Quanto de dor e expectativas perdidas pelos nativos, o quanto de esperanças de seu próprio povo foram queimados por uma crença ingênua, mesmo que visto agora, confortavelmente à distância. Independentemente aqui de qualquer tipo de julgamento etnocêntrico que isso possa gerar, faço apenas essa provocação. Falo apenas do mais simples de tudo. Atenho-me ao elemento ingênuo e puro que se encontra dentro de cada idealista, e que pode fazê-lo tanto voar mais alto, quanto matá-lo de uma vez, impiedosamente. O quanto disso foi necessário aqui em nosso país em pleno século XXI para entendermos, hoje, que uma operação como a Lava-Jato, que nasceu para revolucionar a política e a vida dos brasileiros, atacou um partido como sempre ao invés de mirar as nocivas oligarquias como nunca. Uma operação que cerrou fileiras única e exclusivamente contra um projeto político, ao invés de cerrar fileiras contra uma arraigada prática política! Acreditou-se que derrubando um governo eleito, um país novo em folha nasceria no lugar, mas ao invés disso viu um país desmoronar sobre suas próprias cabeças. Exigindo agora mais do que nunca seu sangue de trabalhador para manter por mais tempo privilégios historicamente alheios, quando o que você mais queria ao fim de tudo era o contrário: justamente acabar com privilégios. Quem dirá para seus filhos que você trocou o pouco que ele tinha por cacos de espelhos? Quem dirá para os seus filhos que o Brasil que ele vai herdar amanhã, foi você quem ajudou a construiu hoje?
É para desespero? Não. Ao menos... não, ainda. É tempo de paciência histórica. Por mais que seja engraçado o dito popular que reverberou na Bahia ultimamente, e que diz, que “Quem com pato fere, com ovo será ferido!”, não é tão simples assim! A história nos exige mais! Hoje sabemos que Incas e Astecas, preocupados que estavam com inimigos internos, erradamente ignoraram até o último minuto a presença de estrangeiros barbudos desembarcando e contatando os seus em suas próprias terras. Não foi só o medo dos cavalos que deu a vitória aos espanhóis. A eficiente articulação dos espanhóis com diferentes povos e etnias massacrados tanto por Incas quanto por Astecas, reverberando suas rivalidades e ressentimentos internos, potencializados por uma evidente superioridade tecnológica foram a marca da força bruta para a conquista sanguinária das Américas. O que deve-se pontuar aqui é que: Se o idealismo não for uma proposta verdadeiramente coletiva e altruísta, uma utopia no melhor sentido da palavra; se for uma luta com base em preconceitos, rancores, e ódio... a realidade pode ser implacável com seus próprios erros. Uma visão de mundo simplista é uma visão de mundo invariavelmente míope. Se Ned Ludd não tivesse iniciado uma quebradeira irreprimível contra as máquinas da tecelagem, nas quais ele e seus colegas se debruçavam nas intermináveis horas de exploração de trabalho da insalubre Leicestershire, nos primórdios da revolução industrial, adiar-se-ia por quanto tempo a cegueira quanto ao regime de trabalho massacrante nas fábricas inglesas do século XIX? Entende a diferença?
O que Pizarro e Cortês teriam a dizer para Sérgio Moro, afinal?
Resta sabermos se quando nos houver nova oportunidade histórica, em defesa do nosso futuro, alvejaremos dessa vez o cavaleiro, ou novamente o cavalo? Em nome do quê lutaremos? O roteiro desse filme tanto os espanhóis, quanto Gregos, e infelizmente o próprio PMDB de Romero Jucá conhece muito, mas muito melhor do que nossos meros idealismos de facebook.

Kafka, Buñuel e García Márquez na noite obscura do Congresso, por Juan Arias.


Os motivos para salvar ou condenar o presidente quase nunca mencionavam se ele era inocente ou culpado

Ao desligar a televisão, na quarta-feira passada, a tarde do processo contra Temer no Congresso brasileiro, tive a sensação de que as obras-primas da literatura e da arte mundial, como as dos escritores Kafka e Gabriel García Márquez e do cineasta Luis Buñuel, amigo de Lorca, não são mais surreais que o vivido ali.
Deputados de oposição protestam contra a votação surrealista da Câmara que barrou abertura de ação penal contra o presidente Michel Temer
Deputados de oposição protestam contra a votação surrealista da Câmara que barrou abertura de ação penal contra o presidente Michel Temer EFE

Ninguém sabia se se tratava de uma festa ou de um funeral. Alguns se debulhavam, gritando ao pronunciar seu “não” para acabar com Temer, e outros pareciam estar nas pontas dos pés, sussurrando um “sim” para salvá-lo, como se estivessem no quarto de um doente em coma ou tivessem vergonha de seu voto.

Ninguém entendia nada, como no Processo de Kafka, porque era difícil saber se se tratava de salvar um inocente ou de aniquilar um criminoso, porque todos dizia o mesmo para bendizê-lo ou maldizê-lo.

Uns queriam que Temer não fosse investigado “pelo bem do Brasil”, e outros, também por esse mesmo ânimo, preferiam que fosse. Os que queriam salvá-lo pronunciavam um “sim” seco, quase com medo de ser descobertos, e os que queriam tirá-lo bradavam como para reforçar com seus gritos uma derrota anunciada.
Os motivos para salvar ou condenar o presidente quase nunca mencionavam se ele era inocente ou culpado. Eram a economia, as reformas, a estabilidade do país ou a maldade da direita, que odeia os pobres. Temer era como um fantasma que ninguém sabia para que servia.
A noite kafkiana parecia também uma reencarnação do filme de Buñuel O Discreto Charme da Burguesia, no qual, dentro de uma sala em que se desenrola toda a trama, todos se odeiam enquanto fingem ser amigos, em que todos vão a lugar nenhum, em que se escondem atrás de religião ou da ideologia para que não apareçam seus lados podres.
Naquela noite de Temer, o surrealismo atingiu seu ápice quando um deputado sobre o qual pesam graves suspeitas de crimes cravou um “voto ‘sim’ contra a corrupção”. Disse-o com tanta convicção que quase se sufocou.
Ganha o prêmio milionário quem for capaz, depois daquela tarde de realismo mágico à García Márquez, de entender o que se passa hoje na política brasileira, da qual a tarde do Congresso foi símbolo e emblema.
Acho que o escritor colombiano poderia reescrever Cem Anos de Solidão, revisado à brasileira, porque, queira ou não, o Brasil é parte do continente do realismo mágico, no qual é difícil distinguir o que é real ou imaginário.
Caso se contasse, por exemplo, no exterior, que na tarde do processo kafkiano de Temer, os discípulos do Partido dos Trabalhadores (PT), que despojavam a gritos o presidente corrupto, provavelmente o preferem de pé até 2018, para que chegue ao fim exangue e exausto e possa ser usado eleitoralmente, ninguém acreditaria. Mas por que o PT, mestre em mover as ruas, não levou a Brasília nenhum dos seus para gritar “Fora Temer”? E o silêncio de Lula?
Por que parecem se tornar amigos de repente, mesmo que seja nas sombras dos bastidores, governo e oposição, como no processo contra Cristo, toda a velha guarda dos principais partidos, junto com o poder econômico e com os outros poderes fáticos? Parecem unidos num abraço para evitar que em 2018 possa surgir alguma novidade nas urnas que quebre o poder cristalizado da velha política desgastada e acima de tudo que possa não comungar desta anistia geral aos corruptos e não esteja disposta a terminar a Lava Jato.
Confesso que estamos diante de um novo surrealismo do processo kafkiano, no qual não se sabe onde está o culpado ou o inocente nem o que significam as palavras esquerda e direita, que mais parecem uma noz oca.
E se há algo de absurdo e de labiríntico, em que a política se envolve em si mesmo e nos obriga a apelar à pureza da arte e da literatura para desentranhá-la como um novelo embaraçado, é o divórcio entre a rua e o palácio, entre as pessoas e os políticos, como ficou evidenciado na longa, sombria e surrealista tarde do kafkiano processo contra Temer.

 

Fogo Cruzado, por El País.

    As possibilidades de guerra são muito distantes, como explicou o secretário de Estado Tillerson, bombeiro peculiar nesse fogo cruzado. Nem os aliados da Coreia nem os de Washington são favoráveis a facilitar um conflito armado. O comportamento de Trump, inativo diante de provocações anteriores, desmente suas verborreias. Mas, por mais distante que esteja a guerra hoje, há motivos para se preocupar com qual seria a atitude de Trump no caso de um risco real.
    Kim Jong-un segue o roteiro previsto. Quer que a Coreia do Norte seja reconhecida como potência nuclear e se empenha em um desafio explícito e absurdo à comunidade internacional. O preocupante da última escalada verbal é a presença na Casa Branca um presidente que, ao contrário de seus predecessores, vem se deleitando em descer ao nível dele. Kim é um ditador que se comporta como tal em um regime despótico; Trump é o presidente de um país democrático, sujeito a regras. Seus apelos ao “fogo e à fúria” confirmam um descontrole narcisista e que o seu mandato está cheio de disparates perigosos.
    A provocação e a definição dos Estados Unidos como inimigo externo fazem parte da estratégia da Coréia do Norte. Kim Jong-un sustenta quase toda a estrutura ditatorial do regime em uma suposta ameaça norte-americana. Mas nos últimos dias, desde que o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma nova rodada de sanções contra o regime norte-coreano, disparou-se uma escalada verbal ameaçadora e de tom apocalíptico que preocupa os mercados de investimento e os cidadãos de torno o mundo. Com sua retórica excessiva, Donald Trump disse que os Estados Unidos responderiam à próxima provocação de Pyongyang “com fogo e fúria jamais vistos no mundo”. A Coreia do Norte respondeu com a ameaça direta de atacar e “envolver em fogo” a base em Guam, a 3.400 quilômetros de distância, com seus mísseis balísticos.


    Temer se salva, por El País.

    Votação da denúncia na Câmara
    O presidente Temer, nesta quarta-feira
    Dilma Rousseff foi destituída no ano passado da Presidência do Brasil com a desculpa de que seu Governo tinha maquiado as contas públicas. Mas no discurso dos dirigentes políticos que promoveram sua queda estava subjacente uma ideia mais poderosa: era preciso acabar com um Governo corrupto. Quase um ano e meio depois, esses argumentos soam como um pretexto
    Só os militantes mais cegos podem negar que o Partido dos Trabalhadores de Lula e Rousseff se enlameou em uma monumental trama de corrupção. Sobre o envolvimento pessoal de Rousseff, porém, sempre houve sérias dúvidas. Bem ao contrário do atual presidente, Michel Temer, que teve a duvidosa honra de ser o primeiro chefe de Estado brasileiro denunciado por delitos penais. Uma denúncia apresentada pela própria Procuradoria-Geral da República depois de reunir sólidos indícios de que Temer montou um sistema para arrecadar subornos de grandes empresários

    A era do engano, por Fabio de Oliveira Ribeiro.

    A era do engano
    por Fábio de Oliveira Ribeiro
    Abro um livro ao acaso e https://www.youtube.com/watch?v=qV_cvRhf8hc a realidade explode em câmera lenta na minha consciência.
    “O espaço político como tal realiza e garante a liberdade de todos os cidadãos e a realidade discutida e testemunhada pela maioria. Mas a busca  de um significado para além da esfera política só pode ser levada a cabo se, como os filósofos da polis,  se opta  por interagir com a minoria e se convence de que  falar livremente com os outros sobre alguma coisa não produz realidade, mas engano, e não cria verdade, mas mentiras.
    Parmênides parece ter sido o primeiro a assumir esse ponto de vista. O crucial em seu caso não foi, por exemplo, separar a maioria dos sem valor da minoria dos homens bons como fez Heráclito e era típico do espírito agonal que marcava a vida política grega, em que cada homem se esforçava o tempo todo para ser o melhor. Parmênides distinguia o caminho da verdade, aberto somente ao indivíduo como indivíduo,  dos caminhos do engano trilhado por todos que estão na estrada com seus semelhantes para quaisquer propósitos.”  (A Promessa da Política, Hannah Arendt, Difel, Rio de Janeiro, 2008, p. 187)
    Segundo Parmênides, a política (como construção coletiva que é) não pode almejar o predomínio da verdade. No máximo, ela possibilita a criação de consensos. Mas não é possível estabelecer qualquer tipo de consenso quando vários grupos de pessoas divergem sobre quais que temas serão discutidos e que regras serão válidas ou revogadas.
    Isto explica, porque todas as democracias modernas substituíram a busca do predomínio da verdade pela construção de espaços que conferem legitimidade às decisões tomadas pela maioria. A guerra política justa (aquela em que cada grupo pretende impor ao outro sua verdade) é substituída pelo respeito às regras oriundas do processo legislativo que culmina na promulgação da Lei.
    Ao governo competiria fazer aplicar a norma e ao judiciário teria como incumbência dirimir os conflitos resultantes de sua aplicação. Nem o Executivo, nem o Judiciário deveriam ter o poder de criar normas jurídicas, exceto aquelas que regulamentam as Leis que definem os parâmetros de sua atuação.
    A crise da democracia se instala quando o equilíbrio deixa de existir. Foi o que ocorreu no Brasil. Encarregado de executar o orçamento respeitando a Lei de Responsabilidade Fiscal, o governo Dilma Rousseff rejeitou aumentar o salário dos juízes e vetou a realização de obras sugeridas pelos deputados. Aproveitando a instabilidade econômica amplificada pela imprensa, o presidente da Câmara dos Deputados iniciou um processo de Impedimento que, apesar de ser injusto e absurdo, não foi interrompido pelo Judiciário.
    A imposição ao conjunto da sociedade brasileira da verdade dos deputados (o desejo que eles tinham de realizar obras nos seus currais eleitorais para garantir suas reeleições) e da verdade dos juízes (sua ganância desmedida e mesquinha por aumento salarial) provocou a destruição da racionalidade do nosso sistema político. Foi assim que o Brasil caiu no colo de um usurpador cuja única verdade é o medo de ser preso pelos crimes que cometeu.
    Com o intuito de consolidar seu poder ilegítimo, Michel Temer colocou em prática um programa de governo que não foi aprovado pelos eleitores, mas que era muito desejado pela imprensa e pelo mercado. A verdade dos jornalistas e dos banqueiros conseguiu sobrepujar a vontade legítima da população brasileira de conservar seus direitos sociais, trabalhistas e previdenciários. A reação previsível apenas agravou a crise política e econômica.
    O contexto econômico não melhorou, o desemprego aumentou, o comercio encolheu, a arrecadação tributária estagnou e até as empresas de comunicação já começaram a cortar gastos. Preocupados com o estrago que fizeram aos seus próprios interesses, os amigos de Michel Temer querem jogar ele ao mar, não sem antes destruir o presidencialismo e, eventualmente, a unidade territorial do Brasil.
    Aqueles que caminharam ao lado de Dilma Rousseff foram enganados pelos aliados do PT e pelos juízes sedentos por salários nababescos e privilégios senhoriais. Os que caminham com Michel Temer tentam construir uma mentira, mas a realidade os impediu de fazer o país crescer para que eles pudessem colher dividendos eleitorais. A queda ou não do usurpador é irrelevante, pois ninguém conseguirá enganar uma população faminta e desesperada.
    De golpe em golpe, a crença popular na democracia enfraqueceu. A validade das Leis tem sido negada pelo Judiciário em diversos casos (vide  http://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/o-sanatorio-geral-nao-vai-passar-ele-voltou-por-fabio-de-oliveira-ribeiro). Abandonada a própria sorte, a população brasileira imagina sair do inferno neoliberal pelas mãos de alguém como Jair Bolsonaro (um inimigo declarado das liberdades democráticas).
    Parmênides e Hannah Arendt poderiam ter ensinado algo útil aos jornalistas, banqueiros, empresários, parlamentares, juízes e artistas que arquitetaram e instrumentalizaram o golpe de 2016. Agora eles terão que aprender outra lição. Uma que será muito mais dolorosa. A era do engano está apenas começando.

    Congresso e a Lei de Murphy, por Carlos Motta.




    Ninguém pode dizer que o nosso Legislativo não entende de leis.
    Legislar em benefício próprio, por exemplo, é uma prática mais que comum entre os nossos congressistas - eles adoram achar modos de melhorar de vida, a deles, é claro.
    Também são mestres em exercitar o conjunto de enunciados pragmáticos que se convencionou chamar de "Lei de Murphy".
    Um deles parece ter sido feito na medida para os nossos deputados e senadores, que volta e meia se debruçam em sua aplicação: "Nada é tão ruim que não possa piorar."
    Tome-se o caso dessa reforma política que está saindo de suas mentes brilhantes.
    E o tal "Distritão", em particular.
    Ele não é uma beleza?
    Ao mesmo tempo em que suprime a necessidade de partidos políticos, já que elege o candidato mais votado, não importa se o seu agrupamento, coletivamente, é irrelevante, ele dá oportunidade para o poderoso negócio de compra de votos funcionar a todo vapor - em tempos de desemprego bravo, essa não deixa de ser uma boa notícia.
    Dá até para imaginar como será alta a taxa de renovação do Congresso, esse Congresso que está sendo notícia no mundo todo, não exatamente por sua qualidade.
    Ah, mas o "Distritão" vai valer apenas como transição para o sistema definitivo, o Distrital Misto, que deve entrar em vigor apenas a partir de 2022, dizem os seus defensores.
    E a polêmica esquenta, enquanto um desses nossos mais que essenciais parlamentares resume o enredo da ópera-bufa da qual participa: “O modelo atual está esgotado. Não dá para fingir que está tudo bem e continuar com o sistema atual."
    Pura verdade.
    Afinal, o sistema atual fez brotar Bolsonaros e Tiriricas, Cunhas, Malafaias e Felicianos, e toda uma fauna defensora intransigente da família, do poder de Deus, do verde-amarelo da nossa bandeira, e de tudo o mais que a canalhice e a hipocrisia possam abrigar.
    Portanto, urge mudar.
    Mudar e mudar, em nome da transparência, da democracia, de fazer a vontade do povo ser seguida no Parlamento.
    O país precisa de reformas, quanto mais houver, melhor.
    Mas, essencialmente, para que a ponte para o futuro não trema, ou, desgraça das desgraças, desabe, é necessário que a renovação seja conduzida e efetuada por quem tem competência para tal.
    E quem melhor para isso que este brilhante Congresso que tantos ótimos serviços já prestou à nação?
    Que venha, portanto, o "Distritão", o "Distrital Misto", e todo esse aparato normativo que, com certeza, fará o eleitor finalmente ter consciência de seu papel como cidadão - como é que ninguém pensou nisso antes?

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    Dobre a Finados, esvai-se o projeto de Nação por Pedro Augusto Pinho.



    Após 63 anos de falecimento do dirigente que ousou, pela primeira vez, construir verdadeiramente a nação brasileira, o que nos ficou, além da profunda tristeza?
    Os mesmos males, a mesma ignomínia de uma classe que vive em águas turvas e se agarra como cracas ao Estado para entregar das riquezas do Brasil.
    O exemplo, o tiro daquele personagem tumular que, nas páginas de seu jornal,  escreveu a 6 de agosto de 1954:
    ".... perante Deus acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o desta noite. Este homem chama-se Getúlio Vargas" (Tribuna da Imprensa).
    No dia 23 daquele agosto, injustamente acusado pelo oportunista – que como todos os seus seguidores, sempre foi inimigo da nossa soberania – responde o grande Presidente, na manchete do único jornal que lhe dá acolhida:
    " Apenas morto sairei do Palácio do Catete" (Última Hora).
    Na distância de mais de meio século, com volumosa literatura desvendando diversas vertentes deste momento infeliz de nossa história, procurarei traçar um paralelo com a desdita de hoje.
    Como se forma a mente de um brasileiro, sem qualquer ganho com a submissão aos interesses estrangeiros, às potencias coloniais ou sistemas dominadores, que busca na mentira da publicidade enganosa dos fatos, no engodo das falsidades evidentes, em sua própria miséria, condenar os que lutam pela emancipação nacional e defender os traidores da Pátria? Não é resposta fácil, nem aceito a paranoia de ter a verdade. Coloco em questão a formação da cidadania.
    Quantos já reproduziram piadas degradantes, quantas vezes se manifestaram desilusão, descrença na força da nação, em quais situações procuram demonstrar nossa irresponsabilidade, nossa vocação para o êrro, o escamotear? E por que esta autodepreciação? O que é a cidadania, ser cidadão? Em primeiro lugar a dificílima aceitação da paridade; considerar que todos os brasileiros são iguais, pares nas decisões sobre o País.
    Esta é uma questão crucial, mas me deterei neste artigo à importância de Vargas em nossa história. Sem dúvida polêmica. Se prendeu e torturou brasileiros, cujo crime era discordar de sua administração, foi o primeiro governante a promover o efetivo desenvolvimento da indústria brasileira e a reconhecer a importância do trabalhador na formação nacional. Vinte anos após, por coincidência, outro presidente, que também prendeu e deixou que se torturasse opositores, Ernesto Geisel, promoveu a capacitação industrial brasileira nos segmentos de ponta, que hoje nos fazem falta: informática, nuclear e aeroespacial. Também este sofreu um golpe para designar seu sucessor.
    Getúlio foi crescendo na compreensão do Brasil e do mundo durante seu primeiro governo e chega ao segundo, eleito pelo povo, com a certeza de que só o Estado, atuando com profundidade na economia, poderia desenvolver o Brasil. Isto era, e ainda é, constatado em todo mundo, e só os ideologicamente contrários ao Brasil Soberano podem defender a invasão estrangeira, com as falsidades liberais ou neoliberais, promovidas pela banca, o sistema financeiro internacional. E como vemos, não se trata de esquerda ou direita, mas de nacionalismo ou entreguismo.
    Vargas viveu um momento em que as ideologias mais extremas galvanizavam as opiniões, restando um espaço desprezível para posições menos radicais. E como é óbvio, foi arrastado nesta disputa. Daí a acusação de ser um simpatizante do fascismo, como apontam alguns historiadores e biógrafos.
    Mas no inconsciente popular ele foi e continua sendo "O Grande Presidente", que defendeu o trabalhador, os menos afortunados, o "Pai dos Pobres".
    Tive, há dois anos, uma experiência significativa. Meu amigo do tempo de faculdade, o poliemérito intelectual, artista e escritor Nei Lopes lançava seu romance "Rio Negro, 50", cuja história transcorre em 1950. Participavam do evento amigos sambistas do Nei, que usaram a rua, transformada em de pedestre naquele sábado, para homenageá-lo com músicas da época. Haveria bem mais de 100 pessoas, entre os convidados e os que ocupavam as mesas do bar próximo. Surge o samba que fala de Vargas. Um uníssono e arrepiante aplauso se delonga, vindo de todos. A referência a Getúlio Vargas, num ambiente de classe média, em 2015, despertava esta manifestação. Não é outro o motivo que desde os governos militares, do entreguismo tucano de FHC, mesmo de Lula, para nem falar dos golpistas de 2016, há o desejo de extinguir a Era Vargas. E seus verdadeiros ou pretensos herdeiros sempre foram atacados, caluniados e criminalizados nas páginas da "grande imprensa".
    Que possamos prosseguir, com a adequação temporal, social e tecnológica, a Era Vargas, é uma verdadeira saída para o impasse brasileiro.
    No blog "Meu Lote", Nei Lopes publicou, em 03/08/17, "Outro agosto, muitos anos atrás", sobre suas recordações do 24 de agosto de 1954. Recomendo.
    Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado 

    A Doutrina Moro-Globo e o Ponto de virada, por Edivaldo Dias de Oliveira.

    Agora que o ciclo – ou seria circo? – de Curitiba se fechou, com a aceitação da denuncia contra Lula sobre o sitio de Atibaia, creio ter chegado o momento de apresentar algumas propostas que pode vir a ser tornar o ponto de virada em toda essa tormenta que nós, amantes da democracia de todos os matizes, temos enfrentado.

    Ao sentenciar sem qualquer fumaça de prova como de Lula um apartamento que este declarou publicamente e inúmeras vezes não lhe pertencer, inclusive apresentando provas incontestáveis sobre quem “era” o seu real proprietário - a Caixa Econômica Federal, que tem a caução do imóvel em função de empréstimo concedido a OAS -, o juiz Sérgio Moro escudado nas Organizações Globo, implantou no país uma nova, perigosa e temerária doutrina sobre um dos pilares de sustentação de toda a sociedade, que é o direito a propriedade e os instrumentos que a legitima.
    Com essa nova doutrina o Brasil foi “alçado de volta” ao Estado de natureza, em que prevalece a lei do mais forte sobre qualquer direito e reivindicação, com uma singela diferença: Quem agora estabelece essa força sobre o direito é um juiz, qualquer juiz de qualquer vara e comarca, a sua palavra e sentença se põe sobre tudo que até então foi tido e havido como certo e direito.
    Em quase trezentas páginas da longuíssima sentença/doutrina o juiz não apresenta em nome do réu:
    A – Escritura de posse do bem devidamente registrada em cartório.
    B – Compromisso de compra e venda entre o réu e vendedor, registrado em cartórios ou não.
    C – Contrato de gaveta entre réu e vendedor, registrado em cartório ou não.
    D – Taxas de condomínio pagas pelo réu ou sua empresa, mesmo em nome do vendedor, depois de fuçarem sua residência e sua empresa, bem como suas contas bancárias, de cujo sigilo abriu mão.
    E – Contas de água, luz, telefone e gás.
    F – Gravação de conversa entre as partes transacionando o bem.
    Nenhum dos itens acima integra a sentença/doutrina.
    Mas ainda assim Moro sentenciou: Toma que o apartamento é teu. Tendo por fundamento principal o testemunho de um bandido, que ansiava pela redução da sua pena e que Moro e seus cupinchas esteve sempre disposto a conceder, desde que lhes fossem entregues por quaisquer  meios o que lhe era solicitado, havendo casos inclusive, em que o delator bandido recebe comissão. Um escárnio sobre o senso de justiça.
    É sem a menor sombra de dúvida, o Triunfo da Vontade, de um juiz e sua protetora, sobre todo um arcabouço jurídico e legal que da(va) sustentabilidade, afirma(va) e confirma(va) o direito a propriedade. É a paixão cega e doentia triunfando sobre a razão, sob o olhar silente e consciente de seus superiores.
    A partir dessa sentença, nada nem ninguém no Brasil está seguro do bem que possui e pensa ser seu e os movimentos sociais precisam por a força e a potencia dessa nova doutrina à prova, confirmando assim o acerto ou não da decisão do juiz da Globo.
    Qualquer pessoa que mora de aluguel, por exemplo, pode por a sentença debaixo do braço e se dirigir a uma vara judicial e peticionar a posse do imóvel que habita, inda mais se junto a sentença e petição, juntar recibos de aluguel e comprovantes de pagamentos de outras contas do imóvel. Um juízo minimamente justo não tem como não estender ao peticionário o entendimento que teve o juiz da Globo, sem ferir o principio da isonomia. E olha que no caso de Lula ele jamais habitou o bem que lhe foi atribuído.
    O senhorzinho, que hoje vive do aluguel de uma, duas casinhas, passará a viver aterrorizado com a real possibilidade de perder seu imóvel para o inquilino, a locadora de automóveis pode num piscar de olhos e uma decisão judicial, ver tolhido o seu bem em favor do locatário, a menos que junto com a certidão anexe uma sentença judicial confirmando a propriedade do auto. De agora em diante toda certidão precisa de uma sentença judicial que lhe ateste a posse.
    Mas não é disso apenas que estamos falando. Na verdade isso é terrorismo, é a consequência termidoriana trazida pela nova doutrina, sem que ninguém acima ou abaixo do juízo da Globo, tenha esboçado a menor reação contrária, refestelados que se achavam com a condenação de réu tão desejado, caçado e perseguido.
    Mas, deixemos de coisa e vamos testar a vontade de potência da doutrina nova com que o juiz da Globo brindou a sociedade brasileira.
    Propostas
    1 – Moro deu o apartamento a Lula, mas o confiscou de volta para saldar prejuízos etc e tal. (isso não tá muito claro, alguns dizem que foi confiscado outros que não, vamos trabalhar com a hipótese do confisco).
    Ora, o bem está sob a guarda legal da CEF, uma instituição pública, que não é parte do processo, esse bem é a sua garantia ante empréstimo de dinheiro publico feito pelo tomador, no caso a OAS.
    A bancada petista principalmente, mas não só, deve instar o banco público a agir judicialmente em defesa do seu patrimônio, sob pena de ver seus outros bens dilapidado por outros juízes, que passarão a aceitar imóveis da instituição como garantia de pagamento de prejuízos, independente do fato do réu ser ou não proprietário do mesmo, com base na sentença/doutrina. Isso sem contar que os dirigentes do banco podem ser acionados pelos parlamentares por gestão temerária entre outras ameaças.
    A Caixa Econômica Federal tem que agir em todos o fôros, nem que seja sob vara, para garantir a posse do bem sob sua guarda. Para tal é imprescindível a ação de parlamentares e movimentos sociais como sindicatos de bancários e APCEFs.
    2 – O bem dado a Lula não foi confiscado.
    De posse da sentença que atribui a ele o bem e de um termo de doação, Lula chama Guilherme Boulos, do MTST, entrega-lhe o tríplex, chama toda a imprensa mundial e desce com ele para o Guarujá para se apossar daquilo que lhe foi atribuído pela nova doutrina. Não há nada no mundo que impeça um legítimo proprietário de um bem de doar ele para que lhe aprouver.
    Nesse caso também, ele e seus advogados, de posse da sentença, poderão se dirigir ao Cartório de Registro de Imóveis do Guarujá e requerer seja lavrado em seu nome a Escritura do bem, reportando a justiça a recusa do cartório em cumprir o que determina a sentença.
    3 – O MPF acusa Lula de ser proprietário do sitio de Atibaia e um terreno no Ipiranga.
    MST pode ocupar o sitio, enquanto não se resolve a questão. Sendo de Lula, faz-se a reforma agraria no local. Não deve ser lá grande coisa, mas dá para um roçado de morango que dá muito nesta região.
    Enquanto isso o MTST ocupa o terreno do Ipiranga até o fim do processo ou após ele,se for de Lula, para fazer moradia.
    Nos dois casos, quem pedirá reintegração de posse? O MPF, o Juízo? Eles tem a posse dos bens, são seus proprietários? Podem no máximo instar seus proprietários a agir. Sendo o Lula o proprietário, ele fará isso? Não sendo, logo todos ficaremos sabendo, inclusive, MPF e o juíz da Globo, quem são seus verdadeiros donos.
    No mais é ir testando a força da nova doutrina, até que alguma vara aceite seus termos e comece a deferir petições com base nela, pois se vale para uma vara deve valer para todas. Nesse sentido, seria interessante que um pool de jornalistas, artistas, intelectuais solicitasse na justiça com base na nova doutrina, a transferência para eles dos direitos de concessão da Rede Globo de Televisão, que é uma concessão pública e já está a muitas décadas nas mãos de uma mesma família, sem cumprir minimamente com as suas funções sociais. Fazer a Globo tomar do seu próprio veneno não tem preço, mesmo que as chances de tal acontecer talvez sejam tão remotas quanto o pentágono levitar, não custa tentar...os hippies tentaram.
    Por outro lado, reafirmo a atualidade de meu artigo publicado aqui em 07 de março de 2016, http://jornalggn.com.br/noticia/o-tribunal-de-roma-a-lava-jato-e-o-mensalao-por-edivaldo-oliveira em que defendo que os membros da Lava Jato e do Mensalão bem como seus apoiadores midiáticos, sejam denunciados junto ao Tribunal Penal Internacional.
    É um erro, a meu juízo, levar a questão do Lula apenas e tão somente a seção de direitos humanos da ONU, em que o que estará em julgamento, lento diga-se de passagem, é o processo tocado pelo poder judiciário brasileiro e não seus membros e outros agentes. O estado brasileiro já deixou claro a esta comissão que não houve violação aos direitos do acusado, e mesmo que o estado venha a ser condenado, nenhuma punição de relevo recairá sobre os causadores de tais dolos, ao contrário do que pode acontecer no TPI.
    Pode ser apenas uma nesga, uma fresta, uma pequena possibilidade de tal denuncia ser aceita, mas ainda assim, devemos a ela nos agarrar com unhas e dentes. Abaixo o artigo 7 do estatuto de Roma que tipifica crimes contra a humanidade. Ora, está claro que petistas configuram um grupo ou coletividade com identidade própria, como está tipificado em negrito.
    Artigo 7
    Crimes contra a Humanidade 
    Para os fins do presente Estatuto, entende-se por “crime contra a humanidade” qualquer um dos seguintes atos quando praticados como parte de um ataque generalizado ou sistemático contra uma população civil e com conhecimento de tal ataque:
    Homicídio; Extermínio; Escravidão;Deportação ou transferência forçada de populações;
    Encarceramento ou outra privação grave da liberdade física, em violação às normas fundamentais do direito internacional; 
    Tortura; Estupro, escravidão sexual, prostituição forçada, gravidez forçada, esterilização forçada ou outros abusos sexuais de gravidade comparável; 
    Perseguição de um grupo ou coletividade com identidade própria, fundada em motivos políticos, raciais, nacionais, étnicos, culturais, religiosos, de gênero, como definido no parágrafo 3º, ou outros motivos universalmente reconhecidos como inaceitáveis conforme o direito internacional, em conexão com qualquer ato mencionado no presente parágrafo ou com qualquer crime da jurisdição deste Tribunal;
    É essa coletividade que a lavajato e a globo quer por fim de qualquer jeito, não importando o preço e o desastre a se causar.
    Como um capitão Ahab tomado de cólera atrás de Moby Dick, partindo do porto da pequena cidade de Nantucket (Curitiba) em sua embarcação o Pequod para saciar a sanha vingativa de seu capitão, que havia perdido a perna para a cachalote. Tudo isso sem que a tripulação tivesse conhecimento nem tampouco os moradores da cidade que investiram suas economias para abastecer o navio, na esperança de que ele voltasse carregado com as riquezas das baleias.
    É uma boa analogia, ainda mais que a viagem duraria 3 anos, como a Lava Jato e a embarcação costeou o Brasil. Quem leu sabe o que restou do Pequord, seu capitão e toda tripulação. Moby Dick não é apenas Lula, Moby Dick somo todos nós, e isso eles não vão exterminar.
    É isso, penso!

    sexta-feira, 4 de agosto de 2017

    A desconstrução para além do que vem sendo desconstruído, por Ana Paula Guidolin.


     

    Ana Paula Guidolin, Carolina Michelman e Pedro Rossi - Brasil Debate
    No último Encontro Nacional dos Estudantes de Economia (ENECO) a palavra de ordem foi “desconstrução”, conceito apropriado da filosofia, que reverbera não apenas nos ambientes universitários, mas também nas periferias e nas escolas. Desconstrução é um esforço de superação dos estereótipos e preconceitos que carregamos dentro de nós; é quebrar o conjunto de barreiras morais e culturais que nos impede de aceitar o diferente, oprimindo o outro e criando um ambiente de hostilidade que gera violência velada ou explícita. Machismo, homofobia, racismo e outras formas de preconceito são desconstruídos em um processo contínuo que evolui e não necessariamente se completa. Dessa forma, a desconstrução tem um potencial transformador e pode abrir um mundo diferente conforme essa nova geração aceita esse desafio.

    Mas a desconstrução, como processo transformador, não precisa ficar restrita ao plano da identidade, dos costumes e das escolhas individuais. Há toda uma racionalidade econômica que precisa ser desconstruída. Vivemos em um sociedade onde o egoísmo é virtude, o individualismo é norma e a concorrência é condição de sobrevivência. Sem perceber, somos absorvidos por uma lógica que desativa as preocupações coletivas, desprestigia os bens públicos em detrimento dos bens privados e dilui a própria ideia de cidadania social. A essa lógica dá-se o nome de neoliberalismo.

    Na disputa entre as pessoas, o mercado é um juiz supostamente neutro que arbitra entre os vencedores e perdedores. Somos induzidos a achar que o mercado atribui a cada um o que cada um merece. Consequentemente, naturalizamos a desigualdade social: privilegiados dormem com a cabeça tranquila e excluídos sonham em se dar bem na desenfreada luta pelo sucesso. Se a culpa pelo fracasso é individual, a sociedade não precisa se responsabilizar pela sorte dos indivíduos, nem pela delinquência, nem pelo desemprego, tampouco pela pobreza.

    Preocupados com o auto interesse e com a concorrência do dia a dia, ficamos conformados e insensíveis à injustiça. O resultado disso é um grande mal-estar social e um sentimento de frustração generalizado que se manifesta no surgimento de diversas patologias sociais, dentre elas a intolerância e ódio ao diferente. O mito da meritocracia tende a naturalizar o que é socialmente construído, daí a necessidade de desconstrução. Se o pobre é pobre porque merece, não há nada a ser feito, mas se a sociedade toma sua cota parte de responsabilidade, a conversa muda.

    No Brasil, essa racionalidade neoliberal vai na contramão dos valores postos na Constituição de 1988, assim como as instituições que dela decorrem. O que é o SUS senão um pacto de solidariedade entre nós? Um acordo que garante, por exemplo, que se algum de nós contrair uma doença grave, as demais pessoas vão dividir a conta e garantir o tratamento. Esse tratamento pode ser muito caro, mas a conta será dividida. A alternativa ao SUS é um pacto individualista, onde é cada um por si. O doente não tem ajuda dos demais e a saúde é mercadoria como outra qualquer, que só é consumida por quem tem recursos. E é para esse pacto individualista que o Brasil caminha.

    Sim, o golpe é a tentativa de imposição de um pacto social individualista e o fortalecimento da subjetividade neoliberal. E o caminho para isso é a transformação das instituições por meio de reformas que, em seu conjunto promovem a desconstrução de redes de proteção social. Diluir as obrigações do Estado de garantir direitos sociais e trabalhistas é o mesmo que retirar as responsabilidades coletivas pelas mazelas sociais. Essa relativização do papel do Estado expõe as pessoas ao risco de não terem acessos a bens sociais básicos, como saúde e educação, assim como fragiliza a posição dos trabalhadores que devem adotar as regras do jogo, trabalhar mais, ser mais competitivos etc. Ou seja, o golpe é também o reforço dos valores neoliberais da concorrência e do individualismo.

    Resistir ao atual cenário e às forças perversas do neoliberalismo é desconstruir as barreiras que impedem, de forma opressora, a coletividade. Dentre elas o discurso econômico que prega que o problema do Brasil é o excesso de gasto social, que o orçamento não cabe no PIB e de que a Constituição de 1988 é muito benevolente. Esse discurso é acompanhado de metáforas machistas como a da “dona de casa”, que compara o orçamento público com o doméstico e atribuiu ao governo a “postura de marido” para evitar a gastança desenfreada.

    “Colocar a casa em ordem”, é na verdade, colocar um projeto de país não referendado pelas urnas, é refazer o pacto social, sem consultar a população. Também é preciso desconstruir o discurso moralista de que no passado vivemos excessos e agora temos que passar por sacrifícios, como se o Brasil fosse uma grande fábula da cigarra e da formiga. Nós sabemos quem são os sacrificados.

    Não se trata, aqui, de emprestar, sem mediação, o conceito de desconstrução social para o âmbito econômico. Há um claro entrelaçamento entre a racionalidade econômica e as questões gênero, raça e classe. Para além da subjetividade, as reformas austeras, por exemplo, reforçam as diferenças e as hierarquias, tem especial impacto para os LGBTs, os negros e as mulheres, principalmente quando já trazem uma condição social precária. Quando o Estado se retira da saúde, resta às mulheres “que cuidam por natureza” olhar pelos entes adoecidos renegados. Quando a CLT é rasgada com a reforma trabalhista, resta às mulheres – principalmente negras -, que comprovadamente já ganham menos que os homens, ocuparem os postos mais precarizados. A lógica neoliberal é racista, machista e homofóbica, daí a necessidade de união das esferas de luta.

    Desconstruir é dar voz e vez para todos, é entender que nossa sociedade é heterogênea e cada um tem muito a contribuir para a construção de um país melhor, seja pelos conhecimentos teóricos, seja pela prática diária de viver a realidade e enfrentar os problemas cotidianos. E, dentre as nossas tarefas, está a desconstrução da racionalidade neoliberal que pode dar vez à valorização dos espaços coletivos e de uma sociedade mais igual e solidária.

    A estrela de Macron começa a perder o brilho?, por Milagros Pérez Oliva.

    STEPHANE MAHE REUTERS
    A súbita queda de popularidade acendeu todos os alarmes de uma presidência sustentada pela comunicação.

    Estaria Emmanuel Macron perdendo o estado de graça após três meses de sua chegada ao Palácio do Eliseu? Uma pesquisa do instituto Ifop mostrou esse sinal de preocupação no governo. Realizada entre 17 e 22 julho, a sondagem constatou uma perigosa queda de 10 pontos em apenas um mês. O grau de aceitação do jovem presidente passou de 64% a 54%, e isso que ainda não lançou suas medidas mais polêmicas, como a reforma trabalhista ou as mudanças de status de aposentados e funcionários. É a segunda maior queda de popularidade nos primeiros cem dias de mandato de um presidente, depois da sofrida por Jacques Chirac em 1995, e talvez esta coincidência não seja uma casualidade.

    Tanto Chirac quanto Macron se beneficiaram de uma concentração inusual de votos emprestados para frear a ameaça ultra direitista dos Le Pen. Os analistas políticos comentam agora os sinais demográficos, tentando entender se é o caso de uma volta ao princípio de realidade ou se, pelo contrário, a erosão de Macron se deve a uma nova característica, mais peculiar e imprevisível, dos novos tempos: a absoluta volatilidade dos estados de ânimo e das preferências dos cidadãos.

    Os recentes casos de corrupção afetaram sua equipe, o conflito com um Exército que reclama pela falta de melhores condições como em outros tempos, ou a inquietude pelas reformas anunciadas podem ter algum peso nessa queda de Macron. Se for assim, tudo pode piorar quando a parte dura do programa comece a ser aplicada. Mas o próprio diretor do Ifop, Jérôme Fourquet, se pergunta se a queda tem a ver com uma presidência baseada na comunicação. Ninguém discute a capacidade de Macron neste aspecto. Sem essa habilidade, por muitas que sejam as circunstâncias favoráveis, não se explica que alguém que era praticamente desconhecido há três anos pudessem ser hoje o presidente mais jovem da França. Embora ele tenha méritos dialéticos, e muitos recordam sua intervenção no debate eleitoral, no qual afundou Marine Le Pen ao mostrar que era uma candidata que se atrevia a falar de temas que não conhecia totalmente, em especial a economia.

    A campanha de Macron se baseou numa combinação deliberadamente ambígua de mensagens que visavam debilitar o fenômeno Le Pen e fazer com que muitos pudessem votar por ele por diferentes razões. Inclusive opostas. Tudo foi minuciosamente estudado para cultivar as emoções positivas e levar a imagem idílica de uma França forte e confiante até o máximo. Seus primeiros passos no Eliseu também foram orientados a projetar sua figura de jovem presidente-imperador repleto de entusiasmo juvenil, como mostrou recentemente em Barcelona o cineasta Costa Gravas. O diretor provavelmente mais politizado da cinematografia francesa não esconde sua admiração por Macron e sua habilidade para conectar com esse espírito tão disseminado do “francês que quer ser revolucionário sem deixar de ser burguês”. Mas a equação pode se romper quando muitos se vejam na iminência de perder o bem-estar e as seguranças burguesas em detrimento da modernidade líquida que Macron encarna. O tempo dirá.

    Estamos indo ao encontro de alguma convulsão social, por Leonardo Boff.

    Agência Brasil
    Quando Leonardo Boff (1938) devolveu o e-mail com as respostas à entrevista, assinou, ao final: “teólogo, filósofo, articulista semanal do Jornal do Brasil online e escritor”. Deixou de fora outros predicados, num gesto de desapego coerente com suas escolhas religiosas e políticas.
     
    Trata-se de uma das maiores autoridades cristãs brasileiras, ainda que um processo movido pelo então cardeal Joseph Ratzinger, que viria a ser o Papa emérito Bento XVI, tenha tirado alguns poderes do catarinense de Concórdia junto à Igreja Católica, o que o levaria a desligar-se do sacerdócio em definitivo. Um dos expoentes da Teologia da Libertação, ele resume: “eu mudei de trincheira para continuar no mesmo campo de batalha”.
     
    Leonardo Boff está em São Luís e participa hoje (1º.), às 14h, no Auditório Fernando Falcão, da Assembleia Legislativa, do 3º. Interconselhos – Encontro de Conselhos do Estado do Maranhão, audiência realizada pelo Governo do Estado do Maranhão, através da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop), em parceria com o Fórum Estadual Interconselhos. Ele ministra a palestra “A participação popular frente à conjuntura nacional e regional: desafios e perspectivas”.
     
    Em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos, Leonardo Boff comenta, entre outros assuntos, o tema de sua palestra, o processo junto à Congregação para a Doutrina da Fé, a cassação de Dilma Rousseff e o (des)governo de Michel Temer, sem nunca perder a esperança.
     
    O Brasil vive uma crise de representatividade, em muito agravada com o golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff do poder. Como o senhor avalia este cenário?
    A deposição de Dilma foi um golpe de classe parlamentar, jurídico e mediático. O objetivo principal era acabar com os avanços sociais que metiam medo nos descendentes da Casa Grande. Eles não defendem direitos, mas os seus privilégios e se encostam no Estado para fazer seus negócios, com juros subsidiados e reserva de mercado. O outro motivo é alinhar o Brasil à política do império norte-americano para acabar com a linha de soberania e autonomia realizada por Lula e Dilma. Por isso houve presença norte-americana no golpe parlamentar, como o mostrou nosso maior analista Moniz Bandeira, entre outros.
     
    Você visita São Luís para participar do 3º. Interconselhos, o Encontro de Conselhos do Estado do Maranhão, reunindo diversas instâncias de participação popular. Conselhos de Direitos são uma importante conquista na democracia no que se refere à participação popular. Qual a importância destes espaços na atual conjuntura?
    Não podemos esperar nada de cima, do Parlamento e dos que controlam as finanças e manipulam o mercado. Estes não estão interessados num projeto de nação, mas de garantir a natureza de sua acumulação, que é uma das maiores do mundo. Apenas 77.400 biliardários controlam grande parte de nossas finanças (0,05% da população). As mudanças vêm daqueles que precisam delas, que são as classes oprimidas, subalternalizadas no campo e na cidade, com os aliados que não sendo da mesma classe, assumem sua causa. Eu espero que esses movimentos se articulem, ganhem as ruas e praças, pressionem os poderes centrais de Brasília e consigam uma reforma política com outro tipo de democracia participativa, onde eles, os movimentos, ajudem a formular os investimentos, a realizá-los e a controlá-los. Aí sim, teríamos um outro Brasil, o Brasil das maiorias. Os neoliberais brasileiros querem um Brasil menor, para uns oitenta milhões apenas. Os outros, os 125 milhões que se lasquem.
     
    95% dos brasileiros avaliam mal o governo de Michel Temer, mas esta insatisfação generalizada não consegue extrapolar as redes sociais. Na atual conjuntura, qual o papel dos movimentos sociais, de defensores de direitos humanos, enfim, da militância, de modo geral?
    Talvez uma frase do maior pensador cristão e africano, Santo Agostinho, do século V, nos dê a resposta: alimentar esperança, mas atender às suas duas belas irmãs: a indignação e a coragem. A indignação para rejeitar as coisas ruins. A coragem para mudá-las. Hoje os movimentos devem se indignar e mostrar isso nas manifestações, nas praças, nas redes sociais, nas rádios comunitárias e jornais dos movimentos e principalmente ter coragem para as mudanças que devem ser feitas na estrutura social. Esta é uma das mais injustas do mundo. Isso se faz pela política, participando, elegendo representantes confiáveis e querendo ter lugar nas decisões de governo, pois, a democracia implica participação. Sem isso ela é sua própria negação, senão uma farsa. Desenvolvi estas ideias no livro Virtudes para um outro mundo possível [Editora Vozes, 2005], em três pequenos volumes.
     
    O Maranhão viveu durante décadas sob domínio oligárquico, só ocupando espaços na mídia nacional com tragédias e vergonhas. Para citar apenas dois exemplos, rebeliões em presídios e escolas funcionando em ambientes insalubres, para dizer o mínimo. O senhor tem acompanhado notícias daqui? É possível fazer uma avaliação do governo Flávio Dino?
    Estive pouco no Maranhão em relação com outros estados. Estive muitas vezes quando em Bacabal era bispo Dom Pascásio Rettler [1968-89], que defendia os posseiros e era muito ameaçado de morte. Estive em Balsas para apoiar o bispo local que estava do lado da luta, os agricultores contra o avanço da soja transgênica. Outras vezes para participar de encontros das comunidades eclesiais de base, que segundo meu irmão teólogo Frei Clodovis [Boff], são das melhores do Brasil, porque agem com certa autonomia sem menosprezar o apoio dos bispos. Há uns três anos fui a um encontro para professores e professoras, em sua maioria, numa cidade histórica perto de São Luís. Fiquei estarrecido com o que as professoras e professores contavam, seus baixíssimos salários e o abandono das escolas. Tudo isso ainda sob o governo dos Sarney. De Dino ouvimos os melhores elogios, seja por suas intervenções no caso do impeachment, seja como está resgatando socialmente o Estado. É uma liderança em quem confiamos e oxalá tenha ressonância nacional e não apenas regional para o país sair da crise com lideranças novas, como a dele, com ética e novos projetos sociais. Em meu livro Do iceberg à Arca de Noé [Editora Mar de Ideias, 2002] desenvolvi tais perspectivas atinentes à realidade brasileira.
     
    Como professor universitário, como o senhor tem recebido os golpes sucessivamente perpetrados pelo governo ilegítimo contra o ensino médio e instituições de ensino superior?
    O que o atual governo está fazendo com a educação e suas instituições é um crime contra o país e o futuro de nosso povo. O propósito é criar apenas gente que aprende para fazer funcionar o sistema injusto e excludente que está aí, sem pensamento crítico, sem inovação. Um país só cresce e progride quando há uma educação séria e qualificada. Podem destruir quantas vezes quiserem a Alemanha, como fizeram por duas vezes, mas porque possui uma das melhores educações do mundo (eu tive o privilégio de fazer a universidade lá), sempre se levantará, como se levantou. Hoje é um dos países social e tecnologicamente mais avançados do mundo. Aqui a baixa qualidade da educação é mantida por razões políticas, para manter o povo submisso e eles com os seus privilégios assegurados. Um pobre a quem se negam as razões de sua pobreza, nunca irá se indignar e buscar transformações. Mais ainda: um povo mantido na ignorância, em qualquer nível, nunca dará um salto de qualidade em direção do desenvolvimento humano e justo. Eu venho da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), uma das melhores do Brasil. Está sendo literalmente desmontada, talvez, como se suspeita, para privatizá-la, talvez por ela ter um cunho claramente social. Todos, professores e terceirizados, não estamos recebendo seus salários inteiros desde janeiro. O décimo terceiro nem foi pago. E ouvimos que houve até suicídio de gente que se desesperou com as dívidas por não ter recebido o devido salário.
     
    Ao longo dos últimos anos temos percebido o crescimento da bancada evangélica, com pautas nem sempre alinhadas a princípios verdadeiramente cristãos. Como teólogo, como o senhor enxerga essa junção de religião, poder, conservadorismo e obscurantismo?
    O que a bancada evangélica faz é contra a constituição do Brasil. Na constituição ficou claro que o país é laico, quer dizer, não se orienta por nenhuma religião, e respeita a todas, desde que se enquadrem dentro da legislação que é para todos. Os evangélicos querem ter o privilégio de impor sua agenda, especialmente a ética, com referencia à família, à orientação sexual, ao respeito aos LGBTs e outras. Eles podem ter as opções deles, dentro do espaço de suas igrejas, mas é anticonstitucional e desrespeitoso para outros que pensam diferente, quando querem fazer o particular deles, o universal para toda a população. A eles dever-se-ia corajosamente aplicar a constituição com as proibições que ela aponta.
     
    Percebemos diversos avanços da Igreja Católica sob o papado de Francisco. Dois pontos, no entanto, seguem inalteráveis: o matrimônio de sacerdotes e o sacerdócio de mulheres. Na sua opinião, isto ainda demorará a se tornar realidade?
    Face aos grandes problemas da humanidade, com a pobreza da maioria, com eventuais guerras que podem dizimar a espécie humana, o agravamento do aquecimento global que pode por em risco o sistema-vida e o sistema-terra, esses problemas do celibato e do sacerdócio das mulheres têm sua importância, mas são de relevância menor. Eles interessam apenas aos católicos. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), quanto saiba, fez uma petição ao Papa Francisco para que os padres que casaram pudessem voltar com suas famílias e assumir responsabilidades pastorais. Outros avançam a proposta, simpática ao Papa, de ordenar leigos, especialmente aposentados, com boa integração familiar, para que pudessem atender espiritualmente, por exemplo, todo um conjunto de prédios. A meu ver, a tendência da Igreja Católica é seguir o que todas as igrejas já fizeram: tornar o celibato optativo. Quem quiser, fica celibatário e se deixa ordenar. Outros se casam e se tornam padres como os outros. Sou da opinião de que a Igreja deveria abrir também a possibilidade de as mulheres poderem receber o sacramento da Ordem e serem sacerdotes no estilo das mulheres, que é diferente daquele dos homens. Creio que, na medida em que o patriarcalismo, forte na Igreja oficial, diminuir, será mais fácil e normal tomar estas decisões. Ainda mais que a Igreja está dentro da globalização, pois em muitas culturas, especialmente na África, não se pode imaginar alguém ficar celibatário. O sentido tribal e comunitário torna o matrimônio dos padres uma exigência até agora não atendida por causa da dominação da cultura branca, ocidental e romana.
     
    Por conta de um processo movido por Joseph Ratzinger junto à Congregação para a Doutrina da Fé o senhor perdeu alguns poderes dentro da Igreja Católica, desligando-se depois do sacerdócio. No entanto, graças a sua atuação junto a Teologia da Libertação, continua sendo um dos principais expoentes religiosos do Brasil. Há alguma disposição por parte do Papa Francisco no sentido de rever este processo?
    Eu mudei de trincheira para continuar no mesmo campo de batalha. Deixei, sob fortes pressões, o sacerdócio, mas continuei fazendo teologia e tomando a sério a opção pelos pobres contra a pobreza, porque isto é o eixo estruturador da teologia da libertação. O atual Papa vem do caldo cultural e eclesial da teologia da libertação, de versão argentina, que é a teologia do povo oprimido e da cultura silenciada. Ele está levando as intuições desta teologia nossa para o centro da Igreja. Por isso está se encontrando com teólogos da libertação como com [os sacerdotes] Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, Pepe Castillo, Arturo Paoli e outros. Quis conversar comigo, mas por razões de última hora, uma rebelião de 13 cardeais na véspera do Sínodo sobre a família, que ele devia acalmar, não pode me receber. Mas seguramente iremos nos encontrar em alguma viagem que fizer à Europa.
     
    O Brasil vive uma situação surreal, com condenação de inocentes sem provas e liberação de culpados com toneladas de cocaína em helicópteros. O senhor é um homem de fé: é necessário ter esperança no Brasil, apesar de nossa classe política?
    Quem perde a esperança está a um passo do suicídio, da morte voluntária. É o que não podemos e queremos. O povo brasileiro cultivou sempre em sua história a esperança, pois aguentou séculos de colonização espoliadora de nossas riquezas, três séculos de vergonhosa escravidão e duas ditaduras, a de Vargas e a de 1964. O momento atual é de participação e de ação, sempre com esperança. Entretanto, temo que estamos indo ao encontro de alguma convulsão social porque a desfaçatez e a sem-vergonhice do atual governo de tentar desmontar todos os benefícios que os dois governos do PT realizaram para milhões de cidadãos, não poderá perdurar. Haverá um momento de dizer: “Agora basta. Que se vayan todos”, como disse o povo argentino e pôs a correr um governo corrupto. O Brasil cresceu aos nossos próprios olhos, enchendo-nos de orgulho e também aos olhos do mundo de tal forma que ganhou o respeito e a admiração. Não vamos tolerar que isso se desfaça por aqueles que Darcy Ribeiro dizia: “temos as oligarquias mais reacionárias e com falta de solidariedade do mundo inteiro”. O insuspeito ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em seus Diários da Presidência (1999-2000) [vol. 3, Companhia das Letras, 2017] chegou a confessar: “temos uma sociedade colonial, subdesenvolvida, arrivista, com muita mobilidade e, ao mesmo tempo, muita ganância”. São os atuais senhores da nova Casa Grande que querem que a maioria do povo volte à senzala. Isso não vamos permitir. Lutaremos com dignidade e valor.
     
    [originalmente publicada na edição de hoje (1º.) do jornal O Imparcial