sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Estudo contesta crença de que empresário se sai melhor na gestão pública, por Fernanda Odilla.

Homem caminha pela rua segurando uma pastaDireito de imagem Getty Images

Image caption Estudo feito por pesquisadores da universidade britânica LSE revela que a performance
Um estudo realizado na London School of Economics (LSE) - uma das mais renomadas universidades do Reino Unido - contesta o argumento de que empresários são melhores administradores públicos.
Instigados pelo anúncio, feito em meados de 2015 pelo então megaempresário do setor imobiliário Donald Trump de que pretendia concorrer à Presidência dos Estados Unidos, dois pesquisadores da universidade londrina resolveram averiguar empiricamente se a experiência na direção de empresas se revertia em boas gestões públicas.
"Na época, muita gente se perguntou se um empresário estaria apto a ser um político melhor. Fomos tentar responder a essa pergunta", diz Eduardo Mello, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas que concluiu este ano o doutorado na LSE.
A pesquisa, ainda em andamento, foca em prefeitos de cidades brasileiras, segundo os autores, por causa do fácil acesso a dados que permitissem comparações adequadas.
Os primeiros achados do estudo indicam que prefeitos que se declararam empresários, comerciantes, vendedores e os que têm quotas ou participam da administração de empresas não são nem mais nem menos eficientes que seus colegas que vieram de outras áreas.
A análise de indicadores de gastos públicos sugere que a performance dos empresários é muito parecida com a dos demais ao executar o orçamento e ao investir em saúde e educação. Homens e mulheres de negócios não são melhores em reduzir o deficit fiscal nem na execução do orçamento, tampouco são melhores em conseguir mais verbas do governo federal.

Trump com um taco de golfe
Image caption Estudo foi inspirado em anúncio de que Donald Trump concorreria à Presidência do EUA

"Não achamos o efeito Trump (a crença de que empresários seriam melhores administradores). Analisamos todos os indicadores (que medem a performance de empresários como prefeitos) e nada apareceu como estatisticamente significante", assinala Mello.
"Empresários não produzem indicadores melhores. A princípio, se comportam como todos os políticos."
Mello, que assina o estudo com Nelson Ruiz-Guarin, também da LSE, cruzou dados de fontes diversas, como Tribunal Superior Eleitoral, Receita Federal, DataSus, e Censo Escolar.
Os pesquisadores analisaram dados de candidatos eleitos prefeitos em cinco eleições, entre 2000 e 2016. Por meio de regressões estatísticas, eles selecionaram municípios com cenários de disputa acirrada entre um empresário e outro candidato e depois compararam o desempenho dos prefeitos - levando em conta diferentes variáveis.
Assim, selecionaram cerca de 200 a 300 municípios por eleição. Em nenhum dos cruzamentos, contudo, foram identificados sinais de que empresários no comando de prefeituras melhoraram as contas públicas.
Mello disse à BBC Brasil ter se surpreendido com os resultados, pois acreditava que a experiência pregressa em administração poderia fazer uma diferença.
"É uma premissa na qual os eleitores acreditam tanto", afirmou o pesquisador. "Mas parece que é um mito. Precisamos repensar quais são as habilidades que formam um bom prefeito."
Mello disse que ainda quer averiguar se há diferença significativa entre a performance dos empresários de primeiro mandato e a dos que estão na política há mais tempo. Ainda assim, ele considera que dificilmente os resultados principais do estudo vão mudar.

Respostas à crise

Comentando a pesquisa, o sociólogo e cientista político Antonio Lavareda observa que a aposta eleitoral em um candidato que não se parece com um político tradicional é um fenômeno mundial que normalmente surge como resposta à uma crise política ou de representatividade.
Silvio Berlusconi

Image caption Na Itália pós-Mão Limpas, Silvio Berlusconi, um controlador de um grupo de mídia e dono de um time de futebol

Ele cita o caso do italiano Silvio Berlusconi, magnata da mídia e dono de time de futebol que foi eleito premiê depois que a Operação Mãos Limpas investigou e prendeu políticos de diferentes partidos na Itália por corrupção.
Lavareda atribui a vitória de Trump nos EUA ao fato de que boa parte do eleitorado não se via representada por nenhum político de carreira.
"Toda vez que há uma crise política, é comum a busca por alternativas. Empresários e técnicos são beneficiados com esse discurso de não ser político e de saber administrar", observa Lavareda.
Segundo o sociólogo, há ainda a crença, "no imaginário do eleitor, de que um empresário rico não roubaria os cofres públicos porque já fez fortuna no mundo dos negócios", e lembra que muitos empresários se deram bem nas urnas e moldaram carreiras na política.
Lavareda cita os nomes do deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), um dos donos da Eucatex, e dos senadores Tasso Jereissati (PSDB-CE), da família que controla uma rede de shoppings e uma empresa de telefonia, e Blairo Maggi (PP-MT), magnata da soja. Maggi atualmente é ministro da Agricultura do governo de Michel Temer.
Por outro lado, dinheiro e experiência não são garantia de votos, lembra Lavareda, citando o caso do empresário Antônio Ermírio de Moraes, que foi um dos homens mais ricos do Brasil, mas perdeu a eleição para o governo do Estado de São Paulo em 1986.
"Ter empresários e técnicos na política não é um fenômeno tão singular, é natural e esperado", salienta Lavareda.
Eduardo Mello, o coautor do estudo da LSE que avalia o desempenho de empresários no Executivo municipal, salienta que "o Estado não é uma empresa". "O objetivo do Estado não é gerar lucro. Não tem clientes, mas precisa cuidar de cidadãos. E negociar com o Legislativo não é o mesmo que tratar com fornecedores", avalia Mello.

Dificuldades

De fato, administrar uma prefeitura, por exemplo, pode estar longe de ser uma tarefa fácil para um empresário experiente.

Kalil visita obras em aglomerado Santa Lúcia
Image caption Dono de construtora e ex-presidente do Atlético Mineiro, prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil disse que 'tá f*da' cumprir promessas de campanha (Foto: Facebook)

Em julho deste ano, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PHS), entrou ao vivo no Facebook para fazer um balanço do início de seu governo. Dono de construtora e ex-presidente do Atlético Mineiro, Kalil disse que "tá f*da" cumprir as promessas feitas na campanha.
"Estamos aqui trabalhando para burro. Não somos o melhor do mundo, não somos o pior do mundo. A única coisa que aqui não tem é que ninguém está delatado, ninguém vai ser delatado", disse, admitindo as dificuldades e salientando que na sua equipe ninguém teve o nome associado à corrupção.
Kalil foi um dos empresários que se elegeu em 2016 com o discurso de que não era político. A estratégia também funcionou em São Paulo, onde João Doria, que é dono de empresa, usou a mesma retórica para conquistar a cadeira de prefeito pela primeira vez.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O conselho do Buda para lidarmos com o assanhamento dos fascistas, por Pedro Breier.




Por Pedro Breier
Bolsonaro sugerindo o fuzilamento dos responsáveis pela exposição Queermuseu; Marco Feliciano, Magno Malta e outros próceres da crítica artística visitando museus e decidindo o que deve ou não ser exibido; judiciário proibindo peça teatral e autorizando tratar homossexualidade como doença; general do exército falando em intervenção militar.
Estes são apenas os fatos mais recentes a demonstrar o grau da escalada autoritária no nosso país. Os representantes do fascismo tupiniquim estão assanhados e escancaram suas bocarras horrendas para tentar devorar a liberdade daqueles escolhidos como os inimigos da vez.
Urge pensarmos, portanto, na melhor estratégia para lidar com os que já foram contaminados pela histeria burra e, ao mesmo tempo, trazer os ainda “neutros” para o lado da defesa das liberdades e do respeito à diversidade.
É claro que quando grupos fascistas partem para a violência física a única resposta possível é a autodefesa nos mesmos termos.
Entretanto, nos debates com a galera do “bandido bom é bandido morto”, seja nas redes sociais, seja ao vivo, creio que o caminho é outro.
A resposta está neste sutra – um ensinamento resumido em poucas palavras – de Sidarta Gautama, o Buda:
Neste mundo o ódio jamais dissipou o ódio. Somente o amor dissipa o ódio. Essa é a lei, ancestral e inexaurível.
A verdade dessas palavras é evidente.
Se você duvida, faça o teste com aquele parente que cultiva o gostoso hábito de te criticar, sempre venenosamente, ou com aquele motorista do Uber reacionário que pensa que todo mundo deve se curvar ao que ele entende por correto.
Se você responder a este tipo de pessoa agressivamente, a tendência é que a réplica venha carregada de mais ódio ainda, o que, por sua vez, irá lhe irritar profundamente, fazendo com que seu desprezo inicial transforme-se em uma raiva pastosa que acabará se tornando ódio. Se você sai de uma conversa com uma pessoa que vomita ódio odiando também, ela, de certa forma, venceu. O ódio alimenta o ódio.
Agora, se você lembrar de respirar fundo; deixar a irritação que vem do âmago do seu ser dissipar-se como uma nuvem; e explanar a sua opinião com tranquilidade na voz, serenidade no olhar e amor no coração, você desarmará completamente o odiador. Na maioria das vezes ele muda o tom imediatamente e passa a conversar de forma um pouco menos indigente.
Não estou afirmando que é fácil. Definitivamente, não é. Mas é perfeitamente possível.
Lembrem-se, para facilitar a busca do estado de tranquilidade, de que os fascistas serão derrotados novamente, sem sombra de dúvidas (meditação também ajuda). O desejo humano por liberdade é poderoso demais para ser contido por meia dúzia de obscurantistas e seu séquito.
Sidarta Gautama não se tornou um Buda – aquele que alcança a iluminação – por acaso. Ele manjava dos paranauês: somente o amor dissipa o ódio.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

“Estamos vendo o fim da classe média assalariada brasileira”, diz Marcio Pochmann.







O Brasil que está saindo do atual período de recessão é um país praticamente sem uma burguesia industrial, limitado a uma burguesia comercial que compra e vende produtos, papeis ou ativos públicos e privados, com uma classe trabalhadora em situação muito precária, buscando sobreviver e uma classe média assalariada que está desaparecendo. A reforma trabalhista e a terceirização vão corroer os empregos assalariados intermediários nas grandes empresas privadas e no setor público. O que está emergindo é uma sociedade cada vez mais polarizada entre os muito ricos e a maior parte da população empobrecida. A avaliação é do economista Marcio Pochmann, professor da Universidade de Campinas (Unicamp), ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e presidente da Fundação Perseu Abramo, que esteve em Porto Alegre nesta segunda-feira (18), participando de uma homenagem a Marco Aurélio Garcia e de um debate sobre “O Capital”, organizado pela Fundação Maurício Grabois.
Em entrevista ao Sul21, Pochmann analisou a atual situação econômica do país, reconhecendo que há alguns indicadores apontando para uma interrupção da queda da atividade econômica, mas ainda insuficientes para sustentar uma retomada consistente da economia. “O governo Temer está aproveitando essa situação para passar a imagem de que estamos saindo da recessão, embora as informações sejam muito frágeis e não nos permitam muito otimismo acerca de uma retomada da economia, podendo indicar, ao invés disso, uma trajetória de estagnação da economia brasileira”, diz o economista que identifica algumas mudanças profundas em curso no tecido social brasileiro.
Sul21: Nas últimas semanas, integrantes do governo Temer vê citando indicadores econômicos que apontariam para o início de uma retomada da economia brasileira. Essa retomada é real, na sua opinião?
Marcio Pochmann: A recessão é um fenômeno anormal na trajetória de uma economia capitalista e no Brasil não seria diferente. A recessão iniciada no final de 2014 é a terceira desde 1980 quando o Brasil constituiu-se como uma economia industrializada, ou a quarta, se considerarmos a recessão de 1929, quando o país tinha uma economia de base agrária-exportadora. A trajetória comum das recessões é que elas têm um prazo reduzido de manifestação. As recessões de 1981-1983 e de 1990-1992 registraram uma forte queda da economia no primeiro ano, que foi suavizada no segundo ano e depois voltou se aprofundar no ano seguinte.




A recessão iniciada em 2014 avançou por uma trajetória diferente. Tivemos dois de queda e agora, no terceiro ano, em 2017, a economia de certa forma parou de cair. Do ponto de vista estatístico, há sinais de saída dessa situação tão baixa. Mas não há indicadores que sinalizem sustentação de um processo de recuperação, de tal forma que pode ser algo parecido com o que vivemos em momentos anteriores nas décadas de 80 e 90. O governo tomou algumas medidas que viabilizaram algumas melhoras do ponto de vista do consumo, como a liberação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, a queda da taxa de juros, a melhora do comércio externo e a excelente safra agrícola. Então, de fato, há elementos que ajudam a entender por que a economia não seguiu na recessão. Ela estancou em um patamar relativamente baixo.
O governo Temer está aproveitando essa situação para passar a imagem de que estamos saindo da recessão, embora as informações sejam muito frágeis e não nos permitam muito otimismo acerca de uma retomada da economia, podendo indicar, ao invés disso, uma trajetória de estagnação da economia brasileira. Não há motores que possam indicar uma retomada do crescimento da economia a não ser a ocupação de capacidade ociosa que temos, provocada por uma queda muito significativa. Também não há sinais de retomada do investimento.
Sul21: Do ponto de vista do desemprego, que cresceu nos últimos meses, houve alguma melhora?
Marcio Pochmann: Se compararmos com as recessões anteriores, desta vez os sinais sociais foram muito mais agudos. Tivemos um crescimento do desemprego muito mais rápido e explosivo, comparando com o que ocorreu em 1990 e 1981. O aumento da pobreza também foi muito acelerado, o que é visível nas regiões centrais das grandes cidades brasileiras, com a presença de moradores de rua e desempregados. A pobreza voltou a crescer rapidamente, mas a taxa de pobreza que tínhamos era muito baixa em 2014. Neste ano, estávamos com menos de 10% da população em condição de pobreza. Já em 1980, tínhamos 44% da população vivendo em situação de pobreza.
Nós temos um fenômeno hoje no Brasil que impede as pessoas de permanecerem desempregadas, conforme o conceito utilizado pelo IBGE. Segundo esse conceito, a pessoa, para ser considerada desempregada, não pode ter trabalhado mais do que duas horas na semana, tem que estar disponível para o trabalho e ocupar imediatamente o trabalho existente. Se a pessoa está lavando automóveis ou elaborou alguma estratégia de sobrevivência, isso passa a ser considerado pelo IBGE como ocupação. E as ocupações que cresceram possuem essas características. São pessoas com jornada de trabalho muito pequena, salários ruins. Há um precariado que se expande nestas condições, substituindo o antigo trabalhador com carteira assinada.


estabilidade maior ao governo Temer que vem acumulando recordes de impopularidade?
Marcio Pochmann: É inegável que isso tem impacto político. Cabe lembrar que, na recessão de 1981-1982, tivemos eleições para governadores. Foi importante criar, naquele período, a ideia de que estávamos saindo da recessão. Embora o resultado eleitoral tenha sido uma derrota para o regime militar, eles conseguiram vitórias em alguns estados, inclusive no Rio Grande do Sul. Agora, de modo similar, é necessário gerar números positivos para dizer que estamos saindo desta grave circunstância para gerar um 2018 mais favorável para as forças que apóiam o atual governo. A questão é saber se isso tem condições de se sustentar.
Em 2018, poderemos ter inclusive sinais negativos na economia. Saímos da recessão de 1981-1982 pelo comércio externo. Naquele período, tínhamos um país muito mais industrial do que temos hoje. Em 1991-1992, saímos da recessão pela mudança de governo, com a posse de Itamar Franco, pelo comércio externo e também por um aumento do consumo no mercado interno. Esses mecanismos não estão claros hoje. O governo liberou recursos do FGTS, muita gente usou esse dinheiro para pagar contas e para algum consumo, mas isso é uma vez só. Não há continuidade nesta liberação de recursos. É verdade que a taxa de juros caiu, mas ela caiu muito mais do ponto de vista nominal do que real. Estamos trabalhando com uma inflação este ano abaixo de dois pontos percentuais, enquanto a taxa de juros está num patamar de 8%. Então, em termos reais, ainda não há um ambiente favorável para os empresários tomarem iniciativas para ampliar sua capacidade produtiva.
Por outro lado, o Brasil segue recebendo recursos externos, mas cerca de 80% desses recursos estão sendo utilizados para a compra de ativos, de empresas brasileiras. Isso não significa, necessariamente, ampliação da capacidade produtiva. Sem negar que a situação de 2017 é melhor que a de 2016, do ponto de vista econômico, com uma inflação mais baixa e um melhor quadro externo, não há ainda, ao meu ver, base para sustentar uma retomada consistente da economia.
Sul21: Muito se falou nos últimos anos do surgimento de uma nova classe media, resultado dos avanços econômicos e sociais que o Brasil teve na última década. Após pouco mais de um ano do afastamento da presidenta Dilma Rousseff, parece existir uma certa acomodação junto a esses setores médios, mesmo com um governo atravessado por denúncias de corrupção, com uma legitimidade extremamente baixa e uma crescente violação de direitos. Como você vê essa postura geral da sociedade diante do quadro que estamos vivendo?
Marcio Pochmann: As pesquisas que temos feito, na Fundação Perseu Abramo, e outros levantamentos apontam que há um descontentamento generalizado e um descrédito na sociedade em relação ao atual governo, mas que ela não consegue identificar nenhuma alternativa. Não creio que esse ambiente revele uma acomodação, pois 2017 vem sendo marcado por grandes mobilizações e acirramentos de classes. Tivemos greves sem paralelo na história do Brasil, do ponto de vista da mobilização da sociedade. Por outro lado, os movimentos sociais não se caracterizam por paralisações e mobilizações permanentes. Elas ocorrem de tempos em tempos. Então, o que temos hoje não é uma acomodação, mas sim uma espécie de perplexidade. A sociedade está descontente com o atual governo e com a situação econômica, não vendo perspectiva de retomar ao patamar em que se encontrava. Mas não há ainda um pólo que seja capaz de agregar esse descontentamento que acaba caindo em uma certa desesperança. Isso não significa, porém, satisfação ou acomodação com a situação atual.




“O Brasil que sai dessa recessão tem uma classe trabalhadora em situação muito precária, que busca estratégias de sobrevivência”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Nós temos um debate e uma polarização intensa no Brasil hoje envolvendo talvez um terço da população, que acompanha esse processo e se posiciona. Os outros dois terços da população estão completamente distantes desse debate e tratam de viver o cotidiano e enfrentar as dificuldades do dia-a-dia.
Sul21: A desesperança que você referiu envolveria também esses dois terços da sociedade que lutam para sobreviver?
Marcio Pochmann: Há uma desesperança e um distanciamento. Cada vez mais se difunde a ideia de que a política faz mal ao bom desempenho da economia. Vimos nas eleições passadas candidatos que foram eleitos apresentando-se como não políticos, dando margem à ideia de que a política é algo inadequado para a modernidade. Neste contexto, a política vai se tornando algo residual e secundário, na crença de que a economia possa oferecer soluções que a política não consegue. Isso está sendo dito agora por integrantes do atual governo, com frases do tipo: Se não fosse a política, o Brasil já teria saído da crise. As denúncias contra o Temer praticamente paralisaram o país, impedindo as reformas e coisas do tipo.
O fato concreto é que o Brasil que emerge dessa recessão mais prolongada e profunda é um país muito menor do que aquele que entrou na recessão. É um país que vai sair deste período muito mais internacionalizado, em função da onda de aquisição de ativos públicos e privados. A burguesia industrial praticamente desaparece nesta recessão. O que temos hoje é basicamente uma burguesia comercial que faz negócios, compra e vende produtos do exterior ou nossos produtos primários, compra e vende papeis ou ativos públicos e privados. É muito difícil imaginar que isso dê consistência para um ciclo de expansão econômica. Além disso, o Brasil que sai dessa recessão tem uma classe trabalhadora em situação muito precária, que busca estratégias de sobrevivência. E estamos vendo praticamente o fim da classe media assalariada brasileira. A reforma trabalhista e a terceirização vão corroer os empregos assalariados intermediários nas grandes empresas privadas e no setor público. O que eu vejo é uma sociedade cada vez mais polarizada entre os muito ricos e a maior parte da população empobrecida.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Precisamos falar sobre Olavo de Carvalho, por Joel Pinheiro de Fonseca.


revistacafecolombo4
Quarta edição da Revista Café Colombo
Por Joel Pinheiro da Fonseca
(Originalmente publicado na edição #4 da Revista Café Colombo)
Ouvi falar de Olavo de Carvalho pela primeira vez em 2004, indicado por um amigo no primeiro ano da faculdade. Foi uma descoberta revolucionária. Em seus artigos, Olavo desbancava, refutava, humilhava e xingava subintelectuais de esquerda badalados pela mídia. Denunciava grandes conspirações políticas em curso e exibia largo conhecimento de filosofia, política e religiões, fazendo referência a autores de que jamais ouvíramos falar. Era uma desforra contra o discurso oficial que dominava desde o ensino médio até a mídia e a política. Naquela época, Olavo era um articulista de jornal com alguma projeção no país. Desde então, por uma série de brigas, acusações e desentendimentos (que fazem parte de seu modus operandi), cortou vínculos com a mídia brasileira ao mesmo tempo em que, pela internet, expandiu sua influência.
Desde 2005 mora nos EUA, de onde escreve artigos online e textos para o Facebook (e para sua própria rede social, exclusiva para seus seguidores, chamada The Real Talk), além de dar um Curso Online de Filosofia (COF) para, estima-se, cerca de 2.000 alunos pagantes. É uma das vozes mais influentes na direita brasileira. Sua coletânea de artigos O mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota vendeu mais de 100 mil exemplares. Entre admiradores, leitores e seguidores atuantes na direita nacional podemos citar Reinaldo Azevedo, Felipe Moura Brasil, Rodrigo Constantino, Bruno Garschagen, Flavio Morgenstern, Rodrigo Gurgel, Martim Vasques da Cunha, Lobão, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e Padre Paulo Ricardo. Nas grandes marchas da oposição que têm tomado o Brasil, não é raro ver cartazes com os dizeres “Olavo tem razão”, slogan do movimento que ele criou em torno de si mesmo.
Seja como pensador político ou como filósofo, Olavo está com tudo. Mas seria sua influência para o bem ou para o mal? Vale a pena examiná-lo mais de perto.
O Olavo político
Olavo vê a América Latina dominada pelo avanço do comunismo, processo arquitetado e conspirado pelo Foro de São Paulo, reunião de partidos e movimentos de esquerda cujas atas estão publicadas online. Agentes globais como a Fundação Ford, o Clube de Bilderberg e o bilionário George Soros, que servem a projetos de poder maiores, patrocinam o avanço do comunismo em nosso continente.
O PT é o maior agente do Foro de São Paulo no Brasil, e quer não apenas destruir a propriedade (a economia, aliás, é a parte menos importante do plano), mas subverter os valores e a cultura do país. Usando os métodos do teórico italiano Antonio Gramsci, a esquerda se infiltrou em todas as instituições e hoje controla a mídia, o entretenimento, as igrejas, as escolas e as faculdades. Vivemos sob o que Olavo chama de “marxismo cultural” – no lodo intelectual, cultural, estético e espiritual, e se deixarmos a elite esquerdista levar seus planos adiante, a próxima parada será o gulag.
Diante de tal cenário, Olavo propõe uma solução clara e consistente: um golpe militar para extirpar a esquerda do poder. Embora já tenha clamado pelo golpe nas redes sociais, prefere instruir seus seguidores a agirem com discrição e arquitetarem a intervenção por trás dos panos, junto às Forças Armadas. Felizmente, ninguém que o leva a sério parece ter muita influência nos centros de poder.
Na visão de Olavo, ser de esquerda não é ter uma posição política como outras. É ter uma “mentalidade revolucionária”, estar disposto a usar qualquer método para atingir seus fins e viver sob valores invertidos. Não há que se discutir com pessoas de esquerda; há que se combatê-las, posto que são ignorantes e perversas. Carregam uma espécie de doença espiritual.
Olavo reacende, em século 21, a histeria anticomunista do auge da Guerra Fria. A insistência na origem satânica do pensamento de esquerda, ademais, em nada se diferencia de sua velha contraparte marxista: a condenação de quaisquer ideias de direita como sendo “burguesas”.
Quanto à seriedade de suas opiniões políticas, uma passada rápida por afirmações recentes revela um sujeito desconectado do mundo real. Em 2014, por exemplo, afirmou que Denise Abreu seria a única política capaz de vencer Dilma nas eleições. Ela acabou perdendo a disputa para deputada federal. Na época da crise do ebola em 2015, afirmou que era parte do plano de Obama infectar o povo americano com o vírus. E em sua obra máxima, O jardim das aflições, diz com todas as letras que Fernando Henrique Cardoso só se elegeu por ter sido iniciado na maçonaria.
Apesar dos erros, Olavo tem a força de estilo, o carisma e a retórica para conquistar o público. Seus leitores e ouvintes assíduos tornam-se incapazes de avaliar racionalmente qualquer ideia que venha do outro lado do espectro, por estar envenenada de marxismo cultural. Aderem às mais irrisórias conspirações que circulam por correntes de WhatsApp e sites de notícia falsas, referências que o próprio Olavo já compartilhou. Adicione a isso doses de milenarismo católico (como as aparições de Fátima) e tem-se noção do nível de delírio.
Longe de coibir as manifestações de loucura e ignorância em sua página, Olavo as estimula. Deixo um exemplo. Em 04 de setembro de 2014, um leitor mandou esta mensagem a seu perfil público:
“Professor Olavo de Carvalho, não sei se está fora de contexto essa pergunta, mas hoje, na atual conjuntura pré-governo mundial, não está se formando um novo ecúmeno global no sentido Voegeliano? Não sei, posso está viajando, mas é incrível a similaridade do processo atual, guardado as devidas proporções e condições específicas de cada tempo, com o que se desenrolou no período compreendido de Alexandre o Grande até a Pax romana, estrutura na qual, Jesus entra na história e que o cristianismo se ‘serve’ para a sua rápida expansão. (…) O que o senhor acha?! Sinceramente, acho que à catálise derivará, articulando nesse contexto profecias bastante difundidas, talvez, quem sabe, cruzando os dedos, o tão preconizado tempo mariano!”
Ao que o professor respondeu, sapiencialmente: “Você está na pista certa”.
O Olavo filósofo
Apesar da influência, não é como analista político que Olavo quer firmar sua reputação, mas como filósofo. A imagem que ele cultiva é a do intelectual universal, estudioso recluso, profundo conhecedor do espírito humano. Por isso mesmo ele sempre enfatiza a importância da formação cultural, da literatura e de basicamente todo o corpus da filosofia ocidental. Essa credencial – ter lido extensamente – é usada como forma de “carteirada” para desqualificar interlocutores e desafetos. No Brasil, funciona.
Não há questão simples que não possa ser mistificada com apelos à história da filosofia ou das grandes religiões. Sem acumular a bagagem da erudição livresca não se tem “o direito” de opinar mesmo sobre questões políticas do dia-a- dia. Menos importante do que a substância de um argumento é o suposto estudo que o precedeu. Para muitos admiradores, estar com Olavo é receber o selo de sua própria alta cultura.
A substância do pensamento filosófico de Olavo é pouca. Primeiro, temos seus dois principais livros: Aristóteles em nova perspectiva e O jardim das aflições.
O primeiro é um livreto de 100 páginas em que se argumenta que, para Aristóteles, o conhecimento humano passaria por quatro estágios: poesia, retórica, dialética e lógica. Por carecer de referências detalhadas ao texto de Aristóteles, não serve como tentativa séria de interpretação – é, no máximo, o esboço de um projeto. O real objetivo, contudo, não é interpretar Aristóteles, e sim apresentar uma ideia do próprio Olavo sobre a alma humana e a história do mundo: a tese de que mesmo o conhecimento racional depende de um estofo imagético e simbólico, e que morre quando se distancia dele. A filosofia se confunde, em suas páginas, com a experiência religiosa. A frase final da obra resume bem: “a devoção ativa à suprema ciência, à sabedoria infinita, é a essência de toda verdadeira filosofia e de toda verdadeira religião.”
O volume, curiosamente, não termina aí. O leitor é ainda brindado com 150 páginas adicionais de discussão entre Olavo e um parecerista da revista Ciência Hoje, que rejeitara o texto. A regra infalível se verifica: ao fim, Olavo está tratando o tal parecerista como analfabeto.
O jardim das aflições, por sua vez, é um livro sem unidade, que vai de uma tentativa constrangedora de refutação de Epicuro, desmerecido como “hipnotista” (acusação que faria mais sentido se voltada ao próprio Olavo) aos perigos da Programação Neurolinguística, pseudociência já desacreditada quando o livro foi publicado. Também discorre sobre maçonaria, comunismo, correntes esotéricas, milenarismos. Supostamente, o tema central é o conceito de império no ocidente, mas, na prática, é pouco mais que a aplicação sensacionalista de teorias conspiratórias.
Quando aparece algum argumento filosófico, Olavo é incapaz de analisá-lo sobriamente. Há sempre uma cruzada espiritual por trás das linhas, uma batalha entre as forças do bem (representadas por ele próprio) e do mal (todos aqueles que, sem nem mesmo desconfiarem, o contrariam). Muito mais importante do que a precisão no uso dos termos é a escolha de descrições carregadas o bastante para trazer o leitor a seu lado e vibrar junto com o mestre.
Não obstante, consta que a obra escrita e publicada é uma fração pequena do corpus olaviano. A maior parte consiste de gravações de aulas, palestras e hangouts online, apostilas que circulam informalmente e publicações em redes sociais como Facebook, Twitter e na The RealTalk. Isso vem bem a calhar para o professor e seus seguidores, pois toda vez que alguém o critica é imediatamente rebatido com a afirmação de que não estudou sua obra completa (requisito que Olavo jamais segue para criticar a quem quer que seja). Como ninguém tem tempo de escutar milhares de horas de aulas gravadas, ninguém, salvo os discípulos mais fiéis, tem como criticá-lo.
Ainda assim, é possível traçar as teses básicas da filosofia olaviana. Em primeiro lugar, há a teoria psicológica das “12 Camadas da Personalidade”, pelas quais o indivíduo ascende até chegar ao nível máximo (entre os seguidores de Olavo é comum especular sobre qual nível tal e tal membro ocupariam). Há a “Teoria dos Quatro Discursos” – ou seja, quatro níveis de articulação pelo qual o conhecimento humano necessariamente passa. Por fim, há o conceito de “Paralaxe Cognitiva”, que significa a desconexão entre o discurso de um autor e sua experiência vivida.
A propósito, esse último serve como ferramenta multiuso para refutar qualquer autor. A dúvida metódica de Descartes, por exemplo, seria impossível. Olavo o sabe porque reconstruiu – mediante um processo de introspecção mais ou menos espiritual – a “experiência fundamental” do filósofo. Como tantos outros momentos de sua obra filosófica, é um jeito de se esquivar da argumentação e basear-se no peso de sua autoridade (intelectual, moral, espiritual), que é o suporte de seu castelo intelectual.
Olavo pode ser encaixado no grupo dos pensadores que veem a filosofia antes de tudo como uma disciplina espiritual. Para ele, filosofia é um modo de vida – uma disciplina espiritual – e não um conjunto de argumentos e análises. A verdadeira filosofia só pode ser observada in loco, assistindo a um filósofo (que deve ter, por sua vez, apreendido a filosofia de um outro filósofo) filosofar; o texto é uma fotografia morta de seu pensamento vital.
Por fim, Olavo atribui um valor desmesurado a alguns autores de sua predileção, que em muito supera sua relevância real para o pensamento. Nomes como Eric Voegelin, Mário Ferreira dos Santos e o Padre Stanislaus Ladusãns (iniciador de Olavo na filosofia) são alçados às alturas. De Mário Ferreira dos Santos, por exemplo, Olavo afirma que é “o único filósofo moderno que suporta uma comparação direta com Platão e Aristóteles”. Invariavelmente, a elevação de outros autores serve para reafirmar as atitudes centrais da filosofia de Olavo – a ênfase na experiência sobre a argumentação e o pensamento crítico; a conexão com uma ordem transcendente, sagrada e, portanto, inquestionável; e a confiança em sua própria autoridade.
Pode-se concordar ou discordar das teses de Olavo. Tive, inclusive, meu momento com ele: uma troca de artigos sobre a relação entre filosofia escrita e filosofia oral nas universidades medievais (seus artigos podem ser encontrados no livro A filosofia e seu inverso). Pode-se debater o mérito de Mário Ferreira dos Santos e de Eric Voegelin. O real problema reside em outro ponto: todas as teses servem à causa mestra de justificar o próprio Olavo e o culto a seu redor.
Olavismo como modo de vida
Estou convencido de que, na atuação de Olavo, a forma é mais importante que o conteúdo, e chega mesmo a substituí-lo. Olavo vende com maestria a imagem de sábio e de bravo defensor do bem para jovens sedentos de certezas. E, com a confiança que nele depositam, leva-os pela mão a seu mundo mental particular.
O olavismo é um simulacro de religião que segrega seus adeptos do mundo. Uma “religião” que é parasitária do cristianismo por ele pregado, e em especial do catolicismo, mas que poderia facilmente se moldar a outros credos. Todos os possíveis pontos de contato com visões diferentes são neutralizados.
As amizades devem se dar preferencialmente entre os seguidores. A verdadeira amizade é “querer as mesmas coisas” e, portanto, não há amizade possível entre alguém que busca os fins mais elevados da vida e da sociedade (os alunos de Olavo) e quem vive para fins mundanos ou mesmo perversos.
A universidade e o ensino formal são, no melhor dos casos, inúteis e, mais comumente, perversos. A formação em ciências e matemática é vista como um saber puramente técnico, enquanto as filosofices amadoras do mestre sobre o tema são alçadas à categoria de verdadeira sabedoria. Nas ciências humanas, nem é preciso dizer, o mundo acadêmico “normal” é terra arrasada, exceto quando algum desses acadêmicos “normais” elogia Olavo e sua obra, o que imediatamente o arranca da condição de acadêmico “normal” e o transforma num intelectual acima da média entre seus pares.
Recentemente, o homeschooling passou a ser uma bandeira empunhada pelos adeptos do olavismo. Independente da discussão sobre os méritos do ensino domiciliar, um efeito claro dele é que o contato da criança com pessoas alheias ao olavismo ficaria bastante restrito.
O bom aluno do Curso Online de Filosofia (COF) deve se abster de opiniões até que se encontre bem formado: momento sublime que, aparentemente, nunca chega. A lista de leituras (que começa com carga pesada de literatura, pré-requisito da filosofia) é grande. E quando parece que os alunos chegarão à terra prometida, quando irão finalmente debater os grandes temas filosóficos, surge uma nova preliminar: ler mais literatura, decorar melodias, ler livros à velocidade de um parágrafo por dia. O curso teve início mas não se sabe se terá fim. Certa vez, Olavo lançou a bravata de que 5 anos de COF bastariam para o indivíduo dominar o establishment intelectual brasileiro (promessa que, embora o prazo já tenha expirado em 2 anos, não se cumpriu).
Olavo fomenta o tipo de disciplina e sujeição mental que esperaríamos de uma seita sob o comando de um guru. São estimulados a acreditar em toda sorte de misticismo, milenarismo e disciplinas esotéricas como astrologia e numerologia. A intuição, o símbolo e a convicção são superiores ao argumento, à crítica e à lógica discursiva. Olavo passou por tudo isso em sua formação – tendo, inclusive, participado de uma seita iniciática islâmica –, o que nos faz pensar quantos dos métodos aprendidos nesse período – hoje repudiado – não seriam reproduzidos no COF.
Questionar e discordar são práticas coibidas ou, na melhor das hipóteses, desestimuladas. Chegou-se ao ridículo de inventar a “virtude” conhecida como “humildade metódica”, segundo a qual o aluno, mesmo quando lhe parecer que Olavo está errado em um ponto particular, tem a obrigação de guardar a impressão para si e de convencer a si mesmo de que o professor, ainda que pareça estar errado, “deve estar certo”, posto que tem acesso a um plano mais elevado da realidade. O aluno prefere duvidar da própria mente a questionar o mestre.
Tantos mecanismos de defesa protegem o COF de uma constatação óbvia: é um curso pífio, a mais exata definição pedagógica do sentimento hoje conhecido como “vergonha alheia”. Horas e horas de elucubrações, brincadeiras, repetições, divagações, voltas, platitudes, impropérios, beletrismos e imprecisões sem progresso. Fala-se um pouco da biografia de um filósofo, comenta-se a política do dia, volta-se ao filósofo sob um outro aspecto, faz-se referência a uma briga do Facebook e assim por diante. Não se vai a lugar nenhum, não se sai de lugar nenhum: ninguém sabe o que aprendeu. Peça a um aluno qualquer de Olavo que, em vez de o exaltar, em vez de expor em linhas gerais o que seria, em tese, sua obra, que aplique os conhecimentos filosóficos aprendidos na análise criteriosa de um filósofo ou de um problema, e veja o resultado. Mesmo assim todos saem embasbacados, sentindo que presenciaram algo profundo, de extrema qualidade.
Isso se explica. O real objeto dessas aulas não é uma tese ou obra filosófica, mas o espetáculo de ver o mestre em ação, filosofando em tempo real. Se transformado em texto, de fato, não sobra nada; perde-se o essencial, a pessoa que está ali falando. Pois nesse espetáculo pirotécnico de retórica e carisma, o conteúdo tende a zero para dar todo o espaço à única coisa que realmente importa: o próprio Olavo. Sua filosofia nada mais é do que uma mixórdia de racionalizações que facilitam a expansão do ego de Olavo sobre as mentes dos discípulos, que vão, passo a passo, sendo engolidas pela personalidade forte daquele que os guia, imitando-o até se tornarem cópias perfeitas.
Tudo em Olavo leva o aluno a se aferrar na autoridade e importância do mestre. Olavo destrói a autoestima de seus seguidores, substituindo-a pela devoção à sua pessoa. A dependência pessoal, a confiança exacerbada, a aniquilação do senso crítico em favor de uma visão supostamente mais profunda, o cultivo da admiração embasbacada. Em cada um deles, uma só conclusão: Olavo é o único canal seguro de contato com a realidade. E por isso a defesa tão aguerrida de seus seguidores. Se Olavo cair, isto é, se ficar patente que ele não é esse grande luminar do pensamento que lhes foi vendido, cairá o mundo dos discípulos.
Nesse contexto, é impossível ser neutro. Ou se presta reverência submissa ou se é inimigo. O eventual distanciamento nunca vem sem uma devida briga – em geral pública – seguida de excomunhão. Pouco a pouco, as pessoas mais inteligentes vêm se dando conta do truque e se afastando do mestre. O mal que sua legião de seguidores causa ao debate público, contudo, permanece.
Guilherme Carvalho
Participa da atualização deste site e das mídias sociais do Café Colombo, além da apresentação e produção do programa na Rádio Universitária FM. Graduando em jornalismo pela UFPE.

Bolsa Família distribuiu renda, mas não reduziu abismo social, diz Lena Lavinas.

 A professora da UFRJ Lena Lavinas
A política social inaugurada com o Bolsa Família garantiu que brasileiros há gerações à margem do mercado de consumo adquirissem a primeira televisão, a primeira geladeira. Ela falhou, contudo, em promover o acesso universal a direitos básicos previstos na Constituição - educação, saúde, saneamento - e em equalizar oportunidades, que ainda são muito menores para as famílias mais pobres.
Com o sucateamento dos serviços públicos, ressalta a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Lena Lavinas, cresce o "abismo social" que divide as classes populares e médias - os padrões quase opostos de qualidade de vida que separam quem tem dinheiro para pagar por serviços que deveriam ser prestados pelo Estado de quem não tem.
Pesquisadora do impacto de políticas públicas e sociais, a economista discute esses temas no recém-lançado The Takeover of Social Policy by Financialization - The Brazilian Paradox (A Tomada da Política Social pela Financeirização - o Paradoxo Brasileiro, em tradução livre). Publicada nos Estados Unidos pela editora Palgrave Macmillan, a obra chega ao Brasil em 2018 pela editora Todavia.
Lavinas é graduada pela universidade francesa Sorbonne e fez mestrado e doutorado na mesma instituição. Foi professora visitante da Universidade de Princeton e da Universidade da Califórnia (UCLA). Até o início do ano, estava na Alemanha fazendo pesquisa na Wissenschaftskolleg zu Berlin (Wiko), o Instituto para Estudos Avançados de Berlim.
Veja os principais trechos da entrevista concedida à BBC Brasil.
BBC Brasil - Uma de suas críticas à política social brasileira é que ela se fixa na redução da pobreza, deixando para segundo plano a proteção social. Como se dá essa distinção?
Lena Lavinas - A gente tem que entender o que é política social. A finalidade da política social é romper o vínculo entre ter acesso a educação, saúde, do fato de alguém ter renda para pagar por esses serviços. É de "desmercantilizar" o acesso a determinados bens e serviços que são considerados direitos, tal como estipulado na Constituição de 1988.
O que a política social no Brasil fez nos últimos anos foi fortalecer a dimensão das transferências de renda. Isso teve um impacto muito grande, muito positivo, na redução da pobreza, porque toda vez que eu transfiro algum tipo de renda mínima para as famílias mais pobres, eu estou reduzindo o grau de destituição dessas famílias.
Mas se ao mesmo tempo eu não estou garantindo que essas pessoas tenham acesso a saúde, a saneamento básico, eu não estou realmente ampliando o grau de cobertura da proteção social.
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Image caption Política social foi usada como "colateral" para dar aos mais pobres acesso ao sistema financeiro, diz Lavinas
O que eu estou fazendo ao dar dinheiro para as famílias é incorporando-as ao mercado. Na medida em que elas entram no mercado, se eu não estou oferecendo serviços de saúde, atendendo às suas necessidades de acesso a saneamento, segurança, o que vai acontecer? As pessoas vão ter que usar essa renda que recebem para financiar determinados bens e serviços que elas deveriam estar recebendo gratuitamente.
Ora, como não é possível atender a todas as necessidades com tão pouca renda, as pessoas vão acabar tendo que se endividar para cobrir outras necessidades.
BBC Brasil - É nesse sentido que o Bolsa Família seria uma "inovação incompleta", como a senhora definiu?
Lavinas - A Constituição de 1988 havia criado, pela primeira vez, com o BPC (Benefício de Prestação Continuada), uma política para reduzir o grau de destituição da população pobre brasileira. Ocorre que ele, desde o seu início, tinha como público alvo apenas os idosos pobres com mais de 65 anos ou os portadores de deficiência. Mas a pobreza é muito mais ampla.
O Bolsa Família, quando surge, em 2003, supre uma lacuna gravíssima, porque, pelo desenho da política assistencial na Constituição, a maior parcela dos pobres não era atendida. Foi uma inovação institucional muito importante, que infelizmente jamais se tornou lei de fato.
Image caption Uma das falhas do Bolsa Família, diz a professora, é ser uma política cíclica, ampliada apenas em períodos de crescimento da economia | Crédito: Agência Senado
O problema do Bolsa Família é que ele funciona com linhas de pobreza muita baixas. Hoje o benefício médio pra uma família de quatro pessoas é de R$ 182, muito pouco. E justamente em um momento de recessão como o que vivemos agora a cobertura deveria ser expandida, porque o número de pobres aumenta.
O que a gente está vendo é que a finalidade precípua do Bolsa Família não está sendo atendida. Ele está funcionando como uma política cíclica, ou seja, ele se amplia à medida em que há crescimento econômico e tende a estabilizar nos momentos de descenso do ciclo econômico - e não contracíclica.
O segundo ponto importante é que a maior parte do gasto com assistência no Brasil foca essencialmente nas transferências de renda, que correspondem mais ou menos a 68% de toda a despesa social, enquanto que a provisão "desmercantilizada" de serviços é uma parcela equivalente a um terço do gasto social.
A pobreza não se resume à falta de renda. Ela tem outras dimensões, como moradia, como ter uma cobertura de serviços para a população idosa, para as crianças, uma série de outros serviços que poderiam mais rapidamente reduzir a distância que separa a qualidade de vida e as oportunidades dos muitos pobres dos outros.
Isso não aconteceu. A gente fez uma política de combate à pobreza no Brasil na década de 2000 essencialmente voltada para a incorporação dos pobres ao mercado.
BBC Brasil - Se o ideal seria aumentar o nível de proteção social, como fazer isso em um Estado que tem cada vez mais dificuldade para pagar as contas?
Lavinas - Isso é uma questão ideológica. Nós temos um governo que diz que está ali para reduzir o deficit público. Só que o deficit, que era muito pequeno, está em R$ 159 bilhões e vai se estender até 2022.
O que a gente está inferindo? Que essa política de austeridade não está contribuindo para a retomada do crescimento econômico. O problema da dívida pública, que não pode ter dívida pública, levou a uma transferência daquilo que antes era responsabilidade do Estado à esfera individual.
Isso é uma ideologia, se a gente olhar exclusivamente para o caso brasileiro, a gente vai ver que a política de austeridade só está nos levando a ir mais e mais para o fundo do poço.
Se não há consumo, se o salário das pessoas foi cortado e a taxa de desemprego é extremamente elevada, se eu não estou elevando as transferências monetárias para sustentar a demanda, se eu estou cortando benefícios previdenciários, fica muito difícil a gente sair da crise.
Nós estamos em uma lógica de austeridade que reduz justamente a participação da população no mercado de trabalho, que corta benefícios. Tudo isso leva a uma redução do crescimento, o desempenho econômico fica inibido e, em função disso, agravam-se mais ainda as condições de financiamento (da proteção social), porque a arrecadação cai.
BBC Brasil - O livro chama atenção para o paradoxo da política social implementada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Qual seria ele?
Lavinas - O que a gente viu na gestão do PT - e eu posso falar isso tranquila, porque sempre fui petista, e essa é uma crítica contundente - foi que houve uma retração da esfera pública. E esse é o paradoxo.
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Image caption Para pesquisadora, ponto mais fraco da gestão de política social do PT foi a redução da esfera pública
Primeiro a gente teve ambiguidade, a expansão de alguns direitos e, ao mesmo tempo, a mercantilização de outros, porque as coisas avançaram no front da privatização, das despesas crescentes para as famílias.
Do outro lado, o paradoxo é que quem definiu esse modelo de desenvolvimento foi justamente o partido que deveria estar preocupado em ampliar a esfera pública, e não foi isso o que aconteceu.
BBC Brasil - Por que é importante ter esfera pública?
Lavinas - Na primeira eleição do presidente Lula, também na segunda, ele teve grande apoio da classe média. Não foram só os setores populares que elegeram o presidente Lula. Mas a coisa foi virando.
Por que nós tivemos 2013, o movimento nas ruas? Aquilo foi a classe média na rua dizendo: "Nós queremos serviços públicos. A gente quer transporte mais barato. A gente não quer passar cinco horas em um ônibus de má qualidade". Foi isso que as pessoas disseram: "Nós queremos mais esfera pública".
Por quê? Veja, se a gente olhar entre 2004 e 2014, enquanto o salário médio cresceu 1,9% ao ano, os custos com serviços de saúde privados cresceram, em termos reais, 8%, as despesas com educação, 7,7%. A renda estava subindo, mas a classe média passou a ter cada vez mais dificuldade de fazer frente às suas necessidades.
Direito de imagem Agência Brasil
Image caption Deterioração da esfera pública foi combustível para protestos de 2013
Houve uma ruptura do apoio desses amplos setores chamados de classe média com um governo que poderia ter contribuído, com a ampliação da esfera pública e da oferta de serviços públicos, para aproximar isso que é o grande abismo social que temos: as classes populares e as classes médias. Porque de fato são padrões, em termos de acessibilidade e de qualidade de vida, muito diferentes.
Se a gente pusesse todas as crianças na escola pública, se déssemos oportunidade para todo mundo se tratar gratuitamente em clínicas públicas no seu bairro, por exemplo, estaríamos criando um espaço de aproximação entre classes sociais, reduzindo esse abismo no qual vivemos. O que a gente vê é que esse abismo aumentou.
O ponto mais falho no que foi a gestão do Partido dos Trabalhadores, sem dúvida nenhuma, foi ter reduzido a esfera pública e, portanto, tolhido os direitos, impedindo que a gente de fato caminhasse para ter uma sociedade mais homogênea. Porque a redução da desigualdade de renda não contribuiu pra que a gente tivesse uma sociedade mais homogênea em termos de oportunidades.
O que universalizou foi o mercado: todo mundo tem televisão, todo mundo tem geladeira. Isso também é importante, mas não é suficiente. Quando as pessoas foram para a rua, elas não foram pedir geladeira nem televisão de tela plana. Elas foram pedir transporte, saúde e educação.

O destino dos negros alemães sob o nazismo, por Even Rosenhaft.


170904-Nazismo
Eram poucos, quase todos oriundos das antigas colônias africanas. Foram designados “apátridas” de “sangue estrangeiro”. Cerca de vinte foram internados nos campos. Um sofreu eutanásia
Por Eve Rosenhaft, no The Independent | Traduzido por El Coyote
O fato de comemoramos oficialmente o Holocausto em 27 de janeiro — data da libertação de Auschwitz — resulta em lembrar os crimes nazistas focando principalmente o assassinato em massa dos judeus da Europa.
As outras vítimas do racismo nazista, incluindo os sinti e os roma europeus, são citadas rotineiramente nas comemorações, mas nem todos os sobreviventes tiveram as mesmas oportunidades de ter sua história conhecida. Um grupo de vítimas que ainda precisa ter suas memórias publicadas são os alemães negros.
Quando Hitler chegou ao poder em 1933, havia alguns milhares de pessoas negras vivendo na Alemanha. Elas nunca foram contadas e as estimativas variam muito. No coração de uma comunidade negra emergente havia um grupo de homens das colônias alemãs na África (perdidas com o tratado de paz que pôs fim à Primeira Guerra Mundial) e suas esposas alemãs.
Eles estavam conectados por toda a Alemanha  por laços de família e por associação. Alguns eram ativos em organizações comunistas e anti racistas. Entre os primeiros atos do regime nazista estava a supressão da militância negra. Havia também de 600 a 800 crianças filhas de soldados coloniais franceses – muitas, mas nem todas, africanas – quando o exército francês ocupou o Vale do Reno como parte do acordo de paz de 1919. As tropas francesas foram retiradas em 1930 e o Vale do Reno foi desmilitarizado até que Hitler posicionou unidades alemãs lá, em 1936.
Negação de direitos e trabalho
Em 1935 as leis de Nuremberg retiraram a cidadania alemã dos judeus e os proibiram de se casar ou ter relações sexuais com “pessoas de sangue alemão”.
A regra seguinte afirmava que pessoas negras (ou “ciganas”) seriam consideradas “de sangue estrangeiro” e sujeitas aos princípios de Nuremberg. Muito poucos descendentes de africanos tinham cidadania alemã, mesmo quando haviam nascido na Alemanha, mas isso se tornou irreversível quando receberam passaportes que os designavam como “negros apátridas”.
Em 1941, crianças negras foram oficialmente expulsas das escolas públicas, mas a maioria delas sofreu abuso racial nas salas de aula muito antes. Algumas foram forçadas a sair da escola e nenhuma tinha permissão para ir à universidade ou receber treinamento profissional. Entrevistas já publicadas e memórias tanto de homens quanto de crianças , testemunhos não publicados e pedidos de indenização do pós-guerra  comprovam essas e outras experiências.
As ofertas de emprego, que já eram poucas antes de 1933, diminuíram depois. Sem a possibilidade de encontrar trabalho regular, alguns foram convocados para o trabalho forçado como “trabalhadores estrangeiros” durante a Segunda Guerra Mundial. Filmes e shows de teatro que faziam propaganda pelo retorno das colônias alemãs na África tornaram-se uma nova forma de renda, especialmente após as pessoas negras serem banidas dos outros tipos de performance pública em 1939.
Quando o comandante das SS , Heinrich Himmler, fez um inquérito sobre todas as pessoas negras na Alemanha e na Europa ocupada em 1942, ele provavelmente estava pensando em  algum tipo de algum tipo de  ataque mas não houve concentração maciça.
As pesquisas nos registros dos campos de concentração e os testemunhos dos sobreviventes até agora apontam cerca de 20 negros alemães que cumpriram pena em campos de concentração e prisões – e pelo menos um que foi vítima de eutanásia. Há o caso de uma pessoa negra que foi enviada para um campo de concentração claramente por ser um Mischling(mulato) — Gert Schramm, internado em Buchenwald em 1944, aos 15 anos.
Os processos que terminavam com encarceramento geralmente começam com uma acusação de comportamento pervertido ou antissocial. Como os negros eram visados pela polícia, isso tornou-se uma razão para não libertá-lo, uma vez que eram postos em custódia.
A esterilização: um ataque às famílias
Foi o medo nazista da “poluição racial” que levou ao trauma mais comum sofrido pelos negros alemães: a desagregação das famílias. Casais “mistos” foram perseguidas até se separarem. Enquanto outros solicitaram licenças para casamento, quando era descoberto que uma mulher estava grávida ou tinha um bebê, o  parceiro negro tornava-se alvo para a esterilização involuntária.
Em uma ação secreta em 1937, algumas das 400 crianças do Vale do Reno foram esterilizadas à força. Outros alemães negros tiveram que se esconder ou fugir do pais para escapar da esterilização, enquanto as notícias de amigos ou parentes que não  conseguiram fugir intensificaram o medo que dominava a vida das pessoas.
A comunidade negra alemã era nova em 1933; na maioria das famílias a primeira geração nascida na Alemanha estava chegando à maioridade. Nesse aspecto ela era similar às comunidades na França e no Reino Unido, que estavam formando famílias iniciadas por homens das colônias.
A perseguição nazista rompeu os laços dessas famílias e dessa comunidade. Um legado desse processo foi o longo silêncio sobre o rosto humano da história colonial da Alemanha: a possibilidade de que negros e brancos alemães pudessem compartilhar um espaço social e cultural.
Esse silêncio ajuda a explicar as respostas mistas dos alemães para a atual crise dos refugiados. As boas vindas oferecidas pela chanceler alemã, Angela Merkel, e muitos alemães comuns deu voz ao humanitarismo, que sempre esteve presente na  sociedade alemã e que foi reforçado pelas lições do Holocausto.
A reação contra os refugiados  revela o outro lado da moeda: alemães com medo da imigração não são os únicos na Europa. Mas suas ansiedades nos mostram uma visão que continuou muito poderosa na sociedade alemã desde 1945: a ideia de que o que quer que mereçam, pessoas que não são brancas não podem ser alemãs.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

CRIADO-MUDO, por ALEXANDRE MEIRA (POEMA)


 



Ouvi de você:

Cubra espaços,

preencha vazios.



Então, fui.

Haja veneno letal,

escorrida gota,

corroída parede,

derrubada coluna,

toda forma derretida

foi cavada trilha

de seu criado-mudo,

até cair.

Segui corrente

ígnea.

Destruí a hemácia

vadia.

Matei o leucócito

no cio.



Cada molécula,

briga o veneno,

             calcina.

Deixou pasta

que não passa do ralo,

acumulado no fundo,

não vencido gargalo.

Varrido tapete abaixo,

à tapa e cassete:

Fiquei.



Aí, sim,

depois de seco,

sei que

poderás contar comigo,

             cobrir o buraco,

reboco de parede,

calço de cama quebrada,

livro que nunca leu.


Até morrer duas vezes 

na sua mesa de cabeceira:

Duendes,

crucifixo,

e eu,

assim fala o Feng Shui.



Só assim descansaremos em paz,

ao observarmos tudo que jaz,

até certo dia,
em que hei de amolecer,

virar novo veneno,

violado,

vazio,

voraz,

e vermelho.

Hei de sangrar sempre

ao ouvir de você,
pra descer rápido,

ácido escorrido,

cavar,

corroer,

derrubar,

e cobrir 

qualquer espaço vago,

que seja,

do seu ego.

O Brasil da traição, por Aldo Fornazieri.



O Brasil da traição
por Aldo Fornazieri
O que espanta no depoimento de Antônio Palocci ao juiz Moro não foi a traição que ele perpetrou contra Lula, mas o despudorado cinismo da traição - a total desfaçatez com que foi feita. O depoimento foi, praticamente, uma delação. Nestes termos, seguiu o padrão de outras delações. Todas revelam o apodrecimento do caráter moral da política brasileira e de boa parte dos políticos e de empresários que se relacionam com o mundo político e com o Estado.
Palocci, a exemplo de tantos outros delatores, não revelou "verdades" a Moro como forma de arrependimento moral, como sinal de  consciência penitente de alguém que havia cometido graves violações da lei, como alguém que vem a público confessar imperdoáveis pecados contra a sociedade, como alguém que sente uma dor moral insuportável e um sentimento angustiante de perda da honra pessoal. Nada disso está presente no depoimento de Palocci. O único objetivo do depoimento foi torpe: conseguir um benefício pessoal, buscando que lhe seja concedido o privilégio da delação premiada. Este tipo de pessoa está apta a alcançar a liberdade para continuar persistindo no crime, assim como Temer se habilitou pela traição a chegar à presidência da República para continuar na senda criminosa.
Palocci nunca teve senso de grandeza, de responsabilidade e de honra, pois se o tivesse, teria se preparado e se preservado para ser presidente do Brasil, ao invés de perder a sua dignidade política com acusações falsas contra um pobre caseiro e com festas tipicamente brasilienses na casa em que morava. A Deusa Fortuna lhe era benfeitora e a ocasião era propícia para que ele se tornasse presidente. No entanto, preferiu entregar-se às frivolidades da vida. Pessoas que têm essas oportunidades e as jogam ao vento não podem ser confiáveis.
Trata-se de um grave equívoco comparar Palocci ao prisioneiro político que, sob tortura, entrega companheiros. Ninguém tem o direito de julgar a conduta de um torturado, pois somente aqueles que foram torturados sabem os seus limites físicos e psicológicos. Claro que a perspectiva de passar alguns anos na cadeia é algo profundamente desagradável. Mas não constitui o limite da insuportabilidade.
A traição pode ser uma infração moral, uma infração penal ou ambas as coisas. No caso, Palocci cometeu uma infração moral, pois o costume, a moral comum, tem a fidelidade como um valor. A traição, nesse sentido, é um crime imperdoável, uma coisa vil, abominável, uma ação de homens mal-aventurados. A conduta de Palocci ante o juiz foi abjeta: subserviência ao novo senhor e frieza com Lula que o honrou. Frieza também ao criar frases de efeito para produzir maior dano ao ex-presidente.
A traição é um crime imperdoável porque é, antes de tudo, um crime do coração. A fidelidade abriga a fé, a crença no caráter confiável das pessoas. A traição como infidelidade é a ruptura da fé, do pacto tácito ou explicito que existe entre duas pessoas ou um grupo de pessoas, os membros de empresa, de uma comunidade, de um partido, de uma nação.
É um crime do coração porque fidelidade implica confiança e a confiança original da experiência de vida e de mundo que se estabelece é a confiança entre a mãe e a criança, é uma confiança de sentimentos, da sensibilidade, do coração. Esta confiança original se prolonga na vida através da família, das amizades, dos agrupamentos associativos ou empresariais de diversos tipos, da comunidade, da sociedade, da política, dos partidos e do Estado. Sem confiança os seres humanos ficam sós diante do mundo, mergulhados em sua avassaladora solidão. Trair significa estilhaçar tudo isto.
A delação premiada sem provas, tal como vem sendo desenvolvida no Brasil, tornou-se um aterrador pedestal onde sobem os oportunistas, os cínicos, os hipócritas os chefes de organizações criminosas. Sim, porque alguns chefes das maiores organizações criminosas - os Odebrecht e os Batistas - são delatores.
Traição e inconfiabilidade
Se é verdade que a delação premiada bem conduzida pode beneficiar a sociedade ao se descobrir crimes contra o Estado e contra o interesse público, quando mal feita, ela desestrutura ainda mais a sociedade, reforçando o clima de inconfiabilidade, de traições e de vale tudo, derrogando os valores da solidariedade, da igualdade, da justiça, do civismo e de comunidade de pertencimento. Não por acaso, o Brasil ostenta o pior índice de confiança interpessoal em toda a América Latina, com apenas 3%. De acordo com o Instituto Latinobarometro, que faz pesquisas sobre a democracia na região há mais de 20 anos, o Brasil ocupa este lugar faz tempo.
Não por acaso, o Brasil lidera a queda no apoio ao regime democrático na medição do ano passado, passando de 52% em 2015, para 32% em 2016. Isto é um prenúncio do cenário eleitoral tormentoso que vem se desenhando no horizonte assustador de 2018.
A cultura da traição é como uma lepra que vai destruindo das carnes da sociedade, minando o capital social. É uma doença moral e espiritual que destrói a sociabilidade. Não resta dúvida de que a confiança interpessoal é uma componente fundamental para o vigor do associativismo, para o desenvolvimento do civismo político e participação popular, para o fortalecimento das formas organizativas da sociedade civil e para a superação das atomizações e divisões sociais e políticas que enfraquecem o povo.
No Brasil de Temer e de Palocci, dos Odebrecht e dos Batistas, há uma sistemática ofensiva em favor dos valores da infidelidade, da traição e da vilania. Há uma violenta ofensiva contra os valores do civismo, da unidade e da solidariedade social. Esta é uma das formas astuciosas para manter a hegemonia de uma elite predadora, que usa o Estado para manter seus privilégios e para assaltar o povo pela corrupção, pela carência de direitos e pela extorsão tributária.
Um país sem confiança interpessoal, social e política, um país que se move pela infidelidade e pela traição, é um país sem futuro. Para que o país prospere e se desenvolva, para que o país alcance elevados níveis de  bem estar social, é preciso que haja confiança nas instituições e nas leis, nos partidos e nos líderes políticos. É preciso que haja sentimentos de honestidade, de solidariedade, de confiabilidade e expectativa de normas e valores comuns, compartilhados pela sociedade. O pouco que o Brasil tinha avançado neste rumo da boa fé, da autoconfiança em si mesmo, sofreu um duro golpe com o golpe político perpetrado pelo grupo de criminosos políticos que se instalou no poder.
Na medida em que a traição e a infidelidade foram erigidas em práticas contumazes, os brasileiros se tornaram uma multidão de estranhos entre si, cada um desconfiando do outro. O crescimento da violência criminal é a forma exasperada da quebra da confiança e da boa fé que se desenvolveu a partir do meio político. Hoje o que se tem é um Estado desorganizado e uma sociedade estraçalhada. Aqueles que dizem que a democracia está funcionando no Brasil comentem um crime de lesa-pátria. Se é verdade que a lei nunca funcionou bem e que o Judiciário sempre foi tendencioso contra os pobres, os negros, os índios e as mulheres, agora, com seu terrível martelo, ajudou a golpear a Constituição, se omitiu e  cometeu crimes também. Não por acaso, apenas 9% dos brasileiros acreditam que o governo governa para todo o povo.
Somente o povo nas ruas, liderado por líderes autênticos e corajosos, terá condições de construir laços de unidade, de confiança, de solidariedade e de justiça peregrinando rumo a um futuro mais promissor. Aconteça o que acontecer com Lula, enquanto a sua liberdade não for cerceada, terá que peregrinar junto com este povo, confiando nele, pois ele é a fortaleza dos líderes verdadeiros. Os demais líderes progressistas também devem caminhar nesta peregrinação da unidade e da esperança. Os Palocci da vida, por terem cometido delitos imperdoáveis, devem ser esquecidos, devem ser condenados à damnatio memoreae.
Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)

Dançando no velório: as fantasias da mídia econômica, por André Araújo.


Dançando no velório: as fantasias da mídia econômica
por André Araújo
Um organização religiosa benemerente organizou em um shopping do Rio de Janeiro um feirão de empregos. Os promotores conseguiram  duzentas vagas de empregos simples, atendentes de telemarketing, motorisras etc e anunciaram que distribuiriam 400 senhas para candidatos a empregos serem entrevistados, tudo ocorreu no ultimo mês de Agosto.
Desde a noite anterior milhares de pessoas dormiram na fila para pegar as senhas, as entrevistas da Globonews mostraram  gente em um nível de desespero que não me lembro ter visto antes no Brasil. Alguns pediram dinheiro a vizinhos para pagar passagem de ônibus para tentar ao menos ser entrevistados, os que não conseguiram sequer a oportunidade de uma entrevista estampavam nos rostos e nas falas o desespero final de um futuro terrível.
Essa singular amostragem revelou o grau explosivo do tecido social brasileiro.
Mas a mídia econômica “mainstream” Globonews, Jovem Pan, Band News continua sua alucinada aposta no “fim da recessão” porque no segundo trimestre de 2017 o PIB cresceu 0,2%. É uma completa fuga da realidade. Um crescimento de 0,2% não é notável.
O fim de uma recessão de três anos se registraria após no mínimo de três semestres de escala firme de crescimento, um trimestre não significa nada, a oscilação mesmo dentro de um ciclo é normal, como um cardíaco tem oscilação de pressão no espaço de um dia.
Não é indicativo de recuperação incorporar empregos mal pagos do subemprego informal, tal  não alivia o desemprego, aliás estatísticas de desemprego que contam empregos informais impedem a comparação de séries históricas, emprego é algo tecnicamente definido como alguém registrado como empregado, aqui, na Alemanha ou na Índia. Guardador de carros não registrado como empregado no Brasil, na França ou no Canadá não move estatísticas de emprego. Contar biscateiros como empregados é um equivoco e serve para encorpar uma estatística que deveria ser se precisa para ter credibilidade, se qualquer auferição de renda pode ser passível contagem como emprego, deveríamos contar os pedintes e mendigos como empregados porque alguma renda eles auferem no mês, eles estão vivos, recebem de alguma forma ingresso de recursos para se alimentar.
O segundo trimestre de 2017 recebeu um enorme influxo de receitas da super safra agricola do ano, esse dinheiro recebido nas zonas rurais vaza para toda a economia, produzindo compra de veículos, máquinas, equipamentos de uso e domésticos, material de construção.
Essa massa de recursos entrou nos canais de consumo e por si só justificaria mais de 0,2% de crescimento do PIB, é um efeito sazonal que ainda se espalha para o terceiro trimestre.
Mas a mídia econômica não analisa, não contesta, não disseca ou debate tais eventos.
A mídia econômica brasileira é enviesada, surfa em um processo de manada repetindo e repercutindo bordões cuja central de disseminação são os “mercados’ com seus comentaristas papagaios, na imprensa eletrônica e impressa brasileira NÃO há nenhum espaço para discutir economia, todos atendem a sinais de torcida, o coro segue o maestro.
Outro dia numa das redes o prof. Carlos Langoni, ex-Presidente do Banco Central, deu uma entrevista cor de rosa da situação econômica, parecia que estava descrevendo a Suécia. Um extraordinário descolamento da realidade, um “wishfull thinking” de um mundo róseo para o Brasil de Meirelles e Goldfajn, é um cego descrevendo os Alpes suíços. Aliás, é interessante como ex-presidentes do Banco Central são maus analistas, não tem farol de milha e se perdem nas planilhas com frações decimais, parece que todos tem o mesmo fetiche com meta de inflação. Outro arauto da onda de prosperidade é o ex-Ministro Luis Carlos Mendonça de Barros que em um programa PAINEL do começo do ano disse que a economia iria tão bem em 2017 e 2018 que seria impossível Meirelles não ser o próximo Presidente da República.
Agora o mesmo Mendonça de Barros projeta um crescimento de PIB de 4% para 2018.
Porque não analisam a crucial questão do CRÉDITO ? Hoje os 4 maiores bancos  tem R$ 714 bilhões (1º semestre de 2017) em crédito à economia produtiva, 20% menos do que em 2015. Mas tem R$ 300 bilhões de EXCESSO DE CAPITAL que daria para suportar mais R$ 2 trilhões de crédito adicional à economia. A questão do CRÉDITO mereceria horas de analise nos programas CONTA CORRENTE e PAINEL da TV e nas analises de jornais. Nas colunas do jornal VALOR há maior analise mas não é mídia de massa, o problema está  nos comentaristas de TV, verdadeiros “entertainers” no nível dos programas de culinária.
 Mas será que não tem senso critico, dúvidas, questionamentos, angulações diferentes um de outro? É impressionante como os papagaios da TV não têm dúvidas de espécie alguma, só certezas e visões fechadas, o prof. Afonso Celso Pastore dá aulas terminativas sobre o futuro, Langoni segue nesse linha, Loyola também tem a meta de inflação como totem mas a inflação cada vez mais baixa não será um sinal contrário, como em todo o mundo, de que a economia está fria? Quando há muita demanda, os preços sobem e não caem, isso já se sabia no Séc. XVI antes de se firmar um conhecimento chamado de ciência econômica, já se sabia isso por intuição desde os mercantilistas de Colbert, aquecimento puxa os preços para cima.
Quem vive de consultoria econômica, como os ex-presidentes de Banco Central e seus satélites precisa vender alguma perspectiva rósea porque se tudo for cinzento os clientes nem os contratam. Consultor precisa ser sempre otimista para dar esperança ao cliente pagador.
A marca da inteligência é a dúvida e não a adesão à primeira onda. Outro surfista do admirável mundo novo é o ministro da Fazenda, que já decretou o fim da recessão há vários trimestres, com ares de Grande Sacerdote do Templo, fala com ar solene que já estamos em um ciclo de crescimento, como se 0,2% fosse grande coisa após 8% de queda nos últimos três anos.
Os gurus da economia precisam operar com o pulso das ruas, mais do que com estatísticas.
O presidente do Banco Central, zelador do sistema financeiro, a última coisa que passa por sua cabeça é estimular a economia para amenizar o desemprego, o seu sonho eterno é a INFLAÇÃO ZERO, o sonho dos rentistas, inflação zero com juro real alto e dólar baixo, melhor que isso só morango com chantilly, dá para fazer duas temporadas europeias por ano e mais um cruzeiro no Caribe no verão, é o paraiso dos supersaláios da burocracia e dos rentistas da renda fixa.
Por um original cruzamento de variáveis politicas o Brasil chegou a esse ponto da curva como País em maior recessão por mais tempo entre todas as grandes economias. Um País rico em recursos naturais, que  se basta em alimentos e energia, levado a maior desesperança por comandos absurdamente equivocados na sua politica econômica, uma politica medíocre que insiste em NÃO usar os fatores de produção de que dispõe o País, não querer usar sua capacidade industrial  ociosa, não tem interesse em investir em infraestrutura apesar das notórias carências, quando a mobilização desses fatores por si só pode eliminar o desemprego, mobilização que atende pelo nome de ESTÍMULOS MONETÁRIOS, colocar mais dinheiro em circulação, como fazem bancos centrais de primeira linha em tempos de recessão.
A usina de geração de boas noticias sobre a economia é o Boletim FOCUS e sua central de retransmissão é o sistema GLOBO, o propósito é cacifar o Ministro da Fazenda como um bom candidato para a Presidencia da República nas eleições de 2018. A prova da campanha é a SIMULTÂNEA geração de boas notícias ao mesmo tempo em todas as emissoras de TV.
Isso é irreal. As noticias econômicas são por natureza conflitantes e diversificadas, nos EUA ou Europa não há um “coro” sacro que fala a mesma coisa de forma coordenada, como no Brasil.
Economia é um campo fértil de discussões, não é catecismo de missa que todos repetem.
Do modo como a economia está hoje enquadrada, o Brasil pode atender o modus vivendi de 30 milhões de brasileiros com razoavel estabilidade econômica MAS não atende e nem tem perspectiva de atender os outros 170 milhões. Ora, uma politica econômica que não tenha como objetivo o total da população não é uma politica de Estado, o Estado é o barco onde estão todos, pobres e ricos, um Estado que funciona para uma parte do Pais não é historicamente viável, não se pode “apagar” ou “esquecer” como se não existissem 4/5 da população que não tem nenhuma estabilidade mesmo em nível de  sobrevivência.
Falta à equipe econômica essa visão do todo, governam para o “mercado” e para aqueles que o mercado atende e esses não são os desesperados que estavam na fila de emprego do shopping no Rio. Quem atenderá esses órfãos da globalização financeira?
A auto congratulação da mídia para ganhos pontuais nas estatísticas econômicas, como se isso fosse o “fim da recessão”, em um coro forçado de “levantamento da moral” do Pais, é um auto engano na melhor das hipóteses. Alguns ganhos microscópicos em determinados índices cuja acurácia metodológica é discutível não tem relevância para a expressão “saímos da recessão”. Há dados mais concreto, por exemplo , a produção de cimento que nos sete primeiros meses de 2017 foi 9,7% menor do que no mesmo período em 2016, ou do consumo de eletricidade no Pais, nos primeiro sete meses foi 2,3% menor do que em 2016 ou no indicador mais brutal, a inesperada  QUEDA DA ARRECADAÇÃO, uma queda que é uma simples derivada da baixa atividade econômica e da queda de vendas das empresas, que provocou uma  surpresa espantosa  do “dream team”, mostra que eles estão longe de ter alguma capacidade intelectual de grandes economistas. Um erro tão primário de “forecasting” é de chamar a atenção para a fragilidade dessa equipe econômica, afinal a queda da arrecadação não foi resultante de fenômenos da natureza, foi o resultado necessário da equação montada pelos próprios surpreendidos onde vale mais o índice de inflação do que vendas e produção, aquilo que produz arrecadação, os grandes fatores da economia real e não as elocubrações do boletim FOCUS, a CARAS do mercado financeiro com suas frivolidades.
Desde a Nova República, mas especialmente depois do Plano Real, o Banco Central foi capturado pela cultura do mercado financeiro e desligou-se por completo da economia produtiva. Todos seus presidentes vieram ou foram para o sistema financeiro e o Boletim FOCUS é o “Diario Oficial” do Banco, tendo como redatores os “economistas de mercado”.
Não se fazem perguntas à indústria ou ao comércio, só aos bancos e seus coligados e a politica do BC passa a ser orientada pelas “expectativas do mercado”, o que significa dizer que é o mercado financeiro quem dirige o Banco Central por fraqueza do sistema politico e da mídia.
A pior equipe econômica da recente história brasileira só poderia produzir o pior resultado que a ferramenta pode construir. A brutal queda da arrecadação se deu pela dramática queda da atividade econômica QUE NÃO tem demonstrado tendência de melhora, como querem fazer crer os GLOBOECONOMISTAS que trazem dados tipo “olha como a inflação está no melhor nível desde 2003, a projeção do FOCUS caiu de 3,38% para 3,16% , dado que o preço do tomate em Recife cai 7,334% e a passagem de ônibus em Belem subiu 5,54%. Seriam cômicos se não fossem trágicos, marionetes de algum bruxo por trás do pano, só um domador com chicote pode fazer homens calejados e moças bonitas a dizerem tantas bobagens, alguns falam com absoluta convicção, como Miriam Leitão, a politicamente correta da economia, comentam seriamente as variações centesimais de índices irrelevantes mostrando como “estão por dentro” da economia mas isso NÃO é economia, a visão do grande economista não é detalhista, é uma visão de conjunto, do todo e de seus efeitos sobre a vida das pessoas.
Porque o FOCUS não traz a produção de cimento mês a mês, um indicador crucial?
Ou porque o FOCUS não dá a expectativa do JURO REAL PARA A ECONOMIA PRODUTIVA, cartão de crédito, cheque especial, crédito para médias empresas?  Só traz  a taxa SELIC, que só interessa ao mercado financeiro. MAS, e na economia real, onde está no FOCUS?
Porque a mídia NÃO questiona isso ao invés de repetir o FOCUS como papagaios?
No programa PAINEL da Globonews de sábado, dia 2 de setembro, foram convidados três comentaristas de idêntica linha, Gesner de Oliveira, da FGV, Zeina Latif, da XP Investimentos e o diretor de uma administradora de fundos, os três identificados com a escola ortodoxa.
Ora, existe uma outra linha de politica econômica com nomes respeitáveis, cito Antonio Correa de Lacerda, diretor da Faculdade de Economia da PUC-São Paulo, Laura Carvalho, professora da USP, Reinaldo Carneiro, da UFRJ,  Paulo Kliass, também da UFRJ. O lógico em um debate é a presença de linhas em contraponto e não de pensamentos únicos. Quem garante que o programa Meirelles está certo? Porque não discutir as premissas desse programa?
Os três debatedores do PAINEL não tem qualquer proposta para sair da recessão a não ser a de um ajuste mais rigoroso, apenas Gesner disse que as taxas de juros poderiam cair “um pouco mais rapidamente”, os outros se calaram a respeito, de resto enfatizaram a linha do “corte-de-gastos com reformas” , falaram de investimentos privados em concessões, saneamento como se isso fosse uma solução e desse círculo fechado de ideias não saíram.
Um País na mais grave recessão de sua história moderna não gera sustentação para amplos debates sobre os rumos da economia, rendendo-se à rasa simplicidade de dois ou três bordões de algibeira, cortes + reformas, Real valorizado e obsessiva obediência às metas de inflação.
Todas essas variáveis são até defensáveis mas há que SEMPRE medir o custo de atingi-las, e é este o debate que não se faz, às vezes é melhor mais emprego e menos fanatismo com metas de inflação, muitas vezes desvalorizar a moeda relança a economia, como já fez a China incontáveis vezes nos últimos 30 anos, na história por vezes um amplo programa de obras de infraestrutura com dinheiro novo vale a pena, o BNDES tem enorme sobra de caixa porque não usar para infraestrutura invés de entregar R$ 280 bilhões ao Tesouro, R$ 100 bilhões já entregues na gestão Maria Silvia e mais R$ 180 bilhões até o fim do mandato em 2018.
Esse retorno de R$ 280 bilhões do BNDES ao Tesouro é uma CONTRADIÇÃO com o alegado crescimento de 4% em 2018, como propaga o cabo eleitoral de Meirelles à Presidencia, o ex-Ministro Luis Carlos Mendonça de Barros. Como vai crescer 4% sem o BNDES apoiando investimentos? E como o BNDES vai apoiar investimento sem dinheiro no caixa?
Devolver tal volume de recursos do BNDES para o Tesouro é jogar na retranca, não no crescimento, é uma confissão de que a recessão deve continuar.
Ousadia muitas vezes é a saída para a economia e não a retranca, mas a ousadia é para os fortes e corajosos, algo que parece escasso na cena brasileira, inclusive na mídia econômica.