terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Destaque da semana: o imprevisível, mas previsível Donald Trump, por Flavio Aguiar.

Há um tema a mais na 'agenda Trump'. Trata-se do que vai acontecer com sua relação com os eleitores empobrecidos que ajudaram sua eleição.


Flavio Aguiar Gage Skidmore
Donald Trump está em todas. Parece um daqueles guris de pelada que quer bater escanteio, cabecear na área, defender no gol e depois bater o tiro de meta.
 
Evidentemente está disputando espaço e beleza com Barack Obama, querendo fazer crer que o presidente eleito já é o presidente de facto.
 
Os temas em torno dele são vários, que ele considera com seu estilo belicoso, histriônico e fanfarrão.
 
O confronto com Obama tem uma razão muito clara, embora de bastidor. Trump precisa se afirmar junto à cúpula, ao establishment e aos parlamentares republicanos. Então nada melhor do que se apresentar dede já como o melhor anti-Obama. Está em jogo também o programa de saúde pública posto de pé pelo presidente sainte. Vamos ver o que sobre dele. Trump tem consciência de que este programa é odiado pelos republicanos e pelos ricos e abonados destes partido, mas ao mesmo tempo sabe que se destruí-lo completamente, estará pondo em risco uma de suas principais bases de sustentação, os trabalhadores empobrecidos que acham que ele (Trump) é capaz de reergue-los da fossa em que se sentem abandonados (fossa no sentido de fosso mas também no sentido de depressão coletiva).

 

No plano externo, Trump está às voltas com o tema “Rússia”. Putin é acusado pelos democratas e pelos dirigentes do aparato de inteligência dos EUA de ter ordenado o favorecimento de Trump através de hackers que atingiram os emails do PD, e de ter assim garantido a vitória do candidato republicano. A acusação até o momento apresentou “convicção” e a afirmação de que o aparato norte-americano tem “provas”, mas estas provas não vieram à luz até o momento, o que demonstra que os procuradores e juízes de Curitiba, antes discípulos do Norte, agora estão fazendo escola por lá. Inicialmente Trump negou a acusação, coisa que também faz Putin. Agora, mais malandramente, Trump na nega a possibilidade da ação de Putin, mas nega que ela tenha influenciado a eleição. Não deixa de ter razão: sua vitória foi garantida não por um Putin da vida, mas pela distorção anacrônica do sistema eleitoral norte-americano, que prevê a eleição do presidente por um colégio eleitoral que refrata o voto popular.

 

Trump teve dois milhões de votos a menos do que Hillary, e assim mesmo esta perdeu a eleição.

 

Mas o mais importante é o que acontecerá com as relações entre ambos os países depois que ele tomar posse, por exemplo, em relação à Síria. De momento Putin, com o acordo da Turquia, conseguiu por para escanteio a política equivocada de Washington, dando as cartas, tanto quanto isto é possível em meio ao mosaico de insanidades daquela guerra civil, nas (im)prováveis negociações que avançam a passos de tartaruga em meio a uma hecatombe com tentáculos de polvo gigante, daqueles de 20 mil léguas submarinas. Mas e depois? A ver.

 

Outro tema importante é o que acontecerá com as sanções impostas pelos Estados Unidos à Rússia devido à reanimação, por esta, da Crimeia, que ela havia cedido à Ucrânia anteriormente, ainda na época de Khrushchev. (Até hoje ninguém foi capaz de explicar inteiramente por que o então primeiro-ministro soviético fez a concessão).

 

Já com a China a posição de Trump é mais belicosa e beligerante. Telefonou, antes mesmo da posse, para a presidenta de Taiwan. Isto fez a temperatura subir dezenas de graus em Pequim, ao ponto da ebulição. Fez outros movimentos turbulentos, como dizer que o Japão devia ter suas próprias armas nucleares (!!!), o que faz balançar o coreto chinês e o norte-coreano. Além do próprio japonês: afinal, e o único país que foi alvo de um ataque nuclear até hoje.

 

Mas a China não dorme de touca. Ameaça Trump no terreno em que ele está assumindo posições problemáticas: o México. Trump garante que este país vai pagar pelo muro que ele pretende, reitera, construir. Decidiu impedir que a Ford construa nova fábrica de automóveis ao sul do Rio Bravo (Grande, para os norte-americanos), em nome de proteger os empregos dos trabalhadores de seu país. E Pequim está prometendo preencher, com seus investimentos, este vácuo que está sendo aberto pela - ainda não política - retórica explosiva do candidato eleito que quer passar por já empossado.

 

Há um tema a mais na “agenda Trump”. Trata-se do que vai acontecer com sua relação com os eleitores empobrecidos que ajudaram sua eleição. Trump está nomeando para seu secretariado (que equivale ao nosso ministério brasileiro) o que a política norte-americana apresenta de pior, de financistas de Wall Street e proximidades e falcões guerreiros na Defesa e Segurança. Isto não vai representar, no longo prazo, boas notícias para aquele eleitorado. A ver como é que fica. Se Trump perder este apoio, ele vai precisar mais do apoio institucional do Partido Republicano, o que está longe de ser uma certeza.

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