quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Grande mídia no limiar da Parapolítica com Doria Jr. e Justus, por Wilson Roberto Vieira Ferreira



Em 2010, no programa “Show Business”, João Doria Jr e Roberto Justus especulavam a possibilidade de ambos serem candidatos a algum cargo público. Tudo em tom de brincadeira. Hoje, o primeiro já é prefeito e o segundo cogita ser candidato à presidência em 2018, na esteira de Trump, também ex-apresentador do reality Show “O Aprendiz”. Enquanto isso, a crise política criada pelo demissionário ministro do MinC, Marcelo Calero, repercute na vida real o drama ficcional do filme “Aquarius” – Calero tentou faturar politicamente na entrevista concedida ao “Fantástico” da Globo. Em política não há coincidências: há conspiração ou sincronismo. E a junção estratégica desses dois elementos chama-se Parapolítica. Enquanto a Política faz isso de maneira empírica e irrefletida, a Mídia e Indústria do Entretenimento conseguem fazer esse alinhamento de forma consciente. Justus, Trump e Doria Jr. têm a interpretação naturalista: falam o tempo inteiro que não são políticos. São “gestores” e “administradores”, assim como um ator faz o chamado “laboratório” de um personagem para representar de forma naturalista o papel. Tão naturalista, que passa acreditar na própria interpretação. Ao contrário do político tradicional, que ainda vive a tensão entre a verdade e a mentira – a dissimulação. É o limiar de um momento histórico: a guinada para a midiatização da Política (Parapolítica), sem intermediários ainda apegados ao jogo cênico teatral das aparências dissimuladas.

No final de um domingo e madrugada de segunda feira, outubro de 2010, era transmitida mais uma edição do programa Show Business. Enquanto a maioria dos brasileiros já estava em suas camas, dormindo, para enfrentar mais uma segunda-feira, a Band mostrava um inacreditável diálogo entre João Dória Jr., então apresentador do programa, e Roberto Justus, estrela do programa O Aprendiz, da Record - assista ao vídeo no final dessa postagem.

Doria Jr. e Justus trocavam elogios e discutiam a possibilidade de ambos serem candidatos a algum cargo público, em particular a presidência. Doria Jr. especulava sobre a possibilidade de Justus ser candidato na eleição à presidência em 2014.  Justus retribuiu: “sabe com quem combina ser candidato? Dória Jr! Esse é íntegro e competente...”. E Doria Jr. encerrou: “Para um Brasil mais justo, Roberto Justus!”. “Já tem até um lema...”, respondia Justus, entre risos.

Tudo sempre foi levado em tom de galhofa e ironia. Até Doria Jr, ser eleito prefeito da cidade de São Paulo e Roberto Justus, após fazer parte da reunião do chamado “Conselhão” (Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico) neste mês em Brasília, confirmar a possibilidade de sair finalmente candidato às eleições 2018.

Em política não existem coincidências. Há conspirações (“maquiavelismos”) ou sincronismos. A junção desses dois elementos produz a Parapolítica – o alinhamento consciente desses elementos para conferir força simbólica através da canalização de arquétipos – espécie de storytelling de personagens que povoam o inconsciente coletivo humano.


Em outras palavras: Parapolítica é um conceito mais elaborado para um velho provérbio sobre eventos políticos considerados improváveis: “jabuti não sobe em árvore”.

É impossível não perceber a série de sincronismos e ironias envolvendo eventos políticos recentes. Todos apontando para produtos midiáticos como se esses eventos repercutissem narrativas ficcionais anteriores – filme, reality show, talk show etc. 

Impeachment e sincronicidades


Primeiro, a sincronia das datas do rito do impeachment da presidenta Dilma Rousseff com eventos do mês de abril: Golpe Militar de 1964 e a deposição do presidente João Goulart, Massacre de Eldorado dos Carajás, a morte de Tiradentes, líder da Inconfidência Mineira no Brasil Colonial, a morte do presidente Tancredo Neves. Além de ser um período que inspira homicidas e loucos a cometerem atentados pela sincronia com a data de nascimento de Hitler – 20 de abril. Os ratos jogados numa CPI do Congresso aproximaram ainda mais com as táticas históricas de militantes nazi - sobre isso clique aqui.

É claro que qualquer dia do ano é sempre marcado por acontecimentos passados. Porém, nem todos serão “coincidências significativas” – ideia que é o princípio do conceito de sincronicidade.

Segundo evento, a recente renúncia do ministro da pasta da Cultura Marcelo Calero acusando o articulador político do governo Temer, Geddel Lima, de pressioná-lo para que o Iphan (órgão subordinado à Cultura) aprovasse projeto imobiliário em área histórica tombada na Bahia. Geddel possuía apartamento no empreendimento.

Ironicamente, esse episódio real ecoa a narrativa ficcional do filme brasileiro Aquarius, símbolo de resistência do mundo artístico ao golpe político. Assim como no filme a protagonista resiste a investida de uma construtora para a compra do prédio onde mora para a construção de um moderno empreendimento imobiliário, da mesma forma o pivô da crise do governo Temer é um empreendimento moderno em área histórica em Salvador/BA.

Cena do filme brasileiro "Aquarius"

Os sincronismo ainda se aprofunda sabendo que o próprio Aquarius foi motivo de vaias contra o ministro Calero em festivais de cinema por ter sido um filme preterido a indicação da disputa ao Oscar. Suspeita-se que a recusa ao filme seria uma retaliação do Governo aos protestos dos atores, contra o impeachment de Rousseff, no Red Carpet do Festival de Cannes.

Somada a vitória eleitoral à presidência dos EUA do empresário Donald Trump (apresentador do reality show The Apprentice), fica clara a recorrência de narrativas ficcionais ou eventos históricos e simbólicos por trás de todos esses eventos políticos. 

O processo final de impeachment e o simbolismo nacional e internacional do mês de abril, reality show e talk show que projetaram Doria Jr., Justus e Trump para a opinião pública, além de uma trama palaciana de Brasília replicando a ficção do filme Aquarius.

A dramaturgia de Marcelo Calero


A saída de um suposto ministro neófito do MinC, denunciando pressões em favor de benefícios pessoais de Geddel Lima tem um evidente elemento conspiratório clássico. Um ex-político do PSDB (candidato a deputado federal pelo RJ em 2010), diplomata de carreira e ex-secretário municipal da cultura do Rio de Janeiro, converte-se no pivô da maior crise do atual governo.

De vidraça apedrejada pela indignação transformou-se em homem-bomba que pareceu cirurgicamente colocado em um ministério aparentemente periférico (era para ser transformado em secretaria), mas que, como sempre, conta com a gula de algum PC Farias de plantão – alguma eminência parda sempre em busca de benefícios cada vez maiores e que morda facilmente uma isca jogada.

Assim como o desinterino Temer mordeu (talvez inebriado pela crença de que conta com o apoio incondicional da grande mídia), levando a crise ingenuamente para o próprio gabinete presidencial. 

A conspiração (ou maquiavelismo) do homem-bomba contou involuntariamente com a oportuna sincronia do filme Aquarius, motivo dos desgastes nos festivais de cinema por onde Calero passou.

Marcelo Calero no "Fantástico"

A narrativa ficcional da resistência de uma protagonista que lutava contra a ganância da especulação imobiliária que despreza o tempo e a memória acabou alimentado o novo papel dramatúrgico que agora Marcelo Calero quer assumir após a entrevista no Fantástico da TV Globo: o cidadão de classe média, servidor público, diplomata de carreira e assalariado – o campeão da meritocracia que, assim como o telespectador, quer “passar o País a limpo”.

Esse sincronismo, somado à câmera dramaticamente fechada no rosto de Calero durante a entrevista na Globo (performance canastrona, overacting, com excesso de sobrancelhas levantadas e linguagem corporal expansiva demais, quase caindo sobre a entrevistadora Lo Prete) , tentou jogar para o esquecimento o político Marcelo Calero - candidato a deputado federal do PSDB, criador do Movimento Rio reivindicando a separação da Guanabara do Estado do Rio de Janeiro e a sua posterior aproximação do PMDB de Temer. Magicamente, Calero é beatificado: deixa de ser político e transforma-se em diplomata de carreira e servidor público.

Parapolítica: da cena teatral à mídia


Com poucas exceções na história da Política (o misticismo Nazi foi uma tentativa), a estratégia parapolítica (conspiração + sincromisticismo) é ainda empírica e sujeita ao jogo do acerto e erro. A Política, e principalmente seus analistas e eleitores, vivem ainda no ordinário consenso da realidade, onde tudo parece acontecer por acidentes ou causalidades.

Que a Política sempre foi um jogo tributário do Teatro, não é uma novidade para qualquer cientista político. Porém, a indústria do entretenimento, associada à sociedade do espetáculo do cinema e da televisão, abandonou o jogo cênico do palco (a chamada “cena italiana”) para criar elaboradas formas de canais para formas-pensamento a partir do vasto material psíquico da humanidade, irradiadas por dispositivos de projeção e pelas ondas concêntricas eletromagnéticas.

"O Método", técnica naturalista de interpretação da moderna Hollywood, agora à serviço da Parapolítica

Tudo começou com os atores nos filmes, minisséries e telenovelas submetidos ao “Método” (a interpretação naturalista fundindo o psiquismo do ator com o arquétipo coletivo) para substituir a mise en scène do palco pelo timing dos enquadramentos de câmeras.

A indústria do entretenimento (Hollywood e cadeias de TV) metodicamente passou todo o século XX alinhando o elemento da conspiração com a prática sincrônica (ou “teatro de bruxaria maçônica”, como falam jocosamente os sincromísticos): a criação do panteão dos mitos do cinema, a propaganda patriótica dos EUA na Segunda Guerra Mundial, o alinhamento do cinema com a política antiterror até chegar ao efeito colateral da vitória de Trump, arquétipo televisivo grosseiro sem o glamour hollywoodiano.

Hoje, a sociedade do espetáculo e a grande mídia estão chegando a um ponto de viragem que poderá ser decisivo na História: a guinada definitiva para a Política midiática, sem intermediários ainda apegados ao jogo cênico teatral das aparências dissimuladas.

É chegada a hora de Trump, Doria Jr. e Roberto Justus. Sem mais a canastrice de políticos teatrais tentando adaptar-se ao timing das câmeras.

Como foi, por exemplo, a exagerada performance de Marcelo Calero no Fantástico – nele os elementos da conspiração e sincronismo estão ainda desalinhados: sua atuação overacting ainda não consegue canalizar a forma-pensamento do herói “meritocrático” (o novo nome do “elixir” da Jornada do Herói).

Justus, Trump e Doria Jr. têm a interpretação naturalista desejada pelo “Método”: falam o tempo inteiro que não são políticos. São “gestores” e “administradores”, assim como um ator de telenovela faz antes o chamado “laboratório” de um personagem para representar de forma naturalista um papel. Tão naturalista, que passa a acreditar no próprio papel. Ao contrário do político tradicional, que ainda vive a tensão entre a verdade e a mentira – a dissimulação.

E esse laboratório dos futuros políticos são os atuais reality shows e talk shows. “Chega! Sem intermediários!”, deve pensar a grande mídia impaciente. Ela sempre conspirou. Agora falta apenas manipular de forma consciente o elemento sincromístico na Política: colocar os atores que se tornem novos médiuns para canalizar as formas-pensamento de maneira tão perfeita que, eles, próprios, passem a acreditar mesmo naquilo que dizem ser.

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