quinta-feira, 12 de abril de 2018

Na prisão de Lula mais uma vez a esquerda perde a guerra semiótica, por Wilson Roberto Vieira Ferreira




Do significado da data da prisão de Lula determinada por Moro (06/04, dia da morte do “Patriarca da Independência”, José Bonifácio); passando pelo destino do comboio que levava Lula para a PF no bairro da Lapa (ao invés de Congonhas, evitando que a militância petista entrasse em rede nacional fazendo protestos na entrada do aeroporto); e chegando aos planos de câmera de TV do helicóptero decolando, conduzindo o prisioneiro e no segundo plano prédios com luzes piscando em apartamentos que comemoravam o desfecho. Todos os detalhes revelaram a elaborada guerra semiótica do complexo jurídico-policial-midiático. A resposta de Lula e do PT foi rápida e promissora: se encastelar no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, sugerindo a estratégia de empate e desobediência civil. Para cobrar um alto preço simbólico pela rendição. Mas acabou cedendo à indefectível narrativa da “luta e resistência” e abandonou o campo de batalha semiótico, em rede nacional. Mas os eventos deixaram mais uma vez nu o jornalismo da TV Globo ao dificultarem o acesso da emissora às informações diretas do centro da crise em São Bernardo.

O semiólogo e especialista em Idade Média Umberto Eco tinha uma obsessão em procurar aspectos medievais na era moderna. Eco falava em uma “Nova Idade Média” baseada na “irrealidade cotidiana da TV” transmitida para as pessoas fechadas em suas casas, inseguras.

E via a reprodução da “autorictas” medieval (grandes monólogos de citações de autoridades eclesiásticas) nas diferentes interpretações e opiniões no monopólio midiático atual.

Eco não precisaria de muito esforço semiológico para descobrir no Brasil elementos medievais numa sociedade na qual até emula o ecletismo sagrado/profano dos dias de “festas”: enquanto em frente da sede do sindicato dos metalúrgicos Lula participava de uma missa em memória a sua esposa Maria Letícia a poucas horas antes de se entregar à Polícia Federal, o rufião Oscar Moroni (dono da emblemática casa de prostituição de luxo Bahamas Hotel Club em São Paulo) colocava pôsteres com as fotos do juiz Moro e da presidenta do Supremo Carmen Lúcia e oferecia ingressos vitalícios para os bravos e competentes homens de bem.

Profunda ironia eclética num país os supostos ateus, comunistas e bolivarianos celebram missa católica enquanto os campeões da moralidade pública são homenageados em um puteiro de elite. Decididamente, o Brasil não é para amadores. Somente um olhar semiológico e medievalista como de Umberto Eco para compreendê-lo.

Na Idade Média, a autorictas pairava sobre uma vida cotidiana dominada pela Igreja e os habitantes apenas se preocupavam com a própria dura rotina de moer grãos, construir estábulos e moinhos (totalmente alheios às Cruzadas, a Inquisição e o poder dos reis coroados pela própria Igreja). 

Enquanto no Brasil a população está imersa na sua rotina da luta pela sobrevivência, assistindo bestificada à luta de duas narrativas (ou “autorictas”): de um lado a narrativa do repentino e “último humanista” juiz Sérgio Moro (propondo condições “dignas” para o ex-presidente se entregar – sem algemas etc.) e do outro a narrativa tão cara à esquerda – a da “luta e resistência”.

Umberto Eco: uma "Nova Idade Média" brasileira?

A guerra semiótica policial-midiática


Apesar do obsessivo wishful thinking da esquerda nos últimos dias (de que a direita “estava desesperada” com os últimos excessos - tiros na caravana do Lula no Sul, intimidação contra o STF com ameaça de golpe militar, por ex. - de que a “previsibilidade” mudara de lado - os golpistas estariam numa “sinuca de bico” com o STF supostamente à beira de dar o HC a Lula com o voto de Minerva da ministra Rosa Weber) tudo terminou como planejado pela estratégia semiótica do complexo jurídico-midiático:

(a) A chegada na superintendência da Polícia Federal em São Paulo do comboio de carros negros (a cor é importante!) levando Lula prisioneiro no timingperfeito para a poderosa Globo: horário nobre, no fim do telejornal local e entrada em rede nacional;

(b) Apesar do plano inicial (levar o prisioneiro direto para o aeroporto de Congonhas onde seria feito exame de corpo de delito e embarque a Curitiba), para surpresa dos próprios analistas políticos da Globo (veremos isso mais adiante) o comboio passou reto e foi para a Lapa. Questão de timing e visibilidade: a necessidade simbólica de cruzar a cidade com o troféu para ser exibido às buzinas de carros comemorando a prisão e pedestres desfraldando bandeiras nacionais. Além de dar tempo para a Globo entrar em rede nacional;

(c) Evitar que em rede nacional Lula entrasse em Congonhas cercado pela militância e manifestantes lulistas. Preferiram a entrada de Lula na Lapa cercado de um punhado de manifestantes com camisas da CBF, soltando rojões e bradando pixulecos, enquanto repórteres da Globo do local falavam em “multidão” às portas da PF;


(d) Globo entra em rede imediatamente após o fim do telejornal local com a célebre vinheta do “Plantão da Globo”. Vinheta arquetípica (virou até toque de celular), associada no imaginário nacional a grandes eventos que mudaram a história do País;

(e) Com tanta pompa e circunstância, era necessário dar algum grau de drama (que a narrativa da esquerda conseguiu com a tensão reinante no sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo) – um desajeitado repórter engravatado da Globo, no meio da “massa” de manifestantes com camisas amarelas na entrada da PF, descreve um início de “tensão” entre manifestantes pró e contra Lula. Na verdade, uma mulher que se desentendia com outro manifestante e que o ofegante repórter tentava encaixar na pauta da beligerância dos militantes petistas;

Carros negros na noite cruzando a cidade com o troféu

(f) Para depois Lula embarcar no “helicóptero cedido pelo governo do Estado” (Alckmin tinha que tirar uma casquinha desse show na cidade sede do palácio do seu governo) e chegar em Congonhas, com as manifestações pró-Lula no aeroporto bem longe do enquadramento das câmeras. E, claro, enquanto o helicóptero decolava da PF, o plano de câmera mostrava ao fundo edifícios nos quais viam-se luzes de apartamentos piscando em comemoração à prisão;     

(g) E tudo narrado com forte seletividade linguística. Nas 48 horas da resistência de Lula ouvíamos todo tempo repórteres e apresentadores se corrigindo para evitar certas palavras: “podemos ver aqui do alto manifes... quer dizer, apoiadores e militantes...”. “Manifestantes... quero dizer, na verdade apoiadores de Lula...”. Ou a hesitação da locução do apresentador Chico Pinheiro, ao vivo, descrevendo a chegada do comboio na PF: “Lula sai do sindicato e chega à PF depois de muitos ehhhh... pedidos!”. Usar palavras como “manifestantes”, “tentativas” ou “resistência” eram proibidas.

Aliás “manifestantes” eram apenas aqueles vestidos de camisetas amarelas. Para dar uma conotação “pública” e “apartidária”. Enquanto “apoiadores” e “militantes” para os manifestantes lulistas conferia o tom negativo de “sectário”, “partidário” e “extremista”.


A promissora estratégia semiótica da esquerda


Era tudo que a estratégia semiótica planejada pela primeira vara de Curitiba e da grande mídia pretendia. Na verdade, o melhor dos mundos depois da negativa de Lula em cair na arapuca armada na sexta-feira: chegar em Curitiba com uma alcateia de lobos uivando à espera dele, ainda em plena luz do dia, para as câmeras. Um “favor” conferido pelo “humanitário” Moro à “dignidade do cargo” que Lula ocupou como presidente.

E do outro lado, mais uma vez, a esquerda perdia a batalha simbólica por WO. Depois de um começo promissor (a perspectiva de seguir no trilho narrativo da desobediência civil), voltou para o familiar e confortável campo da “luta e resistência”.

Esse humilde blogueiro chegou a se entusiasmar pelo inteligente ardil de Lula e do PT: se encastelar no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, em uma rua sem saída, berço do partido e início da sua biografia política. Cercado de antigos amigos dos tempos das grandes greves do ABC na ditadura militar.

Tudo levava a crer que Lula seguia a estratégia do empate e da desobediência civil: vender a sua inevitável prisão a custo simbólico muito alto: toda a imprensa mundial testemunhando a invasão do sindicato por forças policiais. Enquanto nas ruas do entorno, uma conflagração entre carros de choque e a fumaça das bombas de gás e efeito moral.

O que lembraria as imagens do golpe militar no Chile em 1973, com o presidente Allende resistindo aos bombardeios dos canhões do Exército e da Força Aérea chilena.

Era tudo que Judiciário, PF e grande mídia não queriam e evitavam a todo custo. Chegando ao final às ameaças de transformar tudo em prisão preventiva sem direito a um possível futuro habeas corpus perpetrado pelo incrível Exército Brancaleone de advogados de defesa de Lula – como lutar por dispositivos legais em um Estado de Exceção?

Mas o “histórico” discurso de Lula no caminhão de som em frente ao sindicato, inflamado e atacando a grande mídia, na verdade foi ao mesmo tempo um discurso de rendição e uma tentativa de elevar o moral da tropa. Comparou as negociações das greves dos metalúrgicos de 1979 e a sua aceitação pela “melhor opção” oferecida pelos patrões na época (indo contra a opinião contrária da “peãozada”) com aquele momento em que aceitaria a rendição.

O que fez serem ouvidas vaias no meio da militância. Como testemunhou o jornalista e fotógrafo Bruno Torturra, grupos formados espontaneamente começaram a trancar os portões do sindicato para impedir a saída do carro que conduziria Lula à rendição. Como foi o caso o líder comunitário de Maceió Rogério Diaz, “o primeiro a não aceitar a rendição”, segundo Torturra. E que passou a colocar pedaços de tábuas para criar bloqueios nos portões – veja vídeo abaixo.

Ao mesmo tempo, seguranças de Lula, chorando, pediam para que as pessoas deixassem o carro passar.


Elevar o moral da tropa na rendição


Em termos diretos, enquanto as lideranças procuravam elevar o moral da militância com o indefectível narrativa da “luta e resistência” (com muitas músicas alusivas à resistência na época da ditadura militar), nas ruas do entorno as pessoas queriam era vender caro a derrota.

No mesmo momento em que o complexo Judiciário, PF e grande mídia não media esforços no metódico planejamento simbólico e semiótico da ação (não é para amadores mesmo: o dia original da prisão de Lula foi marcado por Moro para o dia do falecimento de José Bonifácio, conhecido como o “Patriarca da Independência” nos livros de História), o PT e as esquerdas negociavam a derrota por WO.

Em síntese: enquanto as esquerdas vivem a saudosa recorrência do discurso da “luta e resistência”, a direita luta no sofisticado campo da Guerra Híbrida e bombas semióticas.

De tudo ficou ao final o sabor amargo em uma atmosfera retro e saudosa das esquerdas dos anos 1970-80. E uma boa notícia para as teses de Umberto Eco: o Brasil ofereceria as melhores evidências para a “Nova Idade Média” do pesquisador italiano.

PS.: O show de desinformação deixa Globo nua


Assim como o episódio das delações da JBS contra Temer deixaram nu o jornalismo da Globo (o nervosismo e consternação dos analistas e repórteres pegos de surpresa apesar de se dizerem os mais bem informados e conhecedores dos bastidores de Brasília), também a resistência de Lula às condições do juiz Sérgio Moro deixou claro como é feita as coberturas políticas de analistas como Natuza Nery, Cristiana Lobo, Valdo Cruz, Gerson Camarotti e Andreia Sadi.

A cobertura da Globo no centro da crise em São Bernardo se limitou às distantes imagens das câmeras em dois helicópteros e o uso indevido do link ao vivo da Rede TVT – a TV dos Trabalhadores.

Será que o ponto eletrônico é a verdadeira fonte "jornalística" da Globo?

Sem possibilidade dos repórteres da emissora se aproximarem pelo óbvio risco de hostilidade da militância petista (seus repórteres só conseguiam ficar no meio dor grupos pró-Moro em Curitiba e na PF em São Paulo.

Por isso durante toda a transmissão, a equipe da Globo News limitava-se a repetir o que as próprias imagens já mostravam.

O papel mais inacreditável foi da Natuza Nery: o tempo inteiro dizia que “conversava com petistas no interior do sindicato” através do celular, com um fone sempre no seu ouvido. Fica-se imaginando qual petista estaria disposto a manter uma “hot line” com a comentarista global. Mas falava apenas platitudes e obviedades (“Lula está em reunião com lideranças do PT no interior do sindicato...”): ilações, chutes ou informando aquilo que as câmeras já mostravam.

O momento mais impagável foi quando Natuza “chutou” que o comboio da PF levaria Lula direto para Congonhas. Mas passou reto pelo aeroporto, em direção da Lapa num calculado jogo semiótico para o distinto público.

Meio sem jeito, tentou consertar com outra obviedade: “é... alteraram o trajeto, já que o primeiro plano era levar Lula ao aeroporto...”

O show de desinformação da equipe Globo News (confrontada com a falta de informações pelas condições adversas contra ela em São Bernardo), comprova como é feito o jornalismo político da emissora: com o ponto no ouvido para receber as ordens da chefia de jornalismo, e não com fontes jornalísticas reais.

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