segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O ódio de classe a Marisa Letícia, por Juremir Machado da silva.


Em “O jogo das contas de vidro”, romance de Herman Hesse ambientado no século XXIII, livro volumoso que ninguém mais lê, intelectuais envolvem-se numa brincadeira que define os “valores da sociedade”. Entre muitas passagens paradoxais uma serve para os tempos atuais: “Fritz pertencia a essa categoria de pessoas que nunca estão satisfeitas, mas que nunca ultrapassam as raias da moderação, dessas pessoas que se ocupam horas a fio com um buquê de flores ou com a decoração da mesa de jantar com uma satisfação movimentada e intranquila e retoques carinhosos e intermináveis, quando para qualquer outro o trabalho já estaria pronto e perfeito há muito tempo; pessoas que sabem fazer do trabalho mais insignificante a tarefa de um dia, cuidada com seriedade e determinação”.
No Brasil, neste século XXI, pessoas que se julgam incapazes de ultrapassar as raias da moderação, sempre insatisfeitas com os radicalismos alheios, vestem-se de verde e amarelo e vão para a frente de um hospital protestar contra uma doente. É o que está acontecendo com os “de bem” que comemoram a doença de Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Lula, nas redes sociais. O ódio de classe por essa senhora vinda da plebe e que se tornou primeira-dama do país é evidente.
Esses insatisfeitos, ou insatisfeitas, não se preocupam com a decoração da mesa de jantar.
Comem o ódio que plantam e embalam como se fosse justa indignação moral.
Não há retoques carinhosos nem trabalho interminável de acabamento.
Nem contas de vidro.
Só acertos de contas no meio da rua.
O ódio de classe pode vir também de pessoas da mesma classe da pessoa visada.
É o ódio transfigurado em complexo de distinção. Identificação com o algoz.
Cartazes cobram que Marisa Letícia vá se tratar com médicos cubanos.
Quem disse que esses médicos viriam para trabalhar com casos da chamada alta complexidade?
Há ódio também no fato de que Cuba, uma ilha socialista parada no tempo, que não conseguiu dar o salto para a democracia nem para o desenvolvimento econômico, em grande parte por causa do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, tenha políticas de saúde pública mais eficazes do que as de muitos florões do capitalismo.
Ou boa mesmo é a saúde do capitalismo do Haiti?
Ou quando a miséria domina deixa de ser capitalismo?
Qualquer manifestação que explore a doença de alguém é pusilânime.
No caso, mostra o pior do Brasil.
O mal pintado de “bem”.
As raias da moderação ultrapassadas por radicais da moral de conveniência.

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