domingo, 12 de março de 2017

Algo me faz lembrar a “marcha de insensatez” que levou à primeira Guerra, por Luis Felipe de seixas Correa.

Faltam homens da estatura do Barão de Rio Branco para que a sociedade brasileira sinta-se efetivamente guiada.

Protesto nas Filipinas. AP



Nesses tempos em que estamos confrontados com acontecimentos frenéticos e crises diárias, tanto no plano interno, quanto na esfera internacional, lembrei-me de evocar a imagem do grande estadista brasileiro, o Barão do Rio Branco. Tudo era mais lento. As coisas custavam para acontecer. Hoje as coisas se apressaram. No dia em que escrevo, o presidente Trump é retratado na imprensa como histérico e despropositado ao acusar seu predecessor de grampear sua casa no período da transição; ontem reafirmou o banimento de visitantes de diversos países de maioria muçulmana; os EUA começaram a implantar mísseis defensivos na Coreia do Sul em resposta aos lançamentos provocadores da Coreia do Norte; a China, ao mesmo tempo, afirmou que tomará as medidas necessárias para salvaguardar seus próprios interesses de segurança; na Malásia desbaratou-se um plano urdido pelo Estado Islâmico para atacar representantes da realeza saudita; na Europa discute-se utilizar o arsenal francês para estabelecer uma defesa nuclear moderna capaz de reagir mais rapidamente a ataques; a Turquia acusa a Alemanha de utilizar táticas nazistas contra as comunidades turcas residentes no país. E muito mais. Algo me faz lembrar a "marcha de insensatez" que conduziu à primeira guerra mundial. Espero estar errado...
Enquanto isso, paralisado por sua arrastada crise, o Brasil deixa encolher sua economia, o desemprego aumenta a olhos vistos, a miséria trafega e dorme nas ruas do Rio de Janeiro e das outras cidades. Ao mesmo tempo, discutem-se filigranas jurídicas em Curitiba e em Brasília. Trocam-se ministros e fazem-se promessas, como se a vida pudesse entrar em suspensão enquanto perdura a amargura da crise.
Faltam homens da estatura de Rio Branco para que a sociedade brasileira sinta-se efetivamente guiada e que nossos dirigentes nos apresentem visões e projetos que permitam antecipar um futuro melhor. Algo como a célebre exortação de Martin Luther King: "I have a dream" (tenho um sonho). Hoje não temos mais os sonhos que sempre embalaram o Brasil: pensamos que a situação está ruim e que ainda vai piorar mais antes de eventualmente melhorar.
O Barão atuou num período semelhante — guardadas as devidas proporções — de nossa História no começo do século XX. A República engatinhava. A classe política se engalfinhava por cargos e privilégios.
Poucos estadistas e intelectuais brasileiros terão tido um sentimento tão profundo do Brasil quanto o Barão. Poucos terão aliado esse sentimento, essa visão de grandeza do Brasil, a um conhecimento profundo da História, uma invulgar capacidade de operação, de mobilização de pessoas em torno de ideias e objetivos concretos. Poucos terão sido, ao mesmo tempo, tão judiciosos, tão honestos, tão eficazes e tão astutos.
Rio Branco foi, sob todos os aspectos, um dos fundadores do Brasil. Um dos personagens que melhor compreendeu a importância do contexto externo para a formação e a afirmação do Brasil no mundo em transição entre os séculos XIX e XX. Adiantou-se a seu tempo, dominou sua época, encarnou a visão do passado e projetou o futuro do Brasil. Estabeleceu matrizes de ação e de pensamento. Foi absolutamente real: viveu intensamente seu tempo e suas circunstâncias. Acabou transformando-se num mito: através de sua imagem, reinventou-se e fortaleceu-se um Brasil que, diante da ruptura formal entre a monarquia e a república, andava inseguro sobre o seu passado, desconfiado do seu presente e temeroso do futuro. Exatamente como nos achamos hoje: carentes de lideranças políticas que nos inspirem por seus atos, por seus pensamentos e por sua visão de futuro.
Seu último posto no Exterior antes de regressar ao Brasil, foi o de Chefe da Legação do Brasil em Berlim (1901/1902). Sua convivência na Berlim imperial com o ambiente efervescente que precedeu a I Guerra Mundial certamente terá influenciado tanto seu pensamento a respeito do esgotamento do modelo imperialista europeu, quanto sua propensão a privilegiar a parceria com a potência então emergente, os EUA, com vistas a encaminhar o Brasil — como o faria adiante ao deixar Berlim e assumir o Ministério das Relações Exteriores — por uma política exterior mais nitidamente sul e norte-americana. Deixou o passado de lado e antecipou o futuro do país.
Assumiu proporções heroicas no imaginário brasileiro ao fixar pacificamente todas as fronteiras do país. Talvez seja verdadeiramente o único "herói nacional" reconhecido como tal no Brasil.
Rio Branco morreu em fevereiro de 1912. Seu nome permanece associado a um tipo ainda não totalmente ultrapassado de diplomacia — a fixação de fronteiras e a incorporação de territórios. A ele atribui-se a expressiva afirmação de que "território é poder". Mas sua obra foi muito além da definição de nossos limites. Rio Branco tornou-se um dos mitos mais enraizados na consciência popular brasileira. As razões desse fenômeno não devem ser buscadas apenas em sua obra diplomática, mas também — e talvez especialmente — em seu carisma pessoal e nos traços mais marcantes de sua personalidade, entre os quais o da mais absoluta honestidade.
Em sua gestão no Ministério das Relações Exteriores, o Barão lançou as bases das diretrizes de política externa que se mantiveram ao longo do século XX, e continuam a orientar a “cultura” do Itamaraty.
Foi um dos grandes responsáveis pelo "salto para a frente" dado pelo Brasil na sua época. Não foi Presidente da República porque não quis. Na verdade, os tempos de hoje, guardadas as devidas proporções, são tão ou mais difíceis dos que couberam ao Barão. Precisamos evocar o seu exemplo para enfrentar a corrupção e as atuais disputas que podem conduzir ao fim do sonho brasileiro. Prefiro acreditar que saberemos resolver nossos graves problemas, que consolidaremos nosso bem maior, a democracia, e que viremos a ser um país mais próspero e justo. Para tanto é essencial que tenhamos lideranças sólidas e críveis.
E prefiro acreditar que, nos EUA — causa principal da grande ansiedade hoje prevalecente no Mundo — o Presidente Trump cedo ou tarde abusará ainda mais de sua arrogante personalidade e acabará afastado pelos próprios Republicanos. O problema é que, como me recordava recentemente um amigo americano, sua base de apoio na classe média baixa e na classe baixa branca é grande e que todos praticamente possuem armas.
Lá e cá temos problemas seríssimos para resolver. Falta o Barão aqui e falta o Lincoln lá.

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