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quarta-feira, 7 de março de 2018

Onze casos em que homens apagaram mulheres excepcionais da história, por Sara Navas.


Se o mundo tivesse sido justo, estas corajosas estariam nos livros didáticos


  • Dia Internacional da Mulher 2018
    1Penélope: humilhada pelo filho na Odisseia Quem. Penélope: mulher de Ulisses na Odisseia, de Homero. Criação: século VIII antes de Cristo.Como foi silenciada. A acadêmica e escritora Mary Beard (Reino Unido, 1955) apresenta em seu livro 'Mulheres e Poder' o primeiro exemplo documentado em que um homem manda uma mulher se calar em público. Esse momento está na Odisseia, poema épico que Homero escreveu há mais de 3.000 anos. Nele, relata as aventuras que Ulisses teve de enfrentar para voltar para casa depois da Guerra de Troia. Enquanto isso, sua esposa Penélope esperava por ele em casa, espantando seus pretendentes, e seu filho, Telêmaco, amadurecia até se tornar um homem. Precisamente, o momento de plenitude do desenvolvimento como homem de Telêmaco chega quando ele manda sua mãe se calar diante de uma multidão: “Minha mãe, vá para dentro da casa e ocupe-se com suas tarefas, o tear e a roca... A narrativa estará sob o cuidado dos homens e acima de tudo sob o meu... Meu é, então, o governo da casa”. O texto mostra como as vozes das mulheres são silenciadas na esfera pública desde que a história começou a ser documentada. O que Homero propõe na Odisseia é uma análise que mostra como uma parte importante da transição de menino a homem passa por aprender a controlar o discurso público ao mesmo tempo em que silencia as mulheres. Asunción Bernárdez Rodal, jornalista e diretora do Instituto de Pesquisas Feministas da Universidade Complutense de Madri, afirma que um dos principais problemas reside no fato de que “as mulheres são tratadas como eternas meninas”. Provavelmente, por causa disso e como Mary Beard enfatiza em seu livro, a voz da mulher não interessa. A autora dá como exemplos práticas atuais, como a realizada pelo parlamento afegão, que desliga os microfones quando não deseja ouvir as mulheres. Na imagem, o quadro Penélope com Seus Pretendentes, do pintor Bernardino Pinturicchio (1509) Getty
  • Dia Internacional da Mulher 2018
    2Fanny Mendelssohn: compositora cujo pai silenciou e o irmão roubou suas obras Quem. A compositora Fanny Mendelssohn (Alemanha, 1805-1847). Como foi silenciada. A compositora – além de conselheira do Instituto de Pesquisas Feministas da Universidade Complutense de Madri – Mercedes Zavala resume ao EL PAÍS a história de Fanny Mendelssohn: “Fanny recebeu a mesma educação musical privilegiada que o irmão Felix Mendelssohn. No entanto, o pai, o filósofo Moses Menselssohn, apoiou a carreira do filho e proibiu a filha de se dedicar profissionalmente à música”. Várias cartas e depoimentos da própria Fanny mostram como o irmão cresceu profissionalmente enquanto ela foi forçada a dirigir sua carreira a gêneros de câmera que pudessem ser tocados na privacidade de sua sala de estar. “Seus primeiros lieder (canção lírica curta cuja letra é um poema musicado) foram publicados sob o nome de F. Mendelssohn. Anos depois, o próprio Felix reconheceu que tinham sido compostos pela irmã”, afirma Zavala. Só depois da morte do pai Fanny conseguiu a liberdade para impulsionar sua carreira artística. O irmão continuou a se opor que publicasse sem esconder sua identidade, mas desta vez Fanny se manteve firme. Morreu prematuramente aos 42 anos, antes de obter o reconhecimento que merecia. “Quando ela morreu, Félix reconsiderou e publicou algumas de suas obras, embora ele a tenha seguido rapidamente para o túmulo [morreu em novembro de 1847, seis meses depois de Fanny] o que lhe deu pouco tempo para divulgar sua música”, destaca Zavala.
    Na imagem, o retrato de Fanny Mendelssohn feito por um artista anônimo. Getty
  • Dia Internacional da Mulher 2018
    3Rosalind Franklin: a cientista que teve suas descobertas e o Nobel roubados por dois homens Quem. A biofísica Rosalind Franklin (Reino Unido, 1920-1958). Como foi silenciada. Suas descobertas no campo do DNA deram origem a um dos avanços científicos mais importantes do século XX: a Fotografia 51, uma mostra nítida da estrutura de dupla hélice do DNA. Entretanto, como explica Marisa Kohan em seu artigo 'Mujeres que Cambiaron la Ciencia, Aunque no te Suenen Sus Nombres' (Mulheres que Mudaram a Ciência, Embora Você Não Saiba Seus Nomes), durante muitos anos foram os cientistas James Watson e Francis Crick que reivindicaram essa descoberta, levando todos os méritos e inclusive o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1962. A descoberta entrou na história como “a hélice de Watson” e Rosalind Franklin morreu (com 37 anos) por causa do câncer provocado por suas longas exposições à radiação sem receber o reconhecimento que merecia. Anos depois da morte da biofísica, James Watson confessou ter recebido o Nobel graças às descobertas de Franklin, a verdadeira descobridora da Fotografia 51.
    Na imagem, Rosalind Franklin fotografada em 1955. Getty
  • Dia Internacional da Mulher 2018
    4Olympe de Gouges: traída por seus companheiros revolucionários por ser mulher Quem. Olympe de Gouges (França, 1748-1793), autora da Declaração dos Direitos da Mulher e ativista fundamental na Revolução Francesa. Como foi silenciada. Foi uma das principais vozes durante a Revolução Francesa de 1789; no entanto, os participantes masculinos se encarregaram de afastá-la do aspecto público da revolução, fazendo com que seu nome não fosse reconhecido. Suas conquistas ficaram sepultadas sob figuras masculinas que passaram à história, mas Olympe de Gouges foi autora da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã em 1791. Além disso, elaborou muitos dos textos que deram sentido à revolução que acabou com a monarquia absoluta e lançou as bases da democracia moderna. Asunción Bernárdez Rodal, jornalista e diretora do Instituto de Pesquisas Feministas da Universidade Complutense de Madri, explica ao EL PAÍS que Olympe, assim como outras companheiras revolucionárias, foi marginalizada e afastada das responsabilidades por seus próprios companheiros revolucionários simplesmente por ser mulher. “Chegaram a proibir as mulheres de lidar com questões políticas e sociais”, afirma. Depois de anos de luta defendendo seus ideais, Olympe de Gouges acabou na guilhotina em 1793, depois de criticar publicamente a ditadura de Robespierre, também conhecida como ditadura do terror.
    Na imagem, um retrato de Olympe de Gouges. Getty
  • Dia Internacional da Mulher 2018
    5Mary Wollstonecraft: a ativista que foi marginalizada quando seu marido publicou sua suposta vida pessoal escandalosa Quem. A ativista feminista Mary Wollstonecraft (Reino Unido, 1759-1797). Como foi silenciada. Com sua obra 'Uma Vindicação dos Direitos da Mulher (1792)', Wollstonecraft estabeleceu as bases do feminismo moderno. Nela, argumentou por que as mulheres não são, por natureza, inferiores ao homem e mostrou que a única razão pela qual parecem ser é porque não recebiam a mesma educação. No entanto, após sua morte, seu marido – o filósofo William Godwin – quis homenageá-la publicando uma biografia em que falava abertamente do estilo de vida da ativista. Embora não fosse o que Godwin pretendia, isso destruiu a reputação de Wollstonecraft. Durante décadas, até que as novas correntes feministas do século XX e escritores como Virginia Woolf a redescobrissem, a única coisa que se lembrava dessa defensora dos direitos das mulheres era sua vida pessoal “escandalosa” (teve relações extraconjugais, teve filhos ilegítimos e nunca conviveu com o marido) e não tudo o que sua obra significou para o avanço da sociedade.
    Na imagem, um retrato de Mary Wollstonecraft Getty
  • Dia Internacional da Mulher 2018
    6Mulheres anarquistas ignoradas por seus próprios companheiros homens Quem. Mulheres anarquistas que lutaram no mesmo nível que seus companheiros homens na década de 1930 por aquilo que acreditavam ser justo para a sociedade. Como foram silenciadas. As próprias organizações anarquistas que defendiam uma sociedade igualitária, sem estratos, hierarquias ou diferenciações, desconfiavam das mulheres e as desprezavam. “Os homens não entendiam que as mulheres pudessem criar organizações especificamente delas. E isso não ocorreu apenas com o anarquismo, mas também com o comunismo e o socialismo, que abandonaram a questão das mulheres no dia seguinte à Revolução. Os feminismos aparecem porque há uma desconfiança das mulheres operárias em relação às próprias organizações, que as ignoravam. Por exemplo, os sindicatos se reuniam à noite. As mulheres operárias não participavam dessas reuniões porque estavam cuidando dos filhos”, explica ao site Anarquismo a professora Dolors Marín, que começou a pesquisar a história do anarquismo com 17 anos. Na década de 1930, na Espanha, as mulheres foram obrigadas a criar organizações femininas para lutar para que as mulheres pudessem ter uma educação e um trabalho iguais. A Mujeres Libres – a primeira organização autônoma, proletária e feminista que surgiu na Espanha – tinha a missão de acabar com a tripla escravidão das mulheres em relação à ignorância, ao capital e aos homens.Na imagem, um cartaz da organização Mujeres Libres
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    7Ada Byron: esquecida pioneira da matemática Quem. Ada Byron (Reino Unido, 1815-1852), única filha legítima do poeta Lord Byron, foi a primeira programadora matemática da história. Como foi silenciada. Baseada em uma palestra do matemático Charles Babbage, Ada Byron descreveu a máquina analítica de Babbage e elaborou uma linguagem de programação matemática que hoje é considerada como o primeiro programa de computador. Assim, tornou-se a primeira programadora matemática da história. No entanto, não foi reconhecida como tal por ser mulher. Tiveram de passar quase 130 anos de sua morte para que a história lhe fizesse justiça. Aconteceu em 1979, quando o Departamento de Defesa dos Estados Unidos criou uma linguagem de programação baseada em Pascal chamada ADA em homenagem a Lady Byron. Foi o primeiro reconhecimento de seu trabalho depois de sua morte. Essa linguagem é usada atualmente nas indústrias aeroespacial, militar e nuclear e influenciou linguagens posteriores. A matemática morreu com apenas 37 anos (por causa de um câncer de útero), antes que seu trabalho fosse valorizado. Na imagem, um retrato de Ada Byron Getty
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    8Camille Claudel: ofuscada pelo amante, Rodin Quem. A escultora Camille Claudel (França, 1864-1943). Como foi silenciada. Camille Claudel foi vítima de seu professor e amante, o escultor Auguste Rodin. Mas também o foi de sua família e da sociedade misógina à qual pertencia. Sua família sempre se opôs que ela fizesse da arte sua profissão em vez de se dedicar ao que eles, assim como a sociedade da época, consideravam tarefas mais apropriadas a uma mulher. Somente muitos anos depois de sua morte seu talento como escultura começou a ser reconhecido e ela foi valorizada para além do seu relacionamento com Rodin. Relação tempestuosa pela qual perdeu a cabeça ao ponto de ser diagnosticada como portadora de “uma sistemática mania de perseguição acompanhada de delírios de grandeza”. Rodin a enganou durante uma década e até convenceu-a a abortar quando esperava um filho dele. Traição que Camille não conseguiu vencer e que a levou a passar os últimos 30 anos de sua vida internada, a pedido da família, em um hospital psiquiátrico em Paris. Hoje se especula que Camille, que desde a infância se destacou por seu dom para a escultura, poderia ser a verdadeira autora de muitas das obras mais conhecidas de Rodin. No entanto, sua obra nunca obteve um reconhecimento à altura de suas conquistas Cordon
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    9Alma Reville: encurralada pelo narcisismo do marido, Alfred Hitchcock Quem. Alma Reville (Reino Unido, 1899- EUA, 1982), roteirista e uma das primeiras montadoras da história do cinema. Como foi silenciada. Alma Reville começou a trabalhar na indústria cinematográfica com apenas 15 anos. Trabalhava como montadora quando conheceu Alfred Hitchcock. The Woman Behind the Man (A Mulher por trás do Homem), a biografia escrita pela única filha do casal, Pat Hitchcock, afirma que o diretor confiava cegamente no instinto e na opinião de Reville. No entanto, a roteirista vivia em uma sociedade em que as mulheres não reivindicavam o reconhecimento que mereciam. O ator Anthony Hopkins, que interpretou o diretor de Psicose no filme Hitchcock, diz que ela era a chave do sucesso da obra de Hitchcock, mas “preferiu ficar em segundo plano porque sabia que o marido era narcisista”. Hoje se sabe que Alma Reville pôs sua carreira de lado em benefício da do diretor e foi responsável por escrever a maioria dos roteiros dos filmes de Hitchcock. Seu conhecimento e sensibilidade foram fundamentais no trabalho cinematográfico do marido. Mérito que nunca lhe foi reconhecido em vida. Na imagem, Alma Reville fotografada por Pierre Vauthey em 1968
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    10Alexandra Kollontai: a feminista russa contida por Lênin Quem. Aleksandra Kollontái (Rússia, 1872-1952), precursora do feminismo socialista. O objetivo principal desse movimento era libertar mulheres de sujeições como a família, a maternidade e a sexualidade. Como foi silenciada.Kollontái vinha de uma família aristocrática que encarnava tudo aquilo contra o que ela começou a lutar desde 1896. Naquele ano, abandonou o marido e o filho para se filiar ao Partido Socialista Russo. Enquanto contou com o beneplácito de Lênin, Aleksandra Kollontái promulgou várias leis que garantiram a libertação das mulheres: conferiu ao casamento um caráter igualitário entre os cônjuges, apoiou o divórcio e concebeu uma série de instituições como berçários, creches, e lavanderias públicas que aliviavam as obrigações das mulheres. No entanto, seu poder político estava ligado a Lênin e terminou quando este negou-lhe apoio, destituindo-a da direção do Departamento de Mulheres Trabalhadoras e Mulheres Camponesas do Partido Bolchevique (conhecido como o Genotdel). Os ideais de Kollontái, além de terem sido rejeitados por Lênin, foram criticados por muitas mulheres socialistas. A defensora do socialismo feminista acabou relegada a tarefas diplomáticas e viu como Stalin se empenhou a fundo na revogação de todas as leis que ela havia promulgado em benefício das mulheres. Na foto, Alexandra Kollontai falando ao telefone em seu escritório em 1934
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    11María Teresa León: genial escritora marginalizada com o rótulo de “mulher de Rafael Alberti” Quem. A escritora María Teresa León (Espanha, 1903-1988). Como foi silenciada.José Luis Ferris revelou em 'Palabras contra el Olvido', a primeira biografia da escritora nascida em La Rioja, como uma das vozes mais deslumbrantes da Geração de 27 entrou na história como “a mulher de Rafael Alberti” e não como a autora brilhante que foi. María Teresa León foi uma das primeiras mulheres espanholas a obter um doutorado em Filosofia e Literatura, escreveu cerca de vinte livros e muitos artigos na imprensa. “Foi uma mulher à frente do seu tempo, inovadora, lutadora e escritora incansável à sombra de um dos mais famosos ícones da literatura espanhola, Rafael Alberti”, disse José Luis Ferris para o site Público. León, que também foi secretária da Aliança de Escritores Antifascistas, viveu 40 anos no exílio com Alberti. Depois de sua morte, aos 85 anos, sua filha Aitana (a única que teve com Alberti) se encarregou de valorizar a obra da mãe tirando-a do obscurantismo

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