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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A CABEÇA DO TOURO (CONTO - PARTE III), POR ALEXANDRE MEIRA


Ilustração de xilogravura do deserto — Vetor de Stock
O menino correu desengonçado sustentando as pernas enormes com o jeito bruto de adolescente, e se ria impaciente para encontrar uma das irmãs que fosse, escondida perto do galinheiro no vasto quintal. A pensão agora era um bar, dando contornos mais lógicos aquela profusão de bêbados que visitava o estabelecimento outrora da finada Yolanda. A algazarra era enorme mesmo. Incomodava muito. Era sempre assim, no fim de tarde: Quando a molecada voltava da escola, as filhas de Mariana afervoradas pelas travessuras causavam os maiores transtornos. Filhas, porque o garoto João, parecia mais bobo do que arruaceiro, quase sem maldade.
-Já falei pra parar, Celeste!!!
O grito foi de Margarete, tia de João, na verdade prima de Mariana, que era filha única até onde se sabia. Dona do bar, Margarete era quem ganhava o pão de cada dia na frente do balcão, contando dinheiro, lidando com bêbados e gente fraca da pior espécie. E lá foi criado João com as três meio-irmãs.
-Achei!!
E correu estabanado, o garoto de 14 anos, até o interior da casa dando dois murros surdos na parede, suado e ofegante. Senta-se para descansar e com o olhar sem foco vê as três meninas se embaralhando ao longe no quintal, bem perto do pilão. Recosta-se à parede fresca, e, quase invisível sob as luzes apagadas, não é percebido quando sua mãe rompe a cozinha sob a mira de um intenso sermão.
                - Quer dizer que ainda  por cima o Bento não vem pra comer em casa hoje?! Quando tem que bancar o pai, ele some... Já quase não dá as caras, dinheiro pra ajudar a manter esse cortiço, muito menos...- constrange-a uma mulher.
             - Não... Já até foi pra rodoviária. Vai passar esse mês no serviço da capital. - absorve o golpe Mariana, apoiando as rasas verduras compradas,  no balcão de madeira.
              - De novo! Tá gastando mais fora do que com a comida daqui de casa. A última vez ele ficou quanto? Dois meses?! - a voz era de Mirtes, outra prima de Mariana, a quem João também chamava de tia.
               - Dois meses...
            Mariana não continuou. Tratou logo de começar a lavar o pouco que trouxe da feira. Era a maneira mais acertada de contemporizar os arroubos de ira de Mirtes. Um ritual constante, desde muito, e Mariana já o conhecia. Olhando fixamente para o fundo da pia, lavava tudo com esforço, sob o barulho irritante do filete de água que saia da torneira. “Até parece...”. Resmunga para si. - Como se sobrasse tempo nesse miserê todo pra regular a vida de Bento -.
              Mas não era só isso. Mariana vivia sob um auto-martírio. Culpava-se silenciosamente ao consentir a cada ironia, por mais fina que fosse. Não havia como exigir muito de quem quer que estivesse ao seu lado, sobretudo de quem destilava verdades cruas com a certeza de um credor impiedoso.
              - Olha só! E abre o olho, viu Mariana, veja lá o que esse homem anda fazendo por aí! - destilou Mirtes.
Mariana parou e respirou fundo. Pensou. Não respondeu e continuou a usar a pia. Por um momento veio na mente a imagem de Yolanda. A prima, então, seguiu desfiando o Rosário:
              - Ele nem falou com as meninas, falou??
Não. Não havia falado. A distância de Bento com as meninas era crescente. De pai ausente a um estranho qualquer, talvez fossem necessários apenas mais alguns meses fora. E o que mais chateava Mariana era o apego desmedido sobre João.
               - Assim fica fácil!! Bancar o pai do garoto que é um encosto, pobre coitado... mas na hora de ser o pai que as meninas precisam, de ser o homem dessa casa... Aí não... deixa com a Margarete, ou com a Mirtes! Gritar com a mulherada aqui dentro é mole, agora encarar aquele bando de abusados do bar, é com a gente!  Celeste já está uma mocinha, daqui a pouco não vai mais poder atender ninguém lá na frente. Quer que ela faça igual a você!?!? Aliás, e o João? Fica de olho que a hora que Bento perceber que aquele bicho não contribui com nada aqui dentro, não sei não, heim!! Não sei, não... Se ele acertar esse garoto do jeito que ele costuma resolver as coisas por aí!!
             Mirtes falava e Mariana ouvia. Silenciosamente media o respirar. Não queria polemizar, mas era quase impossível. João, invisível sob a báscula do corredor, também ouvia, resignado. Por vezes se doía pelas acusações ao pai. Culpava-se por não saber o que fazer nessas horas. Em muito a admiração e o respeito pelo padrasto era mais forte do que uma expressão de afeto que fosse pela mãe. Não queria que a mãe assimilasse as críticas ao pai, e acabasse através de brigas e cobranças com os poucos momentos de alegria de João naquela casa. O homem a quem aprendeu a chamar de pai trazia as cores para um mundo chiaroscuro. Muito por essa conta, via nas tias uma má influência quase intransponível para a mãe. A frágil mãe. Absorvia, então, a duros golpes como esse, o que significava para toda aquela gente sua presença, o seu nascimento. E permanecia sem ação.
- Mirtes para de falar por favor!! - Ergueu a cabeça, sua mãe.
                  - Meu Deus!! Será que a vida toda você vai seguir querendo ser o centro de tudo? Até quando?! Acabou com a minha família pra que a gente cuidasse da sua, agora quer que a gente sustente vagabundo?! Você acha que não tenho direito de falar, disso?! Que Margarete não tem o direito de reclamar? Você acha que sofre mais do que eu sofri? Meus filhos nunca tiveram o cuidado que a gente dá aos seus!! Mercedes foi viver a vida dela, sumiu logo pra não ficar nessa merda de vida!! Essa falta de comando! Agora quando eu falo de seu marido que só sabe chegar, encostar naquela merda de bar e beber a despensa da Margarete, você banca a perseguida!!
          - Mirtes! Pode falar o que quiser! Mas não me acusa de mais nada não, porque sei que isso é coisa sua! Isso é culpa!  - Explode Mariana, esbravejando enquanto seca a mão com um pano velho.
             Para João a imagem de Bento era o fiel da balança contra qualquer ressentimento que pudesse nascer contra todos naquele lugar. Mantinha os sonhos infantis ainda conservados, como o de trabalhar nas forças armadas. Quando via o pai sair fardado com o cabelo e bigode irretocáveis, João também ia, por alguns instantes, em pensamento.
           - Bêbado!!! - Vomitou Mirtes, saindo da cozinha como um raio.
               Recôndito, João olhou para a ela secamente.
               - Vem João!! - gritou Celina, a irmã mais nova, lá de fora.

               João estava diferente.

Entrou na cozinha. Viu a mãe de cócoras com as mãos no rosto como que se não quisesse enxergar mais nada.
- Mãe.
Ela não respondeu. João aproximou-se, abaixou, e deitou a mão pesada sobre seu ombro. O barulho que saia da torneira aberta regia uma música bizarra.
- Mãe. Não fica chateada com o pai. A tia Mirtes tem raiva de mim.
- Não estou nem um pouco preocupada com seu pai, João. - murmurou Mariana num tom bem abaixo do normal.
João não gostou. Retirou a mão e levantou-se. Ia sair, mas disse, antes:
- A senhora deveria estar pensando no que falam do pai sim, mãe. Você está aqui, você tem que defender ele. E se ele não quiser voltar mais??
Mariana suspirou.
Era demais pra ela. Mesmo assim respondeu:
- João. Me deixa em paz... por favor. - permanecia abaixada a mãe, embora falasse com um pouco mais de vivacidade.
- Ele que paga tudo aqui dentro, mãe. Se não fosse ele, depois que a vó morreu a gente tava na rua. Se a senhora trabalhasse no bar, ou me deixasse ficar no balcão, pelo menos. Ficaria menos pesado pra ele...
Mariana olhou para o filho:
- Menos pesado pra ele?
João engoliu a voz.
- E pra mim João? Não existe peso pra mim?? Pesado pra ele??!!! Ele fica dias aqui e some meses, e fica pesado pra ele??!! E quem vai te defender desse povo maldoso dessa cidade? Quem vai te tratar como eu trato? Quem vai cuidar de mim, João?!! Sabe por que eu não fico lá no balcão?? Sabe porque Margarete não me quer na porta do bar?? - Levanta-se Mariana, elevando a voz tardiamente.
Não se ouviu nada por instantes.
- Porque ninguém quer comprar de uma mulher que fez pacto com o diabo pro filho nascer...
A voz novamente era de Mirtes. Acabava de chegar e completou venenosamente a resposta de Mariana.
Mariana sentiu seu sangue subir.
- Eu não disse isso!!
João, entre as duas, ouviu em sossego. Não era incomum ouvir esse tipo de coisa seja pelas ruas, seja dentro de casa, principalmente da tia. As duas iniciavam mais um dura discussão enquanto ele sublimava. Lembrou de Bento. Lembrou de seu lugar naquela casa. Lembrou dos inúmeros pesadelos que o perseguiam e que não tinha coragem sequer de contar. Uma cozinha velha, carente de água limpa, pintura, luz descente, onde os móveis velhos mal escondiam os ratos e insetos que porventura apareciam. Ali era seu espaço desde que nascera, mas nunca, sequer por alguns instantes se sentira completamente familiarizado. Os gritos das mulheres já começavam a incomodá-lo.
- Você é mãe desse monstro, você que devia cuidar dele sozinha!!! - gritou Mirtes colericamente.
Um tapa explodiu no rosto, desferido por Mariana. As duas chegavam então às vias de fato.
Mirtes, pelo tapa, foi instantaneamente impulsionada a partir pra cima da prima.
Foi contida pelo braço por João.
João olhou por alguns segundos nos olhos da tia que não poderia sequer tentar se desvencilhar dada sua força.
- Tá me machucando João! Me larga! Eu sou sua tia!
Sua mão apertou então com mais força o braço da mulher.
Era uma sensação estranha que ele sentia. Uma calma profunda e um ódio que se avassalava aos poucos.
João aproximou seus olhos negros do rosto da tia e viu finalmente o mesmo que via no rosto daquela gente toda. O que via na cidade inteira quando se permitiam aproximar: Pavor.
Foi o estopim.
João sentiu, então, pela primeira vez o cheiro do medo.
Os olhos esbugalhados da tia e o braço arroxeando rapidamente fizeram com que Mariana interviesse. “Larga ela, filho!”, ponderou com uma voz maviosa, talvez já com a receita certa para acalmá-lo. Nunca antes vira João se destemperar desse jeito. Sem abrir a boca, só com o olhar, mortífero.
- Me solta, sua aberração!! gritou Mirtes.
A frase reverberou dentro das paredes do seu corpo como um grito em uma catedral. O garoto cegou para tudo, inevitavelmente.
Com uma força desproporcional arremessou a tia em direção as cadeiras de palha, ímpares, que sobravam perto da mesa. João encurralou como um tigre o corpo da mulher no canto da cozinha, enquanto ela deitada no chão, ainda sem saber se machucada ou não, tentava reagir. Acuada estava como uma presa. “Margareeete!!!” bradou, quase em choro.
Um arrepio incomum na nuca ele passou a sentir. A visão ameaçava embaralhar, e vozes descontinuadas como em um radio velho roubavam sua audição.
Mariana abraçou com força o filho pelas costas, quase sem conseguir. Pequenina que era apertou-o como se procurasse acalmar um bebê:
- Meu amor!! Por favor se acalma...
Colou a face nas costas do filho e trancou os olhos em oração. João pareceu retomar a lucidez. A tia ofegante e em prantos reclamava dores nas costas. O que tinha acontecido? O garoto piscou algumas vezes até reconhecer tudo aquilo. Sentiu o coração disparado de sua mãe colado a si. João então abandonou a posição de ataque e embargou os olhos.
A sua frágil realidade havia desmoronado de vez.
- Tia... A culpa não foi minha!
A voz trêmula acusava o peso da afirmação. Mariana não abandonava o corpo do filho. Mirtes permanecia no chão em prantos. Os soluços vieram naturalmente, e o cenho infantil ainda se transformava aos poucos em expressão de angústia. Olhava para as próprias mãos trêmulas, mas um desabafo fortuito pareceu resumir toda a rejeição que sentia nos olhos de sua tia.
- Eu não matei ninguém, tia...
Mais uma lembrança era inevitável, mas não apenas para João. Para todos.
Em silêncio permaneceram por alguns segundos.
- Termina de fechar o bar pra mim, João! - a voz que o assusta dessa vez é a de Margarete, que ao ouvir aquela balburdia toda, abandonara o balcão do bar para encerrar a discussão. Fria e sem se envolver com que acabava de acontecer a mulher entrou na cozinha e rapidamente foi ajudar Mirtes no chão. Margarete era com certeza a principal herdeira da autoridade de “sua avó” Yolanda. Sua presença inspirava obediência.
João desvencilhou-se dos braços da mãe e de cabeça baixa não teve coragem de olhar nos olhos das tias. Preocupou-se com Mirtes internamente, mas a vergonha roubou-lhe até as desculpas. Ao sair fitou a mãe e disse baixo:
- Não deixa o pai ficar sabendo, por favor...
João saiu, então, pelo quintal à tempo de ver ainda Celina e Maria da Paixão pegarem uma em cada braço seu, protegendo-se de si mesmas, em suas típicas brincadeiras. Ainda tentou secar as lágrimas. Mas ouviu Celeste ao longe perguntar:
- Tá chorando de novo João?
- Não, Cel! - Abandona as irmãs acelerando o passo.
            O menino entra pelo bar ainda sob meia-porta. Apoiou-se no balcão em reflexão. Mais calmo, olha  aquele espaço desorganizado do bar e ocupa sua mente com a missão dada pela sua tia. Abaixa-se rapidamente, e ergue uma pilha de engradados de cerveja que estava no chão com uma facilidade que chama a atenção de um último cliente. O coração ainda batia forte, lembrou mais uma vez de sua tia Mirtes. João inicia o trabalho, limpa a bancada rapidamente com um escovão, varre o chão por trás das estufas. Nessa meia hora em silêncio o último cliente não pareceu querer se retirar. O velho bêbado desconhecido olha-o, hipnoticamente. João intimidado começa a recolher as cadeiras sobre as mesas bem devagar, com intenção de já começar a lavar o chão. O velho, por sua vez, custava a encerrar a saideira. Ainda sem ostentar músculos, João exibia uma agilidade e força incomuns a meninos daquela idade. Principalmente aos olhos de estranhos. “O bar fechou...” avisa com o olhar baixo João, imitando muito mal o jeito duro de Margarete, para “expulsar” o último cliente. O velho, sem freios, e com uma ironia que o marcou para o resto da vida, olhando bem no meio dos olhos do garoto, disparando:
- E quem sou eu pra peitar o filho da pomba-gira?

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