terça-feira, 23 de agosto de 2016

Grandes potências econômicas ameaçam se unir para isolar Trump, por Carlos E. Cué.

O presidente chinês, Xi Jinping, durante o discurso no fórum da Apec. AFP


Presidente chinês afirma que seu país se abrirá mais como resposta ao protecionismo dos EUA

O mundo se prepara para a era Trump. À espera de suas primeiras decisões, as economias mais importantes do planeta, as que mais crescem, reunidas na cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), uniram-se em Lima com uma ameaça clara aos Estados Unidos: se o novo presidente frear o livre comércio, continuarão sem ele e farão acordos que o deixarão isolado. “Nós não nos fecharemos. Vamos nos abrir mais”, disse neste sábado o presidente da China, Xi Jinping, em resposta ao protecionismo do republicano. As conversas revelaram a possibilidade de novas alianças sem os EUA, que provavelmente abandonarão o acordo mais importante, o Tratado Transpacífico (TPP, na sigla em inglês). Enquanto isso, Barack Obama, já sem poder para mudar os rumos da históra, despedia-se das cúpulas.

A reunião da Apec – 21 países da Ásia e do Pacífico, incluindo economias enormes como China, EUA, Japão e Rússia, além de outras pujantes como Austrália, México, Colômbia e Cingapura – deixou muito claro neste sábado, em seu segundo dia, que há duas correntes opostas no mundo atual. Por um lado, estão os países asiáticos e a maioria dos latino-americanos, que, após a guinada recente na Argentina, Brasil e Peru, apostam no livre comércio. Esse é o eixo da reunião. Mais livre comércio, embora com uma melhor distribuição dos benefícios para evitar a reação da população ante a perda de empregos. O que ninguém explica é como será feita essa redistribuição.

Por outro lado, estão os novos EUA, que acabam de votar em Trump como seu líder e sua política protecionista; e a Europa, que, após o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) e o medo do triunfo de Marine Le Pen na França e de outros movimentos em certos países, também parece ter dúvidas sobre os efeitos do aumento do livre comércio.

Essas duas correntes não colidiram em Lima porque Trump não compareceu. Mas é evidente que o conflito explodirá tão logo o republicano tomar posse em janeiro. Os países asiáticos e latino-americanos representados na Apec lançaram mensagens claras de que, se Trump apostar no protecionismo, eles continuarão em seu caminho sem os EUA. John Key, primeiro-ministro da Nova Zelândia, resumiu o sentimento geral: “Podemos renegociar o TPP para conseguir que Trump o considere bom. Se os EUA não quiserem livre comércio, seguiremos adiante porque acreditamos nisso”.

Em forma privada, as reuniões avançavam no sentido de ampliar os acordos de livre comércio. Inclusive os alternativos ao TPP, que Obama liderou e que deixaram a China de fora, segundo fontes do Governo peruano. O gigante asiático é o grande protagonista da cúpula porque é o inimigo número um de Trump – ou, pelo menos, foi isso que o candidato sinalizou na campanha – e pensa em se defender com seus aliados asiáticos e latino-americanos, ocupando mais espaço na região. Xi Jinping prometeu reduzir o protecionismo chinês como resposta a Trump e trabalhou em Lima para promover um acordo alternativo ao TPP liderado por Pequim. “Vamos abrir mais campo de jogo de igual forma para as empresas chinesas e estrangeiras. As internacionais poderão usufruir do crescimento da China e de suas oportunidades. Vamos nos engajar na globalização para promover um desenvolvimento compartilhado. Temos que compartilhar os frutos do desenvolvimento com melhores mecanismos de redistribuição. Aumentaremos a torta e a repartiremos melhor”, disse Xi Jinping após enumerar os benefícios do livre comércio.

Os demais presidentes também falaram nesse sentido, como um recado repetido a Trump, a grande estrela ausente. “Temos que mandar uma mensagem muito forte. Os 21 países da Apec devem lançar uma mensagem inequívoca ao mundo de que o comércio continua sendo precioso para o crescimento do mundo. Se os EUA não querem o TPP, buscaremos um acordo Ásia-Pacífico sem os EUA que inclua a China e a Rússia”, disse o anfitrião, o peruano Pedro Pablo Kuczynski. O mexicano Enrique Peña Nieto, mais suave, evitou criticas a Trump. “Abriremos uma nova etapa na relação com os EUA. Queremos privilegiar o diálogo para construir uma nova agenda. Abre-se uma grande oportunidade, sou otimista.” Mas acrescentou: “O México continuará sendo um entusiasta da abertura comercial. Não nos deixemos confundir com esses sentimentos protecionistas. A globalização nos deu mais benefícios que prejuízos.”

Obama, que também esteve em Lima, optou por manter um perfil baixo. Em vez de intervir publicamente na reunião, no dia em que falaram Xi Jinping e o russo Vladimir Putin, Obama visitou uma universidade para conversar com jovens empreendedores peruanos. Fez contato diretos com os líderes, mas, já em retirada, evitou dar uma resposta pública às investidas dos outros governantes contra a possibilidade de que os EUA optem pelo protecionismo.

A reunião da Apec transformou-se num espaço incômodo para Obama, que terá sua última oportunidade de estar cara a cara com Putin depois das tensões dos últimos anos. O presidente norte-americano também tinha uma reunião com seu homólogo chinês e com os 12 líderes que se uniram ao TPP, o grande acordo que deixou a China de fora, mas não pôde lhes dizer se Trump manterá o convênio. O mais provável, segundo a imprensa norte-americana, é que os EUA fiquem de fora. Portanto, Obama não pode fazer muito mais nesta cúpula do que pedir tempo para ver quais serão as primeiras decisões de Trump.

Todos estão ansiosos. O japonês Shinzo Abe, também presente, adiantou-se e, antes de viajar a Lima, encontrou-se com Trump em sua torre para conhecer os seus planos em primeira mão. Os demais líderes esperam para ver. Mas o mundo está inquieto, e todos parecem dispostos a seguir adiante sem os EUA, caso o magnata optar pelo protecionismo que prometeu durante a campanha eleitoral – e que parece explicar boa parte de seu sucesso nas urnas.

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