sexta-feira, 4 de novembro de 2016

“Não é o voto que vai evitar uma catástrofe maior, a catástrofe já está posta”, porfessora Camila Jourdan.

     
Quais ações políticas considera mais importantes que o voto nesse momento?
As ações políticas concretas que considero importantes, mais importantes que o não-voto, são as ações de auto-organização coletivas nas células da sociedade e as ações de mobilização. Isso inclui as ocupações de escolas, as greves levadas pelas bases das categorias, as manifestações de rua, as assembleias de bairro, a criação de espaços autônomos e a criação de redes de apoio mútuo entre estes espaços. Tratam-se de ações que carregam os princípios da sociedade que defendemos, que não esperam que alguém faça por nós, pressionam o governo também, mas pressionam pela ação direta, pelo já fazer e mostrar que outro modo de vida é possível.
Não se trata de esperar a sociedade perfeita, mas pela auto-organização coletiva trazer melhoras para a vida das pessoas aqui e agora, ocupando um prédio e gerando moradia popular, por exemplo, impedindo um aumento das passagens através de manifestações de rua.
Quando eu digo que existe luta todo dia, não estou exagerando, todo dia estão removendo famílias, e existem resistências, todo dia a guarda está proibindo camelô de trabalhar e existem resistências, as favelas estão aí resistindo também, existe muita luta acontecendo na sociedade, no dia a dia, no micro, as pessoas podem atuar a partir dos espaços nos quais estão inseridas, podem ser agentes das resistências, podem ser fomentadores das resistências a partir de baixo, podem ajudar a construir um outro modo de vida sem precisar reproduzir de novo e de novo o espetáculo dos de cima.
E a longo prazo?
Acredito na educação libertária como arma na modificação da sociedade. Claro que não sem a construção de espaços verdadeiramente autônomos e a possibilidade de autogestão na produção e reprodução da vida.
Acredita que a maioria das pessoas não foi votar por estar engajada politicamente de outras maneiras, ou por comodismo e passividade?
Não estão engajadas politicamente, a maioria das pessoas não vota por uma descrença generalizada nos políticos. Esta descrença, embora não seja fundamentada, tem um significado político, vem aumentando e não é apenas um fenômeno brasileiro. Não se trata de uma maioria reacionária manipulada pela televisão. As pessoas em questão têm posições misturadas, não são completamente coerentes, não estão no geral acostumadas a atuar politicamente, mas isso não significa que a insatisfação que possuem seja menos legítima. Também não creio que seja comodidade, votar é mais cômodo do que ter que justificar ou pagar multa. Ocorre que há uma crescente descrença e insatisfação com o sistema representativo, decorrente da sua impossibilidade de promover mudanças reais, o que é facilmente constatado pelas pessoas, principalmente depois da chegada da social-democracia ao poder.
Há tentativas de mandatos representativos coletivos pelo país, como um coletivo anarquista eleito para uma vaga na câmara de vereadores. O que acha da ideia?
Eu não sei detalhes sobre isso, mas toda a ideia soa muito fake, me lembra aquelas mercadorias industriais com um selo de ‘feito à mão’. O que estou querendo dizer é oseguinte: me parece outra tentativa de tragar o que está fora do sistema para mais um objeto de consumo no processo eleitoral. O capitalismo é muito bom nisso, ele mata e depois vende. O que você quiser, o capitalismo pode te vender, menos o que não é vendível. Então, é como se ele procurasse o que pode negá-lo, construísse um fake palatável e vendesse no mercado. E isso é um modo de esvaziar o sentido do que realmente poderia negá-lo. E o mercado pode vender tudo, menos o que nega o mercado – menos a igualdade social, por exemplo. O processo eleitoral, como uma instância do mercado, também é assim. Portanto, tenta tragar de modo espetacular para dentro de si o que o nega e se coloca como fora dele. Mas só pode fazê-lo, claro, por meio de uma fake, por meio de uma imagem espetacular daquilo que o recusa. O que eu gostaria de dizer sobre isso é: nós anarquistas não somos mais uma opção vendível no sistema representativo, não existe gestão coletiva dentro da câmara, isso não é capaz de tornar este sistema menos ilegítimo, somos o totalmente outro deste sistema, não estamos aqui para disputá-lo, estamos aqui para tensionar as suas estruturas e fazê-las ruir

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