quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Trump, Temer e o parto de uma nova esperança, por Saul Leblon.



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O anúncio de um fim de ciclo histórico nem sempre assume a forma de um alvorecer virtuoso.

É mais comum o oposto.

Até que uma nova ordem se imponha, a desordem é senhora.

A passagem da era colonial para a primeira crise capitalista do início do século XX  foi marcada pela carnificina da Guerra de 1914-1918, cujo término completa 96 anos neste mês de novembro.

Dez milhões de pessoas morreram; 20 milhões ficaram feridas.

Assim se desenhou o mundo das novas potências.

Ao acerto de contas colonial sobreveio um ciclo de brutal rivalidade capitalista.

A paz nascida dessa transição tumultuada  impôs à Alemanha custos e reparações a tal ponto extorsivos que permitiram aos partidários de Adolf Hitler fazer campanha eleitoral apenas lendo o Tratado de Versalhes no rádio.

A instabilidade foi suficiente para alçar Hitler ao posto de chanceler em 1933, mesmo com frágil maioria parlamentar.

O resto é sabido.

A Segunda Guerra mundial matou 50 milhões de pessoas.

Desse cemitério brotaria a ordem negociada em Bretton Woods.

O chamado período de ouro do capitalismo, feito de crescimento e ampliação de direitos, estendeu-se até meados dos anos 70, quando a revanche neoliberal começou a tomar de volta tudo o que havia alicerçado o edifício da democracia social.

A eleição de Trump, oito anos após o colapso sistêmico de 2008, demarca um novo recorte sísmico (Leia o Especial de Carta Maior neste domingo com a seleção das melhores análises sobre o terremoto norte-americano)

O acerto de contas com a desordem neoliberal irrompe de dentro de suas próprias fileiras, a partir de uma visão fascista da sociedade e do desenvolvimento.

Como foi a dos nacional-socialistas nos anos 30.

A diferença no Brasil é que o terremoto então abriu espaço à ascensão de Vargas e à consolidação do Estado nacional brasileiro.

Hoje, em meio a uma crise sistêmica como a de 1929, o golpe se empenha na tentativa anacrônica de engatar o país à ordem econômica que se despede.

A desmentida ilusão de que, derrubando Dilma, as 'expectativas revigoradas dos livres mercados' fariam o resto, mostra a inconsistência dessa escolha.

‘Fosse assim, a virada já teria ocorrido’, admitiu em entrevista lúgubre ao Estadão, o ex-presidente do Banco central de FHC, Armínio Fraga.

Sem o endosso da realidade, o que era difícil ficou definitivamente para trás após a eleição de Trump.

Por variadas razões.

O republicano pretende, por exemplo,  gastar US$ 1 trilhão em infraestrutura esfarelando duplamente o chão do golpe.

O gasto pressionará a taxa de juro nos EUA dificultando o corte da Selic aqui, um requisito à retomada do investimento e à redução do aperto fiscal.

O que sobra?

O país gasta hoje cerca de 8% do PIB com juros da dívida pública.

Um despautério imexível pela coalizão golpista, que evidencia assim seu deslocamento num mundo em que cerca de US$ 13 trilhões estão ancorados em títulos a juros negativos...

Segundo o economista Amir Khair, da FGV, o serviço dessa dívida indexada às maiores taxas de juros do planeta consome em 45 dias toda a tributação adicional (R$50,9 bilhões) obtida com a repatriação do dinheiro mantido no exterior.

É um garrote maiúsculo, mas o golpe e seus jornalistas privilegiam o peso do salário mínimo no rombo da previdência, que tem na aposentadoria integral dos militares 50% de sua raiz.

Não para aí.

Dos anos 30 aos anos 50, Getúlio fez do Brasil um canteiro de obras e de instituições de desenvolvimento.

Hoje o golpe se abala no desmonte das ferramentas de preservação do investimento público e privado.

O que sobra?

Com a fartura de recursos e obras no governo Trump, quem vai se interessar por concessões num Brasil institucionalmente instável, sem financiamento público, com mercado interno minguante e juros siderais?

Pior que isso.

A participação privada na infraestrutura brasileira já capturou o filé mignon em quase todos os setores.

Isso a torna muito mais seletiva e arredia a partir de agora.

Sem a participação ativa do Estado, nada se fará.

Pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) mostra que no setor de transportes, por exemplo, 50% de todo o investimento registrado entre 2003 e 2015, foi feito pelo capital privado –o mesmo que a mídia dizia arredio pela desconfiança nas regras dos governos petistas.

Nos EUA esse fatia não chega a 9%; nos BRICS  (exceto África) a média é de 3%.

Nos EUA, apenas 0,3% dos 6,5 milhões de kms de rodovias do país estão sob controle privado.

No Brasil são 15,5% de uma malha total de 64 mil kms...

O caso dos aeroportos é ainda mais expressivo.

Com as quatro unidades a serem concedidas em 2017, quase 70% do fluxo de passageiros do país estará sob gestão privada.

Restará apenas o aeroporto de Curitiba com escala atraente ao interesse privado, avisa o estudo do Ipea.

A revoada de investidores prevista pelo golpismo, num cálculo muito mais ideológico  do que realista, não ocorrerá.

Desse descompasso entre a propaganda da mídia e a realidade dos tempos emerge a radiografia de uma assustadora bancarrota.

As novas referências geopolíticas trazidas pelo vento protecionista dos EUA só farão agravar a agonia da agenda golpista.

A ilusória intenção de engatar o destino do país a tratados de livre comércio, por exemplo.

Dotados de tribunais de exceção com soberania jurídica e legislativa para punir Estados e governos em defesa das corporações, eles compunham o corolário ideológico do neoliberalismo tardio brasileiro.

Com Trump trancando a maçaneta do maior mercado mundial, essa porta se fechou.

Sobra a dura realidade de indicadores descendo a ladeira sem freio.

As projeções apontam um tombo do PIB  entre 3,6% a 4% este ano.

Para 2017 previa-se  uma expansão medíocre de  1% e mesmo ela, feita pré-eleição americana, tornou-se irreal.

O desemprego continuará  a crescer para atingir 13% da PEA, com fechamento médio de 100 mil vagas mensais.

O poder de compra das famílias brasileiras, depois de crescer continuamente de 2003 a 2014 , acumulará um mergulho de 10% no biênio 2015/2016.

Com a massa de famílias assalariadas sem renda e sem crédito o horizonte aqui também é estreito.

A boutade golpista –‘sem consumo, é hora de crescer pelo investimento’—   soa como aquele estágio no deserto em que o comprometimento biológico desencadeia alucinações.

Com juros de 14,25%, sem investimento público, sem crédito do BNDES e com elevada capacidade ociosa no setor produtivo, quem vai investir no Brasil?

Um olhar mais detido enxergará obstáculos de complexidade adicional.

O colapso econômico brasileiro encerra desafios históricos inéditos.

O principal deles remete à perda de dinamismo industrial na estrutura de crescimento do país.

Não é uma questão técnica.

O esgarçamento das cadeias industriais corrói o núcleo duro de produtividade em uma sociedade.

Reduz seu ‘budget’ para investir em obras, direitos e cidadania.

O setor capaz de bombear saltos de eficiência e de receita --e de ampliar a oferta  de empregos de qualidade, por conta de seu poder irradiador--- é o manufatureiro.

Segundo o IBGE , a fatia da industrial no valor adicionado ao PIB brasileiro era de 17,4% em 2005.

Recuou para 10,9% este ano.

Fruto em grande medida da sistemática valorização do Real desde os anos 90 –e consequente vazamento de demanda interna para importações chinesas.

A reversão desse processo em nosso tempo tornou-se bem mais complexa do que imagina o próprio Trump.

Como já disse a professora Maria da Conceição à Carta Maior, o que os chineses tonaram não tem volta.

O que está em disputa agora é a 4ª revolução industrial.

Ela inclui a digitalização dos processos, a robotização de linhas, a precisão e a integração de etapas, cadeias e áreas de conhecimento aplicados à manufatura.

O Brasil tem dois trunfos com escala e densidade suficientes para ocupar um espaço nesse ciclo: a ecoagricultura e o impulso industrializante contido na cadeia do pre-sal.

O requisito capaz de interligar esse potencial a um novo ciclo de desenvolvimento é a soberania na sua condução.

Sem ela, o leme cai nas mãos das grandes corporações

Como está caindo, graças ao projeto de  liberação de terras aos estrangeiros e do desmonte do modelo soberano de partilha do pre-sal.

Retomar os espaços de soberania e planejamento democrático constitui, assim, o requisito de vida ou morte para o futuro da industrialização e do país no século XXI.

Subestimar a envergadura das respostas c0bradas pelo esgotamento neoliberal não é, infelizmente, um apanágio golpista.

Isso explica também os erros e omissões cometidos por governos petistas, que apostaram em uma regeneração das condições de mercado anteriores à crise de 2008, como se vivêssemos um evento transitório, e não um colapso terminal.

O erro de cálculo histórico levou a dois outros, interligados.

Insistir apenas na prorrogação de estímulos ao consumo, quando medidas estruturais de autoproteção do desenvolvimento –controle da conta de capitais, por exemplo, indispensável à redução dos juros, sem fuga de dólares-- deveriam ter sido tomadas, é um deles.

O outro, render-se ao ‘consenso do ajuste ortodoxo’ no momento em que os desequilíbrios explodiam e uma repactuação política do desenvolvimento figurava como a única alternativa real ao descontrole.

Na verdade, ainda figura. Esse é o ponto.

Há quem considere ilusório o resgate dessa bandeira nas mãos de uma frente ampla

Mais ilusório é supor que a roda da democracia social poderá girar de novo no país sem esse repto.

É certo que o corredor histórico se estreitou.

Alargá-lo, porém, não é uma questão de fé.

Quem pode desobstruí-lo  é a  aglutinação pactuada dos inúmeros interesses, setores sociais e produtivos atingidos pelo arrocho neoliberal.

Na história das lutas sociais o indispensável só é impossível até ganhar nervos e musculatura das forças que dependem dele para respirar e progredir.

O golpe destruiu tudo ao mesmo tempo: as bases da economia, as da política e as do diálogo democrático.

Dissolveu o chão firme da nação e não dispõe de liderança, nem de projeto, tampouco de legitimidade para reconstruí-lo.

Num tempo que estrebucha e ameaça levar de roldão as nações há duas alternativas.

Tirar a economia do altar sagrado da ortodoxia e expô-la a uma repactuação democrática do desenvolvimento – a opção de uma frente ampla progressista.

Ou aguardar a chegada de um correlato fascistóide à moda ‘Trump’

O jogo é pesado.

A roleta gira nervosamente.

Entre a escuridão e o parto de uma nova esperança define-se o destino do Brasil.

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