segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O golpe e o asco da família tradicional branca ao não convencional, por Francisco Águas.


O país atravessa a maior crise institucional desde a redemocratização. Depois de um processo de impeachment considerado por renomados juristas como golpe, o país mergulha em uma crise política e econômica que turva o futuro do país. Mais de 54 milhões de votos foram desconsiderados e uma presidenta eleita foi deposta. A ascensão do país como uma das maiores economias, uma das maiores reservas energéticas do mundo, com vastas áreas agricutáveis e grande mercado consumidor interno, corre grande riscos. 


A nação encontra sobre um governo ilegítimo, com reformas recessivas que não foram legitimas em eleições, cada dia mais sem rumo. Escolas estaduais ocupadas, greves de universidades federais, manifestações, o país encontra-se em grande ebulição. Mesmo que os grandes meios de comunicação não noticiem de maneira substancial os protestos contra o Governo Temer e suas medidas regressivas, o país está fervendo.
Antes de deposição da representante do executivo eleita democraticamente eleita, um grande descontentamento social da chamada classe média ajudou à consolidação do golpe. Mesmo tendo favorecido a classe médica com aumento de concursos públicos e valorização da carreira de servidores públicos, diminuído à níveis históricos o desemprego, aumentando o poder de consumo, o grau de insatisfação em relação ao governo da presidenta Dilma e seu Partido dos Trabalhadores atingiu altos patamares, chegando ao ponto de se tornar para alguns, verdadeiro ódio. Assim, muitos questionam o fato de que nos governos petistas, a classe média ter conseguido avanços em seus direitos e mesmo assim reprovar veemente tais governos.

É notório que a chamada grande mídia corporativa contribuiu para tal percepção. Cobertura distorcida e desonesta, certamente ajudou a gerar tal rejeição. Fora os erros de tais governos, seja de sua incapacidade de se comunicar com a classe média e mostrar os vários avanços, seu envolvimento com ações no mínimo nebulosas do ponto de vista ético, ou com as últimas decisões do governo Dilma de que, mesmo que momentaneamente, adotar medidas governamentais de cunho neoliberais, contrariando seu programa apresentado na eleição, dando a impressão de fraude eleitoral.
Porém, em que pese o fato de tais argumentos serem consideráveis, as forças que moveram o golpe, souberam utilizar certos sentimentos da classe média para legitimar a tomada do poder. Com intuito de acabar com o arremedo de Estado de Bem Estar Social brasileiro buscado pela Constituição de 88 e garantir ao capital especulativo a continuidade de seus lucros estratosféricos, além de tirar os recursos do pré-sal das mãos do Estado Brasileiro, os golpistas souberam usar o medo da classe média.
Os governos petistas governaram conciliando interesses do grande capital com distribuição de renda, fortalecimento do mercado interno, inclusão social e da soberania nacional. O grande capital lucrou como nunca, mas tais governos conseguiram incluir na sociedade um grande percentual antes marginalizados. Porém a crise de 2008 que atacou em cheio o primeiro mundo e em 2014 chegou ao Brasil, não possibilitava mais tal conciliação. O grande capital não queria arriscar mais com um governo progressista e tramou a apeada do poder da presidenta eleita.
Assim, viram que fomentar o ódio da classe média seria uma maneira de deslegitimar a governante eleita. 
A inclusão social dos últimos 13 anos mudou claramente a sociedade brasileira. Debates sobre Direitos Humanos, igualdade de gênero, combate o racismo, combate à homofobia, trouxeram polêmicas escanteadas para baixo do pano por muitos anos.
As universidades passaram a receber uma legião de excluídos. Os aeroportos passaram a ser frequentados por pessoas que nunca imaginaram ter acesso ao transporte aéreo. Shoppings Centers passaram a ficar lotados de pessoas da periferia (os famosos rolezinhos). O Presidente Lula certa vez disse, com sua habitual capacidade de perceber as coisas, que a madame ficava contrariada em saber que a "sua" doméstica usava o mesmo perfume que ela.
Em uma escola ocupada na periferia de Uberlândia/MG, tive a oportunidade de conversar com uma universitária do curso de psicologia que estava dando apoio à ocupação. A moça inicialmente me contou sobre como estava dando suporte emocional aos secundaristas. Moça de cor parda, obesa e com cabelo diferente do padrão da classe média tradicional, me contou um pouco de sua vida. A meu ver revela muito sobre o que passa o país. Cotista de escola pública, estudou em escola estadual de periferia por toda sua vida escolar. Lamentou que outros de seus colegas da escola pública não tiveram a mesma oportunidade de que ela, mas que o que para a geração de seus pais era impossível, para ela foi alcançado, ingressar em um curso disputado da Universidade Federal.

Relatou que quando adolescente, se descobriu atraída por meninos e meninas e que isso lhe causou um grande sentimento de culpa e angústia que por anos atormentou sua vida. Que vinda de uma família de tios pastores neo pentecostais, sofreu bastante discriminação familiar ao não se enquadrar no padrão de mulher submissa imposto pela sociedade conservadora. Também se sentiu discriminada pelo próprio movimento LGBT ao se assumir bissexual. Dentro da universidade, sempre se sentiu deslocada. Contou que luta para que os grupos de estudos da universidade possam fazer orientação nas escolas, pois os adolescentes têm várias angústias sobre sua sexualidade.
Assim, ao conversar com uma menina bissexual, obesa, parda e independente, cursando um curso superior, antes destinado apenas para as elites brancas, supostamente heterossexuais, conservadora e cristã, notei o quanto o Brasil mudou nos últimos anos.
A classe média branca, heterossexual, conservadora e cristã teve agora que conviver em mesmos espaços com pessoas que antes eram trancadas em armários ou em senzalas. Antes dos anos lulistas que abriram uma fresta para que os excluídos fossem aceitos no baile, era comum e aceito pela grande massa do precariado, que o destino lhes tinham reservado a semi escravidão e a sujeição submissa aos seus patrões. Hoje, os jovens que ascenderam nos últimos anos não aceitarão mais trabalhar como escravos ou se sujeitarem à padrões conservadores impostos unilateralmente pela sociedade. 

A classe média, que se via em seus retratos de família como uma família de comercial de margarina, se viu totalmente assustada ao saber que sua prole estará em contato com o que não é espelho, como muito bem descrito MARIA BITARELLO no artigo do excelente site outraspalavras.net

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