quarta-feira, 15 de junho de 2016

Quando o problema é com você?, por Fabrício Longo.


Você
Você diz que faz sua parte mas não admite culpa por nada. Você acha que todos problemas do mundo são “globais”, que “é cada um por si”. V-O-C-Ê. Você se incomoda com essa palavra. Você acha injusto quando ela aparece para te lembrar da sua participação nas coisas. Você grita, esperneia, diz que não. Você não vê que tudo que afeta a mim, a nós e a eles é seu também. É nosso. Geral sim, só que por inclusão. Não adianta tentar se omitir…
Outra semana, outro tiro. Outro estupro de alguém que pediu, outro suicídio do cara muito gordo para caçar sexo no aplicativo, outro negro atirado às masmorras do nosso sistema carcerário ou executado porque estava sem camisa no lugar e na hora errados. Quantos gays não se dão ao respeito? Quantas travestis metem medo só de olhar? Quem provocou ou deu a entender que merecia uma lampadada? Quem estava pedindo para morrer em uma boate? Quem é o culpado? O que você tem com isso? Por que qualquer coisa pode acontecer desde que não atinja VOCÊ?
Parece que sempre que a palavra “você” é usada, as pessoas levam tudo para o lado pessoal. Faz sentido, já que “você é você”. Entretanto, em geral os assuntos tratados são aqueles que todo mundo insiste em considerar “dos outros”, os problemas sociais que até conquistam a nossa solidariedade mas não nos afetam diretamente. Então o que existe de ruim quando o destinatário é “você”? Se você – de fato – não tem “culpa no cartório”, porque essa generalização incomoda tanto? A carapuça serviu? Será que lá no fundo você não sabe que também é parte do problema? Desculpe, mas é o que parece!
Qualquer coisa direcionada a “você”, pode mesmo ser para você. Por mais inteligentes, empáticos, bonzinhos, legais, desconstruídos, críticos, estudados ou maravilhosos que podemos ser, não estamos livres de errar e especialmente de errar sem perceber. Então alguém vem e aponta este erro, o que muitas vezes pode não ser feito da maneira mais educada, mas independente das palavras, a gente se irrita e se ofende com a POSSIBILIDADE de estar errado, inclusive ao desconsiderar que isso não seria nem inédito e nem necessariamente ruim. A pessoa do outro lado não é forçosamente uma inimiga e pode ser que você não seja mesmo o destinatário.
Que seja esse “você”, que funciona como figura de linguagem, apenas para instigar o leitor a pensar sobre si, ainda que ele possa concluir não ter nada com aquilo. Até mesmo a mais generosa das pessoas cedo ou tarde vai esbarrar em algum limite, em alguma “parede” daquilo que pode ou não pode fazer ou entender. Ou seja, é impossível que uma mensagem abrangente, sobre um problema comum, tenha destinatário definido. A não ser que ela venha com nome e sobrenome, tanto pode ser você quanto qualquer vizinho. Eu, tu, eles, nós, vós, eles.
Tanto a política praticada por movimentos sociais quanto o discurso de ódio funcionam – conscientemente ou não – com a mesma lógica de campanhas publicitárias. Assim como no jornalismo, o que se diz e principalmente COMO se diz importa, já que é capaz de conduzir as emoções de quem lê. É assim, entre títulos mirabolantes, memes, fotos, likes e vídeos que a comunicação vai construindo e ao mesmo tempo refletindo o que pensa a sociedade. É um processo eternamente circular. Evidentemente que as grandes corporações de mídia e as celebridades possuem grande responsabilidade, já que seu alcance e poder de influência é maior. Porém não significa que nós, eu e você, os “pobres mortais”, não precisemos pensar sobre o que falamos entre amigos ou publicamos em nossas redes.
Hoje não atirei em ninguém e nem estuprei ninguém.
Não acho que tenha sido racista.
Hoje.
Eu certamente possa me revoltar se for acusado de alguma coisa através de uma generalização sem destino definido, mas preciso ter a consciência de que posso ter contribuído para algum desses fatos chocantes através de atitudes que eu considerava inofensivas. Claro, pode até ser “mania de perseguição” de alguém “do outro lado”, mas aí se nenhum argumento conseguir me convencer do erro eu posso ao menos pedir desculpas ou tentar não fazer mais.
Para se sustentar, qualquer coisa precisa de uma base. Até algo “instintivo” como o ódio, a intolerância, a raiva ou o “gosto pessoal” precisa disso. As ideias devem estar disseminadas por toda a população. E somos mesmo todos iguais. Todos humanos, todos falhos, todos células de um corpo gigante consumindo o planeta.
Se um problema não te afeta, talvez o problema seja VOCÊ.
Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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