quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Cultura Inútil: Honrados, dignos e virtuosos, por Mouzar Benedito.



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Por Mouzar Benedito.

Cadê eles? Estão no governo? No Congresso? No Judiciário? Nas redações de jornais e revistas? Nas emissoras de rádio e TV? Nas igrejas?
Nesses lugares todos tem gente posando como se tivessem essas qualidades e exigindo-as dos outros.
Na política, uma mesma coisa pode ser considerada “qualidade” e elogiada como virtude, se seu detentor for do seu partido, ou excomungada como grande defeito se for seu adversário. Por exemplo: se o cara é do tipo exigente e centralizador, para seus seguidores é um bom político, de pulso firme; para seus adversários, é autoritário, ditador. Se o político ouve outras pessoas antes de tomar uma decisão, é um democrata, segundo seus seguidores, ou um frouxo vacilante, segundo os opositores.
Nas tais “mídias sociais” isso é cotidiano. Manipulam, vociferam defendendo honra, dignidade e virtudes que os próprios vociferadores não têm. E fechando os olhos para os desmandos de seus partidários…
Um bom exemplo desses “virtuosos” está numa historinha contada pelo Barão de Itararé:
O Dr. Lins estava danado da vida porque lhe haviam passado uma nota falsa de dois cruzeiros.
— Não se pode mais ter confiança em ninguém! — dizia ele. — Foi o trocador do ônibus que me deu a nota. Que ladrão!
— Quer me mostrar a pelega? — pergunta um amigo.
— Já não a tenho mais. Passei-a adiante.

Ditados populares e pensamentos de famosos

Fui à caça do que pensadores disseram sobre essas qualidades. E também de ditados populares sobre o assunto.
Mas antes de transcrever todos eles aqui, lembro-me de um sujeito que periodicamente aparecia na minha terra e pedia comida, cada dia numa casa. Era o Barbino, com um conceito muito especial que até hoje não entendi. Ele só aceitava comida se tivesse carne. Se não tivesse, devolvia o prato, falando bravo: “Cumê sem carne, Deus num põe virtude”. Quem puder, que me explique.
Agora, aí vão pensamentos e ditados.
Millôr Fernandes: “Se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na Terra um canalha a menos”.
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O povo (ditado popular): “A virtude tem muitos pregadores, mas poucos mártires”.
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Henry Toreau: “Existem 999 professores de virtude para cada pessoa virtuosa”.
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Joaquim Nabuco: “O naufrágio da honra é quase irreparável”.
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Almeida Garrett: “Aí, virtude. Que homens, que leis dos homens te conhecem?”.
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Hermann Melville: “Falam da dignidade do trabalho. Bah! A dignidade está no ócio”.
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Ambrose Bierce: “Epitáfio é uma inscrição num túmulo que mostra que as virtudes adquiridas pela morte têm efeito retroativo”.
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O povo (ditado): A honra é como vidro: quebrando, não solda mais.
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O povo, de novo: “Não há erva tão ruim que não tenha a sua virtude”.
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O povo, mais uma vez: “A mentira só é vício quando faz mal; se faz bem, é uma grande virtude”.
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Carlo Dossi: “A virtude é como o percevejo. Para que exale seu odor, é preciso esmagá-la”.
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Anatole France: “A virtude, tal como os corvos, aninha-se nas ruínas”.
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Mário Quintana: “A verdade é que os bichos, quando imitam as pessoas, perdem toda a dignidade”.
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Ludwig Borne: “As virtudes e as raparigas possuem a máxima beleza até saberem que são belas”.
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Três ditados populares: “Onde não há honra, não há desonra”. “Onde a honra é o mais, tudo o mais é o menos”. “A honra é como o vidro: quebrando, não solda mais”.
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François Chateaubriand: “Outrora, a velhice era uma dignidade; hoje, ela é um peso”.
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Rubem Alves: “Amores novos não combinam com a dignidade dos velhos”
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Aristóteles: “Não possuímos virtudes antes de as colocar em prática”.
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Camilo Castelo Branco: “A desonra que se estorce numa esteira é que nunca se reabilita”.
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Camilo Castelo Branco, de novo: “A virtude, quando há dinheiro, é azul sobre ouro”.
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Camilo Castelo Branco, mais uma vez: “Se houvessem virtudes perfeitas, essas desconheceriam os escrúpulos, que são de per si os prelúdios das imperfeições”.
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Ditados populares: “Honra e proveito não cabem num saco”. “Muitas vezes a dignidade proíbe o que a lei permite”. “A virtude remoça os velhos, o vício envelhece os moços”.
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Nietzsche: “É por nossas virtudes que somos punidos”.
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Nietzsche, de novo: “Todas as virtudes têm sua época; a quem hoje é inflexível, a sua honestidade provoca-lhe muitas vezes remorsos: porque a inflexibilidade é uma virtude que pertence a uma idade diferente da da honestidade”.
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François La Rochefoucauld: “A virtude não iria tão longe se a vaidade lhe não fizesse companhia”.
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Rochefoucauld, de novo: “As virtudes perdem-se no interesse como as águas do rio se perdem no mar”.
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Rochefoucauld, mais uma vez: “As nossas virtudes, a maior parte das vezes, não passam de vícios disfarçados”.
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Ditados populares: “Quando a miséria entra pela porta, a virtude sai pela janela”. “A fome é inimiga da virtude”. “Melhoramos em virtude quando pioramos em saúde”.
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Mahatma Gahdhi: “A dignidade pessoal e a honra não podem ser protegidas por outros, devem ser zeladas pelo indivíduo em particular”.
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Louis Saint-Just: “As virtudes indomáveis dão lugar a costumes atrozes”.
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Berilo Neves: “A virtude é a salvação das feias. Não custa evitar o pecado quando não se tem com quem pecar”.
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Padre João de Lucena: “Tão formosa é a virtude que aqueles que lhe querem muito nada querem dela”.
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Elizabeth Taylor: “O problema das pessoas que não têm defeitos é que, com certeza, têm virtudes terríveis”.
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Marguerite Yourcenar: “O nosso maior erro consiste em tentarmos colher de cada pessoa em particular as virtudes que elas não têm, e de nos esquecermos de cultivar as que de fato são suas”.
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Ditados populares: “Entre a honra e o dinheiro, o segundo é o primeiro”. “Mais vale merecer honra e não ter, do que, tendo-a, não merecer”. “Honra demais é orgulho”.
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Padre Manuel Bernardes: “Que são as dignidades? Essa real: por fora brasões, telas e luzes; por dentro, ripas de pinho e lixo”.
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Machado de Assis: “A virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo é pródigo”.
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Machado, de novo: “O cancro é indiferente às virtudes do sujeito; quando rói, rói. Roer é seu ofício”.
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Ariano Suassuna: “Eu digo sempre que das três virtudes chamadas teologais, sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança. Eu sou o homem da esperança”.
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Nelson Rodrigues: “O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes”.
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Madame de Riccoboni: “A aparência das virtudes é muito mais sedutora do que as próprias virtudes, e quem se vangloria de as possuir tem grande vantagem sobre quem realmente as possui”.
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Ramón Campoamor y Campoosorio: “Na sua essência, a virtude é metade opinião e outra metade aparência”.
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Manuel Bernardes: “Os olhos enfermos ofendem-se da claridade da virtude”.
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Manuel Bernardes, de novo: “O que é dotado de verdadeira virtude tem os seus males por fora, e os seus bens por dentro”.
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Ditados populares: “A honra é a bússola dos homens de bem”. “A honra se lava é com sangue”.
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Jacinto Benavente y Martinez: “Quando uma virtude acha recompensa, já começamos a duvidar que seja virtude”.
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Jacques Bossuet: “As virtudes que se ostentam são vãs e falsas virtudes”.
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Virgílio: “A virtude é mais apreciada se resplandecer num corpo belo”.
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Ralph Emerson: “O que é, afinal, uma erva daninha senão uma planta da qual ainda se não descobriram as virtudes?”.
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Gonçalves de Magalhães: “A natureza humana é tão misteriosa que uma virtude nos faz chorar e uma grande desgraça nos faz rir”.
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Medeiros de Albuquerque: “A virtude é uma palavra que só enche a boca dos que não podem gozar o vício; é a prédica dos impotentes; é a prédica dos invejosos”.
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Capistrano de Abreu: “O termômetro da dignidade poucos graus vai acima do zero; mas abaixo a graduação não tem fim”.
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Charles Darwin: “A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana”.
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Confúcio: “A humildade é a única base sólida de todas as virtudes”.
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Confúcio, de novo: “O homem que é firme, paciente, simples, natural e tranquilo está perto da virtude”.
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Blaise Pascal: “Uma indiferença pacífica é a mais sábia das virtudes”.
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Platão: “As grandes naturezas produzem grandes vícios, assim como grandes virtudes”.
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Ditado popular: “Homem honrado, antes morto que injuriado”.
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Marie Eschenbach: “A virtude também é uma arte. Eis porque ela tem duas espécies de discípulos: os que a praticam e os que a admiram”.
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Miguel de Cervantes: “A virtude é mais perseguida pelos maus do que amada pelos bons”.
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Napoleão Bonaparte: “Para governar é preciso aproveitar-se dos vícios dos homens, não de suas virtudes”.
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Frei Luís de Sousa: “É tempo perdido animar para a batalha quem fica fora dela, e aconselhar virtude a quem não é primeiro em segui-la”.
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Eça de Queiroz: “Quem sem descanso apregoar a sua virtude, a si próprio se sugestiona virtuosamente e acaba às vezes virtuoso”.
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Ditado popular: “Fazer bem é virtude, mas é também egoísmo”.
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Khalil Gibran: “Quem não sabe aceitar as pequenas falhas das mulheres não aproveitará suas grandes virtudes”.
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William Shakespeare: “Uns venceram por seus crimes, outros fracassaram por suas virtudes”.
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Shakespeare, de novo: “As falhas dos homens eternizam-se no bronze, as suas virtudes escrevemos na água”.
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Ditado popular: “As chagas da dignidade nunca cicatrizam”.
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Marguerite Valois: “Seremos perfeitamente virtuosos quando já não houver carne nos nossos ossos”.
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Georges Perros: “Ócio, pai de todos os vícios e filho de todas as virtudes”.
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Clara Luce: “A coragem é a escada por onde sobem as outras virtudes”.
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Ditado popular: “Homem que com sua honra não sonha, vem-lhe de ter pouca vergonha”.
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Marquês de Maricá: “Em matérias e opiniões políticas os crimes de um tempo são algumas vezes virtudes em outro”.
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Maricá, de novo: “Todas as virtudes são restrições; todos os vícios, ampliações da liberdade”.
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Thomas Hobbes: “As duas virtudes cardinais da guerra: força e fraude”.
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Ditado popular: “A adversidade descobre a virtude”.
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Eugene Delacroix: “A adversidade restitui aos homens todas as virtudes que a prosperidade lhes tira”.
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Silva Alvarenga: “No meio é que a virtude tem firme o seu lugar; quem vai pelos extemos não a deseja achar”.
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Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
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Ditado popular: “O vício e a virtude são vizinhos”.
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Molière: “Todos os vícios, quando estão na moda, passam por virtudes”.
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Molière, de novo: “Prefiro um vício cômodo a uma virtude que fatigue”.

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

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