quarta-feira, 5 de abril de 2017

Estagnação Iliberal, por Joseph E. Stiglitz.


JOSEPH E. STIGLITZ - Project SyndicateUnited Nations Industrial Development Organization

Os fracassos do Ocidente não devem minar sua determinação de trabalhar para criar estados democráticos que respeitem os direitos humanos.


NOVA YORK - Hoje, um quarto de século depois do fim da Guerra Fria, o Ocidente e a Rússia estão de novo em desacordo. Desta vez, porém, pelo menos num lado, a disputa é mais claramente sobre o poder geopolítico, e não sobre ideologia. O Ocidente tem apoiado, de várias maneiras, os movimentos democráticos na região pós-soviética, mal escondendo seu entusiasmo pelas várias revoluções "coloridas" que substituíram os ditadores de longa data por líderes mais adequados- embora nem todos tenham resultado ser os democratas convictos que eles mostravam ser.

Mas países do antigo bloco soviético permanecem sob o controle de líderes autoritários, inclusive alguns, como o presidente russo Vladimir Putin, que aprenderam a manter uma fachada de eleições mais convincente que aquelas de seus antecessores comunistas. Eles vendem seu sistema de "democracia iliberal" com base no pragmatismo, e não sob alguma teoria universal da história. Esses líderes afirmam que eles são simplesmente mais eficazes em fazer as coisas acontecerem.

Isso é certamente verdadeiro quando se trata de mexer com o sentimento nacionalista e sufocar a dissidência. Mas eles têm sido menos eficazes, no entanto, no fomento de crescimento econômico de longo prazo. Aquela que já foi uma das duas superpotências do mundo, o PIB da Rússia é agora cerca de 40% da Alemanha e pouco mais de 50% da França. A esperança de vida no nascimento está na 153ª posição no mundo, logo atrás de Honduras e Cazaquistão.

Em termos de renda per capita, a Rússia agora ocupa o 73º lugar (em termos de paridade de poder de compra), bem abaixo dos antigos satélites da União Soviética na Europa Central e Oriental. O país se desindustrializou: a grande maioria de suas exportações vem agora de recursos naturais. Ela não evoluiu para uma economia de mercado "normal", mas sim para uma forma peculiar de capitalismo clientelista.

Sim, a Rússia ainda ameaça, por cima de sua condição real em algumas áreas, como as armas nucleares. E mantém o poder de veto nas Nações Unidas. Como mostra a recente “hacking” do Partido Democrata nos Estados Unidos, ela tem capacidades cibernéticas que a tornam extremamente capaz de se intrometer em eleições ocidentais.

Há toda razão para acreditar que essas intrusões continuarão. Dado que o presidente norte-americano, Donald Trump, tem laços profundos com personagens russos inescrupolosos %u20B%u20B(eles próprios ligados a Putin), os norte-americanos estão profundamente preocupados com possíveis influências russas nos EUA - questões que podem ser esclarecidas por investigações em andamento.

Muitos tinham esperanças muito mais elevadas para a Rússia, e, de forma mais geral, para a antiga União Soviética, quando a Cortina de Ferro caiu. Depois de sete décadas de comunismo, a transição para uma economia de mercado democrática não seria fácil. Mas, dadas as óbvias vantagens do capitalismo de mercado democrático para o sistema que acabara de desmoronar, supunha-se que a economia iria florescer e os cidadãos exigiriam uma voz mais ouvida.

O que deu errado? Quem, se alguém, é para culpabilizar? Será que a transição pós-comunista da Rússia poderia ter sido melhor gerenciada?

Nunca podemos responder definitivamente a essas questões: a história não pode ser refeita. Mas acredito que o que estamos enfrentando é em parte o legado do falho Consenso de Washington que moldou a transição da Rússia. As influências desta estrutura refletiram-se na enorme ênfase que os reformadores colocaram na privatização, independentemente da forma como foi feita, em que  a velocidade prevaleciao sobre tudo o resto, o que incluiria a criação da infraestrutura institucional necessária para fazer a economia de mercado funcionar.

Há quinze anos, quando escrevi “Globalização e seus descontentes”, eu argumentei que essa abordagem de "terapia de choque" para a reforma econômica resultaria num fracasso desalentador. Mas os defensores dessa doutrina aconselhavam paciência: só se poderia fazer tais avaliações sob uma perspectiva de longo prazo.

Hoje, mais de um quarto de século desde o início da transição, as preocupações anteriores foram confirmadas e aqueles que argumentaram que os direitos de propriedade privada, uma vez criados, iriam dar origem a demandas mais amplas para o Estado de direito estiveram comporvadamente errados. A Rússia e muitos outros países em transição estão se atrasando em relação às economias avançadas. O PIB em alguns desses países em transição está abaixo do seu nível no início do processo de transição.


Muitos na Rússia acreditam que o Tesouro dos EUA forçaram as políticas do Consenso de Washington para enfraquecer seu paíse. A profunda corrupção da equipe da Universidade de Harvard escolhida para "ajudar" a Rússia em sua transição, descrita em um relato detalhado publicado em 2006 pelo “Institutional Investor”, reforçou essas convicções.  

Acredito, entretanto, que a explicação foi menos sinistra: idéias falhas, ainda que com as melhores intenções, podem ter sérias consequências. E as oportunidades para o interesse próprio ganancioso oferecidas pela Rússia eram simplesmente demasiado grandes para que alguns pudessem resistir. Claramente, a democratização na Rússia exigia esforços para garantir a prosperidade compartilhada, e não as políticas que levaram à criação de uma oligarquia.

Os fracassos do Ocidente, então, não devem minar sua determinação agora de trabalhar para criar estados democráticos que respeitem os direitos humanos e o direito internacional. Os EUA estão lutando para evitar o extremismo da administração Trump - seja a proibição de viagens dirigida a muçulmanos, seja as políticas ambientais que negam a ciência ou as ameaças de ignorar os compromissos comerciais internacionais - de se tornarem normalizadas. Mas as violações de outros países ao direito internacional, como as ações da Rússia na Ucrânia, também não podem ser "normalizadas".

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