quarta-feira, 5 de abril de 2017

Teoria da Terra Plana renasce mais uma vez em tempos difíceis, por Wilson Roberto Vieira Ferreira



A Terra é um disco plano e cercada por um muro de gelo que chamamos de Antártida. O Sol e a Lua são apenas discos luminosos que giram sobre o plano terrestre e os planetas não existem. São apenas estrelas firmadas em uma abóboda. E a NASA esconde tudo simulando viagens espaciais e fotos da curvatura terrestre. Acredite, essa teoria que cada vez mais ocupa espaço na Internet com textos e vídeos com um crescente número de seguidores. Mas teoria da Terra Plana não é nova na era moderna. É recorrente na História em momentos de crise política e econômica, como hoje. Por exemplo, teorias da Terra Oca e Plana foram adotadas pelo Nazismo para se opor à “ciência materialista” e injetar magia e misticismo na Política por meio de sociedades secretas como a Vril e Tule, antes da Segunda Guerra. A Ciência transforma-se em fundamentalismo religioso, expressão da polarização e intolerância política do momento. Mas os terraplanistas acertam em um ponto: toda cartografia é uma representação político-imaginária.

“Boa noite, senhoras e senhores... essa noite terei o privilégio de fazer uma estonteante revelação que mudará a maneira de compreender a natureza do Universo desde Newton e Einstein, uma descoberta que mudará radicalmente a percepção do tempo e do espaço, a verdade escondida por muito tempo pelo establishment da indústria militar e espacial: a Terra é... PLANA!”.

Essa era a abertura dos shows em 1984 do músico e produtor musical Thomas Dolby promovendo seu segundo álbum The Flat Earth. Com o seu “nerd sinthpop”, bem sucedido depois do sucesso de “She Blind Me With Science” do álbum anterior, Dolby abria os shows com essa parodia que procurava ridicularizar o criacionismo e as pseudociências.

Eram os anos 1980, tempos do triunfo do neoliberalismo da era Reagan-Thatcher. Época da retomada econômica dos EUA e da Inglaterra com as medidas neoliberais e da financeirização cujo maior ícone foram os jovens yuppies e o maquiavélico Gordon Geko no filme Wall Street. Tudo ia muito bem num confiante capitalismo que acreditava que a História tinha acabado na Razão. Restava parodiar no liquidificador da cultura pop tudo aquilo que era obscuro e anti-científico.

Mas tudo mudou: a guerra anti-terror e o derretimento dos blocos econômicos como a Zona do Euro trouxeram insegurança social, desemprego, crashs financeiros e a catástrofe humanitária dos refugiados.

Thomas Dolby

Resultado: a ascensão da extrema-direita anti-imigração e anti-integração, fundamentalismo religiosos e o crescimento de uma percepção conspiratória de uma suposta ordem “politicamente correta”, uma bizarra conspiração gay-feminista-sionista-comunista que exigiria uma imediata intervenção militar ou mesmo a ação de milícias de “cidadãos de bem” armados.

Pensamento crítico cede ao ressentimento


Como nos ensina a História, nesses momentos o anti-intelectualismo, o irracionalismo e os fundamentalismos ganham força. Por trás de tudo isso, a desconfiança de que por muito tempo contaram somente mentiras para nós. O pensamento crítico cede lugar à fé cega e ao ressentimento.

A bizarra teoria da Terra Plana é um desses ao mesmo tempo curiosos e preocupantes fenômenos antropológicos. A paródia trash dos anos 1980 de Thomas Dolby foi substituída atualmente por um crescente números de adeptos fieis de uma visão do mundo que humanidade acreditou por muitos séculos. Até chegarem os filósofos e matemáticos gregos como Aristóteles e Eratóstones onde, através da lógica e trigonometria rudimentar, abriram o caminho para a comprovação da esfericidade terrestre.

Hoje, terraplanistas comprovam suas teorias da forma mais empírica possível: um homem que supostamente conseguir provar que a terra é plana com uma régua (sem comentários...); alguém que subiu num balão e, a 34 km de altura, não viu a curvatura terrestre (altitude insuficiente num planeta que possui 400.000 km de circunferência); os mapas de navegação são planos e não esféricos (o que ignora um simples princípio semiótico: o mapa nunca será o próprio território, é apenas uma representação) etc.


E a NASA é a agência que lidera a conspiração, divulgando fotos montadas sobre a curvatura do planeta e, principalmente, mantendo a farsa de que o homem pousou na Lua – na verdade, Lua e Sol são pequenos discos que giram sobre a superfície plana da Terra.

A recorrência da Terra Plana


A Terra Plana é uma recorrência histórica. Quando em 1925, na Alemanha e na Áustria, os carteiros entregaram uma carta a todos os cientistas e intelectuais avisando de que Hitler não só “limparia a política”, mas expulsaria a “falsa ciência” (e que eles deveriam escolher entre “estar conosco ou contra nós), surgiu o movimento de reação à “ciência sionista”, “burguesa” ou “materialista”. Uma nova Astronomia, Cosmologia e Física que demonstravam que a terra era oca (e que nós habitamos o interior iluminado por um “Sol interno”) e de que era plana, contida por uma abóboda da qual jamais sairíamos.

Os alemães seriam descendentes da raça-mãe da Atlântida e que recuperariam essa ascendência superiora através de uma guerra contra a conspiração das teorias científicas das raças inferiores – e os alemães recuperariam os antigos poderes que os homens somente atribuíam aos deuses.

Teorias pseudocientíficas e antigas concepções místicas alimentaram o nazismo em um momento de polarização política e catástrofe econômica com a hiperinflação e desemprego pós-guerra.  Em momentos como esse, sempre o intelectualismo surge de forma franca. E na época, sociedades secretas como a Vril, A Loja Luminosa e a Tule se transformaram em seitas que misturavam Teosofia, magia neopagã com uma solenidade oriental e terminologia hindu – um vasto movimento de renascimento do mágico no interior da própria Política - leia PAUWELS, Louis e .BERGIER, Jacques. O Despertar dos Mágicos, Difel, 1990 e AMBELAIN, Eobert. Os Arcanos Negros do Histerismo, José Olympio, 1995.

Como nos tempos atuais, de tão desgastada e sem credibilidade pela corrupção e mentiras, no período que antecedeu a Segunda Guerra, a Política levou uma infusão mística, mágica e mitológica para novamente galvanizar as massas... e deu no que deu...

Nazismo: a ascensão das teorias da Terra Oca e da Terra Plana

À espera de uma tradução política


A questão é que esse submundo pseudocientífico sempre existiu, sempre à espera de uma tradução política que o fizesse sair à luz do Sol. Como demonstra a trajetória de Samuel Shelton (1903-1971), fundador da Flat Earth Research Society (IFERS) em 1956.

Na década de 1920 estava convencido que iria revolucionar os meios de transporte com a “nave estacionária” uma nave que apenas se elevaria e flutuaria no ar e o movimento da Terra faria o resto – assim que o planeta girasse o bastante, a nave pousaria em outro local na mesma longitude...

Como não viu o projeto decolar (desculpe o trocadilho) Shelton foi contaminado pela atmosfera mágica das teorias da Terra oca e plana. Em 1956 fundou a IFERS, que sempre sobreviveu com um pequeno grupo de adeptos – até o músico Thomas Dolby quis participar, desde que fosse o membro 0001... uma certidão de sócio cairia muito bem à sua imagem “nerd synthpop”.

Mas recentemente, houve um crescimento exponencial no número de seguidores com vídeos e textos disseminados pela Internet.

Embora os teóricos da Terra Plana não consigam explicar o porquê dessa conspiração da Terra Esférica, acreditam em algum fator financeiro – a NASA e outras agências espaciais lucrariam bastante com o financiamento do Governo para simular fotos e viagens espaciais.

O problema não parece ser a teoria em si – muitos membros da sociedade veem a teoria como uma espécie de exercício epistemológico para neófitos nas discussões em metodologia científica ou também um exercício de filosofia solipsista para iniciantes.


Cartografias imaginárias


A questão é que historicamente, pela recorrência, essas pseudociências têm se demonstrado como sintomas de radicalizações políticas sérias. O apego a epistemes antigas e medievais como fossem a própria expressão do atual radicalismo político e conservadorismo. Como mostramos em postagem anterior sobre um autêntico bestiário de ideias que supostamente teriam sido superadas pela Ciência e que retornam na atualidade: neodarwinismo, malthusianismo, antropologia criminal etc. – clique aqui.

Mas numa coisa os teóricos da Terra Plana têm razão: há uma natureza político-imaginária nas representações cartográficas do planeta. A cartografia não é um simples representação de um território, mas uma  expressão de poder, da divisão de classes e reprodução de hierarquias.

Por exemplo, nos primeiros mapas portugueses na época das grandes navegações do século XVI o mundo é representado invertido – forma de expressar que os navegadores não se dirigiam para baixo (o Inferno ou os abismos) mas para cima, em direção aos céus. Com institucionalização do império marítimo e as colônias, Portugal e Espanha são colocados na parte superior do mapa, expressando superioridade em relação às colônias, abaixo.


Modelo hierárquico mantido, primeiro com o império britânico nos séculos XIX-XX. E hoje com o modelo de globalização norte-americano.

Mapas são maneiras arbitrárias e convencionais de organizar o espaço. Não existe o “em cima” e o “em baixo”.

A representação cartográfica da ONU, por exemplo, procura a igualdade ao organizar o planeta posicionando o Polo Norte no centro e os continente espalhados em uma representação plana – o que só incendeia a imaginação conspiratória dos terraplanistas: a ONU estaria revelando a verdade, mas de forma cifrada...

Ou como Thomas Dolby falava na música Flat Earth: “A Terra pode ter a forma que você quiser”.

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