sexta-feira, 28 de abril de 2017

Greve de 1917 foi sangrenta e vitoriosa, por Joana Monteleone.


José Martinez deixou a Espanha e chegou a São Paulo com a família nos primeiros meses de 1917. Veio com o pai, que logo ficou seriamente doente, a mãe e um irmão menor. Por conta da situação, José, com apenas 21 anos, foi o único da família a conseguir um emprego – era sapateiro. Todos dependiam dele. No dia 9 de julho, irrompe uma greve, reprimida a tiros por soldados armados a mando do então governador do Estado, Washington Luís. Uma bala acerta José. Seu enterro torna-se um símbolo da violência contra os trabalhadores – e alimenta uma vitoriosa greve contra jornadas de trabalho de 12 horas por dia, sem direitos, sem proteção, com mulheres e crianças dentro das fábricas em condições precárias. Seu funeral atraiu uma multidão, que seguiu o caixão até o Cemitério do Araçá, onde foi enterrado sob uma forte comoção popular.


José, no entanto, não foi o único morto dessa greve vitoriosa. A repressão tombou dezenas, talvez centenas de trabalhadores. Essa informação, sobre os aspectos mais sangrentos da greve de 1917, que era corrente no movimento operário do início do século, foi apagada da memória do país. A redescoberta da informação e da vala no Cemitério do Araçá é resultado do trabalho do pesquisador e jornalista José Luís Del Roio, que lança em junho o livro Greve de 1917: os trabalhadores entram em cena, pela Alameda Editorial. Nele, Del Roio mostra que o jornal ítalo-paulista Fanfulla, ligado ao consulado italiano, contava-se em cerca de cem o número de operários mortos. Trata-se, portanto, de avaliação bastante cuidadosa em relação aos acontecimentos. Ainda segundo o jornal, havia notícias de que 212 covas teriam sido abertas no cemitério. Enquanto isso, os jornais mais ligado à elite paulistana, como O Estado de S. Paulo, falavam em 18 mortos apenas.
A maior manifestação operária do país até então paralisou 35 empresas e envolveu mais de 20 mil trabalhadores – logo seguidos pelos condutores de bondes da cidade, pelos padeiros, leiteiros, garçons, vendedores, trabalhadores da Cia. de Gás e da Light. Por alguns dias a cidade ficou às moscas. Nenhuma carruagem circulou. O país seguiu os operários paulistas. Pararam fábricas, lojas, bondes, comércios de rua em várias outras cidades importantes – incluindo a então Capital Federal, o Rio de Janeiro. O Brás era o centro nervoso da greve, onde se reuniam as lideranças operárias.
O governo logo começou uma brutal repressão, com o uso de violência extrema contra os manifestantes. O Delegado Geral transferiu suas atividades para o Brás, para coordenar melhor a repressão, que foi violenta. A repressão ficou conhecida como noite de São Bartolomeu paulista – os policiais matavam manifestantes, incluindo mulheres e crianças, com sabres e tiros, segundo relatos da época.
Sabe-se também que foram muitas as pessoas feridas nos conflitos – muitas mais do que o presidente da República Venceslau Brás gostaria de admitir. “São dezenas de mortos e às centenas os feridos que os copeiros do Estado serviram aos patrões, no grande banquete que lhes ofereceram”, escreveu um jornalista do Guerra Sociale no dia 11 de agosto de 1917.
Apesar da violência policial e dos desaparecimentos nunca explicados, a greve é considerada vitoriosa pelos trabalhadores. “A greve de 1917 representou o ápice do sindicalismo revolucionário”, escreve Del Roio. “A greve em São Paulo conseguiu vitórias. Houve aumentos salariais, redução de jornadas de trabalho e limitação à exploração da força de trabalho feminino e dos menores de idade. Conseguiram até que se emanasse uma lei no Estado de São Paulo, a nº 1.596 de 29 de novembro de 1919, que proibiu o trabalho noturno para mulheres e os menores de 15 anos, e estes só poderiam labutar 5 horas diurnas.”
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