quarta-feira, 5 de abril de 2017

O assédio sexual dos bastidores não passou na Rede Globo, por Carla jomenez.

José Mayer assédio
O ator José Mayer


O relato da figurinista que acusa o ator José Mayer de assediá-la fala com crueza sobre o que as mulheres ouvem todo dia de anônimos dentro de uma cultura covarde e desprezível

A esta altura, o Brasil inteiro já sabe que um galã da principal rede de televisão do país foi acusado publicamente por uma figurinista de tê-la assediado nos estúdios da TV Globo. Susllem Tonani, de 28 anos, relatou detalhes das insistentes investidas do ator José Mayer em um texto em primeira pessoa, publicado, em princípio, na madrugada do dia 31, no blog “Agoraéquesãoelas” do jornal Folha de São Paulo. Com o inequívoco título “José Mayer me assediou”, trouxe de volta a eterna temática do assédio sexual à pauta nacional. Desta vez, envolvendo um senhor que entrou na casa dos brasileiros reiteradamente nas últimas décadas, desde quando Mayer era apenas um jovem ator promissor.
A estampa do galã famoso e bem sucedido, no entanto, embaralha a mente de quem o imagina soltando um despretensioso (?) “fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho”, “você nunca vai dar para mim?”, como relatou Susllem, a jovem que viveu uma rotina contínua com ele durante o período que durou a novela “A Lei do Amor”. Segundo ela, foram oito meses de convívio profissional em que começou a ouvir elogios de Mayer, que passaram a cantadas e até chegar ao impulso macho de um homem das cavernas. “Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália.” Entende-se pelo texto de 879 palavras que depois disso ela parou de falar com ele. Contrariado, a chamou de “vaca” na frente de outras pessoas. Foi a gota d’água para que ela fosse ao RH da Rede Globo e à ouvidoria contar o que aconteceu.
O relato da figurinista foi polêmico desde o início, não só pela empresa e o personagem envolvidos, mas até pela forma como veio a público. O duro desabafo ficou no ar por algumas horas no blog, e depois retirado do ar. Diante de uma acusação tão forte, era preciso ouvir o outro lado, no caso a rede Globo e o próprio acusado. No final da tarde de sexta, o texto voltou a ser publicado, e a Folha deu a matéria completa. Ao jornal, ele disse, por meio de nota, que respeita as mulheres, “meus companheiros e o meu ambiente de trabalho e peço que não misturem ficção com realidade”. “As palavras e atitudes que me atribuíram são próprias do machismo e da misoginia do personagem Tião Bezerra, não são minhas!”, mencionando o vilão escroque que interpretou na novela que acaba de terminar.
Estaria ele insinuando que Sullem misturou ficção e realidade e que assédio é coisa de personagens malvados? Seria ela tão ‘suicida’ de inventar uma calúnia e se expor dessa maneira? E se é inocente, por que o ator não fala abertamente, em vez de escolher uma fria nota como meio de comunicação?
A TV Globo, por sua vez, disse à Folha que “o assunto foi apurado e as medidas necessárias estão sendo tomadas”, lembrando que repudia toda forma de desrespeito, violência ou preconceito. É uma saia justa e tanto para a emissora que exporta novelas para o mundo. Mas, tudo indica que não é o primeiro caso. Segundo a colunista de TV Keila Jimenez, do portal R7, “os casos de assédio são tantos que a emissora criou até um departamento para cuidar só disso.”
A empresa só não esperava que Sullen fosse tomada de uma coragem rara entre as mulheres. Não só por denunciar um homem muito mais poderoso que ela, protegido por um aparato midiático, mas pela crueza de suas palavras no texto. “Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo”, reitera ela em seu relato. Na terra em que se emprega a expressão “caralho” a três por quatro, a palavra “buceta” é algo quase chocante. Por que ela não optou por “vagina”? Bem, talvez porque a verdade precisa ser contada sem rodeios, na linguagem que ela se apresenta. “sua bundinha”, “seu peitinho”... que mulher não ouviu isso a vida inteira de estranhos na rua, no ônibus, ou até no confessionário de uma igreja... (sim, eu ouvi de um padre numa igreja do bairro Vila Mariana, quando tinha somente 12 anos).
A jovem figurinista tocou, ainda, em outra ferida cruel do machismo no Brasil, ao citar a presença de duas testemunhas femininas quando Mayer a tocou: a anuência de muitas mulheres que naturalizam esse comportamento masculino, diferenciando o papel dos gêneros. “Elas? Elas, que poderiam estar eu meu lugar, não ficaram constrangidas. Chegaram até a rir de sua “piada”. Eu? Eu me vi só, desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade.”

A continuação deste episódio, vale dizer, já tem um roteiro conhecido. O aparente assédio de Mayer, na cabeça de muitos, será taxado como coisa de feminista histérica. Ele é perfilado pela mídia que cobre televisão como um homem bem casado, filhos, que gosta de cuidar de plantas e curtir a família. Empatia total com o público da rede Globo. Contrasta com o imaginário sobre assédio e o machismo, que seria obra de homens maus, escondidos na virada da esquina de uma rua escura esperando uma mulher passar de minissaia ou decotes provocantes. Não, ele também pode vir de um ator em posição dominante, de um parente, de um chefe, de um funcionário que vai consertar a TV na sua casa, como contou Rita Lee em su biografia, lembrando o episódio que a marcou na infância.
O tal assédio nosso de cada dia é muito mais grave do que pode parecer, e precisa ser explicado inclusive às crianças. Faz bem a mãe e o pai que alertam filhas e filhos para o que sempre existiu e ninguém admite, ou custa a acreditar.
Felizmente, ao reconhecer essa doença social, muitas mulheres do Brasil também começam a fortalecer o caminho da cura. Não se pode naturalizar essas grosserias, não se pode deixar de denunciar, de falar, de contar, de dar nome aos bois, venha o assédio de onde vier, inclusive da rede Globo. A maior emissora do país podia aproveitar o ensejo e usar seu poder de comunicação para abraçar melhor a primavera feminista que varre o Brasil nos últimos tempos. Assédio não é normal, como lembra o blog AgoraéqueSãoElas. É covarde e desprezível.

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