sábado, 14 de maio de 2016

A Era Barbalho, por Fernando de Barros e Silva.


               

Vai ser difícil explicar às crianças como um movimento feito em nome da decência na vida pública conduziu Michel Temer à Presidência. As mobilizações populares contra a roubalheira na política – “as maiores já vistas na história do país”, como não se cansou de repetir – vieram a desembocar na ascensão ao topo da República de gente como Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima, Moreira Franco e Romero Jucá. Este último, antigo parceiro de viagem do novo chefe do Executivo, além de investigado pela Operação Lava Jato, ganha de presente o Ministério do Planejamento. Deve ter sido a forma que Temer encontrou para homenagear o princípio da presunção da inocência e o estado democrático de direito no país.
Os menos cínicos dirão que o xis da questão não é o Planejamento, mas a Fazenda: “Não é a decência, é a economia, estúpido.’’ De fato, no conjunto de fatores que pesaram para a destituição da presidente (as revelações da Lava Jato, a perda de controle sobre o Congresso, o isolamento político, a incapacidade de se comunicar), a debacle econômica foi o decisivo. Dilma deixa como legado uma terra arrasada. E é sobre os escombros de sua gestão ruinosa que Michel Temer fincará a bandeira da “salvação nacional” para anunciar seu governo de emergência. Apresenta como cartão de visitas ao país a sua turma de notórios e oferece como garantia ao mercado a figura supostamente notável de Henrique Meirelles – um dublê de banqueiro cosmopolita e político goiano filiado ao partido de Gilberto Kassab. Se o PSD é o genérico do PMDB, Meirelles se tornou o faz-tudo do liberalismo à moda brasileira. Como disse Fernando Henrique Cardoso sobre Temer, em entrevista recente à Folha: ele “é o que tem”. Gente mais séria e bem-intencionada, como Armínio Fraga, percebeu o cheiro da coisa e pulou fora. Notórios e notáveis se confundem no lusco-fusco do país sob nova direção.
Não há, de boa-fé, como contornar a chicana que está na origem de um processo de impeachment cujo artífice foi Eduardo Cunha, pelas razões que se conhece. E, no entanto, todos o aceitaram, com entusiasmo ou por omissão, fazendo cara de paisagem – do Supremo Tribunal Federal aos meios de comunicação, do empresariado a setores expressivos da sociedade civil, passando pela ampla maioria do Congresso. Feito o serviço, tratou-se de providenciar a faxina para apagar os vestígios da cena do crime – com o auxílio da Rede Globo, da revista Veja e companhia, o Supremo agiu mais ou menos como The Cleaner, o personagem vivido por Harvey Keitel em Pulp Fiction. Eduardo Cunha está morto e o impeachment está lavado. Inaugura-se entre nós, assim, algo como a era do “golpe a seco”. O retrocesso institucional em curso está sendo vendido como vitória da democracia. Para quem vê de fora, o país hoje se parece um pouco mais do que parecia ontem com alguma republiqueta da América Central.

 “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha.” Há cerca de cinquenta dias, inspirado àquela altura pela nomeação de Lula para a Casa Civil, recorri em outro artigo à frase-síntese do Bandido da Luz Vermelha. Na antevéspera da votação do impeachment pelo Senado, quando Waldir Maranhão entrou em cena, a máxima do anti-herói de Rogério Sganzerla voltou imediatamente à minha cabeça. O parafuso da avacalhação dava mais uma volta.
Maranhão é um personagem de chanchada. Podemos imaginá-lo – ele e seu bigode – no Canal Brasil, no papel de um dentista libidinoso numa daquelas produções nacionais dos anos 70. É patético que o governo deposto tenha por um instante depositado nele a esperança de reverter o destino de Dilma. Depois de tantos vexames, o PT poderia ter ficado sem mais esse.
A deterioração em marcha, no entanto, não se resume à figura folclórica de mais um presidente acidental da Câmara, tampouco às ações desesperadas do grupo político que acaba de ser apeado do poder. “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha” é uma frase que também serve perfeitamente aos vitoriosos do momento. Sua tradução, nesse caso, seria a seguinte: “Quem não tem voto, chega ao poder por um atalho.” Ou, se quiserem: o Bandido da Luz Vermelha cedeu lugar ao Bandido do Pato Verde-Amarelo.
Ao contrário das razões mobilizadas como pretexto legal ao impeachment, que soam bizantinas e configuram um óbvio casuísmo político (aqui também a avacalhação dá o ar da graça), as razões para a impugnação da chapa Dilma-Temer parecem muito mais substantivas. Multiplicaram-se ao longo dos últimos meses as evidências de que a pilhagem da Petrobras durante os governos de Lula e Dilma foi uma das fontes de recursos ilícitos da campanha presidencial de 2014. Este, como se sabe, é um assunto para o Tribunal Superior Eleitoral, e seu andamento independe do resultado do impeachment. Na prática, porém, a convocação de novas eleições é carta fora do baralho (ou, na melhor das hipóteses, um coringa que só reaparecerá no jogo na eventualidade, hoje pouco provável, de um fracasso precoce e retumbante de Michel Temer).
O novo bloco de centro-direita que assume o comando do país contará com ampla base parlamentar, além de ter a bênção do Judiciário, a torcida da mídia e o entusiasmo do empresariado. A figura vazia de Temer será de certa forma refém deste amálgama conservador que o pariu em laboratório. Para que seu governo dê certo, falta apenas combinar com o povo – sim, porque nem ele nem seus amigos da pesada representam o sentimento das classes médias que foram às ruas contra o PT nem, muito menos, a massa pobre que se decepcionou com o governo petista por outras razões, mas não se confunde com o movimento verde-amarelo.

Em momentos de sinceridade, quando está entre amigos, Fernando Henrique Cardoso chama Michel Temer de “Jader Barbalho paulista”. Uma rápida consulta à Wikipédia basta para esclarecer de onde surgiu a comparação que o ex-presidente inventou para consumo privado. E, no entanto, eis o que faz o PSDB: depois de ter sido decisivo para a aprovação do impeachment, resolve aceitar a parte que lhe cabe na Esplanada na gestão do Jader paulista.
O partido que nasceu em 1988 de uma dissidência do PMDB – troque o M da mentira pelo S da sinceridade, dizia a campanha dos tucaninhos ainda no berçário – volta agora ao poder a reboque do mesmo PMDB, sem o respaldo do voto popular e na condição de coadjuvante, depois de ter chegado à Presidência pela via das urnas por duas vezes e sofrido quatro derrotas sucessivas para o PT de Lula.
Em 1991, contrariando FHC e Tasso Jereissati, Mário Covas impediu que os tucanos embarcassem na canoa furada do governo Collor. Hoje, o afilhado de Covas, Geraldo Alckmin, menos por princípio do que por cálculo eleitoral, tentou em vão evitar que o partido pulasse na canoa de Temer. A fome de Serra era tanta que seria capaz de aceitar até o Ministério da Pesca. Para Aécio, engolfado pela Lava Jato, não parece restar muita opção depois de ter atuado pessoalmente como linha auxiliar de Eduardo Cunha e conduzido a legenda que preside para o trilho da delinquência legislativa.
Que os tucanos nunca foram propriamente um partido não é novidade, mas agora, no mundo pós-petista, podem perder inclusive o status de clube eleitoral preferido da elite, título que ostentam desde a criação do Real. Diante do caldo de cultura que fermenta nas ruas e da demanda cada vez mais nítida por uma representação de direita puro-sangue, o PSDB parece um pouco deslocado no meio do caminho, e corre o risco de ficar estigmatizado como um agrupamento de frouxos: teria veleidades sociais demais para ser de direita e compromissos históricos de menos com a desigualdade para cavar um espaço no campo progressista. A disputa pela hegemonia desse campo com vistas à sucessão de 2018 se dará entre Marina Silva, Ciro Gomes e o próprio PT, cuja capacidade de liderar um novo projeto de esquerda para o país está mais do que nunca ameaçada depois do revés histórico.
Nesse quadro, não é casual que a ladainha da opção parlamentarista tenha voltado a circular  com força nas trombetas do colunismo político ligado ao tucanato. O próprio Michel Temer, em entrevista recente a Gerson Camarotti, da GloboNews, admitiu que não teria objeção à “tese do parlamentarismo a partir de 2018”, endossando um dos pontos programáticos do PSDB e, em particular, uma das obsessões de Serra, por razões óbvias. Na madrugada de hoje, quando foi à tribuna para defender o impeachment de Dilma, o senador tucano não perdeu a oportunidade de responsabilizar o presidencialismo como parte importante da crise brasileira.
Sob a discurseira em torno das vantagens do sistema parlamentarista – o mesmo que foi rejeitado pela população em referendo em 1993 –, existe o fato fundamental de que esta seria a maneira mais segura de conduzir alguém como Serra ao poder sem passar pelo crivo popular. Num país tão desigual, com graus ainda exasperantes de exclusão econômica e social, pouca cultura democrática e escassa participação dos pobres nos processos decisórios, o parlamentarismo é um atalho para a elitização institucional da política. Nas atuais circunstâncias, seria uma espécie de golpe dentro do golpe. Já começou a ser gestado.
          

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