sexta-feira, 20 de maio de 2016

Impeachment ou canibalismo? Um viés psicanalítico, por Cassio Vilela Prado.

Seria o impeachment da Presidente Dilma uma forma de parricídio (matricídio como sinônimo – assassinato do pai)? Se trata da violação exequível de uma Lei originária tal como a proibição do incesto, postas como condições mínimas para a existência da Civilização, segundo Freud (1856-1939), eminentemente em seu texto conceitual operatório: "Totem e Tabu"?
É importante frisar que não importa qual o gênero sexual do ocupante do cargo representativo máximo do Executivo Federal haja vista o que está em causa é uma função simbólica investida pelos atributos de uma Lei primeva estrutural e determinante do ordenamento civilizacional, bem anterior às normas jurídicas, inclusive a causa delas.
Portanto, talvez seja uma forma bastante reducionista tentar compreender o processo do impeachment em curso no Brasil somente no campo do Direito, como querem os juristas, sendo que a sua causalidade e as suas determinações se encontram, a priori, em uma outra cena, imperceptível e incompreensível para a maioria da população, totalmente inapreensível pelas teorias da consciência como o modismo cognitivista tergiversante, apoiado apenas nas crenças culturais de superfície, na fisiologia cerebral da dita neurociências assim como a Teoria Geral do Direito (Positivo).
Vê-se um embate jurídico permanente sobre a constitucionalidade de alguns atos praticados pela Presidente Dilma construídos a partir de uma suposta comoção popular histérica induzida e patrocinada por setores eminentemente corruptos e perversos [perverso no sentido de ter o pleno conhecimento da Lei e do Estado Democrático de Direito para desmenti-lo de forma correlata e simultânea. Internaliza-se a 'Lei violada', inaugurando uma clivagem e o modo de gozar perverso. – "A denegação, Verneignung, tem um efeito de retificação de uma afirmação, que é descartada. Guy Clastres a define assim: É um mecanismo pelo qual um sujeito designa o que ele nega. De uma certa forma, uma negação que repousa sobre uma afirmação'. (Matéria: O viés perverso da sexualidade, de Cibele Prado Barbieri: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script)].".
Se no primeiro momento das manifestações populares a pauta ofensiva se restringia prioritariamente à corrupção da Presidente e dos seus correligionários partidários, viu-se em seguida a pauta engrossar com pedidos diversos, às vezes surrealistas e cômicos. Já havia no país uma tentativa de colagem de determinados adjetivos depreciativos apenas nas figuras do Ex-Presidente Lula, da Presidente Dilma e a todos do PT.

Neste sentido, sem dúvida nenhuma, uma colagem seletiva de acordo com os interesses dos setores oposicionistas.
Entretanto, como já é do conhecimento de toda a população, a corrupção é um fato generalizado, não poupando siglas partidárias tampouco a maioria dos oposicionistas ao governo da Presidente eleita conforme o voto popular e, diga-se de passagem, talvez a única dita honesta de fato em todo esse processo de caça à bruxa.
Não seria mais compreensível continuar negando que a corrupção é um fenômeno generalizado, a não ser chamando aquela "outra cena" "pulsando", mencionada mais acima e de difícil visualização para os "denegadores" generalizados.
O que se tem, na via psicanalítica trazida, é um desejo voraz investido na figura da Presidente Dilma. São pulsões canibais orais infantis inconscientes de destruição do objeto eleito, imaginando assim saciar a sua sede, fome e tudo adstrito ao campo do desejo, embora este só se realize parcialmente, pois a sede, a fome e tudo mais nunca acabam. Tudo mais sempre se repete assim como a sua forma para buscar a sua realização.
Se se pensa de forma simplista na psicanalista austríaca, Melaine Klein (1882-1960), conterrânea de Freud, a criança em sua primeira infância subjetiva em seu psiquismo, durante a sua tenra oralidade, o 'seio bom' e o 'seio mau'. O primeiro seria aquele que está sempre de prontidão para realizar as suas necessidades fisiológicas nutricionais e que se faz presente também para apaziguar o seu desejo de proteção e carinho. O segundo, o 'seio mau', seria aquele que está sempre ausente, portanto que não cumpre as expectativas do pequeno infans nem no campo das necessidades nem no campo do desejo. Essa construção mental da pequenina criança se dá através do mecanismo de 'clivagem', ou seja, na verdade se trata de um mesmo 'seio' divido em 'mau' e 'bom'. Na verdade, o grande 'seio' é a mãe, ora 'boa', ora 'má'. A criança 'aplaude' o 'seio bom' que a sacia e 'vaia' o seio que não a sacia. Inclusive emergem nesse momento vivido as fantasias de destruição através da mastigação e do aniquilamento daquele 'seio maldito' ("traidor e corrupto") pois ele não cumpre as fantasias nele depositadas pela criança. Ele se torna objeto de ódio e passa a justificar o sentimento negativo e aversivo da criança, sendo portanto perseguido pela criança 'paranoica' em sua posição subjetiva advinda e que estrutura toda a sua subjetividade.

Daí, é permitido e justificável assassinar o inimigo eleito. Melhor ainda, para não ficar nenhuma sombra do inimigo eleito é necessário ainda devorá-lo, conforme diz Freud no texto citado mais acima.
Fantasias inconscientes escabrosas, embora latentes e muitas vezes manifestas e realizadas nas relações humanas, intersubjetivas.
Por isso foi dito que ficar apenas solo da consciência moral, social e jurídica torna o cenário bastante nublado, para não dizer incompreensível.
O que está em jogo não é legalidade da cena do impeachment da Presidente Dilma conduzido de forma estereotipada e perversa, mas o seu assassinato público pelo canibalismo fantástico operante despertado.
Entretanto, o 'sentimento de culpa' decorrente dessa ação criminosa e canibal é indelével.
A identificação com o objeto devorado é o destino.
Ou seja, o que você devora constitui-se em si mesmo.

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