terça-feira, 3 de maio de 2016

Câmara mortuária, por Luiz Antonio Simas.


Por Luiz Antônio Simas

Parido pelo ventre do navio que cruzou a calunga gritando o triunfo da morte, alguém sobreviveu e bateu um tambor

    
Rio -O Brasil representado pelos deputados que manifestaram suas posições sobre o impeachment da presidente da República é um dos países mais medonhos do mundo. O país que se viu no espelho é aquele formado por capitães do mato, capatazes, senhores de engenho, feitores, bandeirantes apresadores de índios e destruidores de quilombos, etnocidas, torturadores, coronéis, pistoleiros, membros do esquadrão da morte, misóginos, homofóbicos, ágrafos, parasitas sociais, fanáticos religiosos e arrivistas inescrupulosos.
Não discuto aqui a provável queda de um governo cheio de defeitos que, durante a maior parte do tempo, pactuou com este Brasil terrível, foi ungido e agora se vê engolido por ele. Um governo que saiu negociando e distribuindo cargos para os mesmos pastores fundamentalistas e vampiros do agronegócio que, babando e balançando grotescas cabeleiras pintadas, fizeram exortações e dedicaram a Deus e aos familiares o rolo compressor contra o mandato legitimo da presidente.
A despeito da questão política imediata, debaixo do angu tem mais caroço. O que parece perdida – e se manifesta sinistramente no campo do simbólico – é a possibilidade de qualquer projeto nacional menos bizarro. Os sonhos de uma esquerda que romantiza o precário e de outra que pragmaticamente acha que os fins justificam os meios foram esparramados no português canhestro dos parlamentares e na traição dos parceiros. As ilusões iluminadas dos liberais decentes foram atropeladas pela saudação ao assassino Brilhante Ustra, o capataz mais grotesco do regime de exceção de 1964. A ideia de um Brasil como cadáver, que o assassinato da Volta Grande do Xingu gritou, desfilou no domingo em um salão do congresso que se consagra como câmara mortuária.
Há quem diga que o Brasil deu errado. Não creio. O Brasil foi projetado pelos homens do poder para ser excludente, racista, machista, homofóbico, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua gente, intolerante, boçal, misógino, castrador, famélico e grosseiro. Somos isso tudo. Neste sentido, desconfio que nosso problema não é ter dado errado. O Brasil como projeto, até agora, deu certo.
Não me julguem pessimista. Reconhecer francamente o horror é um caminho para combatê-lo. A minha esperança se afirma no exemplo de que, na beira do abismo, parido pelo ventre do navio que atravessou a calunga gritando o triunfo da morte, alguém sobreviveu e bateu um tambor; o mesmo que reverberou um dia, afirmando a vida e cuspindo na cara do capitão do mato, numa esquina do Estácio. O Brasil saudado pelos deputados que manifestaram suas posições sobre o impeachment da presidente da República é um dos países mais medonhos do mundo. O país que se viu no espelho é aquele formado por capitães do mato, capatazes, senhores de engenho, feitores, bandeirantes apresadores de índios e destruidores de quilombos, etnocidas, torturadores, coronéis, pistoleiros, membros do esquadrão da morte, misóginos, homofóbicos, ágrafos, parasitas sociais, fanáticos religiosos e arrivistas inescrupulosos.
Não discuto aqui a provável queda de um governo cheio de defeitos que, durante a maior parte do tempo, pactuou com este Brasil terrível, foi ungido e agora se vê engolido por ele. Um governo que saiu negociando e distribuindo cargos para os mesmos pastores fundamentalistas e vampiros do agronegócio que, babando e balançando grotescas cabeleiras pintadas, fizeram exortações e dedicaram a Deus e aos familiares o rolo compressor contra o mandato legitimo da presidente.
A despeito da questão política imediata, debaixo do angu tem mais caroço. O que parece perdida – e se manifesta sinistramente no campo do simbólico – é a possibilidade de qualquer projeto nacional menos bizarro. Os sonhos de uma esquerda que romantiza o precário e de outra que pragmaticamente acha que os fins justificam os meios foram esparramados no português canhestro dos parlamentares e na traição dos parceiros. As ilusões iluminadas dos liberais decentes foram atropeladas pela saudação ao assassino Brilhante Ustra, o capataz mais grotesco do regime de exceção de 1964. A ideia de um Brasil como cadáver, que o assassinato da Volta Grande do Xingu gritou, desfilou no domingo em um salão do congresso que se consagra como câmara mortuária.
Há quem diga que o Brasil deu errado. Não creio. O Brasil foi projetado pelos homens do poder para ser excludente, racista, machista, homofóbico, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua gente, intolerante, boçal, misógino, castrador, famélico e grosseiro. Somos isso tudo. Neste sentido, desconfio que nosso problema não é ter dado errado. O Brasil como projeto, até agora, deu certo.
Não me julguem pessimista. Reconhecer francamente o horror é um caminho para combatê-lo. A minha esperança se afirma no exemplo de que, na beira do abismo, parido pelo ventre do navio que atravessou a calunga gritando o triunfo da morte, alguém sobreviveu e bateu um tambor; o mesmo que reverberou um dia, afirmando a vida e cuspindo na cara do capitão do mato, numa esquina do Estácio.

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