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quarta-feira, 17 de abril de 2019

CHINESES, ROBÔS E A ‘UBERIZAÇÃO’ DAS RELAÇÕES DE TRABALHO: DIGA ADEUS ÀS FÉRIAS E AO 13°, por Alexandre Andrada

Motoboys e motoristas da Uber fazem protesto em frente à distribuidora de combustíveis no SIA (setor de indústria e abastecimento), em Brasília, DF.
Alexandre Andrada
9 de Abril de 2019,
UMA DAS GRANDES maravilhas do capitalismo é a inovação. Inovar significa, de maneira simples, criar algo novo ou fazer algo velho de uma nova maneira. E nisso o capitalismo é craque.

Talvez dois mais importantes economistas políticos que analisaram o fenômeno da inovação foram o alemão Karl Marx (escudado por vezes por seu amigo Friedrich Engels) e o austríaco Joseph Schumpeter.
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No Manifesto de 1848, numa das passagens mais famosas do texto, Marx e Engels afirmam:

“A burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção, portanto as relações sociais todas”.

Enquanto as sociedades baseadas em outros modos de produção se caracterizavam pela estabilidade das relações econômicas e sociais, o capitalismo é marcado pela revolução permanente. E é essa instabilidade que permitiu que a burguesia realizasse em poucos séculos de domínio maravilhas maiores que “as pirâmides egípcias, dos aquedutos romanos e das catedrais góticas”.

N’O Capital de 1867, Marx volta a mostrar seu alumbramento com as inovações, no capítulo 13, intitulado “Maquinaria e Grande Indústria”. Mas o tema perpassa todo seu sistema. No modelo de Marx, o capitalista busca aumentar a massa de mais-valor que extrai de seus trabalhadores. Se estamos em um mundo de produtos idênticos – camisas brancas, por exemplo –, o capitalista pode aumentar seus lucros fazendo seus operários trabalharem por mais horas que a concorrência (mais-valor absoluto), ou fazer com que seus trabalhadores produzam mais mercadorias em menos tempo (mais-valor relativo).

Para Marx, a dificuldade estava no mais-valor relativo. Para produzir mais em menos tempo, são necessárias novas máquinas e equipamentos, novas formas de comunicação, de transporte, de organização da produção, novos sistemas de logística etc. O capitalista que conseguir criar ou fazer uso dessas inovações terá uma maior taxa e uma maior massa de lucro, conquistando cada vez mais participação no mercado. Caminhará para se tornar um dos gigantes do setor.

Quem não for capaz – ou não tiver recursos para inovar – será engolido. Aliás, mesmo a empresa líder do mercado – como contam as histórias da Kodak e da Nokia – mostra que a bancarrota está sempre na esquina.

Em 1911, na sua obra Teoria do Desenvolvimento Econômico, Schumpeter fez bom uso das teorias de Marx, a partir de uma ótica liberal. Para Schumpeter, a mudança não nasce a partir de modificações nos gostos dos consumidores. Na verdade, são os empresários inovadores que criam novos produtos e “educam” (esse é o termo usado pelo autor) os consumidores sobre sua necessidade.

Toda criação está carregada de destruição.
Um exemplo pessoal. Nos meus tempos de faculdade, a viagem de ônibus era embalada por música ouvida através de um CD player e, principalmente, um walkman. Eu andava com três ou quatro fitas na mochila, e o mundo parecia bom.

Jamais imaginei que um dia, poucos anos mais tarde, haveria uma coisa chamada Ipod – ou o MP3 da feira, seu primo pobre ao qual tive acesso –, no qual cabiam as músicas de todos os CD’s que eu tinha na minha casa (sobrando espaço, aliás). Nós jamais demandamos um telefone celular que fosse também um computador, uma televisão e um Ipod (aliás, o smartphone matou o Ipod de modo lento e cruel).

Mas como fica evidente nesses dois exemplos, toda criação está carregada de destruição. O Ipod destruiu o discman, o smartphone destruiu o Ipod. Isso é parte do fenômeno que Schumpeter chamou de “destruição criativa”. O novo produto ou o novo processo destrói o que era velho.

Mês passado foi divulgado que, com o fechamento de uma loja na Austrália, há hoje apenas uma única Blockbuster no mundo. Há uma década, eram 9 mil lojas, com pés nos quatro cantos do mundo, no Brasil inclusive. Uma rede literalmente global foi morta por uma inovação: Netflix.

Outro exemplo: há poucos anos atrás ter frota de táxis era um ótimo investimento. Para obter uma licença de taxista, o sujeito precisava desembolsar uma pequena fortuna. Hoje qualquer um pode se cadastrar no Uber e operar como táxi.

Mas nem tudo são rosas. Muitos são os trabalhadores ao longo da história que sofreram (e sofrerão) com o desemprego derivado de alguma inovação poupadora de mão de obra. No início do século 19, os chamados ludistas destruíram as máquinas que lhes roubavam os empregos. O drama dos trabalhadores instigou os economistas: seria a inovação boa também para os trabalhadores?

As condições médias de trabalho no mundo todo têm piorado.
Para os marxistas, a resposta seria negativa. Essas inovações, num sistema capitalista, forçariam os salários para baixo, reduzindo o poder de barganha dos trabalhadores, jogando alguns na miséria, outros no subemprego e muitos em empregos precários.

Os liberais, via de regra, respondem essa pergunta afirmativamente. Ainda que a inovação destrua alguns empregos, ela cria fundos que permitem investimentos e aumento da produção que farão com que a região inovadora seja capaz de criar mais vagas de trabalho, que pagam salários maiores.

Depois de um começo vacilante, as evidências pareciam corroborar a visão liberal. Os países mais inovadores são os que oferecem mais e melhores empregos. Enquanto países atrasados tecnologicamente têm menos vagas e piores salários.

Mas há algumas décadas, desde o início da hiperglobalização após o fim da Guerra Fria, um movimento contraditório vem acontecendo. Com a entrada de mais de 1 bilhão de chineses no mercado de trabalho capitalista – sem contar os de outros lugares –, multidões de trabalhadores de países subdesenvolvidos têm escapado da miséria. Porém, as condições médias de trabalho no mundo todo têm piorado. Nos países centrais, por exemplo, os ganhos de produtividade não parecem se materializar em aumentos de salários (ainda que esse dado seja controverso).

Além disso, tem crescido, desde os anos 1970, o número de horas trabalhadas pelos americanos, bem como a proporção daqueles que trabalham mais de 40 horas semanais. Quarenta horas semanais foram uma conquista de trabalhadores ingleses (uma pequena porção, é verdade) ainda em 1889.

Um cenário melancólico, se pensarmos no otimismo de um J. M. Keynes que, em 1930, acreditava que os netos de seus contemporâneos poderiam viver em abundância trabalhando três horas por dia. Hoje o fantasma dos robôs e da chamada “uberização” das relações trabalhistas é um espectro que ronda todo o mundo.

Um número crescente de profissões pode facilmente ser substituída por algoritmos, robôs e outras tecnologias digitais (como a minha, de professor universitário). O Uber, que tem sido a tábua de salvação de milhões de pessoas em países como o Brasil, tem um modelo de negócio em que seu funcionário sequer é seu funcionário. Há a liberdade aparente de trabalhar quando e quanto quiser, que se materializa em jornadas intermináveis – há casos de motoristas que vivem literalmente em seus carros nos EUA – e em uma virtual ausência absoluta de direitos trabalhistas em caso de acidentes, doenças, incapacidades etc.

Estamos caminhando para o mundo do “freela”, das relações pautadas pela uberização. A reforma trabalhista de Temer e a carteira de trabalho verde-amarela de Bolsonaro são passos nessa direção.

Enquanto gerações passadas podiam sonhar em construir uma carreira de 30 anos numa mesma empresa, é provável que as novas tenham que se acostumar com a instabilidade do desenho “uber” de trabalho.

Como já se disse uma vez: tudo o que era sólido se desmancha no ar.

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segunda-feira, 18 de março de 2019

Paulo Guedes ignora o bê-á-bá da administração pública, por Alexandre Andrada

Paulo Guedes, ministro da Economia no Fórum de governadores realizado no CICB (Centro Internacional de Convenções do Brasil ), em Brasília.


Paulo Guedes é um homem inteligente. É dono de um PhD em Economia pela Universidade de Chicago, uma das mais renomadas do mundo, e ex-professor da PUC do Rio e FGV, duas das mais prestigiosas escolas de economia do Brasil, e pode se gabar de seus dotes acadêmicos.
Sendo um dos fundadores do banco Pactual e com atuação destacada no mercado financeiro – ainda que envolta em alguns episódios nebulosos –, Guedes pode se gabar de ser um homem rico.
Pode se gabar de ter tido faro de apoiar e dar credibilidade junto ao baronato a um deputado extremista, representante do que havia de mais abjeto no baixo clero da Câmara. Paulo Guedes como ministro da economia do Brasil, porém, encena um embaraçoso espetáculo de uma comédia de devaneios. Comédia que vem desde os tempos de campanha.
Até hoje, só Deus sabe de onde surgiu esse mítico valor de 2 trilhões.
O plano econômico apresentado pela equipe de Bolsonaro tinha a profundidade de um pires. Platitudes e frases de efeito que fariam o mensageiro passar vergonha até mesmo em grupos de WhatsApp.
Um colega, com trânsito entre os economistas do grupo de Bolsonaro, me confidenciou que o baixo nível intelectual e a ausência de propostas concretas no documento não eram acidente, mas estratégia. Desde que Marina Silva foi massacrada pelos marqueteiros de Dilma em 2014 por colocar no plano de governo que pretendia dar independência ao Banco Central, os candidatos optaram por apresentar planos generalistas. Assim, escondiam do “povão” seus reais planos e não dariam munição fácil para seus adversários. Parece haver verdade nesse diagnóstico, mas parece haver algo mais.
Parece haver ignorância pura e simples.
Ao longo da campanha, Guedes insistiu que, com a venda de estatais e de imóveis da União, iria arrecadar R$ 2 trilhões, valor equivalente a 60% do orçamento total do governo federal para 2019, estimado em R$ 3,3 trilhões. Até hoje, só Deus sabe de onde surgiu esse mítico valor de 2 trilhões, que se tornou motivo de chacota inclusive por parte de economistas liberais e ex-alunos. Nesse valor, previa-se a venda da Petrobras, dos Correios, do BNDES, das cadeiras do Palácio do Planalto…
Ainda que esse valor fosse real, qualquer pessoa que conhece o processo de privatização ou a história das privatizações no Brasil sabe que em quatro anos é simplesmente impossível vender essa soma de ativos. Isso porque vivemos em uma sociedade democrática, na qual não impera a vontade soberana do chefe do Executivo. Há leis, há regras, há procedimentos.
Ainda em novembro, já na condição de futuro ministro, Guedes teve um encontro com Eunício de Oliveira, então presidente do Senado. O ex-senador teria afirmado que seus colegas ficaram “horrorizados” com a ignorância do futuro ministro com relação ao processo orçamentário. Eunício relatou o seguinte ao site BuzzFeed:
“Ele me disse: ‘vocês não aprovam orçamento, orçamento eu não quero que aprove não’. Mas não é o senhor querer, a Constituição diz que só podemos sair em recesso após a aprovação.”
Eunício vaticinara: “Esse povo que vem aí não é da política; é da rede social”. Guedes parecia acreditar que o orçamento de 2019 seria resolvido só em 2019, por ele e Jair, aparentemente. Um erro juvenil de desconhecimento das engrenagens da burocracia federal. Já estamos no terceiro mês de governo, mas Paulo Guedes continua a mostrar total despreparo para o cargo que ocupa. Em entrevista ao Estado de S. Paulo, afirmou:
O senhor quer acabar com todas as despesas obrigatórias?
Claro. A desvinculação eu quero total. Aí vamos ver quanto dá, mas vou tentar. Os políticos têm de assumir as suas responsabilidades, as suas atribuições e os seus recursos. Eles são gestores públicos e sabem o desafio que têm. Hoje o cara está sentado lá numa prefeitura, no governo do Estado, vendo subir isso, subir aquilo, sendo obrigado a fazer isso, fazer aquilo, e percebendo que ele não manda nada. Eles têm de mudar isso, assumir o protagonismo.
A partir da Constituição de 1988 os governantes foram perdendo graus de liberdade no que diz respeito à alocação dos recursos orçamentários. Em vez de escolherem ao seu bel prazer, a lei passou a determinar a porcentagem que deve ir para a saúde, para a educação, para a segurança etc.
Imagine, ano a ano, os parlamentares brasileiros decidirem linha por linha o destino de mais de R$ 3,3 trilhões?
Isso tem um lado ruim, claro, porque tira a liberdade do governante em decidir prioridades. Mas tem um lado positivo: a sociedade limita a liberdade dos governantes. Mudam os chefes do executivo, mudam os partidos, mudam as coligações, mas o percentual dos recursos que precisam ir para tal setor, não.
Há muitos economistas e políticos do Brasil que reclamam do excesso de rigidez do orçamento público. Em 2018, o montante de gastos obrigatórios da União chegou a 93% de sua arrecadação. Reduzir essa rigidez é uma discussão válida. Faz parte do jogo.
Mas ter a audácia (ou o delírio) de imaginar um mundo em que 100% dos gastos do governo são discricionários, isto é, são livres, decididos ano a ano pelo Congresso, beira, ou melhor, ultrapassa a insanidade. Imagine, ano a ano, os parlamentares brasileiros decidirem linha por linha o destino de mais de R$ 3,3 trilhões?
Imagine quanto tempo demoraria a análise e a aprovação do orçamento?
Afirmar que vai fazer um ajuste fiscal de R$ 120 bilhões não é wishful thinking, é sandice mesmo.
Imagine que o governante pode não gastar nenhum real em saúde ou educação ou aposentadoria ou salário de servidores? Afinal, se nenhum gasto é obrigatório, o governo poderia decidir por não pagar aposentadorias, não é mesmo?
Imagine que o presidente decida eliminar todos os recursos destinados para investigar as milícias do Rio de Janeiro ou as movimentações financeiras atípicas de assessores de políticos? Imagine que essa total liberdade seja dada a todos os prefeitos e todas as Câmaras de vereadores do país?
Em outra passagem, Paulo Guedes insiste na meta de zerar o déficit primário em 2019. No ano passado, esse déficit foi da ordem de RS$ 120 bilhões. Afirmar que vai fazer um ajuste fiscal de R$ 120 bilhões não é wishful thinking, é sandice mesmo. Mas Guedes afirma que é preciso mirar nas estrelas.
Porém, quando o assunto é crescimento econômico, o ministro lava as suas mãos.
Onde entra o crescimento econômico? O PIB fechou 2018 com crescimento de apenas 1,1%. O que o governo está fazendo para alavancar o crescimento?
O modelo acabou. Não existe alavanca. Você tem de fazer as reformas. Quer fazer o que a Dilma fez? Não tem mágica.
Em português direto: o governo não está fazendo e não fará nada para retomar o crescimento econômico. O governo tem vendido a ilusão de que após a reforma da previdência, os investimentos privados voltarão, haverá emprego, consumo, gastos do governo. Isso porque a reforma traria de volta a “confiança dos empresários”. A reforma da previdência virou o emplastro Brás Cubas da nova era.
Triste será quando percebemos que, independentemente dos méritos e deméritos da reforma a ser aprovada, ela em nada (ou quase nada) afeta o nível de investimentos dos empresários privados ou do orçamento corrente da União. Triste é viver com um ministro da Economia que não entende nada da burocracia federal.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

As ideias do bolsonarismo já foram testadas e só trouxeram desigualdade ao Brasil, por Alexandre Andrada.

Ato a favor da candidatura de Jair Bolsonaro para a Presidência da República, em outubro de 2018, na avenida Paulista, em São Paulo.
Jair Bolsonaro toma posse nesta terça-feira amparado por um movimento que, apesar de recente no país, é constituído de elementos muito conhecidos de nossa história republicana. O bolsonarismo, o fenômeno que transformou um congressista radical do mais baixo clero em presidente, está assentado sobre três pilares: o autoritarismo militar positivista, o cristianismo conservador e o liberalismo autoritário.
O mais óbvio desses elementos é o autoritarismo militar positivista. Apesar de estar afastado do Exército há quase 30 anos, Bolsonaro ainda cultiva a imagem de soldado. É um patriota, um homem simples, incorruptível e disciplinado. Apartado da classe política tradicional e corrupta, ele é o único que pode resolver os problemas do país, reeditando o velho mito do Dom Sebastião de coturno.
Nossa república nasceu de um golpe militar contra a monarquia, liderado por republicanos civis (com predominância do Partido Republicano Paulista) e por militares entusiastas do positivismo. O próprio lema de nossa bandeira, em substituição ao brasão imperial, foi retirado das escrituras de Augusto Comte: “Ordem e Progresso”.
O historiador e filósofo uruguaio Arturo Ardao (1963) afirma que “no Brasil, o positivismo de Comte, como filosofia política, derivou-se da Sociedade Positivista do Rio, fundada em 1876 por Benjamin Constant”. Constant foi um dos mais importantes e influentes militares do Brasil daquele período. Ardao argumenta ainda que “apesar de ser Republicano”, Comte “era contrário ao liberalismo democrático”. Preferia o filósofo francês uma terceira via entre a aristocracia e a democracia, “baseada no que ele chamava de ‘ditadura republicana’”. Na visão positivista, para controlar e fazer avançar uma sociedade, é preciso um governo forte, apartado dos baixos interesses da política tradicional, capaz de modernizar a sociedade de cima para baixo.
Os governos de Deodoro (1889-1891) e Floriano Peixoto (1891-1894) encarnavam essa visão militar. Porém, os republicanos civis conseguiram tomar as rédeas do governo a partir de 1894, com Prudente de Morais.
Apesar do insucesso relativo no campo nacional, o positivismo sentou raízes profundas no Rio Grande do Sul, possivelmente por conta da histórica concentração de tropas naquela região de fronteiras secas do país. A constituição daquele estado, “escrita” por Júlio de Castilhos, refletia essa visão mais positivista da política. Borges de Medeiros, por exemplo, governou o estado quase que ininterruptamente entre 1898 e 1928. Um verdadeiro caudilho.
Talvez não seja por acaso que Vargas, Costa e Silva, Médici e Geisel – quatro de nossos seis ditadores desde 1930 – tenham nascido naquele estado.
A ideia positivista de “democratura” estava por detrás dos movimentos de 1930 e 1964. Ambos esses autoritarismos estavam baseados na ideia de um governo forte, centralizado e capaz de modernizar o Brasil de cima para baixo. A cereja do bolo era que eles se diziam representantes da luta contra a corrupção, o populismo e o comunismo.
O anticomunismo paranoico é outro pilar do bolsonarismo, manifestado em sua plenitude no “olavaodecarvalhismo”, já analisado por mim e outros autores no Intercept.
Aqueles que clamavam por “intervenção militar” durante os protestos contra Dilma. Esses que acreditam que só o Exército pode acabar com a baderna (política e social) e a roubalheira em nosso país são representantes tardios dessa tradição do século 19.

Teologia da danação

O segundo pilar do bolsonarismo é o cristianismo reacionário, fortemente influenciado pelo Velho Testamento. Quem já leu a Bíblia percebe que há uma grande descontinuidade entre os dois livros.
A mensagem do Cristo, presente no Novo Testamento, muito facilmente se presta a uma leitura “progressista”, como a da Teologia da Libertação.
Do Evangelho de São Lucas, há essa famosíssima passagem em que “uma pessoa importante perguntou a Jesus: ‘Bom Mestre, o que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” Jesus lhe diz que é preciso obedecer aos mandamentos, mas complementa:
“Falta ainda uma coisa para você fazer: venda tudo o que você possui, distribua aos pobres e terá um tesouro no céu”.
Com a evidente tristeza no rosto do homem, Jesus completou:
“Como é difícil para os ricos entrar no Reino do Céu! De fato, é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”.
Em vez de “Deus é amor”, tem-se aí a teologia do “Deus é vingança”.
Como compatibilizar essa mensagem clara e cristalina, com os pastores mi e bilionários que apoiaram entusiasticamente Bolsonaro? A mensagem fundamental de Jesus é de amor: “ame ao próximo como a ti mesmo”. Mas o que menos sai da boca desses fariseus é amor. Eles só vomitam ódio, rancor, desprezo, violência.
Jesus perdoou “certa mulher conhecida na cidade como pecadora”, Jesus impediu o apedrejamento da mulher adúltera, Jesus disse “não julguem, e vocês não serão julgados”, Jesus pregou que se deve sempre oferecer a outra face. Jesus disse “Eu não vim para chamar os justos, e sim os pecadores para o arrependimento”.
Na cruz, clímax da narrativa cristã, um bandido ao lado de Jesus lhe disse: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres em teu Reino”, ao que Jesus respondeu: “Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso”.
Como casar essa mensagem de amor, de empatia, de compreensão, de caridade, com a baba odiosa que escorre da boca desses pastores picaretas?
O fato é que eles esquecem Jesus e se apegam a passagens selecionadas e mais raivosas do Velho Testamento, em vez de “Deus é amor”, tem-se aí e teologia do “Deus é vingança”, que massacra os infiéis e salva apenas os escolhidos. Como no Livro de Samuel, em que Javé (um dos nomes de Deus) diz:
“Agora, vá, ataque, e condene ao extermínio tudo o que pertence a Amalec. Não tenha piedade: mate homens e mulheres, crianças e recém-nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos”.
Eis o embasamento da Teologia da Danação.

A justificativa econômica

O terceiro pilar do bolsonarismo é o liberalismo de Chicago à moda chilena. Assim como o cristianismo – capaz de ser a base das atitudes de Madre Teresa, mas também do reverendo assassino Jim Jones –, a ideologia liberal pode ser usada para justificar objetivos diametralmente antagônicos.
De uma ideologia revolucionária, que defende o Estado Democrático de Direito e as liberdades econômicas (inclusive da circulação de capitais, mercadorias e trabalhadores), o liberalismo de raízes mais profundas no Brasil é aquele reacionário, que clama por um governo autoritário para ser posto em marcha. Chicago boys que mandavam “às favas quaisquer escrúpulos” – como disse Jarbas Passarinho durante uma reunião do AI-5 em 1968 –, felizes com a possibilidade de pegar um país autoritário e utilizá-lo como uma folha em branco, uma tábula rasa de seus projetos.
Chicago boys mandavam “às favas quaisquer escrúpulos”, felizes com a possibilidade de pegar um país autoritário e utilizá-lo como uma folha em branco.
Como afirma o especialista em história moderna da América Latina Patricio Silva (1991), no caso do Chile, os “Chicago boys desempenharam um papel-chave na institucionalização da ditadura. Agindo como intelectuais orgânicos, eles elaboraram respostas sofisticadas para a latente contradição existente entre liberalismo e o autoritarismo político”. O discurso era que o país só havia vivido até então uma falsa democracia, na qual apenas grupos organizados tinham seus interesses atendidos, em detrimento da maioria da população.
“Eles enfatizavam a necessidade de um governo forte que fosse capaz de impor um sistema de regras gerais e imparciais sobre toda a sociedade, sem permitir a pressão de grupos de interesse”. Seria através desse grupo de abnegados que se conseguiria modernizar o país. Um grupo de interesse detestado por esses economistas são os sindicatos. Qualquer interferência legislativa ou de ordem sindical sobre os contratos de trabalho é vista como perniciosa. Não por acaso, a tal carteira de trabalho verde e amarela é uma das bandeiras do plano de governo de Bolsonaro.
No caso do Brasil, durante a ditadura, com o desmonte dos sindicatos e com a imposição de uma regra oficial que comprimiu o salário mínimo, o que houve desde o início foi uma forte tendência à concentração de renda, como demonstra Pedro de Souza (2016) em sua premiada e já clássica tese. Pedro é economista do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, o Ipea, e foi orientado no seu doutoramento em Sociologia na Universidade de Brasília por Marcelo Medeiros, que é o principal pesquisador sobre desigualdade de renda no Brasil.
Para esses liberais, porém, desigualdade não é problema. Eles acreditam que dando maior liberdade aos ricos, maior serão os benefícios sociais para todos no longo prazo. Ou, numa versão famosa no Brasil dos anos 1970, distribuir renda significa tirar recursos dos ricos, o que reduz o nível de investimentos e de crescimento econômico do país.
Em resumo, são esses os pilares filosóficos do bolsonarismo. Note-se que todos eles são defensores, apologistas ou plenamente compatíveis com o autoritarismo. Com o agravante de que talvez pela primeira vez em nossa história, um presidente assumirá o poder já contando com uma base assustadora de entusiastas fanáticos.
Quem chama político de “mito”, pode facilmente se confundir e acabar o chamando de “duce”.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Olavo de Carvalho: o ideólogo do conservadorismo paranoico nacional, por Alexandre Andrada.


Ainda que o WhatsApp seja a plataforma preferida na divulgação de notícias falsas e boatos nessas eleições, o YouTube também se tornou um dos principais meios de comunicação dos conservadores brasileiros. Quem analisa o ranking dos vídeos “em alta” da plataforma logo percebe a predominância de figuras da direita nacional. O YouTube, aliás, foi responsável pela fama e eleição de alguns deputados da bancada bolsonarista.
Desses pregadores de ódio e desinformação, destaca-se a figura de Olavo de Carvalho, o principal guru do radicalismo de direita no Brasil há mais de duas décadas. Dos EUA, onde vive, o pensador escreveu livros e deu cursos online que formaram uma geração de brasileiros.
Um de seus vídeos mais recentes, intitulado “O aviso mais importante que já dei aos brasileiros”, é uma rigorosa exposição do estado da arte do antipetismo vesicular, crônico, paranoico.
Segue uma tentativa de análise de seu pensamento, que ajuda a entender não apenas a cabeça de Olavo, mas a cabeça dos entusiastas de Jair Bolsonaro.
Olavo começa seu vídeo falando sobre o atentado sofrido por Bolsonaro. Em suas palavras, um “crime cometido por um membro do PSOL”. Aqui já começa o espetáculo de mentiras e meias verdades, características da retórica radical.
O autor do atentado, ainda que tenha sido filiado ao PSOL até 2014, é notoriamente uma pessoa desequilibrada e que, segundo investigação da própria Polícia Federal, agiu sozinho. Mas ao chamá-lo de “membro do PSOL”, Olavo instiga o ódio pelos agrupamentos de esquerda.
Como a polícia chegou a conclusões pouco excitantes, Olavo faz questão de colocar em dúvida a isenção do delegado responsável, chamando-o de “assessor condecorado pelo governador petista de Minas Gerais”. Ademais, diz que ele foi “proibido de divulgar os dados da investigação” de modo a “não ajudar o Bolsonaro”.
Vê-se aqui a conspiração esquerdista: o autor da facada é “membro do PSOL”, e o delegado é mancomunado com o “governador petista”.

Partidos Comunistas do Brasil

O Capitão Ensandecido reverberou essa mesma teoria em cadeia nacional.
Olavo faz então uma digressão histórica. Para entender o grande domínio da esquerda, diz, é preciso voltar à redemocratização do país.
Segundo sua paranoia, “todos os políticos que emergiram” naquele período e/ou “voltaram do exílio”, “eram esquerdistas”. Sendo que “alguns, profundamente comprometidos com o partido comunista”.
É certo que figuras de esquerda, como Luiz Carlos Prestes e Miguel Arraes, puderam retornar ao Brasil a partir da anistia em 1979.
Mas para Olavo, em verdade, eram “todos esquerdistas”.
A única exceção seria o PFL (Partido da Frente Liberal, atualmente Democratas), que nasceu de um racha no PDS, que deu também origem ao PP (Partido Progressista).
Porém, esse partido seria apenas “nominalmente liberal”, mas que tentava, a todo custo, mostrar que “não era tão direitista assim”, mostrando-se “a favor da causa gay, feminista, abortista”.
O “filósofo”, no alto de sua paranoia, insiste, assim, que a democracia brasileira era 100% comunista.
Aos mais jovens, vale lembrar, o PFL foi o grande partido a se coligar com FHC em 1994, tendo na sua liderança as figuras do catarinense Jorge Bornhausen e o baiano Antônio Carlos Magalhães.
Bornhausen, em 2005, ao falar sobre os petistas que agonizavam durante o escândalo do mensalão, afirmou: “estaremos livres dessa raça pelos próximos 30 anos”.
ACM, em discurso no Senado em 2006, afirmou: “Quero dizer aos comandantes militares: reajam enquanto é tempo! Antes que o Brasil caia na desgraça de uma ditadura sindical, presidida por um homem, mais corrupto que já chegou ao governo da República”.
Esses são os “moderados”, segundo Olavo.
Ao afastar o PFL, Olavo afirma que havia três grandes partidos no Brasil: PT, que seria o “comunista mais radical”, o PSDB, o “comunista mais adocicado” e o PMDB, que “sempre foi controlado pelo Partido Comunista” e que “tinha a função de parecer o partido isento”, mas que estaria “100% a serviço dos comunistas”.
O “filósofo”, no alto de sua paranoia, insiste, assim, que a democracia brasileira era 100% comunista. Ou melhor, 99,9%, já que o PFL era menos comunista que os demais. Essa democracia, pois, seria uma farsa, já que ia contra os anseios da população, que é em sua maioria, conservadora.
Os conservadores, porém, não teriam partido, não teriam jornal, não teriam universidade, não teriam uma revista semanal conservadora…
Mas os comunistas não dominam apenas o Brasil: o “comunismo é uma rede internacional”, que tem “apoio das megafortunas”, apoio dos “bancos”, de gente como George Soros e Mark Zuckerberg.
Como os fanáticos que enxergam a imagem da Virgem numa mancha na parede, Olavo enxerga a imagem do comunismo até nos bilionários do capitalismo contemporâneo.

A Igreja vermelha

Nesta altura, Olavo cita o seu satanás particular: o Foro de São Paulo.
Diz que a democracia brasileira foi “calculada para consolidar o poder comunista/socialista, mais ainda após a fundação” do Foro.
Foro esse que em sua análise é “uma organização nitidamente criminosa, onde partidos supostamente legais, se associavam intimamente a organizações criminosas como as FARCS, o MIR, que tinha o monopólio dos sequestros na América Latina”, além de ser a “grande fornecedora de cocaína ao mercado brasileiro”.
E Lula, nosso ex-presidente, comandava essa organização, junto com o comandante das FARCS.
Como profeta, Olavo afirma que “durante 16 anos, a mídia inteira negou a existência do Foro”, que seria “a maior entidade política que já existiu na América Latina”.
Fundado em 1990, o Foro de São Paulo apareceu nos arquivos do jornal O Estado de São Paulo em 1997, por exemplo, quando da realização de seu 7º encontro, realizado em Brasília.
Foro de São Paulo no Estadão
Mas a suposta ocultação do Foro faz com que Olavo afirme que “a mídia inteira faz parte desse esquema”. Alerta seus seguidores que se algum deles ainda “tem um pingo de confiança na Folha de São Paulo, Globo, Estadão, Veja”, etc., isso significa que “você está sendo simplesmente enganado”. Deve-se negar o jornalismo e os jornalistas, pois essa classe de trabalhadores é “100% cúmplice desta coisa, são todos criminosos”.
E assim se faz o viés anti-intelectual e contra o jornalismo profissional, que são pilares do radicalismo verde-amarelo que tanto sucesso tem obtido no Brasil.
É assim que se convence a massa que os jornais são todos mentirosos e que eles só devem acreditar na verdade emanada a partir de centros e indivíduos autorizados pelo Führer, pelo Duce, pelo Mito.
Ao tratar de outro tema inescapável dos radicais brasileiros, Olavo afirma que “Hugo Chávez destruiu” a economia venezuelana, por ter financiado “o terrorismo e o narcotráfico no mundo inteiro, com a ajuda do sr. Lula e o PT”. Adiante, afirma que “essa gente está envolvida numa rede criminosa de um tamanho descomunal”.
É esse tipo de discurso que transformou a política no nosso país em uma barbárie.
Note-se que, para Olavo e seus seguidores, o PT não é um partido político, não é um agrupamento ideológico, é uma rede internacional de criminosos, envolvidos com tráfico de drogas, assassinatos, terrorismo, etc.
Essa é o elemento central do antipetismo patológico que vivemos.
Eis outro elemento do radicalismo nacional: divide-se a sociedade entre bolsonaristas e “petralhas”. Os primeiros são patriotas, cidadãos de bem, amam suas famílias, têm boa higiene pessoal, trabalham e estudam. Os outros, os “judeus” da ocasião atual, são os apátridas, os canalhas, os que querem destruir os valores familiares, os sujos, os parasitas, os ignorantes.
Exagero? Olavo afirma que “essa gente” – vocês devem saber a quem ele se refere – “está matando milhões de pessoas no Brasil, são genocidas todos eles”.
Olavo encerra afirmando:
“Gente, acordem, não é uma disputa política, eleitoral, é uma disputa contra o banditismo organizado, contra criminosos psicopatas, gente sem escrúpulo de espécie alguma, incluindo os colaboradores mais suaves, tipo Alckmin… Acordem, ou é eleger o Bolsonaro, ou dizer adeus ao Brasil”.
É esse tipo de discurso que transformou a política no nosso país em uma barbárie. Que provocou agressões de todo tipo às vésperas das eleições. É esse o tipo de mensagem que se entranhou no bolsonarismo mais radical. É essa mensagem de ódio e de divisão que Bolsonaro vai pregar, insistir e aumentar.
Nós, os que não somos bolsonaristas, mesmo os “colaboradores mais suaves”, estamos em risco. Nossa moral, nossa integridade física e emocional, tudo isso pode ser alvo de linchamentos.
Poucas vezes o futuro foi tão lúgubre neste país.
Imagem em destaque: O escritor, conferencista, ensaísta, jornalista e filósofo brasileiro, Olavo de Carvalho, o papa do conservadorismo brasileiro, em Richmond, nos EUA.