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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Combatente pela paz, por Mario Vargas Llosa.

Combatente pela paz


Todas as vezes em que disse em minha vida que Israel era o único país onde sempre me senti um homem de esquerda, era pelas coisas que ali fazia, dizia e escrevia Amos Oz, que faleceu há poucos dias


Conheci Amos Oz em novembro de 1976, em minha primeira viagem a Israel. Fui visitá-lo no kibutz Hulda, onde estava desde os 14 anos. (Sua mãe se suicidara dois anos antes). Seu primeiro romance, de título intraduzível ao espanhol, Quizás en Otro Lugar (Talvez em outro lugar) seria o mais aproximado, havia provocado uma grande controvérsia em seu país porque nele fazia uma minuciosa análise da vida nesses pequenos recintos idealistas —os kibutz— que buscavam, como disse ironicamente anos mais tarde, “criar pessoas boas e saudáveis, sem sequer suspeitar que os seres humanos não somos nem bons nem saudáveis”.
Vivia modestamente em uma casinha de madeira e tinha que se levantar ao alvorecer para trabalhar no campo com as mãos. Mas estava muito contente porque os dirigentes do Hulda lhe permitiam dedicar as tardes a escrever. Era jovem, otimista, incansável, e creio que desde o primeiro momento ambos soubemos que seríamos bons amigos. Nas sete ou oito vezes em que estive depois em Israel sempre demos um jeito para almoçar ou jantar juntos, e o mesmo em conferências e congressos literários pelo mundo, nos quais sempre arranjávamos uma brechinha para tomar um café. Todas as vezes em que disse em minha vida que Israel era o único país onde eu sempre me senti um homem de esquerda, era pelas coisas que ali fazia, dizia e escrevia Amoz Oz.
Tudo o que escreveu —seus romances, ensaios, reportagens— tinha a ver com problemas reais e imediatos, e essa preocupação com a vida política e social, inevitável para um escritor israelense, não era incompatível com a excelência literária, como se constata nesta obra prima que foi sua autobiografia, De Amor e Trevas (2002), e seu romance Meu Michel, traduzido em quase todo o mundo. Ao mesmo tempo que grande escritor, foi um lutador encarniçado pela paz e um dos fundadores do Movimento Paz Agora, que nos anos 80 chegou a ter milhões de seguidores em Israel. Lutou toda sua vida pela paz entre os israelenses e os palestinos porque conhecia os estragos terríveis que as guerras causam, já que havia participado de duas delas, a Guerra dos Seis Dias e a Guerra do Yom Kipur.
Seu sionismo não o impedia de ver as injustiças que os colonos cometiam nos territórios ocupados
Era um sionista convicto e confesso, porque acreditava que os israelenses tinham direito a ocupar uma terra à qual estavam ligados historicamente e um país que haviam construído, mas seu sionismo não o impedia de ver as injustiças que os colonos cometiam nos territórios ocupados. Por isso, defendeu até o fim de seus dias a ideia dos dois Estados —um israelense e outro, palestino—, apesar de que muitos de seus antigos amigos, após a direitização tão atroz experimentada pelo Governo israelense e o canceroso crescimento dos assentamentos ilegais nos territórios ocupados, achavam isso impossível e tendiam a apoiar a ideia de um só Estado laico e compartilhado pelas duas comunidades. Para Amos Oz esta solução parecia absolutamente irreal e inoperante (“isso só na Suíça”, insistia), algo que o levou a distanciar-se politicamente de outro grande escritor israelense, A. B. Yehoshua, de quem tinha sido muito amigo.
A última vez que o vi foi há dois anos, em um almoço em Jerusalém. Estava irreconhecível, de tão desanimado e silencioso, ele que parecia a alegria de viver encarnada e derramava energia por todos os poros. Era o câncer, sem dúvida, que começava a fazer estragos em seu organismo. Mas eu atribuí ao tom sombrio daquela conversa, da qual participavam Yehuda Shaul, fundador do grupo Breaking the Silence, no qual os próprios soldados denunciam os abusos que o Exército de Israel comete. Gideon Levy, um jornalista progressista muito conhecido; o romancista David Grossman —que sem dúvida o sucederá como consciência moral de seu país— e Juan Cruz, de EL PAÍS.
É verdade que não deve ser fácil ser um escritor laico e progressista em um país como Israel, onde, em cada eleição, sempre voltam ao governo as mesmas pessoas e as mesmas políticas extremistas, graças a pequenos partidos de fanáticos religiosos —aos quais Amos Oz dedicou precisamente um de seus últimos ensaios— cujos votos garantem a maioria ao Governo imperante. Em Israel, a democracia existe e funciona de maneira impecável para os israelenses (para os palestinos, claro, não). Há liberdade de imprensa, não existe a censura, os juízes são independentes, e a vida política é multíplice, livre, muito intensa. Mas se um visitante se embrenha na Cisjordânia já é outra coisa. As cidades e vilas palestinas estão praticamente cercadas pelos assentamentos ilegais, submetidas a um controle policial e militar rigidíssimo, e bloqueadas e retalhadas por uma muralhona gigantesca que separa as famílias de suas escolas e campos de trabalho. Etcétera. Claro que a ameaça do terrorismo é uma realidade e exige que sejam tomadas precauções para evitá-lo. Mas a impressão que se tem é que Israel já excluiu de seu programa as negociações de paz e que a tese de Sharon —nós imporemos a paz— passou a ser, pura e simplesmente, a política de todos os Governos israelenses. Para mim, esta possibilidade parece ainda mais irreal e disparatada que a do Estado único. Porque ela só se sustentaria convertendo o diminuto Israel em uma anacrônica África do Sul dos tempos do apartheid, cercado de inimigos pelos quatro costados.
Raras vezes falava de seus livros e, quando não havia mais remédio, fazia isso subestimando-os, e como se estivesse enfastiado
Quando se acompanha a obra de um escritor como Amoz Oz à medida que vai sendo produzida, observa-se a importância de que a literatura se alimente do que são as preocupações e angústias —e também exaltações e alegrias, é evidente— da gente comum, aquela que lê os livros e se reconhece neles, e, ao mesmo tempo, eles lhe permitem tomar distância desse mundo e encará-lo de uma perspectiva mais profunda e de mais alcance. Isso é o que a grande literatura tem sido sempre: uma maneira melhor de compreender tudo aquilo que constitui a vida, enriquecer a perspectiva dos fatos mais íntimos e pessoais, e, também, claro, dos coletivos, e a maneira mais eficaz de substituir os estereótipos, preconceitos e lugares comuns por ideias. Isto é o que Sartre dizia que devia ser a literatura em seu extraordinário ensaio Situations II, antes de desdizer-se de tudo aquilo quando recomendou aos escritores africanos que renunciassem a escrever para fazer primeiro a revolução socialista e criar países onde a literatura fosse possível. (Se tivessem seguido esse conselho, os países africanos nunca teriam literatura).
Na homenagem que lhe prestou, Gideon Levy (que foi tão crítico de suas posições políticas) fala de seu “encanto, de sua incrível modéstia, de sua magia”. É verdade. A vaidade costuma ser imensa entre os que nos dedicamos a escrever. Uma das exceções era Amoz Oz. Raras vezes falava de seus livros e, quando não havia mais remédio, ele fazia isso subestimando-os, e parecendo enfastiado. Certa vez o ouvi dizer que não entendia por que sua obra era tão conhecida em tantas partes e por tantos leitores diferentes. Vai fazer muita falta para todos nós. E, sobretudo, para Israel: poucos israelenses fizeram tanto por seu país como Amos Oz.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Literatura é coisa de mulher, por Maria Bitarello.

on 11/07/2017Categorias: Arte e Literatura, Brasil, Cultura, Posts
Martha Gellhorn, uma das grandes correspondentes de guerra do século XX, tornou-se conhecida por ser esposa de Ernest Hemingway
Martha Gellhorn, uma das grandes correspondentes de guerra do século XX, tornou-se conhecida por ser esposa de Ernest Hemingway
Faço dessa crônica minha macumba textual. Que a literatura não seja mais terra de macho. E que estes abandonem o que tanto os amedronta nas escritoras
Por Maria Bitarello
A mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela
se pretende mesmo escrever ficção.”

Virginia Woolf, em
Um teto todo seu
Em português, existem as palavras embaixadora e embaixatriz. São distintas. Embaixadora é o feminino de embaixador, ou seja, uma mulher que representa seu país em outro país, uma diplomata do escalão mais alto. Embaixatriz é o nome dado à mulher do embaixador. A primeira-dama, digamos assim. Aliás, bem assim mesmo. Tanto embaixatriz quanto primeira-dama são termos sem equivalente referência masculina. Que eu saiba, não existe um nome pro marido da embaixadora nem pro da presidenta. Chama-se essa pessoa por seu nome próprio. Afinal, não se trata de um título de nobreza transferível via casamento.
Me pus a pensar nisso motivada por escritoras que foram também casadas com escritores. Exemplos: esperava-se da poeta e contista Sylvia Plath ser, primeiramente, mulher do também poeta Ted Hughes; Martha Gellhorn, uma das correspondentes de guerra mais importantes do século 20, foi célebre por ser esposa de Ernest Hemingway. E a lista segue. Mas quantos homens são conhecidos, publicamente, por serem maridos de uma escritora? Não me lembrei de nenhum.
Literatura é terra de macho. Em 1971, em uma fala que ficou conhecida, a escritora americana Susan Sontag enquadra o escritor e machão à moda antiga, Norman Mailer, quando ele se refere a outra autora como lady writer. Em inglês, existe até o termo chick lit – literatura feita por e pra garotas –, pra sugerir que se trata de uma literatura inferior. No vídeo acessível pelo link acima, Sontag indaga Mailer por que é preciso fazer a distinção da “mulher escritora” se a mesma distinção não é feita para os homens. Por que a palavra writer, sem gênero, remete necessariamente a um homem, foi sua dúvida. Por que a literatura com L maiúsculo é território masculino. E, subliminarmente, o que tanto os amedronta nas escritoras. Penso eu que o medo seja da exposição de toda a farsa e da consequente perda de privilégios. Só um chute.
Pra evitar tal exposição, é preciso que as moças entendam seus lugares ou então que caiam fora. E o esquema a ser compreendido é o seguinte: você é bem vinda no meio literário como groupie (fanzoca) ou como musa, ambos papéis inofensivos e sexualizados. Assim, você permanece maravilhosa, desejada, uma mulher inteligente, letrada, que ama bons livros, mas não compete. O que de melhor pode haver nesse mundo?
Homens, segundo pesquisas, leem escritores homens que criam protagonistas masculinos que, por sua vez, são frequentemente escritores também. Respire fundo e clique pra ler as estatísticas de 2013 sobre a literatura nacional. São assustadoras: 72% dos autores publicados são homens. O ambiente é não só masculino, mas branco, heterossexual, ocidental, urbano e de classe média. Aqueles e aquelas que fogem do perfil estão condenados a ocupar as prateleiras menos nobres da livraria e, esse ano, surpreendentemente, muitas das mesas da FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece esse mês. É verdade. Pela primeira vez, desde a inauguração do evento em 2003, há mais mulheres na programação do que homens: 24 a 22.
Não estou dizendo que não haja motivos pra se comemorar, mas trata-se de uma diferença mais importante em níveis simbólicos que absolutos. Afinal, até hoje, no mundo todo, dos 111 premiados com o Nobel, apenas 13 são mulheres. No Brasil, dos 40 membros da Academia Brasileira de Letras, apenas 5 são mulheres. Rachel de Queiroz foi a primeira, em 1994, quando a instituição comemorou seu primeiro centenário. Cem anos se passaram sem que nenhuma mulher ingressasse. E só agora, também nesse mês de julho, uma mulher foi contemplada, pela primeira vez, com o Prêmio de Literatura do Estado de Minas Gerais pelo Conjunto da Obra. A mulher: Adélia Prado.
São conquistas importantes, mas a caminhada ainda é longa e cheia de obstáculos fálicos. Dentro do tabu da mulher que escreve, por exemplo, ainda existe o tabu dos tabus, que é o romance. Mulheres podem ser jornalistas, poetas, às vezes letristas de música, até contistas, mas não romancistas. Romance, dizem, é coisa de homem.
Faço dessa crônica minha macumba textual. Que injustiças como essa se reparem com mais eficiência. Que a história não demore mais uma vida inteira pra reconhecer a grandeza de escritoras tornadas invisíveis, como Hilda Hilst – que ainda por cima escrevia literatura erótica, que audácia. Que a geração atual de autoras de ficção não seja reconhecida apenas postumamente. E que os escritores e escritoras sejam tão diversos quanto as histórias que contam e os leitores que as leem. As estantes, com certeza, serão muito mais coloridas.

domingo, 12 de março de 2017

Em pleno século XXI, “história” insiste em apagar a produção das mulheres negras, por Ana Maria Gonçalves.


Já não me lembro como cheguei à tese “Os Segredos de Virgínia: Estudo de Atitudes Raciais em São Paulo (1945-1955)”, de Janaína Damaceno Gomes. Janaína é professora da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, doutora em Antropologia Social pela USP e Mestre em Educação e Bacharel em Filosofia pela Unicamp. Virgínia foi normalista, educadora sanitária, visitadora psiquiátrica, psicologista, socióloga e psicanalista, desafiando não apenas o lugar que se propunha ou se esperava para uma mulher – principalmente uma mulher negra – na primeira metade do século passado, mas também o pensamento dominante em relação a temas como educação e relações raciais.

O trabalho de Virgínia quase foi mantido em segredo, como nos conta Janaína, “pelo roubo de arquivos, pelo mofar literal da tese da autora, por entrevistas não publicadas, por citações não feitas, por textos extirpados de compêndios, pela eleição de uma bibliografia canônica que se perpetua e muito pouco é revisada…”. Qualquer semelhança com algumas situações atuais não é mera coincidência.
Virgínia Leone Bicudo nasceu em São Paulo, em 1910, filha de Giovanna Leone, imigrante italiana, e de Theofilo Júlio Bicudo. Giovanna trabalhava como criada na casa do Coronel Bento Bicudo, em Campinas, onde conheceu o jovem Theofilo, nascido do ventre livre da escrava Virgínia Júlio. Apadrinhado pelo coronel, Theofilo foi bastante ambicioso para um jovem negro, e seu sonho era cursar a Faculdade de Medicina de São Paulo, onde foi barrado por um professor que acreditava que aquele não era lugar para negros. O casal teve seis filhos e resolveu investir na educação deles.
Virgínia gostava de estudar e seguia a recomendação dos pais de ser bastante aplicada, “para evitar ser prejudicada e dominada pela expectativa de rejeição… por causa da cor da pele”. “Olha, a ideia de meu pai era que as pessoas valem pelo estudo, pelo preparo que têm, estudando, isso era meu pai. Então, meu pai pôs todos na escola”, disse, em entrevista a Marcos Maio, em 1995. Mas logo veria que isto não era verdade, pois era seguida pelos colegas aos gritos de “negrinha, negrinha, negrinha”.
Em 1930, Virgínia Leone se formou na Escola Normal e, em 1932, depois de concluir o curso de Educação Sanitária, começou a trabalhar como educadora sanitária e depois como visitadora psiquiátrica, chegando ao cargo de supervisora das visitadoras na Clínica de Orientação Infantil de São Paulo. Durante esse tempo, circulou bastante pela cidade, conhecendo a realidade de várias crianças que eram tratadas como “problemáticas” pela campanha higienista e as ideias eugênicas que tomavam conta da política de implantação da escola pública brasileira. Talvez tenha se reconhecido nelas.
Em 1936, foi a única mulher a ingressar no curso de Ciências Políticas e Sociais da recém fundada Escola Livre de Sociologia e Política, onde em formou em 1938. “Eu fui para a escola de sociologia porque eu tinha sofrimento, tinha dor, e eu queria saber o que me causava tanto sofrimento. E eu colocava que eram condições exteriores a mim. Então eu pensei que a Sociologia iria me esclarecer sobre os motivos do meu sofrimento.”
Durante o curso, Virgínia tomará contato com ideias novas que, mais tarde, darão um novo rumo à sua carreira: “…pela primeira vez em minha vida, eu ouvi falar de Freud, em sublimação e fatores internos. Então eu disse, bem, não é sociologia que eu tenho que estudar, eu tenho que estudar é psicanálise e Freud.”
Menos do que “embranquecer”, a ascensão social cria consciência da cor.
Seu interesse pela psicanálise vai levá-la a ser a primeira mulher a fazer análise na América Latina, em 1937. E é bastante interessante pensarmos que uma mulher negra, querendo entender as dores causadas pelo racismo, tenha sido a primeira a se deitar no divã de uma mulher alemã judia que veio para o Brasil a convite da recém fundada Sociedade Brasileira de Psicanálise, a Dra. Adelheid Koch, que também fugia do nazismo.
Continuando seus estudos, integrante da primeira turma de pós-graduação em Ciências Sociais no Brasil, sob a orientação de Donald Pierson, Virgínia Leone Bicudo é a primeira pessoa a defender uma tese sobre relações raciais no Brasil, em 1945, “Estudo de atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo”. Neste mesmo ano, é contratada como professora da faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Em 1949, foi convidada a integrar a projeto de pesquisa sobre relações raciais da UNESCO, sob coordenação de Roger Bastide e Florestan Fernandes. Seu trabalho, que depois será mantido fora da publicação dos resultados de tal projeto, em 1957, é o único a concluir que o Brasil não é a democracia racial que todos gostariam que fosse, contrariando, inclusive, as conclusões de seu orientador, Donald Pierson. Segundo ele, existia preconceito no Brasil, mas ele era mais de classe do que de raça.
Ao estudar negros e mulatos que tinham conseguido alguma ascensão social em São Paulo, Virgínia conclui que, menos do que “embranquecer”, a ascensão social cria consciência da cor, porque mesmo tendo condições financeiras para frequentar certos locais, como clubes e hotéis, os negros que podiam pagar eram rejeitados por causa de sua cor.
Aprofundando seus estudos em psicanálise, Virgínia Leone Bicudo se torna a primeira psicanalista não médica no Brasil, sendo acusada de charlatã. Indignada com o tratamento recebido, parte para Londres em 1955, onde tem contato e estuda com os analistas mais importantes de sua época, como Melanie Klein, Ernest Jones, Winnicott, Bion e Anna Freud. A partir de Londres, para divulgar a psicanálise, Virgínia transmite várias palestras para o Brasil, através da BBC.
Quando retorna, em 1959, já está com um nome consolidado para retornar a atividade clínica, atendendo a elite paulistana, como o atual senador Eduardo Suplicy. É uma das fundadoras do Instituto de Psicanálise da SBPSB, em Brasília, teve um dos programas mais ouvidos e comentados da Rádio Excelsior, onde comentava e dramatizava casos enviados para ela via carta, o “Nosso Mundo Mental”. Com o mesmo nome, que também batizou seu livro, tinha uma coluna no jornal Folha da Manhã. Virgínia ficou rica com a psicanálise, sendo uma das primeiras mulheres a dirigir o próprio carro pelas ruas de São Paulo, na década de 1950, e adquirindo vários imóveis pela cidade. Mas, de acordo com Janaína Damaceno, teve uma morte negra, em 2003, aos 93 anos de idade: esquecida, enlouquecida, abandonada em uma instituição para doentes mentais.
A tese de Virgínia somente foi resgatada e publicada em 2010, no centenário de seu nascimento. Virgínia estava certa em relação ao racismo quando a escreveu e foi silenciada por seus pares, que não concordavam com ela. Janaína Damaceno nos conta que encontrou sua tese, a primeira sobre questões raciais no Brasil, úmida e mofada, nos arquivos da Escola de Sociologia e Política da USP.
Ainda é bastante atual este processo de apagamento da produção intelectual de mulheres negras, e ilustro com um caso narrado pela própria Janaína na tese: “Enquanto realizava o doutoramento, prestei a seleção para uma bolsa de doutorado sanduiche de uma fundação americana. Quando fui entrevistada, um dos membros da banca, um cientista social, me interpelou acerca da veracidade de haver brasileiros estudando psicanálise e sendo psicanalisados no Brasil já nos anos 1940, e observou que isso deveria ser um erro crasso de minha pesquisa visto que os argentinos tinham uma tradição em psicanálise anterior à nossa, e pelo fato de que, sendo gaúcho, ficava óbvia essa tradição. Contestou também a existência de Virgínia Bicudo enquanto mulher negra, já que havia trabalhado com Florestan Fernandes e conhecia bem do assunto. Não recebi a bolsa.”
Ao longo dos tempos, é exatamente o que continuamos a ver: nosso conhecimento e trabalho sendo contestados por quem não os conhece. Racismo e machismo trabalhando juntos para nos manter na posição de meros objetos de estudo, como gostaria o sociólogo Luiz Aguiar Costa Pinto, ao ser acusado de distorção de fatos e plágio por Abdias do Nascimento e Alberto Guerreiro Ramos. Autor do livro “O negro no Rio de Janeiro”, Costa Pinto não gostou de ser interpelado pelos seus “objetos de estudo”, e que era uma ameaça às ciências sociais que um pesquisador pudesse. 
Resposta dada por Costa Pinto a um jornal carioca da época, em trecho do livro “O sortilégio da cor: identidade, raça e gênero no Brasil”
Resposta dada por Costa Pinto a um jornal carioca da época, em trecho do livro “O sortilégio da cor: identidade, raça e gênero no Brasil”
Para quem desafiou e continua desafiando este lugar de “material de laboratório”, meus profundos agradecimentos. Em honra a todas as mulheres negras que lutam por respeito, espaço e reconhecimento, deixo o meu muito obrigado a Dona Virgínia Leone Bicudo e a Dra. Janaina Damaceno Gomes. Elas nos representam!

Já conhece a vasta literatura produzida por mulheres negras?, por Cecília Olliveira.


Montagem: Erick Dau para The Intercept

Em 2009 a escritora nigeriana Chimamanda Adichie falou sobre “O perigo de uma única história”, no TEDx. Ela discorreu sobre o erro que é conhecer histórias sob apenas um aspecto e de como isso contamina nossas percepções de mundo.
Hoje conhecida mundialmente, Chimamanda aprendeu a ler e a viajar pelas linhas dos livros lendo os autores que tinha à mão, que eram geralmente americanos ou britânicos. Devido a colonização britânica, o inglês é a língua oficial da Nigéria e, claro, a influência cultural inglesa é massiva no país.
Quando foi apresentada à literatura africana de Chinua Achebe e Camara Laye, a autora mudou sua perspectiva, sua narrativa e sua vida. Começou a ver – e ler – as coisas fora da perspectiva do observador e, no caso, do “vencedor”. “Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele da cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura. Eu comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia.”
É importante que as pessoas se identifiquem nas histórias, porque elas não são únicas e, claro, elas podem estar lá. Chimamanda amava aqueles livros americanos e britânicos que lia. “Eles mexiam com a minha imaginação, me abriam novos mundos”, disse. Mas com um porém: “a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre o que os livros são”.
O que Chimamanda passou, muitas mulheres negras passam. E homens negros também, embora menos. No ano passado, mulheres protestaram contra a ausência de escritoras negras na Festa Literária de Parati (FLIP). O curador da Flip, Paulo Werneck, fez um mea culpa ao reconhecer a falha.
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Carolina Maria de Jesus com Clarice Lispector
Foto: Acervo de divulgação/Editora Rocco
Quantas pessoas sabem que uma das maiores escritoras do Brasil é uma mulher negra e favelada? O livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus, publicado em 1960, vendeu mais de 100 mil exemplares, foi traduzido para 13 idiomas e vendido em mais de 40 países. Mesmo com essa biografia, Carolina foi lembrada em um trecho da biografia de Clarice Lispector – escrita por Benjamin Moser – de uma forma que foi duramente criticada: “Carolina parece tensa e fora de lugar, como se alguém tivesse arrastado a empregada doméstica de Clarice para dentro do quadro”.
Nesse Dia Internacional da Mulher é preciso que as mulheres negras não sejam apagadas e reduzidas como Carolina Maria de Jesus e ampliem sua visão de mundo para além da versão única, como fez Chimamanda Adichie. Por isso The Intercept Brasil preparou uma lista de dicas de autoras negras para quem quer se ver e reconhecer na literatura:

  • Alzira Rufino: primeira escritora negra a ter seu depoimento gravado no Museu de Literatura Mário de Andrade, em São Paulo/SP
  • Ana Maria Gonçalves: Prémio Casa de las Américas? (2007) pelo livro “Um Defeito de Cor” (e colunista do The Intercept Brasil)
  • Geni Guimarães: Prêmio Jabuti de Literatura (1990) pela novela “A cor da ternura”
  • Eliana Alves Cruz: Prêmio Oliveira Silveira (2016), pelo livro “Água de Barrela”
  • Livia Natalia: O livro “Água Negra” foi premiado pelo Concurso Literário de Banco Capital (2011)
  • Lélia Gonzalez: Seu livro “Festas Populares no Brasil” recebeu um prêmio internacional na categoria “os mais belos livros do mundo”, na Feira de Leipzig/Alemanha Oriental – uma das mais importantes do mercado editorial
  • Miriam Alves: Publicou seu primeiro livro, “Momentos de Busca” (1983) com o dinheiro de seu 13º salário

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Fascistas não leem ficção, por Jose Eduardo Agualusa.



De passagem pelo Brasil para a Feira Literária Internacional de Maringá, Agualusa afirma que o País foi “sequestrado por um grupo de delinquentes”

O escritor angolano Agualusua. Foto: Reprodução / Arquivo pessoal
O escritor angolano José Eduardo Agualusua. Foto: Reprodução / Arquivo pessoal
As confusões da política brasileira têm deixado assustados não só os próprios brasileiros, mas também aqueles que estão acostumados a visitar o País. O angolano José Eduardo Agualusa aporta por aqui ao menos uma vez por ano e acompanha tudo o que acontece por meio de seus amigos. Morou no Brasil por quatro anos, dois em Pernambuco e dois no Rio de Janeiro. Quando voltou para Portugal, onde reside atualmente, levou consigo um carinho e uma preocupação como se fosse nativo.
Sentado em uma cadeira pouco confortável e sedento por água de coco, Agualusa mostrou-se perplexo com a situação atual do País. A visita a São Paulo foi breve. Apenas cinco horas antes de pegar um voo para o sul, onde participou da terceira edição da Feira Literária Internacional de Maringá. Em maio, assinou um manifesto em Portugal contra o golpe no Brasil, assim como Valter Hugo Mãe, Pilar del Rio, Gonçalo M. Tavares, entre e outros.
Agualusa acha assustador como o Brasil, que avançou tanto nos governos Lula e Dilma, abriu tamanho espaço para o conservadorismo. O discurso de Bolsonaro e o coro que o acompanha é o exemplo mais claro disso. “Bolsonaro não deve ler ficção, porque para ler ficção deve-se ter empatia”, exclamou o luso-angolano-brasileiro, dizendo já ter falado isso para uma amiga.
A notícia do impeachment foi recebida por Agualusa com muita revolta. “O triunfo da estupidez e da injustiça nunca deixa de me surpreender”. Mas disse que esperava o contrário, acreditando até o fim que o bom senso e a justiça prevaleceriam. Não foi o que aconteceu. Para ele, uma presidenta inocente foi julgada por uma maioria de criminosos, o que é inaceitável.
Ele acredita que ir para a rua é a melhor forma de a juventude lutar contra isso: “Espero que aquilo que se sucedeu sirva para despertar o conjunto da sociedade brasileira, em especial os mais jovens. E que o Brasil consiga, ao longo dos próximos meses, produzir novas lideranças e novas ideias”. Segundo ele, também é necessário que jovens comecem a se envolver na política de forma mais direta, pois mesmo as lideranças progressistas dos principais partidos são compostas por figurões antigos.
Na opinião do escritor, o Brasil foi sequestrado por um grupo de delinquentes. De acordo com ele, esse grupo tem como objetivo retomar o poder do Judiciário, já que Dilma permitiu que ele trabalhasse de forma independente do poder político. “Esta luta é – tem de ser! – a luta de todos os brasileiros honestos”, concluiu.
Zelador de causas sociais e políticas, Agualusa esteve envolvido na luta contra o abuso do governo angolano no caso que ficou conhecido como “15+2”, quando ativistas – entre eles o rapper Luaty Beirão – foram presos ao se reunirem para ler um livro no ano passado. Eles foram acusados, arbitrariamente, de estarem tramando uma rebelião contra o governo de José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

“Nunca foi tão dramática a nossa solidão” – Uma linda reflexão de Mia Couto

Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco

mia couto solidão distância telecomunicação tecnologia
Mia Couto*, Portal Raizes
Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.
Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.
Existem várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos como sujeitos históricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.
A modernidade não é uma porta apenas feita pelos outros. Nós somos também carpinteiros dessa construção e só nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos também construtores.
No início, viajávamos porque líamos e escutávamos, deambulando em barcos de papel, em asas feitas de antigas vozes. Hoje viajamos para sermos escritos, para sermos palavras de um texto maior que é a nossa própria vida.
A palavra “ler” vem do latim “legere” e queria dizer “escolher”. Era isso que faziam os antigos romanos quando, por exemplo, selecionavam entre os grãos de cereais. A raiz etimológica está bem patente no nosso termo “eleger”. Ora o drama é que hoje estamos deixando de escolher. Estamos deixando de ler no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objecto de apelos que nos convertem em números, em estatísticas de mercado.
Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, mas o mais triste é ter mesmo que escolher.
É verdade que as novas tecnologias não costuram os buracos da nossa roupa interior, mas elas ajudam a alterar as redes sociais em que nos fabricamos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A cidade entre o espaço e o território, por Christian Ingo Lenz Dunker.


Um dos representantes mais criativos da nova esquerda britânica, o escritor China Miéville descende de um ramo perdido na arqueologia da esquerda, aquele que vem de André Breton e os surrealistas, passando por Walter Benjamin e Kafka e que encontra em Žižek uma de seus melhores expoentes contemporâneos na arte de misturar alta e baixa cultura, cotidiano servil e insólitas fantasias, ideológicas e críticas.


China Miéville Christian Dunker
O escritor e pensador China Miéville, autor de A cidade & a cidade e Estação Perdido, entre outros.

Por Christian Ingo Lenz Dunker.

No livro A cidade & a cidade, de China Miéville, o inspetor Tyador Borlú investiga o assassinato de uma prostituta em uma cidade futurista. A trama policial e linguística gradualmente desloca o problema clássico do “whodonit” (quem é o assassino?) para “onde realmente isso se passa”. Se Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley, e Alphaville (1965), de Jean-Luc Godard, são obras que nos apresentam cidades determinadas por “ficções de verdade”, ao modo de condomínios artificiais autosegregativos, e se filmes como Metropolis (1927), de Fritz Lang, e Blade Runner (1982), de Ridley Scott, são o seu complementar distópico, composto por cidades hetero-segregativas, marcadas traumaticamente pelo Real, China Miéville consegue reunir neste livro as duas estratégias em um mesmo problema.
As cidades de Ul Qoma e Beszel ocupam o mesmo lugar geográfico, onde cada qual possui zonas exclusivas, além de espaços de cruzamento, nas quais as pessoas podem passar, mas não interagir. Com isso sobrepõe-se o paradigma da cidade baseada em experiências de determinação, com suas leis, polícias e regulamentos e a cidade fundada na indeterminação, com suas diferenças, miscigenações e misturas. A intuição essencial aqui é que existe algo mais, além de muros e ruas, envolvido nesta operação desejante que tem caracterizado nossa experiência de cidade.
Esta invenção literária ressoa com a biografia de seu autor, um dos representantes mais criativos da nova esquerda britânica. Com admirável percurso acadêmico, passando por Harvard e pela London School of Economics, ele fundou, em 2013, junto com Ken Loach e o psicanalista Ian Parker1, a Left Unity [Unidade de Esquerda], um partido anti-capitalista, ecológico e feminista pensando para resistir ao programa neoliberal e suas políticas de austeridade. Sua base está nas cooperativas e sindicatos, mas principalmente nas pessoas comuns (ordinary people) que enfrentam a pobreza, a discriminação e opressão social em termos de gênero, raça, etnia, idade, condição física, sexualidade e desemprego. Ao contrário da esquerda clássica cujo programa econômico e plataforma de governo enfatizam reformas estruturais e estatização generalizada, a Left Unity, assim como o Podemos espanhol e o Syriza grego, advoga um novo tipo de governamentalidade: emprego total para todos, baseado na redução proporcional das horas de trabalho, habitações comunitárias, administração coletiva da infraestrutura de serviços, controle democrático de bens públicos e livre organização dos trabalhadores. Seu horizonte não é o estado de bem estar social com perfeito funcionamento do Estado, mas o reconhecimento e a redução do sofrimento.
A novidade desta nova esquerda não está apenas nas teses, mas principalmente nos meios que ela se utiliza para formar laços sociais, que passam pela literatura, pelo cinema e pelas práticas de vida alternativa. Isso significa, sobretudo, uma transformação discursiva em relação à esquerda tradicional e sua abordagem militante, baseada na expansão de identidades “preferenciais” e na confiança na lei, e consequentemente no Estado nacional, como fulcro do processo de reequilibração da desigualdade. Para isso há um discurso constituído, que pensa a cultura como serva da política e que teve no realismo socialista sua expressão mais definida. É, sobretudo, uma esquerda que não tem horror ao dinheiro nem espera gratuidade absoluta do Estado. Em vez de demonizar o consumo, qualificá-lo como nas práticas alimentares, em vez de confiar no Estado nação, entendê-lo como uma patologia.
No fundo, Miéville descende de um ramo perdido na arqueologia da esquerda, aquele que vem de André Breton e os surrealistas, passando por Walter Benjamin e Kafka e que encontra em Žižek uma de seus melhores expoentes contemporâneos na arte de misturar alta e baixa cultura, cotidiano servil e insólitas fantasias, ideológicas e críticas. Seu gênero literário do “New Weird Fiction” desenvolve o outro lado da imaginação política por meio da ficção científica, da comédia, do horror e do sincretismo de gêneros que incluem até mesmo livros para crianças. Daí a conhecida fórmula que o define: “99% geek, mas aquele 1% marxista…”. Leitor de Tolkien e entusiasta de Star Wars, Harry Potter e o Senhor dos Anéis, mas ao mesmo tempo ciente do universalismo contido na experiência de linguagem desenvolvida por James Joyce, Miéville atualiza o programa histórico contido nestas sagas medievais, anteriores ao surgimento do Estado moderno. Lembremos que este é também o tempo no qual miticamente está se formando um novo conceito de cidade.
Há algo comum nestas sagas, que inspiraram os cenários dos primeiros RPGs dos anos 1990, do tipo Dungeons and Dragons e que terminam em Game of Trones e seus vídeo games conexos. Elas remontam aos escritores irlandeses, como Jonathan Swifft, que viveram a experiência de proto-colonização e pauperização, enquanto primeira colônia britânica. Nesta condição de desvantagem, a invenção de um espaço simbólico anterior ou posterior à distribuição atual e real do território tornou-se absolutamente crucial. Nas palavras do próprio Miéville:
“O artista [crítico] finge que coisas sabidamente impossíveis são não apenas possíveis, mas reais, o que acaba por criar um espaço mental que redefine – ou simula redefinir – o impossível.”
China Miéville, “Marxismo e Fantasia”. Em: Margem Esquerda n.23. São Paulo, Boitempo: 2014. p.23.
Artigo completo disponível online aqui.
A experiência da cidade e o seu programa de reocupação dependem destas duas estratégias de negação do impossível: a reconstrução do que foi jamais-possível, ou seja, a reinvenção do passado pela fantasia, com seus fantasmas, vampiros, Frankenstein e a invenção de um novo futuro baseado no ainda-não-possível, como Zumbis, mutantes e extraterrestres. Qualquer um pode dizer que zumbis e fantasmas não existem, mas ao mesmo tempo sabemos que coisas como a cracolândia, assassinatos de negros em periferias de grandes cidades e corpos de refugiados boiando no Mediterrâneo existem. O problema central aqui é que entre a existência e a não existência existe uma coisa chamada Real. Real cuja verdade só é acessível por meio de estruturas de ficção.
As duas estratégias, combinadas pelo realismo “weird” são formas de criar uma consciência do não-real, que é em si um espaço, determinado por uma experiência fora de território, deslocalização ou perda de lugar. Isso é o que venho chamando de fator político do sofrimento em sua estrita dependência com gramáticas de reconhecimento. Caracterizar os despossuídos como entes privados da cidadania, excluídos ou refugiados é reduzi-los a uma única gramática de reconhecimento, aquela que liga o Estado e a nação ao império das leis e sua conexão necessária entre o espaço e o território. Para a psicanálise, “ocupação” (Besetzung, em alemão) é um termo pelo qual Freud designa o investimento contingente de desejo em um lugar ou representação.
Não posso deixar de lembrar aqui o comentário de Francesco Careri2, com quem estive na Flip deste ano. Em suas aulas de arquitetura ele convida os alunos a andarem pela cidade atravessando áreas, públicas, mas também privadas e, sobretudo, “indeterminadas”, sem permissão formal. Depois os convida a pensarem soluções para problemas das áreas e comunidades pela quais passaram. Tendencialmente, alunos alemães recusam-se a praticar tal abuso da lei, latino americanos não percebem sua importância transgressiva e os demais se interrogam sobre o senso de propriedade que rege a relação entre espaço e território em nossas cidades. Na mesma direção, o sociólogo Jaílson de Souza e Silva, do Observatório das Favelas, salienta o direito à convivência como um dos pontos fundamentais para uma nova esquerda brasileira.
Se há alguma potência política na vida digital é que ela nos mostra que o espaço simbólico não se sobrepõe ao território real. O sintoma e o artifício para fazer esta ligação é justamente este ser híbrido, feito de linguagem escrita e potencial violência, que é a lei. Não é por outro motivo que um dos ensaios teóricos mais penetrantes de China Miéville versa justamente sobre o imperialismo da lei na Europa emergente3. É por motivos análogos que ele recusa o nominalismo linguístico das políticas baseadas em lugares de fala fixos, que aprisionam pessoas em suas identidades, como os territórios legais tentam aprisionar sujeitos em seus espaços, ainda que com o justo argumento de empoderá-los.
“Hamd Hamzinic era o que os assassinos de Avid Avid também denominariam ébru. Hoje em dia o termo é usado principalmente pelos conservadores racistas, ou numa provocação reversa, pelos próprios alvos do epíteto: um dos mais famosos grupos de hi-hop besz se chamava Ebru W.A. […] a antiga palavra besz para ‘judeu’ foi recrutada para incluir novos imigrantes e virou o termo coletivo para ambas as populações.”
China Miéville, A cidade & a cidade. São Paulo, Boitempo: 2014. p. 32.
A ideia de que palavras são “recrutadas” exatamente como pessoas que são convocadas para exércitos, assim como a assimilação de termos ofensivos como estratégias de resistência nos lembra obviamente a interdição de palavras de conotação afetiva em Alphaville de Godard e a “novilíngua” de George Orwell, como fulcro da operação ideológica dos discursos. Como não reencontrar aqui o mesmo espírito dos neologismos Joyce-lacanianos, combinando ficção científica e romance policial, de Huxley a Ridley Scott, e a mesma resistência à padronização pós-moderna, politicamente correta e metalinguística do discurso, de Lang e Godard?
Em síntese: Miéville é o antídoto atualmente disponível para Alphaville.
Cruzar fronteiras é pior do que assassinato.

NOTAS
1 Parker, Ian (2014) Psicanálise Lacaniana: revolução na subjetividade. São Paulo, Annablume, 2014.
2 Confira a gravação completa da mesa com Francesco Careri clicando aqui.
3 China Miéville. Between Equal Rights: A Marxist Theory of International Law. Stanford Journal of International Law Winter 2007: 208+. 2005.

Chegou a obra prima de China Miéville!

Foto estoque_envioDepois do sucesso de A cidade & a cidade, chega ao Brasil o aclamado romance que consagrou o escritor inglês China Miéville como um dos maiores nomes da fantasia e da ficção científica contemporânea. Em Estação Perdido, primeiro livro de uma trilogia que lhe rendeu prêmios como o British Fantasy (2000) e o Arthur C. Clarke (2001), o leitor é levado para Nova Crobuzon, no planeta Bas-Lag, uma cidade imaginária cuja semelhança com o real provoca uma assustadora intuição: a de que a verdadeira distopia seja o mundo em que vivemos.

Onde encontrar? Livraria Cultura | Saraiva | Livraria da Travessa | Livraria Martins Fontes | Livrarias Curitiba
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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012 e um dos autores da coletânea Bala Perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação (Boitempo, 2015). Seu livro mais recente é Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015). Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.