Marcadores

Mostrando postagens com marcador MARIO VARGAS LLOSA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MARIO VARGAS LLOSA. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Combatente pela paz, por Mario Vargas Llosa.

Combatente pela paz


Todas as vezes em que disse em minha vida que Israel era o único país onde sempre me senti um homem de esquerda, era pelas coisas que ali fazia, dizia e escrevia Amos Oz, que faleceu há poucos dias


Conheci Amos Oz em novembro de 1976, em minha primeira viagem a Israel. Fui visitá-lo no kibutz Hulda, onde estava desde os 14 anos. (Sua mãe se suicidara dois anos antes). Seu primeiro romance, de título intraduzível ao espanhol, Quizás en Otro Lugar (Talvez em outro lugar) seria o mais aproximado, havia provocado uma grande controvérsia em seu país porque nele fazia uma minuciosa análise da vida nesses pequenos recintos idealistas —os kibutz— que buscavam, como disse ironicamente anos mais tarde, “criar pessoas boas e saudáveis, sem sequer suspeitar que os seres humanos não somos nem bons nem saudáveis”.
Vivia modestamente em uma casinha de madeira e tinha que se levantar ao alvorecer para trabalhar no campo com as mãos. Mas estava muito contente porque os dirigentes do Hulda lhe permitiam dedicar as tardes a escrever. Era jovem, otimista, incansável, e creio que desde o primeiro momento ambos soubemos que seríamos bons amigos. Nas sete ou oito vezes em que estive depois em Israel sempre demos um jeito para almoçar ou jantar juntos, e o mesmo em conferências e congressos literários pelo mundo, nos quais sempre arranjávamos uma brechinha para tomar um café. Todas as vezes em que disse em minha vida que Israel era o único país onde eu sempre me senti um homem de esquerda, era pelas coisas que ali fazia, dizia e escrevia Amoz Oz.
Tudo o que escreveu —seus romances, ensaios, reportagens— tinha a ver com problemas reais e imediatos, e essa preocupação com a vida política e social, inevitável para um escritor israelense, não era incompatível com a excelência literária, como se constata nesta obra prima que foi sua autobiografia, De Amor e Trevas (2002), e seu romance Meu Michel, traduzido em quase todo o mundo. Ao mesmo tempo que grande escritor, foi um lutador encarniçado pela paz e um dos fundadores do Movimento Paz Agora, que nos anos 80 chegou a ter milhões de seguidores em Israel. Lutou toda sua vida pela paz entre os israelenses e os palestinos porque conhecia os estragos terríveis que as guerras causam, já que havia participado de duas delas, a Guerra dos Seis Dias e a Guerra do Yom Kipur.
Seu sionismo não o impedia de ver as injustiças que os colonos cometiam nos territórios ocupados
Era um sionista convicto e confesso, porque acreditava que os israelenses tinham direito a ocupar uma terra à qual estavam ligados historicamente e um país que haviam construído, mas seu sionismo não o impedia de ver as injustiças que os colonos cometiam nos territórios ocupados. Por isso, defendeu até o fim de seus dias a ideia dos dois Estados —um israelense e outro, palestino—, apesar de que muitos de seus antigos amigos, após a direitização tão atroz experimentada pelo Governo israelense e o canceroso crescimento dos assentamentos ilegais nos territórios ocupados, achavam isso impossível e tendiam a apoiar a ideia de um só Estado laico e compartilhado pelas duas comunidades. Para Amos Oz esta solução parecia absolutamente irreal e inoperante (“isso só na Suíça”, insistia), algo que o levou a distanciar-se politicamente de outro grande escritor israelense, A. B. Yehoshua, de quem tinha sido muito amigo.
A última vez que o vi foi há dois anos, em um almoço em Jerusalém. Estava irreconhecível, de tão desanimado e silencioso, ele que parecia a alegria de viver encarnada e derramava energia por todos os poros. Era o câncer, sem dúvida, que começava a fazer estragos em seu organismo. Mas eu atribuí ao tom sombrio daquela conversa, da qual participavam Yehuda Shaul, fundador do grupo Breaking the Silence, no qual os próprios soldados denunciam os abusos que o Exército de Israel comete. Gideon Levy, um jornalista progressista muito conhecido; o romancista David Grossman —que sem dúvida o sucederá como consciência moral de seu país— e Juan Cruz, de EL PAÍS.
É verdade que não deve ser fácil ser um escritor laico e progressista em um país como Israel, onde, em cada eleição, sempre voltam ao governo as mesmas pessoas e as mesmas políticas extremistas, graças a pequenos partidos de fanáticos religiosos —aos quais Amos Oz dedicou precisamente um de seus últimos ensaios— cujos votos garantem a maioria ao Governo imperante. Em Israel, a democracia existe e funciona de maneira impecável para os israelenses (para os palestinos, claro, não). Há liberdade de imprensa, não existe a censura, os juízes são independentes, e a vida política é multíplice, livre, muito intensa. Mas se um visitante se embrenha na Cisjordânia já é outra coisa. As cidades e vilas palestinas estão praticamente cercadas pelos assentamentos ilegais, submetidas a um controle policial e militar rigidíssimo, e bloqueadas e retalhadas por uma muralhona gigantesca que separa as famílias de suas escolas e campos de trabalho. Etcétera. Claro que a ameaça do terrorismo é uma realidade e exige que sejam tomadas precauções para evitá-lo. Mas a impressão que se tem é que Israel já excluiu de seu programa as negociações de paz e que a tese de Sharon —nós imporemos a paz— passou a ser, pura e simplesmente, a política de todos os Governos israelenses. Para mim, esta possibilidade parece ainda mais irreal e disparatada que a do Estado único. Porque ela só se sustentaria convertendo o diminuto Israel em uma anacrônica África do Sul dos tempos do apartheid, cercado de inimigos pelos quatro costados.
Raras vezes falava de seus livros e, quando não havia mais remédio, fazia isso subestimando-os, e como se estivesse enfastiado
Quando se acompanha a obra de um escritor como Amoz Oz à medida que vai sendo produzida, observa-se a importância de que a literatura se alimente do que são as preocupações e angústias —e também exaltações e alegrias, é evidente— da gente comum, aquela que lê os livros e se reconhece neles, e, ao mesmo tempo, eles lhe permitem tomar distância desse mundo e encará-lo de uma perspectiva mais profunda e de mais alcance. Isso é o que a grande literatura tem sido sempre: uma maneira melhor de compreender tudo aquilo que constitui a vida, enriquecer a perspectiva dos fatos mais íntimos e pessoais, e, também, claro, dos coletivos, e a maneira mais eficaz de substituir os estereótipos, preconceitos e lugares comuns por ideias. Isto é o que Sartre dizia que devia ser a literatura em seu extraordinário ensaio Situations II, antes de desdizer-se de tudo aquilo quando recomendou aos escritores africanos que renunciassem a escrever para fazer primeiro a revolução socialista e criar países onde a literatura fosse possível. (Se tivessem seguido esse conselho, os países africanos nunca teriam literatura).
Na homenagem que lhe prestou, Gideon Levy (que foi tão crítico de suas posições políticas) fala de seu “encanto, de sua incrível modéstia, de sua magia”. É verdade. A vaidade costuma ser imensa entre os que nos dedicamos a escrever. Uma das exceções era Amoz Oz. Raras vezes falava de seus livros e, quando não havia mais remédio, ele fazia isso subestimando-os, e parecendo enfastiado. Certa vez o ouvi dizer que não entendia por que sua obra era tão conhecida em tantas partes e por tantos leitores diferentes. Vai fazer muita falta para todos nós. E, sobretudo, para Israel: poucos israelenses fizeram tanto por seu país como Amos Oz.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A decadência do ocidente, por Mario Vargas Llosa.

O ‘Brexit” e a vitória de Trump são um sintoma inequívoco da morte lenta em que se afundam os países que perdem a fé em si mesmos e renunciam à luta



Primeiro veio o Brexit, e agora foi a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Só falta Marine Le Pen ganhar as próximas eleições na França para ficar claro que, assustado diante das grandes mudanças trazidas pela globalização, o Ocidente, ponta-de-lança da cultura da liberdade e do progresso, quer dar uma marcha-a-ré radical, refugiando-se naquilo que Popper chamou de “o chamado da tribo” – o nacionalismo e todas as doidices que lhe são congênitas, a xenofobia, o racismo, o protecionismo, a autossuficiência –, como se parar o tempo ou voltá-lo para trás fossem apenas uma questão de mexer os ponteiros do relógio.

Não há nenhuma novidade nas medidas propostas por Donald Trump aos seus compatriotas para que estes o elegessem. O surpreendente é que quase sessenta milhões de norte-americanos acreditaram nele e lhe deram respaldo nas urnas.

Todos os grandes demagogos da história atribuíram os males de que seus países padeciam aos estrangeiros perniciosos, neste caso os imigrantes, a começar pelos mexicanos bandidos, traficantes de drogas e estupradores, até chegar aos muçulmanos terroristas e aos chineses que colonizam os mercados norte-americanos com seus produtos subsidiados e pagos com salários de fome. E também têm responsabilidade, é claro, pela queda da qualidade de vida e pelo desemprego, os empresários “traidores” que levam suas empresas para o exterior tirando trabalho e aumentando o desemprego nos Estados Unidos.

Não é incomum que se digam bobagens em campanhas eleitorais, mas o é, sim, o fato de pessoas que se supõe que sejam bem formadas e informadas, com sólida tradição democrática, acreditem nelas e premiem o inculto bilionário que as profere alçando-o à presidência do país mais poderoso do planeta.


O ímpeto que possibilitou que Trump ganhasse as eleições mostra que ele é algo mais do que um mero demagogo.

A esperança de muitos, agora, é que o Partido Republicano, que retomou o controle das duas casas legislativas e que tem em seus quadros pessoas experientes e pragmáticas, contenha os rompantes do novo governante e o dissuada de levar adiante as reformas extravagantes que prometeu realizar. Com efeito, o sistema político dos Estados Unidos possui mecanismos de controle e de contenção que podem impedir que um mandatário cometa loucuras. Pois não há dúvida de que, se o novo presidente se empenhar em expulsar do país onze milhões de imigrantes ilegais, em fechar as fronteiras a todos os cidadãos de países muçulmanos, em colocar um ponto final na globalização cancelando todos os tratados de livre comércio em vigor – inclusive o Trans-Pacific Partnership, em gestação – e punindo duramente as empresas que, para baixar seus custos, transferem suas fábricas para o terceiro mundo, provocará um terremoto econômico e social no seu país e em um número razoável de países estrangeiros, além de criar sérios problemas para a diplomacia dos Estados Unidos.

Sua ameaça de fazer os países da OTAN “pagarem” por sua defesa, algo que deixou Vladimir Putin encantado, fragilizaria de forma imediata o sistema de proteção dos países livres contra o novo imperialismo russo. O qual, diga-se de passagem, tem conquistado vitória atrás de vitória nos últimos anos: leia-se Criméia, Síria, Ucrânia e Geórgia. Mas não se deve contar demais com a influência mediadora do Partido Republicano: o ímpeto que possibilitou que Trump ganhasse essas eleições apesar da oposição de quase toda a imprensa e da classe mais democrática e bem-pensante, mostra que existe nele algo mais do que um mero demagogo rudimentar e desinformado: a paixão contagiosa dos grandes feiticeiros políticos de ideias simples e estabelecidas que arrastam multidões, a teimosia obsessiva dos caudilhos envoltos pela sua própria verborragia e que com ela envolvem os seus povos.

Um dos grandes paradoxos é que a sensação de insegurança, de que de repente a terra que pisavam começou a rachar e que os Estados Unidos entraram em queda livre, esse estado de ânimo que levou tantos norte-americanos a votar em Trump – idêntico ao que levou tantos ingleses a votarem pelo Brexit – não corresponde em nada à realidade. Os Estados Unidos superaram mais rapidamente e melhor do que o restante do mundo – em especial os países europeus – a crise de 2008, e, nos últimos tempos, vinham recuperando o emprego, além de ver sua economia crescer em ritmo razoável.

Politicamente, o sistema funcionou bem durante os oito anos de Obama, e 58% da população faziam um balanço positivo de sua administração. Por que, então, essa sensação de perigo iminente que levou tantos norte-americanos a engolir as mentiras de Trump?


Não resolverão nenhum problema, agravarão os que já existem a criarão outros mais graves.

Porque, é verdade, o mundo de antigamente é diferente do mundo de hoje. Graças à globalização e à grande revolução tecnológica do nosso tempo, a vida de todas as nações se encontra hoje em redefinição, experimentando desafios e oportunidades totalmente inéditos que remexem os alicerces de velhas nações como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, que acreditavam ser inamovíveis em seu poderio e riqueza, uma situação que abriu para outras sociedades – mais audaciosas, mais na vanguarda da modernidade – a possibilidade de crescer a passos de gigante e alcançar e superar as grandes potências de antigamente. Esse novo panorama significa, simplesmente, que o mundo dos nossos dias é mais justo, ou, se quiser, menos injusto, menos provinciano, menos exclusivista, do que o mundo de ontem.

Hoje os países precisam se renovar e se recriar constantemente para não ficarem para trás. Este mundo novo exige que se arrisque mais, que se reinvente sem cessar, que se trabalhe muito, que se impregne de boa formação, e que não fiquemos olhando para trás ou nos deixando levar pela nostalgia do passado. Este é irrecuperável, como logo irão descobrir aqueles que votaram pelo Brexit e em Trump. Não demorarão para perceber que quem vive olhando para trás se transforma em estátua de sal, como na parábola bíblica.

O Brexit e Donald Trump – assim como a França do Front National – significam que o Ocidente da revolução industrial, das grandes descobertas científicas, dos direitos humanos, da liberdade de imprensa, da sociedade aberta, das eleições livres, aquele que no passado foi pioneiro no mundo todo, está agora ficando para trás. Não por estar menos preparado do que os outros para enfrentar o futuro – muito pelo contrário –, mas por causa de sua própria complacência e covardia, pelo medo que sente ao descobrir que as prerrogativas que acreditavam antes serem apenas suas, um privilégio hereditário, estão agora ao alcance de qualquer país, por menor que seja, que saiba aproveitar as extraordinárias oportunidades que a globalização e os avanços tecnológicos colocaram pela primeira vez ao alcance de todas as nações.

O Brexit e a vitória de Trump são um sintoma inequívoco de decadência, dessa morte lenta em que se afundam os países que perdem a fé em si mesmos, renunciam à racionalidade e começam a acreditar em bruxarias, como a mais cruel e estúpida de todas elas, que é o nacionalismo. Fonte das piores tragédias experimentadas pelo Ocidente ao longo da história, ele agora ressuscita e, como os xamãs primitivos, parece adotar a dança frenética ou a poção vomitiva com a pretensão de derrotar a adversidade da praga, a seca, o terremoto, a miséria. Trump e o Brexit não resolverão nenhum problema, agravarão os que já existem e criarão outros mais graves. Eles representam a renúncia à luta, a rendição, o caminho para o abismo. Assim que se constatou o gigantesco equívoco, na Grã-Bretanha tanto quanto nos Estados Unidos, surgiram autocríticas e lamentações. Mas o choro também não é de muita utilidade neste caso; o melhor seria refletir de cabeça fria, admitir o erro, retomar a via da razão e, a partir de agora, enfrentar o futuro de forma mais corajosa e consequente.