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terça-feira, 14 de maio de 2019

Serão as mulheres as protagonistas da nova política?, por Inês Castilho.


Documentário da Netflix acompanha a trajetória de Alejandra Ocasio e outras três mulheres rebeldes, que estão sacudindo Washington. Com mobilização social e financiamento coletivo, elas enfrentam o machismo e propõem medidas radicais contra a desigualdade
Alexandria Ocasio-Cortez, a mulher mais jovem a ser eleita para o Congresso dos EUA
Say we want a revolution
We better get on right away
Well you get on your feet
And into the street 
[Dizemos querer uma revolução
Melhor andarmos depressa
Pois ponha -se de pé
E vá para a rua] 
Power to the people, de John Lennon

Em 2018, um número recorde de mulheres, pessoas não-brancas e outsiders concorreu ao Congresso norte-americano. Democratas há muito estabelecidos foram desafiados por novos democratas que disputavam pela primeira vez a nomeação nas eleições primárias.
O documentário Virando a mesa do poder (Knock Down the House), da realizadora Rachel Lears, acompanha a trajetória de Alexandria Ocasio-Cortez e de três outras mulheres das classes trabalhadoras – Amy Vilela, Cori Bush e Paula Jean Swearenging – em suas primeiras disputas contra poderosas máquinas políticas de velhos caciques democratas nas eleições primárias de diversos territórios norte-americanos.
Favorito no festival de Sundance 2019, o filme pode agora ser visto na Netflix. Uma hora e meia em que mantive o coração nas mãos e a crescente certeza de que alguma coisa muito importante está acontecendo. A linha condutora do documentário é a campanha de Alexandria, cuja vitória com 82% dos votos a transformou numa estrela em ascensão na política norte-americana e na mais jovem mulher a eleger-se para o Congresso. Progressista do partido Democrata, 29 anos, Alexandria – ou Sandy, como é chamada pela família – é filha de mãe faxineira, ativista e líder comunitária.
“Sou candidata e represento o Bronx, sou da terceira geração do Bronx. Sou latina, sou boricua [nascida na ilha caribenha de Porto Rico, que tem status político de estado norte-americano], descendente dos índios Taino e de escravos africanos. Tenho orgulho de ser americana!”, apresenta-se.
Concorreu com Joe Crowley, no cargo desde 1999, líder da bancada democrata na Câmara e quarto democrata mais poderoso do Congresso, que arrecada a cada campanha três milhões de dólares de empresas de Wall Street, imobiliárias e farmacêuticas. E que sequer morava nos bairros periféricos de Nova York onde vivem comunidades latinas e afrodescendentes, que dizia representar. Já a campanha de Alexandria foi feita exclusivamente com doações individuais. Sua candidatura vai muito além de democrata contra republicano ou esquerda contra direita, diz ela. “É sobre os de cima e os de baixo.”

Mulheres na política

Quando a tragédia atingiu sua família em meio à crise financeira, Alexandria Ocasio-Cortez, nascida no Bronx, Nova York, teve de trabalhar como garçonete em dois turnos diários para salvar a casa da família da execução hipotecária. Amy Vilela, de Nevada, sem saber o que fazer com sua raiva ao perder uma filha por falta de assistência médica, decidiu candidatar-se a deputada defendendo “Medicare para todos”; ela relata o conselho que recebeu de um estrategista do partido: “Não mostre suas emoções, isso faz as mulheres parecerem frágeis; seja mais malandra, diga aos eleitores que está nas mãos deles, que ‘sua coleira é deles’”. Cori Bush, enfermeira, resolveu candidatar-se depois que o assassinato de Mike Brown, um jovem negro desarmado do distrito de Ferguson, Missouri, levou protestos e tanques de guerra para seu bairro, onde vive uma das populações de afrodescendentes mais pobres do país e há o maior número de homicídios por habitante. Paula Jean Swearenging, filha e neta de mineiros, farta de ver as pessoas morrendo pelos efeitos ambientais da indústria do carvão do estado de West Virginia, “um dos mais pobres e adoecidos do país”, resolveu concorrer ao Senado. Essas são as mulheres retratadas no documentário.
O caminho se faz ao caminhar, demonstra em seu filme a fotógrafa e diretora Rachel Lears, que concebeu esse projeto no dia seguinte à vitória de Donald Trump à presidência.
Maquiando-se diante do espelho, Alexandria lembra que para candidatos homens ao Congresso há um protocolo de como devem se vestir. Já “para as mulheres, decidir como vão apresentar-se ao mundo envolve tantas decisões! Como preparar-se para alguma coisa que você não sabe o que é?”
As pessoas não veem o trabalho de garçonete como um trabalho verdadeiro, diz ela. Talvez por ser derivado dos cuidados tradicionalmente exercidos por mulheres, sem pagamento. “Mas minha experiência em servir as pessoas [hospitality, em inglês] me preparou muito bem para essa candidatura. Estou acostumada a ficar em pé durante 18 horas por dia, a sofrer uma tremenda pressão, a ser mal tratada pelas pessoas. Não é à toa que somos chamadas de classe trabalhadora: a gente não para de trabalhar!”.
Em campanha, Alexandria não perdeu o ritmo. “O que faço é conversar com os membros de nossa comunidade o tempo inteiro. Esse é o trabalho de organização para concorrer com uma campanha popular”, diz ela, percorrendo casa por casa para falar com as pessoas ou atendendo a reuniões com grupos.
Sua vitória, contudo, não se deveu somente ao trabalho individual. Antes, contou com um enraizado movimento de grupos de base do partido Democrata, que vinham recrutando candidatos outsiders para concorrer com políticos do establishment. Dois deles, o Justice Democrats e o Brand New Congress, formados por jovens, e cujo principal objetivo é acabar com a influência corruptora do dinheiro na política, receberam mais de 10 mil indicações. Os candidatos que apoiam recebem recursos adquiridos exclusivamente em crowdfundings. Alexandria Ocasio-Cortez foi indicada por seu irmão e teve a candidatura assumida pelo Brand New Congress.
“Nunca vimos isso na América, nessas proporções. Temos várias chapas e muitos candidatos concorrendo em 20018 que recusaram financiamento de empresas”, observa ela, que começou a campanha com 2 dólares e arrecadou mais de 200 mil.
“Queremos criar uma máquina de financiamento coletivo que possa fazer frente aos poderes institucionais atuais e realmente devolver o poder ao povo. E manter esse poder”, diz um dos componentes dos grupos.
“Homens representam 81% do Congresso, a maioria brancos e milionários, advogados, que só querem manter seu poder e reeleger-se, e não lutar contra as mudanças climáticas, a superpopulação carcerária, os problemas que nos afetam”, diz outro.
“Você não pode ter medo, porque eles virão pra cima de você. Não estou brincando, eles virão pra cima de você”, alerta um membro do grupo Whiteheads [Cabeças brancas], que também a apoiou.
“O tempo todo ele me dirá que eu não vou conseguir. Que sou pequena, muito jovem, inexperiente”, diz ela, ao preparar-se para um debate com seu oponente. Dirigindo-se ao namorado, fiel companheiro de campanha, ela afirma, num exercício de autoconvencimento: “Sou preparada o suficiente para fazer isso, madura o suficiente, corajosa o suficiente.”
Para cada 10 rejeições você receberá um sim, diz Alexandria para uma sobrinha, menina ainda, que a ajuda a fazer campanha na rua. “É assim que você vence”. Para uma das candidatas derrotadas, diz algo semelhante. “É preciso que 100 de nós sejamos candidatas para que uma vença”.

Abaixo do Equador

Ainda que timidamente, um fenômeno semelhante ocorre também no Brasil e na América Latina. Nas eleições de 2018, saltou de 51 para 77 o número de parlamentares mulheres, de 9,9% para 15% dos 513 representantes na Câmara. No Senado as mulheres mantiveram a mesma representação.
Eleita vereadora de Belo Horizonte em 2017, amiga e companheira de partido de Marielle Franco, a cientista política ligada ao movimento hip-hop Áurea Carolina foi eleita deputada federal (Psol-MG) já em 2018.
“Na América Latina, ter mulheres na política significa romper com uma lógica colonial que está na raiz da nossa formação,” diz ela, que inovou ao criar o Gabinetona, mandato coletivo e popular formado por quatro representantes, nas três instâncias de governo, subsidiado por uma rede de quase 100 voluntários de todo o território mineiro, que trabalham com as questões indígena, de economia e infraestrutura, direitos humanos, cultura, saneamento e meio ambiente, entre outros.
Ela é uma das parlamentares retratadas no projeto Emergência Política Mulheres, que vai investigar as inovações geradas por mulheres na política institucional no México, Colômbia, Brasil, Bolívia, Chile e Argentina.
projeto trabalha com a ideia de que o poder muda quando mulheres ascendem ao seu papel político. Ao dar visibilidade às práticas das mulheres no poder, querem criar novas referências e contribuir com um novo imaginário político a partir de uma perspectiva feminina.
“Estamos bem animadas e já vamos para a estrada. Dia 20 agora começamos a pesquisa no México, depois vamos para a Colômbia e a partir de meados de junho faremos o campo no Brasil”, diz Jonaya de Castro, que ao lado de Beatriz Pedreira responde pelas entrevistas com mulheres que assumiram mandatos no executivo e legislativo, a partir de um mapa colaborativo de mais de 600 mulheres eleitas no continente. Elas entrevistarão também acadêmicas e especialistas em gênero e política para entender a história e contexto social em cada um dos países.
O resultado desse trabalho será mostrado em 2020, numa série exibida pela Globonews – uma das parceiras do Instuto Update, organizador do projeto. Não será um trabalho independente, como o de Rachel Lears. Mas, como no seu filme, trará um panorama da diversidade e mudanças lideradas por mulheres do campo progressista, num universo até agora dominado por homens – brancos, ricos e heterossexuais, nunca é demais repetir.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

No Calvário, enquanto Jesus agonizava, nasceu o primeiro movimento de resistência feminina, por Juan Arias.


Diante dos apóstolos, todos homens, amedrontados, um punhado de mulheres lideradas por Maria Madalena decidiu desafiar o poder e ficou ao lado do crucificado durante toda a agonia



Cristãs durante missa na Sexta-feira Santa, em Lahore, Paquistão.
Cristãs durante missa na Sexta-feira Santa, em Lahore, Paquistão.  AP

Foi em um lugar considerado infame, chamado Gólgota (“lugar das caveiras”) ou Calvário, nos arredores de Jerusalém − no qual os condenados à morte pelos romanos eram deixados nus para agonizar, pregados no que se chamava de “estaca de tortura”, hoje chamada cruz −, que surgiu um dos primeiros movimentos de resistência feminina da História.
Foi naquele terrível lugar de tortura que o judeu Jesus foi conduzido à morte, após ter sido condenado pelo governador da província da Judeia, Pôncio Pilatos. Os romanos, em conivência com algumas das altas autoridades religiosas judaicas, acusavam Jesus de ser um subversor da ordem. Seu crime era estar sempre rodeado por pessoas que o poder desprezava, como leprosos, endemoniados, prostitutas e pescadores incultos.



E foi aos pés da estaca de tortura em que Jesus agonizou, no meio de uma terrível crise de solidão que o fez exclamar “meu Deus, por que me abandonaste?”, que nasceu o primeiro movimento de resistência das mulheres −, que caracterizaria o início do primeiro cristianismo, nascido do judaísmo. Nele, as mulheres foram as protagonistas, até que o apóstolo Paulo, chamado de “o postiço” porque não havia conhecido Jesus e foi um convertido posterior, decidiu retirá-las da esfera do poder, que seria só masculino. As mulheres estariam “subordinadas ao homem” em tudo, dentro e fora da Igreja.
No entanto, a semente da resistência feminina continuou viva. Dois mil anos depois, ela volta a erguer a cabeça fora e dentro da Igreja. Tudo começou durante o drama da paixão, quando os apóstolos, desiludidos ao ver seu líder, de quem esperavam um reino melhor, ser crucificado como um malfeitor qualquer, esconderam-se com medo de que também fossem perseguidos.
E foi naquele momento que, diante dos apóstolos, todos homens, amedrontados, um punhado de mulheres lideradas por Maria Madalena, entre as quais estava também a mãe de Jesus, decidiu desafiar o poder e ficou ao lado do crucificado durante toda a agonia. Além disso, passado o sábado, que era de descanso total para os judeus, no domingo, “antes de amanhecer”, Maria Madalena saiu, sem medo, rumo ao Gólgota para ver onde tinham enterrado Jesus.
Os quatro evangelhos diferem às vezes sobre o grupo de mulheres valentes que desafiaram tudo para estar ao lado do crucificado. Mas todos eles sempre mencionam Maria Madalena como a líder do grupo. E foi para ela que Jesus apareceu primeiro, antes de aparecer para os apóstolos. É algo que sempre atormentou um dos mais famosos pais da Igreja, São Tomás de Aquino, que se perguntava, desconsolado, por que Jesus, que tinha criado uma comunidade de apóstolos, todos homens, teve de aparecer para uma mulher. Sobretudo quando, na cultura judaica daquela época, a mulher não podia nem estudar as Escrituras nem ser testemunha confiável em um julgamento. E se a mulher era descoberta em adultério, era condenada à morte por lapidação. O homem, não.
Assim, quando Maria Madalena, que na teologia moderna aparece cada vez com maior credibilidade como esposa de Jesus, mandou dar a Pedro, que estava escondido, a notícia de que Jesus havia ressuscitado, o discípulo não acreditou. Só quando Jesus começou a aparecer também para os outros apóstolos é que eles perderam o medo, e todos acabaram dando a vida pelo Mestre.

No entanto, já era tarde. As mulheres continuaram com seu movimento de resistência, conscientes de que tinham sido elas e não os apóstolos, nem mesmo Pedro, as primeiras a saber que Cristo tinha ressuscitado e estava vivo. Mas foi ainda no início do cristianismo que as mulheres acabaram relegadas a um segundo plano e teve início uma operação de desconstrução do poder feminino que dura até hoje. Foi nessa operação de relegar a mulher a um segundo plano, de mera ajuda aos homens, que a Igreja confundiu Maria Madalena com uma das prostitutas do Evangelho, e manteve esse erro até pouco tempo atrás.
Certamente, se a operação de desconstrução do poder feminino na Igreja tivesse fracassado, hoje o cristianismo seria diferente, livre do machismo que o invade. Até quando se perpetuará essa injustiça? Talvez não fosse necessário nenhum milagre como no Gólgota com Madalena. Bastaria que um grupo de cardeais decidisse escandalizar a ortodoxia e elegesse uma Papisa, com todos os poderes. Seria a vingança de Madalena, que repetiria a loucura do Gólgota sendo a primeira testemunha de que Jesus continuava vivo. Hoje, parece que ele morreu de novo. O que realmente morreu é a presença que, pela história e pela fé, a mulher deveria ter tido no cristianismo.
Lembro-me de uma das viagens do papa João Paulo II aos Estados Unidos. Uma religiosa o encarou, recordando-lhe a injusta discriminação que a mulher, protagonista no primeiro cristianismo, sofre hoje na Igreja. O papa polonês lhe recordou que, na Igreja, o lugar da mulher é “de joelhos diante da cruz”. Ele se esqueceu de que, de joelhos ou de pé, foi justamente aos pés de Jesus crucificado que nasceu o primeiro movimento de resistência da mulher na Igreja.
Feliz Páscoa da ressurreição a todos, crentes ou não. Todos nós precisamos de novas ressurreições pessoais e comunitárias. E do amor real ou simbólico de Madalena.
Como escreveu a poeta brasileira Roseana Murray na apresentação do meu livro Madalena, o Último Tabu do Cristianismo (editora Objetiva, Rio de Janeiro):
“O amor é o jogo maior,
o jogo mágico que se joga,
com pedras sagradas”.
Adere a 

domingo, 7 de abril de 2019

Tábata Amaral: 'Sou chamada de delinquente e débil mental no Congresso'


A visibilidade nacional, no entanto, chegou só na semana passada, quando Amaral protagonizou um debate duro com o ministro da Educação, Ricardo Vélez. "Em um trimestre não é possível que o senhor apresente um Power Point com dois, três desejos para cada área da educação. Cadê os projetos? Cadê as metas? Quem são os responsáveis?", diz a parlamentar estreante de 25 anos em um vídeo compartilhado milhares de vezes.
Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil na Universidade de Harvard, onde participa de roda de palestras, Amaral falou sobre a rotina no Congresso, que classifica como "um ambiente que tenta te expulsar rapidamente". E conta que sofre recorrentemente assédio e preconceito.
"Já perdi a conta do número de vezes em que alguém insinuou que eu era burra ou não tinha nenhum conhecimento", diz. "Sou chamada de burra, delinquente, débil mental e outras coisas que já me chamaram em plenário."
"As pessoas chegam e perguntam se sou casada no meio de uma votação, vêm me tocar de uma maneira que não é adequada para uma parlamentar. É um ambiente muito arisco para as mulheres."
Também falou sobre a possível mudança do ministro, ventilada pelo presidente Jair Bolsonaro na última sexta-feira.
"A gente não vai aceitar qualquer tipo de ministro", diz.
"O maior exemplo que eu dou: o ministro da Economia, se não tivesse a menor experiência de gestão ou com economia, não teria sobrevivido uma semana no cargo. Por que a gente demora tanto para se incomodar com o ministro da Educação?"
Criada na Vila Missionária, bairro pobre paulistano, e novata no Congresso, Amaral já trabalhou como pesquisadora, professora, funcionária de secretarias de educação e estudou na universidade de Harvard, graças a bolsas de estudos. Filha de um cobrador de ônibus e de uma diarista, ela ganhou pelo menos 30 medalhas em concursos de matemática, astronomia, física e robótica.
"O nosso vestibular é muito burro, para falar português claro. Ele olha quem chegou mais longe, e não quem correu mais", diz. "Não passei na Unicamp e no ITA, mas passei nas seis melhores faculdades dos EUA com bolsa completa. Porque no vestibular daqui (EUA) eu falei que trabalhava desde os meus 7 anos. E isso contou."
A deputada, que se classifica como "progressista", de "centro-esquerda" e defende cotas sociais e raciais, diz acreditar que a universidade pública é um ambiente elitista, frequentado por ricos.
"Se uma pessoa tem condições de pagar por uma faculdade, acho que ela deveria. E quem não tem condições, não tem que fazer financiamento, não tem que fazer nada, tem que ter a faculdade pública."
Leia os principais trechos da entrevista:
BBC News Brasil - Como viu a repercussão do seu debate com o ministro da Educação?
Tabata Amaral - Aquela não foi a primeira tentativa de conversar com o ministro. A praxe é que ele participe da primeira reunião da Comissão de Educação e ele não foi. Para mim, as pessoas se identificaram com o vídeo porque esta é a pasta mais importante do país, num dos países mais desiguais do mundo, e não víamos nada acontecendo, só fumaça, desmandos e polêmicas.
A repercussão do vídeo deixa um sentimento de que esse é o trabalho do parlamentar. Não é só legislar, é fiscalizar o governo também. E não deveria ser estranho que a gente pedisse como parlamentares quais são os planos e ideias.
Depois só ficou a certeza de que de fato não há um planejamento dentro do ministério. Parece que não há sequer um ministério. O MEC (Ministério da Educação) não se posiciona com os cortes de pessoas e verbas, não se posiciona quando é o ministério da Economia, que chama uma discussão sobre o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). O MEC foi como convidado a uma reunião sobre isso. Soma tudo isso com a falta de qualquer plano e para a gente dá uma revolta muito grande.
BBC News Brasil - Como avalia a reação do ministro às suas colocações?
Amaral - Não sei nem o que dizer. O ministro não tem a menor experiência com a educação pública brasileira, a menor experiência com gestão, e o que mais incomoda é que não há a menor disposição de aprender ou ouvir as pessoas que estão interessadas.
Já que o ministro não tem um plano, não sabe quantos alunos há na rede, qual é a verba, qual a diretriz para o ensino técnico, isso tem que vir da sociedade e do Congresso. Dali eu não espero que venha mais nada.
BBC News Brasil - O presidente Bolsonaro acenou uma perspectiva mais clara de substituição do ministro. Isso traz algum tipo de esperança à senhora?
Amaral - Dado o cenário de total paralisia e ausência do MEC nos principais debates, sim, eu fico pelo menos muito atenta para entender se dessa vez vem alguém com um pouco de experiência e conhecimento.
Algumas pessoas não entenderam que neste momento eu não estou muito preocupada com o posicionamento ideológico de quem vai ocupar essa pasta. Porque está tudo paralisado, corremos o risco de não ter Enem. O Brasil corre o risco de não fazer as principais avaliações. Só quero alguém que conheça a educação pública e tenha experiência em gestão. A gente só vai descobrir na segunda-feira. Mas há espaço para o Parlamento e para a população dizer: 'A gente não vai aceitar qualquer tipo de ministro'
O maior exemplo que eu dou: o ministro da economia, se não tivesse a menor experiência de gestão ou com economia, não teria sobrevivido uma semana no cargo. Por que a gente demora tanto para se incomodar com o ministro da Educação?
BBC News Brasil - A senhora destacou com ênfase que ele tinha uma mera carta de intenções, mas não um projeto concreto. Que projeto a senhora propõe?
Amaral - O MEC tem que apresentar sua visão para o Fundeb. Ele vence no próximo ano e não é possível que o principal motor da educação pública não receba a menor atenção do ministério. Que modelo eles estão propondo? Apoiam que o Fundeb vá para a Constituição? Como fazer que ele seja mais redistributivo? Como olhar para as práticas de gestão e resultados? O ministério não pode se ausentar dessa discussão, temos basicamente um ano para fazer isso. Quando vai apresentar?
Outra coisa paralisada é a questão da formação dos professores. A gente tinha começado a avançar nessa discussão e não tem mais nada. O Brasil é um dos poucos países que se dizem comprometidos com a educação pública e não tem uma política nacional de formação. O que a gente espera de um professor depois de quatro anos? Que queremos avaliar depois da formação? Qualquer tipo de formação vale? Educação a distância faz sentido para todos os anos?
Além das políticas que já estavam em andamento e estão paralisadas. Implementação da base comum curricular, municípios precisam de apoio nessa área, implementação da reforma do ensino médio, uma política de ensino técnico. Tudo isso não são coisas muito muito complexas, já estavam encaminhadas no MEC e foram engavetadas e foram deixadas de lado hoje.
BBC News Brasil - A senhora é uma estreante no Congresso, como quase metade dos congressistas hoje em dia. Como é aquele ambiente? O que pode contar para quem nunca pisou no Salão Verde?
Amaral - Trabalho com educação há quase 10 anos. Já trabalhei como pesquisadora, professora, em secretarias de educação. As figuras de educação da política nacional eu conhecia. Ou porque fiz pressão sobre elas, com abaixo-assinados, protestos, etc, ou porque elas estavam abertas para o diálogo com a juventude. Para mim, essa é a porta de entrada e eu quero realmente dedicar meu mandato a essa área.
Sobre o dia a dia no Congresso, é um aprendizado rápido e muito difícil. É um lugar que não está acostumado com pessoas como eu e diariamente sou questionada sobre como fui parar ali. Eu não sou filha de político, não sou herdeira e estou muito longe de ser um fenômeno da internet. As pessoas não entendem. Elas perguntam mesmo: 'você é filha de alguém?', 'você é dona de alguma empresa?', 'você é casada ou solteira?', 'você não é deputada estadual?'. Eu sei a ordem em que as perguntas chegam.
É um ambiente que tenta te expulsar rapidamente. Mas sempre que vejo as pessoas da minha comunidade, principalmente a juventude e as mulheres que olham para mim e sentem que a educação é para a gente também, você enfrenta o preconceito, o assedio, as piadas, e continua trabalhando e aprendendo.
BBC News Brasil - Assédio, preconceito e machismo são problemas reais ali dentro?
Amaral - Com certeza. Já perdi a conta do número de vezes em que alguém insinuou que eu era burra ou não tinha nenhum conhecimento. Eu estudei astrofísica, fui bolsista pelas Olimpíadas de Matemática. Eu só andava com os meninos que gostavam de ciência e sempre tive muito contato com o machismo porque as pessoas não entendiam como uma menina gostava de ciências. E toda vez tentavam dizer que eu não era tão boa por ser uma menina.
Então, quando eu entro no Congresso e sou chamada de burra, delinquente, débil mental e outras coisas que já me chamaram em plenário… É um risco muito fácil você acreditar porque está todo mundo dizendo que você não é boa o suficiente.
Tem assédio, as pessoas chegam e perguntam se sou casada no meio de uma votação, vêm me tocar de uma maneira que não é adequada para uma parlamentar. É um ambiente muito arisco para as mulheres. As pessoas não te encaixam ali e querem te expulsar e convencer que você nao deveria estar ali.
BBC News Brasil - Na repercussão do vídeo, houve setores mais radicais que desconsideram a conversa e criticaram a senhora por não ser de esquerda, por exemplo. Como viu isso?
Amaral - As pessoas tem uma necessidade muito grande de rotular os outros porque o nosso cérebro funciona assim. Eu tenho uma vida muito diferente. Conhecer a periferia e conhecer Harvard me definem mais que qualquer um dos dois extremos. Não sou mais só alguém da periferia, porque tive oportunidades que ninguém teve, mas também não sou só uma ex-aluna de Harvard, porque não fui aos mesmos museus, aos mesmos parques, e não tenho a mesma rede de contato.
As duas coisas fazem de mim quem eu sou. Da mesma forma que as pessoas no Congresso ficam perplexas e incomodadas porque não faz sentido eu estar ali, as outras pessoas também ficam muito agoniadas porque não conseguem me encaixar em caixinhas.
Eu me considero progressista, essa para mim é uma excelente apresentação. Para mim o maior problema do Brasil é a desigualdade, minha maior missão é com educação pública de qualidade para todos, mas acho que faz sentido falarmos de gestão eficiente, desenvolvimento econômico sustentável, e se as pessoas se incomodam porque isso não caracteriza alguém típico de extrema esquerda ou direita, sinto muito, eu vou continuar trabalhando.
BBC News Brasil - A senhora falou em dois lados. É errado enxergá-la no centro?
Amaral - Acho que direita e esquerda são termos muito antigos que não explicam o mundo de hoje. Foram cunhados há 200 anos, quando não se entendia o que é feminismo ou desenvolvimento sustentável.
Se tivesse que me colocar no espectro, eu me colocaria na centro-esquerda. Mas sinceramente que no futuro progressista diga mais sobre quem eu sou.
BBC News Brasil - Como foi sua trajetória até Harvard e depois ao Congresso nacional?
Amaral - Minhas oportunidades na educação começaram com olimpíadas de matemática nas escolas públicas, uma política do governo federal em 2005. Com essa oportunidade e uma professora da escola estadual que me ajudou a me preparar para a competição, eu ganhei uma bolsa de estudos para escola particular e uma para estudar inglês.
Eu trabalho desde pequena, bordava e fazia artesanato para ajudar em casa, e não pensava no que faria depois do Ensino Médio. Ninguém nunca nem tinha me posto essa possibilidade. Essa foi a grande diferença. Eu passei a estar em lugares em que as pessoas acreditavam que se podia fazer faculdade. Foi assim que vim parar em Harvard. Com uma bolsa da faculdade, quase sem falar inglês, mas com professores que acreditaram em mim. Vim em agosto de 2012 e terminei em maio de 2016.
Eu cresci na periferia. Já perdi a conta do número de amigos e vizinhos que perdi com 14 ou 15 anos para as drogas, crime, violência. Perdi meu pai com 39 anos para as drogas. Eu não saí de um lugar para o outro, passei a viver em dois mundos completamente diferentes e vivo neles ainda. Me identifico com a periferia, aprendi muito em Harvard, mas não vivo 100% em nenhum dos dois mundos. Isso que me levou para a educação e para a política.
BBC News Brasil - Como vê políticas afirmativas, cotas por cor ou situação econômica?
Amaral - É importante olhar para as evidências e a realidade das pessoas e esses dois elementos mostram que alunos de escola pública saem muito atrás na corrida. E que alunos negros da escola pública saem ainda mais atrás.
O nosso vestibular é muito burro, para falar português claro. Ele olha quem chegou mais longe, e não quem correu mais. Eu não passei na Unicamp e no ITA, mas passei nas seis melhores faculdades dos EUA com bolsa completa. Porque no vestibular daqui (EUA)eu falei que trabalhava desde os meus 7 anos. E isso contou. Eu contei a minha história.
Quando o nosso vestibular é tão ignorante e quando o ponto de partida é tão desigual, as cotas são as maneiras que temos hoje de igualar um pouco esse ponto de partida. Mas acho que temos que mudar o vestibular como um todo. Tem que olhar para a trajetória da pessoa, para a renda. Não é só uma prova. Hoje sou a favor das duas cotas porque dentro da escola pública há uma desigualdade racial.
BBC News Brasil - E sobre o fim do ensino público superior gratuito?
Amaral - Nesse momento não acho que há ambiente para se falar em cobrança dentro do ensino superior. Defendo ampliar as formas que as universidades podem se financiar. Para mim, uma faculdade pode fazer uma parceria com empresas, como vi aqui em Harvard, para construir conhecimento. Para mim, uma universidade pode receber doações, inclusive de ex-alunos.
Agora, em um futuro, acho que vale sim uma discussão nesse sentido. Se uma pessoa tem condições de pagar por uma faculdade, acho que ela deveria. E quem não tem condições, não tem que fazer financiamento, não tem que fazer nada, tem que ter a faculdade pública.
Se você vê os carrões que estão na faculdade de física da USP, vê que a faculdade pública é para a elite hoje. Ou a gente muda o vestibular para dar chances iguais para todo mundo e para de financiar apenas um grupo da sociedade, ou a gente no futuro começa a cobrar de quem pode pagar e deixa a faculdade gratuita para quem precisa. Mas esse momento não chegou ainda.
BBC News Brasil - Há alguma perspectiva de tempo para que essa discussão esteja mais madura?
Amaral - Não, não é uma coisa de tempo, mas de mudar como vemos o Ensino Superior. Ele é extremamente elitizado, quem vai para a faculdade pública é quem teve muito acesso e oportunidade. Isso tem que mudar antes de falarmos de mudança de mentalidade.