Marcadores

Mostrando postagens com marcador CLASSE MÉDIA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CLASSE MÉDIA. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Violência anti-intelectual da classe média sustenta Bolsonaro, por Christian Schwartz



Autor rejeita ideia de cisão identitária na eleição e atribui resultado a camadas que veem educação como algo ornamental


10/02/2019 11:59
(Ilustração - Alex Kidd)
Créditos da foto: (Ilustração - Alex Kidd)
 
Há uma pergunta que, respondida em toda a sua complexidade, tem o potencial de iluminar muito do que se passou na política brasileira recentemente. É a seguinte: por que caminhos (ou diabos) o “Não me representa” dos protestos de junho de 2013 rapidamente virou o “Mito! Mito!” que anima o comício permanente de Jair Bolsonaro—e deve ser, ao que parece, uma espécie de grito de guerra deste governo tribal?

Num texto recente, a jornalista e escritora Eliane Brum lançou a tese de que, segundo ela pela primeira vez na história do Brasil, o presidente é um “homem mediano”. O argumento avança em três movimentos.

Expõe, primeiramente, o que seria um contraste: ao contrário de todos os seus antecessores no cargo (o texto silencia, curiosamente, sobre a única antecessora, nem uma só vez mencionada), Bolsonaro careceria de excepcionalidade. “Jair Bolsonaro é o homem que nem pertence às elites nem fez nada de excepcional. Esse homem mediano representa uma ampla camada de brasileiros”, escreve a jornalista.

Nas duas etapas seguintes, reafirma a explicação padrão de nossos intelectuais ditos progressistas para o fenômeno, este sim inédito, de um presidente de extrema direita.

Começa pela assertiva de que “a posição do homem heterossexual no topo da hierarquia nunca foi tão questionada como nos últimos anos”; defende, a seguir, que os governos anteriores ao do interino Michel Temer teriam feito avançar, em grau sem precedentes, direitos de gênero, classe e, com especial destaque, raça. “O reconhecimento destes direitos e a ampliação do acesso dos negros a espaços até então reservados aos brancos teve grande impacto no resultado eleitoral e também no antipetismo”, reflete Brum.

Já em relativa contradição com o movimento inicial, quando falava de “ampla camada de brasileiros”, o texto prossegue: “O novo presidente representa, principalmente, o brasileiro que nos últimos anos sentiu que perdeu privilégios”. No estilo peculiar de sua prosa, Brum oferece uma imagem contundente desse brasileiro: “Macho. Branco. Sujeito Homem”.

Para a jornalista, foi apenas circunstancial que Bolsonaro tenha amealhado milhões de votos de mulheres e de uma parcela expressiva da população que poderia se autodeclarar preta ou parda, conforme os critérios cotistas (ainda) em vigor.

Brum tem razão ao afirmar que Bolsonaro “não é representante apenas de um estrato social. Ele representa mais uma visão de mundo”. Parece escapar à autora, porém, que não se adota uma “visão de mundo” dessa radicalidade apenas circunstancialmente —como ela sugere que teriam feito as eleitoras de Bolsonaro.

Isso, por si só, já bastaria para desautorizar a tese de uma revolta do homem branco, rico e heterossexual como motor da ascensão da extrema direita. E, no entanto, já sem o pudor de meias palavras como “mediano”, de conotação mais branda, Brum chega a uma explicação própria para o grito de guerra bolsonarista: “É assim que um homem medíocre como Bolsonaro vira ‘mito’. Ameaçados de perder a diferença que lhes garante privilégios que já não podem ter, Bolsonaro e seus seguidores [...] afirmam sua mediocridade como valor”.

Talvez fosse o caso de, antes, perguntar se o que Bolsonaro representa não é a síntese de algumas características sociais e comportamentais marcantes dos brasileiros —e brasileiras—, especialmente em sua relação sempre atribulada com a ideia de democracia representativa.

Em suma: por que nós —num amálgama complexo, como mostraram as pesquisas de intenção de voto em 2018, no qual se misturaram, em proporções variadas, eles e elas, pobres e semipobres, além dos ricos, e ainda pretos, pardos e brancos— decidimos por maioria eleitoral que a triste figura de Bolsonaro, aos brados de “Mito! Mito!”, deveria preencher o vazio do “Não me representa”?

Ilustração de capa - Alex Kidd

Mas voltemos à falta de excepcionalidade de Bolsonaro. O que mais chama a atenção, e logo na primeira frase do texto de Brum, é que essa ideia venha fortemente acoplada a outra, a de novidade: “Desde 1º de janeiro de 2019, o Brasil tem como presidente um personagem que jamais havia ocupado o poder pelo voto”, afirma o artigo. “Em vez de votar naquele que reconhecem como detentor de qualidades superiores, que o tornariam apto a governar”, analisa a jornalista, “quase 58 milhões de brasileiros escolheram um homem parecido com seu tio ou primo. Ou consigo mesmos.”

Afora a ideia facilmente contestável de que a democracia seja esse governo dos melhores, e voltaremos a isso, também se poderia objetar, quanto à observação de Brum, que votar em alguém parecido com o tio ou o primo —note-se: num homem feito fulano ou sicrano e, por extensão, feito Bolsonaro— não haverá de ser a mesma coisa que votar em alguém parecido consigo mesmo para vastos contingentes do eleitorado, mulheres sobretudo.

O comentário seguinte da jornalista, porém, é que merece escrutínio mais detalhado. Na construção de sua persona pública de “homem mediano”, o próprio Bolsonaro muitas vezes insistiu no fato de que, como deputado do baixo clero, não tinha prestígio. “Eu não sou ninguém aqui”, afirmou o agora presidente em discurso no plenário da Câmara em 2011, destaca Brum, como ilustração ao próprio argumento.

Dá-se, assim, mais uma volta ao parafuso: o(a) eleitor(a) de Bolsonaro, à semelhança do eleito, reaparece agora em sua encarnação definitiva —a do proverbial zé-ninguém (quem sabe também a de uma maria-vai-com-as-outras?).

Seria uma imagem completamente desabonadora, não fosse sua surpreendente semelhança com a caracterização que, em livro-manifesto de 2017 (“Só Mais um Esforço”, publicado pelo selo Três Estrelas, do Grupo Folha), o filósofo Vladimir Safatle, colunista deste jornal e voz incontornável da esquerda, registrou como a do manifestante típico das chamadas Jornadas de Junho de 2013.

No relato de Safatle, um desses manifestantes, respondendo a repórter que pedia para anotar seu nome depois de uma rápida entrevista de rua, teria dito: “Anota aí: eu [não] sou ninguém”.

“Por mais paradoxal que possa inicialmente parecer”, comenta então o autor, “‘Eu [não] sou ninguém’ é a mais forte de todas as armas políticas. [...] é, na verdade, a forma contraída de: ‘Eu sou o que você não nomeia e não consegue representar’”. É quase inevitável, aqui, a lembrança da alcunha pela qual Bolsonaro passou a ser referido em fóruns de esquerda (inclusive no texto de Brum): “o coiso”, aquele que não tem nome, cuja representação extrapola os limites de certo imaginário político.

Ironicamente presciente, o manifesto de Safatle conclui, ainda sobre os protestos de 2013: “Uma insurreição não é necessariamente a emergência de um novo sujeito político. A insurreição pode ser a explosão bruta da revolta, mas, para que essa revolta forje um sujeito emergente, é necessário ainda mais um esforço”.

Todavia, como em outras partes do mundo, também aqui quem ainda guardava um último fôlego eram a extrema direita e seu candidato zé-ninguém —e talvez com essa o filósofo não contasse (embora deva-se conceder que, ao propor um programa de ação, Safatle pensava a longo prazo, não eleitoralmente).

Até o momento, as versões da esquerda para o desarranjo político recente ora partem de premissas ruins —políticas identitárias provocariam “grande impacto” no voto por ressentimento de uma suposta massa de privilegiados (Brum), soluções revolucionárias teriam suficiente apelo no Brasil de hoje (Safatle)—, ora incorrem em erros conceituais básicos, como este, novamente no texto de Brum: “[...] a ideia de que aquele que é considerado o melhor deve ser o escolhido para governar atravessa a política e o conceito de democracia”.

Se há novidade em Bolsonaro, não está no fato de ele ser mais um produto ruim da vontade popular.
Talvez o problema de fundo seja precisamente a expectativa em torno das virtudes (e as há) da democracia representativa —a ponto de sua mais progressista versão, a social-democracia europeia, inexplicavelmente merecer o desprezo de certa esquerda delirante.

Num dos bons livros lançados recentemente sobre a atual crise do sistema representativo, “Como a Democracia Chega ao Fim” (ed. Todavia), o professor David Runciman, da Universidade de Cambridge, tratou de repensar, à luz de uma história de mais de dois séculos, os limites desse arranjo político.

(Meses antes da chegada do livro ao Brasil, em entrevista à Ilustríssima, Runciman comentava a eleição de Donald Trump, nos EUA, como típico exemplo da prevalência, na política atual, da mentira sobre a hipocrisia. E, intuindo talvez que as eleições brasileiras não escapariam à sina de um candidato populista à imagem de Trump, vaticinava: “Acho melhor ser governado por adultos hipócritas do que por crianças mentirosas, mas, infelizmente, não tem sido essa a visão preponderante nas democracias contemporâneas”. Deu Bolsonaro.)

No final do ano passado, Runciman voltou à carga em conferência intitulada “Democracy for young people” (democracia para jovens) e veiculada no podcast Talking Politics. Ali, reelabora seus argumentos —além de, como já fizera no livro, avançar propostas para “consertar” o sistema representativo em sua hora mais difícil.

A mais polêmica delas, que ganhou as páginas dos jornais ingleses, é a de baixar a idade mínima dos eleitores para seis anos. Sim, logo que entrassem na escola primária, e portanto passassem a participar oficialmente —como cidadãs letradas, importante notar— da vida institucional da sociedade, as crianças ganhariam também o direito ao voto.

A preocupação central de Runciman é que o envelhecimento da população em democracias —elas próprias já bastante maduras, como a do Reino Unido e as de países da Europa Ocidental— levou a desequilíbrios no sistema representativo, um deles particularmente acentuado: os jovens estariam não apenas sub-representados politicamente mas também assistindo a um completo descaso por parte de seus representantes em temas de longo prazo, como o aquecimento global.

Ora, nessas questões, se alguém pode vir a sofrer as consequências da inércia dos políticos de hoje —a maioria na meia-idade, no que se assemelham à média da população daqueles países— são justamente os eleitores mais novos e sua descendência. Daí Runciman sugerir uma “democracia para jovens” 1.

O problema, porém, tem origens bem mais remotas: entre os argumentos de Platão contra a democracia estava o de que ela espelharia o comportamento dos jovens —de rapazes, em particular. “E vocês sabem como são os rapazes”, ilustra Runciman: “São inconstantes, propensos à violência e a mudar de ideia, decidem uma coisa à noite e no dia seguinte, quando acordam de ressaca, já mudaram de ideia outra vez; bebuns, endividam-se e são facilmente influenciáveis [...]”. Tanto quanto os jovens, a democracia seria, numa palavra, “volátil”.

É preciso lembrar, contudo, que Atenas ainda não conhecia o conceito de representação: os cidadãos —status a que, admita-se, nem todo mundo tinha acesso— participavam diretamente das decisões.

Para Runciman, foi uma “intuição de gênio” a que tiveram os pioneiros da democracia representativa, já nos séculos 17 e 18, a saber: mesmo com o voto sendo mais e mais franqueado até ser “universalizado” —em eleições a que, não por outra razão, chamamos sufrágio universal, ainda que imprecisamente, pois crianças, como mulheres noutras eras, continuam de fora—, o tempo provaria que os eleitorados jamais votam em candidatos que os espelham.

“É quase como uma lei da política eleitoral ao redor do mundo”, comenta o professor de Cambridge no podcast/conferência, “que os parlamentos ou casas legislativas, instituições da democracia representativa, sejam amplamente dominados por viés favorável aos ricos, aos com melhor formação e aos mais velhos”.

Resulta daí que há pelo menos três categorias contra as quais ocorreria “discriminação deliberada” na política eleitoral, ainda que constituam largas maiorias na sociedade: os pobres, os sem estudo e os jovens. Runciman concentra esforços para a solução deste último desequilíbrio —o déficit de representação para os jovens— porque mais próximo da realidade de seu país.

Quanto aos outros dois desníveis, tampouco passaram despercebidos por Platão. Deixados à solta, os pobres se levantariam em massa contra os ricos. Já a ameaça dos ignorantes ganha viva descrição em “A República”.

Ao invocar a “natureza superior” daquele que deveria conduzir a vida comum na pólis grega, o “homem bom” que desde a infância “tenha brincado no meio de coisas belas e só se tenha ocupado de belas atividades”, o diálogo platônico alerta que não seria assim num regime democrático: “Com que soberba a democracia calça com os pés tudo isso, sem preocupar-se com que estudos se preparou quem busca a prática da política, enquanto para conceder-lhe honras, basta que seja benevolente com o povo”.

Mas os temores do filósofo grego se mostrariam infundados na democracia representativa. “É muito difícil ganhar eleições, mesmo no caso de um populista, sem ter alguma formação”, argumenta Runciman em “Democracy for the young”. Vale até para Trump, ex-aluno de escolas e de uma universidade de elite. Valeria para os representantes eleitos no Brasil, os de ontem e os de hoje?

Num ensaio do início dos anos 1940, “A Ideia da Universidade e as Ideias das Classes Médias”, originalmente publicado no jornal Correio da Manhã, o erudito austríaco Otto Maria Carpeauxafirmou: “A violência anti-intelectualista das novas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação” 2.

Proponho que se tome esta como uma característica historicamente marcante de nossos representantes —o anti-intelectualismo, um traço que atravessa nossas camadas médias como um todo, tenham elas mais ou menos acesso a boa educação formal. A atual visibilidade da figura a que se poderia chamar “o ignorante empoderado” oferece a chance de uma revisão de nossos próprios problemas com a democracia representativa, distintos daqueles enfrentados por sociedades democráticas maduras.

“Em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas”, observava ainda Carpeaux, evocando “exércitos de médicos, advogados e técnicos”: “Eles [...] têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse ‘proletariado intelectual’, sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Leem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, [...] dirigem as correntes das ideias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite”.

Folhetins e romances publicados na passagem do Império à República já prenunciavam o personalismo populista de Bolsonaro, típico de uma elite embrutecida. Como na figura do alpinista social —e deputado— Numa, de “Numa e a Ninfa” (1915), às voltas com discursos encomendados à mulher, porque ele próprio era incapaz de escrevê-los, na novela de Lima Barreto; ou do sr. Rodrigues, de Arthur Azevedo, em “Plebiscito” (1894), pacato cidadão que, acuado diante da pergunta do filho de 12 anos sobre o significado da palavra —e que palavra!— que dá título ao conto, vai consultar o dicionário às escondidas para não ser humilhado no conforto da própria sala de jantar, onde acabara de “comer como um abade” —perfeita imagem da classe média emergente e ignara.

Ressalte-se, porém, que tanto essa pequena burguesia ficcional quanto aqueles a quem Carpeaux, quase 80 anos atrás, identificava como “novas classes médias” há muito se consolidaram como classe média tradicional, e é até mais provável que hoje figurem entre os ricos. Seu anti-intelectualismo provavelmente só se exacerbou nesse tempo.

Não se trata, portanto, de culpar a quase-mítica classe C dos anos petistas pela calamidade eleitoral de se ter transformado em “mito” o anti-intelectual por excelência —Jair Bolsonaro mereceria um diploma na área—, mas de reconhecer que, sem os votos desse contingente de remediados de ascensão recente (talvez não fosse exagero qualificá-los como semipobres), não haveria extrema direita no poder.

Marcas identitárias passam a segundo plano no sufrágio. Por mais penoso que seja para mentes iliberais à esquerda aceitar esse fato, gênero, raça e (em menor grau) classe deixam de importar tanto diante da urna. Ali é cada cabeça, uma sentença; ainda que coroada, valerá um só voto.

“Elas” —essas múltiplas cabeças— “continuam sendo portadoras de interesses muito diferentes”, como bem lembra o cientista político Sérgio Abranches num dos artigos da recém-lançada coletânea “Democracia em Risco?” (Companhia das Letras). “Umas são, inclusive, objeto de discriminação de outras, embora partes do mesmo caldeirão de emoções.”

Quem ainda se lembra do anedotário sobre aeroportos transformados em rodoviárias para suposto furor de seus “ricos” frequentadores habituais contra “pobres” —na verdade, a nova classe média— de primeira viagem? Pois acabaram votando unidos em Bolsonaro, numa aliança particularmente emotiva.

Se o “homem mediano” —branco, de classe média tradicional ou novo rico, heterossexual e semi-iletrado, mesmo que com acesso a educação— chegou lá não foi porque esse perfil masculino e opressor prevaleceu.

%u20BO que tem prevalecido no Brasil é, antes, uma mediana de traços da cidadã e do cidadão para quem “se formar” interessa apenas como algo ornamental ou pragmático —neste último caso, a prevalência daquilo que a professora Esther Solano, em entrevista recente a este caderno, definiu como uma educação instrumentalizada, causa primordial da selvageria retórica nas mídias sociais: a violência anti-intelectualista talvez mais visível do que nunca.

E nela tomam parte, como é óbvio, egressos de melhores e piores escolas, num fenômeno, aliás, globalizado.

O momento pede, por certo, que se reavalie a democracia representativa, mas é cedo demais para descartá-la —se mais não fosse porque, conforme pondera David Runciman em “Como a Democracia Chega ao Fim”, “não é justo dizer que os democratas preferem ser governados por idiotas e ignorantes”.

Se, e seguimos com Runciman, “é verdade que a democracia não discrimina com base na falta de conhecimento” —vale igualmente para o eleitorado e para seus representantes— nem exige “a capacidade de pensar de forma inteligente sobre questões difíceis”, tem a grande virtude, ao menos nas versões mais maduras, de moderar apetites pelo poder e, sobretudo, expectativas.

“A única coisa que a democracia pede é que os eleitores permaneçam onde estão por mais tempo, o suficiente para sofrer as consequências de seus erros”, escreveu.

No limite, é um exercício de paciência que pode se estender por anos; e, no entanto, essa geringonça política toda imperfeita continua a ser —em versão otimista da frase sempre atual de Winston Churchill— a melhor opção que jamais tivemos.


Christian Schwartz, doutor em história social (USP/Cambridge), é jornalista e tradutor.

Ilustração de Alex Kidd, Artista gráfico e ilustrador

*Publicado originalmente na Folha de S. Paulo

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A direita e seu monstro, por Fernando Brito ·

 06/06/2018
lulachave
Há seis meses, parecia à direita (e a muitos setores da esquerda, também) que Jair Bolsonaro era apenas um tigre de papel, que na hora certa – seja pela falta de estrutura partidária, tempo de televisão ou por radicalismo – se dissolveria, dando passagem a um candidato do “centro” ou “do mercado”.
E que este”salvador”, claro, tinha a ameaçá-lo apenas Lula que, por isso, teria de ser retirado da disputa pela via judicial, deixando de influenciar as eleições como uma lâmpada que se apaga deixa de iluminar.
Vai ficando claro, a quatro meses das eleições que dificilmente será assim.
O clima de guerra e radicalização em que, há vários anos se incubam os processos eleitorais no Brasil – a rigor, desde que 2006 foi a primeira esperança frustrada de volta da direita ao poder – espantou tanto que até os “outsiders” do sistema, Luciano Huck e Joaquim Barbosa, fugiram da empreitada.
Bolsonaro tem, de fato, limites ditados pela sua boçalidade, mas o Brasil, está evidente, dá mostras de viver uma época de boçalidade sem limites. Sua presença num segundo turno já deixou de ser um sonho de imbecis e de primários para se tirnar um pesadelos para todos os minimamente lúcidos.
De outro lado, a luz que se apagaria, Lula, não perdeu absolutamente nada de sua capacidade de ser desejada pelo eleitor, mantendo sempre algo perto de um terço das intenções de voto mesmo quando o dão como inelegível.
O que ontem à noite foi dito aqui, hoje encontra uma magnífica expressão na sensibilidade do cartunista Renato Aroeira, através da imagem que ilustra o post.
Lula pode não sair da cadeia em que o prendem, mas tem a chave das eleições. Candidato, mantém um impasse judicial que é sua única defesa, quando todo o sistema de tribunais parece unânime na vontade de excluí-lo ou, para ser mais preciso, no medo de contrariar o “Mestre Moro”, a criatura de que se serviu como símbolo de sua prepotência e sua ambição de controla da vida brasileira.
Não se pode exigir, nem mesmo se deve esperar que ele jogue fora sua liderança e sua capacidade de encarnar desejos e vontades de imensas massas populares do país. Sua candidatura não é, como o raciocínio “muy amigo” dos colunistas da grande mídia insinuam, um “isolacionismo” e muito menos um egoísmo político.
É uma tolice – ou pior, aí sim, uma prova de mesquinharia eleitoreira – a história de que estaria “inviabilizando alianças”. Tolice seria ele antecipar-se ao impasse que se criou e virar um mero coadjuvante de fundo de palco, recolhido como está ao silêncio.
O gesto estóico de manter uma candidatura contra toda a máquina que o condena ou de, na hora em que isso for decisivo, transferi-lo a um candidato do PT vai ocorrer na hora certa: a hora da tomada de decisão do povo brasileiro.
Não antes e nem depois, como arrependimento, algo que hoje vai crescendo entre os que ajudaram a histeria parir o monstro do qual perderam o controle.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

“Estamos vendo o fim da classe média assalariada brasileira”, diz Marcio Pochmann.









O Brasil que está saindo do atual período de recessão é um país praticamente sem uma burguesia industrial, limitado a uma burguesia comercial que compra e vende produtos, papeis ou ativos públicos e privados, com uma classe trabalhadora em situação muito precária, buscando sobreviver e uma classe média assalariada que está desaparecendo. A reforma trabalhista e a terceirização vão corroer os empregos assalariados intermediários nas grandes empresas privadas e no setor público. O que está emergindo é uma sociedade cada vez mais polarizada entre os muito ricos e a maior parte da população empobrecida. A avaliação é do economista Marcio Pochmann, professor da Universidade de Campinas (Unicamp), ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e presidente da Fundação Perseu Abramo, que esteve em Porto Alegre nesta segunda-feira (18), participando de uma homenagem a Marco Aurélio Garcia e de um debate sobre “O Capital”, organizado pela Fundação Maurício Grabois.
Em entrevista ao Sul21, Pochmann analisou a atual situação econômica do país, reconhecendo que há alguns indicadores apontando para uma interrupção da queda da atividade econômica, mas ainda insuficientes para sustentar uma retomada consistente da economia. “O governo Temer está aproveitando essa situação para passar a imagem de que estamos saindo da recessão, embora as informações sejam muito frágeis e não nos permitam muito otimismo acerca de uma retomada da economia, podendo indicar, ao invés disso, uma trajetória de estagnação da economia brasileira”, diz o economista que identifica algumas mudanças profundas em curso no tecido social brasileiro.
Sul21: Nas últimas semanas, integrantes do governo Temer vê citando indicadores econômicos que apontariam para o início de uma retomada da economia brasileira. Essa retomada é real, na sua opinião?
Marcio Pochmann: A recessão é um fenômeno anormal na trajetória de uma economia capitalista e no Brasil não seria diferente. A recessão iniciada no final de 2014 é a terceira desde 1980 quando o Brasil constituiu-se como uma economia industrializada, ou a quarta, se considerarmos a recessão de 1929, quando o país tinha uma economia de base agrária-exportadora. A trajetória comum das recessões é que elas têm um prazo reduzido de manifestação. As recessões de 1981-1983 e de 1990-1992 registraram uma forte queda da economia no primeiro ano, que foi suavizada no segundo ano e depois voltou se aprofundar no ano seguinte.





A recessão iniciada em 2014 avançou por uma trajetória diferente. Tivemos dois de queda e agora, no terceiro ano, em 2017, a economia de certa forma parou de cair. Do ponto de vista estatístico, há sinais de saída dessa situação tão baixa. Mas não há indicadores que sinalizem sustentação de um processo de recuperação, de tal forma que pode ser algo parecido com o que vivemos em momentos anteriores nas décadas de 80 e 90. O governo tomou algumas medidas que viabilizaram algumas melhoras do ponto de vista do consumo, como a liberação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, a queda da taxa de juros, a melhora do comércio externo e a excelente safra agrícola. Então, de fato, há elementos que ajudam a entender por que a economia não seguiu na recessão. Ela estancou em um patamar relativamente baixo.
O governo Temer está aproveitando essa situação para passar a imagem de que estamos saindo da recessão, embora as informações sejam muito frágeis e não nos permitam muito otimismo acerca de uma retomada da economia, podendo indicar, ao invés disso, uma trajetória de estagnação da economia brasileira. Não há motores que possam indicar uma retomada do crescimento da economia a não ser a ocupação de capacidade ociosa que temos, provocada por uma queda muito significativa. Também não há sinais de retomada do investimento.
Sul21: Do ponto de vista do desemprego, que cresceu nos últimos meses, houve alguma melhora?
Marcio Pochmann: Se compararmos com as recessões anteriores, desta vez os sinais sociais foram muito mais agudos. Tivemos um crescimento do desemprego muito mais rápido e explosivo, comparando com o que ocorreu em 1990 e 1981. O aumento da pobreza também foi muito acelerado, o que é visível nas regiões centrais das grandes cidades brasileiras, com a presença de moradores de rua e desempregados. A pobreza voltou a crescer rapidamente, mas a taxa de pobreza que tínhamos era muito baixa em 2014. Neste ano, estávamos com menos de 10% da população em condição de pobreza. Já em 1980, tínhamos 44% da população vivendo em situação de pobreza.
Nós temos um fenômeno hoje no Brasil que impede as pessoas de permanecerem desempregadas, conforme o conceito utilizado pelo IBGE. Segundo esse conceito, a pessoa, para ser considerada desempregada, não pode ter trabalhado mais do que duas horas na semana, tem que estar disponível para o trabalho e ocupar imediatamente o trabalho existente. Se a pessoa está lavando automóveis ou elaborou alguma estratégia de sobrevivência, isso passa a ser considerado pelo IBGE como ocupação. E as ocupações que cresceram possuem essas características. São pessoas com jornada de trabalho muito pequena, salários ruins. Há um precariado que se expande nestas condições, substituindo o antigo trabalhador com carteira assinada.


estabilidade maior ao governo Temer que vem acumulando recordes de impopularidade?
Marcio Pochmann: É inegável que isso tem impacto político. Cabe lembrar que, na recessão de 1981-1982, tivemos eleições para governadores. Foi importante criar, naquele período, a ideia de que estávamos saindo da recessão. Embora o resultado eleitoral tenha sido uma derrota para o regime militar, eles conseguiram vitórias em alguns estados, inclusive no Rio Grande do Sul. Agora, de modo similar, é necessário gerar números positivos para dizer que estamos saindo desta grave circunstância para gerar um 2018 mais favorável para as forças que apóiam o atual governo. A questão é saber se isso tem condições de se sustentar.
Em 2018, poderemos ter inclusive sinais negativos na economia. Saímos da recessão de 1981-1982 pelo comércio externo. Naquele período, tínhamos um país muito mais industrial do que temos hoje. Em 1991-1992, saímos da recessão pela mudança de governo, com a posse de Itamar Franco, pelo comércio externo e também por um aumento do consumo no mercado interno. Esses mecanismos não estão claros hoje. O governo liberou recursos do FGTS, muita gente usou esse dinheiro para pagar contas e para algum consumo, mas isso é uma vez só. Não há continuidade nesta liberação de recursos. É verdade que a taxa de juros caiu, mas ela caiu muito mais do ponto de vista nominal do que real. Estamos trabalhando com uma inflação este ano abaixo de dois pontos percentuais, enquanto a taxa de juros está num patamar de 8%. Então, em termos reais, ainda não há um ambiente favorável para os empresários tomarem iniciativas para ampliar sua capacidade produtiva.
Por outro lado, o Brasil segue recebendo recursos externos, mas cerca de 80% desses recursos estão sendo utilizados para a compra de ativos, de empresas brasileiras. Isso não significa, necessariamente, ampliação da capacidade produtiva. Sem negar que a situação de 2017 é melhor que a de 2016, do ponto de vista econômico, com uma inflação mais baixa e um melhor quadro externo, não há ainda, ao meu ver, base para sustentar uma retomada consistente da economia.
Sul21: Muito se falou nos últimos anos do surgimento de uma nova classe media, resultado dos avanços econômicos e sociais que o Brasil teve na última década. Após pouco mais de um ano do afastamento da presidenta Dilma Rousseff, parece existir uma certa acomodação junto a esses setores médios, mesmo com um governo atravessado por denúncias de corrupção, com uma legitimidade extremamente baixa e uma crescente violação de direitos. Como você vê essa postura geral da sociedade diante do quadro que estamos vivendo?
Marcio Pochmann: As pesquisas que temos feito, na Fundação Perseu Abramo, e outros levantamentos apontam que há um descontentamento generalizado e um descrédito na sociedade em relação ao atual governo, mas que ela não consegue identificar nenhuma alternativa. Não creio que esse ambiente revele uma acomodação, pois 2017 vem sendo marcado por grandes mobilizações e acirramentos de classes. Tivemos greves sem paralelo na história do Brasil, do ponto de vista da mobilização da sociedade. Por outro lado, os movimentos sociais não se caracterizam por paralisações e mobilizações permanentes. Elas ocorrem de tempos em tempos. Então, o que temos hoje não é uma acomodação, mas sim uma espécie de perplexidade. A sociedade está descontente com o atual governo e com a situação econômica, não vendo perspectiva de retomar ao patamar em que se encontrava. Mas não há ainda um pólo que seja capaz de agregar esse descontentamento que acaba caindo em uma certa desesperança. Isso não significa, porém, satisfação ou acomodação com a situação atual.





“O Brasil que sai dessa recessão tem uma classe trabalhadora em situação muito precária, que busca estratégias de sobrevivência”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Nós temos um debate e uma polarização intensa no Brasil hoje envolvendo talvez um terço da população, que acompanha esse processo e se posiciona. Os outros dois terços da população estão completamente distantes desse debate e tratam de viver o cotidiano e enfrentar as dificuldades do dia-a-dia.
Sul21: A desesperança que você referiu envolveria também esses dois terços da sociedade que lutam para sobreviver?
Marcio Pochmann: Há uma desesperança e um distanciamento. Cada vez mais se difunde a ideia de que a política faz mal ao bom desempenho da economia. Vimos nas eleições passadas candidatos que foram eleitos apresentando-se como não políticos, dando margem à ideia de que a política é algo inadequado para a modernidade. Neste contexto, a política vai se tornando algo residual e secundário, na crença de que a economia possa oferecer soluções que a política não consegue. Isso está sendo dito agora por integrantes do atual governo, com frases do tipo: Se não fosse a política, o Brasil já teria saído da crise. As denúncias contra o Temer praticamente paralisaram o país, impedindo as reformas e coisas do tipo.
O fato concreto é que o Brasil que emerge dessa recessão mais prolongada e profunda é um país muito menor do que aquele que entrou na recessão. É um país que vai sair deste período muito mais internacionalizado, em função da onda de aquisição de ativos públicos e privados. A burguesia industrial praticamente desaparece nesta recessão. O que temos hoje é basicamente uma burguesia comercial que faz negócios, compra e vende produtos do exterior ou nossos produtos primários, compra e vende papeis ou ativos públicos e privados. É muito difícil imaginar que isso dê consistência para um ciclo de expansão econômica. Além disso, o Brasil que sai dessa recessão tem uma classe trabalhadora em situação muito precária, que busca estratégias de sobrevivência. E estamos vendo praticamente o fim da classe media assalariada brasileira. A reforma trabalhista e a terceirização vão corroer os empregos assalariados intermediários nas grandes empresas privadas e no setor público. O que eu vejo é uma sociedade cada vez mais polarizada entre os muito ricos e a maior parte da população empobrecida.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

"A ideia de promessa foi substituída pelo medo. Há muita amargura e ressentimento na classe média" , por Heinz Bude.


Instituto Humanitas Unisinos.

Não devemos subestimar os medos, e sim aceitá-los e dar nome a cada um deles. Porque todos temos medos, e cada vez maiores, segundo Heinz Bude


Não devemos subestimar os medos, e sim aceitá-los e dar nome a cada um deles. Porque todos temos medos, e cada vez maiores, segundo Heinz Bude(Wuppertal, 1954). O reconhecido sociólogo alemão aborda no livro A Sociedade do Medo (em tradução livre) os temores quase infinitos que penetraram sigilosamente na classe média europeia. Fala do medo da rejeição social, de ficar sozinho e de cair uma vez alcançado o objetivo. Dos medos que não nascem de circunstâncias objetivas, e sim do contato com os outros, numa sociedade que, segundo este professor de Macrossociologia da Universidade Kassel, exige cada vez mais do indivíduo.

Numa varanda na beira de um lago nos arredores de Berlim, Bude cita Franklin D. Roosevelt (“o homem que compreendeu que abordar o medo é a chave da felicidade pública”): “Não devemos ter medo do medo", diz ele em entrevista à Ana Carbajosa do El País, 06-07-2017.

 



Eis a entrevista.

O senhor diz que os europeus se tornaram muito ansiosos. Por que agora, numa época de relativa prosperidade?
Na Alemanha e no restante da Europa, muita gente viveu um período de promessas: se você trabalhasse, teria um bom futuro; com esforço e um pouco de sorte, poderia chegar lá. Para os que nascemos em meados dos anos cinquenta, essa promessa funcionou. Não é a vida que tínhamos sonhado, mas não é ruim. O problema é que, para muita gente, já não há uma promessa na qual acreditar. Cada pessoa está sozinha e é responsável por si mesma. A ideia de promessa foi substituída pelo medo.

Medo de quê?
De não ser o primeiro, de ser relegado. O problema é que as exigências e os medos cada vez se estendem mais. Já não é só o medo de fracassar no trabalho. É também o de escolher o parceiro errado, falhar como pai... O indivíduo é cada vez mais exigido. Agora é preciso ter inteligência emocional, e até para morrer é preciso fazer a coisa certa. A pessoa tem que saber aceitar a morte em vez de temê-la. O medo te acompanha até o final. Os recursos que seus pais te deixaram, inclusive a herança intelectual, podem te ajudar, mas não garantem que você vai conseguir, que não cairá em desgraça. Isso gera muita ansiedade. Não basta ter uma boa educação ou boa renda para ter status social, pois em qualquer momento você pode cair. Na sociologia, a questão do status adquiriu muita importância.

E nem sempre foi assim?
Pode ser que tenha sido assim ao longo da História, mas a diferença é que agora somos mais conscientes. Além disso, observamos que isso afeta pessoas cada vez mais jovens. A filosofia do medo é estudada desde meados do século XIX, mas agora é uma característica presente na maioria das pessoas. Você tem que viver por si mesmo e escolher: em função de quê? Não há nada. Existe um sentimento de vazio muito amplo; é o nada.

O senhor fala do ressentimento social no livro, dizendo que ele já deveria ter sido superado nas sociedades modernas e supostamente meritocráticas.
Há muita amargura e ressentimento em nossa classe média. Gente que pensa que merece mais e que sua experiência não importa a ninguém. Por isso, quando vem alguém e te diz “você está amargurado, eu sei por que e te conto a verdade”, funciona. Isso explica o triunfo de Trump, porque o populismo tem uma explicação emocional. As pessoas se perguntam: “O que fiz de errado? Me esforcei, fiz o que esperavam de mim e, no entanto, me sinto deslocado.”

O senhor falava antes das pessoas jovens, que são cada vez mais conscientes da angústia social. Mas elas não tiveram tempo de se amargurar nem de se decepcionar.
Têm medo de fracassar. É a subjetividade moderna. A ideia de si próprio com relação aos demais. Os outros como o nosso inferno. Estamos rodeados de gente que observa como vivemos nossa vida segundo parâmetros de meritocracia ampliada a muitos aspectos da vida, com exigências muito maiores e mais difusas. Chamo isso de lost in perfection (presos na perfeição).


Existe o medo de ser rejeitado e de não chegar. Mas o que acontece quando conseguimos? Quando alcançamos nossa aspiração social?
Nessa hora, sabemos que há muita gente atrás de nós esperando nosso erro. Mesmo que você conseguir o seu objetivo, o medo não te abandona.

O senhor diz que uma alternativa é optar pelo conformismo.
Há duas vias. Você pode se refugiar na espiritualidade ou no conformismo, mas, na verdade, a ideia de ironia, de que pode brincar de se conformar, já não funciona. Além disso, esses não são os caminhos corretos porque há uma certa verdade no medo – e por isso não devemos esquivá-lo. Não se trata de agitar o medo, mas de civilizá-lo, de encontrar fórmulas e rituais, maneiras de comunicá-lo e normalizá-lo. Se você sente que não está sozinho com suas angústias, cria-se uma certa solidariedade.

Provavelmente precisemos de novos vocábulos para o medo, mais ajustados ao nosso tempo. E também deveríamos começar a rir outra vez, retomar a fórmula tradicional de lidar com isso.

Qual o papel do gênero em tudo isso? Há muita literatura sobre o quanto se exige das mulheres e a falta de autoestima que elas desenvolvem porque sentem que não chegam.
É que os sistemas que um dia já foram chamados de famílias mudaram e foram substituídos por uma negociação permanente. As mulheres não estão dispostas a adotar papéis tradicionais. Isso faz com que seja preciso deliberar e alcançar compromissos, o que não é fácil. E os homens não são muito competentes na hora de chegar a um consenso.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Sensacionalista: Festa ‘se nada der certo’ em colégio debocha de garis e faxineiras e mostra que já deu tudo errado.

Formandos do terceiro ano de dois famosos colégios particulares do Sul do país, um evangélico e um católico, organizaram uma festa à fantasia durante o recreio.

Até aí, nada de mais. Mas o tema… As fantasias da festa “Se nada der certo” deveriam refletir o rumo que a vida dos alunos tomaria caso não passassem no vestibular.
Os alunos do 3º ano do Instituto Evangélico de Novo Hamburgo deste ano e os do Colégio Marista de Porto Alegre em 2015 posaram com fantasias de faxineiras, atendentes do McDonalds, vendedores ambulantes, lixeiros, vendedoras do Boticário, entregadores de pizza…
Depreende-se que, para eles, esta seja a escória da força de trabalho brasileira.
A única coisa que não colou muito bem foi a falta de negros nas turmas. Pintar o rosto faria as fantasias ficarem mais verossímeis, não é? Enfim.
A gente se pergunta como é possível que dentro de uma instituição de ensino algo desta natureza seja tolerado. Para não dizer estimulado, já que é um evento oficial da escola.
Que sociedade será o reflexo da realidade em que jovens de 16 e 17 anos zombam da forma como a maioria população põe comida na mesa e tenta sobreviver?
Estas fotos mostram que não é preciso reprovar no vestibular para que as coisas não deem certo. Elas já deram muito errado.

Marista

04
Fantasia de gari foi uma das escolhidas por mais de um estudante. Ainda hoje olhar para a profissão gari com desdém mostra que as pessoas realmente não entenderam nada.

18
E que se o seu filho estuda em um lugar que incentiva o deboche às pessoas que estarão do outro lado, sem que se leve em consideração as histórias de vida por trás de um uniforme, quer dizer que ainda existe um longo caminho a ser percorrido.
09
E não adianta nada dizer que a “sua” empregada é como se fosse da família, se a sua filha vai zombar dela na festinha da escola.
16
14
10
Bom senso: R$0,00
03

11
Cuidado, porque para ser entregador de pizza, é preciso passar na autoescola e não é nada fácil, tá?
12
Por que não aproveitar nossos privilégios para rir dos moradores de rua aqui no pátio de nosso colégio particular super caro?
13
Provavelmente essa estudante não viu o fora que a ex-BBB Tatiele levou do próprio Faustão, quando disse que “se nada desse certo” viraria bailarina. Talvez esse vídeo ajude:

Tem que estudar muito pra ser bailarina do Faustão!
17
Se nada der certo, é só cometer um crime!
08
Ser mímico talvez seja uma boa opção pra quem deveria mesmo ficar quieto, em vez de fazer ou falar o que não deve.

Instituição Evangélica de Novo Hamburgo

01

03

02


04

Vendedor ambulante.

05

Atendente do Mc Donalds e morador de rua.

06

Entregador de jornal

07

Vendedoras

08

Faxineiras
09
Ladrão

10

Até o fechamento desta matéria, os colégios envolvidos ainda não haviam emitido comunicados oficiais sobre os eventos

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Classe média foi enganada pela mídia que fez o "trabalho sujo" do golpe, diz Jessé Souza.


Jornal GGN - O sociólogo e pesquisador Jessé Souza rebateu em sua página no Facebook um artigo publicado por Celso Rocha de Barros na Folha de S. Paulo nesta semana, questionando a teoria de que a classe média, na verdade, usou a Lava Jato de pretexto para apoiar o golpe quando, na verdade, o motivo velado que a levou às ruas das principais capitais do País foi o ódio contra classes mais desfavorecidas, alimentado paulatina e discretamente pela grande mídia.
Para Jessé, a classe média não percebeu "a distorção sistemática da realidade" praticada pelos veículos da grande mídia que ajudaram a articular o golpe do impeachment para defender interesses das camadas mais ricas da sociedade. 
Jessé atacou, ainda, o fato de Celso ter deixado o fator mídia de lado ao sustentar que a classe média não é manipulável nem agiu de maneira inconsciente ao protestar contra o fim da corrupção do PT.
"O silêncio de Celso é sintomático e expressa a mentira e a fraude mais importante para que o golpe tenha acontecido e esteja hoje realizando a maior regressão histórica em todas as dimensões da vida que este pais jamais viu: a negação do papel da mídia como partido político das elites internas e externas que se uniram para rapina da riqueza de todos em favor de meia dúzia."
"O papel manipulador da mídia depende precisamente de que ela não seja percebida como um 'ator social com interesses próprios'. Quando ele se pergunta, candidamente, talvez motivado por uma dúvida autêntica, por que o ressentimento da fração, mais conservadora da classe média contra a pequena ascensão social dos mais pobres não teria se mostrado antes, a ausência de qualquer referência ao papel da mídia é o dado principal e sem dúvida mais curioso", diz Jessé.
"A classe média foi feita de tola e trocou a sacralização de seu ódio covarde e canalha contra os mais frágeis que ela explora por uma exploração agora sem precedentes de toda a população inclusive dela própria classe média. Agora ela vai ter que pagar caro pela universidade, pelo plano de saúde e agora também pela própria aposentadoria privada", disparou.
O GGN reproduz abaixo o texto de Jessé, publicado nesta quinta (19).
Meu colega Luis Felipe Miguel iniciou um debate interessante sobre a coluna de 16/01/17 de Celso Rocha de Barros no jornal “Folha de São Paulo”. Celso critica na sua coluna o que ele chama de explicação dominante da esquerda para o golpe de 2016. Essa explicação se basearia em três teses, sendo que duas dessas três teses ele retira de meu livro “ A Radiografia do golpe” de agosto de 2016. São elas a denúncia do golpe como fruto da articulação entre elite do dinheiro, mídia e Judiciário; e a tese do ressentimento da classe média contra as políticas de ajuda aos mais pobres que teria permitido usá-la, contra seus melhores interesses, como massa de manobra nas ruas e como “base popular” do golpe. Na sua coluna, o autor escolhe criticar apenas a tese do ressentimento. Celso não nega que o ressentimento social exista, mas ele acha que essa tese precisaria de “evidências empíricas” para ser efetivamente válida.

Celso parece esquecer que as pessoas na vida real têm pouco apreço pela verdade e muito apreço para a legitimação da vida que levam qualquer que seja ela. Celso parece esquecer, também, que o mundo social e subjetivo não são transparentes para as pessoas e que seria tão ridículo perguntar a um coxinha da paulista se ele está ali porque as distâncias com os miseráveis foram um pouco diminuídas, sendo o combate a corrupção mero pretexto, quanto perguntar ao homofóbico se ele percebe que sua violência aos homossexuais só pode ser explicada pela necessidade psíquica de silenciar seu próprio homossexualismo. A “verificação de uma tese de comportamento social” se dá sempre pela análise do comportamento objetivo e não pela legitimação consciente. Senão vejamos. Por que foram um milhão de pessoas – 80% da classe média – à avenida Paulista contra a corrupção supostamente só do PT e literalmente ninguém saiu ás ruas quando os principais políticos do PSDB foram todos eles, sem exceção, envolvidos em delações de desvios milionários? Por que os dois pesos e as duas medidas?

Mas o mais interessante ainda está por vir. Celso se pergunta a certa altura: e se o ressentimento tiver existido, por que ele não levou a classe média descontente às ruas no momento do auge da mobilidade social das camadas populares? A análise de Celso é toda construída sob o pressuposto não apenas de que as pessoas agem com total consciência de seus motivos reais, como também, de que suas ações e opiniões não são mediadas por ninguém. Sua pergunta parece revelar uma dúvida autêntica: ora, se a classe média se ressentiu, por que não teria mostrado, então, este ressentimento antes? Bingo! O coxinha leitor de Celso de Barros deve ter se sentido aliviado e pensado:

“Esses esquerdopatas e suas invencionices chavistas e bolivarianas, ressentido é ele que perdeu a mamata do petrolão”.

O grande e ensurdecedor silêncio na análise de Celso é a percepção da mídia como mediador neutro e imparcial. Existiria, assim, um tipo muito especial de empresa no capitalismo: aquela que não joga tudo que tem para maximizar seus lucros, mas sim para esclarecer de modo anódino, correto e sóbrio seu consumidor telespectador/leitor.

Celso fala do ressentimento e de sua transformação em ação coletiva como se este se desse espontaneamente, por um acordo secreto entre as pessoas que foram à avenida Paulista protestar. Tudo se dá como se num belo dia, todos os coxinhas resolvessem ligar um para o outro e combinar um passeio de protesto na avenida Paulista. Eles não foram motivados nem manipulados por ninguém. Perceba leitor, que Celso é sociólogo e doutor, formado em uma das melhores universidades inglesas. Se especialistas cometem essa ingenuidade, o que dizer dos leigos? Os leitores dos jornais e das televisões podem ser ótimos médicos, enfermeiros, advogados ou mecânicos, mas eles não compreendem a complexidade da realidade social assim como não percebem – do mesmo modo que o Doutor em Sociologia Celso Barros – as formas de violência simbólica e de distorção sistemática da realidade às quais estão expostos.

O silêncio de Celso é sintomático e expressa a mentira e a fraude mais importante para que o golpe tenha acontecido e esteja hoje realizando a maior regressão histórica em todas as dimensões da vida que este pais jamais viu: a negação do papel da mídia como partido político das elites internas e externas que se uniram para rapina da riqueza de todos em favor de meia dúzia. O papel manipulador da mídia depende precisamente de que ela não seja percebida como um “ator social com interesses próprios”. Quando ele se pergunta, candidamente, talvez motivado por uma dúvida autêntica, por que o ressentimento da fração, mais conservadora da classe média contra a pequena ascensão social dos mais pobres não teria se mostrado antes, a ausência de qualquer referência ao papel da mídia é o dado principal e sem dúvida mais curioso.

Ora, foi a mídia que dignificou e sacralizou o incômodo mesquinho e venal da fração conservadora da classe média primeiro com a necessidade de partilhar espaços sociais antes restritos a ela, como aeroportos e “shopping centers” e, depois, o “medo irracional” da competição por seus salários e prestígio social com a política de cotas sociais e bolsas nas universidades. O que aconteceu foi uma “sacralização moral” do ódio de classe – contra uma classe de “escravos modernos” desprezada, abandonada e percebida como mão de obra farta e barata para seu uso e abuso – que foi transformado em “indignação moral” contra a corrupção.

Antes da criminosa manipulação midiática - que hoje atolou o pais em ódio e obscurantismo – esse ódio de classe não era de expressão “legítima”. Em uma sociedade ainda que superficialmente cristã como a nossa, quem odeia os mais frágeis e os mais fracos é um simples canalha. Foi o trabalho da mídia que transformou o canalha em “herói nacional”, ao conferir o pretexto, o discurso e o herói de carne e osso (o juiz Sérgio Moro) da grande farsa que possibilitou transmutar o ódio ao PT e a sua obra de combate à pobreza em cruzada moral contra a corrupção.

E não é necessária nenhuma “survey” para comprovar isso caro colega Celso de Barros. Basta usar a velha e boa capacidade humana de reflexão autônoma e confrontar a reação da mídia e de seu público cativo contra o PT com a reação de ambos às inúmeras delações envolvendo todos os principais políticos do PSDB. Cadê os panelaços, onde estão os milhões de tolos que saíram a rua pelos mesmos motivos contra Lula e o PT? Afinal, se era para combater a corrupção, por que parou? Parou por que? E onde estão os editoriais inflamados e cheios de indignação que enchiam os jornais e as televisões do pais. A classe média foi feita de tola e trocou a sacralização de seu ódio covarde e canalha contra os mais frágeis que ela explora por uma exploração agora sem precedentes de toda a população inclusive dela própria classe média. Agora ela vai ter que pagar caro pela universidade, pelo plano de saúde e agora também pela própria aposentadoria privada. E outras contas pesadas virão. Além disso, é ela que vai andar com medo nas ruas e que vai empobrecer de modo crescente. Essa é a conta da dignificação e sacralização do ódio que a mídia lhe proporcionou.

Mas vamos insistir e usar aquele órgão que a mídia quer tornar obsoleto no Brasil: nosso cérebro e sua capacidade de reflexão. Será que os dois pesos e as duas medidas são por que o PSDB é o partido da rentismo e do capital financeiro e a imprensa é a defensora bem paga de ambos? É por isso que o país empobreceu e milhões perderam empregos e as causas são sempre postas na herança maldita? Quanto tempo irá decorrer até que a classe média compreenda que o trabalho que o PT fez foi superficial e apenas garantiu um grau de civilidade mínimo ao país? E que as calamidades que estão vindo e ainda virão como insegurança pública crônica, massacres e epidemias vão cair como as pragas do Egito sobre a própria classe média?

O silêncio sobre o papel da imprensa é o fundamento da continuidade da nova ordem. Uma imprensa que deu os motivos – todos falsos como vemos hoje – construiu a narrativa, criminalizou a política, justificou o ódio e até transformou sua marionete jurídica em herói nacional. Não existiriam Bolsonaros como ameaças reais sem esse trabalho prévio da imprensa. No entanto, como mostra meu colega Celso de Barros tão bem, ela fez toda o trabalho sujo e ninguém ainda a responsabiliza por isso. Até quando?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Sobre as evidências da tese do ressentimento da classe média, por Luís Felipe Miguel.





Na Folha de hoje, Celso Rocha de Barros critica a ideia de que um dos combustíveis para a mobilização contra Dilma foi o ressentimento da classe média - ressentimento ao ver os pobres chegando aos lugares que eram exclusividade sua, como os aeroportos ou o ensino superior. Ele ilustra com o livro de Jessé Souza sobre o golpe do ano passado, embora assinalando que a "tese do ressentimento da classe média" frequenta várias análises de intelectuais e ativistas progressistas. Mas, na "falta de evidência empírica sistemática", a tese seria apenas "autocondescendência da parte da esquerda".
Parece que, para Barros, a única evidência empírica sistemática aceitável seria algum tipo de survey. Sem repisar aqui os limites dessa metodologia, cabe indicar que há, sim, evidência empírica suficiente para afirmar que aquilo que ele rotula como "ressentimento" - e eu prefiro chamar de inconformidade da classe média com a redução da distância que a separava dos mais pobres - teve papel relevante na mobilização a favor do golpe. Como ocorreu, aliás, em momentos anteriores de nossa história.
As grandes manifestações pela destituição da presidente tiveram, como um de seus eixos discursivos principais, a repulsa aos programas de inclusão social, na forma da defesa da "meritocracia", da denúncia dos "vagabundos" e do saudosismo manifestado em frases como "eu quero meu país de volta". Desde o início, foi algo central no discurso das lideranças das mobilizações, tanto entre os movimentos de proveta (MBL, Vem Pra Rua etc.) quanto entre os jornalistas da televisão - e também em alguns parlamentares, como Ronaldo Caiado. Quem foi às ruas se sentiu sensibilizado por esse discurso ou, no mínimo, não ficou incomodado com ele. Isso indica, com clareza, o desconforto com a possibilidade de maior igualdade social. Bem melhor, aliás, do que um survey que perguntasse aos manifestantes a favor do golpe se "você está ressentido/a com o progresso material dos pobres"...
A redução da distância social implica prejuízos simbólicos e materiais. Significa que começa a escassear a mão de obra que estava disponível a preço vil, beneficiando esta classe média nos serviços domésticos e pessoais (cabeleireira, jardineiro etc.). Significa que as vantagens comparativas que ela imaginava legar para seus filhos, em particular com o ensino superior, deixam de ser tão marcantes. Há mais, portanto, do que o mero aborrecimento com filas e aglomerações, à la Ortega y Gasset.
Não por acaso, a possibilidade de mobilização política deste desconforto ou ressentimento dependeu de um trabalho prévio de demolição da noção de solidariedade social que fundamentava o consenso - ao menos da boca pra fora - sobre a necessidade de construir um Brasil mais justo. Este foi o grande trabalho ideológico da direita nos últimos tempos.
Uma das apostas do PT foi que, se o preço a pagar fosse bem baixinho, as elites gostariam de ter um país um pouco mais civilizado. Mesmo que fosse só para não passar vergonha no exterior. Mas não é nada disso. A "modernidade" da elite brasileira deu um balão no iluminismo e se afirma como um híbrido de senhor de escravos e nouveau riche. Está à vontade em meio às chacinas, à fome, ao desespero. Seu sonho é ter um Romero Britto na parede e uma senzala no quintal. E a classe média olha para ela como se fosse seu farol.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O golpe e o asco da família tradicional branca ao não convencional, por Francisco Águas.


O país atravessa a maior crise institucional desde a redemocratização. Depois de um processo de impeachment considerado por renomados juristas como golpe, o país mergulha em uma crise política e econômica que turva o futuro do país. Mais de 54 milhões de votos foram desconsiderados e uma presidenta eleita foi deposta. A ascensão do país como uma das maiores economias, uma das maiores reservas energéticas do mundo, com vastas áreas agricutáveis e grande mercado consumidor interno, corre grande riscos. 


A nação encontra sobre um governo ilegítimo, com reformas recessivas que não foram legitimas em eleições, cada dia mais sem rumo. Escolas estaduais ocupadas, greves de universidades federais, manifestações, o país encontra-se em grande ebulição. Mesmo que os grandes meios de comunicação não noticiem de maneira substancial os protestos contra o Governo Temer e suas medidas regressivas, o país está fervendo.
Antes de deposição da representante do executivo eleita democraticamente eleita, um grande descontentamento social da chamada classe média ajudou à consolidação do golpe. Mesmo tendo favorecido a classe médica com aumento de concursos públicos e valorização da carreira de servidores públicos, diminuído à níveis históricos o desemprego, aumentando o poder de consumo, o grau de insatisfação em relação ao governo da presidenta Dilma e seu Partido dos Trabalhadores atingiu altos patamares, chegando ao ponto de se tornar para alguns, verdadeiro ódio. Assim, muitos questionam o fato de que nos governos petistas, a classe média ter conseguido avanços em seus direitos e mesmo assim reprovar veemente tais governos.

É notório que a chamada grande mídia corporativa contribuiu para tal percepção. Cobertura distorcida e desonesta, certamente ajudou a gerar tal rejeição. Fora os erros de tais governos, seja de sua incapacidade de se comunicar com a classe média e mostrar os vários avanços, seu envolvimento com ações no mínimo nebulosas do ponto de vista ético, ou com as últimas decisões do governo Dilma de que, mesmo que momentaneamente, adotar medidas governamentais de cunho neoliberais, contrariando seu programa apresentado na eleição, dando a impressão de fraude eleitoral.
Porém, em que pese o fato de tais argumentos serem consideráveis, as forças que moveram o golpe, souberam utilizar certos sentimentos da classe média para legitimar a tomada do poder. Com intuito de acabar com o arremedo de Estado de Bem Estar Social brasileiro buscado pela Constituição de 88 e garantir ao capital especulativo a continuidade de seus lucros estratosféricos, além de tirar os recursos do pré-sal das mãos do Estado Brasileiro, os golpistas souberam usar o medo da classe média.
Os governos petistas governaram conciliando interesses do grande capital com distribuição de renda, fortalecimento do mercado interno, inclusão social e da soberania nacional. O grande capital lucrou como nunca, mas tais governos conseguiram incluir na sociedade um grande percentual antes marginalizados. Porém a crise de 2008 que atacou em cheio o primeiro mundo e em 2014 chegou ao Brasil, não possibilitava mais tal conciliação. O grande capital não queria arriscar mais com um governo progressista e tramou a apeada do poder da presidenta eleita.
Assim, viram que fomentar o ódio da classe média seria uma maneira de deslegitimar a governante eleita. 
A inclusão social dos últimos 13 anos mudou claramente a sociedade brasileira. Debates sobre Direitos Humanos, igualdade de gênero, combate o racismo, combate à homofobia, trouxeram polêmicas escanteadas para baixo do pano por muitos anos.
As universidades passaram a receber uma legião de excluídos. Os aeroportos passaram a ser frequentados por pessoas que nunca imaginaram ter acesso ao transporte aéreo. Shoppings Centers passaram a ficar lotados de pessoas da periferia (os famosos rolezinhos). O Presidente Lula certa vez disse, com sua habitual capacidade de perceber as coisas, que a madame ficava contrariada em saber que a "sua" doméstica usava o mesmo perfume que ela.
Em uma escola ocupada na periferia de Uberlândia/MG, tive a oportunidade de conversar com uma universitária do curso de psicologia que estava dando apoio à ocupação. A moça inicialmente me contou sobre como estava dando suporte emocional aos secundaristas. Moça de cor parda, obesa e com cabelo diferente do padrão da classe média tradicional, me contou um pouco de sua vida. A meu ver revela muito sobre o que passa o país. Cotista de escola pública, estudou em escola estadual de periferia por toda sua vida escolar. Lamentou que outros de seus colegas da escola pública não tiveram a mesma oportunidade de que ela, mas que o que para a geração de seus pais era impossível, para ela foi alcançado, ingressar em um curso disputado da Universidade Federal.

Relatou que quando adolescente, se descobriu atraída por meninos e meninas e que isso lhe causou um grande sentimento de culpa e angústia que por anos atormentou sua vida. Que vinda de uma família de tios pastores neo pentecostais, sofreu bastante discriminação familiar ao não se enquadrar no padrão de mulher submissa imposto pela sociedade conservadora. Também se sentiu discriminada pelo próprio movimento LGBT ao se assumir bissexual. Dentro da universidade, sempre se sentiu deslocada. Contou que luta para que os grupos de estudos da universidade possam fazer orientação nas escolas, pois os adolescentes têm várias angústias sobre sua sexualidade.
Assim, ao conversar com uma menina bissexual, obesa, parda e independente, cursando um curso superior, antes destinado apenas para as elites brancas, supostamente heterossexuais, conservadora e cristã, notei o quanto o Brasil mudou nos últimos anos.
A classe média branca, heterossexual, conservadora e cristã teve agora que conviver em mesmos espaços com pessoas que antes eram trancadas em armários ou em senzalas. Antes dos anos lulistas que abriram uma fresta para que os excluídos fossem aceitos no baile, era comum e aceito pela grande massa do precariado, que o destino lhes tinham reservado a semi escravidão e a sujeição submissa aos seus patrões. Hoje, os jovens que ascenderam nos últimos anos não aceitarão mais trabalhar como escravos ou se sujeitarem à padrões conservadores impostos unilateralmente pela sociedade. 

A classe média, que se via em seus retratos de família como uma família de comercial de margarina, se viu totalmente assustada ao saber que sua prole estará em contato com o que não é espelho, como muito bem descrito MARIA BITARELLO no artigo do excelente site outraspalavras.net