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sexta-feira, 19 de julho de 2019

ANÚNCIOS DA ÉPOCA DA ESCRAVIDÃO MOSTRAM POR QUE O BRASIL PRECISA ACERTAR AS CONTAS COM O PASSADO

Baquaqua, autor da era da escravidão no Brasil.
Baquaqua, autor da era da escravidão no Brasil.
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Foto: Domínio público

Alexandre Andrada
16 de Julho de 2019, 0h03
AS ELITES BRASILEIRAS parecem ter um hábito secular de pôr uma pedra sobre o nosso passado. Apesar de sermos o país com a maior população negra fora da África, quase não há museus sobre o tema e mal estudamos o assunto nas escolas. O desconhecimento do brasileiro médio em relação aos horrores e às consequências da escravidão é enorme. O esquecimento não é um acaso, é um projeto.

O Brasil é o país mais importante na história da diáspora africana. Foram mais de 4 milhões de escravizados que desembarcaram em nossos portos, principalmente nos do Rio de Janeiro, Salvador e Recife, entre 1530 e 1850.

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Na primeira metade do século 19, mais de 2 milhões de africanos aportaram no Brasil. Era uma multidão de gente. No censo de 1872, o primeiro de nossa história, o país tinha 10 milhões de habitantes e mais da metade (58%) da população era formada por pretos e pardos, incluindo livres, libertos e escravizados.

Os escravizados, nascidos no Brasil e na África, foram a mão de obra utilizada na criação da riqueza derivada do açúcar, do algodão, do ouro, do diamante e do café, principais produtos de exportação do país. Mas eles eram também empregados domésticos, amas de leite, sapateiros, barbeiros, vendedores de rua, pedreiros, pescadores, alfaiates, ferreiros. As ruas e as casas brasileiras do século 19 transbordavam escravidão.

Em 1872, apenas 0,08% dos escravizados eram alfabetizados. Isso, por si, só explica a ausência de relatos em primeira pessoa sobre esse drama. Por sorte, existe uma única autobiografia conhecida de um africano que passou pela experiência do navio negreiro e foi escravizado no Brasil. Ele se chamava Mahommah Baquaqua.

Nascido por volta de 1820, Baquaqua era filho de um comerciante muçulmano e frequentou uma escola religiosa localizada no atual estado de Benin. Sequestrado na África, foi trazido como escravo para o Brasil em 1845. O tráfico de escravizados já era proibido no Brasil desde 1830, graças a um acordo com a Inglaterra, e desde de 1831, por força de uma lei de iniciativa nacional. Se valessem essas leis, Baquaqua deveria ser declarado livre assim que pisasse o solo brasileiro; e seu traficante, preso. Mas esse era o mundo imaginário das leis, não o dos fatos.

Em sua autobiografia, publicada originalmente em 1854 nos Estados Unidos, Baquaqua relata o drama comum aos mais de 4 milhões de africanos escravizados que aqui desembarcaram.

Capa-do-livro-de-Baquaqua-1562012079 Imagem da edição do livro de Mahommah G. Baquaqua. Foto: Bruno Veras (Public domain)
O relato dos horrores vividos no navio negreiro é pujante. Baquaqua conta que ele e seus companheiros de infortúnio foram empurrados “para o porão do navio em estado de nudez”, com “os homens amontoados de um lado e as mulheres do outro”. Como “o porão era tão baixo”, eles eram obrigados a “se agachar” ou ficar sentados no chão.

A escravidão implica na desumanização completa do indivíduo. Perder o direito à religião e ao nome escolhido por seus antepassados é parte desse processo.
Uma viagem de navio de Angola até o Recife demorava em torno de 30 dias. Amontoados e acorrentados em posição desconfortável, o porão acumulava resquícios de urina, fezes, vômitos sob um forte calor. Relatos dão conta que as pessoas nas cidades primeiro sentiam o mau cheiro desses navios antes mesmo de os verem no horizonte. “A repugnância e a sujeira daquele lugar horrível nunca será apagada da minha memória”, escreveu Baquaqua.

As terríveis condições de higiene e alimentares faziam com que a taxa de mortalidade nas viagens superasse os 10% dos embarcados. Os que morriam pelo caminho tinham seus corpos atirados ao mar, o que torna o Atlântico um gigantesco cemitério de africanos.

Baquaqua conta que “a única comida” que eles tiveram durante a viagem era um “milho encharcado e cozido”. A água também era racionada: “um pint (equivalente a 400 ml) por dia era tudo o que era permitido e nada mais”.

“Houve um pobre rapaz que ficou tão desesperado por falta de água, que tentou arrancar uma faca do homem branco que trouxe a água, quando foi levado para o convés e eu nunca soube o que aconteceu com ele. Eu suponho que ele foi jogado ao mar.

A violência era crucial para manter a “ordem”. Baquaqua conta que, “quando qualquer um de nós se tornava desobediente, sua carne era cortada com uma faca”, então, “pimenta ou vinagre” eram esfregados na ferida.

Os grandes traficantes de escravos eram brasileiros e portugueses aqui residentes. Eram ricos comerciantes, cuja fortuna superava a dos produtores de açúcar e algodão. Eles eram os ricaços do Rio, Salvador, Recife etc. No Recife, na década de 1820, o maior traficante era o comerciante português Elias Coelho Cintra, que tinha o costume marcar seus escravos com a letra “E” com ferro em brasa no peito, feito gado.

Anúncio do furto de três africanos recém-chegados (“negros novos”) de Angola, que tinham “no peito esquerdo a marca E”, de Elias Coelho Cintra. Anúncio do furto de três africanos recém-chegados (“negros novos”) de Angola, que tinham “no peito esquerdo a marca E”, de Elias Coelho Cintra. Fonte: Diário de Pernambuco, 1829
Anúncio reporta a chegada do paquete Pernambuco, vindo de Angola, numa viagem que durou 26 dias. Embarcaram 257 cativos, sendo que 26 morreram, que se destinavam a Elias Coelho. Anúncio reporta a chegada do paquete Pernambuco, vindo de Angola, numa viagem que durou 26 dias. Embarcaram 257 cativos que se destinavam a Elias Coelho. Vinte e seis morreram na travessia. Fonte: Diário de Pernambuco, 1830
Um dos bairros ainda hoje mais miseráveis e violentos do centro do Recife é o dos “Coelhos”, nome derivado do fato daquela região ser de propriedade da família do maior traficante de escravos da cidade. Sempre que passo por aquela área, fico pensando que parte dos seus habitantes que sobrevivem em condições desumanas, muitos dos quais em palafitas à beira do rio Capibaribe, pode ser formada por descendentes dos escravizados marcados a ferro quente por Elias.

Ao chegarem no Brasil, esses africanos eram postos em quarentena em portos ou mesmo no interior dos navios. Sobrevivendo a essa fase, os escravizados eram obrigatoriamente batizados na fé católica e recebiam nomes à portuguesa. Viravam todos Josés, Franciscos, Marias, Catarinas – Baquaqua não diz qual era seu nome que teve em seus tempos de Brasil. A escravidão implica na desumanização completa do indivíduo. Perder o direito à religião e ao nome escolhido por seus antepassados é parte desse processo.

A viajante estrangeira Maria Graham, que esteve no país na década de 1820, retrata o horror da visão de uma dessas localidades.

“Mal tínhamos percorrido cinquenta passos no Recife, quando ficamos absolutamente enojados com a primeira vista de um mercado de escravos. Era a primeira vez que (…) estávamos em um país de escravos; e, por mais fortes e pungentes que sejam os sentimentos em casa, quando a imaginação retrata a escravidão, eles não são nada comparados à visão desconcertante de um mercado de escravos. (…) Cerca de cinquenta jovens criaturas, meninos e meninas, com toda a aparência de doença e fome, resultante da escassez de comida e longo confinamento em lugares insalubres, estavam sentados e deitados entre os animais mais sujos das ruas ”.

Ao chegar aqui, sendo ainda “boçal” (termo utilizado para descrever os cativos que não dominavam o português), Baquaqua foi colocado para realizar trabalhos puramente físicos. Seu primeiro ofício foi carregar pedras para a construção de uma casa para o seu proprietário.

Depois de ganhar algum domínio da língua, Baquaqua foi para a rua vender pão. Muitos dos escravizados no Brasil do século 19 eram os chamados “pretos de ganho”, isto é, cativos que trabalhavam na rua vendendo alguma mercadoria ou realizando algum serviço, para garantir uma renda diária ao seu proprietário.

Fotografia do acervo do Instituto Moreira Salles mostra vendedoras de rua no Rio na década de 1870.
Fotografia do acervo do Instituto Moreira Salles mostra vendedoras de rua no Rio na década de 1870. Foto: Acervo/Instituto Moreira Salles
A escravidão não era exclusividade da agricultura para exportação e o escravizado não era “mercadoria” acessível apenas aos ricaços. O Brasil era uma sociedade escravista no sentido mais preciso do termo. Os anúncios de compra, venda, aluguel e fuga de escravos eram a matéria mais ordinária nas páginas dos jornais brasileiros neste período.

Um viajante escocês que passou pelo Recife em 1820 relata sua visão:

“Acho que nenhuma impressão fica mais profundamente impressa em minha mente do que a visão melancólica de centenas… de milhares de escravos negros que vi na cidade… Você não pode se mover em nenhuma direção, sem que a escravidão, com todas as suas misérias multiplicadas, prenda sua atenção. Se você anda pelas ruas, você encontra os escravos, a cada hora do dia, em centenas, gemendo e suando sob seus fardos, e gastando suas vidas miseráveis no desempenho daqueles trabalhos pesados que são feitos por cavalos na Escócia e na Inglaterra”.

Sendo vendedor de rua, Baquaqua conta que tentou ser obediente ao seu proprietário para evitar castigos e ter uma existência um pouco menos miserável. Mas mesmo sendo obediente, era agredido e humilhado. E como tantos outros escravizados, na busca de uma fuga da dureza do cotidiano, abusou do álcool. Além da bebida, Baquaqua imita o comportamento de outros milhares de escravizados: foge. Porém, também como era a regra, acaba recapturado.

Homens, mulheres, jovens e crianças viviam tentando fugir. Era uma luta desigual. Alguns, com sorte, podiam se aquilombar em Catucá, o mais famoso quilombo existente no Recife na primeira metade do século 19, que tanto amedrontava o “cidadão de bem” da cidade.

Trecho de uma carta escrita por um desembargador reclamando do “Quilombo dos negros dos palmares do Catucá”. Trecho de uma carta escrita por um desembargador reclamando do “Quilombo dos negros dos palmares do Catucá”. Fonte: Diário de Pernambuco, 1829
Mesmo “com ferro no pescoço” e com “uma ferida na canela direita”, Sebastião do Rosário tentou fugir da sua condição de escravo. Os anúncios de escravos fugidos eram parte obrigatório dos jornais brasileiros do período. Mesmo “com ferro no pescoço” e com “uma ferida na canela direita”, Sebastião do Rosário tentou fugir da sua condição de escravo. Os anúncios de escravizados que fugiam eram parte obrigatória dos jornais brasileiros do período. Fonte: Diário de Pernambuco, 1829.
Anúncio da fuga de uma criança de nove anos com “marcas pela cara” provocadas pelo uso “de uma máscara de flandres”. Anúncio da fuga de uma criança de nove anos com “marcas pela cara” provocadas pelo uso “de uma máscara de flandres”. Fonte: Diário de Pernambuco
Gravura mostrando um escravizado com ferros no pescoço e máscara de flandres. Gravura mostrando um escravizado com ferros no pescoço e máscara de flandres. Ilustração: Jacques Arago/Museu Afro Brasil (São Paulo)
Baquaqua conta que, após uma recaptura, saiu para vender pão, mas usou o dinheiro arrecadado para comprar bebida. Voltando a casa do senhor embriagado e sem dinheiro. Foi violentamente espancado. Revoltado e humilhado, Baquaqua tenta o suicídio:

“Eu preferiria morrer a viver para ser um escravo. Eu então corri para o rio e me joguei, mas sendo visto por algumas pessoas que estavam em um barco, fui resgatado do afogamento.”

Depois disso, ele é posto à venda.

Anúncio publicado no Diário de Pernambuco em 1830, em que anuncia: “vende-se por [ser] fujão”. O termo “ladino” significava que, apesar de o escravo ser africano, ele já dominava o idioma e os costumes locais. Anúncio publicado no Diário de Pernambuco em 1830, em que anuncia: “vende-se por [ser] fujão”. O termo “ladino” significava que, apesar de o escravo ser africano, ele já dominava o idioma e os costumes locais. Fonte: Diário de Pernambuco
Baquaqua é vendido “para fora da província”. Essa era uma outra forma comum de punição e de controle dos escravizados: os que se comportavam mal eram vendidos sob a condição de serem levados para localidades distantes. Toda a sociabilidade construída pelo escravizado naquela cidade era, de repente, desfeita, em uma repetição das agruras do navio negreiro.

Anúncio de venda de escravo no Diário de Pernambuco. Anúncio de venda de escravo no Diário de Pernambuco. Fonte: Diário de Pernambuco
Seu destino foi o Rio de Janeiro, a capital do Império e maior cidade do país. Passou então a trabalhar a bordo de um navio. Após algumas viagens – ele narra passagens por Santa Catarina e Rio Grande do Sul –, a embarcação teria como destino Nova York.

Em 1847, em solo estadunidense, Baquaqua conseguiu finalmente fugir da condição de escravizado e se tornou, mais uma vez, um homem livre. Seus companheiros no Brasil, porém, teriam que esperar até 1888 para terem a mesma sorte.

Livres, mas sem nenhuma indenização por séculos de trabalho forçado, sem acesso à terra, à educação, marcados pelo preconceito e vítimas do racismo “científico” que ganha força no final do século 19 e começo do século 20. Enquanto os imigrantes italianos que aqui aportavam aos milhares a partir de 1890 tinham passagem subsidiada, salário, terra e liberdade para trocar de emprego depois de cinco anos, os pretos e pardos não tinham nada.

Nos EUA, neste exato momento, está em debate no Congresso a questão da reparação dos descendentes de escravizados. No Brasil, diz-se ainda que cotas são “racismo reverso”. O esquecimento da escravidão é um projeto muito bem elaborado pela elite.

Mídia omite suicídio de empresário e ultrapassa fronteira entre jornalismo e propaganda, por Wilsom Roberto Vieira Ferreira.



Telejornais da mídia corporativa simplesmente omitiram ou relegaram à categoria de "fatos diversos" a notícia mais relevante da última quinta-feira. Uma notícia que à opinião pública avaliar o atual estágio de crise social e econômica: diante do ministro de Minas e Energia e do governador do Estado, um empresário se matou com um tiro na boca em Simpósio do setor em Sergipe. Ato extremo diante da insolvência da sua empresa diante das dívidas do fornecimento de gás natural. Com os terremotos semanais da Vaza Jato, a grande mídia cruzou as fronteiras que separam o jornalismo da propaganda – passou a omitir tudo que, ou esteja fora do script da guerra semiótica criptografada (a usina produtora de crises Bolsonaro/Mídia e geradora de notícias dissonantes), ou que contradiga a atual estratégia de enaltecimento moral do empreendedorismo na massa de desempregados e desalentados: a fé de que é possível a força de trabalho se transmutar em capital com “otimismo”, “determinação” e superação”.

Todos sabemos que as manipulações midiáticas não se limitam apenas ao viés (ou “frame”) pelo qual é mostrada uma notícia, ou pelas peripécias na ilha de edição ao pinçar aquilo que é mais conveniente ao script elaborado pelos dos aquários das redações.
Também, a manipulação ocorre naquilo que não é mostrado, colocado fora da pauta ou, no mínimo, fora da escalada pela qual começa todo telejornal. Tendemos a considerar aquilo que é mais importante pelo destaque que é dado ao telejornal. O que não for pautado, ou não existiu ou é considerado menos relevante.
A omissão, nos principais telejornais de rede da grande mídia, do suicídio do empresário de Sergipe no setor de cerâmica, Sadi Gitz, ocorrido nessa quinta-feira, é um desses casos para deixar uma pulga atrás da orelha. Jornal Nacional da Globo, SBT Brasil e Jornal da Record, Globo News e Record News simplesmente omitiram, ou deixaram em segundo plano como uma tragédia de ordem pessoal. 
Gitz era dono da indústria de cerâmica Escurial, um dos líderes empresarias do Estado que enfrentava dificuldades e atualmente estava em recuperação judicial pelas dívidas resultantes pelo alto preço no fornecimento de Gás natural.
Qual a relevância desse fato? Ele participava na manhã de quinta do “Simpósio de Oportunidades – Novo Cenário do Gás Natural de Sergipe”. Diante do governador do Estado e do Ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque. Antes dar um tiro na sua própria boca, chamou o governador de “mentiroso”. 
Gitz teve o seu acordo de dívida negado pelo governador (*sobre isso, leia a resposta do Secretário do Estado de Comunicação do Governo de Sergipe). Apesar de Sergipe ser o terceiro maior produtor de gás natural do Nordeste, os preços são elevados. A empresa questionava que a política de preços da Sergas (Sergipe Gás) era juridicamente ilegal. Gitz tinha decidido pelo fechamento da empresa, fundamental para o desenvolvimento e geração de empregos do polo industrial de Socorro.

Sadi Gitz (foto: Prefeitura de Aracaju)

O discurso pronto midiático  

Portanto, todos os elementos dessa notícia seriam publicamente relevantes. 
Mas, as empresas jornalísticas têm um discurso pronto para justificar a não veiculação de notícias sobre suicídios – existiria um certo tipo de convenção profissional extraoficial de que suicídios não devem ser noticiados por dois motivos: (a) por ser um ato extremamente íntimo e pessoal; (b) a publicação massiva da notícia pode motivar pessoas predispostas a esse ato extremo. Aquilo que estudiosos chamam de “efeito copycat” ou de imitação.
Mas é claro que são argumentos oportunistas sacados do bolso do colete. Quantas vezes notícias suicídio de pessoas famosas do meio artístico e da indústria do entretenimento foram noticiadas sem o maior pudor ou constrangimento? Desde Kurt Cobain e o ator Robin Williams ou de brasileiros como a atriz Leila Lopes e o sensacionalismo sobre as diversas tentativas de suicídio do cantor Rafael Ilha.
Durante toda quinta-feira, a grande mídia concentrou fogo sobre a aprovação do texto da Reforma da Previdência na Câmara e, no dia seguinte, o otimismo do onipresente “mercado” (que nunca especificam que é o “especulativo financeiro”) pela aprovação e a ida do texto da Reforma para a Plenária.


Bora empreender!...

A questão é que, do outro lado da moeda dessa pauta da Reforma da Previdência, está a turbinagem do otimismo e o enaltecimento moral do empreendedorismo. “Bora empreender, Brasil!”, exortam peças publicitárias do banco Santander. Certamente, notícias de suicídios de empreendedores falidos pela política de preços de insumos não é nada bom para o discurso que diariamente está sendo empurrado goela abaixo dos brasileiros.
Um discurso que tenta mitigar a crise econômica crônica do desemprego e paralisia do setor produtivo e infraestrutura com a fé de que a força de trabalho (desempregada) pode, um dia, magicamente se transformar em capital. Claro, com as maquininhas de crédito/débito vendidas pelos bancos que, no futuro, irão faturar obscenamente com a privatização da Previdência.
Em postagem anterior víamos como os telejornais estão focados na elevação do astral dos brasileiros: de pessoas desempregadas ao relento vendendo café e bolos em frente às estações de metrô noticiados sob o viés da “variedade da gastronomia de rua”, cantando loas ao “empreendedorismo”, à moralização da meteorologia (o sol como “boa notícia”) e a transformação de eventos esportivos das periferias (Copa das Favelas em São Paulo, por exemplo) como metáforas da “superação”, “determinação” e “otimismo” – segundo o jornalismo corporativo, ingredientes necessários para que ocorra a magia da transmutação da força de trabalho em capital – clique aqui.

Guerra semiótica criptografara: um show que nunca termina

A usina de crises criptografadas

A omissão da trágica noticia de Sergipe de tamanha relevância (para um líder de elite empresarial, branco, chegar a esse ato extremo, imagina quantos outros anônimos excluídos e vulneráveis estão, consciente ou inconscientemente, dando cabo da própria vida) é mais uma evidência de que a atual guerra semiótica é bem diversa do que aquela que a esquerda estava acostumada a enfrentar.
Supostamente a Globo vive uma guerra particular com Bolsonaro, com suas diversas ameaças à poderosa emissora. Tudo faz parte de uma estratégia diversionista de propaganda por dissonância e até psicologia reversa.
Por exemplo, o quadro “Isso a Globo não mostra” do Fantástico (o próprio título é uma meta ironia de todos críticos históricos da emissora) repercute as bizarrices retóricas dos membros do governo como fosse uma declaração de guerra – na qual os próprios blogs “de esquerda” caem facilmente, repercutindo como fosse evidência de “crise política” da poderosa Globo contra Bolsonaro. Um grande simulacro, como se a Globo hackeasse a si própria...
“O governo Bolsonaro é uma usina de crises”, afirmou certa vez o presidente da Câmara Rodrigo Maia, que supostamente viveria às turras com o Governo. E, de repente (por disparos como esse), é alçado a condição de racionalidade pela mídia seja corporativa e progressista, num governo de limítrofes e de bobagens diárias.
 Filhos do Bolsonaro tretando no twitter com generais, generais sendo demitidos do governo, Olavo de Carvalho medindo forças com militares e xingando políticos da própria base aliada, a “carta-bomba” de Paulo Portinho compartilhada por Bolsonaro nas redes sociais (clique aqui), Rodrigo Maia ironizando o clã Bolsonaro, o ministro da educação na sua guerra particular contra universidades públicas até chegar ao flagra de tráfico de drogas internacional do militar da aeronáutica pego com 39 quilos de cocaína em avião presidencial na Espanha – cujo “frame” da grande mídia é “militar transportando droga”.

Vaza  Jato: tudo aquilo que é tóxico para a guerra criptografada de Bolsonaro

Aquilo que está fora do script

Tudo isso faz parte de uma guerra semiótica de geração contínua de dissonâncias, guerra criptografada. Podemos achar até arriscada e irresponsável. Mas eles sabem que as ruas estão vazias e as esquerdas desarticuladas e, por isso, têm espaço para essas, por assim dizer, “licenças poéticas”.
TV Globo repercute tudo... menos aquilo que não faz parte do script dessa guerra criptografada: a desconstrução da imagem de super-herói do ministro da Justiça Sérgio Moro por Glenn Greenwald e o site Intercept, e o rompante suicida de um líder empresarial falido.
Essas são também dissonâncias, mas externas ao jogo proposto pelo Governo Bolsonaro, jogado pela grande mídia e ingenuamente (?) pela própria esquerda. Uma, veio da externalidade um jornalista norte-americano. E a outra, de alguém quis pular fora de toda essa loucura e fugir para a externalidade do outro mundo.

Noam Chomsky

Baseando-se nas observações do linguista Noam Chomsky, a estratégia semiótica de Bolsonaro é análoga a de Donald Trump nos EUA: todo dia o Governo alimenta a pauta da mídia com um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro das atenções – clique aqui.
Enquanto isso, o “flanco selvagem” do Governo e Congresso (equipe econômica e bancadas temáticas – Bala, Bíblia, Boi etc.) tocam as medidas neoliberais de interesse da banca financeira, cuja privatização da Previdência é a faceta mais visível. 
Se no plano da retórica e propaganda Bolsonaro governa para o seu núcleo duro fundamentalista de extrema direita (arregimentar as milícias digitais e reais e elevar o moral dos 30% da opinião pública visceralmente anti-PT)), em última instância esse governo só chegou e permanece no poder pelas expectativas dos bancos e especulação financeira. 
O episódio de omissão de um episódio impactante e relevante como o suicídio do empresário Sadi Gitz, só comprova o prognóstico desse humilde blogueiro em postagem anterior: com o impacto das revelações do site Intercept, chegou o momento da última cruzada da grande mídia na defesa dos seus interesses rentistas: a transformação explícita do jornalismo em propaganda política.
Primeiro pela torcida descarada pela reforma da Previdência da parte de repórteres setoristas e analistas políticos ao vivo nas coberturas do Congresso. E, segundo, pela simples omissão de notícias relevantes para a opinião pública. 

No seu texto, vc coloca que o empresário Sadi Gitz teve seu acordo de dívida negado pelo governador. 
Não houve isso. 
A dívida dele não era com o governo do estado, mas com a Sergás, empresa de fornecimento de gás aqui de Sergipe, onde o governo do estado detém apenas 17% na sociedade, sendo a Petrobras e a Mitsui, os dois sócios que mantém as maiores cotas acionarias. 
Nunca o governador Belivaldo Chagas foi sequer procurado pelo empresário para discutir sua dívida, portanto, não teria como negar algo que nunca lhe foi solicitado. 
Sobre a dívida com a Sergas, mesmo que o governador tivesse sido procurado, nada poderia fazer, pois ela possui regras de governança, conselho administrativo e as decisões são tomadas em um colegiado onde o governo do estado é o minoritário. 
Sales Neto
Secretário de Estado da Comunicação Social do governo de Sergipe