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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Documento da CIA sobre execuções “implode” versão oficial da ditadura, por El País.

Gerente-executiva do relatório da Comissão da Verdade diz que ainda há arquivos a serem analisados.

Bolsonaro questiona documento, que "não vale um tostão" na avaliação de presidente do Clube Militar






Manifestação no Rio de Janeiro em junho de 1968.
Manifestação no Rio de Janeiro em junho de 1968.







As feridas abertas durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) insistem em não cicatrizar. Revelado na quinta-feira, o documento da CIA que expõe a cúpula do Governo militar discutindo execuções em 1974 "implode o núcleo da versão oficial", segundo Vivien Ishaq, gerente-executiva do relatório da Comissão da Verdade. Responsável por coordenar os esforços das mais de 300 pessoas que participaram ao longo de 30 meses da pesquisa que revirou o passado recente do país, a historiadora chama atenção para o nível em que a mensagem da CIA foi trocada. "Do ponto de vista do poder dos personagens, é top secret. De diretor da CIA para primeiríssimo escalão. É extremamente importante", diz Ishaq. O conteúdo da mensagem é posto em dúvida pelos militares, contudo.
De acordo com a pesquisadora, que também coordenou o recolhimento dos arquivos da ditadura no Arquivo Nacional em Brasília, a maior parte do material dessa época disponível no Brasil diz respeito a pessoas investigadas pelo serviço secreto. "Aqui [no memorando da CIA] se vê de outro ponto. De primeiro escalão para primeiro escalão. É documento de Governo, não de serviço secreto", analisa Ishaq, para quem mensagem da agência norte-americana reforça as conclusões da Comissão da Verdade. O relatório final, apresentado em dezembro de 2014, demonstrava a existência de uma política de repressão. "Ao implodir esse núcleo central, também se joga por terra teses muito caras para as Forças Armadas e para os defensores da ditadura", diz a pesquisadora, que cita duas delas: "De que a maioria das mortes teria ocorrido em confronto ou de que seriam resultado de excessos de determinados agentes do Estado", o que eximiria de responsabilidade o comando hierárquico.
Como esse documento estava à disposição para consulta desde 2015, é de se imaginar que ainda há mais para ser descoberto sobre o período. Pelo menos a partir dos arquivos norte-americanos, porque o Exército divulgou uma nota desencorajadora na quinta-feira. Reproduzida pela Agência Brasil, a mensagem do Centro de Comunicação Social do Exército "informa que os documentos sigilosos, relativos ao período em questão e que eventualmente pudessem comprovar a veracidade dos fatos narrados foram destruídos, de acordo com as normas existentes à época – Regulamento da Salvaguarda de Assuntos Sigilosos (RSAS) – em suas diferentes edições”.
O Ministério da Defesa reforçou a mensagem do Exército em nota praticamente idêntica. Mais tarde, questionado por jornalistas sobre o assunto, o ministro Raul Jungmann, da Segurança Pública, disse que o valor das Forças Armadas "permanece nos mesmos níveis [em] que se encontra até aqui". "São documentos da CIA, e o Governo brasileiro não tem conhecimento oficial de nada do que diz respeito a isso. Para se ter um pronunciamento oficial a respeito desse assunto, nós não podemos ficar apenas [nisso]", comentou.
O Arquivo Nacional guarda pelo menos dois lotes de documentos enviados pelos Estados Unidos após a conclusão do relatório da Comissão da Verdade. São 651 os documentos disponíveis para os pesquisadores brasileiros. "A produção documental sobre o assunto é gigantesca. Há 20 milhões de páginas no Arquivo Nacional", diz Vivien Ishaq. Segundo ela, o relatório da Comissão da Verdade produziu apenas uma "fotografia do período em que funcionou" e ainda "tem muita investigação a ser feita e muito documento a ser analisado". E é possível até que existam documentos brasileiros, porque o termo de destruição dos registros também foi destruído. Ou seja, não existe prova de que os documentos foram de fato destruídos.

Militares

Além do Exército, do Ministério da Defesa e do ministro da Segurança Pública, também falou pelos militares o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ). Em entrevista à rádio mineira Rádio Super, o pré-candidato à presidência questionou onde estão os 104 mortos que teriam sido executados pelo regime em 1973, de acordo com o documento da agência de inteligência norte-americana. "Quantas vezes você falou ali num canto que tem que matar mesmo, tem que bater, tem que dar canelada...Talvez esse cara tenha ouvido uma conversa como essa e fez o relatório e mandou", questionou o deputado, referindo-se ao então diretor da CIA, William Egan Colby.

Único dos pré-candidatos à presidência a defender o regime militar, Bolsonaro interpretou a comoção em torno da questão como uma reação a seu prestígio eleitoral. "Voltaram à carga, né? Um capitão está para chegar lá, é o momento. Olha, foi um memorando de um agente, que a imprensa não divulgou. É um historiador que diz que viu, mas não mostrou. Tem que matar a cobra e mostrar o pau. Eu respondo de forma simples: quem nunca deu um tapa no bumbum de um filho e depois se arrependeu?", disse o deputado durante a entrevista.
O presidente do Clube Militar, Gilberto Pimentel, engrossou o coro. Em entrevista ao Estado de S.Paulo, ele classificou a comunicação norte-americana de "inteiramente fantasiosa" e disse que o documento "não vale um tostão furado". Na entrevista, Pimentel destaca o momento em que a mensagem surgiu. "Temos agora na liderança das pesquisas para as eleições presidenciais um candidato que surgiu do nosso meio e um grupo expressivo de militares que, democraticamente, nesses dias consolidou a intenção de candidatar-se aos mais variados cargos de governo, desde os municipais, passando pelos estaduais até os federais”. Levantamento do Estado de S.Paulo aponta a que pelo menos 71 militares pretendem se candidatar na eleição deste ano.
O presidente eleito do Clube Militar, Antonio Hamilton Mourão, que assume o posto em junho, também comentou o assunto em entrevista. Ao jornal gaúcho Zero Hora: “A quem interessa manchar a reputação das Forças Armadas, que segundo pesquisas são as instituições em que a população mais confia, hoje, no Brasil? Gostaria de saber por que esse documento surgiu justo agora, num momento turbulento da nação.”

Anistia

Órgãos do Ministério Público Federal divulgaram nota nesta sexta-feira para questionar a Lei de Anistia. A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão e a Câmara Criminal do MPF dizem que o "Brasil é o único país do continente que, após ditadura ou conflito interno, protege os autores de graves violações aos direitos humanos com uma Lei de Anistia". "O documento do governo americano, ao revelar nova evidência de que a repressão política pela ditadura militar incluiu uma política de extermínio de opositores do regime, convida para uma resposta breve do Estado brasileiro em favor da promoção da justiça", defendem os órgãos, que dirigem sua pressão diretamente ao Supremo Tribunal Federal. "A Suprema Corte brasileira, ao conformar a aplicação da Lei de Anistia e da prescrição penal às normas vinculantes do direito internacional e às decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos, ajustará o Brasil ao parâmetro adotado por todos os Estados da América Latina que passaram por ditaduras ou conflitos internos durante os anos setenta e oitenta".

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Para a CIA Plano Astral existe e é potencial arma de Parapolítica, por Wilsom Ferreira Vieira



Após dois anos de batalha judicial na qual ativistas processaram a CIA através da FOIA (Freedom of Information Act), a Agência foi obrigada a disponibilizar 800 mil documentos em sua biblioteca virtual disponível na Internet. Entre as 13 milhões de páginas revela-se o interesse da Inteligência militar por investigações sobre percepção extra-sensorial (ESP) e o Plano Astral. Dois documentos se destacam. O primeiro faz um resumo das investigações da CIA sobre o Plano Astral. E o segundo, um pequeno manuscrito sobre os perigos que envolvem essas pesquisas com referência a Aleister Crowley e o “ocultismo profano” Nazi. É sabido que durante a Guerra Fria os EUA fizeram intensas pesquisas sobre visão remota para espionagem. Mas os documentos dos anos 1980 sugerem algo além: contato com “energias inteligentes e não corporais” de outras dimensões e projeções da consciência ao passado e futuro. Será que, assim como no ocultismo nazi, também a Inteligência militar dos EUA tenta manipular potenciais armas de Parapolítica?

Almino Afonso, ministro do Trabalho no governo João Goulart (1962-64), era entrevistado no programa Roda Viva da TV Cultura/SP. A certa altura a jornalista Eliane Catanhêde interpelou o entrevistado a dar os nomes daqueles que traíram o presidente Goulart dentro da base parlamentar, fragilizando-o diante da eminência do golpe militar. Almino Afonso respondeu dessa maneira:
“A maioria deles... eu enfrentaria problemas terríveis em um plano que não sei absolutamente conviver, um plano de outra dimensão da vida (ele fala gesticulando as mãos para o alto)... é muito complicado, e eles quase todos estão mortos... imagina quantos no conjunto já morreram. Sou um dos raríssimos ministros que ainda está vivo”
Uma resposta curiosa: Afonso parece afirmar que o quê impede de delatar os nomes dos traidores não é apenas o bloqueio moral (delatar pessoas que já morreram), mas também respeito e temor pela “outra dimensão da vida” e “problemas terríveis” como se alguma represália o aguardasse por aqueles que estão na “outra dimensão”.

As conexões entre o mundo da política e dos políticos com o oculto sempre mereceu pouca atenção tanto da mídia quanto de acadêmicos. A não ser quando o tema é tratado ou como bizarrice, curiosidade folclórica; ou como “teoria conspiratória” sem qualquer validade científica.

Tudo que podemos encontrar são, aqui e ali, pistas, sinais, evidências de que a Política não  se limita apenas a uma atividade unidimensional marcada pela luta por interesses materialistas como dinheiro e poder.

Túnel suíço, Bohemian Grove e o “Indiana Jones” nazi


O mais recente foi a “bizarra” cerimônia de inauguração transmitida ao vivo, no ano passado, do túnel ferroviário nos Alpes suíços (o mais longo do planeta) com uma massiva simbologia hermética, pagã e religiosa num grande show teatral multimídia. Com a presença de altos dignitários europeus – clique aqui.

Cerimônia de inauguração do "Gotthard Base Tunnel" no ano passado

Ou o encontro anual, há mais de um século, no Bohemian Club na Califórnia, de mais de dois mil membros da elite mundial (política, econômica e midiática), sempre no mês de julho. Sempre recebido com protestos de manifestantes anti-globalização, o ponto alto do encontro (registrado secretamente por uma câmera digital pelo jornalista Alex Jones no ano 2000) é um estranho ritual ocultista chamado “Cremation of Care” aos pés de uma estátua de coruja com 12 metros de altura – clique aqui.

Isso é o que o Cinegnose chama de “Parapolítica”, abordagem esotérica da política iniciada pelo jornalista e escritor francês Jacques Bergier no livro clássico “O Despertar dos Mágicos”. Com um farto conjunto de dados e referencias, Bergier aborda como o nazismo foi um movimento que transcendeu a mera política terrena: originado em sociedades fechadas ocultistas, seus líderes pertenciam a um mundo de videntes, médiuns e astrólogos. Seus planos militares e políticos tinham forte envolvimento com o Oculto.

Por exemplo: é historicamente documentado como a SS enviou historiadores e arqueólogos como Otto Rhan (conhecido como o “verdadeiro Indiana Jones”) atrás de relíquias como a Arca da Aliança em incursões pela França Meridional, em cavernas no entorno da fortaleza de Montsegur, na qual os gnósticos cátaros foram massacrados como hereges pela Igreja no século XII. Heinrich Himmler acreditava que, mais do que relíquia religiosa, a Arca poderia conter energias ocultas que poderiam ser direcionadas para fins de conquista – clique aqui.

Jacques Bergier

CIA e o Plano Astral


Outro exemplo é a recente liberação de documentos da CIA envolvendo pesquisas sobre Percepção Extra-Sensorial e a existência do chamado “Plano Astral”.

Depois de muita pressão dos defensores da lei de liberdade de informação a CIA liberou recentemente on line 800 mil documentos classificados como secretos até os anos 1980 e que, até então, somente eram acessíveis ao público nos anos 1990 em computadores nos fundos de uma biblioteca nos Arquivos Nacionais, em Maryland.

Entre os registros mais “exóticos” são aqueles que envolvem OVNIs e pesquisas em percepção extra-sensorial. Entre eles, dois se destacam: um de Wayne Mcdonnell (da Inteligência do Exército dos EUA) intitulado “Analysis and Assessment of Gateway Process” de 1983 – endereçado ao comando da US Army Operational Group com um resumo das investigações da CIA sobre o que muitas vezes é chamado de “Plano Astral” entre ocultistas e esotéricos.

E outro, um curioso manuscrito sobre os perigos das pesquisas em Percepção Extra-sensorial – “ESP Research and Its Dangers” de 1985.

A noção de Plano Astral está associado a certas religiões orientais como o hinduísmo, jainismo e budismo – noção fundamental para o conceito de “nirvana”. Ou para os espiritualistas, um plano além do mundo material que consiste em diversos planos vibratórios ou “regiões” através das quais poderíamos viajar ao mudar o foco da consciência.


Algumas religiões acreditam que o Plano Astral somente poderia ser acessado depois da morte. Mas a partir das pesquisas e experiências da chamada “Projeciologia”, seria possível projeções da consciência e experiência fora do corpo (projeção astral), isto é, a “saída” da consciência do corpo físico e a manifestação em uma dimensão extra-física.

Embora a Ciência descarte essas experiência apenas como solipsistas estados alterados da mente, parece que a CIA e a USAISCOM (United States Army Information Systems Command) levaram tudo isso muito a sério.

O documento inicia fazendo um resumo das técnicas mais conhecidas de projeçãoo astral e seus fatores biomédicos: hipnose, biofeedback, meditação transcendental.

Hemi-Sync e o Instituto Monroe


Mas o documento trata principalmente do chamado “Gateway Process” e a técnica “Hemi-Sync” – sincronização dos hemisférios cerebrais, técnica desenvolvida por Robert A. Monroe (1915-1995) e o seu Instituto Monroe dedicado a pesquisas sobre estados de consciência e experiências da consciência fora do corpo.

Monroe desenvolveu o Hemi-Sync - sincronizar a amplitude de frequência dos dois hemisférios cerebrais para criar estados alterados que permitam à consciência transitar por diversos “focos”, até chegar ao “21” no qual escapamos das restrições de tempo e espaço indo tanto para o passado quanto futuro.

O Instituto Monroe manteve diversos contratos com o complexo de Inteligência Militar dos EUA, até o ano da morte do seu fundador em 1995. Como podemos perceber no documento de Wayne Mcdonnell, havia o interesse em treinar agentes na arcana ciência da visão remota como ferramenta de espionagem.

Há diversos documentos relatando que durante o período da Guerra Fria entre EUA e URSS nos anos 1970 foram realizadas diversas ações de visão remota em áreas de testes militares soviéticos, áreas de instalações nucleares e de construção de submarinos.

Em 1988, um visualizador remoto teria localizado o local onde estava preso no Líbano o Coronel William Higgins e durante a Guerra do Golfo teria sido utilizada para localizar o esconderijo de Saddam Hussein.


Viagens da consciência no Tempo


Mas parece que o documento sugere algo muito maior, para além das missões de espionagem ou resgate de oficiais sequestrados.

O documento também discute o conceito de consciência como energia aprisionada num espaço tridimensional no qual todo o Universo se apresentaria como um holograma. Porém, essa energia pertence ao “Absoluto” (“The Absolute”) um estado original e infinito que transcenderia os diversos hologramas pelos quais cada realidade é representada em cada nível vibratória do Plano Astral.

O objetivo seria expandir a consciência até alcançar a dimensão do Absoluto no qual nenhum holograma é gerado sobre si mesmo. Sem mais restrições de tempo/espaço, a consciência alcançaria o “focos” de 15 a 21 – viagem da consciência no tempo do passado ao futuro.

Mas o curioso é uma das conclusões finais do documento que abrem para possíveis pesquisas futuras: preparar intelectualmente os projetores astrais para “possíveis encontros com formas de energias inteligentes e não corporais quando os limites de tempo espaço forem excedidos”.


Os Perigos das Pesquisas no Plano Astral


Isso se liga ao enigmático documento apócrifo “Pesquisa em Percepção Extra-Sensorial e seus Perigos”. O texto faz alusão às experiências ocultistas da chamada Vril Society - grupo ocultista por trás de Hitler e da SS de Himmler e o “ocultismo profano” de Aleister Crowley, membro dessa sociedade. Como esse ocultismo foi a tentativa de um atalho para a busca do poder da percepção extra-sensorial. E que resultou em “canibalismo social”, violência e assassinatos com a ascensão do nazismo.

E os perigos desse mesmo “ocultismo profano” fazer parte do “poder dos EUA” e ameaçar “pessoas decentes” - clique aqui.

Tanto o livro "O Despertar dos Mágicos" de Bergier quanto a série espírita Nosso Lar (psicografada por Chico Xavier) descrevem a ação das chamadas “forças das trevas” nas regiões do Plano Astral próximas da Terra (o “Umbral”) com cidades, fortalezas e exércitos disciplinados com o objetivo de conquistar corações e mentes dos encarnados – principalmente seus líderes políticos.

O momento histórico era o da Segunda Guerra Mundial e essas forças manipulavam substâncias etéreas como as “formas-pensamentos” (termo teosófico para designar como o pensamento humano projeto no astral formas plásticas até formar egrégoras que, em muitos casos, se autonomizam ganhando força própria) caóticas sobre o continente europeu como uma nuvem magneticamente negativa.

E o ocultismo nazi parecia estar consciente da existência dessa convergência entre o Plano Astral e o material e procurou de todas as formas tirar proveito dessas energias etéricas.

Com a revelação desses documentos da Inteligência militar dos EUA sob a imposição da FOIA (Freedom of Information Act), poderíamos fazer a seguinte questão: assim como no trágico episódio do ocultismo nazi, será que o complexo militar norte-americano também busca “atalhos” para dominar as ferramentas de Parapolítica?

 E mais: será que agora com pretensões de manipular tanto o passado quanto o futuro? Tudo no melhor estilo da série Netflix Os 12 Macacos?

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Wannacry, o vírus global que veio de Washington, por Outras Palavras.

on 13/05/2017Categorias: Comunicação, Destaques, Internet
170513-Wannacry
Milhões de computadores afetados, no mundo todo. Sistemas de saúde paralisados. O que ocorre quando os serviços secretos dos EUA criam ferramentas para roubar dados — e perdem o controle para criminosos
Por Sam Biddle, em The Intercept EUA | Tradução: Simone Paz Hernández
Em meados de abril, um poderoso arsenal de ferramentas de software, aparentemente projetadas pela NSA para infectar e controlar computadores que usam sistema operacional Windows, foi vazado por uma entidade conhecida pelo nome de “Shadow Brokers” (agentes da sombra). Menos de um mês depois, a suposta ameaça de que criminosos usariam estas ferramentas contra o público em geral tornou-se real, e milhares de computadores no mundo inteiro estão agora paralisados, dominados por uma quadrilha desconhecida que exige uma recompensa.
O vírus que está assumindo o controle dos computadores denomina-se “WannaCry” ou “Wanna Decryptor”. Espalha-se de aparelho em aparelho silenciosamente e permanece invisível para seus usuários até que se revela como um chamado ransomware ou “vírus de sequestro”, informando a seus usuários que todos seus arquivos foram criptografados com uma chave que somente o agressor conhece, e que estes só serão liberados após o pagamento de 300 dólares a uma facção anônima, por meio da criptomoeda Bitcoin. O resgate aumenta para 600 após alguns dias; e, mais tarde, se o resgate não for pago, os arquivos do usuário são deletados. Os hackers fornecem um relógio de contagem regressiva de fácil acesso, com o qual as vítimas sabem exatamente quanto tempo lhes resta.
170513-Vannacry
Vírus de sequestro (ransomware) não são algo novo; para as vítimas, um ataque desses costuma ser uma dor de cabeça colossal. Porém, o surto de hoje espalhou o vírus de sequestro numa escala maciça, atingindo não só computadores domésticos, como também sistemas da área de saúde, infraestruturas de comunicação, logística e entidades governamentais. Segundo a agência Reuters, “hospitais em toda a Inglaterra reportaram que o ciberataque estava causando enormes problemas em seus serviços, e as populações de áreas afetadas pelos ataques foram orientadas a procurar assistência médica somente em casos de urgência”. Além disso, “o ataque afetou os sistemas de imagem dos raio-x, resultados de testes patológicos, sistemas telefônicos e de atendimento aos pacientes”.
Relatou-se que o vírus também afetou universidades, uma grande empresa espanhola de telecomunicações, a corporação global de correios privados FedEx e o ministério do Interior russo. Ao todo, pesquisadores detectaram o vírus WannaCry em mais de 57 mil computadores ao menos em 70 países (e contagens como esta costumam variar, aumentando rapidamente).
De acordo com especialistas no rastreio e análise do vírus e sua difusão, este poderia ser um dos piores ataques do tipo de que se tenha registro. O pesquisador especialista em segurança, que tuíta e escreve assinando “MalwareTech”, declarou ao The Intercept: “Nunca vi nada igual no que se refere a vírus de sequestro”, e “o último vírus desse nível que eu me lembro é o Conficker”. Conficker foi um famoso vírus para Windows, que foi descoberto pela primeira vez em 2008 e que chegou a infectar mais de 9 milhões de computadores em aproximadamente 200 países.
O atual ataque do WannaCry parece utilizar um exploit [1] da NSA — a Agência Nacional de Segurança dos EUA — de codinome ETERNALBLUE. Trata-se de uma ferramenta de software que teria permitido que os hackers espiões da agência invadissem milhares de computadores que rodam Windows, explorando uma falha. Por meio desta, os hackers da NSA implantavam um protocolo de rede, utilizado para compartilhar arquivos e para imprimir. Embora a Microsoft tenha corrigido a vulnerabilidade ao ETERNALBLUE, numa atualização de software em março, dependeria de que os usuários mantivessem seus sistemas atualizados com a versão mais recente do Windows. Muitas pessoas (inclusive os governos) não instalam atualizações. Anteriormente, alguns se consolavam em saber que somente inimigos da NSA poderiam temer que o ETERNALBLUE fosse utilizado contra si. Porém, desde o momento em que a agência perdeu o controle de seu próprio exploit no último verão, já não existe essa garantia.
A atualidade escancara exatamente o que está em jogo quando hackers governamentais não são capazes de manterem suas armas virtuais guardadas. Como foi colocado pelo pesquisador especialista em segurança, Matthew Hickey, que rastreou as ferramentas da NSA vazadas no último mês: “na realidade, me surpreende que um vírus armado dessa natureza não tenha se espalhado antes.”
Esta contaminação certamente irá reacender argumentos sobre o que se sabe do “Vulnerabilities Equities Process” (VEP), o procedimento de decisão utilizado para determinar quando a NSA deve utilizar para si as brechas de segurança que descobre (ou cria) – e mantê-las em segredo – e quando deve compartilhá-las com as companhias afetadas, de forma que possam proteger seus usuários.
Christopher Parsons, um pesquisador do Laboratório Cidadão, da Universidade de Toronto, explicou claramente ao The Intercept: “O ataque do vírus de sequestro hoje é possível graças ao trabalho realizado e assumido pela NSA”. Acrescentou: “idealmente, este poderia conduzir a mais revelações que melhorariam a segurança dos computadores”
Mas, mesmo se a NSA estivesse disposta a divulgar seus exploits, em vez de armazená-los, ainda assim enfrentaríamos o problema de que muita gente parece não se importar em atualizar seus softwares. “Autores maliciosos exploram vulnerabilidades antigas ao realizarem suas operações, de forma rotineira”, aponta Parsons. “Não há razão pela qual uma divulgação maior das vulnerabilidades por meio do VEP mudaria tais atividades.”
Um porta-voz da Microsoft comentou: “Atualmente nossos engenheiros acrescentaram detecção e proteção contra um novo software malicioso conhecido como Ransom:Win32.WannaCrypt. Em março, nós fornecemos uma atualização de segurança que oferece proteção adicional contra este potencial ataque. Aqueles que utilizam nosso software de antivírus grátis e que possuem as atualizações do Windows ativadas, estão protegidos. Estamos trabalhando com os clientes para prover assistência adicional. ”

[1] Em português, “explorar”, com sentido “usar algo para sua própria vantagem”, é um pedaço de software, um pedaço de dados ou uma sequência de comandos que se aproveitaq de um defeito, falha ou vulnerabilidade a fim de causar um comportamento acidental ou imprevisto no software ou hardware de um computador ou em algum eletrônico (normalmente computadorizado)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

As três guerras de Donald... e as que estão por vir, por Moises Naim.

A diversidade, intensidade, periculosidade e, às vezes, a banalidade dos conflitos causados por Trump não são normais




Donald Trump durante uma reunião na Casa Branca em 31 de março. AP

É normal que os presidentes se confrontem com seus opositores políticos e que tenham rusgas com outros países. Também é comum, e bastante saudável, que os governos e os meios de comunicação não se deem bem. Ou que os presidentes tenham de enfrentar a burocracia pública que, segundo afirmam, não executa com entusiasmo as políticas que eles prometeram aplicar.
Isso tudo é normal. Mas não são nada normais a diversidade, a intensidade, a periculosidade e, às vezes, a banalidade dos conflitos gerados pelo novo presidente dos Estados Unidos. Donald Trump, porém, não é, com efeito, um governante normal.
Presidentes costumam gozar de um período de alta popularidade no início de mandato. Trump, ao contrário, tem o mais baixo índice de aprovação jamais registrado nesse tipo de pesquisa de opinião. As tentativas de concretizar as suas principais promessas de campanha estão naufragando; ele enfrenta investigações criminais ameaçadoras sobre membros de sua equipe –alguns dos quais já foram obrigados a renunciar—e não consegue preencher postos que lhe permitiriam ter uma gestão melhor. Os vazamentos de informações a partir da Casa Branca são constantes. A China está ocupando rapidamente os espaços de liderança mundial que os Estados Unidos estão abandonando e a Rússia de Putin cresce e procura influenciar as eleições europeias como fez com as presidenciais norte-americanas.
Em vista de tudo isso, caberia pensar que Trump tentaria estabilizar a situação e formar alianças. Mas o presidente está fazendo exatamente o oposto. Em vez de conciliar, busca o confronto; em vez de fechar frentes de batalha, abre novas; e, em vez de unir, está dividindo. Eis as três principais guerras internas de Donald Trump.
A guerra contra o seu próprio partido: Todas as organizações políticas têm facções, e o Partido Republicano não é exceção. Suas divisões internas impediram que se aprovasse a lei que desmantelaria a reforma realizada por Barack Obama na área da saúde. Qual foi a reação de Trump? "Devemos combatê-los", afirmou, referindo-se aos membros de seu partido que foram contrários à sua proposta. E também disse que, nas eleições parlamentares de 2018, apoiará candidatos que possam derrotar e impedir a reeleição dos congressistas que não o apoiarem. As reações dos republicanos dissidentes não se fizeram esperar: "A intimidação não funciona", "essas ameaças podem dar certo na escola primária, mas o nosso governo não funciona assim"... Embora as duas partes se esforçarão para mostrar que as divergências foram superadas, a realidade irá demonstrar que essas divisões têm efeitos duradouros. Trump continuará em guerra contra os que não apoiarem as suas iniciativas. Mesmo que isso implique lutar abertamente contra os líderes de seu próprio partido.
A guerra contra as agências de inteligência: Os serviços de inteligência dos EUA empregam mais de 100.000 pessoas, que trabalham em 17 diferentes organizações. Embora rusgas entre essa comunidade e a Casa Branca tenham existido no passado, nunca o conflito foi tão forte como agora. O presidente Trump afirmou que essas agências são tão desonestas quanto os meios de comunicação que divulgam notícias falsas. Chegou a chamá-las também de "nazistas". As agências de inteligência, de seu lado, soltaram um relatório cuja conclusão é de que o Kremlin influenciou as eleições nos EUA e que Vladimir Putin tem uma predileção explícita por Trump. James Comey, diretor do FBI, confirmou que a sua instituição está investigando a possível ligação de membros da equipe de Trump, durante a campanha eleitoral, com agentes de inteligência russos. O presidente disse que agora confia mais nas agências de inteligência, e explica o motivo: "Já pusemos pessoal nosso lá". Sem dúvida. Mas existem cerca de 100.000 pessoas que ainda não são do "pessoal" de Trump.
A guerra contra a Reserva Federal: Esta guerra contra o Banco Central dos EUA ainda não começou, mas é possível vê-la se aproximando. Presidentes gostam que as taxas de juros sejam mais baixas, o que costuma estimular o consumo, a atividade econômica e o emprego. Mas, se o déficit fiscal e o dinheiro em circulação aumentam e os preços começam a subir, é dever do banco central aumentar as taxas de juros para amenizar os riscos de uma inflação elevada e outros males econômicos. Mais uma vez, essa tensão entre a presidência e o banco central, comum em todos os países, pode se agravar, no caso de Trump, até se tornar um conflito com consequências econômicas graves. Ainda como candidato, o atual presidente expressou sua opinião sobre a diretora da Reserva Federal, Janet Yellen. "Ela devia ter vergonha de si mesma", disse Trump. Por quê? Porque Yellen havia dito que talvez tivesse que promover uma alta nas taxas de juros.
Estas são as três guerras internas de Trump, mas a sua beligerância também se expressa nas relações internacionais de seu país. E o maior perigo é que as derrotas domésticas o levem a procurar por confrontos do lado de fora. Não seria o primeiro líder de um país a usar um conflito externo para desviar as atenções de seus problemas internos. Putin pode lhe dar muitas lições sobre isso.