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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Fragmentos para dias nada felizes, por Márcia Tiburi.


Fragmentos para dias nada felizes
A “brasilidade” que eu conheço é a de uma árvore que desapareceu, que pegou fogo, que virou cinzeiro, que virou cinzas (Foto: Taifur Azam/Divulgação)

Às vezes a gente quer que nasça um texto. E nasce outro. Isso é um sortilégio que a gente tem que aceitar.
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Quem escreve começa a escrever o que os outros querem ler, quando querem ler. Isso acontece, sobretudo se você é jornalista. Pra minha sorte, não é o meu caso, nesse momento em que se disputam corações e mentes de gente mal informada, abusada midiaticamente, que não entende de nada, nem de ler um texto, o tal analfabeto funcional que se exibe nas redes sem vergonha porque não faz ideia do próprio papelão.
Eu não disputaria ninguém, porque amo e apoio os espíritos livres. E é com eles que eu quero ir.
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Tem uma coisa nesse ato de escrever que é a crueldade das relações que se instauram entre escritores e leitores. Antigamente, se dizia que de médico e de louco, todo mundo… Na era das redes sociais se tem que dizer que de médico, louco e de escritor todo mundo… Escreve-se muito. Até aí, que bom. Não sei se há leitura correspondente para embasar a tantos que se entregam ao ato crucial da escrita no Twitter e no Facebook. On Bullshit, como diria H. Frankfurt.
Em nome dela, exige-se que cada um escreva aquilo que se deve ser escrito para saciar os espaços adequados, não a inteligência. Nunca ela. Nunca o chamado “textão”. Não há tempo para textão. Todo mundo tem pressa. Inteligência não vem ao caso. Que papo é esse?
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O mundo do excesso de informação e também de desinformação é um mundo naturalmente desinteressante. A chamada “lacração” faz parte da ordem do discurso em que só o que choca ou produz algum tipo de excitação tem direito de atenção. É duro ser interessante diante de espíritos dormentes e beócios, e os donos dos meios de produção do discurso jogam sujo com as mentes vazias e delirantes. As mentes calmas, os espíritos sutis não tem lugar na guerra antipoética das redes. Ainda bem que há o slam, o hip-hop, que há a poesia. E ainda há poesia.
Penso agora, que luxo é poder ser desinteressante quando a ordem social e política, ética e estética do mundo anda tão agressiva, tão alucinada. Que bom poder ficar quieto e aproveitar o convívio consigo mesmo, deve pensar alguém com a sabedoria de quem já viu de tudo nessa vida e, nela, alcança a façanha de continuar vivo pensando que ainda vai achar algo realmente interessante para ver ou fazer.
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Nem todo mundo quer o olhar de todo mundo. Às vezes o que se deseja é só um olhar perdido de alguém que se encontra consigo mesmo ao ler o que a gente escreveu.
Isso valeu todo o esforço e o tempo perdido de escrever. Penso agora naqueles que acham que não vale mais a pena escrever. Que agora o que restou já era, só porque o Brasil elegeu a ditadura de um asno no laranjal pra governar.  Que imagem horrível, dirá a sociedade protetora dos asnos (que falta de respeito, filósofa!)
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Estava aqui tentando me entender com meu pessimismo. Você, tem sido pessimista? Pois é. Estava aqui numa conversa com a minha própria alma,  um diálogo no sentido platônico e original do termo, e era bastante triste esse meu diálogo porque o assunto era o Brasil. E ele hoje nos dói mais do que nunca, porque a essa altura da história do Brasil, a gente – não interessa a cor, a religião, o sexo ou a ideologia – achava que já se podia ter esperança e ver os seus resultados concretos. E é só morte, lama, corrupção e miséria, e cancelamento de direitos, e políticos bizarros e ridículos destilando má fé diante de gente sem noção que – cegos de ideologias que não dizem o seu nome – não sabia o que fazia.
No fundo, aceitam o convite para serem fascistas porque está na moda. Não sabem o que fazem, e não entendem nada de Jesus…
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Hoje estava ouvindo aqueles meninos todos de Pernambuco cantando com o Alceu Valença, um mais bonito que o outro, e pensando, que rico esse Brasil, que coisa mais maravilhosa tantas pessoas que surgem nesse lugar.
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Ontem à noite, eu buscava mapas da Ilha Brasil, aquela ilha mítica de que se falava no imaginário medieval. A etimologia da palavra Brasil, de fato, remonta à etimologia da árvore do Pau-Brasil. É uma longa história que remonta ao metal que dá nome à cor da madeira.  A história é longa, mas é a história de nossa vermelhidão, de uma memória da “brasa”. Não o vermelho das esquerdas ou do comunismo vomitado pela boca dos otários de plantão a odiar os idealistas da comunhão sempre insurrectos contra o capitalismo da avareza. Mas o vermelho de brasas, de algo que vira carvão e um dia vira pó. Pó: aquele lugar ao qual retornaremos.
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Perdoem o memento mori, mas falei que esse texto não era sobre felicidades. Talvez ele se torne, mas ainda temos que passar por algumas instâncias alquímicas. Lembrei de um texto que escrevi há anos chamado Brasil Cinza. Escrevi porque a primeira vez em que vi o Pau-Brasil foi na forma de um cinzeiro na casa de uma gente burguesa e só muitos anos depois é que achei uma árvore viva daquilo que para muita gente ainda é pura matéria prima, natureza rebaixada a “commodities”. Era uma vontade de escrever uma espécie de “filosofia brasileira”, mas que tocasse nas profundidades materiais do método. Quero dizer, eu queria falar não de Pindorama, mas do que foi feito do que poderia ter sido Pindorama. Eu queria falar das sobras e de todo um esquecimento de onde viemos e para onde vamos em termos de filosofia da nossa triste história.
*
Brasil está longe de ser Pindorama. Brasil, o nosso nome de guerra tem só uns 200 anos. Não é muito mais velho do que o museu nacional que já não existe, embora estejam tentando fazer um remendo, uma múmia com os restos mortais do museu queimado como um pau-brasil que virou cinzeiro.
A “brasilidade” que eu conheço é a de uma árvore que desapareceu, que pegou fogo, que virou cinzeiro, que virou cinzas. E agora os nossos trópicos carnavalescos (pra quem é dos trópicos e dos carnavais, eu sou dos subtrópicos e da estética do frio) perdem a cor. Tudo é carvão, cadáver, resto, nesse país perdido nas trevas em que foi lançado por tantos algozes extraindo dele o que pode e o que não pode ser extraído há 500 anos. Extraindo ainda hoje, os minérios (e pensem na morte anunciada de Minas, como Minas vai sobreviver a tantos cadáveres, tanta desgraça, a tanta Samarco e Vale?), a flora, a fauna, o nosso povo explorado pelo capital que suga direitos como se fossem sangue.
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Penso agora naqueles velhos homens brancos europeus com o pau podre de sífilis empesteando as mulheres vítimas da desgraça eterna de ser mulher em qualquer tempo da sociedade patriarcal.
Eles vem do inferno e estão prontos à matança.
Penso agora na família Drácula, que detinha o poder na Transilvânia – leia o livro Dracula: A Biography of Vlad the Impaler  (E.P. Dutton) e volta ao poder, dessa vez encarnada no Brasil. O conde empalador e seus filhos abjetos, traidores, monstruosos fazendo o que bem entendem contra o povo que os elegeu ao sabor da miséria espiritual de uma época. A história transilvânica se repete no Brasil-eterna-terra-de-ninguém.
O mundo seria mais misterioso se o simbólico e o real não estivessem tão intimamente entrelaçados.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Precisamos exercer a habilidade da empatia na nossa rotina, por Lucien de Campos.



empatia rotina preconceito racismo ódio
Lucien de Campos*, Pragmatismo Político
No início deste ano assisti o filme “Hacksaw Ridge” (na versão brasileira, “Até o Último Homem”), dirigido por Mel Gibson. Me abstenho comentar sobre a produção e outros aspectos cinematográficos deste filme, até porque não é esta a minha especialidade. Contudo, provoco apenas uma reflexão acerca do personagem principal: o médico de guerra norte-americano Desmond T. Doss, cujo seu contributo foi salvar dezenas de combatentes feridos na Batalha de Okinawa/Japão, durante a Segunda Guerra Mundial.
Recusando-se carregar armas no campo de batalha, Doss resgata e socorre incansavelmente dezenas de soldados, inclusive combatentes inimigos. Entretanto, uma frase do médico me chamou atenção. Interrogado pelos seus superiores (inconformados com sua atitude pacifista, diga-se de passagem) Doss responde que “enquanto o mundo está disposto a se autodestruir, não me parece uma má escolha tentar reunificá-lo”.
Talvez o verdadeiro Doss nunca tenha exclamado precisamente esta frase. Provável que seja apenas uma cena hollywoodiana propositalmente criada para impactar. E, pelo menos pra mim, estudante das relações humanas, esta frase impactou. Repentinamente refleti: o que nós poderíamos fazer para não deixar o mundo se autodestruir?
No atual cenário internacional, as tensões regionais e os discursos radicais que disseminam o ódio, preconceito e a intolerância faz-nos relembrar os períodos das Duas Grandes Guerras Mundiais. Sejam jovens, adultos ou idosos, homens e mulheres de todos os continentes, a conclusão aparenta ser universal: crescimento absurdo de um vazio de valores consequente de uma decursiva impulsão de manifestações extremistas que pregam o nacionalismo exacerbado, preconceito e o sectarismo. Novamente a difusão do ódio pode ser responsável pela gradual autodestruição do mundo que vivemos.
A resposta para uma possível eliminação deste vazio de valores pode estar na empatia, puro e simples sentimento que, embora se manifeste como expressão sui generis da pessoa humana, sua prática está sendo cada vez mais esquecida no tocante as atuais relações interpessoais.
Não é uma tarefa árdua exercer a empatia no dia-a-dia. Vivemos todos na nossa própria versão de realidade limitada por um comportamento influenciado pela nossa família, classe social, mídia e experiências pessoais. Na maioria das vezes acreditamos que é a nossa própria realidade a mais adequada para se viver. Contudo, é de suma importância para o nosso crescimento pessoal, assim como para as relações humanas e para a sociedade como um todo que nos esforcemos na tentativa de compreendermos as realidades diferentes.
A habilidade da empatia é exercida quando tentamos compreender a perspectiva de uma pessoa ou grupo de outra realidade. Desenvolver a empatia é compreender as emoções, sentimentos e a essência da realidade de outrem. Somos por natureza sociáveis e dotados pela habilidade da comunicação. Nesse sentido, entender diferentes realidades se torna a pedra angular para a manutenção das relações interpessoais.
É cientificamente comprovado que a habilidade da empatia está interligada ao nosso cérebro. Sabe-se que a região do Giro Supramarginal Direito é responsável pelo processo de diferenciação entre o nosso estado emocional com o das outras pessoas, desempenhando uma função crucial no que se refere a habilidade de observar e avaliar realidades diferentes. Já os neurônios espelho, localizados no córtex pré-motor, estimulam determinadas ações mímicas quando presenciamos atitudes e/ou gestos de outras pessoas (como por exemplo o bocejo), assim como provoca uma sensação de alegria ou sofrimento ao presenciarmos alguém feliz ou triste. Todavia, essas reações se manifestam apenas como momentâneos reflexos subconscientes. É nesta perspectiva que elas precisam ser estimuladas por intermédio da empatia.
Teóricos políticos, filósofos e sociólogos adeptos da teoria cosmopolita denominam como lealdade plural este sentimento que envolve uma comoção para com as minorias vulneráveis que sofrem de preconceitos, ódio e violência. Ao contrário da lealdade unilateral, cuja estabelece apenas uma fidelidade restrita com seus pares (a família, amigos, “irmãos de igreja” e compatriotas), o sociólogo Ulrich Beck delimitou a lealdade plural como uma componente da empatia que desperta valores de solidariedade, sensibilidade intercultural, tolerância e hospitalidade com pessoas de outras realidades.
O exercício da lealdade plural depende de cada um de nós. Ser uma pessoa verdadeiramente empática é pensar para além da sua realidade e suas preocupações pessoais. Para colocar isto em prática basta observar aqueles dos quais passam por realidades diferentes. É importante sair desta rotina diária composta por insignificantes distrações digitais das quais já estão penetradas na sociedade global. Tais distrações individualistas impossibilitam a observação dos que estão ao nosso redor, principalmente aqueles que se encontram à margem da sociedade.
Faz-se necessário compreender as realidades em vez de categorizá-las. Desafie-se a se preocupar genuinamente com o bem-estar de quem vos rodeia. A curiosidade com a realidade dos outros é o primeiro passo para estimular a empatia.
Uma atitude de quem dissemina o ódio é o combate verbal quando se defronta com alguém de outra realidade. Geralmente essas pessoas não permitem que o outro finalize seu argumento, não havendo uma saudável troca de ideias.
Uma comunicação saudável requer cortesia, consideração e avaliação das diferentes opiniões. Por este ângulo, a empatia desenvolve um papel crucial no que corresponde ao entendimento e absorção de realidades e ideias. Ouvir e refletir ajuda a expandir nossa própria opinião referente aos assuntos importantes para o desenvolvimento social. Aprender com as experiências de pessoas com outras realidades faz com que vejamos o mundo sob outra perspectiva. Por outro lado, exprimir nossa opinião, sentimentos e experiências também é fundamental, visto que a habilidade da empatia é uma “via de mão dupla” com entendimento mútuo.
Desenvolver uma mente aberta liberta-nos de cairmos na tentação dos discursos que disseminam a intolerância, racismo e preconceito. Somente o exercício da habilidade da empatia permite uma saudável relação interpessoal a fim de partilharmos visões, ideias e experiências. Talvez seja com estes gestos e atitudes que poderemos deixar nosso contributo para um mundo mais humano.
*Lucien de Campos é pós-graduado em Crise e Ação Humanitária pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e mestre em Diplomacia e Relações Internacionais pela Universidade Lusófona de Lisboa e colaborador em Pragmatismo Político.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Devaneios sobre a cultura do olhar, por Maria Bitarello.

on 04/04/2017Categorias: Arte e Literatura, Cultura, Destaques
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A troca de olhares, no Brasil, é como na Índia, na Etiópia, no Peru. A gente olha, é flagrado e não se constrange. A roupa, a bunda, a cara, a conversa da mesa ao lado
Por Maria Bitarello | Imagem: Amrita Sher-Gil, autorretrato
Semana passada meu padrasto americano estava em São Paulo e fomos tomar uma cerveja no bar da esquina aqui de casa. Ele comentou que gosta da maneira como as pessoas se olham em São Paulo. Que é muito diferente da forma como as pessoas se olham no interior de Minas, onde ele mora com minha mãe. Achei que faz total sentido. Sou uma entusiasta da prática de people watching, gosto de observar essas sutilezas, mas até então sempre as definia em termos culturais bem amplos. Brasileiros olham de um jeito, franceses de outro, americanos de outro, por aí vai. A observação dele me levou a ponderar também sobre as diferenças regionais. E no ato, no meio daquele copo de cerveja, soube que seria esse o mote pra minha crônica dessa semana.
Há quem fique embaraçado diante de uma encarada. Os americanos são assim. E sim, estou generalizando americanos. De modo geral, o americano médio vai sorrir e dizer alguma amenidade pra amaciar o desconforto e quebrar o silêncio que envolve a troca de olhares com um desconhecido. Dá pra ver no corpo deles a agitação. Já os franceses, também de forma grosseiramente generalizada, reagem com mais agressividade. Uma troca de olhares sustentada durante certo tempo pode ser percebida como uma afronta, uma provocação. E daí pode surgir um bate-boca. O comportamento no Brasil se aproxima mais do observado em países menos formais, muitas vezes ditos subdesenvolvidos. Onde as pessoas não têm vergonha de se olhar e onde isso não é, a princípio, um desrespeito. Na Índia é assim, no Nepal; também no Benim, na Etiópia; aqui ao lado na Bolívia, no Peru.
Talvez sejamos mais cara-de-pau, porque a gente olha mesmo. Olha, é flagrado olhando e não se constrange. Continua a olhar. A roupa, a bunda, a cara, presta atenção na conversa da mesa ao lado. A gente disfarça menos nossa curiosidade. Mas, seguindo a dica do meu padastro, há, sim, distinções regionais. Tomemos São Paulo. Aqui, como em outras megacidades cosmopolitas, convivemos com pessoas muito diversas o tempo todo. Tem gente do Brasil todo, do mundo todo, pertencente a uma enormidade de tribos urbanas diferentes, o que muda o guarda-roupa, o código social, o corte de cabelo, o vocabulário, a linguagem corporal. É difícil chocar alguém em São Paulo: aqui se vê de tudo. Talvez por isso o olhar do outro pareça até meio desinteressado e blasé, porque afinal é difícil competir com aquela pessoa que desce a Augusta de madrugada vestida de Edward Mãos-de-Tesoura.
Esse anonimato que a multidão paulistana confere pode ser o desespero de muitos recém-chegados; muitos dos quais desistem da cidade por essa razão mesma. Outros se refestelam nessa liberdade. Porque ninguém te conhece, pode-se estar a só, entregue ao devaneio, à observação, lá no meio da multidão, sem patrulha. Numa cidade menor é o contrário: há sempre alguém conhecido; essa delícia do anonimato parece intangível. Penso que pode ser esse olhar “vigilante” do interior a que meu padastro se referia. Ele, que é gringo no país e na cidade, embora já esteja no Brasil faz tempo, sente esse olhar que é curioso e, ao mesmo tempo, espia. É o que acho.
Sampa é uma cidade gigantesca e organizada em bolsões regionais e culturais, agrupada em comunidades. Essa cidade só é possível porque reiteramos todos um acordo tácito de conviver nesse espaço. E aqui dentro também o olhar varia de bairro pra bairro. Na Vila Madalena, onde morei nos últimos cinco anos, durante os dias de semana a onda é hipster/cool. Cada pessoa transmite mensagens muito específicas com suas roupas, tatuagens, piercings, bicicletas e bigodes. Ocorre uma troca de olhares muito afirmativa de sua identidade, muito diferente da que se nota na Av. Paulista no fim da tarde, quando saem dos edifício comerciais batalhões de homens de terno e mulheres de tailleurs. Esse é um olhar apressado; o spam de atenção dura um segundo.
Ambos, por sua vez, nada têm a ver com o do Bixiga, pra onde estou me mudando essa semana. Ali ainda tem uma pegada de interior apesar de estar bem na região central da cidade, na muvuca. Churrasquinho na esquina, crianças em bando, pelada de rua, todo tipo de ofício e pequeno comércio, restaurantes com comida boa e barata, casinhas operárias, e o olhar familiar, comunitário. Lembra Minas.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Fascistas não leem ficção, por Jose Eduardo Agualusa.



De passagem pelo Brasil para a Feira Literária Internacional de Maringá, Agualusa afirma que o País foi “sequestrado por um grupo de delinquentes”

O escritor angolano Agualusua. Foto: Reprodução / Arquivo pessoal
O escritor angolano José Eduardo Agualusua. Foto: Reprodução / Arquivo pessoal
As confusões da política brasileira têm deixado assustados não só os próprios brasileiros, mas também aqueles que estão acostumados a visitar o País. O angolano José Eduardo Agualusa aporta por aqui ao menos uma vez por ano e acompanha tudo o que acontece por meio de seus amigos. Morou no Brasil por quatro anos, dois em Pernambuco e dois no Rio de Janeiro. Quando voltou para Portugal, onde reside atualmente, levou consigo um carinho e uma preocupação como se fosse nativo.
Sentado em uma cadeira pouco confortável e sedento por água de coco, Agualusa mostrou-se perplexo com a situação atual do País. A visita a São Paulo foi breve. Apenas cinco horas antes de pegar um voo para o sul, onde participou da terceira edição da Feira Literária Internacional de Maringá. Em maio, assinou um manifesto em Portugal contra o golpe no Brasil, assim como Valter Hugo Mãe, Pilar del Rio, Gonçalo M. Tavares, entre e outros.
Agualusa acha assustador como o Brasil, que avançou tanto nos governos Lula e Dilma, abriu tamanho espaço para o conservadorismo. O discurso de Bolsonaro e o coro que o acompanha é o exemplo mais claro disso. “Bolsonaro não deve ler ficção, porque para ler ficção deve-se ter empatia”, exclamou o luso-angolano-brasileiro, dizendo já ter falado isso para uma amiga.
A notícia do impeachment foi recebida por Agualusa com muita revolta. “O triunfo da estupidez e da injustiça nunca deixa de me surpreender”. Mas disse que esperava o contrário, acreditando até o fim que o bom senso e a justiça prevaleceriam. Não foi o que aconteceu. Para ele, uma presidenta inocente foi julgada por uma maioria de criminosos, o que é inaceitável.
Ele acredita que ir para a rua é a melhor forma de a juventude lutar contra isso: “Espero que aquilo que se sucedeu sirva para despertar o conjunto da sociedade brasileira, em especial os mais jovens. E que o Brasil consiga, ao longo dos próximos meses, produzir novas lideranças e novas ideias”. Segundo ele, também é necessário que jovens comecem a se envolver na política de forma mais direta, pois mesmo as lideranças progressistas dos principais partidos são compostas por figurões antigos.
Na opinião do escritor, o Brasil foi sequestrado por um grupo de delinquentes. De acordo com ele, esse grupo tem como objetivo retomar o poder do Judiciário, já que Dilma permitiu que ele trabalhasse de forma independente do poder político. “Esta luta é – tem de ser! – a luta de todos os brasileiros honestos”, concluiu.
Zelador de causas sociais e políticas, Agualusa esteve envolvido na luta contra o abuso do governo angolano no caso que ficou conhecido como “15+2”, quando ativistas – entre eles o rapper Luaty Beirão – foram presos ao se reunirem para ler um livro no ano passado. Eles foram acusados, arbitrariamente, de estarem tramando uma rebelião contra o governo de José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

“Nunca foi tão dramática a nossa solidão” – Uma linda reflexão de Mia Couto

Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco

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Mia Couto*, Portal Raizes
Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.
Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.
Existem várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos como sujeitos históricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.
A modernidade não é uma porta apenas feita pelos outros. Nós somos também carpinteiros dessa construção e só nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos também construtores.
No início, viajávamos porque líamos e escutávamos, deambulando em barcos de papel, em asas feitas de antigas vozes. Hoje viajamos para sermos escritos, para sermos palavras de um texto maior que é a nossa própria vida.
A palavra “ler” vem do latim “legere” e queria dizer “escolher”. Era isso que faziam os antigos romanos quando, por exemplo, selecionavam entre os grãos de cereais. A raiz etimológica está bem patente no nosso termo “eleger”. Ora o drama é que hoje estamos deixando de escolher. Estamos deixando de ler no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objecto de apelos que nos convertem em números, em estatísticas de mercado.
Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, mas o mais triste é ter mesmo que escolher.
É verdade que as novas tecnologias não costuram os buracos da nossa roupa interior, mas elas ajudam a alterar as redes sociais em que nos fabricamos.