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terça-feira, 5 de março de 2019

Carnaval Brasileiro, Clipping Internacional - 05/03/2019, por Carta Maior


Notícias internacionais sobre o Brasil; Notícias do Mundo; e Artigos

 
05/03/2019 13:40
(Pilar Olivares/X00856)
Créditos da foto: (Pilar Olivares/X00856
 
1 - NOTÍCIAS INTERNACIONAIS SOBRE O BRASIL

PÁGINA 12, Argentina

Quebraram o seu braço por gritar “Lula Livre”. A brutalidade da política de Bolsonaro contra um líder do PT. A agressão aconteceu num distrito policial para onde fora levado. As imagens são claras: o líder petista não oferece resistência, mas a polícia apanha-o e leva-o para uma sala. No caminho, um dos policiais o pega pelo braço e o quebra. Acompanha o vídeo. 


THE GUARDIAN, Inglaterra

Os povos indígenas Macuxi da reserva de Raposa - em fotos. A reserva Raposa Serra do Sol, no norte do Brasil, abriga 25 mil indígenas, cujas terras são alvo do presidente de direita do país, Jair Bolsonaro.


ESQUERDA.NET, Portugal

Marielle Franco homenageada em Carnaval de São Paulo. A escola Vai-Vai homenageou Marielle Franco em enredo sobre as lutas do povo negro e ainda levou para a avenida 23 convidados de destaque pelo ativismo na luta pelos direitos dos negros, como a filosofa e escritora Djamilla Ribeiro e a deputada estadual Érica Malunguinho (PSOL)


RFI, França

Prefeitura de Paris analisa projeto de nome de rua em homenagem a Marielle Franco. O coletivo Rede Europeia para a Democracia no Brasil (RED-BR), que reúne artistas, intelectuais e militantes na França, anunciou nesta segunda-feira (4) que a prefeitura de Paris aceitou a abertura de um processo para analisar o projeto de nome de rua em homenagem à Marielle Franco, vereadora assassinada em 2018 no Rio de Janeiro


RFI, França

Sob "sombra de Bolsonaro", Carnaval é "mais militante do que nunca", diz Libération. A edição do fim de semana do jornal Libération traz uma reportagem da enviada especial ao Rio de Janeiro para a cobertura do Carnaval. A jornalista destaca o engajamento político, dos sambódromos aos blocos de rua.


RFI, França

Imagem do Brasil está em jogo após tragédia de Brumadinho, pensa o jornal de finanças francês Les Echos. A resenha da imprensa francesa desta segunda-feira (4) repercute a demissão dos dirigentes da Vale, mais de um mês após a tragédia de Brumadinho. “A gigante da mineração brasileira está no banco dos réus”, é o título da matéria do Les Echos. Para além do caso da Vale, é a imagem do Brasil que está em jogo, salienta o diário.


SPUTNIK NEWS, Rússia

Organizações denunciam na ONU violência contra defensoras de direitos humanos no Brasil. A Terra de Direitos, a Justiça Global e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), com apoio de organizações internacionais, debateram em evento nas Nações Unidas as violências sofridas por mulheres defensoras de direitos humanos no Brasil, como a vereadora assassinada no Rio de Janeiro Marielle Franco.


TRIBUNE DE GENÈVE, Suíça

A segunda e última noite do carnaval carioca, muito crítica, foi marcada pelo surgimento de Neymar. Mas desde a sua primeira noite, o carnaval deu a oportunidade de transmitir muitas mensagens políticas contra o "circo" de Brasília, contra a corrupção ou a intolerância em relação às minorias: negros e LGBT. Mensagens que assumiram uma particular conotação dois meses depois da posse do presidente Bolsonaro, que acumulara provocações racistas, machistas e homofóbicas antes de sua eleição.


LE FIGARO, França

No carnaval carioca, o protesto anti-Bolsonaro está por trás do encantamento sambista. Em um Brasil fraturado pela eleição do presidente populista, o carnaval envia uma mensagem muito política.


LA VANGUARDIA, Espanha

A justiça e a igualdade foram os protagonistas no carnaval do Rio de Janeiro. As mensagens contra a corrupção também fizeram presença nas ruas.


THE WALL STREET JOURNAL, EUA

Depois de um auditor ter reprovado a barragem do Brasil, a Vale encontrou outro que o aprovou. Mas, a gigante de mineração diz que está cooperando com a investigação do colapso de janeiro que matou mais de 180 pessoas.


THE WASHINGTON POST, EUA

No Brasil, o Carnaval presta homenagem a vereadora morta. A competição de samba está se tornando política no Brasil, com uma das principais escolas de samba do Rio e outros grupos homenageando Marielle Franco, ativista de gays e direitos afro-brasileiros que foi morta há quase um ano. A Mangueira no Rio de Janeiro e a Vai-Vai em São Paulo a homenagearam. “Marielle presente!” se gritava.


THE REAL NEWS, EUA

A política do carnaval brasileiro. Os brasileiros estão nas ruas para o carnaval. Milhões pelo país. E para muitos deles, é um ato de resistência. Os apoiadores que formaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva formaram grupos livres de samba em todo o país, como um em Florianópolis.


2 - NOTÍCIAS DO MUNDO 

VENEZUELA. EUA causa milhares de mortos na Venezuela, como efeito das sanções. Por Mark Weisbrot. (PÁGINA 12, Argentina)


VENEZUELA. “É inaceitável que se politize uma ajuda humanitária”, afirmou Francesco Rocca, presidente internacional da Cruz Vermelha e da Meia Lua Vermelha. (LA VANGUARDIA, Espanha)


ARGENTINA. Descontrole nas gôndolas. Em fevereiro os alimentos da cesta básica subiram 4,66 por cento. Em dois meses, o aumento médio de uma cesta de 38 produtos básicos foi de 7,57%, em média. Passividade oficial diante de produtores e supermercados. (PÁGINA 12, Argentina)


EUA. Democratas lançam extensa investigação de Donald Trump. Uma poderosa comissão parlamentar liderada por democratas, exige documentos de mais de 80 personalidades do entorno do 45º presidente dos Estados Unidos - incluindo dois de seus filhos e seu genro Jared Kushner. (LE FIGARO, França)


CANADÁ. A renúncia do chefe do Tesouro do Canadá acentua a crise do governo de Trudeau. A renúncia de Jane Philpott é a terceira que é produzida pelo caso SNC-Lavalin, no qual o primeiro-ministro e vários de seus colaboradores são acusados de interferir em uma investigação relacionada a uma construtora. (EL PAÍS, Espanha)


CISJORDÂNIA. Nariz quebrado, pontos na cabeça, lesão na coluna vertebral e dezenas de prisões, o preço da resistência pacífica em Hebron. Israel não renovou o mandato e expulsou a missão de observação internacional que trabalhava na cidade palestina há 20 anos. (EL DIÁRIO, Espanha)


EUA. A influência na Fox News da Casa Branca. A Fox News sempre foi partidária, mas ela, agora, se tornou propaganda? (THE NEW YORKER, EUA)


AMÉRICA LATINA. Doutrina e bananas. Por que ser mais duro com a Venezuela do que a Arábia Saudita? Porque "é um país em nosso hemisfério", ouça: de nossa esfera de influência, o conselheiro de segurança nacional de Donald Trump disse aos repórteres da CNN no domingo. (L’HUMANITÉ, França)


EUA. Fox News escondeu a história de Stormy Daniels para ajudar Trump, diz jornalista. A jornalista Diana Falzone, da Fox News, obteve provas em 2016 sobre a alegada relação entre o então candidato presidencial Donald Trump e a atriz pornô Stormy Daniels, mas não publicou a nota porque o dono da rede, Rupert Murdoch, queria que o magnata republicano vencesse as eleições. (EL ESPECTADOR, Colômbia)


NICARÁGUA. A Frente Sandinista de Libs Nacional (FSLN) é o vencedor virtual das eleições nas regiões autónomas da costa caribenha da Nicarágua Norte e do Sul, de acordo com dados divulgados na segunda-feira 04 de março pelo Conselho Supremo Eleitoral (CSE). Nos primeiros resultados preliminares da FSLN está à frente com 61,11 por cento dos votos em favor das cédulas apuradas, o vice-presidente magistrado do CSE, disse Lumberto Campbell. (EL TELÉGRAFO, Equador)


EUA e Rússia. Quando Washington manipulou a eleição presidencial russa. Enquanto a justiça dos EUA está acompanhando as manipulações russas nas eleições de 2016, Washington está trabalhando para derrubar o presidente Nicolás Maduro na Venezuela. Intolerável em solo americano, a interferência seria justificada quando os Estados Unidos estivessem trabalhando? Isto é o que sugere a eleição russa de 1996. Naquela época, Washington e seus aliados tinham saído do caminho para salvar um presidente doente e desacreditado ... em nome da democracia. (LE MONDE DIPLOMATIQUE, França)


CHINA. China alerta para "luta dura" quando reduz a meta de crescimento para o menor nível desde 1990. Li Keqiang afirma na reunião política anual que o país enfrentará "um ambiente mais grave e mais complicado". (THE GUARDIAN, Inglaterra


3 - ARTIGOS/ENTREVISTAS

Robert Reich – EUA (The Guardian, Inglaterra)

“Donald Trump conta uma história falsa sobre os EUA. Precisa-se contar a verdadeira.”


Eduardo Aliverti – Argentina (Página 12, Argentina)

“Confissão da debilidade”

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Que país é esse?, por Joaquim Ernesto Palhares


A 'democracia' que estamos vivendo: que não decide nada de fundamental, capturada pelas determinações dos poderes econômicos que colocaram o Estado brasileiro a seu serviço. Na prática, uma espécie de "stalinismo neoliberal que depende exclusivamente do Estado para viver e dominar a plebe"

18/02/2019 07:39
(André Dahmer)
Créditos da foto: (André Dahmer

Você anda pelas ruas, apesar dos milhares de sem teto, e a sensação é a de que vivemos na mais pura e genuína democracia. Parece que o país não sofreu nenhum ataque ao estado democrático de direito, vale dizer, não houve golpe. É como se nossa economia surfasse em ondas de crescimento, com pleno emprego, confirmados por amplas pesquisas e total vigência de direitos sociais e trabalhistas.

A Petrobras e a Embraer ainda parecem nossas. Brumadinho? Nada a ver com o lucro pelo lucro das privatizações. Reforma trabalhista? Nem pensar. Justiça do Trabalho? Não será extinta. Reforma da Previdência? Suicídio de idosos no Chile? Que calúnia! Mortes de garotos futebolistas? Chacinas? Tudo invenção dos comunistas ou do marxismo cultural.

No Brasil do faz de conta, o presidente da República tem uma equipe ministerial coesa, competente, escolhida exclusivamente por critérios técnicos e não políticos ou ideológicos. Seu vice é um político nato, leal parceiro, um democrata e ambos falam a mesma língua. O governo não volta atrás após uma decisão anunciada e inexistem declarações estapafúrdias, muito menos ministros aconselhando pais a retirarem seus filhos do país.

Os filhos do presidente – 01, 02 e 03 – não exercem nenhuma influência política, afinal não fazem parte do governo.

Você anda pelas ruas e é como se houvesse segurança plena, sem balas perdidas e um projeto de país e, pior, como se as pessoas soubessem que projeto é este, porque ele foi amplamente debatido na campanha eleitoral. O que sabemos é que no tripé – economia, segurança e fundamentalistas – figuram dois superministros:

O da economia que, naturalmente, nunca foi investigado pela Polícia Federal por má gestão em fundos de pensão, jamais foi sócio de Daniel Dantas, nunca trabalhou para o Pinochet, nem foi diretor de um banco com quase quarenta filiais em paraísos fiscais.

O da Justiça e dos "etceteras", ao tempo que era Juiz de Direito Federal da República de Curitiba, jamais determinou uma condução coercitiva ilegal ou deu uma sentença destituída de provas, fundamentada exclusivamente em delações premiadas de criminosos. Em sua brilhante carreira, enquanto juiz garantista e isento, ouviu muitos testemunhos, dezenas dos quais de criminosos confessos, em procedimentos de delação premiada, exceto um a quem, sem sentença, declarou tratar-se de um criminoso, contrariando inclusive decisões da Corte espanhola.

Da mesma forma, jamais vazou conversas de uma Presidenta da República; jamais interferiu em eleições prendendo a principal liderança popular do país e, por acaso, o principal concorrente do atual presidente, seu chefe. Um servidor público tão exemplar e cioso de suas obrigações que mesmo em férias e fora do país interfere em decisões de autoridades superiores.

Um ministro pop, ícone de uma legião de juízes (existem exceções) que jamais diferenciaria amigos de inimigos, brancos de negros, pobres de ricos. O país parece não lembrar, apesar da transmissão ao vivo e em rede nacional, da apresentação de certo Power Point, produzido pela força tarefa do Ministério Público Federal, onde foi "decretada" a culpa de um ex-presidente, sem nenhuma prova concreta, apenas CONVICÇÕES, mas que serviu de fundamentação para a apresentação de uma denúncia criminal contra o ex-presidente.

Um primeiro parêntese: esse Power Point, é parte integrante e fundamental de mais um processo contra o ex-presidente, na fila do forno condenatório. Teria sido ele produzido e utilizado exclusivamente para fundamentar uma denúncia ou para obter resultados eleitorais? A verdade é que ele foi apresentado no dia 15 de setembro de 2016 (pasmem!), apenas 17 dias antes do 1º turno das eleições para as prefeituras de todo o país.

Um segundo parêntese: a denúncia fundamentada nesse Power Point adotou a teoria do domínio do fato para acusar o ex-presidente. Segundo a denúncia, como mandatário da nação, ele deveria conhecer todos os "malfeitos praticados por servidores públicos e por membros de seu partido".

Estranho, muito estranho.

No nosso país existem determinadas acusações, investigações, denúncias, instalação de procedimentos judiciais e decretação de prisões de servidores e membros de outros partidos políticos, por envolvimento em escândalos de propina, que não geram o mesmo efeito. Por exemplo, os escândalos do Cartel de trens e metrô de São Paulo, assumido pela própria corruptora; obras civis de grande porte;  licitações de transporte público;  desvios em merenda escolar;  crimes de caixa 2, denunciados em 2006 por Carta Capital, envolvendo campanhas de três dos principais candidatos do PSDB e outros tantos estão perdidos nos escaninhos da Justiça, alguns até mesmo com investigações policiais parados há mais de cinco anos.

Um terceiro parêntese: um ex-Senador de Minas, criador do crime que passou a ser conhecido como mensalão tucano, delitos praticados em 1998 durante sua gestão como governador, somente em 2017, ou seja, 19 anos depois, foi julgado e o réu preso.

O estranho é que vários envolvidos nestes crimes recentes foram presos e estão sendo processados, porém, dos figurões do PSDB somente um está sendo processado, mas ele próprio e os demais não sofreram nenhum outro tipo de constrangimento, além de breves notícias da imprensa e todos detêm o domínio do fato.

Não é estranho? Um dos principais envolvidos, tido e havido como "capa preta" do PSDB acaba de ser libertado por ordem do "soltador mor" e o crime corre para a prescrição.

Agora, Brumadinho, onde engenheiros e técnicos são presos e o presidente da empresa, também detentor do domínio do fato, até agora nada...talvez por ter sido indicado para o cargo pelo Mineirinho.

Falando em bandidos...

É como se as milícias não existissem e nada tivessem a ver com a família real e com assassinatos de uma vereadora e lideranças sociais. Calúnia também é afirmar que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teria grampeado representantes do Papa, chefe do Estado do Vaticano e autoridade máxima da Igreja Católica.

Você anda pelas ruas e leva um susto porque, apesar de tudo, as ruas estão vazias. Impossível não lembrar de 2013, 2014, 2016... E você se pergunta "o que está acontecendo"? E observa a verdadeira queda de braços, por privilégios, entre mídia e governo.

Que país é esse?

Até parece que a grande mídia é investigativa, movida pelo afã da verdade, pelo compromisso com a comunicação. Vejam o sossego que deram para o motorista da família Presidencial que, apesar dos "rolos", é excelente pé de valsa e passa bem, muito obrigado, quem sabe um dia, quando der na telha, ele aparece lá Ministério Público...

Mas isso tem explicação: pode ser porque ele não é um petralha.

Na verdade, o atual governo é isento de suspeitas. Nada pesa contra o Presidente da República, sua família, partido e base de apoio. Chegou ao Planalto numa disputa totalmente dentro das regras democráticas, um WhatsApp aqui outro ali, tudo sem muita importância, tanto que foi investigado pelo TSE que nada encontrou de ilegal.

No geral, trata-se de um governo composto por um fantástico quadro de ministérios que não tem, de jeito nenhum,  uma suposta sequestradora de uma criança indígena; um detrator de Chico Mendes; um defensor de milícias; um acusado de fraude ambiental; um suspeito de desviar fundo de pensão; suspeitos de desvios de recursos do Fundo Partidário (suspeita-se que o dinheiro foi transferido para uma senhora, dois dias antes do final da campanha, ela já se encontra no exterior).

Também não tem, de jeito nenhum, aquele bando de urubus engravatados a serviço das corporações estrangeiras, ocupando cargos de ponta. Nem juiz acostumado à fama, acusado de abuso de poder, com as Nações Unidas no pescoço. Na Pátria Amada, não tem nada disso e a polícia só pode matar em legítima defesa.

Você anda pelas ruas e é como se no poder Judiciário, ninguém tivesse rabo preso. Vide a Suprema Corte, contra a qual não pesa nenhuma suspeita. Que digam as mútuas acusações feitas em plenário, ao vivo e a cores, para todo o país assistir. Aliás, o sentimento é de que as instituições operam normalmente. É por isso que, no Brasil, golpes são impossíveis de serem armados e executados.

Ante qualquer ameaça ao regime democrático, a imprensa, o STF, o STJ, o TSE, TRFs, o MP e própria PF atuam em socorro da democracia. Seus membros jamais operam por interesses próprios ou políticos. É por isso que essas instituições são tão ilibadas. Os agentes de justiça zelam, dia após dia, pela proteção do Estado Democrático de Direito. Tudo do povo, pelo povo e para o povo, frase consagrada por Abraham Lincoln.

Um golpe também seria impossível porque temos um conjunto, diversificado e representativo da pluralidade que é o país, de empresas de comunicação. Comprometidas com a liberdade de expressão essas empresas estão preocupadas em informar bem as pessoas.  Não manipulam o debate, trabalham com o contraditório, criam dúvidas saudáveis em seis leitores ou telespectadores, verdadeiramente botam o país para pensar.

Aliás, seriam as primeiras a denunciar conspirações ou golpes de estado. Nacionais e internacionais, em respeito à soberania dos povos e temor à iminência de uma guerra, pauta impensável, afinal, estamos seguros no Brasil. É cada vez menos importante o conteúdo que vem da imprensa mundial, não vem ao caso o que afirmam ou escrevem, afinal, são dominados por comunistas e impregnados de marxismo cultural.
É fake news que mais de 60 milhões de brasileiros estejam com seus nomes "sujos" nos cadastros de controle de crédito.

O atual governo está tão ciente de que nosso pior inimigo é a desigualdade social, que passaremos a fazer justiça na cobrança de impostos. Estamos seguros de que nosso sistema bancário jamais apostará contra o país na ciranda financeira. O Banco Central está fortalecido, mais precisamente sobre o controle do lucro (spread) dos bancos, impedindo que ele seja o mais alto do mundo e em boas mãos, um economista de Chicago, neto do pai do neoliberalismo brasileiro.
Você anda pelas ruas e é como se vivêssemos em um país soberano. Um Brasil que jamais permitiria a instalação de bases militares do império em território pátrio, muito menos entraria ou facilitaria uma guerra contra um país irmão, como é o caso da Venezuela.

Aliás, seria impensável um general brasileiro assumir o subcomando no Comando Sul dos Estados Unidos. O atual governo, inclusive, deu provas de total consciência de que isso seria incompatível com nossa política nacional de defesa, até porque isso foi decidido no Congresso Americano e não no brasileiro, basta procurar vídeo no youtube.

Além disso, temos um chanceler que é exemplo de estratégia e inteligência. Sem dúvidas, ele saberá aproveitar as oportunidades abertas na disputa pela hegemonia entre Estados Unidos e China. Até porque tem sido inspirado pelo guru da República. Um homem verdadeiramente sábio, conhecedor dos mistérios dos astros e das principais teorias filosóficas que nos guiaram até este verdadeiro paraíso na terra.

Tanto que na Educação, ministério de tão grande relevo, existe outro pupilo por ele ungido. Um ministro que mostra ter plena consciência da importância da universidade pública. Privatizar o ensino superior? Militarização total, em todas as esferas do ensino? Controle ideológico de professor? Escola Sem Partido? Questões que passam longe das preocupações de alunos e professores.

Não nos enganemos: o que ouvimos de críticas não passam de calúnias, afinal, a ONU é comunista, o Papa é comunista, até Obama, para quem Lula é o cara, é comunista. E que ninguém aqui nos acuse de falsa ironia! Trata-se de ironia verdadeira e assumida, porque você anda pelas ruas, praias, parques, shoppings e a sensação é a de que nada de grave está acontecendo.

Falando sério...

Marielle e seu motorista foram assassinados e até agora, passados mais de 11 meses de "investigação" sequer suspeitos foram efetivamente apontados. Um escândalo pior do que outro surge na mídia e desaparece, sem consequência alguma. Nada funciona e aumentam represálias e ameaças contra parlamentares, artistas, professores, cientistas, jornalistas.

Agora, após a morte dos meninos no Flamengo, descobriu-se que o local não tinha "Habite-se". E pior: a prefeitura do Rio de Janeiro, segunda cidade em importância da América do Sul, também não tem "Habite-se".
Aliás, certamente, o Brasil não tem "Habite-se".

Fake news continuam a todo vapor disseminando ondas e ondas de desinformação e, ninguém, até agora, impediu isso. Nenhuma voz é forte o bastante – seja do meio político, jurídico ou da sociedade civil – para alertar o risco imenso que corremos.

Risco de entrarmos em uma guerra que justifique o Estado de exceção e policialesco que, ao fim e ao cabo, é o que está aparecendo no horizonte, porque, como afirma Manolo Monero - editor de El Viejo Topo de Madri –, em Crisis de las ideologías e ideologías de crisis, nós estamos vivendo um anticomunismo sem comunistas, um anti-socialismo sem socialistas, uma contrarrevolução sem revolucionários.

As elites dominantes sentem que não têm inimigo. Não precisam mais pactuar seu modo de vida, seus privilégios, suas crenças, com uma plebe que não possui um projeto, um partido, um movimento social e sindical forte, portanto com baixa capacidade de resposta, vide o silêncio constrangedor das ruas. O que está em questão é o reformismo.

Falar do programa do PT como o programa de uma força comunista, socialista, revolucionária é um exagero histórico. O que o sistema não admite hoje é o reformismo em fortes ou débeis versões. O que aparece é uma elite com aspiração e poder de impor seus pré-juízos a toda a sociedade.

O que resta à democracia? Somente seu aspecto mais formal, um procedimento para selecionar as elites governantes. Desaparece a democracia entendida como meio para conseguir justiça social, igualdade substancial entre homens e mulheres e desenvolvimento das liberdades públicas.

Sobra, portanto, essa democracia que estamos vivendo:

Uma democracia que não decide nada de fundamental, capturada pelas determinações dos poderes econômicos que colocaram o Estado brasileiro a seu serviço. Na prática, uma espécie de "stalinismo neoliberal que depende exclusivamente do Estado para viver e dominar a plebe."

E mal chegamos a 50 dias de governo...

Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Violência anti-intelectual da classe média sustenta Bolsonaro, por Christian Schwartz



Autor rejeita ideia de cisão identitária na eleição e atribui resultado a camadas que veem educação como algo ornamental


10/02/2019 11:59
(Ilustração - Alex Kidd)
Créditos da foto: (Ilustração - Alex Kidd)
 
Há uma pergunta que, respondida em toda a sua complexidade, tem o potencial de iluminar muito do que se passou na política brasileira recentemente. É a seguinte: por que caminhos (ou diabos) o “Não me representa” dos protestos de junho de 2013 rapidamente virou o “Mito! Mito!” que anima o comício permanente de Jair Bolsonaro—e deve ser, ao que parece, uma espécie de grito de guerra deste governo tribal?

Num texto recente, a jornalista e escritora Eliane Brum lançou a tese de que, segundo ela pela primeira vez na história do Brasil, o presidente é um “homem mediano”. O argumento avança em três movimentos.

Expõe, primeiramente, o que seria um contraste: ao contrário de todos os seus antecessores no cargo (o texto silencia, curiosamente, sobre a única antecessora, nem uma só vez mencionada), Bolsonaro careceria de excepcionalidade. “Jair Bolsonaro é o homem que nem pertence às elites nem fez nada de excepcional. Esse homem mediano representa uma ampla camada de brasileiros”, escreve a jornalista.

Nas duas etapas seguintes, reafirma a explicação padrão de nossos intelectuais ditos progressistas para o fenômeno, este sim inédito, de um presidente de extrema direita.

Começa pela assertiva de que “a posição do homem heterossexual no topo da hierarquia nunca foi tão questionada como nos últimos anos”; defende, a seguir, que os governos anteriores ao do interino Michel Temer teriam feito avançar, em grau sem precedentes, direitos de gênero, classe e, com especial destaque, raça. “O reconhecimento destes direitos e a ampliação do acesso dos negros a espaços até então reservados aos brancos teve grande impacto no resultado eleitoral e também no antipetismo”, reflete Brum.

Já em relativa contradição com o movimento inicial, quando falava de “ampla camada de brasileiros”, o texto prossegue: “O novo presidente representa, principalmente, o brasileiro que nos últimos anos sentiu que perdeu privilégios”. No estilo peculiar de sua prosa, Brum oferece uma imagem contundente desse brasileiro: “Macho. Branco. Sujeito Homem”.

Para a jornalista, foi apenas circunstancial que Bolsonaro tenha amealhado milhões de votos de mulheres e de uma parcela expressiva da população que poderia se autodeclarar preta ou parda, conforme os critérios cotistas (ainda) em vigor.

Brum tem razão ao afirmar que Bolsonaro “não é representante apenas de um estrato social. Ele representa mais uma visão de mundo”. Parece escapar à autora, porém, que não se adota uma “visão de mundo” dessa radicalidade apenas circunstancialmente —como ela sugere que teriam feito as eleitoras de Bolsonaro.

Isso, por si só, já bastaria para desautorizar a tese de uma revolta do homem branco, rico e heterossexual como motor da ascensão da extrema direita. E, no entanto, já sem o pudor de meias palavras como “mediano”, de conotação mais branda, Brum chega a uma explicação própria para o grito de guerra bolsonarista: “É assim que um homem medíocre como Bolsonaro vira ‘mito’. Ameaçados de perder a diferença que lhes garante privilégios que já não podem ter, Bolsonaro e seus seguidores [...] afirmam sua mediocridade como valor”.

Talvez fosse o caso de, antes, perguntar se o que Bolsonaro representa não é a síntese de algumas características sociais e comportamentais marcantes dos brasileiros —e brasileiras—, especialmente em sua relação sempre atribulada com a ideia de democracia representativa.

Em suma: por que nós —num amálgama complexo, como mostraram as pesquisas de intenção de voto em 2018, no qual se misturaram, em proporções variadas, eles e elas, pobres e semipobres, além dos ricos, e ainda pretos, pardos e brancos— decidimos por maioria eleitoral que a triste figura de Bolsonaro, aos brados de “Mito! Mito!”, deveria preencher o vazio do “Não me representa”?

Ilustração de capa - Alex Kidd

Mas voltemos à falta de excepcionalidade de Bolsonaro. O que mais chama a atenção, e logo na primeira frase do texto de Brum, é que essa ideia venha fortemente acoplada a outra, a de novidade: “Desde 1º de janeiro de 2019, o Brasil tem como presidente um personagem que jamais havia ocupado o poder pelo voto”, afirma o artigo. “Em vez de votar naquele que reconhecem como detentor de qualidades superiores, que o tornariam apto a governar”, analisa a jornalista, “quase 58 milhões de brasileiros escolheram um homem parecido com seu tio ou primo. Ou consigo mesmos.”

Afora a ideia facilmente contestável de que a democracia seja esse governo dos melhores, e voltaremos a isso, também se poderia objetar, quanto à observação de Brum, que votar em alguém parecido com o tio ou o primo —note-se: num homem feito fulano ou sicrano e, por extensão, feito Bolsonaro— não haverá de ser a mesma coisa que votar em alguém parecido consigo mesmo para vastos contingentes do eleitorado, mulheres sobretudo.

O comentário seguinte da jornalista, porém, é que merece escrutínio mais detalhado. Na construção de sua persona pública de “homem mediano”, o próprio Bolsonaro muitas vezes insistiu no fato de que, como deputado do baixo clero, não tinha prestígio. “Eu não sou ninguém aqui”, afirmou o agora presidente em discurso no plenário da Câmara em 2011, destaca Brum, como ilustração ao próprio argumento.

Dá-se, assim, mais uma volta ao parafuso: o(a) eleitor(a) de Bolsonaro, à semelhança do eleito, reaparece agora em sua encarnação definitiva —a do proverbial zé-ninguém (quem sabe também a de uma maria-vai-com-as-outras?).

Seria uma imagem completamente desabonadora, não fosse sua surpreendente semelhança com a caracterização que, em livro-manifesto de 2017 (“Só Mais um Esforço”, publicado pelo selo Três Estrelas, do Grupo Folha), o filósofo Vladimir Safatle, colunista deste jornal e voz incontornável da esquerda, registrou como a do manifestante típico das chamadas Jornadas de Junho de 2013.

No relato de Safatle, um desses manifestantes, respondendo a repórter que pedia para anotar seu nome depois de uma rápida entrevista de rua, teria dito: “Anota aí: eu [não] sou ninguém”.

“Por mais paradoxal que possa inicialmente parecer”, comenta então o autor, “‘Eu [não] sou ninguém’ é a mais forte de todas as armas políticas. [...] é, na verdade, a forma contraída de: ‘Eu sou o que você não nomeia e não consegue representar’”. É quase inevitável, aqui, a lembrança da alcunha pela qual Bolsonaro passou a ser referido em fóruns de esquerda (inclusive no texto de Brum): “o coiso”, aquele que não tem nome, cuja representação extrapola os limites de certo imaginário político.

Ironicamente presciente, o manifesto de Safatle conclui, ainda sobre os protestos de 2013: “Uma insurreição não é necessariamente a emergência de um novo sujeito político. A insurreição pode ser a explosão bruta da revolta, mas, para que essa revolta forje um sujeito emergente, é necessário ainda mais um esforço”.

Todavia, como em outras partes do mundo, também aqui quem ainda guardava um último fôlego eram a extrema direita e seu candidato zé-ninguém —e talvez com essa o filósofo não contasse (embora deva-se conceder que, ao propor um programa de ação, Safatle pensava a longo prazo, não eleitoralmente).

Até o momento, as versões da esquerda para o desarranjo político recente ora partem de premissas ruins —políticas identitárias provocariam “grande impacto” no voto por ressentimento de uma suposta massa de privilegiados (Brum), soluções revolucionárias teriam suficiente apelo no Brasil de hoje (Safatle)—, ora incorrem em erros conceituais básicos, como este, novamente no texto de Brum: “[...] a ideia de que aquele que é considerado o melhor deve ser o escolhido para governar atravessa a política e o conceito de democracia”.

Se há novidade em Bolsonaro, não está no fato de ele ser mais um produto ruim da vontade popular.
Talvez o problema de fundo seja precisamente a expectativa em torno das virtudes (e as há) da democracia representativa —a ponto de sua mais progressista versão, a social-democracia europeia, inexplicavelmente merecer o desprezo de certa esquerda delirante.

Num dos bons livros lançados recentemente sobre a atual crise do sistema representativo, “Como a Democracia Chega ao Fim” (ed. Todavia), o professor David Runciman, da Universidade de Cambridge, tratou de repensar, à luz de uma história de mais de dois séculos, os limites desse arranjo político.

(Meses antes da chegada do livro ao Brasil, em entrevista à Ilustríssima, Runciman comentava a eleição de Donald Trump, nos EUA, como típico exemplo da prevalência, na política atual, da mentira sobre a hipocrisia. E, intuindo talvez que as eleições brasileiras não escapariam à sina de um candidato populista à imagem de Trump, vaticinava: “Acho melhor ser governado por adultos hipócritas do que por crianças mentirosas, mas, infelizmente, não tem sido essa a visão preponderante nas democracias contemporâneas”. Deu Bolsonaro.)

No final do ano passado, Runciman voltou à carga em conferência intitulada “Democracy for young people” (democracia para jovens) e veiculada no podcast Talking Politics. Ali, reelabora seus argumentos —além de, como já fizera no livro, avançar propostas para “consertar” o sistema representativo em sua hora mais difícil.

A mais polêmica delas, que ganhou as páginas dos jornais ingleses, é a de baixar a idade mínima dos eleitores para seis anos. Sim, logo que entrassem na escola primária, e portanto passassem a participar oficialmente —como cidadãs letradas, importante notar— da vida institucional da sociedade, as crianças ganhariam também o direito ao voto.

A preocupação central de Runciman é que o envelhecimento da população em democracias —elas próprias já bastante maduras, como a do Reino Unido e as de países da Europa Ocidental— levou a desequilíbrios no sistema representativo, um deles particularmente acentuado: os jovens estariam não apenas sub-representados politicamente mas também assistindo a um completo descaso por parte de seus representantes em temas de longo prazo, como o aquecimento global.

Ora, nessas questões, se alguém pode vir a sofrer as consequências da inércia dos políticos de hoje —a maioria na meia-idade, no que se assemelham à média da população daqueles países— são justamente os eleitores mais novos e sua descendência. Daí Runciman sugerir uma “democracia para jovens” 1.

O problema, porém, tem origens bem mais remotas: entre os argumentos de Platão contra a democracia estava o de que ela espelharia o comportamento dos jovens —de rapazes, em particular. “E vocês sabem como são os rapazes”, ilustra Runciman: “São inconstantes, propensos à violência e a mudar de ideia, decidem uma coisa à noite e no dia seguinte, quando acordam de ressaca, já mudaram de ideia outra vez; bebuns, endividam-se e são facilmente influenciáveis [...]”. Tanto quanto os jovens, a democracia seria, numa palavra, “volátil”.

É preciso lembrar, contudo, que Atenas ainda não conhecia o conceito de representação: os cidadãos —status a que, admita-se, nem todo mundo tinha acesso— participavam diretamente das decisões.

Para Runciman, foi uma “intuição de gênio” a que tiveram os pioneiros da democracia representativa, já nos séculos 17 e 18, a saber: mesmo com o voto sendo mais e mais franqueado até ser “universalizado” —em eleições a que, não por outra razão, chamamos sufrágio universal, ainda que imprecisamente, pois crianças, como mulheres noutras eras, continuam de fora—, o tempo provaria que os eleitorados jamais votam em candidatos que os espelham.

“É quase como uma lei da política eleitoral ao redor do mundo”, comenta o professor de Cambridge no podcast/conferência, “que os parlamentos ou casas legislativas, instituições da democracia representativa, sejam amplamente dominados por viés favorável aos ricos, aos com melhor formação e aos mais velhos”.

Resulta daí que há pelo menos três categorias contra as quais ocorreria “discriminação deliberada” na política eleitoral, ainda que constituam largas maiorias na sociedade: os pobres, os sem estudo e os jovens. Runciman concentra esforços para a solução deste último desequilíbrio —o déficit de representação para os jovens— porque mais próximo da realidade de seu país.

Quanto aos outros dois desníveis, tampouco passaram despercebidos por Platão. Deixados à solta, os pobres se levantariam em massa contra os ricos. Já a ameaça dos ignorantes ganha viva descrição em “A República”.

Ao invocar a “natureza superior” daquele que deveria conduzir a vida comum na pólis grega, o “homem bom” que desde a infância “tenha brincado no meio de coisas belas e só se tenha ocupado de belas atividades”, o diálogo platônico alerta que não seria assim num regime democrático: “Com que soberba a democracia calça com os pés tudo isso, sem preocupar-se com que estudos se preparou quem busca a prática da política, enquanto para conceder-lhe honras, basta que seja benevolente com o povo”.

Mas os temores do filósofo grego se mostrariam infundados na democracia representativa. “É muito difícil ganhar eleições, mesmo no caso de um populista, sem ter alguma formação”, argumenta Runciman em “Democracy for the young”. Vale até para Trump, ex-aluno de escolas e de uma universidade de elite. Valeria para os representantes eleitos no Brasil, os de ontem e os de hoje?

Num ensaio do início dos anos 1940, “A Ideia da Universidade e as Ideias das Classes Médias”, originalmente publicado no jornal Correio da Manhã, o erudito austríaco Otto Maria Carpeauxafirmou: “A violência anti-intelectualista das novas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação” 2.

Proponho que se tome esta como uma característica historicamente marcante de nossos representantes —o anti-intelectualismo, um traço que atravessa nossas camadas médias como um todo, tenham elas mais ou menos acesso a boa educação formal. A atual visibilidade da figura a que se poderia chamar “o ignorante empoderado” oferece a chance de uma revisão de nossos próprios problemas com a democracia representativa, distintos daqueles enfrentados por sociedades democráticas maduras.

“Em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas”, observava ainda Carpeaux, evocando “exércitos de médicos, advogados e técnicos”: “Eles [...] têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse ‘proletariado intelectual’, sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Leem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, [...] dirigem as correntes das ideias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite”.

Folhetins e romances publicados na passagem do Império à República já prenunciavam o personalismo populista de Bolsonaro, típico de uma elite embrutecida. Como na figura do alpinista social —e deputado— Numa, de “Numa e a Ninfa” (1915), às voltas com discursos encomendados à mulher, porque ele próprio era incapaz de escrevê-los, na novela de Lima Barreto; ou do sr. Rodrigues, de Arthur Azevedo, em “Plebiscito” (1894), pacato cidadão que, acuado diante da pergunta do filho de 12 anos sobre o significado da palavra —e que palavra!— que dá título ao conto, vai consultar o dicionário às escondidas para não ser humilhado no conforto da própria sala de jantar, onde acabara de “comer como um abade” —perfeita imagem da classe média emergente e ignara.

Ressalte-se, porém, que tanto essa pequena burguesia ficcional quanto aqueles a quem Carpeaux, quase 80 anos atrás, identificava como “novas classes médias” há muito se consolidaram como classe média tradicional, e é até mais provável que hoje figurem entre os ricos. Seu anti-intelectualismo provavelmente só se exacerbou nesse tempo.

Não se trata, portanto, de culpar a quase-mítica classe C dos anos petistas pela calamidade eleitoral de se ter transformado em “mito” o anti-intelectual por excelência —Jair Bolsonaro mereceria um diploma na área—, mas de reconhecer que, sem os votos desse contingente de remediados de ascensão recente (talvez não fosse exagero qualificá-los como semipobres), não haveria extrema direita no poder.

Marcas identitárias passam a segundo plano no sufrágio. Por mais penoso que seja para mentes iliberais à esquerda aceitar esse fato, gênero, raça e (em menor grau) classe deixam de importar tanto diante da urna. Ali é cada cabeça, uma sentença; ainda que coroada, valerá um só voto.

“Elas” —essas múltiplas cabeças— “continuam sendo portadoras de interesses muito diferentes”, como bem lembra o cientista político Sérgio Abranches num dos artigos da recém-lançada coletânea “Democracia em Risco?” (Companhia das Letras). “Umas são, inclusive, objeto de discriminação de outras, embora partes do mesmo caldeirão de emoções.”

Quem ainda se lembra do anedotário sobre aeroportos transformados em rodoviárias para suposto furor de seus “ricos” frequentadores habituais contra “pobres” —na verdade, a nova classe média— de primeira viagem? Pois acabaram votando unidos em Bolsonaro, numa aliança particularmente emotiva.

Se o “homem mediano” —branco, de classe média tradicional ou novo rico, heterossexual e semi-iletrado, mesmo que com acesso a educação— chegou lá não foi porque esse perfil masculino e opressor prevaleceu.

%u20BO que tem prevalecido no Brasil é, antes, uma mediana de traços da cidadã e do cidadão para quem “se formar” interessa apenas como algo ornamental ou pragmático —neste último caso, a prevalência daquilo que a professora Esther Solano, em entrevista recente a este caderno, definiu como uma educação instrumentalizada, causa primordial da selvageria retórica nas mídias sociais: a violência anti-intelectualista talvez mais visível do que nunca.

E nela tomam parte, como é óbvio, egressos de melhores e piores escolas, num fenômeno, aliás, globalizado.

O momento pede, por certo, que se reavalie a democracia representativa, mas é cedo demais para descartá-la —se mais não fosse porque, conforme pondera David Runciman em “Como a Democracia Chega ao Fim”, “não é justo dizer que os democratas preferem ser governados por idiotas e ignorantes”.

Se, e seguimos com Runciman, “é verdade que a democracia não discrimina com base na falta de conhecimento” —vale igualmente para o eleitorado e para seus representantes— nem exige “a capacidade de pensar de forma inteligente sobre questões difíceis”, tem a grande virtude, ao menos nas versões mais maduras, de moderar apetites pelo poder e, sobretudo, expectativas.

“A única coisa que a democracia pede é que os eleitores permaneçam onde estão por mais tempo, o suficiente para sofrer as consequências de seus erros”, escreveu.

No limite, é um exercício de paciência que pode se estender por anos; e, no entanto, essa geringonça política toda imperfeita continua a ser —em versão otimista da frase sempre atual de Winston Churchill— a melhor opção que jamais tivemos.


Christian Schwartz, doutor em história social (USP/Cambridge), é jornalista e tradutor.

Ilustração de Alex Kidd, Artista gráfico e ilustrador

*Publicado originalmente na Folha de S. Paulo