Uma educação que esteja apta a estimular o discernimento nas escolhas, o questionamento permanente e o saudável ceticismo na forma de absorver informações
O advento das fake news – notícias falsas que circulam expressivamente na internet – é central no debate público contemporâneo. Um tema antigo, mas ainda pouco esclarecido e explorado. Sabemos, no entanto, que elas sempre existiram. Quando, em 20 de julho de 1969, Armstrong pisou na lua, houve uma forte onda de boatos (os boatos são os antepassados diretos das fake news) espalhando a “notícia” de que as imagens haviam sido forjadas em algum estúdio secreto localizado nos EUA.
No Brasil, a morte de Tancredo Neves (vítima de uma septicemia fruto de provável falha médica) também foi associada a algumas justificativas escusas – dentre as quais a que dizia que o mesmo havia sido vítima de um atentado. Durante o regime Vargas, Carlos Lacerda (jornalista e político ligado à direita) forjou um atentando contra si mesmo para poder acusar o então presidente de perseguição. Durante o regime militar, dois militares foram descobertos após tentarem explodir uma bomba em evento público para, depois, acusarem de terrorismo movimentos ligados à esquerda (evento que ficou conhecido como “Rio Centro”). Mesma esquerda que seria responsabilizada, em 1989, pelo sequestro do empresário Abílio Diniz (especialistas em processo eleitoral dizem que o fato foi estratégico para a derrota do então candidato Lula e consequente vitória do candidato Fernando Collornas eleições presidenciais) quando, na realidade, o atentado teria sido orquestrado por integrantes do PCC.
Poderíamos citar infinitos casos para concluir que, de um lado, historicamente, a manipulação da informação sempre foi usada para interesses políticos de viés eticamente desprezíveis. De outro lado, grande parte das pessoas têm vivido e explorado um conhecimento precário, incipiente, alimentado com preconceitos, crendices e superstições. É certo que o iluminismo ajudou a formar sujeitos que, sob influência de um certo racionalismo, tendem a se posicionar mais criteriosamente frente às informações disponíveis. No entanto, infelizmente, eles são uma minoria cada vez maior.
Dito isso, podemos afirmar com alguma razão que as fake news não são uma novidade histórica. O seu problema, tal como afirma Evgeny Morozov no livro Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política (publicado pela Editora Ubu), “é a velocidade e a facilidade de sua disseminação”. Basta um click. Segundo Morozov, “isso acontece principalmente porque o capitalismo digital de hoje faz com que seja altamente rentável produzir e compartilhar narrativas falsas que atraem cliques”. A novidade, portanto, não está nas fake news, mas na aparição desse instrumento que as reproduz e as dissemina com amplitude e velocidade jamais vistas.
Um segundo ponto que merece atenção é aquele que se refere ao próprio significado de fake news. Não é raro ver o termo sendo utilizado com efeitos retóricos, ou seja, para desqualificar um discurso que se coloque em oposição ao daquele que o emprega. Nesse sentido, o termo passa de simples informação mentirosa a tudo aquilo que desagrada – não apenas aos fatos que desagrada, mas também as interpretações das quais se discorda com veemência. Em outras palavras, o que é fake news para um fanático, é verdade absoluta e inquestionável para o fanático da vertente oposta.
A questão é: podem as fake news colocar em risco a democracia ou a liberdade de expressão?
As ideias e ideologias formam um tecido contínuo, de modo que fica difícil estabelecer uma linha separadora entre o que se coloca como legítimo e o que se coloca como indevido, proibido de ser expressado. A livre manifestação e circulação dessas ideias permite à sociedade dispor de uma ampla gama de opções cuja utilização – as vezes seletiva, as vezes não – compõe a própria linha de evolução dos costumes e da história. Assim, o que hoje nos parece inaceitável, amanhã poderá se tornar status quo.
Ora, quanto mais vigorosa é a prática da liberdade de expressão, quanto mais densa e variada, mais livres e conscientes serão as decisões que a sociedade deverá tomar… em tese. Na prática, além da diversidade de ideias razoáveis, a internet e a suposta liberdade que traz consigo deu espaço (mais do que isso, deu visibilidade) para teorias conspiratórias, opiniões detestáveis, versões distorcidas e sentimentos odiosos. Por alguma razão, elas dão mais ibope. Assim, cabe a necessidade de tipificar o termo. Fake news deveria compreender toda informação que, comprovadamente falsa, prejudique terceiros, tendo sido forjada e/ou posta em circulação por má fé ou simplesmente por negligência.
Um último aspecto que merece nota. O monopólio que exerce a Google na internet não significa que ela seja – ou deva ser – a responsável pela delicada tarefa de selecionar e/ou censurar informações. Ela não tem qualquer interesse em fazê-lo. Ela sequer se interessa em sustentar a liberdade de expressão. Essa ideia de terceirizar a responsabilidade é bastante comum por aqui. A Google, o Facebook e seus anexos estão interessados em você por duas razões: primeiro como consumidor e, segundo, pela informação que você gera a partir de suas buscas pessoais que, por sua vez, geram os dados necessários para te transformar em consumidor, pouco importando quem você é ou o que você pensa. Seus anúncios estão tanto em páginas que disseminam fake news quanto em páginas que combatem as fake news. Elas buscam, mais do que qualquer outra coisa, os focos de audiência. Nada mais.
Diz Morozov: “as eleições brasileiras de 2018 mostraram o alto custo a ser cobrado de sociedades que, dependentes de plataformas digitais e pouco cientes do poder que elas exercem, relutam em pensar as redes como agentes políticos. O modelo de negócios da Big Tech funciona de tal maneira que deixa de ser relevante se as mensagens disseminadas são verdadeiras ou falsas. Tudo o que importa é se elas viralizam, uma vez que é pela análise de nossos cliques e curtidas, depurados em retratos sintéticos de nossa personalidade, que essas empresas produzem seus enormes lucros. Verdade [para elas] é o que gera mais visualizações. Sob a ótica das plataformas digitais, as fake news são apenas as notícias mais lucrativas”.
“Caso não encontremos formas de controlar essa infraestrutura, as democracias se afogarão em um tsunami de demagogia digital; esta, a fonte mais provável de conteúdos virais: o ódio, infelizmente, vende bem mais do que a solidariedade. É difícil, portanto, que exista uma tarefa mais urgente do que a de imaginar um mundo altamente tecnológico, mas, ao mesmo tempo, livre da influência perniciosa da Big Tech. Uma tarefa intimidadora que, se deixada de lado, ainda causará muitos danos à cultura democrática”.
O que fazer, portanto? Faria sentido exigir que os monopólios tecnológicos fossem compelidos a adotar uma política radical de transparência que permitisse, por sua vez, a absoluta supervisão sobre suas atividades – hoje totalmente inexistente? Faria sentido que a Justiça buscasse mecanismos que possibilitassem punir os responsáveis por divulgações mal-intencionadas, mesmo que para tanto houvesse monitoramento das atividades individuais? Em que medida nos seria garantido que tal monitoramento apenas não deslocaria o foco do problema – hoje na geração de dados para fins comerciais e, depois, nas mãos do Estado, como instrumento político?
Em última análise – e antes mesmo que possamos elaborar qualquer resposta aos questionamentos acima –, o mais eficiente instrumento contra as fake news, sua maior barreira, continua sendo a educação. Uma educação que esteja apta a estimular o discernimento nas escolhas, o questionamento permanente e o saudável ceticismo na forma de absorver informações. É o caminho mais longo, sem dúvidas, mas o único possível.
*Ramon T. Piretti Brandão é mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e colabora para Pragmatismo Político
FAZIA MESES QUE o cientista da computação Fabrício Benevenuto não via nada de novo na sua ronda diária por grupos políticos de WhatsApp. Criador de uma ferramenta capaz de elencar os conteúdos mais compartilhados no aplicativo, o WhatsApp Monitor, o professor associado da UFMG via com tédio os mesmos tipos de montagens, áudios, notícias falsas, correntes e vídeos motivacionais percorrerem sua tela, dia após dia nos 350 grupos políticos abertos que acompanha.
Na tarde de 8 de maio, porém, Benevenuto notou algo estranho: quase todas as imagens mais compartilhadas no seu sistema mostravam universitários nus, teses com nomes esdrúxulos e desenhos irônicos sobre estudantes de humanas. Aquilo, percebeu, não era espontâneo. Checou os altos números e concluiu que se tratava de algo novo, orquestrado. Estava diante de uma nova ofensiva da milícia digital de Bolsonaro, grupo que andava pouco ruidoso após as eleições.
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“Soou como ataque, uma tentativa de desconstruir a imagem das universidades públicas com conteúdos antigos ou tirados de contexto, como se todas fossem uma bagunça”, diz Benevenuto. “Como trabalho em uma, fiquei preocupado.” Os variados tipos de compartilhamentos chamaram sua atenção. Notou que, depois de alguns meses de marasmo, muitos grupos ociosos associados a Bolsonaro espalhavam as mensagens com afinco comparável ao do ano passado, quando operavam em sua capacidade máxima e com fortes indícios de disparo em massa. Era o despertar de uma engrenagem que havia feito grande estrago meses atrás.
Das 30 imagens mais compartilhadas no WhatsApp em maio, 17 são referentes ao que bolsonaristas chamam de depravação nas universidades federais.
O levante das redes bolsonaristas não vinha por acaso. Duas pesquisas divulgadas em maio apontavam para um naufrágio do otimismo com o presidente, Jair Bolsonaro. A primeira, do instituto XP Ipespe, mostrou que, de abril para maio, o percentual de ruim e péssimo na avaliação do Bolsonaro subiu de 26% para 31%; já a segunda, uma análise de sentimentos de redes sociais feita pela startup Arquimedes, apontou que, nas últimas semanas, mais pessoas que se mostravam neutras ao novo presidente passaram a avaliá-lo negativamente. Para as duas empresas, os principais motivos foram o desgaste entre militares e Olavo de Carvalho e o corte na educação anunciado no dia 30 de abril pelo novo ministro da Educação, Abraham Weintraub.
As táticas de guerrilha soavam similares às das eleições de 2018. Pelo WhatsApp, centenas de grupos de apoiadores de Bolsonaro passaram a espalhar imagens que reforçavam a ideia, endossada pelo próprio Weintraub, de que as universidades públicas se tornaram lugar de “balbúrdia”. Montagens de gosto estético e moral duvidosos foram replicadas sem parar. Eram fotos e vídeos de performances artísticas, capas de monografias sobre sexualidade e paredes com pixações provocadoras. Em cada mídia, havia a legenda com o suposto nome da instituição federal e um texto que dizia: “Veja em que se transformaram nossas Universidades Federais! É UM ABSURDO”.
Surtiu algum barulho. Segundo a ferramenta de Benevenuto, nas duas primeiras semanas de maio, das 30 imagens mais compartilhadas no WhatsApp, 17 são referentes ao que bolsonaristas chamam de depravação nas salas de aula das universidades federais. (De resto, quatro associavam Marielle Franco ao tráfico de drogas a outros crimes, três eram denúncias de militantes petistas infiltrados em grupos, uma era uma defesa para fechar o STF e cinco eram imagens com tarja preta de conteúdo impróprio — provavelmente parte de uma mensagem em texto.)
Algumas das imagens mais compartilhadas no mês de maio.Crédito: WhatsApp Monitor
Benevenuto ressalta que seu software dá apenas uma amostra do turbilhão de montagens fabricadas a todo vapor: os 350 grupos que monitora são uma parte ínfima dos mais de 127 milhões de usuários e dos incontáveis grupos fechados no país. “Damos acesso a jornalistas e agora a pesquisadores para terem uma noção do que é compartilhado lá dentro, mas sabemos que não é um número preciso”, me disse Benevenuto.
Imerso em dezenas de grupos pró-Bolsonaro nos últimos dias, conclui que o grosso das mensagens dos bolsonaristas vem de grupos fechados, em que, em grande parte, apenas administradores podem enviar conteúdos. Vários dos grupos também adotam uma estratégia de renovação, isto é, são encerrados e depois abertos com outro nome e endereço. “É uma tática comum: eles fecham um grupo, depois mandam o convite para as pessoas que estavam lá entrarem em outro, assim vão renovando”, me disse Sergio Denicoli, diretor da consultoria AP/Exata e pós-doutor em comunicação digital. Isso explica por que vários dos grupos importantes durante a época das eleições não funcionam mais. Eles só mudaram de cara para provavelmente fazer uma faxina em usuários inativos.
Estudioso das redes de Bolsonaro desde 2017, Denicoli também notou atividade incomum nos últimos dias. De primeira, diz, os militantes de direita iniciaram sua tática de testar narrativas. No caso, a de que universidades públicas são lugares repletos de nudez, performances e cursos inúteis. “Eles vão chegando, vão testando narrativa, ensinando como argumentar”, explica Denicoli. “A eleição foi uma guerra retórica. A rede do Bolsonaro foi muito inteligente, impôs os temas que queria, e as pessoas repetiam os argumentos, mas agora não estamos vendo o mesmo sucesso.”
‘Os movimentos começam nos grupos e se cristalizam no Twitter, mas isso pode levar dias ou semanas. O laboratório é o WhatsApp.’
Na análise de Denicoli, o corte na educação desagradou e mobilizou muita gente, o que fez com que os grupos de WhatsApp pró-Bolsonaro tentassem mais esforços para reverter a opinião de massa. O tiro, no entanto, saiu pela culatra. “Notamos em nossos dados que o movimento da educação é o mais importante da oposição, tem uma capilaridade e uma autenticidade muito fortes. São muitos pais, alunos e funcionários que fazem parte do sistema educacional, eles sabem que a realidade não é como os memes. Algo parecido ocorreu no Carnaval, quando Bolsonaro tentou generalizar o Carnaval com a polêmica do golden shower. Algumas narrativas não funcionam.”
Baseada em recursos de inteligência artificial e conceitos da psicologia, a análise de Denicoli capta oito tipos de emoções nos textos deixados em redes sociais como Instagram, YouTube e principalmente Twitter. Sua plataforma consegue, pela combinação de palavras dos usuários, saber se uma mensagem possui sensações como indignação, raiva, tristeza, desgosto, alegria ou confiança. Sua conclusão, depois confirmada pelas pesquisas de opinião, é que, ainda que Bolsonaro ainda conte com grande confiança em parte do seu eleitorado, os índices de medo e tristeza subiram bastante. “A rede de Bolsonaro era o único discurso vigente, era a mais barulhenta, mas agora as redes de esquerda cresceram”, diz Denicoli. “Começou a ter uma mobilização das pessoas pedindo mobilização, as pessoas demonstraram interesse e aí surgiu a ideia de greve dos movimentos sindicais. Foram manifestações espontâneas, principalmente de estudantes, que ganharam adesão.” A referência de Denicoli é à greve e aos protestos que estão marcados por todo o país para esta quarta-feira com milhares de menções nas redes sociais.
Os dados de Denicoli lidam com a parte acessível, mais clara, das redes bolsonaristas. Segundo ele, o Twitter é onde ocorre a segunda etapa da estratégia, a parte final e concreta das pautas do clã de Bolsonaro. Lá é onde se consolidam as narrativas iniciadas na parte escura, mais difícil de mensurar e de rastrear, no WhatsApp. “Os movimentos começam nos grupos e se cristalizam no Twitter, mas isso pode levar dias ou semanas. O laboratório é o WhatsApp.” Isso significa que, daqui pra frente, no Twitter, no Facebook e no YouTube, provavelmente haverá uma enxurrada ainda maior de montagens a fim de desmoralizar as instituições públicas de ensino.
Os conteúdos são disseminados primeiro no WhatsApp e depois espalhados para outras redes sociais.Crédito: Viktor Chagas/ UFF
Nas esteiras da fábrica de fake news
O pesquisador Viktor Chagas, da Universidade Federal Fluminense, analisa desde o começo do ano passado como funcionam as redes bolsonaristas no WhatsApp. Com a ajuda de sua equipe, ele monitora mais de 150 grupos de apoio ao político do PSL. Chagas foi o primeiro a expor, no ano passado, a existência de variados tipos de grupo pró-Bolsonaro que integravam uma estratégia maior e calculada. De acordo com ele, havia ao menos três espécies: o de divulgação (que envia links, panfletos etc.); o de mobilização (que incentiva boicotes ou subidas de hashtags, bem como ações nas ruas); e os de debate (responsáveis pela elaboração das narrativas e trocas de conteúdos). Todos eles, afirma Chagas, seguiam uma hierarquia e eram divididos de acordo com localização. A lógica se mantém viva hoje, ainda que, ao menos até semanas atrás, houvesse uma escala bem menor de mensagens e produção.
“Houve uma latência na transição pro novo governo, em janeiro”, afirma Chagas. “Teve uma baixa de usuários e muitos grupos estavam aguardando sinal para retomar a força de antes. Em meados de janeiro, começaram a voltar os listões públicos e adesão em massa para desmobilizar a oposição.”
‘Há um claro indicativo de que se trata de trabalho profissionalizado, de disparos automatizados.’
Os listões a que Chagas se refere são nomes e endereços de canais pró-Bolsonaro no WhatsApp de acordo com tema e região. Podem ser chats como “Lavatogas ZAP” (que busca uma limpeza no judiciário) e o “Rede Bolsonarista TO” (de militantes de Tocantins). Eles podem ser acessados em sites e plataformas específicas, como o zapbolsonaro.com e a rede social de extrema-direita Gab, em que moderadores informam quais grupos possuem vagas. A ideia, diz o pesquisador, é manter os grupos funcionando no limite da plataforma, de 256 membros. Também notei que existem espécies de mensageiros individuais que passam a enviar mensagens em separado para todos os integrantes dos grupos. Ao entrar em um grupo pró-Bolsonaro em SP, por exemplo, vários usuários pediram autorização para enviar conteúdos de direita diretamente via celular.
Os disparos em massa, muito falados durante as eleições, também continuam. “É possível reparar em padrões de disparo profissional para os mesmos grupos quatro vezes ao dia, em horários diferentes, pela manhã, à tarde, à noite e de madrugada”, afirma Chagas. “Há uma circulação bastante intensa de imagens e apelo persuasivo das mesmas fontes, reiteradamente acionadas. São vídeos de influenciadores, como Luciano Hang, dono da Havan, e de anônimos em situações cotidianas.”
Definir com precisão quem está no comando das operações não é possível. Hoje, a maior parte dos moderadores usa números internacionais — durante a apuração, quase todos os prefixos com que cruzei eram de cidades dos EUA. Ainda assim, há algumas pistas deixadas na época da eleição. O número público do celular de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República e deputado federal eleito ano passado, era um dos que mais liderava grupos de WhatsApp em setembro de 2018, segundo Viktor Chagas. Eduardo moderava mais de 30 grupos. Agora o número está desativado. Em seu lugar, entraram números internacionais sem nome ou foto para identificação.
“Há um claro indicativo de que se trata de trabalho profissionalizado, de disparos automatizados, mas isso por si só não é ilegal”, diz Chagas. O problema, claro, é quando essa profissionalização de envio de mensagens em massa se trata de uma fábrica de notícias falsas e informações tiradas de contexto. A Justiça Eleitoral, porém, ainda não encontrou meios de mapear ou rastrear os autores de conteúdos mentirosos e de má fé, como os memes que mentem sobre a questão estudantil.
O ponto destacado lá em cima nos dois gráficos é Eduardo Bolsonaro.Crédito: Viktor Chagas/ UFF
A incidência de mensagens nos grupos bolsonaristas de WhatsApp é por certo menor do que na época das eleições. Pelo Monitor WhatsApp, a plataforma que serve como amostra de Trending Topics de grupos abertos do aplicativo, o número de compartilhamento dos principais conteúdos chega a ser dez vezes menor do que em outubro. Uma das hipóteses dos pesquisadores é que agora, após as eleições, há menos financiamentos de disparos em massa profissionalizados do que no segundo semestre do ano passado.
Em outubro de 2018, reportagem da Folha de S. Paulo mostrou que diversos empresários — entre eles Luciano Hang, da Havan — contrataram agências para espalhar mensagens contra o PT no WhatsApp. Cada contrato teria o valor de R$ 12 milhões. A prática, tida como ilegal por consistir em doação de empresas para campanha, ainda continuaria em ação nesses primeiros meses de governo, mas em menor escala. Para os pesquisadores, o levante das redes está crescendo aos poucos com três pautas principais: manter o COAF com Moro, os ataques ao Supremo e a deslegitimação dos movimentos estudantis.
Outro ponto de consenso entre os pesquisadores é que a equipe de Bolsonaro se planejou com antecedência para montar sua estratégia de WhatsApp. As principais evidências são a grande organização hierárquica das redes e, também, dois projetos de lei que o então deputado federal Jair Bolsonaro apresentou em 2017, claras demonstrações de sua preocupação com WhatsApp no futuro. O primeiro deles dizia que apenas juízes do STF poderiam derrubar aplicativos e redes sociais no Brasil e o outro impediria operadoras de oferecer planos de internet com dados limitados; em ambos os casos, a justificativa do parlamentar é a de que as medidas evitariam a ameaça à livre circulação de ideias no Brasil.
Bolsonaro agora tenta se apoiar numa máquina baseada em robôs e mentiras orquestradas — a mesma que o elegeu — para recuperar apoio popular.
Para Denicoli, o ponto de partida da estratégia digital de Bolsonaro contou com uma imensidão de perfis automatizados no WhatsApp e, depois, no Twitter. “No começo da campanha, o número de robôs era muito alto. Eles estavam construindo narrativas em cima dos temas de modo experimental”, diz. “No final, eles conseguiram estabelecer um apoio real das pessoas, muitos compraram a ideia e viraram cabos eleitorais.”
De tanto serem replicadas, as mensagens encontraram seus receptores e adoradores. E a lógica segue no Twitter –um levantamento recente apontou que mais da metade dos seguidores de Bolsonaro é falso. A conclusão foi do Fake Followers Audit, uma ferramenta capaz de determinar a porcentagem de seguidores automatizados — isto é, robôs ou bots — que cada usuário tem. O método é estatístico: a empresa pega uma amostra aleatória de dois mil seguidores e analisa um a um. O software verifica dados que podem caracterizar ou não um perfil falso: número de seguidores, discrepância na localização, inexistência de foto de perfil, alta frequência de posts, baixo número de seguidores, data de criação da conta, dias de inatividade e a linguagem usada. Segundo esses critérios, cerca de 60,9% dos quatro milhões de seguidores de Jair Bolsonaro (mais de 2,5 milhões de usuários) são contas inativas. A companhia estima que, em cada post de Bolsonaro, 17% dos retuítes são feitos por perfis fakes. Embora os próprios autores da ferramenta reconheçam que ela não é infalível, o cálculo é eficaz para estimar porcentagens de seguidores falsos.
Bolsonaro agora tenta se apoiar numa máquina baseada em robôs e mentiras orquestradas — a mesma que o elegeu — para recuperar apoio popular. Mesmo depois de assumir a presidência, o político não se esforçou num discurso apaziguador, de união. No mundo real, ele segue com seu posicionamento contra minorias, numa fantasmagórica luta contra o comunismo e o que chama, sem saber articular, de ideologia de gênero. As redes o acompanham nisso e devem seguir essa lógica enquanto houver lenha para queimar. “A rede é toda mobilizada pela raiva, a gasolina é o conflito”, afirma Denicoli.
O problema que se expôs para o presidente é que nem sempre o WhatsApp pode instigar o ódio e criar uma realidade paralela endossada pela população. Boa parte dos brasileiros não acha que o Carnaval é sinônimo de golden shower e que a universidade é lugar em que todos assistem aula pelados. Ainda que lentamente, a máquina de mentira do clã bolsonarista parece perder sua força.
Há pelo menos dois meses, uma
mobilização de canais do YouTube estabeleceu uma frente de luta e
questionamento para combater canais e youtubers que disseminam conteúdo
falso, pautado pelo obscurantismo e ataques às instituições
educacionais. Juntos eles formam os Canais da Resistência e estão
empenhados a produzir conteúdos relevantes para responder, com fontes e
embasamento científico, a crescente onda de teorias da conspiração e
revisionismo científico e histórico do país.
A plataforma de vídeos só cresce no país e dados apresentados em um relatório da Google, o YouTube Insights,
em 2017, já traçava o perfil da população que consumia conteúdos pelo
site. Acessado por 95% da população brasileira, a maior parcela desse
público tem entre 18 e 35 anos. A prevalência de conteúdos em vídeos em
relação àqueles oferecidos em formato de texto era a maioria e
representava 79% dos pesquisados, que concordavam ser melhor assistir a
tutoriais, por exemplo, do que ler instruções escritas. Além disso, cada
vez mais o YouTube deixa de ser “um site de vídeos” para se tornar uma
fonte de informação. Isso porque 59% afirmaram que preferem se atualizar
pelo YouTube do que ver notícias.
Em 2018, a pesquisa da Video Viewers,
consolida ainda mais a preferência dos brasileiros por vídeos. Em
quatro anos, o consumo da web cresceu 135%, enquanto que no mesmo
período o consumo de TV aumentou 13%. O YouTube entrou de vez na vida do
brasileiro e a pesquisa mostrou que a plataforma é campeã da
preferência das pessoas, além de ser o 2º maior destino para o consumo
desse formato no país, ficando apenas 3 pontos percentuais atrás da
líder, a TV Globo. A plataforma já é maior, segundo o levantamento, que
os demais canais de TV aberta, se somados em número de vídeos
assistidos.
Por anos, o YouTube foi um campo aberto para disseminar ideias e
pensamentos. Muitos conteúdos e informações, sem justificativas de
fontes, nasceram ou se disseminaram pela plataforma, ganhando
abrangência e seguidores engajados no hype do momento, ou seja, o que
está na moda e em alta. A política, o anti-petismo, a ameaça comunista e
o marxismo cultural, além da disseminação do ódio se tornaram o auge
para que canais de youtubers brasileiros investissem na produção de
vídeos para refutar temas ou afirmar o contrário, somando, ainda, na
elaboração de narrativas de teorias da conspiração, muitas vezes
importada de outros canais conspiratórios americanos. Agora, imagine que
esses assuntos, por quase uma década, surgiram sem ao menos serem
contestados ou respondidos por especialistas.
Formado por professores de história, física, advogados, filósofos e
escritores, que já produziam conteúdos relativos às suas áreas, os
Canais da Resistência se uniram para criar uma rede de informação e
compartilhamento de ideias para elevar o debate e esclarecer conteúdos
obscuros e sem fontes de informação, que há anos circulam nas redes
sociais e repercutem para fora delas em proporções devastadoras.
Trata-se do início de um trabalho do que acontecia e víamos em portais
de notícias falsas, ou nos compartilhamentos das correntes de WhatsApp e
outras redes sociais. Agora, o embate contra o fake news acontece,
também, pela plataforma de vídeos e é protagonizado por profissionais e
especialistas que cansaram de assistir as barbaridades sendo
disseminadas sem embasamento.
Talvez o leitor já tenha ouvido falar que a Terra é plana, que Isaac
Newton é um charlatão ou que Albert Einstein plagiou a teoria da
relatividade restrita, em 1905. Ou então, sobre uma marca de
refrigerante de cola feito de células de fetos abortados e que o
Nazismo, de Adolf Hitler, foi um movimento de esquerda.
Não para por aí. Há ainda os que concentram o discurso no
anti-petismo, como por exemplo, em eventos mais recentes, em janeiro de
2019, que vinculou a culpa do estouro da barragem de Brumadinho (MG)
a um decreto da ex-presidente Dilma Roussef (PT), assinado em 2015, e
que supostamente teria alterado a responsabilidade de tragédias,
incluindo a de Mariana, para que esse tipo de evento fosse considerado
fenômeno natural e, com isso, eximindo a responsabilidade dos órgãos
competentes. Além de impossibilitar os atingidos pelas tragédias de
sacar o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).
Há também, a teoria de que o Partido dos Trabalhadores possui uma
estratégia para incendiar o país, literalmente. Alegando que a
responsabilidade do incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo,
que resultou em 10 mortes no Rio de Janeiro, e outras tragédias
ocorridas no Brasil, após a prisão de Lula em 2018, é culpa do partido e
seus dirigentes que estão colocando o plano em prática.
Já a mais recente surgiu com a notícia da indicação de Lula para o Nobel da Paz,
e provocou imediatamente uma tremenda confusão ao relativizar a notícia
ao afirmar que Joseph Stalin teria ganhado duas vezes o Prêmio Nobel da
Paz.
Aliás, os Canais da Resistência têm intensificado o combate ao fake
news, com publicações diárias logo depois da eleição do Governo
Bolsonaro, em outubro do ano passado. Isso ocorreu por que os mesmos
youtubers que já produziam conteúdos disseminando ódio, racismo,
revisionismo histórico e outras teorias da conspiração, foram creditados
e indicados pelo atual presidente do país como fonte confiável de informação.
Refrigerante feito de células de fetos abortados, Einstein plagiou a teoria da relatividade restrita e Isaac Newton Charlatão
Respondida pelo Canal do Pirula,
em 2012, a informação rende discussão até hoje. Disseminada por Olavo
de Carvalho, um dos youtubers indicados pelo atual presidente como fonte
confiável, o comentário dava conta de que a Pepsi utilizava em suas fórmulas, células de fetos abortados.
Uma questão de interpretação e falta de conhecimento científico,
transformou uma simples notícia da manifestação ocorrida nos Estados
Unidos, na época, por uma associação pró-vida, em algo literal e
supostamente verdadeiro aqui no Brasil. Pirula é um canal focado em
divulgação científica e aborda assuntos da área de biologia. Possui,
inclusive, o selo Science Vlogs Brasil, que reúnem youtubers
colaborativos divulgadores de ciência mais confiáveis do Youtube Brasil.
O revisionismo científico de teorias não justificadas são as que mais repercutem nas redes sociais. Em janeiro desse ano, o UOL precisou responder outro vídeo de Olavo de Carvalho
sobre um questionamento de a terra orbitar ou não o sol, inclusive,
lançando dúvida sobre o heliocentrismo. O vídeo foi publicado
originalmente em 2012.
Stalin recebeu dois prêmios Nobel da Paz e Nazismo movimento de esquerda
Em 30 de janeiro deste ano, o produtor e professor de música, Nando
Moura, um dos canais indicados pelo atual presidente do país como fonte
confiável, afirmou que o político soviético Joseph Vissarionovich Stalin
ganhou duas vezes o Nobel da Paz. Imediatamente, a informação
repercutiu no seu canal do YouTube, com mais de 3 milhões de inscritos, e
em seguida, largamente disseminada no Twitter.
Em 3 de fevereiro, o canal do filósofo e escritor, Henry Bugalho, foi um dos primeiros a perceber a informação incorreta e responde. Dias depois, em um novo vídeo, o filósofo publica o segundo vídeo
em seu canal e expõe a precariedade e ausência da fonte de informação
da notícia. Em seis dias o vídeo do professor de música tomou proporções
gigantescas e chegou ao topo das notícias mais comentadas no Twitter, e
chegou a ser desmentida pela equipe de fact-checking do UOL. Eles verificaram a informação e publicaram o artigo Soviético Joseph Stalin não ganhou prêmio Nobel da Paz duas vezes,
no dia 6 de fevereiro. Outros Canais da Resistência também começaram a
criar vídeos e a comentar a notícia falsa, um deles foi o do professor e especialista em filosofia contemporânea, Clayson Felizola.
Em outra situação protagonizada pelo produtor de música, em 2017, foi
a de afirmar que o Nazismo foi um movimento de esquerda e que a fonte
dessa informação, inclusive, estaria no livro Mein Kampf, cujo
autor é Adolf Hitler. Uma primeira resposta sobre isso feita pelo casal
Leon Oliveira Martins, formado em Relações Internacionais pela PUC de
Minas e mestre em Estudos Europeus pela Universität Flensburg, na
Alemanha, e Syddansk Universitet da Dinamarca, e Nilce Moretto,
jornalista formada pela Unesp, respectivamente dos canais Coisa Nerd e
Cadê a Chave.
Tragédias CT do Flamengo e Brumadinho e a culpa do PT
O sentimento anti-petismo é pauta frequente dos canais de direita e
um deles é o de Bernardo Küster, também indicado pelo presidente do país
como fonte confiável de informações. Em 12 de fevereiro desse ano, ele
fez um vídeo para apresentar a teoria de que o Partido dos Trabalhadores (PT) e seus dirigentes possuem uma estratégia para incendiar o país,
literalmente. De forma subjetiva, o youtuber construiu uma narrativa
baseada em declarações de dirigentes do partido, incluiu áudios do
ex-presidente Lula, e relacionou notícias de tragédias que ocorreram no
Brasil, desde a prisão do ex-presidente. Bernardo alegou que há em
andamento um plano para “incendiar o país” e responsabilizou a culpa das
tragédias ao partido, inclusive, ao incêndio que atingiu o Centro de
Treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro, em janeiro desse ano.
Nos vídeos publicados nos Estados Unidos, o YouTube já começou a se
mexer e percebeu que conteúdos conspiratórios, como por exemplo, aqueles
que dizem que os ataques de 11 de setembro, que a Terra é plana ou que
vacinas causam autismo, por exemplo, são uma farsa. Uma mudança de
algoritmo para os canais americanos já está valendo desde janeiro de
2019, e fará diminuir a recomendação de vídeos que promovem teorias de
conspiração e desinformação. Esse é um esforço para evitar que o serviço
seja usado para potencializar o alcance de conteúdo extremista.
Enquanto isso no Brasil, a plataforma tem passado por caso parecido
com a propagação coordenada de informações falsas e teorias da
conspiração e outras obscuridades. Só que dessa vez, a contribuição para
a produção de vídeos e conteúdos na luta contra a desinformação e
disseminação de fake news tem crescido por iniciativa dos canais. Um
movimento que avança, somente agora, à sociedade acadêmica e estendida
aos especialistas e produtores de conteúdos qualificados. Eles sabem que
chegaram tarde para o debate e estão engajados intelectualmente para a
batalha.
Em nome do direito legítimo à sátira,
multiplicam-se nas redes sociais perfis que atribuem, a jornalistas e
políticos, falas e textos que nunca produziram. Estratégia de confusão
salvará um governo atordoado?
Por Ethel Rudnitzki, em aPública| Infográficos: Ana Karoline Silano
Gobo News, Mônica Bengamo, Ual notícias, Vilma Russeffi. Trocadilhos
com o nome de veículos de comunicação, jornalistas e políticos são
usados como títulos para usuários de paródia no Twitter. Porém,
autodeclaradas “humorísticas” ou “satíricas”, essas contas divulgam
notícias falsas entre postagens irônicas e críticas à imprensa. Ao longo
de um mês, a Pública analisou 90 dessas contas e descobriu quem são os responsáveis e como se organizam na rede.
Criadas em sua maioria a partir de janeiro de 2018 – das 90
analisadas, apenas 12 foram criadas antes dessa data –, as contas
satíricas ganharam visibilidade no início do ano, quando a Folha de S.Paulo (a verdadeira, não a sátira) denunciou a confusão causada pelas paródias na rede, em matéria publicada no dia 5 de janeiro.
Fonte: Agência Pública
Na ocasião, uma postagem de um perfil de sátira da jornalista Mônica
Bergamo precisou ser desmentida, pois usuários não haviam compreendido
que se tratava de uma paródia. O post dizia o seguinte, imitando o tom
sério usado pela jornalista: “O PT entrou com uma liminar pedindo a
anulação do projeto do Bolsonaro com Israel para acabar com a seca no
Nordeste. ‘A seca no Nordeste é cultural, quase um patrimônio, não deve
ser destruída’, disse Gleisi Hoffmann”. Posteriormente, o tweet foi
excluído.
A presidente do PT foi a público esclarecer que não disse tal
afirmação. A jornalista satirizada também se pronunciou. “Tentam usar a
credibilidade de nosso trabalho jornalístico para enganar as pessoas.
Dizem ser paródia quando na verdade disseminam infos falsas”, publicou em seu perfil oficial no dia 4 de janeiro.
ALERTA:
Páginas c. minha foto, nome e marca quase idêntica à da Folha têm sido
criadas, retiradas do ar pelo Twitter e recriadas de novo. Tentam usar a
credibilidade de nosso trabalho jornalístico p enganar as pessoas.
Dizem ser paródia qdo na verdade disseminam infos falsas. https://t.co/dw8JFlS1z7
A confusão se deu porque a conta responsável pela postagem utilizava
nome de usuário (@MonicaBengamo, com “N”), foto de perfil e texto muito
parecidos aos do Twitter oficial da jornalista Mônica Bergamo. Além
disso, a sátira simulava o símbolo de perfil autenticado no Twitter,
usando o emoji de um furacão. A matéria da Folha mostrou outras contas
que se utilizavam de estratégias parecidas, como a @STFoficianal, que
ironizava postagens oficiais do STF, entre outras. Muitas delas se
diziam filiadas a um perfil chamado “Central da Imprensa Satírica
Brasileira”, ou CIS, que retuitava suas publicações.
A reação das sátiras
Após as denúncias, o Twitter excluiu mais de
20 contas de paródia. Como resposta, os perfis satíricos se uniram em
torno da hashtag #SátiraNãoÉFake, criticando o que chamaram de censura
do Twitter. Muitas das contas deletadas criaram novos perfis e contas
reservas, se precavendo para o caso de novas exclusões.
A hashtag chegou aos Trend Topics (assuntos mais comentados) do
Twitter no Brasil entre os dias 4 e 8 de janeiro. Ela foi publicada
19.400 vezes, por 11 mil usuários diferentes, conforme análise enviada
pela pesquisadora digital Luiza Bandeira, da organização Atlantic
Council, à Pública.
Dessas publicações, 77,4% foram retuítes, ou seja, republicações de
postagens – um número um pouco acima da média para a rede, mas sem
indício de robotização, segundo Bandeira. Para a pesquisadora, o que
ocorreu foi uma coordenação, não uma automação. “Ela [a repercussão da
hashtag] é orgânica, mas tem alguém que fala ‘ai vamos subir isso?’ É
como um comportamento de fã, tipo um fã clube de um cantor.”
O relatório de Luiza ainda mostra que o tuíte mais compartilhado que
usava a #SátiraNãoÉFake foi a do cantor Lobão, artista popular entre
eleitores de direita e ultradireita, que tem alavancado muitas hashtags
no Twitter. A postagem teve 1.700 retuítes e foi publicada no dia 5 de janeiro, logo após a reportagem da Folha.
O terceiro post com mais interações foi do perfil @SoldadoBolsonaro,
uma sátira da conta oficial do presidente, filiada à Central da Imprensa
Satírica Brasileira. A publicação pedia que os seguidores “subissem” a hashtag através de retuítes.
O perfil Soldado Bolsonaro pediu aos seus seguidores que impulsionassem a hashtag #SátiraNãoÉFake
Muitos dos perfis de paródia excluídos também criaram perfis no Gab,
rede social de ultradireita que permite aos usuários total liberdade de
expressão, inclusive para frases racistas, xingamentos a mulheres e
feministas, insultos a LGBTs, como mostra reportagem da Pública. Das 90 contas analisadas, 10% possui perfil na plataforma.
Uma central para atacar a imprensa
Entre os perfis excluídos pelo Twitter estava o da CIS, um perfil
que, além de publicar suas próprias sátiras, retuitava e divulgava
outras contas de paródia. Depois disso, além de abrir conta no Gab – sua
única postagem foi: “Twitter é uma rede social de esquerdistas
vagabundos” –, a central criou um novo perfil no Twitter com mais
publicações diárias e filiados. Desde o dia 25 de janeiro também, há um
portal com postagens de outras contas de sátira e uma novidade:
“notícias” próprias, dessa vez sem usar do humor. A primeira postagem da
nova conta da CIS foi uma imagem listando 28 perfis de sátira que foram
deletados da rede social e denunciando o Twitter.
No site, eles divulgam 12 perfis de sátira: Soldado Bolsonaro, Portal
Comunista, O Protagonista, UAL notícias, Gaulo Puedes (renomeado para
Jair M. Bolsoarmado), Passarinho Opressor, Revista VistoÉra, Motel?
Privado, Globol, Barril 247, The Comunista e Vilma Russeffi. O
levantamento da Pública mostrou outras 12 contas de paródia que afirmam
fazer parte da Central, ou são constantemente retuitadas pelo perfil da
CIS. São elas: Brasil Independente, Carcada Livre, Cristiane Loba, CBFN,
Estadinho, The Ecomunist, Gerson Camarada, Gobo News, Globobo News,
Merdal Pereira, Instituto CIS pesquisa, e IBGtalvezÉ.
A conta do CIS foi excluída no Twitter
Em entrevista à Pública, os responsáveis pelo site afirmaram
que são cerca de 35 a 40 perfis de sátira filiados, mas eles não
divulgaram exatamente quantas são as contas. Segundo as regras e normas de conduta
publicadas no site, não é permitido divulgar a lista de perfis filiados
para evitar exclusões em massa. Além disso, qualquer perfil pode se
filiar à Central, desde que as contas sigam umas às outras e retuítem
seus conteúdos. As contas também são incentivadas a subir hashtags
consideradas importantes pelos membros, como por exemplo #LulaLivre2043 – em comemoração à segunda condenação do ex-presidente que adicionou outros 12 anos à sua prisão –, que foi utilizada por pelo menos 10 perfis de sátira.
É proibido ainda interagir com hashtags “de esquerda”. “Lembrem-se, não
trabalhamos para a esquerda nem mesmo em tom irônico”, ressalta o
documento.
Mais do que produzir humor, essas contas têm como missão declarada
criticar a imprensa e a esquerda. “Nosso objetivo é informar com
agilidade de forma divertida trazendo a público a desinformação
desnecessária e tendenciosa divulgada em outras mídias”, explicam no site.
Os responsáveis
A Central é coordenada por Alexandre Fernandes Oliveira, ou Alex
Diferoli, como se apresenta no site. O domínio foi registrado em seu
nome pela primeira vez no dia 14 de setembro de 2017. O site entrou no
ar como um portal no dia 25 de janeiro deste ano.
“No fim de 2018 percebemos que vários perfis sátira de direita
começaram a aparecer, e começamos seguir uns aos outros. Decidimos então
criar um perfil que nos representasse. Este perfil cresceu e ideias
diferentes para melhoria e autoajuda entre os perfis começaram a
aparecer. Chegamos a dizer que éramos um “sindicato” e zoamos dizendo
que isso era coisa de comunista”, disse Alexandre em entrevista à Pública.
Alexandre, Sandra e Marllon são citados como um dos criadores da CIS
Ele tem apenas 120 seguidores no Twitter e, apesar de ter conta desde
2009, só começou a postar ativamente no dia 10 de janeiro, poucos dias
depois da exclusão das contas de sátira da plataforma. A partir de então
ele replica manchetes de jornais e retuíta postagens de perfis de
sátira diariamente. No entanto, um outro perfil vinculado a ele,
@arquivoxandy, publica quase diariamente um relatório de pessoas que
visitaram seu perfil, intercalando com publicações anti-PT e
pró-Bolsonaro. Alexandre também assina alguns dos textos no portal da
CIS.
São citados como outros criadores da CIS, Marllon Dionizio, conhecido
nas redes sociais como Dr. Marllão, e Sandra Lima. Cada um deles
administra seu perfil pessoal e possui uma conta de sátira, embora não
digam quais são essas contas. Outros perfis pertencem a pessoas
anônimas.
“Por que eu amo meu Brasil e quero que ele seja o melhor lugar do
mundo pra viver!! Sou Bolsonaro com muito orgulho, cada dia mais!!”
Assim Sandra se apresenta em seu Twitter, com 7 mil seguidores. Em seu Instagram, ela divulga eventos em boates de São Paulo.
Recém-graduado em direito, Marllon é fundador da Aliança Conservadora
Estratégica (Alice), um “movimento que visa unir e organizar pessoas
com o pensamento conservador, além de propagar a defesa e divulgação dos
interesses superiores da nação”. No Twitter, o perfil criado em
novembro de 2018 possui apenas 455 seguidores e segue 16 pessoas. Ele
possui um canal de YouTube sem muita repercussão – apenas 918 inscritos
–, onde publica vídeos sobre política e de apoio a Jair Bolsonaro.
“A intenção [da criação de contas de paródia] é justamente tirar
sarro da grande mídia. Eles acham que a gente é bobo, fazem toda a
porcaria que fazem e ainda querem que a gente pague por isso. É o que eu
sempre digo, a diferença entre as histórias que a gente inventa e as
que eles inventam é que pelo menos as nossas histórias são engraçadas”,
diz o responsável pelo perfil GI, paródia do G1. “O que eles não aceitam
é que eles fazem a fake news e a gente faz a gozação em cima da fake
news deles. E isso eles não toleram. Eles se sentem perseguidos por
nosso trabalho porque de uma certa maneira a gente expõe de uma forma
engraçada a porcalhada de imprensa que eles estão fazendo ultimamente”,
fala a administradora do perfil “O protagonista”. “Realmente tenho que
concordar com vocês, o nível do jornalismo brasileiro já foi melhor”,
responde na entrevista Marllon.
Alexandre admite que as sátiras geram confusão nos leitores, mas não
acredita que seja responsabilidade delas. “O pessoal confundia a gente
com fake news. Tínhamos nomes, biografia e logo diferente dos perfis
oficiais, sem ter selo de verificação. Portanto, não podem imputar a nós
a propagação de fake news se houve falta de censo crítico, e em alguns
casos até de leitura, por parte dos demais usuários”, afirma.
Procurado, o Twitter não especificou quais foram as regras
desrespeitadas pelos perfis de paródia deletados “devido a questões de
privacidade e segurança”. Segundo sua política específica para contas de paródia, deve-se descrever claramente que se trata de uma conta satírica.
A plataforma diz não monitorar ativamente o conteúdo publicado pelas
contas e só exclui caso haja denúncia de violação dos Termos de Uso.
Para denunciar perfis de paródia, deve-se registrar ocorrência de falsa
identidade ou marca registrada. “No intuito de proteger a experiência e a
segurança das pessoas que utilizam a plataforma, o Twitter tem que
estabelecer os conteúdos e comportamentos que permitimos. Quando tomamos
conhecimento de potenciais violações a essas regras, como conduta de
spam ou evasão de suspensão, fazemos uma análise e adotamos as medidas
cabíveis de acordo com nossas regras e termos de serviço”, disse a
plataforma em nota enviada à Pública.
Os perfis de paródia, contudo, alegam não desrespeitar os termos de
uso do Twitter e consideram as exclusões um ato de censura. “Todas as
contas foram orientadas a deixar bem claro essa informação de que somos
perfil de paródia/sátira na bio, não foram descumpridas as regras e as
alterações solicitadas pelo Twitter foram prontamente atendidas”, afirma
Sandra.
Encabeçadas pela CIS, as paródias criaram uma petição online direcionada ao Superior Tribunal de Justiça.
Eles pedem que o órgão determine a reintegração imediata dos perfis
excluídos e a punição do Twitter, sob o argumento de que a plataforma
agiu contra o princípio da liberdade de expressão garantido pelo artigo
5º da Constituição Federal, ao excluir apenas perfis ligados à direita.
Segundo os perfis que tiveram contas deletadas, o Twitter não deu
explicações sobre o motivo das exclusões. “A exclusão ocorreu por conta
de denúncias oriundas de perfis oficiais, jornalistas e políticos, e
também de militantes de esquerda que se uniram em torno de listas que
divulgamos com os perfis para serem seguidos”, defende Sandra. “Não
descartamos a ideia de mover um processo, pois nos sentimos tolhidos em
nossa liberdade de expressão.”
A causa anti-imprensa
Além da articulação contra a exclusão de contas do Twitter através da
hashtag #SátiraNãoÉFake, as contas de paródia também se organizaram em
campanhas anti-imprensa nas redes sociais. Somente em janeiro, duas
hashtags críticas a jornais brasileiros chegaram aos Trending Topics do
Twitter no Brasil – #GloboLixo e #EstadãoFakeNews. Ambas surgiram após
os respectivos veículos publicarem reportagens que denunciavam aliados
de Bolsonaro.
A #EstadãoFakeNews teve seu ápice no dia 21 de janeiro, em resposta a
uma matéria do jornal que dizia que os eleitores de Bolsonaro haviam se
desorganizado na rede depois da vitória nas eleições. Ofendidos, os
apoiadores, e o próprio presidente, subiram essa hashtag, totalizando
247 mil menções.
Jair Bolsonaro retuitou o post do perfil Senso Incomum
De maneira parecida, #GloboLixo chegou a figurar no primeiro lugar
entre os assuntos mais comentados na rede brasileira no dia 22 de
janeiro, após o jornal O Globo ter publicado reportagem que
traçava relação entre Flávio Bolsonaro e milicianos no Rio de Janeiro.
Foram 44 mil menções à hashtag. Entre as postagens mais republicadas
estão duas dele, novamente: o cantor Lobão.
Com menos visibilidade, os perfis de sátira se envolveram nesse
movimento. “Quando gostamos de uma hashtag e sentimos que seja uma causa
que também é nossa, participamos das ações, sim”, afirmou Sandra Lima à
Pública, se referindo às hashtags #EstadãoFakeNews e #GloboLixo.
“Quando você vê as tags #EstadaoFakeNews e #GloboLixo liderando os trends do Twitter, você percebe que está do lado certo da força!”, publicou o perfil Gerson Camarada, sátira do jornalista Gerson Camarotti. A conta foi suspensa pelo Twitter posteriormente.
Sátiras amigas de Bolsonaro
A proximidade do presidente com as sátiras não se restringe ao discurso. Em levantamento, a Pública
analisou 90 contas de paródia no Twitter e concluiu que o perfil
oficial de Jair Bolsonaro foi o mais seguido por elas – 82% das contas
analisadas o seguiam. Entre as filiadas à CIS, todas, exceto pela conta
@PassarinhoOpressor, seguem o presidente.
Em segundo lugar ficou o @Isentões, que se descreve como “a mais
importante conta da plataforma bolsonarista de comunicação no Twitter”.
No dia 5 de fevereiro, a conta foi suspensa do Twitter, mas os responsáveis guardavam um perfil reserva que hoje está ativo e com mais de 240 mil seguidores.
Os filhos de Bolsonaro também estão entre os mais seguidos pelas
contas satíricas. Carlos Bolsonaro ficou em 3º lugar, Eduardo em 6º e
Flávio em 9º. Nos “top 10” também estão personalidades ligadas à
direita, como o humorista Danilo Gentili, em 5º lugar, seguido por 64%
das contas; o músico Lobão, em 8º lugar, com 60% das contas como
seguidores.
E eles seguem de volta. Pelo menos seis, entre os seletos 320 perfis
seguidos por Jair Bolsonaro, são de sátira à imprensa. Até a data de
publicação desta reportagem, ele seguia a Falha de São Paulo, o Blog do
Blabla, The Comunista, Barril 247, G1 (@cor0te), G1 (@fatosesquerda).
O presidente costuma replicar os conteúdos satíricos. No dia 5 de janeiro ele retuitou postagem do The Comunista
que dizia “Bolsonaro começa o dia tornando ilegal qualquer coisa
vinculada ao arco-íris, ursinhos carinhosos, ódio do bem e LGBT”. Ele
também mostrou solidariedade às sátiras excluídas pelo Twitter,
retuitando postagem do perfil Joaquin Teixeira que ironizava a situação.
“Vamos dar boas vindas aos temidos perfis de paródia. Entraram no
seleto grupo que ‘ameaça a democracia’ ao lado da tia da igreja, do
tiozão do churrasco, zap-zap, piadas e feique news”, dizia o post publicado no dia 7 de janeiro.
Para especialistas, paródias confundem
Além da confusão causada pela semelhança entre os nomes de usuário e
fotos dos perfis, alguns perfis de paródia misturam informações reais ou
opiniões editorializadas em meio às sátiras. A própria CIS publica em
seu site matérias e artigos de opinião sem ironia. A primeira matéria
foi publicada no dia 30 de janeiro e mostrava as porcentagens de
seguidores robôs de alguns perfis famosos no Twitter, obtidos através do
aplicativo Twitter Audit. A matéria mostrava que os perfis considerados
de esquerda tinham maior porcentagem de seguidores considerados robôs
do que as páginas de direita, colocando essas páginas sob suspeita.
Contudo, o Twitter Audit não é uma maneira precisa de identificar
seguidores bots, especialmente quando as contas monitoradas possuem
muitos seguidores, pois ele trabalha com uma amostragem de até 5 mil
seguidores, não analisando todos os perfis.
A matéria foi divulgada por muitas das contas de sátira relacionadas à
CIS e teve grande repercussão, sendo curtida pela conta oficial de Jair
Bolsonaro.
No dia 1º de fevereiro, o portal publicou outro texto, dessa vez de
opinião. Tratava-se de um apoio à ministra Damares Alves, alvo de
polêmicas na internet. O texto defende que a ministra está sofrendo
perseguição por militantes da esquerda e pela mídia, e foi assinado por
Sandra Lima, cofundadora da CIS.
“O intuito principal é fazer comédia através das paródias, mas
eventualmente podemos, sim, propagar notícias reais. Em alguns casos, os
usuários acham que até os perfis oficiais [de notícia] são paródia
devido a algumas notícias sem credibilidade e importância”, explica o
fundador da CIS.
As sátiras estão incluídas dentro do espectro de desinformação
desenvolvido pela pesquisadora americana Claire Wardle, do First Draft –
organização que discute a poluição informacional digital. Para ela, as
paródias podem ser enganosas de duas maneiras. A primeira é quando o
conteúdo caminha pelas redes e é retirado de contexto, ele pode
confundir as pessoas. A segunda é quando pessoas usam a sátira para
intencionalmente disfarçar uma informação enganosa. “Chamar um conteúdo
de sátira pode ser usado como tática para confundir o leitor e também os
jornalistas checadores. Afinal, não é possível checar algo que não se
diz um fato.”
Algumas características indicam se o conteúdo se trata de uma sátira
verdadeira ou se apenas está sendo rotulado de sátira como estratégia.
Uma delas é identificar se beneficia apenas uma pessoa ou grupo.
“Verdadeiras sátiras têm como objetivo fazer piadas, tirar sarro,
principalmente sobre política. Mas, se você é um humorista, você vai
querer brincar com quem está na direita e também na esquerda. Você vai
querer fazer humor em tudo que trouxer audiência e conteúdo. Então, se
você se deparar com uma sátira que é apenas boa para um lado ou para
certo assunto, é problemático.”
Mesmo em sites que não têm a intenção de propagar desinformação, a paródia pode ser mal compreendida. Segundo estudo
da Universidade Estadual do Colorado, nos EUA, menos da metade das
pessoas (46,5%) consegue identificar corretamente uma notícia satírica. A
maioria acredita tratar-se de uma notícia séria, ou uma notícia falsa,
sem entender a ironia. “As pessoas geralmente têm sentimentos muito
fortes e ruins em relação à política, e a sátira torna isso mais leve e
atraente”, explica Chianna Schoentaler, uma das pesquisadoras. “Mas, com
a evolução das tecnologias sociais e o surgimento das fake news, as
sátiras também viraram uma forma de confundir.”
“Para mim, sátiras podem fazer até alguém ganhar uma eleição. Uma
campanha inteira pode ser feita em cima de sátiras, manipulando as
pessoas. Afinal, pode-se dizer qualquer coisa ironicamente, dando margem
para a interpretação literal”, afirma Michelle Bedard, coautora da
pesquisa.
A possibilidade de fazer sátiras online ou offline é protegida por
lei através da liberdade de expressão. “A proteção à liberdade de
expressão não anula a proteção à honra das pessoas, então eu posso falar
o que eu quiser, mas eu sou responsável pelo que eu disser ainda que
seja humor”, explica o professor Diogo Rais, professor de direito da
Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Fundação Getulio Vargas (FGV).
A situação se agrava se o perfil se passar por outra pessoa, pois o
dano passa a ser intencional. “Tanto o perfil de sátira quanto o perfil
fake trata-se de mentiras, mas o primeiro é uma mentira sem a ideia de
enganar. O que define uma fake news é um elemento que contém uma
falsidade que é proposital e que causa dano a alguém. Só nesse caso o
direito deve agir”, defende Rais.
Para ele, contudo, existem paródias com a intenção de enganar. “Usar a
mesma marca pode ser uma evidência de indução ao erro”, exemplifica
ele.
Ainda assim, deletar os conteúdos nem sempre é a melhor opção,
segundo o especialista em direito digital da Artigo 19, Paulo José Lara.
“Essas derrubadas instantâneas e sumárias de conteúdo não têm o efeito
que se desejaria, que é a diminuição da busca pela desinformação. Pelo
contrário, elas apontaram por uma coesão muito maior desses grupos e de
uma intensificação do ataque à mídia.” Para Rais, a solução também pode
vir dos usuários. “Na internet nós somos curadores do conteúdo, então
também temos um papel de responsabilidade”, conclui.
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