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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Aos Fratricidas, por Jean Pierre Chauvin.




Aos Fratricidas, por Jean Pierre Chauvin
Seria rematada pretensão supor que esta postagem fosse lida por mais que uma ou duas dezenas de internautas. Isso porque não devo ser professor de qualidade. Não apareço na "grande" mídia. Mal recebo incentivos pecuniários por eventuais palestras sobre literatura, história e outras matérias de perfumaria. Não publico um livro para gourmetizar lugares-comuns a cada seis meses.
Mas, acima de tudo, até de Satã, o Estado-Violência, o Estado-Hipocrisia de "Justiça" seletiva ainda não me cooptou, ops, convidou para justificar genocídios, defender terraplanismo, armamento (assim como a lei?) "para todos". Apesar de não ser gente de renome, creio que possa expressar o que incertas coisas me parecem.
Sucursal miserável dos EUA, o Brasil tornou a ser o que não deixara de ser, desde 1822: terra arrassada, terra de ninguém. Aqui, os três poderes de Montesquieu quase sempre se misturam. E o poder que, talvez proviesse dos céus, fingiu que é perfeitamente razoável ir contra tudo o que Lutero defendia no início do século XVI.
A comercialização de indulgências fica a cargo de "missionários" (melhor dizer "mercadores") da fé, instalados em templos faraônicos. A reaproximação entre as esferas da crendice e do pseudoEstado fica por conta de gente que não ultrapassou o limiar de protozoários, bestas (não me refiro ao quadrúpede) que nem o livro Apocalipse conseguira descrever.
No que se refere às leis, trocamos as Ordenações Filipinas (de 1603) pelo arbítrio de carreiristas que não se importam em associar a sua imagem, já questionável, a sujeitos que odeiam e gritam com o povo que fingem amar.
A destruição do Estado é chamada de "reforma", substantivo que transfere para o que restou da classe média, e para os mais pobres, a responsabilidade de salvaguardar os salários indecentes, mil, duas mil vezes maiores que o salário, efetivamente, abaixo do mínimo para sobreviver.
Em seu papel de "formadoras" de "opinião" - numa terra em que não se faz conta de cabeça, não se juntam palavras que façam sentido, e onde não se cultiva nem palavra impressa, nem há preocupação com a qualidade do que se diz - as emissoras de rádio e televisão escoam a ideologia do patrão, do empresário, do distinto PJ.
Também aprendemos que a responsabilidade da crise é nossa (foi o que li numa revista para empreendores, ontem, 15 de janeiro): "A crise está dentro de você". Deve ser muito gratificante alçar a si mesmo como megaindivíduo supremo e "bem-sucedido", numa terra de trânsito, loteada por latifundiários, pistoleiros e falsos profetas e lotada por miseráveis.
A solução, é evidente, está em mais câmaras de segurança (copiadas da China), mais rastreamento via celular, mais armamento para acabar com qualquer hipótese de discussão. Terra arrasada, não demora o dia em que proporão um novo hino nacional, a celebrar as listras que enfeitam a bandeira dos EUA - imitada, há décadas, pela província de São Paulo. Ora, se não? Amém.

terça-feira, 19 de junho de 2018

O peso do controle asfixia o Brasil, por André Araújo.

O peso do controle asfixia o Brasil, por André Araújo
Imagine o caro leitor que sua casa está sendo construída, no canteiro de obras há dois pedreiros e cinco fiscais, os pedreiros ganham dois mil Reais por mês, os fiscais 15 mil.
Parece uma situação maluca? Pois é isso que está acontecendo no Brasil.
Poucas obras públicas em andamento, 8.000 obras paradas, poucos engenheiros trabalhando, mas o que não falta são fiscais, auditores e controladores para fiscalizar as poucas obras em andamento. Em nome de uma certa “cruzada moralista” acabaram as grandes obras, fecharam as empreiteiras, despediram-se os engenheiros, os operários de construção viraram camelôs, mas aumentou o número, o salário e o prestigio do pessoal que controla obras paradas, são tantos que faltam obras para fiscalizar, eles adoram mandar parar obra em andamento, o que leva ao infinito o custo do projeto. Uma interrupção significa manter o canteiro com todo seu custo sem saber quando os operários voltam a trabalhar pois os Tribunais de Conta e demais corporações de controle não tem pressa alguma em resolver impasses.
Não há prazos, compromissos, obrigações em relação ao destino e ao custo dos projetos, no fim do mês os salários, auxílios e bônus dos fiscais estão garantidos, acrescidos de  diárias e demais vantagens, independentemente do prejuízo que causam ao Pais. E como inventam motivos para parar obras e aplicar multas, pode ser um lençol sujo no alojamento, uma tampa de privada descascando, pela livre interpretação pode ser o famoso trabalho análogo à escravidão ou lá no sitio do canteiro pode ter um pedaço de flecha de alguma tribo pré-histórica ou será que no edital tem duas vírgulas fora do lugar ou falta reconhecer a firma do cozinheiro da cantina dos operários? Pode ser qualquer coisa, não importa a escala de valor, o negócio é mostrar serviço. Se for coisa maior já de imediato vaza para a mídia escandalizar.
O Estado brasileiro não conseguiu a partir da Constituição de 88, estabelecer o EQUILIBRIO entre controle e eficiência, aquilo que os americanos chamam de materialidade, qual seja uma proporção entre critérios de valores numa escala de importância. Os americanos operam dentro desse conceito, se a importância é baixa não se perde tempo porque o tempo custa caro. A interpretação desse conceito, se há um dinheiro mal gasto de 3 mil Reais mas para consertar esse erro eu vou gastar 20 mil Reais, então é melhor simplesmente ignorar esse erro e ir em frente, eles não tentam consertar o erro se o conserto fica mais caro que o erro.
No Brasil Tribunais de Contas abrem processos que chegam a 200 páginas pela falta de uma certidão negativa do INSS de um serralheiro que consertou uma esquadria de janela, serviço de 600 Reais, o processo aberto e ao fim arquivado custou em horas de trabalho seguramente 20 mil Reais e isso é o padrão, acontece todo dia, não há noção de materialidade, o conceito é o do principio do erro pelo erro, faltou 5 Reais, tem que achar nem que isso custe 10 mil Reais.
É no fundo uma questão cultural. Nas multinacionais americanas se lança um produto novo, não dá certo, muito rapidamente se encerra a tentativa, se lança o investimento como perda total, fecha-se a fábrica e se joga a chave fora, não se persiste no erro, não se tenta recuperar.
O Estado de São Paulo, até o começo deste ano, tinha 2 milhões de processos fiscais de pequeno valor, na maioria de firmas muitas pequenas como botecos e sapateiros que deixaram para trás 300 ou 800 Reais de ICMS não pago. Abre-se um processo que no mínimo chega a 50 páginas, mas pode chegar a 300 páginas para cobrar um valor incobrável de 200 Reais. Agora algum gênio resolveu mandar para o arquivo sem cancelar o débito de alguns milhões desses processos inúteis. No passado, o Governador Quércia mandava anistiar processos fiscais de pequeno valor que não compensavam o custo, mas a partir do Governo Covas até 2018 nenhum governo tomou essa elementar iniciativa, prevalece a ilógica de perseguir o devedor até o ultimo centavo nem que isso custe muito mais que a divida.
A AVENTURA DO DESENVOLVIMENTO
Todos os grandes países tiveram seu ciclo de desenvolvimento na base da aventura, da audácia, do imponderável, do esforço de lideres e visionários, o desenvolvimentos dos grandes países nunca foi processo muito organizado ou planejado, COM MUITO CONTROLE NÃO HÁ DESENVOLVIMENTO, Colombo não chegaria à América se tivesse que fazer muitas contas, há no processo de grandes ciclos de construção de países, a ação dos sonhadores.
Se Juscelino tivesse em cima dele os controles de hoje, Brasília não se faria nem em 500 anos.
O ciclo das ferrovias que determinou o futuro dos EUA entre o fim da Guerra Civil e o começo do Século XX, com a ligação entre as duas costas por quatro linhas de trens, e fez desse País uma potência, foi obra de uma malta de aventureiros que aquele período produziu no caldeirão de sua transformação de um aglomerado de colônias rurais em uma potencia mundial. O processo de desenvolvimento dos Estados Unidos foi extremamente corrupto, aventureiro, ousado, escabroso nos atos e desdobramentos, mas criou um grande País.
Malucos, trapaceiros, escroques, os melhores eram posseiros à bala de terras públicas, Jay Gould, Leland Stanford (fundou a universidade com seu nome), Mark Hopkins, Collis Huntigton, Edward Harriman, Henry Flagler (inventou a Flórida), James Duke, Charles Crocker jamais existiriam se houvesse instâancias de controles rígidos sobre suas ações. Muitas fracassaram, mas ao final os EUA nasceram como Pais continental pela mão desses aventureiros, piratas, embusteiros, sonhadores. Tudo isso é historia.
Em outro tempo e escala ciclos de desenvolvimento no Brasil, como o norte do Paraná, o oeste Paulista, a borracha do Amazonas, foram produto desses ciclos de aventureiros.
Como conciliar esses movimentos telúricos com a necessidade de controles?
Escrevi aqui um artigo sobre como combater a corrupção fechando a porta do cofre.
O controle tem que ser inteligente e prévio, não a posteriori, não vou repetir a receita, deixo aqui o link porque é o tema conexo mas não é o tema deste artigo. [Aqui]
Aqui tratamos da PARALISIA DO DESENVOLVIMENTO por causa do excesso de controles, estamos em tempos de paranoias que ao fim leva à “criminalização do desenvolvimento” um processo histórico que pode fazer o Brasil desintegrar na miséria e no charco da estagnação de sua economia, onde tudo é proibido, tudo é crime, todos denunciam todos, o tema dos jornais são inquéritos, delações, processos, penas e não pontes, usinas, estradas, ferrovias, novas fábricas, nada disso, o importante é receber a denúncia e processar.
Nada disso coloca um tijolo no lugar, um País não se constrói com fiscais e auditores.
Ou um novo governo, seja de direita, centro ou esquerda, dá um basta nessa cruzada de controladores que não produzem um parafuso ou Brasil atolará para sempre no pântano.
A Inquisição Ibérica paralisou Portugal e Espanha por 200 anos, exatamente o período em que Inglaterra, França e Alemanha se modernizaram. Estamos em período muito parecido de perseguições, todos os métodos da Inquisição, o ambiente da Inquisição e os resultados da Inquisição, destroe-se a alma produtiva, as iniciativas, a liberdade de ação em nome da moral. Em nome do combate à corrupção fecham-se empresas, não nascem novos projetos.
Isso está exatamente acontecendo no Brasil de hoje. É tempo de parar.
O CUSTO DO CONTROLE
Cada ato de controle tem custos diretos e indiretos. O custo direto é o da máquina burocrática montada para executar o controle. O indireto é o custo imposto aos cidadãos e às empresas para atender às exigências do controle. Ambos os custos recaem sobre a economia produtiva.
O descaminho do controle se dá quando, para controlar o desvio, se gasta muito mais que o valor do desvio. Por exemplo, um procedimento administrativo que atinge 10.000 operações estima-se que estatisticamente podem ocorrer 200 desvios. A perda com esses desvios será de 50 mil Reais, esse é o risco máximo para a administração. Para evitar essa perda a de 50 mil Reais a administração gasta 500 mil Reais em procedimentos de controle e a sociedade gasta 1 milhão de Reais para atender às exigências do controle. Essa conta é absolutamente comum no Brasil. O custo do controle é muito maior que o risco de perda na situação controlada.
O Brasil tem 100 milhões de processos judiciais em andamento. Na Justiça do Trabalho o custo do aparelho judiciário por ano é maior do que o total recebido por ano pelos empregados reclamantes nas ações que se processam na Justiça do Trabalho. Esse só é o custo direto do aparelho judiciário, há o custo indireto dos advogados para manter o sistema funcionando.
Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário em matéria no jornal O GLOBO de 21.05.2018 o Brasil convive com 5,7 milhões de leis, normas e regras, o que aumenta absurdamente o custo de operação da economia, causando enorme perda de eficiência.
Além do Estado há a gigantesca indústria dos cartórios que fatura 20 bilhões de Reais por ano, criando regras através de seus lobbies nas Assembleias Legislativas e no Congresso para exigir reconhecimento de firmas e autenticações desnecessárias, lembrando que não existem cartórios nos EUA e o País sempre funcionou sem esse custo desnecessário.
Os cartórios vivem da indústria de regras de controle, sempre na teoria de evitar algum risco de pequeno valor e com isso provocando um custo centenas de vezes maior para a economia, porque todos os custos de controles desnecessários acabam onerando a totalidade do sistema econômico, propagando o custo para o preço dos produtos e serviços.
O excesso de regras de controle de licitações é gerado pela atual Lei das Licitações de natureza detalhista propiciando continuas contestações de resultados, o que eleva ao infinito o custo de compras por órgãos públicos, criando uma “indústria de contestação de licitações”, com firmas especializadas em contestar para cobrar desistência do processo.
CENTRALIZAÇÃO DE CONTROLES
Uma das formas racionais de reduzir os custos de controles é a centralização da fiscalização de obras publicas em um só Grupo de Trabalho com todos os órgãos regulatórios e fiscalizadores representados, com definição territorial clara. Hoje um Juiz Federal do Amapá pode paralisar uma obra no Rio Grande do Sul, o TCU, o Ministério da Transparência (CGU), a Justiça Federal e a PGR, bem como Ministérios Públicos dos Estados e do Trabalho podem paralisar obras públicas e o fazem continuamente, com o que as obras passam a custar varias vezes seu orçamento inicial, atendida uma exigência outro órgão intervém com nova exigência de outra natureza e assim vai ao infinito, uma usina hidroelétrica de grande porte na China leva 3 anos para construir, no Brasil leva de 15 a 20 anos, o mesmo com rodovias, ferrovias,  pontes, metrôs,  com isso os custos explodem, não só direto como o custo de oportunidade de não ter a obra terminada a tempo.
A EQUAÇÃO CUSTO-BENEFÍCIO
A base da filosofia de controle tem que ser a equação custo-benefício, esse cálculo é obrigação de toda autoridade fiscalizadora. Não tem nenhuma lógica interromper uma obra de 5 bilhões por suspeita de uma irregularidade de 200 mil Reais mas essa é a regra no Brasil.
A ausência da equação custo-beneficio, foi absoluta na Operação Lava Jato.  Foram destruídas empresas e projetos que valiam 200 vezes mais que toda a provável corrupção encontrada, o Brasil perdeu 30 anos de presença forte em duas dezenas de países com suas empreiteiras, presença que não se recupera nem em uma geração, para perseguir corrupção, que se houve foi em beneficio do Brasil como economia, caberia ao Estado que se sentisse prejudicado a investigação e não ao Estado beneficiado pela obra no exterior, é de elementar lógica.
Navios sondas que seriam construídos no Brasil, só um estaleiro, o Rio Grande, tinha encomenda de 8 navios sondas, todas as encomendas foram transferidas para a Ásia, Inclusive um navio 85% pronto foi abandonado, porque o estaleiro estava ligado a uma empresa alvo da Lava Jato. O desmonte e a privatização branca da PETROBRAS foi também resultado da campanha moralista, com venda a estrangeiros de pedaços substanciais da PETROBRAS e agora a Braskem, maior petroquímica da América Latina está sendo vendida a grupo holandês, na crença subjacente de que estrangeiros são honestos.
As empreiteiras atingidas pela operação anti-corrupção tinham ativos de 830 bilhões de Reais, ativos que foram destruídos ou neutralizados, as empreiteiras despediram 600 mil empregados, com gigantesca perda de renda dessas pessoas, do Estado e da Previdência pela não arrecadação de contribuições e impostos, obras paradas aos milhares com os mega custos que essa paralisia representa, custos diretos e custo de oportunidade por não ter a obra.
No BNDES, segundo declaração da diretora de investimentos Eliane Aleixo Lustosa (VALOR 13.06.2018-pg.A3), uma executiva experiente com passagens por órgãos públicos e empresas privadas ( e neta do Vice Presidente Pedro Aleixo), o medo dos órgãos de controle paralisou o Banco, uma situação dramática, ninguém mais assina nada, a inação é a melhor proteção contra os riscos de questionamentos, não fazer nada garante a posição, fazer é sempre arriscado, então é mais seguro não aprovar nada do que se arriscar aprovando uma operação que mais à frente pode ter problemas, considerando que não há operação bancaria sem algum tipo de risco no futuro, o risco é inerente para quem assina desembolso de dinheiro público.
Ah, dirão os ingênuos, quem não deve não teme. Raciocínio primário, em clima de caça as bruxas, todos serão  investigados, toda operação é suspeita, quem procura pelo em ovo acaba achando, quebra-se o clima de confiança interna fundamental para o funcionamento de qualquer organização de qualquer tipo, todo investimento público tem certo nível de risco e pode ser questionado dependendo do que se pretende apurar e aonde se quer chegar.
Quando há uma onda de cunho ideológico não se sabe de inicio quem cometeu irregularidades, então o sistema de controle se joga contra tudo e contra todos para se buscar o delito e nesse processo as operações são todas questionáveis, na forma ou no mérito, o espirito do Inspetor Javert toma conta de quem se realiza achando erro nos outros, reais ou imaginários, como a Inquisição procurava o pecado e a heresia e acabava achando.
Controles nunca são neutros, tem custo e tem direção, o controle é algo paralelo e acessório, não pode ser o centro das atividades administrativas e nem o objetivo de uma empresa sob pena de grave perturbação, perda de foco e quebra do dinamismo nos negócios, atingindo  todo o aparelho produtivo do País, do topo à base, o controle deve existir mas dentro da logica do equilíbrio entre custo e beneficio, entre riscos e oportunidades, para que uma remédio não se torne a própria doença.
O PARASITISMO DA BUROCRACIA
A burocracia, patrocinadora dos excessos de controles, é uma praga que sem inimigos naturais tende a propagar-se ao infinito. Deixada solta, como está no Brasil desde 1988, a burocracia se projeta sobre todo o País em progressão geométrica. Quem se dá ao trabalho de analisar os organogramas do Poder Executivo verificará a inacreditável multiplicação de organismos dentro da burocracia, muitos em duplicidade, superpostos, com funções inúteis, ninhos criados com o exclusivo proposito de aumentar o numero de cargos para uso como moeda politica e com o aumento da estrutura para gerar uma sensação de maior poder para as cúpulas que comandam cada aparelho a procurar espaço no conjunto da maquina.
Não se trata de fenômeno brasileiro, é universal e é conhecido desde tempos milenares.
Nos Ministérios, Agências Reguladoras, Conselhos e organismos paralelos da burocracia brasileira explodem como cogumelos “coordenadorias de planejamento e gestão” e outros nichos sem função clara, assessorias de incontáveis temas, ouvidorias, corregedorias, procuradorias, coordenadorias de comunicação social aos montes.
Típica é a superposição de órgãos, por exemplo, na AGU há uma Secretaria Geral de Consultoria, mas há também a Consultoria Geral da União, duas unidades para a mesma função? Há também uma Diretoria de Gestão de Pessoas, mas há também uma Coordenação Geral de Gestão de Pessoas dentro do mesmo organograma, quem faz o que?
Está bom? Não está, além do principal cargo, a titular com nível ministerial da AGU, há também o Procurador Geral da União, o Procurador Geral Federal, o Procurador Geral do Banco Central, a Corregedoria Geral da AGU, a Ouvidoria Geral da AGU, uma Coordenação Geral de Desenvolvimento Organizacional, varias Diretorias e Coordenadorias de Planejamento e Gestão, multiplicadas como cogumelos, cada titular com seu Chefe de Gabinete, este por sua vez com uma, duas ou quatro secretárias, mas há também um Departamento de Gestão Estratégica. Todavia a Ministra titular tem seu próprio staff no topo, três Adjuntos da Advogada Geral, que seriam Vice Ministros, e haja arrecadação para manter essa monumental arvore de cargos, salários, vantagens, diárias, carros, viagens, diárias a se multiplicar.
Por todos os órgãos federais há essa proliferação, ou melhor, um toldo gigantesco que se reproduz não importa se há déficit, se o déficit cresce ano a ano, se a divida publica explode sem parar, nada interrompe o crescimento exponencial da burocracia, que tem sua própria lógica, podendo levar à metástase do próprio Estado, já aconteceu antes na Roma antiga, na China imperial, no Estado absolutista francês.
E como se explica existir uma Secretaria Especial de Direitos Humanos no Ministério da Justiça (titular foi Flavia Piovesan, que escalou para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos na Costa Rica) e simultaneamente um Ministério dos Direitos Humanos (cuja  titular foi Luislinda Valois, a que dizia que tinha salário de escrava com 33 mil, hoje Gustavo Rocha), quer dizer o mesmo tema cuidado dentro da mesma Administração por duas estruturas concorrentes, seriam diferentes direitos humanos? O pior é que nenhuma dessas estruturas tem funções claras ou poder de agir, ao fim são apenas mesas, salas, cartões corporativos, auxílios moradias, carro com motorista.
O Poder Executivo tem seguramente superposição, excesso e disfuncionalidade de estruturas e pessoal, que consomem nas atividades meio, leia-se a BUROCRACIA PURA, a maior parte da folha de salários da União, o processo se multiplica nos Estados e Municípios, no Poder Judiciário e nos demais entes mantidos pelo dinheiro dos impostos. Já o Congresso com orçamento de 11 bilhões de Reais ultrapassa em números absolutos o custo do Congresso dos EUA, pais com o PIB dez vezes maior que o do Brasil. Nem se fala aqui do outro super ralo de desperdícios, o aluguel ou construção de prédios públicos desnecessários mas instrumentos para mostrar poder e importância, para não falar de outros acessórios.
O grosso do dispêndio dos impostos arrecadados não tem um fim útil à população brasileira “fica pelo caminho” sobrando pouco para educação, saúde e segurança, áreas de direto interesse dos cidadãos, depois vem as aposentadorias precoces e integrais, inexistentes no mundo civilizado, já para obras públicas não sobra nada, ai apela-se para privatização de tudo porque o Estado não tem dinheiro, não tem porque gasta inutilmente com uma burocracia parasitária, com gastos desprovidos de proveito e lógica para a população.
Algum exemplo externo? A imensa máquina publica federal dos EUA custa muito e inclui o maior orçamento de defesa do planeta, mas a carga fiscal é metade da brasileira.
Um exemplo: No lugar do Ministério da Justiça, Advocacia Geral da União, Defensoria Publica da União, Procuradoria Geral da Republica, existe um só Departamento da Justiça que executa todas essas funções sob um só guarda chuva, com muito menos pessoal e custo e um único chefe, uma burocracia grande, mas enxuta e com propósito definido.
A BUROCRACIA EM AÇÃO
Quando a burocracia percebe que está em risco por causa da crise fiscal, passa a se agitar através de uma super atividade  sobre os demais estamentos da sociedade. Com esse ativismo exagerado defende sua posição atacando, mostrando sua força, necessidade e importância.
A natural letargia histórica de uma burocracia conservadora dá lugar a uma série de ações destinadas a demostrar sua essencialidade, com isso defendendo sua essencialidade e custo.
Tal movimento é histórico, ocorreu na China dos mandarins no Século XIX, na França da 3ª República, que desembocou no colaboracionismo de Petain e Laval com a máquina burocrática serviço dos alemães, mas preservando suas posições (tema do filme “Seção Especial de Justiça”, de Costa Gravas).
Ao fim da 2ª Guerra a máquina pública inchada pelo conflito resistia à sua desmobilização. Exemplo histórico é a Administração do Plano Marshall (European Recovery Commission) que não fechou quando acabou o Plano, como seria lógico, transformou-se na Organização Europeia para a Cooperação e Desenvolvimento, hoje Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Econômica, uma gigantesca máquina burocrática à procura de temas, já achou vários e continua a procurar, como um radar girando em busca de alvos.
Como todo corpo estamental, a burocracia opera dentro de sua lógica de interesse particular, que nada tem a ver com a lógica do Estado e muito menos com o interesse da população.
Um exemplo atual, uma serie de órgãos de controle está querendo indenizações novas das empreiteiras da Lava Jato no valor de 50 bilhões de Reais, depois de todas as punições já sofridas na Justiça Criminal, o que demonstra o típico irrealismo da burocracia.
Indenizações desse porte são economicamente irreais, fecham-se as empresas e ninguém paga nada porque esse dinheiro não existe na lógica econômico-financeiros das empresas. O mesmo processo de caça ao tesouro ocorreu com as empresas de transporte a pretexto da paralisação dos caminhoneiros, multas de 550 milhões, irreais, jamais serão pagas, não existe esse dinheiro na vida, no balanço, no lucro ou no caixa dessas empresas.
CONTROLE NÃO É FIM, É MEIO E DEVE TER RELAÇÃO COM A FINALIDADE ECONÔMICA A QUE SERVE, NÃO DEVE SERVIR A JUSTIÇAMENTO, PUNIÇÃO, VINGANÇA OU MORALISMO.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Ensaio Por que a administração pública pode, sim, ser inovadora, por Bruno Q. Cunha e Pedro Luis C. Cavalcanti.



Especialistas em políticas públicas explicam livro recente do Ipea, que analisa como o Estado pode atuar positivamente a favor de iniciativas inovadoras

Inovação e setor público são termos que não costumam ser positivamente relacionados. Quando o são, é geralmente para sobressaltar o papel negativo do Estado no processo inovador. O rigor burocrático, a profusão de regras e o peso de exigências tributárias sobre a sociedade seriam as faces anti-inovadoras do Estado. Entretanto, em todo o mundo, uma nova tendência surge com grande força, a fim de reconfigurar a relação entre inovação e a administração pública. Amparado nessa tendência e em ricos exemplos concretos, foi lançado o livro "Inovação no Setor Público: teoria, tendências e casos no Brasil". A publicação do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e da Enap (Escola Nacional de Administração Pública) envolveu pesquisadores nacionais e internacionais e servidores públicos engajados em discutir, sobretudo de forma científica, a questão da inovação no setor público.
O que sobressai dos trabalhos da coletânea é que a dicotomia entre o setor público e o setor privado, e mesmo entre servidores públicos e empreendedores do mercado ou da sociedade civil, é antiquada e contraproducente. Ambos setores são fundamentais para que ecossistemas de inovação prosperem. A atuação pró-ativa do Estado, ao impulsionar sistemas de inovação, também atende ao crescimento de problemas complexos, transversais e incertos ("wicked problems"), além de demandas por melhores serviços e participação social no processo decisório dos governos.
Nessa dinâmica de rápidas e desafiantes mudanças, o setor público pode assumir diferentes papéis. Muito além do estereótipo de mero limitador de transformações, ou mesmo da função elementar de criação de condições à inovação, neste caso, provendo o suporte institucional básico, o Estado pode, intencionalmente, figurar como catalisador e agente de inovação. Enquanto agentes, governos aproveitam-se do intercâmbio de ideias e soluções com atores da sociedade e do setor privado.
Na prática, os quatro papéis (de restrição, de dar condições, de catalisador ou de agente) que configuram a relação entre setor público e inovação não são excludentes, mas cumulativos. A ação estatal como condição à prática inovadora historicamente envolve políticas e leis de inovação, que combinam compras públicas e investimentos diretos em ciência, tecnologia e inovação. A função de catalisador, mais moderna, sobressai por meio de experiências como, no caso brasileiro, os programas Inovativa, Start-up Brasil e InovaApps. Por meio de iniciativas catalisadoras, o Estado apóia empresas de alto potencial criativo e tecnológico, mas o faz de modo colaborativo e com foco na solução de problemas ou no aproveitamento de oportunidades.
Entretanto, é na análise do papel do Estado como agente da inovação que reside o ineditismo do livro recém-lançado. Os especialistas ali reunidos, em sintonia com a visão expansiva do setor público frente à inovação, reconhecem a necessidade de transcender a noção estigmatizada da inércia governamental e suas amarras legais, as quais parcialmente se justificam em virtude da própria natureza estabilizadora e da segurança jurídica que se espera de qualquer aparato estatal.
Inovar é hoje um imperativo. Ambicionar saltos de qualidade no funcionamento do Estado e na prestação dos serviços públicos, que possam levar o país a novos patamares de desenvolvimento e justiça social requer criatividade, colaboração e disposição ao erro. No entanto, experiências já testadas de incorporação abrupta de práticas e técnicas retiradas da iniciativa privada ou de realidades administrativas distintas à brasileira muitas vezes provocaram resultados indesejáveis. Sendo assim, é fundamental entender que tornar o setor público inovador não significa descaracterizá-lo, transformando suas organizações em cópias artificializadas de empresas privadas e dos mais novos modismos do mundo dos negócios.
Em particular, o livro permite compreender de maneira sistemática e empiricamente fundamentada as barreiras e indutores da inovação no setor público. Além disso, revela a inovação como um fenômeno multicausal. Por isso, sua incorporação à agenda de governo não é trivial, requerendo comprometimento. Os casos de sucesso no governo federal, tais como e-government, desafios e laboratórios de inovação, analisados no livro, demonstram que as estratégias inovadoras na gestão pública não seguem receitas pré-definidas e demandam não apenas boas ideias, mas também recursos e capacidades de implementação. Portanto, a criação da cultura de inovação nas organizações públicas deve se guiar pela oferta de condições necessárias e não suficientes.
O quebra-cabeça que sedimenta a cultura de inovação toca especialmente às dimensões de gestão de pessoas e de métodos organizacionais de trabalho. Quanto à primeira, ações nas organizações públicas com equipes interdisciplinares podem favorecer aprendizagem e criatividade, gerando incentivos (não necessariamente pecuniários) a servidores públicos e líderes que se engajem nessa dinâmica. Quanto aos métodos organizacionais, introduzir na rotina do serviço público práticas de avaliação formativa e dialogada (e não os assépticos check lists), além de experimentalismo, prototipagem/projeto piloto, gestão do conhecimento (tanto dos sucessos quanto dos fracassos), bem como a cocriação e coprodução constituem estratégias para o desenvolvimento de soluções inovadoras.
A incorporação desse conjunto de macro-diretrizes e inspirações poderá auxiliar a fomentar a cultura de inovação no setor público. Porém, tão fundamental quanto isso será estudá-la e testá-la de modo constante, respeitando-se as diversidades regionais e setoriais, assim como as peculiaridades intrínsecas ao setor público.
Bruno Queiroz Cunha e Pedro Luiz Costa Cavalcante são especialistas em políticas públicas e gestão governamental no Ipea.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Cresce entre ativistas de todo o mundo a ideia de que nao basta denunciar governos. Transnacionais sao o centro de ataques aos direitos.



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Cresce, entre ativistas de todo o mundo, ideia de que não basta denunciar governos. Transnacionais são o centro do ataque aos direitos. É preciso enfrentá-las
Por Brid Brennan e Gonzalo Berrón | Tradução: Inês Castilho e Antonio Martins
Os efeitos da atual crise do capitalismo tornaram-se mais manifestos globalmente em 2016, provocando inesperadas reviravoltas políticas. Contudo, as pessoas mais severamente atingidas pela atual crise econômica escolheram, em sua maioria, apoiar figuras e posições políticas [1] contrárias às formuladas durante anos pela esquerda altermundista, também conhecida como movimento por justiça global. Em parte, isso se deve ao fato de que, na primeira rodada de respostas ao neoliberalismo na América Latina, as forças políticas progressistas fracassaram [2] – seja por fraqueza ou por projeto – em desmantelar os mecanismos que contribuem à consolidação do “capitalismo extremo”, hoje globalmente hegemônico. Essa forma de capitalismo apresenta, somada às suas contradições clássicas, “extrema concentração de riqueza e tendência para extrema concentração de propriedade de corporações” [3], como tipificado no processo monopolista via fusões e aquisições. É o que vemos, quando seis das maiores corporações de agroquímicos e sementes do mundo procuram fundir-se em apenas três megacorporações (Monsanto-Bayer, Dow-Dupont e Syngenta-ChemChina).
Contudo, vale notar que os movimentos da esquerda altermundistas não foram os derrotados em 2016. Ao contrário, eles transformaram-se em forças políticas efetivas e ascendentes: parcialmente convergindo em torno de Bernie Sanders, Jeremy Corbyn e o Podemos, que emergiram como sinais de esperança. O que foi definitivamente derrotado em 2016 é o que podemos chamar de ‘neoliberalismo social democrata’. Como escreveu Naomi Klein: “Foi a adesão dos Democratas ao neoliberalismo que deu a vitória a Trump.”[4]
A nova conjuntura internacional poderia encorajar uma nova onda altermundista, fortalecida pelas lições das recentes derrotas, e galvanizada pelas esperanças que inspirm uma oposição de esquerda contra as tendências fascistas que emergem globalmente – tanto no Norte como no Sul. Como William Robinson alertou profeticamente, em 2011, “o contraponto ao fascismo do século 21 deve ser um contra-ataque coordenado pela classe trabalhadora global. A única solução real para a crise do capitalismo global é uma redistribuição maciça de riqueza e poder – para a maioria pobre da humanidade. E a única maneira de iniciar essa distribuição é por meio de uma luta transnacional em massa, a partir de baixo”.[5]
O debate atual no Comitê de Direitos Humanos da ONU (UNHRC, na sigla em inglês) sobre a criação de um Tratado Relativo a Direitos Humanos e Corporações Transnacionais e Outras Empresas oferece uma grande oportunidade para confrontar os atores centrais da economia capitalista global, hoje comumente referidos como “poder corporativo”, e contribuir para a emergência de uma nova onda de ativismo antineoliberal. Essa oportunidade foi criada em parte por meio das lutas alternativas à globalização em processo, na quais a “Campanha para Desmantelar o Poder Corporativo, Acabar com a Impunidade e Reconquistar a Soberania dos Povos”[6] é uma protagonista. Essa campanha global reúne comunidades, movimentos e organizações sociais afetadas de todos os continentes. Em junho de 2014, mobilizações da Campanha e do Treaty Alliance (Aliança pelo Tratado) [7] em nível nacional e em Genebra, tanto dentro como fora do Conselho de Direitos Humanos da ONU, culminou num bem sucedido voto para iniciar um processo formal de preparação de um tratado.[8]
Na atual conjuntura de lutas, áreas-chave do poder corporativo estão vulneráveis a golpes fatais – que, junto com o processo do Conselho de Direitos Humanos, pode contribuir para o avanço dessa onda emergente de luta por alternativas à globalização. Eis alguns dos objetivos pelos quais lutar:
1. Fim da impunidade legal das corporações
Desde o início dos anos 1980, a elite corporativa global começou um assalto ininterrupto aos direitos humanos e interesses públicos. Essa ofensiva tornou-se visível pela erosão da soberania dos Estados, o desmantelamento do Estado de bem-estar social, a privatização dos serviços públicos, a desregulação econômica, a liberalização do comércio e dos investimentos e o estabelecimento da primazia dos direitos das corporações e investidores sobre o direito dos povos.
Em plano internacional, o livre comércio e os acordos de investimento, em suas várias formas, combinam-se com as políticas da OMC, FMI e Banco Mundial para oferecer a definitiva garantia de proteção ao capital. Sob o regime dessas políticas, as corporações transnacionais (TNCs) adquiriram direitos que vão além dos poderes dos Estados – o que tornou possíveis mecanismos punitivos tais como Mecanismo de Resolução de Disputas entre Investidor e Estado (ISDS, na sigla em inglês). Por meio deles, as corporações podem processar os Estados exigindo bilhões de dólares, enquanto os Estados não podem processar ou sancionar as corporações. O mecanismo ISDS está em operação nas Américas desde o início dos anos 1990, quando foi embutido no Capítulo 11 do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, na sigla em inglês). Também é agressivamente perseguido no Tratado Transpacífico (TTIP, na sigla em inglês), Tratado de Livre Comércio entre União Europeia e Canadá (CETA) e Parceria Transpacífica (TPP), assim como em outros tratados da “nova geração”.
O resultado dessa estrutura política tem sido a construção de uma verdadeira arquitetura de legitimação e impunidade, que tem priorizado os direitos dos investidores sobre os direitos humanos, ou seja, sobre os direitos dos povos. Esse privilégio sem precedentes, a garantia de que os direitos das corporações serão respeitados sem levar em conta os efeitos de suas operações, é um dos pilares sobre os quais se baseia o “capitalismo extremo”. É parte da fundação do hipertrofiado poder corporativo – a Lex Mercatoria – que reina no mundo de hoje [9]. É sobre o princípio da primazia da norma corporativa que poderia tratar o tratado sobre a regulação das TNCs que a ONU está formulando. Ao propor que os direitos humanos sejam colocados em seu legítimo lugar, acima de qualquer outra norma da lei internacional [10], esse tratado poderá tornar ilegais as arbitrariedades atuais permitidas pelos acordos de comércio e investimento internacional, e identificar certas operações corporativas como crimes internacionais.
2. Cortar a ligação entre poder econômico e democracia
A crescente assimetria econômica entre corporações e Estados, e entre a elite dos negócios corporativos e os outros cidadãos, hoje mais extremos do que em qualquer outro tempo da história recente, é outra característica que define o capitalismo contemporâneo. Essa assimetria leva a sua expressão política, a “privatização da democracia”, e é perpetuada por ela. Mecanismos de captura corporativa tais como organizações lobistas, portas giratórias entre corporações e governos, financiamento de campanhas eleitorais e outros canais legais e ilegais, bem como corrupção operando nos níveis executivo, legislativo e judiciário das democracias contemporâneas, transformam os maiores “bens comuns” da sociedade em um mecanismo para beneficiar uns poucos. Susan George se refere a isso como poder corporativo ilegítimo e irresponsável e explica que “grupos de empresas de, digamos, Estados Unidos e Europa reúnem-se para chegar a resultados que entendem ser do seu interesse coletivo. “Chear a resultados” inclui resultados políticos, e a capacidade de arrancá-los dos governos está crescendo inapelavelmente. Isso, para mim, implica uma séria ruptura da democracia” [11].
A privatização da democracia coopta instituições criadas para o bem comum e o interesse público, transformando-as em instrumentos para garantir e aumentar os interesses privados daqueles que assumem o controle. Uma plutocracia direta ou indireta, mais e mais escandalosa, exclui a maioria das pessoas e produz nelas a apatia e desencantamento crescente com a “democracia”. Vozes autoritárias e fascistas (de Trump a Marine Le Pen) começaram a aparecer no palco global e são ecoadas no debate público e representadas em vários parlamentos. Romper o elo entre poder econômico e instituições democráticas é um dos objetivos do trabalho no tratado da ONU. Isso será essencial, se os movimentos populares quiserem conquistar a soberania dos povos, ou, como colocou W. Robinson, avançar no caminho da “redistribuição poder”.[13]
A captura corporativa está internacionalmente reproduzida nas instituições da chamada “governança global” – um eufemismo que esconde a natureza antidemocrática do sistema internacional manifesto na OMC, FMI e Banco Mundial.
Essas instituições estão totalmente capturadas pelos atuais interesses econômicos das corporações que, hoje, ditam suas agendas e o financiamento de seus programas internacionais. Essa tendência global manifesta-se na transferência da governança, das “áreas de conflito político” nos espaços intergovernamentais para espaços “multi-stakeholder” (multi-investidores, acionistas, partes interessadas). Eles são fortemente influenciados, quando não dirigidos, pelos interesses do setor corporativo. Essa tendência vem sendo agressivamente promovida pelo Fórum Econômico Mundial através de sua política de “Global Re-design Initiative (Iniciativa de Re-desenho Global, GRI)”, que promove a governança “multi-stakeholder” como sua opção preferencial. Esta não é uma estratégia ad hoc – ela é na verdade uma das principais estratégias promovidas pela classe de Davos, as elites econômicas globais, em resposta à crise financeira de 2008 e outras crises relacionadas a ela.[13]
A abordagem multi-stakeholder já está bem avançada, especialmente em relação ao nexo comida, nutrição e saúde – e um exemplo é a iniciativa SUN (Scale Up Nutrition, ou Nutrição Aumentada), que reúne uma significativa concentração de corporações, e uma agenda pautada pelo setor privado. Além disso, esta tendência exclui aqueles que não concordam, e ignora os espaços intergovernamentais de políticas alimentares e nutricionais legitimamente estabelecidos, tais como o CFS, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a FAO.[14]
3. Acabar com a festa financeira
Uma das máquinas centrais do capitalismo são hoje as finanças, a dimensão mais globalizada da economia internacional. É bem sabido que o setor financeiro domina o capital produtivo e que há bancos e fundos de investimento de longe mais poderosos do que muitos Estados membros da ONU. O sistema financeiro impõe uma lógica do lucro imediato, que “seleciona naturalmente” os negócios mais lucrativos, gerando padronizações de todos os tipos, extinguindo a diversidade (cultural, gastronômica etc.) e despersonalizando decisões para evitar qualquer conexão com e responsabilidade com relação às pessoas atingidas.
Como aponta Sivanandan, operadores-chaves em mega escândalos bancários rejeitam responsabilidade, como quando Bob Diamond, executivo-chefe do Banco Barclay no período de manipulação da taxa Libor de juros, transferiu responsabilidades para os “níveis inferiores” e pediu uma moratória às desculpas dos banqueiros por seu papel na crise financeira.[15]
O poder das corporações financeiras está baseado em dois elementos chave. Primeiro, a extrema desregulamentação, que permitiu a invenção de infinitos “produtos” financeiros, multiplicando as oportunidades de lucro enquanto eleva o risco geral para o sistema (como revelado pela crise financeira de 2008). Segundo, a habilidade para a evadir impostos e facilitar a evasão fiscal de terceiros (mesmo que por meio de práticas criminosas, como lavagem de dinheiro). Em muitos países, nenhum imposto é cobrado em transações financeiras ou operações na Bolsa, ou são cobrados tributos proporcionais mínimos sobre os lucros gerados pela especulação. Paraísos fiscais e acordos para evitar dupla tributação tê servido, junto com soluções tecnológicas, como mecanismos centrais para facilitar o movimento de capitais pelo planeta. Eles adquiriram liberdade quase total para evitar impostos, esconder riqueza, explorar trabalhadores, praticar “evasão salarial”[16] e especular com os bens de países vulneráveis a financiamentos internacionais via pagamento de juros exorbitantes e dívida extorsiva.
De acordo com Walden Bello, foi preciso que a crise financeira global desse outro golpe no neoliberalismo “ao varrer a Teoria da Escolha Racional e a Hipótese dos Mercados Eficientes, que haviam sido a vanguarda da globalização das finanças”. [17] Contudo, até o presente as corporações bancárias conseguiram resistir a uma séria restruturação e a uma regulação substantiva.
Se queremos que as instituições financeiras trabalhem em benefício de toda a população, é urgente insistir na redução do poder estrutural do establishment financeiro no quadro do poder corporativo global, promovendo, entre outras soluções, regulação financeira estrita, abolindo os paraísos fiscais, eliminando acordos que eliminam a dupla taxação e limitando o tamanho dos bancos e fundos.
4. Frear a mercantilização do conhecimento
As patentes industriais – particularmente as farmacêuticas – são uma estratégia favorita do capitalismo global para a apropriação selvagem de enormes fatias da riqueza produzida pelos seres humanos. As corporações, assumiram, especialmente nos últimos 40 anos, o papel de estabelecer uma estrutura de leis nacionais e internacionais que arantem o controle de patentes sobre descobertas científicas e tecnológicas. Os que detêm as patentes beneficiam-se, em geral, de muitos anos de uso exclusivo. Ou seja, mantêm exclusividade na produção e venda das produtos, a um preço lhes permitirá obter o máximo lucro possível.
A concentração dos Direitos de Propriedade Intelectual e dos regimes de comércio na Organização Mundial do Comércio (OMC) foi primeiramente proposta pelo governo dos EUA, em favor das corporações norte-americanas, sob forte oposição dos governos dos países em desenvolvimento [18].
No contexto deste regime internacional, as corporações que controlam as patentes (que têm seus efeitos expandidos na nova geração de acordos de “livre” comércio) não levam em conta se os preços dos medicamentos. Privam, por exemplo, os pacientes de baixa renda do acesso a tratamentos contra a AIDS ou a Hepatite C. Ritira-se dos camponeses o direito de produzir suas próprias sementes. Evita-se acesso a tecnologias que poderiam contribuir para enfrentar problemas como a mudança climática e a fome.
O regime das patentes e a mercantilização do conhecimento são hoje a base para a acumulação de capital em muitos setores econômicos: comunicações, energia, saúde, medicamentos, alimentação, transporte e tantos outros. Interromper este processo contribuiria para desmantelar o poder das corporações. Também audaria a promover o bem-estar das sociedades. Se o regime de patenes das corporações desempenhou, em algum momento do passado um papel na aceleração do desenvolvimento tecnológico, isso deixou de ocorrer [19]. Ao contrário: de maneira geral, os Estados investem, por meio das instituições públicas, muito mais pesadamente que o setor privado, gerando as condições que tornam o progresso tecnológico possível. Não há razões válidas para transformar de maneira tão absurda os recursos públicos em lucros privados.
5. Cortar o acesso das corporações aos bens comuns da natureza
Estabelecer definitivamente o caráter público da natureza e administrar seu uso em favor do bem comum, cortando o acesso restrito das corporações à mineração, energia e produção de alimentos parece ser um objetivo óbvio. No entanto, na prática, os artifícios de propaganda e coptação do senso comum pelos interesses econômicos transformam tal mete em algo pelo qual somos obrigados a lutar.
Um mundo sob risco iminente de desastres climáticos e ambientais exige decisões urgentes para acabar com o extrativismo selvagem que se encontra por trás de tantas crises ambientais – a devastação dos oceanos, mares e rios; o envenenamento dos solos e das florestas; a corrosão da biodiversidade. A solução para estas crises não está nas mãos daqueles que desprezam a lógica dos bens comuns e perseguem a do lucro. Thomas Berry propôs “estruturas leais e decisões políticas conscientes de que o caminho para o futuro não passa pelo desenvolvimento industrial incessante [20]. Como tantos movimentos pela justiça climática enfatizam, as soluções de mercado são falsas e não pdem oferecer uma resposta para a devastação do ambiente.
Só uma proteção da natureza pública e participativa pode reverter a marcha rumo ao colapso em que a humanidade se encontra. Só ela pode estabelece um limite real, por exemplo, à ação das companhias petrolíferas e às corporações do agronegócio e da mineração – que acumularam podere econômico e político para bloquear os avanços civilizacinais indispensáveis para a sobrevivência de nossa espécie. Esta visão – desenvolvida na Declaração de Marrakesh construída pela Via Campesinas e outros movimentos sociais durante a COP 22 – percebe que “a implantação de alternativas, de outras soluções voltadas a acabar com a lógica arrogante do capitalismo, só pode tornar-se real se articular lutas nacionais e globais, até que o balanço de poder penda em favor dos povos [21].
Acabar om a captura da natureza pode ser outro glope fatal contra o poder das corporações.
Ao menos cinco ações: táticas e estratégia para uma segunda rodada do altermundismo
Há sinais de que os povos do mundo estão, cada vez mais, exasperados com as violações praticadas pelo poder corporativo, a impunidade e a arrogáncia com a qual os instrumentos democráticos foram capturados. O desafio desta segunda onda de altermundismo é organizar e fazer convergir estratégicas capazes de impor ao menos estes golpes contra o poder das corporações; é, além disso, passar das resistências à prática de alternativas. É significativo que o caminho para esta ação esteja aberto com o processo do Tratado sobre as Corporações Transnacionais, no Comitê de Direitos Humanos da ONU. Trata-se da maior oportunidade que temos hoje para dar um passo na direção de um mundo justo e sustentável.
* Brid Brennan e Gonzalo Berron são membros da equipe do projeto sobre Poder das Corporações no Transnationa Institute (TNI).
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1] O blog de Michael Moore, (2016) explica por que a cólera de tantos contra a ruptura do sistema político resultou em milhões de votos para Trump http://michaelmoore.com/trumpwillwin/
[2] Emir Sader (2011) The New Mole: Paths of the Latin American Left , Verso New Delhi – “a direita recuperou sua capacidade de contra-ofernsiva e de sabotar a rejeição dos governos progressistas ao ‘livre’ comércio e a outras políticas do neoliberalismo” p.147
[3] Gonzalo Berrón e Lus González, “A privatização da Democracia. Um catálogo da captura corporativa no Brasil”, Vigência!, São Paulo, 2016 Pg. 10. http://www.vigencia.org/catalogo/vigencia-2016/
Ver também referência a Vitali S, Glattfelder, JB, Battiston, S (2011) The Network of Global Corporate Control
[8] Open Ended Intergovernmental Working Group (OEIGWG) foi designado e mandatado em 24/6/2014, em votação do Comitê de Direitos Humanos da ONU (UNHRC), para desenvolver um instrumento legal de cumprimento obrigatório sobre Corporações Transnacionais e outras empresas, em relação aos Direitos Humanos http://www.ohchr.org/EN/HRBodies/HRC/WGTransCorp/Pages/IGWGOnTNC.aspx
[9] Ver o Capítulo 1: The International Peoples Treaty on the control of Transnational Corporations http://www.stopcorporateimpunity.org/wp-content/uploads/2016/11/PeoplesT…
[10] Maurice De Zayas (2016) Report of the Independent Expert on the promotion of a democratic and equitable international order – see Chapter IV-Primacy of the International Human Rights Treaty regime
[11] Susan George (2014) The State of Corporations – The rise of illegitimate power and the threat to democracy https://www.tni.org/sites/www.tni.org/files/download/state_of_corporatio…
[12] Ibid Robinson
[13] Ver, de Harris Gleckman “Multi-stakeholderism: a corporate push for a new form of global governance ” 2016 https://www.tni.org/en/publication/multi-stakeholderism-a-corporate-push-for-a-new-form-of-global-governance
[15] Sivanandan, A (2013) The market state vs the good society, Race and Class Institute of Race Relations, Vol.54(3): 1-9 London http://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1177/0306396812464009
[16] O relatório “The Bermuda Connection: Profit Shifting, Inequality, Unaffordability at Lonmin 1999-2012″ (Forslund, Dick AIDC, 2015) expõe o papel da companhia mineradora Lonmin na evasão de salários, ou seja, mostra como a companhia deixou de responder às reivindicações salariais dos mineiros alegando problemas econômicos que na verdade serviram de pretexto para transferências ilegais de lucros ao exterior. http://aidc.org.za/download/Illicit-capital-flows/BermudaLonmin04low.pdf
[17] Walden Belo (2016) Revisiting the Lessons of the Battle of Seattle and its aftermath
[18] C.M. Correa (2016) Innovation and the Global Expansion of Intellectual Propoerty Rights: Unfulfilled Promises southcentre.int/wp-content/uploads/2016/08/RP70_Innovation-and-IP-Unfulfilled-Promises_EN.pdf
[19] Ibid p. 26 Correa cita pesquisas que apontam os problemas provodados pelo regime de propriedade intelectual nos países desenvolvidos. Ela argumenta que “se a propriedade intelectual não funciona nos países desenvolvidos, ao contrário do que é geralmente aleado por seus defensores, a situação só pode ser pior nos países em desenvolvimento, que têm estruturas frágeis de Ciência e Tecnologia, escassez de capitais de risco e perfis de produção não sofisticados. Eses países estão hoje pagando o preço de um sistema que serve primariamene com plataforma para extrair rendas de privilégio (na forma de pagamentos de royalties e preços altos) e faz muito pouco para promover a inovação local e o desenvolvimento econômico”.
[20] Berry, Thomas In Introduction, Cullinan Cormac Wild Law, (2001) 2nd edition Siber Ink, Capetown
[21] Ver a Declaração de Marrakesh contra a Cúpula das Falsas Soluções e por um Futuro Justo e sustentável para Todos os Povos, novembro de 2016. https://viacampesina.org/en/index.php/actions-and-events-mainmenu-26/-climate-change-and-agrofuels-mainmenu-75/2213-marrakech-declaration-against-the-summit-of-false-solutions