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terça-feira, 4 de junho de 2019

GOZO, por ALEXANDRE MEIRA (POESIA)

Santa Inquisição da Igreja Católica



A arte morre.

O beijo morre.

Também
a libido,
que desencarne a pele de vez,
e só sobre
a dor da alma,
nua,
sob o franzido da tez.

O fogo já morreu de frio,

Fez o mar em calma
arredia, subterrânea, 
da menina mansa no
cio.

Calada pela mania
de matar aos poucos.

À golpes de cajado
do Pai,
da moral, 
epifania fabianista,
dos roucos,
moucos,
cegos e surdos
do gozo,
obscurantistas,
de só chegarem ao orgasmo, 
quando decepam
fora o mal,
pelo medo dos
leves espasmos,
incontroláveis,
primais,
sensíveis, 
quando tocam pela primeira vez
o próprio pau.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

CIRCADIANO (Poesia), por Màlia Morgado.

É lento o despertar.

Névoa nas vistas, cantos de resina.

Procrastinação em lençóis de incontáveis fios

De algodão … ou aranha.

Ah, é bom esticar na cama

Como um gato.

Mas quando julgamos ainda ser manhã

Vem a tarde e nos expõe, nus,

Na luz brutal, opressora. Nada a esconder.

Não tente. Deixe cair os braços.

O que queres tampar? Já está na cara.

E, assim que eles penderem como cachos e soltares o cabelo,

Virá surpreso o entardecer. Tudo assim fica mais belo: um jarro azul-gris

Derrama filamentos de ouro, sobre todos nós

E seduz. Goza o momento.

É breve, quando tocamos, fecha.

Lembra das dormideiras? Então…

Tem a fugacidade das tuas pálpebras.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

BORDAS, por Mália Morgado (Poema)

Nunca acredite em lobos.
 
Parecem sorrir quando rosnam,
 
E olhei seus dentes de um branco Lunar, hipnótico. 

Frio. 

A superfície seca até As tripas.
 
E quando veio o eclipse tudo Escureceu
 
E se tornou viscoso como óleo bruto.
 
Esperei no canal espesso a barca de Caronte,
 
Com vestes de Ofélia,
 
Mas sem nenúfar, pois não tenho, há tempos, Inocência.
 
Entrei e navegamos em silêncio ,
 
O barulho dos remos sôfregos a entrecortar a mudez,
 
O rio longo a fundir-se com o Horizonte.
 
Isto é a eternidade.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

LÚDICA III, por Mália Morgado (Poema)

Imagem relacionada

Eu deitei na areia,

Querendo contar nuvens.

Que besteira,

Era o entardecer e não se conta
nada,

Nada.

Um globo de Turner em aquarela,

Sem bordas,

Por que me limitar na contagem?

Eu também não quero mais divisas,

Eu sou o fogo, a lavanda, o chumbo.

E ao mesmo tempo eu sou
o que sempre fui. Ou mais.

Quero estar e obliterar.

Uma silhueta a mais 

Entre homens difusos como sonhos.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

FETO, por ALEXANDRE MEIRA (POESIA).



Manhã escura hoje

prematuramente sóbria

pra quem escreve

como quem conta piadas.

Mas eu talho sempre




as mesmas anedotas

mal acabadas,

recém abreviadas,

venereamente inoculadas

no útero do primeiro raio

de sol.



Não houve parto

e a grávida acordou com frio

coberta pela nebulosa úmida

tal qual saliva virou véu

na minha janela,

Ela vem e

implora piadas

com um assobio,

minuano grávido de sorriso

ora aborto condensado no vidro

do meu cativeiro vil de auroras.


Além do torpe sadismo

alheio a dor do parto,


o horizonte nega seu firmamento

em forma de tormenta

precipitando cristais de gelo.


T
orrente aurora,

chia-me baixo como se risse

de mais uma piada ruim

até embaçar de vez esse viveiro,

negando luz ao prisioneiro,

e esfriar o peito materno

carente de sol como acácia.


Congela assim este feto

como imagem sem sentido

numa janela escura, 

         tal frasco de vidro
   
         que é a poesia.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

SYLVIA (Poema), por MÁLIA PORGADO.

Alma de anêmona:

A sensibilidade da mudança das marés,
Uma dança onde os braços
Transformam-se em bailarina,
Galhos raivosos em uma ventania,
Ou se erguem aos céus gritando porquês.
Alma de sereia:
Ouro e nácar como Marilyn em um biquíni branco,
American Sweetheart
Para quem tem olhos de não enxergar.
Alma de fera:
Um beijo em uma festa,
O veludo das línguas, a entrada tenra
Apenas a um arfar de dentes que tem fome de lábios.
Alma-Ariel,
Carne viva dentro de cascos duros.
Saltou no ar,
Onde nada havia:
Precisava sabê-lo.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

SOBRADO ALTO, NÚMERO 20, por MÁLIA MORGADO.







A sua calma e mansidão ao meu encontro, passos lentos e cadenciados, como se Fred Astaire caminhasse em direção à Ginger para pegá-la pela mão e dançar Cheek to Cheek. Sim, eu sei que você pode ser rude. Puxa a base do meu cabelo com os dentes e traz para me lamber dentro da orelha e beijar e morder de novo meu pescoço. Mas hábil, nunca me deixou marcas, embora às vezes eu as procure em vão, sou dessas que tem prazer em ver algumas dessas reminiscências temporárias do desejo. Tudo tem uma cadência tão natural e eu entonteço - impossível não sorrir meio enlevada - e corto em algum momento o compasso, porque eu não sei bailar leve na cama, eu me movo ora como cobra, sibilando devagar, e deslizando em ondas, ora como um lobo com fome olhando a carne ainda viva, uivando, babando, mostrando os dentes. Quando tudo acaba vem a paz. Primeiro é como deitar em uma espécie de lago morno, meus músculos relaxam na tua pele macia, da cor da camurça, ai, aquele cheiro teu que é meu ópio. Mas vamos embora e teus passos satisfeitos pela rua me incomodam. Eu sei que você vai andar o dia inteiro com paz. Não. Não. Não. Confesso que te queria na angústia, sem saber bem para onde ir, errando ruas e trocando casas. Queria que você se atordoasse agora sem o apoio dos meus quadris, tropeçando em lembranças e me procurando em vão, por onde você saberia que jamais iria passar. A noite te assolaria como um peso que cai sabe-se-lá-de-onde, sempre no peito, sempre segurando a respiração como um punho entre as costelas. Mas não. Você dança suave e anda leve nessa calçada da tua maldita paz. Essa paz que me inclui como um sorrisinho no canto da tua boca, step-tap. Queria un solo tango.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

22.9, por MÁLIA MORGADO (Poema)




Os brotos rompem,

Estouram como milho no fogo,

Não se contém a Natureza

Por um só instante.

O que se fez dormente,

Explode em bombas de matizes e sons

E sibilos e pios e agudos imponentes.

É preciso antes cair e depois gestar

Até que se rasguem invólucros

Com a ânsia agonizante de nascer,

E ascender ao Azul Profundo,

Hipnótico como o miolo da chama,

Estrelas terrenas selvagens,

Refletem no painel celeste

Brilho saído da Carne,

Suor e pelos

Gosma crua.

Luzidios

Como lava.


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

CRIADO-MUDO, por ALEXANDRE MEIRA (POEMA)


 



Ouvi de você:

Cubra espaços,

preencha vazios.



Então, fui.

Haja veneno letal,

escorrida gota,

corroída parede,

derrubada coluna,

toda forma derretida

foi cavada trilha

de seu criado-mudo,

até cair.

Segui corrente

ígnea.

Destruí a hemácia

vadia.

Matei o leucócito

no cio.



Cada molécula,

briga o veneno,

             calcina.

Deixou pasta

que não passa do ralo,

acumulado no fundo,

não vencido gargalo.

Varrido tapete abaixo,

à tapa e cassete:

Fiquei.



Aí, sim,

depois de seco,

sei que

poderás contar comigo,

             cobrir o buraco,

reboco de parede,

calço de cama quebrada,

livro que nunca leu.


Até morrer duas vezes 

na sua mesa de cabeceira:

Duendes,

crucifixo,

e eu,

assim fala o Feng Shui.



Só assim descansaremos em paz,

ao observarmos tudo que jaz,

até certo dia,
em que hei de amolecer,

virar novo veneno,

violado,

vazio,

voraz,

e vermelho.

Hei de sangrar sempre

ao ouvir de você,
pra descer rápido,

ácido escorrido,

cavar,

corroer,

derrubar,

e cobrir 

qualquer espaço vago,

que seja,

do seu ego.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

HOMEM-PAREDE, por ALEXANDRE MEIRA (Poema)



Quem é você Homem-Parede,
que sob estampidos nega tua história,
marchando no caos e alimentando gritos,
cuspindo medo e balas de borracha?

Quem é você que brinca de morte
e liberta orgulhoso os monstros de si?
Que pelo silêncio corta as línguas!
Que pela censura martela os dedos!

Por que não tira logo, moleque,
essa toga, que te faz sem juízo?
Ditando regras se nunca as teve,
brincando de Deus, no Juízo Final!

Já que o terror te saliva,
ou o golpe, sem remorso,
sacia de vez a sede com lágrima,
o choro de pavor da "libertina".

Pois és libertária, sim, a menina do povo,
já mulher parida de alma escarlate,
que briga por teus cegos olhos,
e o olhar de quem nem tem sorte.

Mas esbarra em você 
inocente Leviatã,
cujo cabresto não se vê,
de tua alma charlatã!

Pois aquele que te faz filho
bastardo, pra morrer na luta,
adora te ver felar, 
e tu felas!
Filho da puta!

Te faz de menina sem alma escarlate,
esse fascio vazio que não amedronta.  
Vai, sufoca a criança com o gás
de sua inexorável lacrimogênese,
até apodrecer tua mão covarde 
nascida para erguer,
só por erguer,
a merda de um cassetete.







quarta-feira, 19 de julho de 2017

CORAÇÃO PÚRPURA, por Mália Morgado (Poema)

 
Eu carrego esse coração púrpura no peito

Íris de boca aberta com um centro

De leão


Ou como


Bico de pássaro


- dizem que todos são filhos de Deus .


Um manto


Vestal


Mínimas vezes.


Uma aura mística


Intermitente


Como vaga-lumes na moita ou


Fogo-fátuo.


Mas


Esse coração é violáceo


Ora violento


Ora violeta


Veludo vivo nos teus


Ásperos dedos

segunda-feira, 26 de junho de 2017

1989, por MÁLIA MORGADO (Poema).

 Resultado de imagem para bambuzal dobra
A criança, como um bambu tenro,
Vergou em sua extensão máxima,
Flexível, mas acossada pelo vento.
Diria-se que foi um ballet de rara delicadeza
Ou apenas natural
Já que a natureza do bambu é vergar
- seria?-
E a força maior é soprar, soprar
Um grande pulmão de lobo,
inclemente,
A bradar seu lugar na pirâmide 
Alimentar.

Cordeiros balem, com pescoços 
Expostos.
Árvores jovens vergam e, sim, 
Retornam.

Crescem tocando o chão e se 
Reerguendo ao céu
(É desta vez que quebrará?)
As microfissuras, ah, esses mosaicos invisíveis.
Histórias em braile...Mentes cegas se recusam a ler.

terça-feira, 13 de junho de 2017

OVELHAS, por ALEXANDRE MEIRA (Poema).


 

Dessa vez não recitarei

as mesmas cantilenas ao pastor

nem deitarei os erros ao abate

como ovelhas corridas à toque de sino



Dessa vez, não.



Quem mais gritaria pelo corpo das putas?

ou as tangeria sob à luz de becos maculados?


Quem seria Savonarola arrependido

por não ter gozado na alcova

da arte nascida do corpo oprimido?


Fazer queimar quem ateia o fogo

é para quem quer fazer pura 
a água que já nasce limpa.



Quem negaria às ovelhas que nossa alma é feita de sangue?



Até que assolados por todas as memórias

ouvirão o grito de horror da nua intimidade,

pois o fio da navalha sempre gelará o rebanho

que morrerá aos berros por ter de morrer sempre.



Saiba que o doutrinador nunca adormece seus próprios sonhos

assim como a doce vestal esfrega o lençol entre as pernas.



Cansei de servir ao escapulário.

Não que houvesse mágoa,

mas quero o cordeiro de olhos bem abertos.

Despregado e sem cerimônias,

para que possamos beber uma cerveja.

E colocar em prática nosso eterno plano

de implodir sob chamas

o cadafalso do Campo dei Fiori.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

ÀS VEZES A DESPEDIDA, por Mália Morgado (Poema).


Às vezes a despedida

Não acontece na farsa da chuva leve,

Com pingos escorrendo, tragicômicos, na vidraça.

Ela vem na nudez do meio-dia,

Como um golpe de facão, a cintilar,

À vista de todos, numa segunda-feira banal,

Com cem mil testemunhas cegas, ensimesmadas,

Pisoteando distraídas esse corpo sem corpo,

Nas solas incontáveis, um resto de eu e você

Se expande pelas ruas

Até não nos reconhecermos,

Até degradar, até transmutar,

Elevando -se, átomo a átomo,

Partículas de ouro a contraluz,

Retornando ao Sol.

Editado em 18/04/2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

MIOPIA, por ALEXANDRE MEIRA (Poema)









Entre nós há

o reflexo,


Um fino eixo de simetria,

um silencio entre


o torpe falar alto sublime


à gargalhada na agonia.







O rotineiro,


do perene quase

ao quase sempre o

pouco,

               jazido antes de muito.




Ainda vê o coxo que anda?


Ou o mudo teima em falar?




Nunca haverá


ocaso na aurora,


ainda que o herói tema o tempo,


nada resiste a força dos séculos 

sobre o agora.






Aqui só há milésimos 

entre a flor e o fruto

há no meio,

o som quase bruto,

polido ora se existisse,

            se ao míope ou morto não fosse oculto.



Do saber ao sabor

também há o amargo envelhecer

que estraga a saliva primal da ignorância

e nega o prato cheio da hora de comer.






E o sarcasmo é


não ser piada,






não ouvir riso ou choro,


quando a sede doente


de quem nunca bebeu


da nascente,





fazer brotar nas rugas


justo


a lágrima.




                  Pergunte ao velho

Porque chamam de pura 

a água que morre no chão,

e não a que inunda os olhos

na epifania?


segunda-feira, 13 de março de 2017

ENTRIDENTES, por Malia Morgado (Poema)








        O diástema
Um beco,
A entrada por onde parei,
Por engano,
E fiquei, por tédio,
Ou encanto
(minto não saber a resposta)
Ali, uma porta.
Austera, densa, quatrocentona,
O chão de linóleo a brilhar,
Vítreo,
Como o olho enganoso da Fera.
Nas paredes, tuas faces cotidianas
Mal sentiram sua ausência.
Não notaram as fitas puídas
Das velhas medalhas,
Ah, velho capitão do mar,
Antigo herói polindo glórias-relíquias.
O diástema
Um portal,
Um arco de pedra marinha, onde sentei
Ignorando tuas molduras, teus simulacros,
Por raiva
Por gana
Ulisses, eu cantei,
Eu cantei,
Ulisses se afogue,
Eu não ligo mais, que se dane.

domingo, 12 de março de 2017

PRETO VELHO, por ALEXANDRE MEIRA (Poema)




Um minuto antes do fim

meu avô disse que sim

e o preto velho encantado

finalmente entrou na roda.



E me riu pisando firme

qual mateiro destemido

dando de lado sorrateiro,

mas nunca dado como vencido



A poeira levantou dançarina

naquele bambuzal arredio.

Gingando-se de rei engonçado

saudou

enquanto a grita das velhas 

fazia das aves um transe cediço,

cercando o fogo num assobio



A palma falou tão alto

quando o velho alquebrado

deu a mão de rei

ao santeiro com mãos de menino



Daí a poeira dançou nos pés castiços

eternos tal qual arvore seca

medrando a criança mestiça,

fez dela pra sempre o eixo da Terra


Daquela água pura de vitória régia

sob o encanto da velha harpia

Chamou para o fogo, e ele foi.

“Sem medo garoto!”



O rosto crispado eleva um

Okê Arô ao velho descalço

com rosto de pedra

olhos de fogo

alma de Luz



Até que do nada

Eis alma inaugurada

Quando a poeira chovia

sob a criança lavada de fogo

O mundo rodado infinito

pelo som da harpia

do nada

acabou.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

SOB SCORPIUS, por Mália Morgado (Poema).



Sopra Antares um véu diáfano, infravermelho,

Emanações de antigos mistérios, destitui juízos,

Rói uma passagem lenta entre os homens e a noite plena.

Os cães e os selvagens

Nas casas e nas ruas

Uivam,

Uivam,

Orelhas em pé, arrepios.

As pessoas dormem

Ou estão contentes

Com a cegueira brilhante do plasma.

Dorme.

Dorme, Bina, Biel, Bibi.

Dorme, que ignorar é ainda possível.

Dorme com o sorriso suave da esperança,

Mas, na mão debaixo do travesseiro,

Segura nos teus dedos curtos uma lâmina,

Eu vi no escuro algumas sombras ladinas.

Sonha, que sonhos ainda não vigiam.