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terça-feira, 14 de maio de 2019

Xadrez da ultradireita e o pensamento militar brasileiro, por Luis Nassif.


A única dúvida que o trabalho deixa é sobre a real abrangência desse pensamento junto aos estamentos militares. Com exceção do General Villas Boas, as declarações são de militares da reserva e as posições são de Clubes Militares.

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Peça 1 – a irracionalidade como ideologia

Confesso que a primeira vez que ouvi Arnaldo Jabor falar em “comunismo viral”, julguei que fosse apenas mais um roteiro teatral para atender à demanda da mídia por cronistas vociferantes. Ele citava Jean Baudrillard e voltaria a citar inúmeras vezes. Segundo Baudrillard, “o comunismo, hoje desintegrado, tornou-se viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não através da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas através do seu modelo de desfuncionamento e da desestruturação da vida social” – vide o novo eixo do mal da América Latina.
Eixo do mal, ideologia viral invadindo os cérebros das pessoas, esse tipo de discurso pirado, profundamente anacrônico, no entanto, começou a ser exercitado por outros cronistas do ódio, alguns se espelhando claramente em Olavo de Carvalho.
Um paper para discussão, do professor Eduardo Costa Pinto, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), traz algumas luzes sobre as ideias que ajudaram a moldar a nova face do anticomunismo no Exército: a luta contra o marxismo cultural, do qual o principal expoente foi o General Sérgio Augusto de Avelar Coutinho, falecido em 2011.
A principal obra do general Sérgio é “Revolução Gramcista no Ocidente, de 2002 e reeditado pela Biblioteca do Exército em 2010.

Peça 2 – as raízes da nova direita

Segundo o autor, as influências centrais, tanto do general Coutinho, como de Olavo de Carvalho, foi o pensamento  neoconservador  norte-americano  dos  anos  1980  e  1990,  “mais especificamente  o  ramo  denominado  “paleoconsertives” com raízes fincadas no coletivismo de direita americana da década de 1920 e 1930, de oposição ao New Deal”.
Sustentava-se no tripé pequeno governo (descentralização das funções de governo articulado com a auto governança/comunitarismo), anticomunismo e valores tradicionais (civilização ocidental e judaico-cristã).
Esse conservadorismo ressurge agora no movimento denominado de “alt-right”, com ênfase ainda maior na guerra cultural, “pois  a  cultura  e  a moralidade  americana  estariam  sendo  destruídas”. Os instrumento de destruição seriam o multiculturalismo e o “marxismo cultural” sendo manobrado por acadêmicos, militantes, jornalistas.
Esses argumentos são desenvolvidos após o fim da União Soviética, como forma de manter alimentada a indústria do anticomunismo.
Não foi por coincidência, alguns dos ideólogos eram ligados ao pensamento militar. Foi o caso de William Lind, que, em 1989, foi o primeiro a cunhar o termo de guerra de 4a geração, que depois seria rebatizada de ““guerra híbrida”, cujo objetivo era “obter  vantagens  com  as mudanças  políticas,  sociais,  econômica  e  tecnológica  em  virtude  do  aumento  da complexidade com adversários não estatais (terroristas, grupos revolucionários, etc.)”.
A grande ameaça, segundo Lind, seria a ideologia do multiculturalismo, “no qual o confronto ideológico-militar se dá entre os Estados Unidos da América (e de Israel) de um lado e o MCI, Movimento Comunista Internacional  (e os países islâmicos) de outro”.

Peça 3 – a ultradireita brasileira

É por esses mares que singra o barco do general Coutinho. De acordo com Costa Pinto, para o Gal. Coutinho os socialistas e comunistas (internacionais e nacionais) estariam infiltrados no discurso do politicamente correto:
1) nos partidos como FHC (vinculado ao fabianismo que teria como importantes representantes Soros, David Rockefeller,  Bill  Clinton,  entre  outros)  e  como  o  Lula  (articulado  com  Fidel  Castro organizados do Foro de São Paulo);
2) nas ONG´s;
3)  nas escolas e Universidades;
4) nos  meios  de  comunicação;
5)  nas manifestações  artísticas;
6)  nos movimentos  sociais (ambientalistas,  movimento  negro,  LGBT,  MST,  etc..).
Nas palavras de Coutinho “os movimentos alternativos e de minorias são estimulados  ou  mesmo  criados  pelas  organizações  de  esquerda  revolucionária  como componente  auxiliar  da  luta  de  classes  (aprofundamento  das  contradições  internas)  e como  elemento  ativo  da  ‘desconstrução’  da  família  tradicional  e  dos  valores  da civilização ocidental cristã”. ”
No plano internacional, além do apoio das ONGs, se valeriam da própria Organização das Nações Unidas (ONU) para favorecer regimes nacionais de esquerda e movimentos revolucionários em países do Terceiro Mundo.
É em cima dessa barafunda teórica, que o movimento alt-right, e seus sucedâneos tupiniquins, conseguem transmudar movimentos pacíficos, de defesa dos direitos humanos, em ameaças revolucionárias que precisam ser combatidas no plano cultural e com repressão política.

Peça 4 – o Estado como expressão do socialismo

A visão do Estado como um instrumento de opressão – e de fortalecimento do socialismo – vem dos tempos do New Deal. Para o general Coutinho, o Estado de Bem Estar, implementado pela social-democracia, seria uma forma de sociedade socialista.
Segundo Costa Pinto, trata-se de uma adaptação da visão da extrema direita americana sobre os “pequenos governos”. A diferença é que a visão da alt-right americana é da globalização, enquanto a dos Bolsonaro é da defesa da globalização e da abertura comercial.

Peça 5 – Coutinho e o pensamento militar

Costa Pinto vai buscar em entrevistas atuais de militares brasileiros, os indícios da influência do general Coutinho.
Do General Villas Boas
“Nós vivemos um fenômeno no Brasil e também no mundo que é o advento do pensamento do politicamente correto  […]  O  que  está  acontecendo  é  que  ele  [o  politicamente  correto]  está  tão impregnado  na  nossa  sociedade  ele  está  fazendo  com  que  todos  pensem  da  mesma maneira. […]. O pensamento politicamente correto se ideologiza e quando as questões são ideologizadas elas perdem a visão de resultado […]. Então quando mais temos de ambientalismo  mais  dano  ambiental;  […  quanto  mais  essa  preocupação  racial  mais preconceito  temos[…].  Quanto  mais  essa  questão  de  gênero  mais  preconceito homofóbico  vivemos  […]  E  mais  essa  quase  ditadura  do  relativismo  que  nós  estamos experimentando faz com se flexibilize todos os limites”. “
Do General da Reserva Luiz Eduardo Paiva
“Uma coisa é o  Haddad  aqui  em  cima  ou  o  Lula  aqui  em  cima,  mas  quem  dá  a  linha  ideológica perigosíssima do PT está aqui em baixo. É o Zé Dirceu, era o Marco Aurélio Garcia, é o Pomar.  Porque  eles  estão  implementando  no  país  uma  revolução  silenciosa  que  é  a revolução Gramscista, ocupando espaço, mobiliando todo o estado[…]”.  “
Do General Augusto Heleno, atual Ministro do Gabinete de Segurança Institucional:
“Nós beiramos [o socialismo], até tentamos com o Foro de São Paulo, alguns partidos que defendiam as teses socialistas […] Nós estivemos bem próximo disso acontecer, só que faziam uma máscara para fingir que não era, mas o caminho procurado era esse. Tanto é assim que as novas referências durante algum tempo foram Cuba e foram a própria Venezuela […]”.
“(…) Da Intentona de 1935, passando pela luta armada de 1960, até os governos de FHC e do PT, os comunistas e socialistas continuam como o mesmo objetivo: “realizar a revolução socialista”. ”

Peça 6 – o projeto de Nação

Desse modo, segundo Costa Pinto, o projeto de Nação vislumbrado por setores amplos das Forças Armadas, seria pela via dos costumes, da tradição, da identidade, sob ataque comunista. Mas “no plano econômico, a identidade  e  a  nacionalidade  seriam  realizadas  pelo  mercado,  sobretudo pelos capitais estrangeiros (de preferências norte-americanos) que supostamente trariam a modernidade para o país. Seremos altivos na identidade cultural, mas subalternos no plano econômico. ”
No Portal Feb, um dos muitos blogs de militares, o trabalho de Coutinho é equiparado ao de um missionário “que dedica sua vida ao resgate de almas e nações, é porque sua vocação pode levá-lo a pregar como um religioso ou discursar como um filósofo. Mas os poucos que lhes escutam e estudam suas recomendações chegarão à conclusão de que só se salva uma nação quando se estabelece no homem a consciência de sua alma e sua vinculação com o Criador. A construção de uma sociedade sadia está fundamentada na reconciliação do homem com Deus”.
No Ternuma – que junta ex-militares defensores da ação dos porões na ditadura – há os movimentos de aproximação com os blogs de ultradireita que surgiram na época.
“Aproximei-me, então, ainda mais do Gen Coutinho, até porque fiquei responsável por remeter ao Reinado Azevedo um exemplar do livro “A Revolução Gramscista no Ocidente”. A história da maneira pela qual o General decidiu estudar Gramsci, na idade em que muitos de nós mal tem paciência para ler o jornal, dá um pouco da dimensão deste homem”.
A única dúvida que o trabalho deixa é sobre a real abrangência desse pensamento junto aos estamentos militares. Com exceção do General Villas Boas, as declarações são de militares da reserva e as posições são de Clubes Militares.
Pode ser que o autor tenha superdimensionado a influência dos militares de pijama.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

POR DENTRO DA PARANOIA OLAVISTA DO NOVO MINISTRO DA EDUCAÇÃO, ABRAHAM WEINTRAUB, por João Filho.

João Filho
14 de Abril de 2019, 9h19
“OS COMUNISTAS ESTÃO no topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras. Eles são os donos dos jornais. Eles são os donos das grandes empresas. Eles são os donos dos monopólios”. Quem fala uma bobagem dessas jamais poderia estar junto na mesma sentença com a palavra “educação”, mas são frases saídas da boca do novo chefe do Ministério da…Educação.

“Trocaram um pseudo olavete por um verdadeiro olavete”, comentou um sorridente Olavo de Carvalho sobre a troca de ministros do MEC. O guru de araque do bolsonarismo continuará sendo o principal influenciador do ministério que tem o segundo maior orçamento do governo.

Desde antes da posse já estava claro que o obscurantismo tomaria conta do MEC. Bolsonaro chegou a convidar Mozart Ramos, um especialista na área com experiência na administração pública, mas foi obrigado a desconvidar após veto da bancada evangélica. Mozart não representaria bem a chucrice bolsonarista. Vélez então foi o nome indicado por Olavo e, em três meses, destruiu o ministério. Sem nenhuma competência para o cargo, o ex-ministro nada fez a não ser jogar uma crise por semana no colo do governo. A falta de experiência e o excesso de ideologização foram as principais causas para o desastre. E o que fez o presidente para fazer a máquina voltar a andar? Colocou em seu lugar Abraham Weintraub, uma nova marionete de Olavo sem nenhum serviço prestado na área da educação. É tecnicamente impossível haver um nome com experiência no setor que seja olavista. São coisas de naturezas incompatíveis.

O maior problema do MEC hoje se chama Olavo de Carvalho, mas o diagnóstico de Bolsonaro para o desastre da gestão Vélez foi a “falta de gestão”. Weintraub foi escolhido por sua experiência em gestão na área financeira. Foi executivo do Banco Votorantim e membro do comitê da BM&FBovespa. É um especialista em previdência e mercado financeiro. Sua única experiência em educação foi dando aula de Ciências Contábeis. A gestão na área financeira não tem nada a ver com gestão pública da educação de um país. É claro que a experiência em um setor pode ajudar em outro, mas muito pouco. São mundos completamente diferentes.

Apesar dessa pequena vantagem técnica em relação ao ministro anterior, tudo indica que Weintraub irá pisar o pé no acelerador do olavismo. O novo ministro bebe da mesma groselha lisérgica do anterior, com o agravante de ser mais determinado em colocar as loucuras em prática. Ele se vê como um gladiador anti-globalista em uma cruzada ideológica contra o marxismo cultural que lava a cabeça das nossas criancinhas. Algumas falas do “verdadeiro olavete” mostram que essa visão esquizofrênica de mundo continuará norteando a administração do MEC:

“O socialista é a Aids; e o comunista, a doença oportunista”

“Quando um esquerdista chegar para você com o papo ‘nhoim nhoim’, xinga. Faz como o Olavo de Carvalho diz para fazer. E quando você for dialogar, não pode ter premissas racionais”

“Hoje, a América do Sul, e o Brasil em particular, faz parte do espaço vital de uma estratégia clara para a tomada de poder por grupos totalitários socialistas e comunistas. (…) O crack foi introduzido no Brasil de caso pensado. Vejam os arquivos, está na internet!”

Onde sobra ideologia costuma faltar conhecimento. E a falta de conhecimento de Weintraub sobre a área que vai assumir é gritante. No ano passado, ele afirmou que o Brasil investe em educação como os países ricos, mas tem o mesmo resultado dos países pobres. Não é verdade. E nem é preciso ser um especialista na área para saber disso. Basta estar atento ao noticiário. O valor gasto pelo Brasil é menos da metade da média gasta pelos países da OCDE. O investimento por estudante é muito menor do que o de países ricos. O homem que vai comandar o MEC desconhece essa informação básica.

Bom, se o novo ministro não manja nada do setor, seria prudente contratar gente que entende do riscado para trabalhar com ele, não é mesmo? Mas bom senso não é algo que se possa esperar de um discípulo de Olavo. Todos os novos secretários anunciados nunca tiveram um mínimo contato com políticas educacionais. A única secretaria que manteve o titular foi a da Alfabetização, que tem um ex-aluno de Olavo de Carvalho no comando.

A nomeação de Weintraub deixou as universidades federais preocupadas. Nada mais natural. O discurso autoritário do novo ministro é, sim, motivo para apreensão. Nós sabemos muito bem o que pensa um olavista sobre as universidades. Somado a isso, há o histórico recente de perseguição da Polícia Federal às universidades. Como esquecer do caso Cancellier, o reitor da UFSC que foi preso sem provas pela Polícia Federal, destruindo sua reputação e o levando ao suicídio? Mesmo depois de provada a sua inocência, Sérgio Moro, que agora comanda a Polícia Federal, premiou a delegada responsável pelo caso com um cargo no seu ministério. Há motivos de sobra para as universidades federais temerem o governo Bolsonaro.

Nada indica que Weintraub será um parceiro das universidades federais, muito pelo contrário. Ele inclusive já disse que foi perseguido por professores e alunos na universidade federal onde leciona por apoiar Bolsonaro. Como será que os reitores das federais serão tratados por aquele que afirma que todos eles são comunistas? Ele já disse que não se deve debater com esquerdistas, apenas xingar.

O ex-ministro do MEC de Temer, Mendonça, se aconselhava com Mozart Ramos, o ministro que Bolsonaro desconvidou. Um dos conselhos foi evitar conflitos com universidades para que o país não entrasse num clima de greve geral. Um conselho valoroso que Weintraub provavelmente não seguirá, já que acredita que é preciso “vencer o marxismo cultural nas universidades”. E, para um bom olavista, qualquer um que não seja olavista é um agente propagador do marxismo cultural. Não tem como não dar errado.

Durante a cerimônia de posse de Weintraub, Bolsonaro discursou: “Os nossos ministros são como uma corrente que tem que puxar o Brasil pra frente. E não tem ministério mais forte que o elo mais fraco dessa corrente”. A frase não faz o menor sentido e, por isso, define bem a atuação do governo Bolsonaro na área da educação até aqui.

O MEC é provavelmente o ministério mais difícil de administrar. As demandas administrativas da pasta são muito específicas e complexas, além de estar cercada por disputas políticas em vários níveis que precisam ser respeitadas. O caminho que está sendo tomado é ruim. Weintraub não apresentou nada relevante em seu discurso de posse a não ser a ladainha ideológica e as platitudes bolsonaristas de sempre. Não apresentou planos, metas, nada de concreto. A prioridade é o combate ao comunismo. Ele luta contra os mesmos moinhos de vento que atormentavam Vélez, só que com mais fervor e disposição. A coisa pode piorar. Um olavete cheio de iniciativa em posição de poder é uma arma de destruição em massa.

segunda-feira, 25 de março de 2019

O Olavo do mercado, por Luis Felipe Miguel.


A mídia gosta de diferenciar os olavetes e fanáticos religiosos, que formariam a “ala psiquiátrica” do governo, de seu homem no Ministério da Economia. Mas Paulo Guedes não é tão diferente do guru de Richmond, em seu apego a teorias sem fundamento e em sua arrogância e truculência na discussão pública.

Por Luis Felipe Miguel.

Nas eleições do ano passado, diante da inviabilidade eleitoral de seus candidatos, os grupos dominantes do Brasil se viram frente a uma encruzilhada. Podiam reabrir um caminho de negociações com o PT, que lançara um candidato presidencial mais do que palatável, Fernando Haddad, e assinalava com clareza sua disposição para pactuar um lulismo 2.0, adequado às condições adversas do pós-golpe de 2016. Esse caminho implicava restabelecer algum grau de vigência da Carta de 1988 e alguma moderação no frenesi pela destrutiva de direitos e de políticas de proteção social. A outra opção era apoiar um candidato destemperado e despreparado, notabilizado por seu discurso histriônico de apologia à violência e com notórias ligações suspeitas com grupos criminosos. A burguesia, as elites políticas tradicionais, a imprensa e as classes médias não titubearam e escolheram a segunda opção.

Com Bolsonaro na presidência batendo o recorde mundial de vexames por minuto, muitos desses setores estão preferindo guardar distância de seu eleito. Da goiabeira ao golden shower, passando por Queiroz e pelos laranjais, são muitos os motivos para evitar associação com o novo governo, que agora apanha até em editoriais do Estadão. Mesmo o ex-juiz Sérgio Moro, o herói da cruzada para salvar o Brasil do petismo, desmoralizou-se rapidamente. Sobra apenas um pilar do bolsonarismo no poder, o tsar da economia, Paulo Guedes, avalista do apoio do capital ao ex-capitão, até então visto com desconfiança, como um estatista autoritário – o problema, claro, residia no “estatista”, não no “autoritário”.
A cobertura da imprensa é significativa. Guedes é tratado como alguém que sabe o que faz e um dos problemas centrais de Bolsonaro seria não priorizar, na presidência, a defesa das “reformas” prometidas por seu ministro. Mas a competência e a sensatez de Paulo Guedes podem entrar na conta das fake news.

“Paulo Guedes é o arauto de uma forma de fundamentalismo de mercado que bem pode ser descrita como uma espécie de terraplanismo econômico.”

Não se trata só da ignorância absoluta sobre a gestão do ministério, ilustrada pelo episódio da célebre conversa com o então presidente do Senado, Eunício Oliveira, em que Guedes desdenhou a aprovação do orçamento da União dizendo “o orçamento eu faço depois”, ou pela exoneração sumária de todos os funcionários com cargo de confiança que haviam trabalhado nos governos petistas, paralisando as atividades por longo período – não era possível nomear outros para seus lugares, porque até os funcionários que sabiam como fazer as nomeações tinham sido afastados… Nem é apenas a incapacidade de discutir e negociar, com grupos sociais ou com o parlamento, adotando sempre um tom de ameaça.
Mais do que isso, Paulo Guedes é o arauto de uma forma de fundamentalismo de mercado que bem pode ser descrita como uma espécie de terraplanismo econômico. Todas as evidências mostram que a brutal desregulamentação que ele advoga não leva ao crescimento, mas somente à concentração da riqueza e à pauperização da população. A privatização ensandecida de Guedes e de seu assessor Salim Mattar não equilibrará as contas públicas e privará o Estado brasileiro de receitas e de instrumentos de ação. Sua fúria contra o funcionalismo público, que o leva a aventar o fechamento de instituições como o IBGE, só pode ser classificada de irracional: não é possível imaginar um Estado moderno, mesmo mínimo, que se prive dos instrumentos básicos de aferição da situação da sociedade que ele quer comandar.
Guedes gosta de reciclar o velho dito de que a esquerda tem coração e a direita tem cérebro, mas parece que a ele faltam ambos. Ele é imune ao raciocínio lógico, ao aprendizado com a experiência histórica e à realidade factual. A reforma da Previdência, prioridade máxima dele e do capital hoje, serve de exemplo. O modelo pinochetista, que ele deseja implantar no Brasil, é um perfeito case de fracasso – exceto para os especuladores que roubaram a poupança da classe trabalhadora. Mesmo com ajustes que foram feitos para minorar a situação (com intervenção, vejam só, do Estado!), os aposentados recebem em média menos da metade do que lhes havia sido prometido. Mais de 90% deles ganham cerca de metade do salário mínimo. Os jornais noticiam uma onda de suicídios de idosos, o que talvez seja mesmo a solução ideal para Guedes.

“Guedes gosta de reciclar o velho dito de que a esquerda tem coração e a direita tem cérebro, mas parece que a ele faltam ambos.”

A insensibilidade das nossas elites para com a situação da classe trabalhadora é notável e se manifesta com especial virulência no debate sobre a previdência. Guedes não tem o monopólio dela. Rodrigo Maia, por exemplo, interveio para dizer que “todo mundo consegue trabalhar até os 80 anos” (como a expectativa de vida está em 75 anos, percebe-se que muitos vão ter que procurar emprego na condição de almas penadas). Mas essa cegueira de classe, ainda que comum, é indesculpável naqueles que deveriam governar a totalidade dos brasileiros. Para Maia, como para Guedes, aposentadoria é o que se dá à mão de obra tornada inservível e o aposentado não conta como um ser humano que ainda tem uma vida a viver. Para o trabalhador e a trabalhadora, ao contrário, a aposentadoria é a ansiada alforria. O momento em que eles podem alcançar um pouco da liberdade existencial de que os burgueses desfrutam. Para isso, é preciso que tenham duas coisas: alguma tranquilidade material e suficiente saúde.
Essa perspectiva é silenciada sistematicamente no debate brasileiro sobre a reforma da Previdência. Um debate limitado, enviesado, com dogmas que, justamente por serem tão frágeis, não podem sofrer questionamentos. Esses dogmas incluem o enquadramento da questão exclusivamente sob o ângulo contábil e a “bomba relógio” do “indiscutível” desequilíbrio estrutural. Outro dogma é a ideia de que trabalhador existe para trabalhar, isto é, para gerar mais-valor, enquanto tiver um sopro de energia no corpo.
Guedes é, hoje, o repetidor-mor desse discurso dogmático. Seu papel é enunciar certezas e impedir o debate sobre elas. A mídia gosta de diferenciar os olavetes e fanáticos religiosos, que formariam a “ala psiquiátrica” do governo, de seu homem no Ministério da Economia. Mas Paulo Guedes não é tão diferente do guru de Richmond, em seu apego a teorias sem fundamento e em sua arrogância e truculência na discussão pública. Faltam o charuto, o licor de laranja e o tapete com a pele do pobre urso bebê, mas, a seu modo, ele é o Olavo do mercado.
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Acontece hoje, sexta-feira 22 de março, a Mobilização Nacional contra a Reforma da Previdência de Bolsonaro e em defesa da aposentadoria e dos direitos. Manifestação unitária organizada pelas Centrais Sindicais, Frente Povo Sem Medo e Frente Brasil Popular no Brasil todo estão organizadas para ocuparem as ruas. Confira a agenda de atos na sua cidade clicando aqui.

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Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê, que mantém oBlog do Demodê, onde escreve regularmente. Autor, entre outros, de Democracia e representação: territórias em disputa (Editora Unesp, 2014), e, junto com Flávia Biroli, de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014). Colabora com o livro de intervenção O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil (Boitempo, 2018). Seu livro mais recente é Dominação e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Olavo de Carvalho: o ideólogo do conservadorismo paranoico nacional, por Alexandre Andrada.


Ainda que o WhatsApp seja a plataforma preferida na divulgação de notícias falsas e boatos nessas eleições, o YouTube também se tornou um dos principais meios de comunicação dos conservadores brasileiros. Quem analisa o ranking dos vídeos “em alta” da plataforma logo percebe a predominância de figuras da direita nacional. O YouTube, aliás, foi responsável pela fama e eleição de alguns deputados da bancada bolsonarista.
Desses pregadores de ódio e desinformação, destaca-se a figura de Olavo de Carvalho, o principal guru do radicalismo de direita no Brasil há mais de duas décadas. Dos EUA, onde vive, o pensador escreveu livros e deu cursos online que formaram uma geração de brasileiros.
Um de seus vídeos mais recentes, intitulado “O aviso mais importante que já dei aos brasileiros”, é uma rigorosa exposição do estado da arte do antipetismo vesicular, crônico, paranoico.
Segue uma tentativa de análise de seu pensamento, que ajuda a entender não apenas a cabeça de Olavo, mas a cabeça dos entusiastas de Jair Bolsonaro.
Olavo começa seu vídeo falando sobre o atentado sofrido por Bolsonaro. Em suas palavras, um “crime cometido por um membro do PSOL”. Aqui já começa o espetáculo de mentiras e meias verdades, características da retórica radical.
O autor do atentado, ainda que tenha sido filiado ao PSOL até 2014, é notoriamente uma pessoa desequilibrada e que, segundo investigação da própria Polícia Federal, agiu sozinho. Mas ao chamá-lo de “membro do PSOL”, Olavo instiga o ódio pelos agrupamentos de esquerda.
Como a polícia chegou a conclusões pouco excitantes, Olavo faz questão de colocar em dúvida a isenção do delegado responsável, chamando-o de “assessor condecorado pelo governador petista de Minas Gerais”. Ademais, diz que ele foi “proibido de divulgar os dados da investigação” de modo a “não ajudar o Bolsonaro”.
Vê-se aqui a conspiração esquerdista: o autor da facada é “membro do PSOL”, e o delegado é mancomunado com o “governador petista”.

Partidos Comunistas do Brasil

O Capitão Ensandecido reverberou essa mesma teoria em cadeia nacional.
Olavo faz então uma digressão histórica. Para entender o grande domínio da esquerda, diz, é preciso voltar à redemocratização do país.
Segundo sua paranoia, “todos os políticos que emergiram” naquele período e/ou “voltaram do exílio”, “eram esquerdistas”. Sendo que “alguns, profundamente comprometidos com o partido comunista”.
É certo que figuras de esquerda, como Luiz Carlos Prestes e Miguel Arraes, puderam retornar ao Brasil a partir da anistia em 1979.
Mas para Olavo, em verdade, eram “todos esquerdistas”.
A única exceção seria o PFL (Partido da Frente Liberal, atualmente Democratas), que nasceu de um racha no PDS, que deu também origem ao PP (Partido Progressista).
Porém, esse partido seria apenas “nominalmente liberal”, mas que tentava, a todo custo, mostrar que “não era tão direitista assim”, mostrando-se “a favor da causa gay, feminista, abortista”.
O “filósofo”, no alto de sua paranoia, insiste, assim, que a democracia brasileira era 100% comunista.
Aos mais jovens, vale lembrar, o PFL foi o grande partido a se coligar com FHC em 1994, tendo na sua liderança as figuras do catarinense Jorge Bornhausen e o baiano Antônio Carlos Magalhães.
Bornhausen, em 2005, ao falar sobre os petistas que agonizavam durante o escândalo do mensalão, afirmou: “estaremos livres dessa raça pelos próximos 30 anos”.
ACM, em discurso no Senado em 2006, afirmou: “Quero dizer aos comandantes militares: reajam enquanto é tempo! Antes que o Brasil caia na desgraça de uma ditadura sindical, presidida por um homem, mais corrupto que já chegou ao governo da República”.
Esses são os “moderados”, segundo Olavo.
Ao afastar o PFL, Olavo afirma que havia três grandes partidos no Brasil: PT, que seria o “comunista mais radical”, o PSDB, o “comunista mais adocicado” e o PMDB, que “sempre foi controlado pelo Partido Comunista” e que “tinha a função de parecer o partido isento”, mas que estaria “100% a serviço dos comunistas”.
O “filósofo”, no alto de sua paranoia, insiste, assim, que a democracia brasileira era 100% comunista. Ou melhor, 99,9%, já que o PFL era menos comunista que os demais. Essa democracia, pois, seria uma farsa, já que ia contra os anseios da população, que é em sua maioria, conservadora.
Os conservadores, porém, não teriam partido, não teriam jornal, não teriam universidade, não teriam uma revista semanal conservadora…
Mas os comunistas não dominam apenas o Brasil: o “comunismo é uma rede internacional”, que tem “apoio das megafortunas”, apoio dos “bancos”, de gente como George Soros e Mark Zuckerberg.
Como os fanáticos que enxergam a imagem da Virgem numa mancha na parede, Olavo enxerga a imagem do comunismo até nos bilionários do capitalismo contemporâneo.

A Igreja vermelha

Nesta altura, Olavo cita o seu satanás particular: o Foro de São Paulo.
Diz que a democracia brasileira foi “calculada para consolidar o poder comunista/socialista, mais ainda após a fundação” do Foro.
Foro esse que em sua análise é “uma organização nitidamente criminosa, onde partidos supostamente legais, se associavam intimamente a organizações criminosas como as FARCS, o MIR, que tinha o monopólio dos sequestros na América Latina”, além de ser a “grande fornecedora de cocaína ao mercado brasileiro”.
E Lula, nosso ex-presidente, comandava essa organização, junto com o comandante das FARCS.
Como profeta, Olavo afirma que “durante 16 anos, a mídia inteira negou a existência do Foro”, que seria “a maior entidade política que já existiu na América Latina”.
Fundado em 1990, o Foro de São Paulo apareceu nos arquivos do jornal O Estado de São Paulo em 1997, por exemplo, quando da realização de seu 7º encontro, realizado em Brasília.
Foro de São Paulo no Estadão
Mas a suposta ocultação do Foro faz com que Olavo afirme que “a mídia inteira faz parte desse esquema”. Alerta seus seguidores que se algum deles ainda “tem um pingo de confiança na Folha de São Paulo, Globo, Estadão, Veja”, etc., isso significa que “você está sendo simplesmente enganado”. Deve-se negar o jornalismo e os jornalistas, pois essa classe de trabalhadores é “100% cúmplice desta coisa, são todos criminosos”.
E assim se faz o viés anti-intelectual e contra o jornalismo profissional, que são pilares do radicalismo verde-amarelo que tanto sucesso tem obtido no Brasil.
É assim que se convence a massa que os jornais são todos mentirosos e que eles só devem acreditar na verdade emanada a partir de centros e indivíduos autorizados pelo Führer, pelo Duce, pelo Mito.
Ao tratar de outro tema inescapável dos radicais brasileiros, Olavo afirma que “Hugo Chávez destruiu” a economia venezuelana, por ter financiado “o terrorismo e o narcotráfico no mundo inteiro, com a ajuda do sr. Lula e o PT”. Adiante, afirma que “essa gente está envolvida numa rede criminosa de um tamanho descomunal”.
É esse tipo de discurso que transformou a política no nosso país em uma barbárie.
Note-se que, para Olavo e seus seguidores, o PT não é um partido político, não é um agrupamento ideológico, é uma rede internacional de criminosos, envolvidos com tráfico de drogas, assassinatos, terrorismo, etc.
Essa é o elemento central do antipetismo patológico que vivemos.
Eis outro elemento do radicalismo nacional: divide-se a sociedade entre bolsonaristas e “petralhas”. Os primeiros são patriotas, cidadãos de bem, amam suas famílias, têm boa higiene pessoal, trabalham e estudam. Os outros, os “judeus” da ocasião atual, são os apátridas, os canalhas, os que querem destruir os valores familiares, os sujos, os parasitas, os ignorantes.
Exagero? Olavo afirma que “essa gente” – vocês devem saber a quem ele se refere – “está matando milhões de pessoas no Brasil, são genocidas todos eles”.
Olavo encerra afirmando:
“Gente, acordem, não é uma disputa política, eleitoral, é uma disputa contra o banditismo organizado, contra criminosos psicopatas, gente sem escrúpulo de espécie alguma, incluindo os colaboradores mais suaves, tipo Alckmin… Acordem, ou é eleger o Bolsonaro, ou dizer adeus ao Brasil”.
É esse tipo de discurso que transformou a política no nosso país em uma barbárie. Que provocou agressões de todo tipo às vésperas das eleições. É esse o tipo de mensagem que se entranhou no bolsonarismo mais radical. É essa mensagem de ódio e de divisão que Bolsonaro vai pregar, insistir e aumentar.
Nós, os que não somos bolsonaristas, mesmo os “colaboradores mais suaves”, estamos em risco. Nossa moral, nossa integridade física e emocional, tudo isso pode ser alvo de linchamentos.
Poucas vezes o futuro foi tão lúgubre neste país.
Imagem em destaque: O escritor, conferencista, ensaísta, jornalista e filósofo brasileiro, Olavo de Carvalho, o papa do conservadorismo brasileiro, em Richmond, nos EUA.

Carta de Olavo de Carvalho em 2006 anunciava as discussões do Brasil de hoje, por João Brizzi, Fabricio Pontin.

Em junho de 2006, Olavo de Carvalho estava em um beco sem saída.
Ele havia se mudado há pouco mais de um ano para os Estados Unidos, época em que também perdeu sua coluna no jornal O Globo. Seu estilo bonachão e irônico, um estranho cruzamento da sofisticação clássica com a gritaria patriótica de Enéas Carneiro, não tinha feito muitos amigos para Olavo nos círculos intelectuais.
Parece estranho imaginá-lo andando entre jornalistas, mas Olavo acumulava passagens por Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, entre outros. Em dado momento dos anos 90, chegou a trocar farpas com Muniz Sodré, um dos fundadores da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Apesar dos desafetos criados, Olavo teve todo o tempo do mundo para estudar seu alvo – a esquerda brasileira – com alguma proximidade.
Planos traçados, o filósofo escreveu, no dia 20 de junho de 2006, uma carta pedindo doações pela internet para terminar um livro.

Identificando o inimigo

“Desde que cheguei aos EUA, em maio de 2005, assumi como dever pessoal, fora e independentemente do meu trabalho de correspondente jornalístico e da preparação do livro A Mente Revolucionária, informar ao maior número possível de jornalistas, intelectuais, empresários e políticos americanos a verdade sobre o estado de coisas no Brasil, a abrangência dos planos do Foro de São Paulo, a aliança entre partidos de esquerda e organizações criminosas, a colaboração ativa e essencial do governo Lula na revolução continental cujas personificações mais vistosas são Hugo Chávez e Evo Morales.”
No espaço de uma década, a ideologia de Olavo conseguiu derrubar um presidente e eleger outro.
Como diabos um intelectual marginalizado e exilado consegue influenciar, longe do Brasil, um movimento e se torna um dos maiores atores da direita na história recente do Brasil?
Para compreender isso precisamos, antes de mais nada, fazer algo que é proibido dentro dos altos círculos intelectuais brasileiros. Teremos de reconhecer alguns méritos de Olavão.
Entre 1994 e 1996, o escritor lançou uma uma triologia mezzo filosófica mezzo crítica à esquerda, na qual ele diz que a “elite formadora da opinião pública” teria aparelhado universidades, veículos de comunicação e o raio que o parta na missão de instaurar a mentalidade comunista sobre a incauta população brasileira. Na carta em que pede doações, ele explica as intenções do livro, nunca publicado e que teria objetivo imediato de “conscientizar a elite americana da loucura que faz ao dar suporte político, jornalístico e financeiro a organizações latinoamericanas de esquerda” que conspirariam “no sentido de manter uma ajuda bilionária sem a qual a revolução comunista na América Latina morreria de inanição”.
Olavo vai adiante e explica como, nos Estados Unidos, aprendeu o que é democracia:
“A democracia não dá liberdade a ninguém. Apenas dá a cada um a chance de lutar pela liberdade. A gente percebe isso, materialmente, na coragem e disposição de combate com que tantos americanos, hoje, se erguem contra o establishment esquerdista chique e não raro conseguem vencê-lo usando os meios postos à sua disposição pelo Estado de direito. Esses meios estão também ao alcance de quem deseje restabelecer a verdade sobre o Brasil.”
Para além disso, o filósofo goteja nomes famosos – Rockefeller, Foro de São Paulo, Ford e por aí vai – na missão de estabelecer ligações financeiras e políticas que justificariam a tal ascensão da esquerda no Brasil.
De certa forma, é como se a carta de Olavo fosse recitada a cada defesa de Bolsonaro, a cada fala de Kim Kataguiri pelo MBL e a cada briga no Zap da família. Mas se A Mente Revolucionária nunca saiu, como ele conseguiu espalhar a palavra?

O período de transição

No mesmo ano, Olavo começou a publicar o True Outspeak, podcast que usava para comentar política e cultura. Mas foi só em 2009 que ele deu início ao que seja, talvez, seu trabalho mais importante: o Curso Online de Filosofia.
Olavo reconheceu uma carência enorme de orientação por parte não apenas de jovens de direita, mas de jovens – ponto. Olavo ofereceu uma saída com uma linguagem sofisticada o suficiente para que o seu alvo não se sentisse burro, mas engraçada o suficiente para que ele se sentisse legal, e ofereceu isso nos termos da internet. Olavo criou fóruns de discussão, fazia crônicas semanais temáticas junto com apostilas de orientação intelectual falando dos clássicos gregos em uma linguagem acessível. Olavo, acima de tudo, entregava (e ainda entrega!) um excelente produto que dava retorno ao investimento feito pelo aluno.
Imaginem a surpresa de seus estudantes. Este cara que está nos Estados Unidos e manja de filosofia, misticismo, política e fala um monte de palavrão, esse cara responde minhas mensagens!, fala comigo como se eu fosse uma pessoa normal!, diz que eu sou inteligente!
Diante da postura intelectual dos baluartes da alta cultura nacional, que perdem tempo falando mal de funk enquanto vomitam lugares comuns sobre psicanálise e ignoram qualquer manifestação ou sentimento popular como uma espécie de sujeira acrítica, Olavão oferece uma alternativa: um mecanismo de inclusão dentro de uma espécie de alta cultura alternativa, algo que é, ao mesmo tempo, uma contracultura e uma comunidade onde transitam pessoas que acreditam ter acesso a um caminho alternativo – e melhor! – para pensar o mundo.
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Eram quatro os livros na mesa de Jair Bolsonaro durante o primeiro discurso do Presidente eleito: a ‘Bíblia Sagrada'; a constituição brasileira de 1988; ‘Memórias da Segunda Guerra Mundial’, de Winston Churchill; e ‘O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota’, de Olavo de Carvalho.
Até 2013, o olavismo era consideravelmente periférico, ainda que bem-sucedido. Entre 2006 e 2013, Olavo alimentou seus fóruns, fez visitas guiadas para seu bunker nos EUA, editou livros e organizou transmissões semanais em áudio e vídeo com sucesso absurdo. Também reeditou seus trabalhos de leitura dos clássicos (especialmente o Jardim das Aflições, livro da trilogia que o próprio Olavo ainda encara como sua magnum opus), e foi editado por Felipe Moura Brasil, influenciador político da Jovem Pan e O Antagonista, em O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota, coletânea de escritos seus.
Este último foi um divisor de águas: lançado em 2013, chegou às prateleiras das livrarias ao mesmo tempo em que o pessoal de verde e amarelo vagarosamente começava a aparecer nas ruas e a bater panelas. De repente, a frase “Olavo tem razão” aparecia em protestos. Figuras em preto e branco com o Olavão fumando eram carregadas por jovens que agora repetiam incessantemente uma ladainha sobre Foro de São Paulo, doutrinação gayzista-comunista e a presença de cloro na água para emascular nossos jovens – essa última é do Doutor Fantástico, mas vá lá. O livro teve mais de 300 mil cópias vendidas; mais de 12 mil alunos passaram pelas fileiras de seus cursos.
O estrago ainda era ignorado, mas já estava feito.

Olavo hoje

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Foto: Vivi Zanatta/Folhapress
De lá para cá, Olavo deixou de ser uma figura periférica para gradualmente se tornar a figura intelectual mais importante e influente do Brasil. Essa frase não vai nos fazer nenhum novo amigo nas universidades públicas, mas dane-se: Olavo de Carvalho se torna a figura intelectual mais importante e influente do Brasil ao entender que existe um movimento carente de uma linguagem que possa criar aderência rápida, que possa capturar a imaginação das pessoas sem grandes complicações e que, sobretudo, não ofenda as pessoas as chamando de burras – ou, para ser mais preciso, dizendo a todos que são burros, menos a seus seguidores.
Olavo detesta Gramsci. O velho marxista italiano admirado por muitos dos ideólogos do PT, inclusive, é um dos alvos mais constantes de ataque por parte do Olavão. Desde 1994 alguém – não nós – ouve o Olavão falando da nova classe intelectual, da multiplicação de uma hegemonia de esquerda, e usando os conceitos de Gramsci para acusar o governo Fernando Henrique Cardoso, ou Lula, ou Dilma, desta ou daquela nova e relevante conspiração para dominar tudo que a sociedade civilizada considera importante. É irônico, portanto, que Olavo, mais que ninguém no Brasil de hoje, se encaixe tão bem com o que Gramsci chamava de “intelectual orgânico” – aquele que se mantém conectado aos dilemas que o originaram.
Olavão, ao verificar que não havia clima para o tipo de discurso que ele andava fazendo ali no início dos anos 2000, fez um movimento estratégico para criar esse clima. Ele explora vulnerabilidades do nosso sistema educacional e da própria configuração do nosso ensino superior; ele explora a atitude classista da alta intelectualidade carioca e paulistana que teima em discutir esse ou aquele detalhe na obra Adorno e não se dá conta que está alienando uma fatia enorme da população que teria, inclusive, potencial de colaborar para a construção de uma universidade realmente plural.
É fácil acusar seus admiradores de serem burros, manipulados, idiotas. Mas fazer isso é garantir uma manada de novos admiradores ao Olavo. É fácil dizer que Olavo é maluco, pirado, que ele comete erros na interpretação do livro Z da Metafísica de Aristóteles no Imbecil Coletivo, ou que a interpretação que ele faz deste ou daquele aspecto da fenomenologia husserliana é completamente inaceitável. Tudo isso é muito fácil. E também estúpido.
O leitor de Olavo está feliz da vida que alguém esteja falando com ele sobre todos esses temas ao mesmo tempo que fala sobre política, religião, mostra foto dos cachorros, vai caçar, admite que errou ou que acertou e ainda por cima lacra muito nos debates com esquerdopatas. O leitor do Olavo tem uma comunidade de afeto, política e intelectual, que ele dificilmente teria conseguido em qualquer universidade, especialmente nos termos que o professor oferece: uma inclusão sem conversão automática. É uma conversão gradual, voluntária, comunitária. Quando visto de perto, o fenômeno é absolutamente espantoso.
Agora, em 2018, Olavo pauta a direta e, indiretamente, a linguagem de Bolsonaro no horário eleitoral e tem impacto relevante em alguns dos deputados federais mais votados em São Paulo. Olavo virou um guru para toda a nova direita que se consolidou nestas eleições. Essa consolidação do discurso de Olavo, que passou da insignificância para a periferia e da periferia para o mainstream talvez tenha atingido seu ponto mais alto no último capítulo dessa novela ridícula, com Caetano Veloso atacando Olavo por ser autoritário e pedindo a “mobilização daqueles que não concordam com esse tipo de discurso”.
Caetano agora – quem diria? – ocupa posição periférica no discurso cultural brasileiro. Ele precisa surfar a onda de Olavo para tentar aparecer para além de seu público podre de rico sedento por rimas ricas.
O ataque soa como um ato de desespero, fruto da percepção de que uma oportunidade foi perdida; uma tentativa de entrar correndo num trem que já passou. Caetano agora – quem diria? – ocupa posição periférica no discurso cultural brasileiro. Ele precisa surfar a onda de Olavo para tentar aparecer para além de seu público podre de rico sedento por rimas ricas. Caetano Veloso, um dos grandes símbolos da alta cultura, que já foi notícia até quando estacionou o carro no Leblon, precisa apelar para ser reconhecido por Olavo como alguém digno de discussão para realmente aparecer.
Exausto, ele declara no final da carta:
“Preciso de ajuda já. Não quis pedi-la antes de chegar ao meu limite. Já cheguei. Por favor, me ajudem a salvar a honra do Brasil. Não quero chegar à velhice extrema pensando que vim de um país que se deixou estrangular sem exercer nem mesmo o direito de espernear. Quero exercer esse direito até o fim, com esperneadas vigorosas que pelo menos deixem o assassino da pátria com uma inesquecível dor na bunda.”
Se ele era uma piada, cabe perguntar quem está rindo agora.
A cultura agora é do Olavão. A gente só vive nela.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Precisamos falar sobre Olavo de Carvalho, por Joel Pinheiro de Fonseca.


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Quarta edição da Revista Café Colombo
Por Joel Pinheiro da Fonseca
(Originalmente publicado na edição #4 da Revista Café Colombo)
Ouvi falar de Olavo de Carvalho pela primeira vez em 2004, indicado por um amigo no primeiro ano da faculdade. Foi uma descoberta revolucionária. Em seus artigos, Olavo desbancava, refutava, humilhava e xingava subintelectuais de esquerda badalados pela mídia. Denunciava grandes conspirações políticas em curso e exibia largo conhecimento de filosofia, política e religiões, fazendo referência a autores de que jamais ouvíramos falar. Era uma desforra contra o discurso oficial que dominava desde o ensino médio até a mídia e a política. Naquela época, Olavo era um articulista de jornal com alguma projeção no país. Desde então, por uma série de brigas, acusações e desentendimentos (que fazem parte de seu modus operandi), cortou vínculos com a mídia brasileira ao mesmo tempo em que, pela internet, expandiu sua influência.
Desde 2005 mora nos EUA, de onde escreve artigos online e textos para o Facebook (e para sua própria rede social, exclusiva para seus seguidores, chamada The Real Talk), além de dar um Curso Online de Filosofia (COF) para, estima-se, cerca de 2.000 alunos pagantes. É uma das vozes mais influentes na direita brasileira. Sua coletânea de artigos O mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota vendeu mais de 100 mil exemplares. Entre admiradores, leitores e seguidores atuantes na direita nacional podemos citar Reinaldo Azevedo, Felipe Moura Brasil, Rodrigo Constantino, Bruno Garschagen, Flavio Morgenstern, Rodrigo Gurgel, Martim Vasques da Cunha, Lobão, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e Padre Paulo Ricardo. Nas grandes marchas da oposição que têm tomado o Brasil, não é raro ver cartazes com os dizeres “Olavo tem razão”, slogan do movimento que ele criou em torno de si mesmo.
Seja como pensador político ou como filósofo, Olavo está com tudo. Mas seria sua influência para o bem ou para o mal? Vale a pena examiná-lo mais de perto.
O Olavo político
Olavo vê a América Latina dominada pelo avanço do comunismo, processo arquitetado e conspirado pelo Foro de São Paulo, reunião de partidos e movimentos de esquerda cujas atas estão publicadas online. Agentes globais como a Fundação Ford, o Clube de Bilderberg e o bilionário George Soros, que servem a projetos de poder maiores, patrocinam o avanço do comunismo em nosso continente.
O PT é o maior agente do Foro de São Paulo no Brasil, e quer não apenas destruir a propriedade (a economia, aliás, é a parte menos importante do plano), mas subverter os valores e a cultura do país. Usando os métodos do teórico italiano Antonio Gramsci, a esquerda se infiltrou em todas as instituições e hoje controla a mídia, o entretenimento, as igrejas, as escolas e as faculdades. Vivemos sob o que Olavo chama de “marxismo cultural” – no lodo intelectual, cultural, estético e espiritual, e se deixarmos a elite esquerdista levar seus planos adiante, a próxima parada será o gulag.
Diante de tal cenário, Olavo propõe uma solução clara e consistente: um golpe militar para extirpar a esquerda do poder. Embora já tenha clamado pelo golpe nas redes sociais, prefere instruir seus seguidores a agirem com discrição e arquitetarem a intervenção por trás dos panos, junto às Forças Armadas. Felizmente, ninguém que o leva a sério parece ter muita influência nos centros de poder.
Na visão de Olavo, ser de esquerda não é ter uma posição política como outras. É ter uma “mentalidade revolucionária”, estar disposto a usar qualquer método para atingir seus fins e viver sob valores invertidos. Não há que se discutir com pessoas de esquerda; há que se combatê-las, posto que são ignorantes e perversas. Carregam uma espécie de doença espiritual.
Olavo reacende, em século 21, a histeria anticomunista do auge da Guerra Fria. A insistência na origem satânica do pensamento de esquerda, ademais, em nada se diferencia de sua velha contraparte marxista: a condenação de quaisquer ideias de direita como sendo “burguesas”.
Quanto à seriedade de suas opiniões políticas, uma passada rápida por afirmações recentes revela um sujeito desconectado do mundo real. Em 2014, por exemplo, afirmou que Denise Abreu seria a única política capaz de vencer Dilma nas eleições. Ela acabou perdendo a disputa para deputada federal. Na época da crise do ebola em 2015, afirmou que era parte do plano de Obama infectar o povo americano com o vírus. E em sua obra máxima, O jardim das aflições, diz com todas as letras que Fernando Henrique Cardoso só se elegeu por ter sido iniciado na maçonaria.
Apesar dos erros, Olavo tem a força de estilo, o carisma e a retórica para conquistar o público. Seus leitores e ouvintes assíduos tornam-se incapazes de avaliar racionalmente qualquer ideia que venha do outro lado do espectro, por estar envenenada de marxismo cultural. Aderem às mais irrisórias conspirações que circulam por correntes de WhatsApp e sites de notícia falsas, referências que o próprio Olavo já compartilhou. Adicione a isso doses de milenarismo católico (como as aparições de Fátima) e tem-se noção do nível de delírio.
Longe de coibir as manifestações de loucura e ignorância em sua página, Olavo as estimula. Deixo um exemplo. Em 04 de setembro de 2014, um leitor mandou esta mensagem a seu perfil público:
“Professor Olavo de Carvalho, não sei se está fora de contexto essa pergunta, mas hoje, na atual conjuntura pré-governo mundial, não está se formando um novo ecúmeno global no sentido Voegeliano? Não sei, posso está viajando, mas é incrível a similaridade do processo atual, guardado as devidas proporções e condições específicas de cada tempo, com o que se desenrolou no período compreendido de Alexandre o Grande até a Pax romana, estrutura na qual, Jesus entra na história e que o cristianismo se ‘serve’ para a sua rápida expansão. (…) O que o senhor acha?! Sinceramente, acho que à catálise derivará, articulando nesse contexto profecias bastante difundidas, talvez, quem sabe, cruzando os dedos, o tão preconizado tempo mariano!”
Ao que o professor respondeu, sapiencialmente: “Você está na pista certa”.
O Olavo filósofo
Apesar da influência, não é como analista político que Olavo quer firmar sua reputação, mas como filósofo. A imagem que ele cultiva é a do intelectual universal, estudioso recluso, profundo conhecedor do espírito humano. Por isso mesmo ele sempre enfatiza a importância da formação cultural, da literatura e de basicamente todo o corpus da filosofia ocidental. Essa credencial – ter lido extensamente – é usada como forma de “carteirada” para desqualificar interlocutores e desafetos. No Brasil, funciona.
Não há questão simples que não possa ser mistificada com apelos à história da filosofia ou das grandes religiões. Sem acumular a bagagem da erudição livresca não se tem “o direito” de opinar mesmo sobre questões políticas do dia-a- dia. Menos importante do que a substância de um argumento é o suposto estudo que o precedeu. Para muitos admiradores, estar com Olavo é receber o selo de sua própria alta cultura.
A substância do pensamento filosófico de Olavo é pouca. Primeiro, temos seus dois principais livros: Aristóteles em nova perspectiva e O jardim das aflições.
O primeiro é um livreto de 100 páginas em que se argumenta que, para Aristóteles, o conhecimento humano passaria por quatro estágios: poesia, retórica, dialética e lógica. Por carecer de referências detalhadas ao texto de Aristóteles, não serve como tentativa séria de interpretação – é, no máximo, o esboço de um projeto. O real objetivo, contudo, não é interpretar Aristóteles, e sim apresentar uma ideia do próprio Olavo sobre a alma humana e a história do mundo: a tese de que mesmo o conhecimento racional depende de um estofo imagético e simbólico, e que morre quando se distancia dele. A filosofia se confunde, em suas páginas, com a experiência religiosa. A frase final da obra resume bem: “a devoção ativa à suprema ciência, à sabedoria infinita, é a essência de toda verdadeira filosofia e de toda verdadeira religião.”
O volume, curiosamente, não termina aí. O leitor é ainda brindado com 150 páginas adicionais de discussão entre Olavo e um parecerista da revista Ciência Hoje, que rejeitara o texto. A regra infalível se verifica: ao fim, Olavo está tratando o tal parecerista como analfabeto.
O jardim das aflições, por sua vez, é um livro sem unidade, que vai de uma tentativa constrangedora de refutação de Epicuro, desmerecido como “hipnotista” (acusação que faria mais sentido se voltada ao próprio Olavo) aos perigos da Programação Neurolinguística, pseudociência já desacreditada quando o livro foi publicado. Também discorre sobre maçonaria, comunismo, correntes esotéricas, milenarismos. Supostamente, o tema central é o conceito de império no ocidente, mas, na prática, é pouco mais que a aplicação sensacionalista de teorias conspiratórias.
Quando aparece algum argumento filosófico, Olavo é incapaz de analisá-lo sobriamente. Há sempre uma cruzada espiritual por trás das linhas, uma batalha entre as forças do bem (representadas por ele próprio) e do mal (todos aqueles que, sem nem mesmo desconfiarem, o contrariam). Muito mais importante do que a precisão no uso dos termos é a escolha de descrições carregadas o bastante para trazer o leitor a seu lado e vibrar junto com o mestre.
Não obstante, consta que a obra escrita e publicada é uma fração pequena do corpus olaviano. A maior parte consiste de gravações de aulas, palestras e hangouts online, apostilas que circulam informalmente e publicações em redes sociais como Facebook, Twitter e na The RealTalk. Isso vem bem a calhar para o professor e seus seguidores, pois toda vez que alguém o critica é imediatamente rebatido com a afirmação de que não estudou sua obra completa (requisito que Olavo jamais segue para criticar a quem quer que seja). Como ninguém tem tempo de escutar milhares de horas de aulas gravadas, ninguém, salvo os discípulos mais fiéis, tem como criticá-lo.
Ainda assim, é possível traçar as teses básicas da filosofia olaviana. Em primeiro lugar, há a teoria psicológica das “12 Camadas da Personalidade”, pelas quais o indivíduo ascende até chegar ao nível máximo (entre os seguidores de Olavo é comum especular sobre qual nível tal e tal membro ocupariam). Há a “Teoria dos Quatro Discursos” – ou seja, quatro níveis de articulação pelo qual o conhecimento humano necessariamente passa. Por fim, há o conceito de “Paralaxe Cognitiva”, que significa a desconexão entre o discurso de um autor e sua experiência vivida.
A propósito, esse último serve como ferramenta multiuso para refutar qualquer autor. A dúvida metódica de Descartes, por exemplo, seria impossível. Olavo o sabe porque reconstruiu – mediante um processo de introspecção mais ou menos espiritual – a “experiência fundamental” do filósofo. Como tantos outros momentos de sua obra filosófica, é um jeito de se esquivar da argumentação e basear-se no peso de sua autoridade (intelectual, moral, espiritual), que é o suporte de seu castelo intelectual.
Olavo pode ser encaixado no grupo dos pensadores que veem a filosofia antes de tudo como uma disciplina espiritual. Para ele, filosofia é um modo de vida – uma disciplina espiritual – e não um conjunto de argumentos e análises. A verdadeira filosofia só pode ser observada in loco, assistindo a um filósofo (que deve ter, por sua vez, apreendido a filosofia de um outro filósofo) filosofar; o texto é uma fotografia morta de seu pensamento vital.
Por fim, Olavo atribui um valor desmesurado a alguns autores de sua predileção, que em muito supera sua relevância real para o pensamento. Nomes como Eric Voegelin, Mário Ferreira dos Santos e o Padre Stanislaus Ladusãns (iniciador de Olavo na filosofia) são alçados às alturas. De Mário Ferreira dos Santos, por exemplo, Olavo afirma que é “o único filósofo moderno que suporta uma comparação direta com Platão e Aristóteles”. Invariavelmente, a elevação de outros autores serve para reafirmar as atitudes centrais da filosofia de Olavo – a ênfase na experiência sobre a argumentação e o pensamento crítico; a conexão com uma ordem transcendente, sagrada e, portanto, inquestionável; e a confiança em sua própria autoridade.
Pode-se concordar ou discordar das teses de Olavo. Tive, inclusive, meu momento com ele: uma troca de artigos sobre a relação entre filosofia escrita e filosofia oral nas universidades medievais (seus artigos podem ser encontrados no livro A filosofia e seu inverso). Pode-se debater o mérito de Mário Ferreira dos Santos e de Eric Voegelin. O real problema reside em outro ponto: todas as teses servem à causa mestra de justificar o próprio Olavo e o culto a seu redor.
Olavismo como modo de vida
Estou convencido de que, na atuação de Olavo, a forma é mais importante que o conteúdo, e chega mesmo a substituí-lo. Olavo vende com maestria a imagem de sábio e de bravo defensor do bem para jovens sedentos de certezas. E, com a confiança que nele depositam, leva-os pela mão a seu mundo mental particular.
O olavismo é um simulacro de religião que segrega seus adeptos do mundo. Uma “religião” que é parasitária do cristianismo por ele pregado, e em especial do catolicismo, mas que poderia facilmente se moldar a outros credos. Todos os possíveis pontos de contato com visões diferentes são neutralizados.
As amizades devem se dar preferencialmente entre os seguidores. A verdadeira amizade é “querer as mesmas coisas” e, portanto, não há amizade possível entre alguém que busca os fins mais elevados da vida e da sociedade (os alunos de Olavo) e quem vive para fins mundanos ou mesmo perversos.
A universidade e o ensino formal são, no melhor dos casos, inúteis e, mais comumente, perversos. A formação em ciências e matemática é vista como um saber puramente técnico, enquanto as filosofices amadoras do mestre sobre o tema são alçadas à categoria de verdadeira sabedoria. Nas ciências humanas, nem é preciso dizer, o mundo acadêmico “normal” é terra arrasada, exceto quando algum desses acadêmicos “normais” elogia Olavo e sua obra, o que imediatamente o arranca da condição de acadêmico “normal” e o transforma num intelectual acima da média entre seus pares.
Recentemente, o homeschooling passou a ser uma bandeira empunhada pelos adeptos do olavismo. Independente da discussão sobre os méritos do ensino domiciliar, um efeito claro dele é que o contato da criança com pessoas alheias ao olavismo ficaria bastante restrito.
O bom aluno do Curso Online de Filosofia (COF) deve se abster de opiniões até que se encontre bem formado: momento sublime que, aparentemente, nunca chega. A lista de leituras (que começa com carga pesada de literatura, pré-requisito da filosofia) é grande. E quando parece que os alunos chegarão à terra prometida, quando irão finalmente debater os grandes temas filosóficos, surge uma nova preliminar: ler mais literatura, decorar melodias, ler livros à velocidade de um parágrafo por dia. O curso teve início mas não se sabe se terá fim. Certa vez, Olavo lançou a bravata de que 5 anos de COF bastariam para o indivíduo dominar o establishment intelectual brasileiro (promessa que, embora o prazo já tenha expirado em 2 anos, não se cumpriu).
Olavo fomenta o tipo de disciplina e sujeição mental que esperaríamos de uma seita sob o comando de um guru. São estimulados a acreditar em toda sorte de misticismo, milenarismo e disciplinas esotéricas como astrologia e numerologia. A intuição, o símbolo e a convicção são superiores ao argumento, à crítica e à lógica discursiva. Olavo passou por tudo isso em sua formação – tendo, inclusive, participado de uma seita iniciática islâmica –, o que nos faz pensar quantos dos métodos aprendidos nesse período – hoje repudiado – não seriam reproduzidos no COF.
Questionar e discordar são práticas coibidas ou, na melhor das hipóteses, desestimuladas. Chegou-se ao ridículo de inventar a “virtude” conhecida como “humildade metódica”, segundo a qual o aluno, mesmo quando lhe parecer que Olavo está errado em um ponto particular, tem a obrigação de guardar a impressão para si e de convencer a si mesmo de que o professor, ainda que pareça estar errado, “deve estar certo”, posto que tem acesso a um plano mais elevado da realidade. O aluno prefere duvidar da própria mente a questionar o mestre.
Tantos mecanismos de defesa protegem o COF de uma constatação óbvia: é um curso pífio, a mais exata definição pedagógica do sentimento hoje conhecido como “vergonha alheia”. Horas e horas de elucubrações, brincadeiras, repetições, divagações, voltas, platitudes, impropérios, beletrismos e imprecisões sem progresso. Fala-se um pouco da biografia de um filósofo, comenta-se a política do dia, volta-se ao filósofo sob um outro aspecto, faz-se referência a uma briga do Facebook e assim por diante. Não se vai a lugar nenhum, não se sai de lugar nenhum: ninguém sabe o que aprendeu. Peça a um aluno qualquer de Olavo que, em vez de o exaltar, em vez de expor em linhas gerais o que seria, em tese, sua obra, que aplique os conhecimentos filosóficos aprendidos na análise criteriosa de um filósofo ou de um problema, e veja o resultado. Mesmo assim todos saem embasbacados, sentindo que presenciaram algo profundo, de extrema qualidade.
Isso se explica. O real objeto dessas aulas não é uma tese ou obra filosófica, mas o espetáculo de ver o mestre em ação, filosofando em tempo real. Se transformado em texto, de fato, não sobra nada; perde-se o essencial, a pessoa que está ali falando. Pois nesse espetáculo pirotécnico de retórica e carisma, o conteúdo tende a zero para dar todo o espaço à única coisa que realmente importa: o próprio Olavo. Sua filosofia nada mais é do que uma mixórdia de racionalizações que facilitam a expansão do ego de Olavo sobre as mentes dos discípulos, que vão, passo a passo, sendo engolidas pela personalidade forte daquele que os guia, imitando-o até se tornarem cópias perfeitas.
Tudo em Olavo leva o aluno a se aferrar na autoridade e importância do mestre. Olavo destrói a autoestima de seus seguidores, substituindo-a pela devoção à sua pessoa. A dependência pessoal, a confiança exacerbada, a aniquilação do senso crítico em favor de uma visão supostamente mais profunda, o cultivo da admiração embasbacada. Em cada um deles, uma só conclusão: Olavo é o único canal seguro de contato com a realidade. E por isso a defesa tão aguerrida de seus seguidores. Se Olavo cair, isto é, se ficar patente que ele não é esse grande luminar do pensamento que lhes foi vendido, cairá o mundo dos discípulos.
Nesse contexto, é impossível ser neutro. Ou se presta reverência submissa ou se é inimigo. O eventual distanciamento nunca vem sem uma devida briga – em geral pública – seguida de excomunhão. Pouco a pouco, as pessoas mais inteligentes vêm se dando conta do truque e se afastando do mestre. O mal que sua legião de seguidores causa ao debate público, contudo, permanece.
Guilherme Carvalho
Participa da atualização deste site e das mídias sociais do Café Colombo, além da apresentação e produção do programa na Rádio Universitária FM. Graduando em jornalismo pela UFPE.