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terça-feira, 11 de setembro de 2018

Pesquisadora mostra como Brizola conservou prestígio político mesmo após 15 anos no exílio, por Maria Cláudia Moraes Leite.

Pesquisadora mostra como Brizola conservou prestígio político mesmo após 15 anos no exílio

Maria Cláudia Moraes Leite estuda a trajetória do líder trabalhista desde o mestrado na Ufrgs e agora, no doutorado, mostra como o político gaúcho foi fundamental não só na resistência à ditadura, mas na recomposição do quadro política já na abertura democrática




10/09/2018 10:26
Youtube/Reprodução
Créditos da foto: Youtube/Reprodução

Com o título de “Brizola antes e depois do exílio”, uma palestra da pesquisadora Maria Cláudia Morais Leite, doutoranda em História na Universidade Federal do rio Grande do Sul (Ufrgs) apontou os fatos que mostram que o líder trabalhista manteve influência e prestígio político mesmo após 15 anos morando fora do Brasil.

Ela se debruça sobre a trajetória de Leonel Brizola desde o mestrado e voltou recentemente da etapa sanduíche de sua bolsa de doutorado, desenvolvida justamente em Montevidéu, capital do Uruguai, onde o comandante da Campanha da Legalidade foi acolhido após o golpe militar no Brasil, em 1964.

Na palestra, promovida pelo Instituto Humanitas Unisinos ela percorreu alguns momentos da carreira política de Brizola, passando pelas expropriações que fez de multinacionais estrangeiras quando era governador do Rio Grande do Sul, oferecendo detalhes sobre a defesa do direito de João Goulart assumir a presidência da república após a renúncia de Jânio Quadros e depois, no exílio e na abertura democrática, quando se elegeu governador do Rio em duas ocasiões e foi candidato à presidência da República.

A carreira de Leonel de Moura Brizola foi intensa mesmo no início. Entre seu ingresso nos quadros do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e a eleição para governador do Rio Grande do Sul, o primeiro grande feito político, foram apenas 14 anos, nos quais cupriu dois mandatos de deputado estadual (também foi deputado federal por um período curto, de um ano), foi escolhido secretário estadual de obras e ainda prefeito de Porto Alegre - cargo que deixou para se candidatar ao Piratini.

Uma vez empossado, comprou briga com as multinacionais norte-americanas que controlavam a geração e distribuição de energia elétrica no Rio Grande do Sul e a telefonia gaúcha. Encampou ambas e desatou uma crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos quando os revolucionários em Cuba ainda não falavam em socialismo.

“Ele teve outras marcas em seu governo: a educação, a reforma agrária… Escolhi destacar esse aspecto para mostrar como Brizola no governo do Rio Grande do Sul, já incomodava os Estados Unidos”, justificou a pesquisadora.

Brizola estava na metade de seu mandato como governador quando convocou a Campanha da Legalidade para resistir à tentativa de impor uma junta militar para governar o Brasil diante da renúncia de Jânio Quadros. Era agosto de 1961. “O vice João Goulart deveria assumir legalmente, entretanto, era um líder trabalhista combatido pelos conservadores militares e civis desde 1953, quando fazia parte governo de Getulio Vargas”, explicou a pesquisadora.

Quando um dos ex-ministros militares de Jânio determinou que o III Exército marchasse sobre Porto Alegre e, “se necessário”, bombardeasse o palácio Piratini para conter Leonel Brizola que havia criado uma cadeia de rádios transmitida dos porões do edifício governamental, a reação dos comandantes militares do sul foi de solidariedade à Brizola: eles se apresentaram ao governador e declararam seu apoio à Legalidade. “Foi uma demonstração do sucesso do movimento de Brizola”, ilustrou.

Apesar de ter sido fundamental na defesa de João Goulart, Brizola não obteve sua adesão ao projeto de enfrentamento do conservadorismo nem antes da posse - quando Jango decidiu ceder poder através do parlamentarismo, posteriormente revogado - nem ao longo do mandato do colega de partido.

Já como deputado federal eleito pelo estado da Guanabara, uma vez que a liderança da Campanha da Legalidade o catapultou como ícone nacional, criou, em 1963, a Frente de Mobilização Popular, que reuniu as principais organizações de esquerda para pressionar pelas reformas de base. A ideia era que Jango assumisse o compromisso “mesmo que fosse preciso partir para o confronto com a direita”, esclareceu a pesquisadora.

Além de contar com a incredulidade do então presidente da República, que tentava uma conciliação entre o centro e os setores trabalhistas, Brizola também se viu embretado por outro grupo de esquerda, mais moderado, que propunha a aprovação das reformas mediante a negociação com o Congresso Nacional.

A definição de Jango pelo projeto brizolista de enfrentamento, que teve como ápice o comício na Central do Brasil, no final de março de 1964, logo foi interrompida pelo golpe de Estado dado pelos militares, que no dia 31 depuseram o presidente e empossaram uma junta militar no poder.

“Brizola tentou ficar no Brasil, acreditado que poderia organizar a resistência ao golpe. Mas depois de 32 dias clandestinidade, em 7 de maio, ele parte para o exílio em Montevidéu, no Uruguai”, rememorou a historiadora.

Mais seguidores que o próprio Jango

A primeira leva de exilados brasileiros após o golpe militar se concentrou quase toda no uruguai, segundo Maria Cláudia Moraes Leite. A segunda, em 1968, já foi mais dispersa. Em Montevidéu Brizola era o centro das atenções, mesmo dividindo espaço político inclusive com o próprio João Goulart, que também se exilou no país vizinho do sul. “Tinha ainda o grupo dos sindicalistas e um quarto grupo, menor, de comunistas menor. Brizola era quem fazia a interlocução entre eles, ele tinha ascenção sobre todo mundo”, revelou.

O líder trabalhista também recebia visitas de políticos que seguiam no Brasil, entre eles muitos representantes do MDB, que atravessavam a fronteira para ouvir as análises de Brizola.

Desde o Uruguai, o ex-governador se envolveu com a resistência e participou, inclusive da luta armada que, entretanto, viria a abandonar após o insucesso da guerrilha de Caparaó, que ele organizou com o auxílio de Cuba, segundo contou Maria Cláudia. “Depois disso ele vai adotar uma linha política de ação, como ele mesmo chamou”, ilustrou a pesquisadora.

Ele fez isso em um ambiente nada favorável, precisando cumprir regras que foram decretadas exclusivamente para ele. Uma delas era a obrigação de permanecer confinado em uma cidade fora de MOntevidéu - pedido feito pelos militares que comandavam o Brasil ao governo uruguaio, que acatou sem questionamento: “Isso sim, foi dada a ele a opção de escolher a cidade em que queria morar, que não poderia ser a capital nem estar a emnos de 300 quilômetros da fronteira com o Brasil”.

A escolha recaiu sobre a praia de Atlântida, distante 301 quilômetros da borda brasileira e ao mesmo tempo há 35 de Montevidéu. O regime durou até 1971, embora fosse facultado ao líder trabalhista transitar pelo território uruguaio (do que ele não abriu mão, é claro, seguindo suas negociações e encontros políticos mesmo “encarcerado”). Outra peculiaridade exclusiva do exílio de Leonel Brizola foi a sua expulsão “sem aviso prévio ou circunstância que justificasse” já quando o país vizinho caminhava também para instaurar um governo militar.

Pego de surpresa, Brizola acabou indo parar nos EStados Unidos, onde o então presidente Jimmy Carter o ofereceu asilo político. A saída, embora traumática, possibilitou que Brizola voltasse à carga sem medo de represálias e com total liberdade - coisa que ele não tinha no uruguai. Em uma entrevista já nos primeiros dias em território estadunidense, ele admitiu: “Eu já havia praticamente largado tudo, mas me agarraram pelos cabelos (para retomar a militância). Não tenho planos, mas caminhos não hay, hay que hacerlos”, disse parafraseando o poeta espanhol Antonio Machado.

A refundação do trabalhismo em Lisboa

Em janeiro de 1978, o primeiro ministro português Mario Soares convidou - e Brizola topou - que ele fosse morar em Lisboa. Foi desde a capital lusitana que o líder político coordenou a refundação do trabalhismo brasileiro, combalido após as cassações e banimentos promovidos pela ditadura militar.

“Desde então, começaram a promover encontros no Brasil e no exterior, e o mais importante deles foi o Congresso de Lisboa, onde foi redigida e assinada a carta de Lisboa, o documento inicial do PDT, Partido Democrático Trabalhista”, observou a pesquisadora.

Em 1979, finalmente Brizola retorna ao Brasil sob a proteção da Lei de Anistia, assinada pelo general Figueiredo, o último dos ditadores brasileiros. Brizola não perdeu tempo: em 1982 se elegeu governador do Rio de Janeiro, pela recém fundada sigla do PDT - o detalhe é que as pesquisas de intenção de voto davam seu nome como carta fora do baralho: ele tinha apenas 3% da preferência do eleitorado. “Brizola havia ficado 15 anos afastado do Brasil, a juventude não sabia quem ele era e quem sabia tinha lá suas reservas, pela postura radical que teve durante o governo Jango”, analisou Maria Cláudia.

Ao assumir, enfrentou uma “grande campanha de desmoralização”, fruto, na opinião da pesquisadora, de um “receio da ascensão brizolista”. Tanto foi assim que não conseguiu eleger seu sucessor, o sociólogo Darcy Ribeiro, derrotado nas urnas por Moreira Franco, cuja candidatura era sustentada pelo então presidente José Sarney.

O ocaso do líder

Na primeira eleição direta no período democrático para a presidência da República, Brizola apresentou sua candidatura. As primeiras pesquisas de intenção de voto davam ampla vantagem sobre seus oponentes, mas boatos que o vinculavam com o jogo do bicho minaram suas chances. “Havia uma regra na imprensa não explícita, de ignorar fatos positivos sobre sua personalidade e de exaltar seus problemas”, denunciou a pesquisadora.

Maria Cláudia assegura que os jornais da época acolheram a candidatura de Fernando Color de Mello como a “mais confiável” e que o ex-operário Lula também foi beneficiado por ser considerado “um candidato mais fácil de abater do que Brizola”. Tanto foi assim que ao final do primeiro turno, no dia 15 de novembro de 1989, Collor teve 28,5% dos votos, Lula 16,08% e Brizola 15,45”, “uma diferença muito pequena”, lamentou.

Um ano depois, o líder trabalhista voltou a disputar o governo do Rio de Janeiro, foi eleito, e, em 1994, aos 72 anos se desincompatibilizou do cargo para uma nova candidatura à presidência da república, “mesmo sabendo que não tinha chances diante da candidatura de FHC, idealizador do Plano Real” . Nesta eleição, Brizola terminou em 5º lugar, atrpas de Orestes Quércia, Enéis Carneiro e do próprio Lula, uma “humilhação eleitoral”. Na eleição seguinte esteve ao lado do “sapo barbudo” como chamava Lula, como seu vice-candidato.

Ainda teve tempo de lançar uma campanha contra FHC em 1999, acusando o então presidente de fraude eleitoral pois teria escondido a crise de desvalorização do Real durante o processo eleitoral - ela sós e revelaria três meses depois da eleição.

No ano 2000 tenta conquistar a prefeitura do Rio de Janeiro, mas perde mais uma vez, morrendo em 21 de junho 2004. “Foi alçado à categoria de lutador pela democracia, defensor da legalidade e seu enterro foi acompanhado por uma grande massa”, concluiu.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Por que agora a Globo apoia movimentos identitários? Brizola explica. por Wilson Roberto Vieira Ferreira



Em toda sua história, a Rede Globo foi acusada de sexismo e racismo: uma teledramaturgia com um cast de atores que mais parecia ter saído de algum país nórdico, enquanto os poucos negros ocupavam papéis subalternos; as mulheres eram objetificadas em programas de entretenimento e o machismo sempre figurado como uma prova do verdadeiro amor. Ao mesmo tempo, o seu diretor de Jornalismo dizia que o Brasil nunca foi racista e que isso não passava de uma invenção da esquerda para dividir o País. Mas de repente, a emissora começou a apoiar e dar visibilidade a movimentos identitários e culturais (movimentos de gênero, étnico-raciais, geracionais que postulam a diversidade, alteridade e reivindicação de direitos sociais) como nunca antes. Política de “controle de danos” para tentar descolar a sua imagem do Golpe de 2016 e dar alguma credibilidade ao telejornalismo? Ou há algo além? De natureza estratégica em um ano eleitoral decisivo. “Se a Globo é a favor, somos contra!”, alertava o velho Brizola. E se nesse momento a emissora estiver pondo em prática outra velha máxima: “dividir para conquistar”? A Globo estaria desempenhando o seu derradeiro papel? Ser o para-raio do ódio tanto da esquerda quanto da direita?
  
“Quando vocês tiverem dúvidas quanto a que posição tomar diante de qualquer situação, atentem: se a Rede Globo for a favor somos contra. Se for contra, somos a favor”
(Leonel Brizola)

“Leva-lo a dividir suas tropas, e será mais fácil dominá-los”
(Sun Tzu)

Durante os anos de guerra midiática que culminaram no impeachment de 2016, a Rede Globo deu visibilidade a pequenos escroques, acadêmicos e intelectuais obscuros, músicos que fizeram sucesso no passado e foram esquecidos, ex-anônimos que confundiam militância profissional com fundamentalismo religioso e oportunistas de toda sorte para engrossar o caldo de oposição ao Governo.

Como, por exemplo, um manifestante pró-impeachment que organizava acampamentos em frente à Fiesp na Avenida Paulista que vivia de recrutar mulheres para feiras e acusado de estelionato e de assédio sexual a modelos; ou o procurador do Ministério Público Federal, de controversa militância religiosa, acusado de agredir a esposa e mantê-la em cárcere privado – clique aqui.

Esses, e muitos outros, exemplares do Brasil Profundo costumavam ganhar visibilidade no dia-a-dia dos telejornais da emissora para atiçar ainda mais a extrema-direita a embarcar na cavalgada do Golpe.

Enquanto isso, crescentes atentados racistas e homofóbicos na ruas de São Paulo eram reportados de forma anódina pelo telejornalismo. Apenas como notícias da pauta policial. Como fossem eventos análogos a acidentes de carros ou roubos de celulares a mão armada.

Meros casos isolados, já que para a linha editorial da Globo, comandada pelo diretor de Jornalismo Ali Kamel e autor do livro “Não Somos Racistas”, as críticas contra o racismo não passavam de manobra da esquerda e do lulopetismo para “construir uma separação entre cores que nunca existiu, de fato, no Brasil”.

Talvez, o ponto de inflexão tenha sido em 2015 quando a ascensão profissional da jornalista negra Maria Júlia Coutinho (a “Maju”) na emissora despertou o ódio de grupos racistas nas redes sociais – clique aqui.

Naquele momento o roteiro para o impeachment já estava traçado e a massa de manobra nas ruas já organizada. A Globo teve que, então, tirar o pé do acelerador e iniciar o trabalho de rescaldo pós-golpe: uma política de “controle de danos” para tentar tirar das mãos a lama psíquica que teve que remexer por anos para dar o tranco subliminar nas massas e tornar o golpe político verossímil. E salvar a credibilidade comercial e jornalística da emissora.

Caso Maju: o ponto de inflexão da Globo

Diante do sentimento de traição, a direita começou a acusá-la de “petista” quando viu perplexa a Globo colocar em ação um rolo compressor do politicamente correto na programação da emissora: a agenda da igualdade racial e de gênero, cidadania, tolerância etc. tomou conta não só do Jornalismo, mas também dos programas de entretenimento e teledramaturgia.

Os movimentos identitários e culturais (movimentos de gênero, afro-brasileiro, indígena, movimentos de jovens e idosos) passaram a merecer o apoio do jornalismo da Organização Globo, numa escalada até subliminar – não importa sobre do que se trata a pauta: repórteres nas ruas fazem enquetes procurando preferencialmente mulheres, negros e jovens (tanto melhor se o entrevistado reunir essas três características). Enquanto isso, o veterano William Waack era demitido por ser pego fazendo galhofas racistas diante das câmeras e o jornalista negro Heraldo Pereira ganhava protagonismo com o programa “Jornal da Dez” na Globonews no lugar do “Painel” apresentado pelo afastado Waack.

Muito além do “controle de danos”


Fica a questão: por que depois de décadas de ínfima participação de protagonistas negros no jornalismo e teledramaturgia, e de relegar causas de gênero a alguns programas femininos matinais, de repente a Globo tornou-se promotora de movimentos identitários?

Há algo mais além da política de “controle de danos” de uma empresa preocupada em se descolar da imagem de “TV golpista” – que aliás, se confunde com a própria história da emissora desde o golpe militar de 1964. Será que devemos levar em conta o alerta do falecido Leonel Brizola - se a Globo for a favor, então somos contra?


Talvez a direita seja intelectualmente tão primitiva que não perceba o que está por trás desse repentino alinhamento da Globo: o chamado “neoliberalismo progressista” que levou Obama ao poder nos EUA e que anima a atual agenda cultural da Globalização.

O aparente oximoro dessa expressão esconde um alinhamento perverso entre correntes dos movimentos sociais (feminismo, LGBT, antirracismo, multiculturalismo, entre outros), o setor de negócios baseados em serviços simbólicos e tecnológicos (Vale do Silício e Hollywood) e o capitalismo cognitivo representado por Wall Street e a financeirização. 

Segundo a professora de Filosofia e Política da New School for Social Research de Nova York, Nancy Fraser, esse movimento dos “Novos Democratas” ficou bem distante da tradicional coalizão entre trabalhadores sindicalizados, indústrias, setores afro-americanos e classe média. Mas agora uma aliança entre empresários, classe média dos subúrbios e novos movimentos sociais. Todos emprestando um carisma jovem com a boa fé moderna e progressista – a aceitação da diversidade, empoderamento, multiculturalismo e os direitos das mulheres – Leia FRASER, Nancy. “The End of Progressive Neoliberalism” IN: Dissent Magazine, 2/1/2017 – tradução aqui.

Quando a pauta identitária é assumida, nos EUA, pelos Democratas e todo o setor tecnológico e de negócios que impulsiona a Globalização e, aqui no Brasil, pela TV Globo, começamos a desconfiar de uma estratégia ideológica: retirar a pauta do paradigma “materialista” das esquerdas para ser incorporada à agenda das reivindicações liberais pelos “direitos humanos”.

Nancy Fraser: "Neoliberalismo progressista" é a cilada para os movimentos sociais

O discurso dos “direitos humanos”


Para o pensador francês Jean Baudrillard o discurso dos direitos humanos é um “valor piedoso, fraco, inútil e hipócrita” porque “se baseia numa crença iluminista na atração natural do Bem, numa idealidade das relações humanas” – leia BAUDRILLARD, Jean. A Transparência do Mal, Campinas, Papirus, 1990, p. 93.
Ademais esse Bem, valor ideal, é sempre concebido de modo protecionista, miserabilista, negativo, reacional. É a minimalização do Mal, profilaxia da violência, segurança. Força condescendente e depressiva da boa vontade, que no mundo só aspira à retidão e se recusa a encarar a curva do Mal, a inteligência do Mal – BAUDRILLARD, Jean, IDEM, p. 94.
O discurso dos direitos, tão facilmente incorporado pela grande mídia e pela pauta do politicamente correto,  tende a ver o outro pelo olhar da piedade como vítima do “racismo e intolerância”, como alguém fragilizado que deve ser protegido pelos “direitos” que se recusam a encarar “o Mal” – a estrutura econômica da exploração do homem pelo próprio homem, da reprodução perversa da desigualdade como condição intrínseca para produção de valor e riqueza para poucos.

Dois exemplos do destino de discursos críticos materialistas que se converterem em lutas em defesa dos “direitos”: o ecológico e o feminista.

De movimento contracultural de crítica ao modo de produção capitalista e ao modelo de civilização Ocidental, o pensamento ecológico facilmente se transformou em movimento ambientalista corporativo - ONGs ambientalistas como o Greenpeace, por exemplo, contam com o apoio financeiro de grandes empresas petrolíferas, Fundação Rockfeller e mercado de energia elétrica – clique aqui.


  Da estrutura perversa da sociedade de consumo cuja produção de riqueza de exploração humana gera desperdício e destruição, tornou-se a luta pelo “direito ao meio ambiente” que execra empresários gananciosos e contempla empresas “do Bem”. Como se a luta pelo direito ao ar e à agua naturalmente atrairia almas bem intencionadas (principalmente do meio corporativo), mantendo o “Mal” (o mecanismo econômico perverso e impessoal) fora de qualquer ação política.

Enquanto isso nos seus 200 anos de lutas das mulheres, o feminismo deixou de ser uma luta contra o sistema do capitalismo (cujos fenômenos como a prostituição, objetificação da mulher, desigualdade, violência e o determinismo machista eram extensões da ordem do patriarcado e da manutenção da propriedade privada) para se transformar na reivindicação pelo direito à igualdade dos gêneros.

Em artigo no Jornal GGN, Vitor Fernandes descreve que ficou “cada vez mais comum os discursos começarem apresentando a identidade do falante. Ex: ‘eu, mulher, negra, periférica, lésbica..., Eu, homem, LGBT. Ou Eu. Mulher, negra’”.

Nessa perspectiva, podemos começar a entender porque a Globo vem ativamente apoiando o discurso identitário politicamente correto dos chamados novos movimentos sociais. Para o viés jornalístico da emissora a vareadora Marielle Franco (PSOL/RJ) foi morta não porque investigava a intervenção militar no Rio e a violência policial em áreas pobres, mas porque era mulher, negra e lésbica.

Dividir para conquistar


O foco na pauta identitária da reivindicação por direitos resulta em quatro consequências: (a) falsa consciência; (b) fragmentação; (c) despolitização; (d) crescimento da extrema-direita.

(a) como falsa consciência o discurso do direito, como um véu, esconde a “curva do mal” a que se refere Baudrillard: uma sociedade, ao mesmo tempo produtora da consciência dos seus próprios direitos, e que simultaneamente fundamentada na desigualdade porque somente consegue produzir riqueza através da luta de classes.  Os conflitos políticos e econômicos são desviados para a esfera cultural das relações humanas idealizadas.

Racismo, intolerância e preconceito são sempre vistos por um olhar abstrato entre a compaixão e uma indignação movida muito mais pelo ressentimento do que pela consciência política.

"Nueva Chicago Athletic Club", Antonio Berni, 1937

(b) A questão de classe é fragmentada (ou pulverizada) em uma série de grupos reivindicatórios conduzindo o clamor das ruas para a institucionalidade parlamentar. Com isso, o sistema triunfante retira a pressão da panela dos conflitos de classe para diluir no discurso abstrato da “cidadania”, do “respeito”, da “tolerância”, da “dignidade” e toda uma constelação de palavras que se tornam abstratas na medida em que se afastam do conflito fundamental da sociedade.

Por exemplo, com a ascensão das redes sociais surgiram os inúmeros coletivos ligados a pautas LGBTs, feministas e negras. Promoveram uma batalha linguística, caminhando separado das questões de classe.

(c) Muitos movimentos identitários se dizem apartidários. Fruto do discurso profilático e abstrato dos direitos. Como ilustra o depoimento de Vitor Fernandes em seu artigo:
Em outra situação um coletivo Ana Montenegro, um coletivo feminista-marxista, tentou levar para a marcha das vadias (um importante ato do movimento feminista) no Rio de janeiro, uma faixa, com claro teor marxista dizendo: “gênero nos une, classe nos divide” (ou algo do tipo) e foi impedida pela liderança do movimento (FERNANDES, Vitor, Jornal GGN, ).
Por isso, ideologicamente movimentos identitários caem como uma luva para a atual estratégia despolitizadora da Globo às vésperas das eleições – reforçar a aversão à Política como parte da estratégia do “dividir para conquistar”: neutralizar a crítica materialista da sociedade na qual se fundamentou historicamente a esquerda. Ou transformá-la em uma coisa chamada “marxismo cultural”.

(d) O ardil em apoiar os movimentos identitários pela grande mídia visa principalmente o cidadão médio, despolitizado, vivendo de um trabalho precarizado e, em decorrência, movido por uma visão de mundo conservadora. Por isso, um voto que se entrega facilmente ao discurso fascista de Bolsonaro ou congêneres.

A Globo repete a mesma tática de comunicação indireta criada pelos provocadores da direita do calibre Kim Kataguiri, Rodrigo Constantino ou Fernando Holiday – não se trata de ter a esquerda como interlocutora ou rival. Se trata de provocar, para de forma indireta falar com o cidadão médio despolitizado, desmobilizado e nutrindo o asco pela Política incutido pela Globo.

Por essa razão, a Globo assume um papel estoico e derradeiro: se converter no para-raio do ódio tanto da esquerda quanto da direita. Pelo menos, até as eleições. 

O velho Brizola continua bem atual.