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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Fascismo, teu novo nome é Consumismo, por Fran Alavina.


Como Pasolini enxergou, desde 1968, que a ameaça já não estava nos Estados totalitários — mas no homem-consumidor individualista, refratário ao coletivo, entregue à mercantilização. O que isso tem a ver com o Brasil de 2018

Por Fran Alavina
Mesmo após sua morte atroz, em novembro de 1975, Pasolini não deixou de incomodar. Uma de suas últimas polêmicas, expressa nos seus textos (Scritti Corsari e Letterre Luterane), bem como no seu último filme Salò, era a afirmação do nascimento de um novo tipo de fascismo. Desta nova forma de totalitarismo disfarçado, o pensador italiano estava bem certo. Exatamente por isso, ocupava uma posição de deslocamento entre os intelectuais de seu tempo. Os contemporâneos viam seu diagnóstico do presente como algo exagerado. Uma visão que, segundo eles, diria muito mais sobre a personalidade de Pasolini, do que sobre seu próprio tempo.
Enquanto todos se contentavam com os avanços do estado de bem-estar social e estavam inebriados com o maio de 68, dificilmente poderiam compreender que Pasolini não se reportava aos riscos da volta do fascismo histórico, como aquele de Mussolini. Tratava-se, na verdade, de uma mutação do fascismo histórico, cuja gênese estava justamente naquilo que o estado de bem-estar social comportava em seu interior e que era um dos motivos de sua expansão: o consumismo. Ao mesmo tempo em que surgia uma nova cidadania, das benesses da social democracia, esta também ensejava um novo modelo de homem e mulher: o consumidor.
Hoje, com a volta da extrema direita e sua chegada ao poder em alguns países, os ambientes intelectuais ora se veem imóveis, incapazes de diagnosticar com precisão um fenômeno que aparece dramaticamente como algo inesperado, ora se movimentam para atestar sua existência — mas buscam compreendê-lo segundo o parâmetro do fascismo histórico. Logo, deixam escapar os novos elementos e as novas determinações.
É claro que o fascismo histórico não pode ser esquecido, pois é o modelo mais acabado do que foi um estado fascista, institucionalmente falando. Ocorre que, como apontava Pasolini, o novo fascismo não é, em primeiro lugar, institucional — mas sim uma nova forma de vida jamais vista, e por isso mais difícil de ser combatida. Ele esconde dentro de si uma nova lógica de poder, está mais arraigo nos indivíduos que em instituições ou oficialidades declaradas. Por isso, Pasolini referia-se a uma nova forma de poder: “anárquico”, sem centro específico e sem uma estética que pretensamente expresse identidade homogênea — ao contrário do que foi o fascismo histórico.
A negação da diferença não seria, advertiu o pensador italiano, feita pela força bruta. Decorreria da não aceitação de qualquer forma de vida individual ou social que não pudesse ser transformada em mercadoria — isto é, que não se adaptasse ao consumo. Como era necessário que o consumo acompanhasse o aumento da produção, o novo cidadão do estado de bem-estar social deveria ser levado cada vez mais à mercantilização da vida.
Daí que durante as ocorrências do maio de 68 pela Europa, Pasolini já denunciava seus limites e a acomodação do espírito de rebeldia pelo mercado. A própria rebeldia perdia sua valência política e tornava-se uma marca, um slogan. As novas formas de comportamento, quanto mais possam parecer novas, mais se acomodam ao consumo que já faz de si mesmo a imagem da única novidade possível. Este novo fascismo, que ao que parece só Pasolini conseguia ver, seguia os passos do fascismo histórico, pois instaurava uma nova linguagem: pobremente denotativa, como fora aquela que se materializava nos discursos de Mussolini.
Assim, o novo fascismo trazia consigo um novo gestual que, segundo as palavras de Pasolini, impedia que se pudesse diferenciar, na Europa, um jovem das classes populares de um jovem burguês. Os dois já falavam do mesmo jeito, já gesticulavam do mesmo modo: enfim, todo o campo da expressividade havia se tornado único. Desfazendo, desse modo, qualquer referência às diferenças entre classes sociais. Ora, não era o sonho do fascismo histórico produzir um tipo de sociedade radicalmente homogênea?
Não parece, pois, ser mera coincidência que hoje os gestos e a linguagem da extrema direita tenham se tornando tão aderentes nas redes sociais. Também sendo pobremente denotativa, a linguagem das redes sociais levou o consumo ao seu ponto máximo: já não se consumem coisas, pode-se consumir pessoas. A transformação das subjetividades em algoritmos impõe um novo padrão de homogeneidade. Aqueles que já não falam a língua das redes, mesmo fora delas, tendem a desaparecer, pois só aqueles que falam a língua do consumo imediato permanecem. Não é pura ocasionalidade que os políticos de extrema direita falem como se youtubers fossem. Trump não discursa como se estivesse no twitter? Mas essa nova linguagem pressupõe aderência entre os falantes: portanto, supõe que os falantes já se identifiquem apenas como consumidores.
Também não é mera coincidência que o atual estado de coisas a que chegamos no Brasil tenha sido precedido por uma ascensão e crise das classes populares ao consumo. A classe trabalhadora, falsamente identificada como nova classe média, passou a ver a si mesma como consumidora, mais do que com qualquer outra identidade. O mesmo movimento se deu naqueles países europeus mais afetados com a crise econômica de 2008.
Os antigos consumidores jogados para fora dos padrões de consumo não se voltam mais, como outrora, aos partidos trabalhistas ou de centro esquerda (pois foram estes os principais fiadores da social democracia e seu estado de bem-estar). Não se veem mais como trabalhadores expropriados, mas como consumidores incapazes de consumir. A afirmação da identidade de classe foi perdida. Por isso, no caso brasileiro, por exemplo, não aparece como contradição seguir um discurso que promete a volta dos empregos por meio de uma agenda neoliberal extremada e que ao mesmo tempo retira direitos dos trabalhadores.
Se o fascismo histórico se guiava pela noção de um aparelho estatal grande e forte, o novo fascismo pode aderir ao estado mínimo justamente por não se tratar mais de instituições, mas de formas de vida que consomem a si mesmas. Logo, a aderência do discurso da meritocracia, que cria a imagem da sociedade como um grande aglomerado de indivíduos em eterna concorrência. Incapaz de engendrar qualquer forma de solidariedade social, esta noção consumista e individualista de si mesmo é um prato cheio para discursos do culto da força, pois a violência já internalizada pelos indivíduos concorrentes torna-se completamente naturalizada.
Não por outro motivo, Pasolini apontava que o novo fascismo era muito mais perverso que o fascismo histórico. “Estamos todos em perigo!”, dissera ele, nem tanto aos seus contemporâneos, mas a nós, 40 anos depois de seu assassinato. É porque estamos todos em perigo que precisamos vencê-lo. Não apenas pela resistência e uma nova superação eleitoral das forças políticas que encarnam o novo fascismo, pois trata-se mesmo da criação de uma nova forma de vida. Afinal, nunca se pode esquecer que a democracia não é simplesmente uma forma de governo, porém uma forma de vida: talvez a única que se possa dizer plenamente vida.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Hegemonismo, doença senil da esquerda, por Fran Alavina.

on 19/09/2018Categorias: Brasil, Destaques
O candidato petista é tutelado pelo temor da perda da hegemonia; o eleitor do campo progressista, tutelado pelo temor da real ameaça fascista
Por Fran Alavina
O avanço da corrida presidencial e a chegada de uma disputa aberta no seio do campo progressista (Haddad versus Ciro) revela o labirinto que o PT montou para si mesmo e, por conseguinte, para boa parte da esquerda nestas eleições. A indecisão, muitas vezes precoce, que é possível observar nas dúvidas entre os eleitores que não sabem para quem deve ir o dito voto útil — se Ciro ou Haddad — é já uma expressão dos meandros deste labirinto.
De fato, esta precocidade do famigerado “voto útil” já revela por si só a pobreza das condições atuais da vida política nacional. Ela revela ainda que os eleitores — falo aqui do campo progressista — estão, por antecipação, dispostos a abandonar seu candidato preferido, em favor de uma decisão secamente pragmática. Se do outro lado o ódio parece ser o afeto político mais forte, do lado de cá o temor é o afeto político da vez. Acuados em suas próprias convicções, aqueles que não se consideram reacionários, se veem obrigados a fazer de sua escolha um não escolha, posto que já aceitam não votar em quem querem de fato — mas naquele em que a condição obriga por necessidade que lhes ultrapassa. Vê-se, pois, que já não se trata de resistência ao golpe, pois a resistência nunca se move pelo temor. Aí já se encontra uma primeira derrota que as forças protofascistas nos impõem. Nossa possível vitória não será uma vitória completa, já iniciamos perdendo.
Do vislumbre desta conjuntura, ainda no ano passado nasceu aquela aspiração, quase ingênua, diga-se de passagem, de uma coalização que unisse todas as forças que se consideram à esquerda no campo político. Ingênua, uma vez que esta unidade sempre anunciada como urgente, nunca se realiza. E, agora, além de não se realizar pode mesmo chegar ao fratricídio.
Observando com certo cuidado os caminhos que nos trouxeram até aqui, pode-se afirmar que a unidade do campo progressista não se realizou por uma série de fatores, um dos principais, além dos interesses personalistas, foi o problema de com quem ficaria o lugar de comando dessa pretensa unidade à esquerda. Na medida em que as forças são diferentes em tamanho, mas equivalentes em importância, se abriria uma disputa pela hegemonia. Cálculo político dos mais simples: o que se ganharia e o que se perderia; quem se enfraqueceria e quem se fortaleceria com esta unidade. Diante dos números desse cálculo, o PT, por antecipação, e nem por um instante, pensou em abandonar o posto hegemônico. Uma certa arrogância de que se vê capaz de seguir sozinho e que se considera naturalmente a cabeça desta unidade.
O PT julgou que perder a hegemonia — e o lugar privilegiado de fala em nome da esquerda — equivaleria a enfraquecer a justa e devida defesa de Lula contra os mecanismos persecutórios que o levaram ao cárcere físico. O temor da perda da hegemonia leva então o PT a uma de suas contradições mais visíveis: a oscilação ente o discurso purista e o discurso do especialista de esquerda da realpolitik.
Agor, que, pela primeira vez em mais de uma década, a burocracia petista se vê instada a disputar com um concorrente real os votos do campo progressista e da centro-esquerda, a máquina partidária começa a apelar uma vez mais para o discurso purista e da legitimidade de fala e ação. A crítica de que Ciro Gomes não é um legitimo candidato da esquerda será usada à exaustão pelos petistas mais imunes a uma autocrítica. Todavia, se contra o discurso purista, apresentarmos as associações contraditórias do PT (Haddad abraçado com Eunício Oliveira no Ceará e com Renan Filho em Alagoas, para ficarmos nos exemplos mais próximos em que o PT anula seu próprio discurso do golpe) nossos amigos petistas dirão, sem medo de serem felizes, que são necessidades da realpolitik, governabilidade e todo aquele rosário de escusas que já conhecemos. Ora, se isto retira toda e qualquer aspiração purista e de autenticidade que o petismo reclama para si, cai por terra a justificação da hegemonia. Em outras palavras, pode o petismo atirar pedras em Ciro, pela escolha de sua vice, ou por seu irmão Cid Gomes também estar no mesmo palanque que Eunício Oliveira?
A manutenção da hegemonia se expressa, ainda, na incapacidade da burocracia petista em realizar uma crítica sincera dos seus erros. Como a autocrítica não é feita, pelo medo da perda da hegemonia, o partido não é capaz de nos apontar nada de novo.
A cereja do bolo desta incapacidade atávica em que o petismo se meteu está no mote da campanha: O Brasil feliz de novo. O “de novo” esconde a incapacidade de apresentar algo realmente novo, daí o apelo ao passado recente como se o PT fosse capaz de operar novamente tudo aquilo que de bom realizou antes e tudo aquilo que poderia ter feito e não fez. É o que nos é prometido, e caso não aceitemos os questionáveis abraços de Haddad nos fiadores do impeachment, logo nos mostram ou os erros e percalços de Ciro, ou a necessidade do tal “voto útil”: numa ação quase desesperada de convencimento mecânico. Mas porque o PT assim começa a agir?
Chegamos, então, ao otimismo ingênuo e à tutela como os muros do labirinto. Como o temor é o afeto político que de fato reina entre nós, o único otimismo capaz de ser esboçado é ingênuo e até certo ponto desalentado. Ingênuo, na hipótese de que não se trata de cinismo, posto que nossas condições políticas são outras, a conciliação de antes não é mais possível de ser refeita. Para que o PT pudesse se apresentar de fato credenciado a repetir o que fez e realizar o que não fez era preciso que estivéssemos nas mesmas condições de 18 anos atrás e que o partido tivesse, de fato, apreendido com seus erros se reformulando. Porém, como esta reformulação depende de uma autocrítica sincera e esta não aconteceu por medo da perda da hegemonia, restou então propor a repetição por meio da tutela.
Como se apresenta Haddad, senão como um tutelado, ainda mais após a perda da eleição municipal. É tutelado não só pelo caráter discricionário de sua escolha, mas pelo fato de que carisma não se herda, tal como não é certo que herde os votos de Lula. Quanto mais difícil for a transferência dos votos maior será a força da tutela. Tão tutelado quanto o eleitor do campo progressista na perspectiva do tal voto útil: o candidato petista é tutelado pelo temor da perda da hegemonia; o eleitor do campo progressista tutelado pelo temor da real ameaça fascista.
Neste labirinto, uma coisa é certa, não há vencedores. A única maneira de sair dele não é dar longas voltas pelos muros até encontrar uma saída, mas colocá-lo abaixo. Como fazê-lo? A primeira ação de derrubada é não se deixar levar pelo discurso petista calcado no temor da perda da hegemonia. Se o PT perder a hegemonia no campo progressista não será o fim do mundo, mas talvez a única maneira do partido de fato se reformular, estabelecendo uma autocrítica sincera, pois lhe restará reconhecer que não é mais possível caminhar entre o discurso purista e as práticas de especialista de esquerda da realpolitik.
É evidente, que a esta altura do texto, muitos leitores dirão, já quase no ataque ao autor: “mais com uma esquerda dessa, quem precisa de direita?”. Ora, os que assim pensam já estão completamente imersos nos mecanismos da lógica hegemônica do PT, incapazes de se abriram à crítica já a desmerecem por antecipação, apelando para a lógica simplista: se fosse realmente dos nossos, se estivesse ao nosso lado não diria isso. Confundido, assim, tutela com lealdade. E antes que digam que eu sou cirista de carteirinha segue o link do texto com as minhas considerações sobre Ciro Gomes.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A sociedade dos afetos regredidos, por Fran Alavina.

on 19/10/2017Categorias: Brasil, Cultura, Destaques, Sociedade
171019-Afetos
Num tempo de sensibilidades afloradas, certas emoções ocupam o centro da política. É neste ambiente que grupos primitivos porém hábeis em manipulação de afetos, como o MBL, tentam emergir
Por Fran Alavina | Imagem: William Gropper, Leilão de Arte (1959)
A experiência do mundo contemporâneo parece ter gerado um consenso estético de que vivemos tempos de insensibilidade. Ainda que possa soar como algo piegas, e independentemente do espectro político – progressista ou conservador – é cada vez mais audível o discurso de que o caos atual, essa desordem programada a que assistimos atônitos, como se fosse uma pura ficção, seria fruto de uma ordem de coisas de natureza insensível. Para direita e para a esquerda, o certo é que este mundo atual não é o melhor dos mundos possíveis.
Bastaria, por exemplo, ouvir os discursos de Jean-Luc Mélenchon (à esquerda) ou de Marina Le Pen (à extrema direita), nas últimas eleições presidenciais francesas para se ter certeza de que seus pressupostos eram, antes de tudo, estéticos. Um “amontoado” de elementos discursivos contra a insensibilidade. Não se quer com isso afirmar que os dois são iguais, mas sim que os dois estão submetidos a uma ordem presente que faz dos afetos, das emoções e de todo campo sensível o lugar político mais determinante. É preciso sensibilizar, emocionar, ganhar os afetos individuais como se eles fossem somente uma mera determinação subjetiva, uma disposição pessoal sem nexo com outras determinações histórico-sociais.
De fato, os usos perversos de nossas disposições afetivas criaram esta ilusão de que somos pequenos átomos sensíveis, de funcionalidade própria: sentiríamos sobre o que bem quiséssemos e como quiséssemos. A realidade seria apenas o ativador dos circuitos sensíveis que funcionariam de acordo com a nossa livre decisão. Ocorre, porém, que nossas disposições sensíveis e afetivas não estão autonomizadas da cultura, ou seja, elas não são meramente naturais, pois também são um construto social.
Nossa sensibilidade nunca é solitária, ela se forma na interação com o mundo, que nos aparece em um primeiro momento como uma comunidade sensível, isto é, como um lugar de seres que sentem de modo semelhante e em conjunto. Se alguém ri daquilo que nos faz chorar, conjecturamos que esta pessoa não é um dos nossos, pois incapacitada de formar conosco solidariedade afetiva. Do mesmo modo, se perante algo que causa profunda comoção social, alguém parece não se comover, dizemos que é um insensível; e, dependendo da situação, chega-se mesmo a colocar em questão sua humanidade. Aprendemos a medir o grau de humanização a partir de uma teia sensível, de uma gama de afetos que construímos ao longo do tempo, e que por nos conectar com nossa intimidade, acabamos naturalizando como se fosse algo já dado de uma vez por todas.
Em virtude dessa naturalização de algo que não é natural, quase não se percebe que no momento histórico que nossas capacidades sensíveis estão expostas a um grau máximo de excitação, diz-se que são tempos de insensibilidade: o período da sensibilização intermitente é dito insensível. Será que o nosso sentir tornou-se um não sentir? Será que na verdade nada sentimos quando achamos sentir?
A ascensão do virtual retirou do real a capacidade de ativador primeiro de nossa sensibilidade. Não que o real não nos excite mais, porém ele somente nos sensibilizará se nos for dado na forma do virtual. Uma mistura que quando subordina o real à forma do virtual leva a considerar, de modo estapafúrdio, que há uma “realidade aumentada”. Dessa mistura gesta-se uma confusão entre real e virtual, confusão que cria o paradoxo de que os tempos da sensibilidade absurda são tempos insensíveis. Mas aí o que se chama insensibilidade, na maioria das vezes, é incapacidade de lidar com os novos recursos que expandem nossa sensibilidade; em outros casos, é o contrário, trata-se da capacidade de gerir estes recursos de modo a se realizar uma gestão política dos afetos. Fazendo parecer que a manipulação sensível-afetiva possa se passar por espontânea e legítima, já que estamos acostumados a pensar que nossa sensibilidade age autonomamente perante seus ativadores.
As manifestações destituintes de 2015 e 2016 marcaram para nós um modelo de gestão política dos afetos. Nelas, os afetos da política foram transformados cada vez mais na política dos afetos. Do nosso lado, alguns contentaram-se com uma explicação superficial, que até hoje ainda vem à tona, de que o ódio explicaria por si só todo o circuito afetivo de uma passionalidade política reacionária. Se é certo que há uma boa parcela de ódio, ele não age sozinho, e, ademais, não pode ser assumido abertamente, uma vez que é uma das marcas da construção social de nossa sensibilidade que odiar não é o mais nobre dos sentimentos.
Neste modelo de gestão política dos afetos destacou-se um grupo gestor preparado: o MBL. Foi um dos principais articuladores de como se deveria sensibilizar para as manifestações. A desculpa de que a corrupção era o principal alvo, criou uma normalização dos afetos, pois quem não se moveria contra ela, quem não se indignaria contra o roubo? Contra a corrupção todos as reações eram legítimas, espontâneas, corretas, em uma palavra: eram naturais.
Esta naturalização vulgar dos afetos, que se não eram completamente manipulados, não se poderia dizer meramente espontâneos, deu lugar a um discurso que deve manipular a sensibilidade política para daí criar a ilusão que há um consenso, quando, na verdade, há apenas uma aglutinação de indivíduos que se movem por uma sensibilização que lhes é externa, e sobre a qual não possuem domínio, mas que para eles se mostra como algo espontâneo-natural.
Assim, a excitação que partiu do virtual, fez das ruas uma espécie de “realidade aumentada”, já que as manifestações continuavam a ocorrer mesmo depois de se ter ganhado as ruas e saído delas; e nestas mesmas ruas, elas ocorriam sob a forma do virtual. Era como se os vídeos assistidos nas páginas virtuais do MBL pudessem ser vistos apenas em outro lugar que não o computador, ou o aparelho celular, obedecendo, contudo, as mesmas formas. Era preciso excitar, de modo que ativação do estado de excitação política perdurasse o máximo possível, pois como bom gestor da manipulação emocional, o grupo sabe que não se pode exercer um domínio ininterrupto sobre um estado de excitação por demais prologando. O organismo excitado cansa, além de se dar por satisfeito quando desconfia ter alcançado o ápice de suas aspirações.
O orgasmo político já aconteceu, posto que a destituição foi realizada. Como nos momentos de pós-gozo, o grupo e seus mais fiéis seguidores aproveitaram-se dos rendimentos de sua estratégia política, elegeram vereadores alguns de seus mais destacados agentes excitadores, sem, logo após as manifestações destituintes provocar um novo estado de excitação do mesmo tipo. Era preciso elaborar um discurso legitimador da experiência orgástica, para que ela pudesse ser recordada e colocada em uso nos momentos em que não podendo ser de novo ativada, ao menos prometesse a repetição da experiência.
Sem a promessa de repetição, o grupo perderia sua legitimidade, já que se mostraria incapaz de conduzir novamente os mesmos estados de excitação. Daí ter chegado o tempo de realizar um novo circuito de comoção emocional e obscurecimento afetivo. Todavia, se agora não há mais um estado político capaz de pôr em marcha as estratégias da sensibilidade manipulada do grupo, como excitar de novo, já que seus seguidores já estavam sob um longo período de abstinência?
Ora, a estratégia foi então voltar-se para aquele campo que apela mais diretamente ao sensível: a Arte. Neste âmbito, como na Política, todo nosso campo afetivo pode liberar-se dos usos cotidianos e das experiências hodiernas que excitam pouco, e que se mostram para nós carentes de maior sentido. O deslocamento dos canhões midiáticos do grupelho, que se desviou dos eventos mais essencialmente políticos, não foi um simples desvio de foco, mas a tentativa de continuar chamando atenção, vinculando entre seus seguidores um estado de excitação como aquele de 2015 e de 16.
Pode-se identificar aí o mesmo princípio viciante dos narcóticos: após um longo período de abstinência, é preciso repetir a dose. Afirmar que o MBL é uma droga não é uma sentença de sentido metafórico, mas plenamente literal. Por conseguinte, é preciso ficar atento, já que uma vez estabelecido o ciclo vicioso, a tendência é que a dosagem seja aumentada. De fato, funcionando como um tipo de ópio – talvez se pudesse dizer o ópio dos liberais, se liberais por aqui houvesse – o MBL descaracteriza a realidade, dando a seus seguidores aquilo que pode excitá-los mais uma vez. O princípio de realidade é substituído pelo princípio de prazer, pois a ilusão e a farsa, na grande maioria dos casos, são mais prazerosas que a realidade.
De fato, não estava em questão uma discussão de cunho estético sobre as obras que o grupo se empenhou em destratar em obsessivos expurgos. A experiência artística foi deixada em segundo plano para dar lugar a um tipo de julgamento moral. Este joga com a vulgarização e o empobrecimento do campo sensível-afetivo. Na verdade, quando perguntamos a alguém que se deixou contaminar pela manipulação do MBL, declarando-se contra as exposições, sobre qual justificativa estética embasou a crítica, no geral ouve-se que não é arte. Então, quando se pergunta qual a sua respectiva definição de arte para que se possa separar o artístico do não artístico, o silêncio é a resposta mais frequente e menos vergonhosa. Depois de mais algumas indagações, apenas se repete: “aquilo lá não era Arte”! Mas baseado em que se diz que não é Arte? De novo o silêncio, ou o balbuciar de uma tentativa de resposta que não vai além de uma referência ensimesmada.
Se o grupo fosse honesto em suas condenações estéticas, e até mesmo, um pouco menos embrutecido, poderia ter acrescido às suas justificativas uma noção de poética, de quais regras considera válidas no plano do fazer artístico. Ou mesmo poderia apresentar exemplos daquilo que consideram como arte autêntica. Contudo, isso seria exigir demais…
Em recente entrevista-almoço, uma das suas lideranças mais destacada, ao justificar os atos contra as exposições, mostrou quão ricos são seus conhecimentos. As exposições devem ser fechadas, segundo ele, por serem financiadas com dinheiro público. Não aparece, uma única vez, um mísero argumento de caráter estético. Tudo se passa como se ele estivesse tratando de um delito comum, ou de uma de suas simplificações de economia liberal. Segundo ele, em tempos de crise, Arte não é prioridade. Depreende-se de sua resposta que o artístico é um bem de luxo, não uma necessidade humana essencial. Sua resposta deixa ver que, como já desconfiávamos, nunca se tratou de Arte, mas de reativar a sanha manipuladora de afetos do MBL.
Esta sanha, porém, não pode se mostrar como é: embrutecida e criadora de afetos repressores. É preciso dar uma roupagem de civilidade. Durante suas respostas, Kim usa chavões como dizer que defende os pilares da civilização ocidental “que basicamente são a filosofia grega, o direito romano e a religiosidade judaico-cristã”. Quase no fim da entrevista afirma que “de inspiração filosófica, sou platônico, acho que a ideia precede a matéria, acho que isto ajuda a ter a compreensão de que existe certo e errado, minha visão anti-relativista vem daí, de Platão”. Qualquer estudante de Filosofia do primeiro semestre sabe que está frase é uma das maiores vulgarizações do pensamento platônico, coisa de quem, de fato, nunca se dedicou seriamente à leitura dos diálogos do pensador grego — é aquele tipo de coisa que se diz à mesa para se parecer mais culto. Ah, tinha esquecido que a entrevista foi durante um almoço!
Contudo, no caso do afilado Kim, que se diz liberal, isto é ainda pior, pois se tivesse lido um dos diálogos do autor que diz ser sua fonte de inspiração, saberia que no seu modelo político ideal, o Estado deve exercer um tipo de controle quase absoluto, bem mais além das intervenções estatais que o moço do MBL tanto combate. Seria apenas tragicamente contraditório, se também não fosse cômico: eleger como uma de suas fontes de inspiração alguém que afirma o contrário do que você defende. A explicação dessa contradição, contudo, está em uma declaração dada um pouco antes. Sobre uma obra citada, ele diz: “esse, eu confesso que não li inteiro, só uns capítulos porque é grande o negócio”. Talvez ele nunca leia A República, de Platão, sua inspiração filosófica, para se dar conta da contradição, pois, como ele mesmo diz, “é grande o negócio”…
Kim parece gostar de livros tão curtos quanto suas ideias.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A sociedade dos afetos regredidos por Fran Alavina.

on 19/10/2017Categorias: Brasil, Capa, Cultura, Sociedade
171019-Afetos
Num tempo de sensibilidades afloradas, certas emoções ocupam o centro da política. É neste ambiente que grupos primitivos porém hábeis em manipulação de afetos, como o MBL, tentam emergir
Por Fran Alavina | Imagem: William Gropper, Leilão de Arte (1959)
A experiência do mundo contemporâneo parece ter gerado um consenso estético de que vivemos tempos de insensibilidade. Ainda que possa soar como algo piegas, e independentemente do espectro político – progressista ou conservador – é cada vez mais audível o discurso de que o caos atual, essa desordem programada a que assistimos atônitos, como se fosse uma pura ficção, seria fruto de uma ordem de coisas de natureza insensível. Para direita e para a esquerda, o certo é que este mundo atual não é o melhor dos mundos possíveis.
Bastaria, por exemplo, ouvir os discursos de Jean-Luc Mélenchon (à esquerda) ou de Marina Le Pen (à extrema direita), nas últimas eleições presidenciais francesas para se ter certeza de que seus pressupostos eram, antes de tudo, estéticos. Um “amontoado” de elementos discursivos contra a insensibilidade. Não se quer com isso afirmar que os dois são iguais, mas sim que os dois estão submetidos a uma ordem presente que faz dos afetos, das emoções e de todo campo sensível o lugar político mais determinante. É preciso sensibilizar, emocionar, ganhar os afetos individuais como se eles fossem somente uma mera determinação subjetiva, uma disposição pessoal sem nexo com outras determinações histórico-sociais.
De fato, os usos perversos de nossas disposições afetivas criaram esta ilusão de que somos pequenos átomos sensíveis, de funcionalidade própria: sentiríamos sobre o que bem quiséssemos e como quiséssemos. A realidade seria apenas o ativador dos circuitos sensíveis que funcionariam de acordo com a nossa livre decisão. Ocorre, porém, que nossas disposições sensíveis e afetivas não estão autonomizadas da cultura, ou seja, elas não são meramente naturais, pois também são um construto social.
Nossa sensibilidade nunca é solitária, ela se forma na interação com o mundo, que nos aparece em um primeiro momento como uma comunidade sensível, isto é, como um lugar de seres que sentem de modo semelhante e em conjunto. Se alguém ri daquilo que nos faz chorar, conjecturamos que esta pessoa não é um dos nossos, pois incapacitada de formar conosco solidariedade afetiva. Do mesmo modo, se perante algo que causa profunda comoção social, alguém parece não se comover, dizemos que é um insensível; e, dependendo da situação, chega-se mesmo a colocar em questão sua humanidade. Aprendemos a medir o grau de humanização a partir de uma teia sensível, de uma gama de afetos que construímos ao longo do tempo, e que por nos conectar com nossa intimidade, acabamos naturalizando como se fosse algo já dado de uma vez por todas.
Em virtude dessa naturalização de algo que não é natural, quase não se percebe que no momento histórico que nossas capacidades sensíveis estão expostas a um grau máximo de excitação, diz-se que são tempos de insensibilidade: o período da sensibilização intermitente é dito insensível. Será que o nosso sentir tornou-se um não sentir? Será que na verdade nada sentimos quando achamos sentir?
A ascensão do virtual retirou do real a capacidade de ativador primeiro de nossa sensibilidade. Não que o real não nos excite mais, porém ele somente nos sensibilizará se nos for dado na forma do virtual. Uma mistura que quando subordina o real à forma do virtual leva a considerar, de modo estapafúrdio, que há uma “realidade aumentada”. Dessa mistura gesta-se uma confusão entre real e virtual, confusão que cria o paradoxo de que os tempos da sensibilidade absurda são tempos insensíveis. Mas aí o que se chama insensibilidade, na maioria das vezes, é incapacidade de lidar com os novos recursos que expandem nossa sensibilidade; em outros casos, é o contrário, trata-se da capacidade de gerir estes recursos de modo a se realizar uma gestão política dos afetos. Fazendo parecer que a manipulação sensível-afetiva possa se passar por espontânea e legítima, já que estamos acostumados a pensar que nossa sensibilidade age autonomamente perante seus ativadores.
As manifestações destituintes de 2015 e 2016 marcaram para nós um modelo de gestão política dos afetos. Nelas, os afetos da política foram transformados cada vez mais na política dos afetos. Do nosso lado, alguns contentaram-se com uma explicação superficial, que até hoje ainda vem à tona, de que o ódio explicaria por si só todo o circuito afetivo de uma passionalidade política reacionária. Se é certo que há uma boa parcela de ódio, ele não age sozinho, e, ademais, não pode ser assumido abertamente, uma vez que é uma das marcas da construção social de nossa sensibilidade que odiar não é o mais nobre dos sentimentos.
Neste modelo de gestão política dos afetos destacou-se um grupo gestor preparado: o MBL. Foi um dos principais articuladores de como se deveria sensibilizar para as manifestações. A desculpa de que a corrupção era o principal alvo, criou uma normalização dos afetos, pois quem não se moveria contra ela, quem não se indignaria contra o roubo? Contra a corrupção todos as reações eram legítimas, espontâneas, corretas, em uma palavra: eram naturais.
Esta naturalização vulgar dos afetos, que se não eram completamente manipulados, não se poderia dizer meramente espontâneos, deu lugar a um discurso que deve manipular a sensibilidade política para daí criar a ilusão que há um consenso, quando, na verdade, há apenas uma aglutinação de indivíduos que se movem por uma sensibilização que lhes é externa, e sobre a qual não possuem domínio, mas que para eles se mostra como algo espontâneo-natural.
Assim, a excitação que partiu do virtual, fez das ruas uma espécie de “realidade aumentada”, já que as manifestações continuavam a ocorrer mesmo depois de se ter ganhado as ruas e saído delas; e nestas mesmas ruas, elas ocorriam sob a forma do virtual. Era como se os vídeos assistidos nas páginas virtuais do MBL pudessem ser vistos apenas em outro lugar que não o computador, ou o aparelho celular, obedecendo, contudo, as mesmas formas. Era preciso excitar, de modo que ativação do estado de excitação política perdurasse o máximo possível, pois como bom gestor da manipulação emocional, o grupo sabe que não se pode exercer um domínio ininterrupto sobre um estado de excitação por demais prologando. O organismo excitado cansa, além de se dar por satisfeito quando desconfia ter alcançado o ápice de suas aspirações.
O orgasmo político já aconteceu, posto que a destituição foi realizada. Como nos momentos de pós-gozo, o grupo e seus mais fiéis seguidores aproveitaram-se dos rendimentos de sua estratégia política, elegeram vereadores alguns de seus mais destacados agentes excitadores, sem, logo após as manifestações destituintes provocar um novo estado de excitação do mesmo tipo. Era preciso elaborar um discurso legitimador da experiência orgástica, para que ela pudesse ser recordada e colocada em uso nos momentos em que não podendo ser de novo ativada, ao menos prometesse a repetição da experiência.
Sem a promessa de repetição, o grupo perderia sua legitimidade, já que se mostraria incapaz de conduzir novamente os mesmos estados de excitação. Daí ter chegado o tempo de realizar um novo circuito de comoção emocional e obscurecimento afetivo. Todavia, se agora não há mais um estado político capaz de pôr em marcha as estratégias da sensibilidade manipulada do grupo, como excitar de novo, já que seus seguidores já estavam sob um longo período de abstinência?
Ora, a estratégia foi então voltar-se para aquele campo que apela mais diretamente ao sensível: a Arte. Neste âmbito, como na Política, todo nosso campo afetivo pode liberar-se dos usos cotidianos e das experiências hodiernas que excitam pouco, e que se mostram para nós carentes de maior sentido. O deslocamento dos canhões midiáticos do grupelho, que se desviou dos eventos mais essencialmente políticos, não foi um simples desvio de foco, mas a tentativa de continuar chamando atenção, vinculando entre seus seguidores um estado de excitação como aquele de 2015 e de 16.
Pode-se identificar aí o mesmo princípio viciante dos narcóticos: após um longo período de abstinência, é preciso repetir a dose. Afirmar que o MBL é uma droga não é uma sentença de sentido metafórico, mas plenamente literal. Por conseguinte, é preciso ficar atento, já que uma vez estabelecido o ciclo vicioso, a tendência é que a dosagem seja aumentada. De fato, funcionando como um tipo de ópio – talvez se pudesse dizer o ópio dos liberais, se liberais por aqui houvesse – o MBL descaracteriza a realidade, dando a seus seguidores aquilo que pode excitá-los mais uma vez. O princípio de realidade é substituído pelo princípio de prazer, pois a ilusão e a farsa, na grande maioria dos casos, são mais prazerosas que a realidade.
De fato, não estava em questão uma discussão de cunho estético sobre as obras que o grupo se empenhou em destratar em obsessivos expurgos. A experiência artística foi deixada em segundo plano para dar lugar a um tipo de julgamento moral. Este joga com a vulgarização e o empobrecimento do campo sensível-afetivo. Na verdade, quando perguntamos a alguém que se deixou contaminar pela manipulação do MBL, declarando-se contra as exposições, sobre qual justificativa estética embasou a crítica, no geral ouve-se que não é arte. Então, quando se pergunta qual a sua respectiva definição de arte para que se possa separar o artístico do não artístico, o silêncio é a resposta mais frequente e menos vergonhosa. Depois de mais algumas indagações, apenas se repete: “aquilo lá não era Arte”! Mas baseado em que se diz que não é Arte? De novo o silêncio, ou o balbuciar de uma tentativa de resposta que não vai além de uma referência ensimesmada.
Se o grupo fosse honesto em suas condenações estéticas, e até mesmo, um pouco menos embrutecido, poderia ter acrescido às suas justificativas uma noção de poética, de quais regras considera válidas no plano do fazer artístico. Ou mesmo poderia apresentar exemplos daquilo que consideram como arte autêntica. Contudo, isso seria exigir demais…
Em recente entrevista-almoço, uma das suas lideranças mais destacada, ao justificar os atos contra as exposições, mostrou quão ricos são seus conhecimentos. As exposições devem ser fechadas, segundo ele, por serem financiadas com dinheiro público. Não aparece, uma única vez, um mísero argumento de caráter estético. Tudo se passa como se ele estivesse tratando de um delito comum, ou de uma de suas simplificações de economia liberal. Segundo ele, em tempos de crise, Arte não é prioridade. Depreende-se de sua resposta que o artístico é um bem de luxo, não uma necessidade humana essencial. Sua resposta deixa ver que, como já desconfiávamos, nunca se tratou de Arte, mas de reativar a sanha manipuladora de afetos do MBL.
Esta sanha, porém, não pode se mostrar como é: embrutecida e criadora de afetos repressores. É preciso dar uma roupagem de civilidade. Durante suas respostas, Kim usa chavões como dizer que defende os pilares da civilização ocidental “que basicamente são a filosofia grega, o direito romano e a religiosidade judaico-cristã”. Quase no fim da entrevista afirma que “de inspiração filosófica, sou platônico, acho que a ideia precede a matéria, acho que isto ajuda a ter a compreensão de que existe certo e errado, minha visão anti-relativista vem daí, de Platão”. Qualquer estudante de Filosofia do primeiro semestre sabe que está frase é uma das maiores vulgarizações do pensamento platônico, coisa de quem, de fato, nunca se dedicou seriamente à leitura dos diálogos do pensador grego — é aquele tipo de coisa que se diz à mesa para se parecer mais culto. Ah, tinha esquecido que a entrevista foi durante um almoço!
Contudo, no caso do afilado Kim, que se diz liberal, isto é ainda pior, pois se tivesse lido um dos diálogos do autor que diz ser sua fonte de inspiração, saberia que no seu modelo político ideal, o Estado deve exercer um tipo de controle quase absoluto, bem mais além das intervenções estatais que o moço do MBL tanto combate. Seria apenas tragicamente contraditório, se também não fosse cômico: eleger como uma de suas fontes de inspiração alguém que afirma o contrário do que você defende. A explicação dessa contradição, contudo, está em uma declaração dada um pouco antes. Sobre uma obra citada, ele diz: “esse, eu confesso que não li inteiro, só uns capítulos porque é grande o negócio”. Talvez ele nunca leia A República, de Platão, sua inspiração filosófica, para se dar conta da contradição, pois, como ele mesmo diz, “é grande o negócio”…
Kim parece gostar de livros tão curtos quanto suas ideias.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Cura gay: os “cristãos” contra Cristo, por Fran Alavina.

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Ao recorrerem à Psicologia, os que querem dominar os desejos reconhecem os limites da Religião. Mas reproduzem o mesmo dispositivo que resultou na cruz
Por Fran Alavina | Imagem: A coroação de espinhos, Michelangelo Merisi da Caravaggio, circa 1604
O debate sobre a decisão judicial que dá margem legal para a estapafúrdia “cura gay” além de ter recebido as reações devidas nos últimos dias – reações que devem aumentar –, também dá lugar para que se possa ter uma visão mais complexa do que se esconde sobre esta lógica do absurdo. Absurdidade que, por se manter na longa duração da história da repressão dos desejos dissidentes e da objetivação do corpo, acaba por se apresentar para muitos como normalidade na história da nossa cultura. De fato, quando comparado com a história da sexualidade no Ocidente, este absurdo é a regra e não a exceção. Regras de uma suposta “normalidade”, datada desde quando o cristianismo como forma religiosa hegemônica e como tipo de consciência política dominante estabeleceu para nós a moralidade dos afetos tristes. Tristes, pois afetos que se regem não pela liberdade do agir, mas pela conduta proibitiva; não pela completude, porém pela interdição. Trata-se de uma submissão do desejo àqueles que não gozando – no caso católico está parcela que em tese não possui o gozo sexual é o clero – podem prescrever as regras do gozo permitido.
Ora, o que é esta bizarrice da “cura gay” senão a velha proibição do prazer, a antiga interdição do gozo que o cristianismo na sua versão protestante, evangélica ou neopentecostal, herdou da versão católica? A estratégia evangélica que agora obteve uma vitória temporária, porém expressiva, não possui nada de novo. Ela imita um projeto de poder sobre o corpo por meio da submissão às superstições teológicas de um saber determinado e legitimamente constituído. Uma submissão do saber ao proselitismo da crença, em primeiro lugar, pois capaz de oferecer uma garantia segura para uma submissão dos corpos e dos desejos, já que discurso de poder mascarado de discurso de saber.
Em outras palavras, o debate sobre a “cura gay” é um dos dispositivos que nos permitem ver em sua inteireza a relação entre saber e poder, síntese de um inescrupuloso desejo de dominação, desejo que se dá a ver em um momento em que não basta apenas a servidão voluntária, ou seja, quando os mecanismos hodiernos da corrida proselitista estão esgarçados. Não é mera coincidência que agora, após os neopentecostais, evangélicos e católicos chegarem ao ápice de sua escalada midiática, recorra-se a um discurso que, por princípio, os prosélitos rechaçam: o discurso científico.
Não é pouca coisa que se tente usar de um determinado saber médico que não se dirige diretamente ao uso dos corpos, mas à subjetividade: a psicologia. Ora, é justamente sobre este âmbito, o âmbito da psique, que se dá o campo de atuação das religiões. Um grande pensador disse uma vez que o poder mais forte é aquele que reina sobre os ânimos. É aí que reina o discurso religioso, capaz de propiciar a mais forte das coações: a coação interna.
O homem religioso é, antes de tudo, um ser de paixão. Seu mundo é tecido por camadas de afetividade que se desdobram para além das razões, ou dos absurdos aparentes. O que carece de sentido aos olhos do crente terá sentido único e reconciliador no sentimento. Como descreve Pascal ao longo dos seus fragmentários Pensamentos, a razão da fé é demostrar que ela não possui razão alguma. Isso não quer dizer que o sentimento religioso se confunda com o puro irracionalismo, ou que seja uma esfera carente de sentido, mas que por sua própria constituição será sempre mais um discurso de paixão do que de razão potanto um discurso auto-referente que fará do outro, daquilo que lhe é estranho e diferente, um elemento de incômodo que quando não pode ser apagado sem deixar resquícios, deve ser modificado para ser subsumido. Ou seja, deve deixar de ser o que é, o diferente, para se tornar o igual. Portanto, da alteridade à repetição.
Toda paixão forte, como aquela da religião, quer fazer de si a regra e a régua do mundo. É próprio da passionalidade forte acomodar-se apenas àquilo que lhe é semelhante. As divisões em inúmeras seitas e denominações que pululam na história do cristianismo é prova viva do expurgo do diferente. É próprio deste tipo de consciência religiosa, em que a paixão encontra seus níveis mais altos, expurgar o dessemelhante. O que é a história dos primeiros concílios senão a longa batalha do expurgo do diferente, que uma vez expulso completa a figura do herege, daquele que não possuindo mais nenhum vínculo com sua antiga comunidade pode ser objeto do mais poderoso dos ódios, segundo Espinosa, o ódio teológico?
Ao longo dos séculos, o outro para o cristão tornou-se em primeiro lugar aquele que não pertence mais ao grupo primitivo, mesmo que este outro ainda se diga cristão. O modo como o cristianismo – em suas mais diversas versões – lida com a homossexualidade é um espelho de como ele se fossilizou no trato com a diferença. É por isso que a homossexualidade traz à tona o ódio, quase insano, dos prosélitos, pois é a mais absoluta diferença em relação a uma moralidade dita “normal” e “natural”. É a liberdade de um corpo e a autodeterminação de um prazer constituinte que não apenas rompe com o círculo do gozo prescrito, mas reinventa os lugares e os objetos do gozo. Não por outro motivo, o prosélito sempre verá menor culpa no homem adúltero do que no homem gay. Um desobedece certo aspecto da moralidade aceita, mas não se coloca fora dela; já o outro, está completamente fora dos seus limites.
Há aqui, neste dispositivo do afeto, uma sutiliza que não deve ser desconsiderada. O gay só se faz outro porque estabelece uma relação incomum entre iguais. Nossa alteridade é a expressão dos iguais, e não uma alteridade da exclusão, ou do expurgo do diferente. Sutileza irônica esta, posto que foi justamente por também estabelecer uma relação incomum entre iguais, por se fazer um com os seus, que o galileu das periferias do império romano tornou-se o outro, o absolutamente outro, tanto que foi remetido à execração pública e à morte ignominiosa. Era tão outro que não poderia mais ser subsumido e aceito no interior de sua antiga comunidade. A transexual que corajosamente se apresentou publicamente crucificada, há alguns anos, na Parada Gay de S.Paulo, apenas nos deu simbolicamente esta semelhança entre o dispositivo afetivo de gays e lésbicas e o dispositivo afetivo do cristianismo das origens.
Uma vez que a relação incomum entre os iguais torna-se o pecado sem perdão, é preciso – já que não é mais possível realizar fogueiras públicas – retirar a homossexualidade da esfera do pecado, isto é, do simples discurso religioso e realocá-lo no discurso médico, portanto transformando em uma patologia que se submete a certa clínica. Assim, o pecado sem perdão transfigura-se em “doença curável”, enfermidade não apenas da alma, mas do desejo que pode ser passível de tratamento. Já que não se pode apagar fisicamente o diferente, se distorce àquilo que é sua maior determinação, o desejo, para apagar a diferença e subsumir o “anormal” na “normalidade”.
Por isso, o uso de um saber que, além de ser capaz de emprestar rigor de ciência às meras opiniões de uma moralidade imposta, também é um saber médico, um conhecimento clínico. Um saber capaz de se prestar ao papel, quando manejado na mão torta dos prosélitos, de realizar a medicina da culpa. Aí, se dá a passagem do pecado à enfermidade, ou seja, do discurso meramente religioso para o discurso médico.
É um instrumento de poder refinado que gente como Silas Mafalafaia declare-se psicólogo, que os proponentes da “cura gay” sejam prosélitos dos setores mais alinhados com o atraso, mas que sejam tratados, segundo a determinação judicial, como “pesquisadores”. O uso interessado de um certo saber médico para a confirmação das posições teológicas é o reconhecimento dos limites da crença, porém expõe também que o desejo de dominação de um tipo de consciência religiosa tende a não encontrar limites – é o mesmo tipo de consciência religiosa que distorce os sentidos do Estado laico, que confunde propositalmente violência simbólica com liberdade de expressão. Este desejo de dominação, para não se apresentar tão claramente – pois sabe que não pode mostrar à luz do dia suas entranhas protofascistas –, subverte saberes e agora encontra amparo no último poder que faltava à sua conquista: o Judiciário, o protagonista do momento.
É um momento difícil, no qual o dispositivo afetivo de desejo entre os iguais é confrontado violentamente por outro desejo, o desejo de dominação e submissão. Assim, para além de absurda e quão caricata possa ser a questão, está em jogo um problema político dos mais determinantes, pois como dizia certo odiado pensador, é própria do corpo político saudável o desejo de não se deixar dominar. Ora, quando um dos elementos desse corpo político deseja dominar, vê-se o quanto está doente este corpo. Portanto, vale agora, mais uma vez, o alerta de Pasolini: “Estamos Todos Em Perigo”!

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Foucault, as Palavras e as Coisas Por Fran Alavina.



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É sintomático que Temer odeie o termo “golpe”. Nas “democracias” esvaziadas, não se tenta usurpar apenas o poder político, mas também o sentido dos termos. Por isso, a Resistência é também um ato linguístico
Por Fran Alavina
Parafraseando um texto clássico de Michel Foucault, As palavras e As Coisas [Le Mots et Les Choses] que agora em 2016 completa 50 anos de sua primeira edição, podemos afirmar que o poder se exerce sobre as palavras e as coisas. E nesses dias trágicos da vida nacional popular, tal se mostra cada vez mais claramente. O pensador francês nos faz ver ao longo de sua obra, arguta e perspicaz, que o poder não se exerce apenas sob a forma dos aparelhos repressores — ou seja, o poder não é apenas aquele que se impõe pela força física, pela coação do corpo. O poder também se faz no e por meio dos discursos. Mesmo aqueles que não são proferidos dos clássicos lugares do poder, são discursos de poder. Por isso, o caráter discursivo do Golpe não é menor que seu caráter político. São indissociáveis, pois não há política sem discurso, não há vida política sem a ação das palavras que significam e ressignificam as coisas. Sem a palavra, sobra ao poder apenas a coação física, mas esta forma, embora possa ser mais rápida e direta, é menos sutil, portanto mais fácil de ser denunciada. Espinosa, pensador seiscentista, ao denunciar os mecanismos de poder, nos lembra que: “o maior poder é aquele que reina sobre os ânimos (…)”1. Ora, mas como se estrutura esse poder que dispensando a força física, se exerce diretamente sobre os ânimos? Ele se estrutura pelos discursos, é sustentado pelas palavras, uma vez que há uma vinculação direta entre os nossos ânimos e os sentidos das palavras e das coisas.
Desde os gregos, e depois com a tradição retórica civil dos romanos, é fato que a palavra detém maior força nos regimes democráticos e republicanos. A possibilidade da palavra pública torna vivaz a vida democrática, pois os outros regimes políticos são regimes da letra morta (quando na oligarquia o direito da multidão transforma-se nos privilégios de alguns), ou da palavra de um só (nos regimes monárquicos). Ora, segundo aqueles autores da antiguidade clássica, primeiros justificadores da vida democrática, onde a Democracia fenece, degenera-se conjuntamente a potência da livre palavra. Desse modo, todo livre discurso público, toda fala coletiva é índice de vivacidade do regime democrático.
Assim, quando em uma Democracia, as palavras e seus sentidos — que são um bem comum, cotidiano e simbólico de todos, posto que pertencem ao povo, que age delimitando e estabelecendo novos sentidos — são forçadas a mudar pelo árbitro de um, ou de um grupo particular, sabemos que há algo fora da normalidade democrática. Usurpações de poder nunca se restringem apenas à esfera institucional mais imediata. Se o poder se faz pelo discurso, de modo que o próprio discurso é um elemento de poder, o discurso é o poder que se faz não apenas sobre os falantes, mas também se exerce sobre o próprio discurso, isto é, se exerce também sobre as palavras e os termos, que são a unidade mínima de todo discurso. O comando discursivo é a voz do poder; e o silêncio, o signo da obediência: consentida ou imposta.
É próprio dos regimes totalitários proibirem o uso de termos, promovendo um tipo de higienização da língua e dos discursos. Na Itália fascista de Mussolini, por exemplo, procurou-se varrer do território italiano todo falar e expressividade dialetal. A língua do povo era tida como indigna da suposta supremacia do novo regime. Supremacia que também deveria ser linguística e expressiva. No Brasil, este caráter fascista da imposição linguística e vocabular se exerce todos os dias pelo ódio de classe e pela busca de distinção social, quando aqueles que dominam a norma culta da língua usam este elemento como caráter distintivo e discriminatório. Tal vertente fascista se expressa mais ainda quando a língua do povo, gírias e construções discursivas forjadas no cotidiano nacional-popular são levadas para a mídia sob a forma do entretenimento. Sempre apresentada com a roupagem do exótico, escondendo por baixo da capa da curiosidade e do riso, o preconceito vocabular. Quem quiser ver uma boa amostra disso, acesse, por exemplo, os programas da Regina Casé, mais particularmente o “esquenta”. Neste, há a redução da língua do povo ao riso e ao escracho. O jeito espontâneo e criativo de falar do povo torna-se o divertimento dos telespectadores.
Ou ainda, por exemplo, quando os jovens da classe média paulistana tentam se apropriar das expressões da quebrada. Cada vez que pronunciam um mano, ou um suave em tom afirmativo, cometem um estupro vocabular. As palavras saem de suas bocas como que empurradas e constrangidas, pois são usurpadas do mundo de sentido no qual foram forjadas. São obrigados, os jovens da classe média, a usurpar termos, porque seu mundo linguístico é de uma penúria espantosa. A linguagem dos meios técnicos-midiáticos-informacionais lhes rouba a expressividade espontânea e a criatividade vocabular, uma vez que vivem atochados entre a imposição da norma culta e o poder da linguagem uniformizada das mídias. Dessa maneira, são forçados a ser delinquentes da língua. Não podendo usar a norma culta imitando sua melhor forma, por um lado; por outro, também não podendo criar novos termos, pois a uniformização midiática retira dos falantes a criatividade linguística, não lhes resta senão usurpar e copiar em uma imitação pobre e simplória. Fazem como fizeram seus pais ao saírem às ruas nos domingos protofascitas. Copiavam a melodiam da música de Vandré, Pra não dizer que não falei das flores, ou imitavam e usurpavam a palavra de ordem Lula, guerreiro do povo brasileiro, por uma frase de mesmo sujeito, mas de predicado diferente. Esta pobreza criativa da expressividade ganha sua forma mais loquaz no uso das camisas da CBF. Não poderia ser diferente, nada nos domingos protofascistas era espontâneo, pois não há espontaneidade no fascismo.
TEXTO-MEIO
Essas usurpações discursivas cotidianas agora se mostram sob outro prisma, aquele político, dos discursos do centro do poder. O novo velho que chega pela usurpação, isto é, pelo Golpe, demanda a criação de legitimidade, operando em um sentido contrário ao da normalidade. Pois em regimes democráticos se supõe que quem chega ao poder, chega em virtude da legitimidade popular. De modo que essa legitimidade precede o próprio exercício do poder, logo este último é a própria expressão da legitimidade. Nos casos anormais, como o que vivemos, o exercício do poder precede a legitimidade. Por isso, sendo ilegítimo, necessita criar rapidamente uma legitimidade forçada, falsa e artificial, porém que sirva de cortina para esconder a violência brutal de chegar ao poder pela usurpação. Para tanto, a criação da legitimidade, precedida por uma violência, também ocorre de modo violento. Trata-se de anular as narrativas divergentes, de proibir termos, de querer dobrar à força o sentido das palavras e das coisas. Criando, dessa maneira, uma uniformização narrativa, que é o roubo da livre palavra, o cerceamento da divergência no espaço da palavra pública. É evidente que o poder usurpador e ilegítimo não pode fazer isso sozinho, pois o sentido das palavras e das coisas não é monopólio de ninguém.
Ocorre, porém, que isto, o furto da livre palavra não é algo extraordinário, posto que nas democracias contemporâneas a livre palavra é ameaçada hodiernamente pelos impérios mediáticos. De fato, são verdadeiros impérios, pois são propriedades de famílias que agem despoticamente em favor de seus próprios interesses. De tal modo, que o espaço público da livre palavra não é outra coisa que a defesa de interesses privados e escusos. Tal nos remete, desde já, para um dos sintomas de crise das democracias representativas contemporâneas. Estas estão intrinsecamente unidas à formação da esfera pública da livre expressão por meio da imprensa. Mas quando aquilo que antes esteve ligado à própria constituição da vida democrática torna-se seu veneno, estamos em um curto circuito constitutivo.
Não apenas o exercício do poder político é delegado aos representantes que o exercem em nome dos eleitores, mas a própria possibilidade da livre palavra, do direito ao espaço público da fala se dá por meio da representação. De modo que a livre expressão também está nas garras, isto é, presa aos limites da representação. Com efeito, este exercício da livre palavra feita de modo representativo ocorre quando aquilo que se considera ser a opinião pública se identifica diretamente com o monopólio midiático, quando a opinião pública nada mais é que o acordo forjado entre o editorial do grande jornal e a notícia manipulada da capa, sob o signo de ser um fato; e, não uma informação. Desse modo, quando a opinião pública é tragada pelo monopólio faccioso da notícia, já está montado todo um arsenal de usurpação da livre palavra que precede a própria usurpação do poder. Antes da usurpação feita pelo golpe institucional, já havia a usurpação da palavra, isto é, o golpe cotidiano que é dado contra toda voz divergente.
Donde a livre palavra estar constantemente ameaçada, mesmo na Democracia, pois a regra é a manipulação sob a forma da informação. Contudo, há coisas que são de tal modo absurdamente usurpadoras que nem a mais ferrenha manipulação pode esconder, ou escamotear. É o caso do uso da palavra GOLPE! Ora, sobre ela não se trata simplesmente de uma disputa de narrativas diferentes. Mas, da legitimidade das narrativas, sustentada no sentido, e não no termo em si. É o sentido da palavra que impõe ao usurpador a vergonha de não querer carregar sobre si o termo. Não só isso, a recusa do termo golpe esconde um sentido mais amplo, porém pouco discutido. Trata-se dos golpes contíguos que se seguem do golpe maior. Como é o caso da reforma da providência, cujo sentido do termo reformar é revogar. É o caso da flexibilização da CLT, cujo sentido é o mesmo: revogar. Também no caso da reforma do ensino médio, cujo sentido do termo é enfraquecer e fragilizar a educação pública. Há outros inúmeros exemplos do mesmo tipo, de distorção entre o termo e o sentido, mais que se nutrem de um sentido maior: golpe. Golpe contra a previdência, contra as leis trabalhistas, golpe contra o ensino publico. O governo usurpador, ao usurpar o poder, também busca usurpar o sentido das palavras e das coisas.
O jogo político também se decidirá sobre o plano linguístico, pois é no campo discursivo, apontando o real sentido dos termos, que a denúncia dos golpes contíguos, que tentam se seguir do golpe maior, deverá ser feita. Toda denúncia no jogo do poder também é um ato discursivo: que dá a ver o que deve mostrar2. O ato de desnudar o sentido que os termos do governo usurpador escondem também é um oportunidade para reconstruirmos nosso léxico político, que agora se nutre do sentido maior da Resistência. É preciso forjar o novo sentido da resistência, um novo vocabulário político que nasça das ruas, que agora ocupamos, e que não seja cooptada pela linguagem da homologação e da uniformização midiática.
Podem até distorcer os sentidos das palavras e das coisas em consonância com a usurpação do poder; podem tentar nos impor o monopólio da fala pública e a uniformização da opinião, mas não nos calarão! Podem nos cercear, mas não silenciaremos. Carregamos os sentidos da Resistência em nosso próprio corpo, desde o dia em que ousamos ser mais do que aquilo a que nos destinavam. A voz silenciada não emudece o pensamento, embora lhe possa desferir golpes lancinantes. Cada palavra de ordem que gritarmos, cada termo que forjarmos na nossa hodierna não trégua ao golpismo difuso, será um ato de restituição da livre palavra da qual se nutre a vida verdadeiramente democrática. A Resistência também é um ato linguístico: é o ato da fala persistente, é o ato da voz ousada que sustenta o sentido: das palavras e das coisas. E dar sentido às palavras e às coisas é um dos atos de resistências mais primordiais, quando além de usurparem o poder, querem usurpar até mesmo a nossa voz. Para tanto, sirvam-nos de inspiração as palavras de nosso maior poeta popular, Patativa do Assaré, homem que via o sentido das palavras nas próprias coisas, e nos advertia: “é melhor escrever errado a coisa certa, do que escrever certo a coisa errada”.
1 Espinosa, Tratado Teológico-Político, p. 252.
2 Foucault, As palavras e as Coisas, p. 23.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Sobre mesóclises, mediocridade e a ameaça fascista, por Fran Alavina.



Todo fascista é, antes de tudo, um medíocre. Mas considera esta constatação uma afronta — e reage violento.  Evitar que esta passionalidade torne-se perene é um dos desafios centrais de hoje 
Por Fran Alavina | Imagem: Gerardo Dottori, Retrato de Mussolini (1933)
Não é apenas um golpe. Não é somente a sanha neoliberal que transformada em logística estatal precariza o trabalho e transforma direitos em bens de consumo. É tudo isso, mas além da faceta golpista e neoliberal há também o caráter fascista. O mais horrendo dos três âmbitos, com certeza. É golpe; é a volta do neoliberalismo ao poder; e, é também o começo da institucionalização de práticas fascistas. Aí reside a diferença com momentos anteriores: na perigosa passagem do campo da prática e do pensamento privado para o âmbito público da institucionalização.
Assim considerar, é não subestimar a História, pensando que ela se dá como em terreno plano, sem buracos, sulcos e depressões de superfície. Ela não é nem plana, nem linear. O próprio acontecimento do golpe nos mostra isso: quando se passou que o golpe político era uma prática do passado, ele retornou com toda força, emergindo no seio de uma jovem democracia que passava pela sua mais longeva fase de ampliação de direitos e redução de desigualdades. Por isso, nesse momento em que precisamos dimensionar o acontecido, sob os mais diversos aspectos, não se pode acreditar ingenuamente que práticas como o golpismo, o neoliberalismo e o fascismo para que possam prosperar sejam excludentes no campo da ação. Como se cada um desses âmbitos aguardasse na fila a hora de suas respectivas senhas. Ao contrário, provados e forjados em um passado recente, esses âmbitos se integram, ganhando maior vitalidade, pois não avançam isoladamente.

Desse modo, abre-se um precedente extremamente perigoso, um vácuo de sentido político que não pode ser subestimado. Uma vez que se vislumbra o risco de se criarem as condições para o surgimento de algo pior. O atraso e o conservadorismo sempre podem ser apresentados como vanguarda. Desde que além das condições materiais exista uma passionalidade coletiva que lhes sustentem subjetivamente. Ora, tal núcleo de sustentação subjetiva e pública é a formação de uma massa perene que se aglutina em torno não de um princípio de ação comum, de um programa estratégico, de um partido, de um movimento social uniforme, ou em prol de uma causa política particular, mas sim em torno de um sentimento: compartilhado e forte. É o campo passional que pode formar um laço uniforme de agregação, quando a massa que se formou não apresenta fortes liames internos de reconhecimento. Nesses casos, a paixão precede a razão, e a impede de operar, de modo que tudo tem que estar remetido ao campo afetivo-sentimental. A paixão torna-se a própria razão de ser dos gestos, das falas e dos atos. Se de nosso lado, dizemos que preponderou o ódio e o ressentimento; do lado de lá, a narração sempre tomava como ponto de partida a suposta existência de um grande sentimento de “indignação”. Se este era ou não o sentimento, o fato é que a razão tornou-se uma minúscula ilha cercada em todos os lados por um oceano de passionalidades. E não se tratava de qualquer passionalidade, era, e ainda é, uma passionalidade violenta, que não enxerga limites entre a civilidade e a barbárie. Uma passionalidade que por ser coletiva não se contenta com compensações individuais. Ela quer um grande espetáculo, que só o circo político-midiático, isto é, que só o real, contado na forma e com os recursos da imaginação, pode oferecer. É justamente o vínculo sentimental que faz com nas manifestações pró-golpe, se encontrem juntos em um mesmo espaço: torturadores, defensores da ditadura militar, monarquistas, integralistas, separatistas, e pessoas que dizem apenas querer mais democracia. Por isso, se por um lado, agora se inicia a fase da resistência ao golpismo, também não se pode deixar que essa massa pró-golpe eivada de passionalidade violenta se torne uma massa perene. Uma vez tornada perene, ela não apenas se apresentará como um dos núcleos de sustentação do golpe, como também fará com que o golpismo e o neoliberalismo sejam coisas pequenas, pois haverá um núcleo forte de sustentação coletiva do fascismo, que se tornará mais escancarado que agora. Como não deixá-la torna-se perene, esta massa da passionalidade violenta? Eis uma questão urgente, e que pensamos, pode começar com um diagnóstico e desnudamento de uma característica intrínseca ao ser fascista: a mediocridade.
É típico do ser fascista a mediocridade. Não há fascista que não seja, antes de tudo, um medíocre. Porém, não basta apenas ser, é preciso se identificar como tal. É na passagem entre “ser” e “se reconhecer como isto que se é” que o proto-fascista emerge violentamente. Pois, ele não quer ser chamado pelo o que é. Na verdade, considera a constatação de seu ser uma afronta pessoal, um desaforo. Veja-se o caso do interino que se tornou permanente: ele não quer ser chamado pelo que é: GOLPISTA.
O modo fascista de esconder sua mediocridade inerente apela sempre ao mundo da cultura, do conhecimento formal, das belas artes e das letras. Em outros termos, apela-se à erudição e ao gosto artístico de um certo bom fruidor. Continuemos, então, com o mesmo exemplo, porém outro caso. O caso do elogio das mesóclises, algo que qualquer um satisfatoriamente alfabetizado pode realizar. Somente alguém muito medíocre para ostentar um simples recurso discursivo como símbolo de distinção; e, somente outro medíocre o aplaudiria por isso. Dir-se-ia, no adágio da sabedoria popular, que compreende a natureza das relações sem precisar de mesóclises: “não sem motivo um gambá cheira outro”. Talvez o gosto das mesóclises seja um ato falho do inconsciente medíocre, que sempre o remete ao seu lugar natural: o meio. Mas, continuemos ainda com o mesmo exemplo personalizado, e em um caso semelhante. O bom gosto estético é desprovido de qualquer relação de caráter moral: o belo e o certo não são configurados sem qualquer laço de reciprocidade. Não esqueçamos, os fascistas históricos eram grandes admiradores das artes. No caso de agora, o ex-interino, que além de um amante das artes é também poeta (pelo menos é o que dizem) propõe a esdrúxula medida da redução dos gastos públicos por 20 anos, um medida não apenas cruel, mas desumana. Como nos fascistas de ontem; nos fascistas de hoje, a maldade e a beleza podem conviver lado a lado, sem maiores dificuldades.
Ademais, passando do campo do estético ao ético, veja-se que o fascista para esconder o vácuo do valor moral de suas ações, vácuo causado pela mediocridade, remete o fundamento de suas ações, não apenas aquelas de fórum privado, mais principalmente as ações feitas na esfera pública, à Deus e à família. Medíocre que é, o fascista não se responsabiliza por suas próprias ações. Caso mais exemplar disso pode ser medido na ínclita professora e egrégia advogada do golpe, que muitas vezes nos aparece como uma personagem tragicômica de uma bufa encenação barroca. Gesticulando como o rábula da província: sempre a defender ou acusar, pois vê em toda oportunidade de fala a chance de um cliente novo. Certamente, sua gesticulação (não podemos esquecer que o gesto é um dos signos mais expressivo que os fascistas se utilizam) cinicamente passional, que vai da aparente temperança ao fingindo furor em um átimo, como se sempre estivesse perante um júri de tribunal, é a expressão máxima  de sua faceta fascista que se alinha perfeitamente ao discurso. Gesto e palavra se unem para dar a forma dos atos. Mas, é no conteúdo do discurso que se confirma a forma. Quando na tribuna do senado ela atribuiu à Deus a “formação de um complô”; e, depois disse que fazia tudo aquilo por “seus netos”.
Ora, para o fascista, o fundamento da ação nunca pode está no sujeito (lembremo-nos do funcionário nazista que dizia apenas cumprir ordens), porém sempre no além de si mesmo: no espaço transcendente da deidade, ou no lugar temporal do futuro familiar. O fundamento não pode estar no sujeito, pois este está no meio, no meio está a mediocridade, e esta nunca pode ser arrolada como princípio da ação honrosa. Não pode passar despercebido que justamente uma advogada não reclame como princípio de sua ação a Lei. Perceba-se, pois, que não estamos mais no campo da política, uma vez que a Lei, ou até mesmo um falso legalismo, não é chamado como critério de justificação das ações. Tal, não é senão o fascismo na sua essência conteudística e na sua forma retórica. O abandono da esfera política, uma vez que o fascismo é a negação da política, se recorre a duas esferas, que são consideradas por princípio fora da regulação política: Deus e a família. Estão, pois, formados os círculos concêntricos das justificações morais do fascista, que nas perversidades que justificam se assemelham muito aos círculos do inferno de Dante. O desejo megalomaníaco do fascista é diretamente proporcional à sua mediocridade. Logo, a advogada do golpe afirmar após o desfecho dos ritos legais que o medíocre (tão medíocre, que tem medo de vaias) está em “dívida” com ela. Como o rábula da vila, após o fim exitoso do processo, se apressa em cobrar a fatura. Todavia, não se trata de uma dívida qualquer: ele, o medíocre letrista das mesóclises, dever ser, segunda sua credora: “o melhor de todos os presidentes”. Mas, como pode alguém medíocre ser o melhor de todos? Só mesmo um outro medíocre, para esperar que da mediocridade nasça grandeza. No reino escuro das mediocridades até quem tem um olho é cego.
Nesse sentido, o golpe, por seu caráter fascista, quando desnudado, não é outra coisa que o elogio da mediocridade. Mediocridade dos que o fizeram, mediocridade dos que o aplaudem. Caso você se oponha ao reconhecimento da mediocridade, e ousar dizer que o medíocre não é aquilo que diz ser ou não ser, mas sim àquilo que é, medíocre, não espere outra coisa que a violência. Medíocres não gostam de ser contrariados. Fascistas de ontem, fascistas de hoje: violentos, pois sempre medíocres.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A internet e as artimanhas do pensamento fácil, por Fran Alavina.


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“Pensamento fácil”, que ameaça dominar as redes sociais, é o modo difuso como raciocina o indivíduo deste começo de século. É a renúncia antecipada — e rancorosa — a qualquer complexidade. É, por isso mesmo, muito mais conformista que revolucionário
Por Fran Alavina | Imagem: Pawel Kuczynski
Este texto amplia e aprofunda o debate aberto no artigo “Notas sobre a esquerda ruim de internet”. Nasce de um duplo objetivo que, todavia, possui uma única fonte: os comentários, debates e reações que ao texto citado.
O primeiro dos objetivos é reafirmar o núcleo central das primeiras “Notas”, uma vez que tal núcleo foi escamoteado, algumas vezes, por um certo “entusiasmo difuso” que hoje é a aura da tecnologia virtual. Tal entusiasmo não faz acepção de posição política, e nisso está seu caráter perverso. Ele não é nem de direita, nem de esquerda. Pode ser encontrado em bons leitores de Gramsci, ou em indivíduos facistóides. É este entusiasmo febril que impede o começo da crítica, de modo que qualquer um que a inicie é rapidamente taxado de atrasado, retrógado e reacionário. A lógica dessas taxações é clara: quem não adere de “corpo e alma” ao novo não pode ser outra coisa senão que “atrasado”, “retrógrado” e todos os outros adjetivos que possam denotar sentido negativo ao que se considere velho. Este entusiasmo é a expressão mais acabada de uma época que, acossada pelo consumismo, astuto tem uma sede insaciável por tudo que se apresente como novo. Que um mesmo sentimento (o entusiasmo difuso) dirigido a um mesmo objeto (a tecnologia virtual) possa ser encontrado entre conservadores e progressistas, a nós que nos posicionamos à esquerda deveria, no mínimo, ser alvo de uma atenção mais demorada.
Por isso, afirmamos que ao criticarmos os efeitos danosos para a esquerda da aceitação da “naturalização do virtual”, demonstrando uma das lógicas de operação da internet, expressa mais particularmente em suas redes sociais, em nenhum momento propomos que se deva abandonar a internet como lugar de realização do debate político. Em nenhuma parte da argumentação indicamos que devêssemos voltar a datilografar nossos textos, divulgar nossos panfletos e artigos apenas com a ajuda de mimeógrafos, ou ainda nos comunicarmos em código morse. A essência de nossa crítica não estava em apontar o desuso, o abandono dos meios virtuais, mas pensarmos os usos para não cairmos em uma prática mecânica e ingênua. Uma vez que no campo político, sabemos, não há espaço para ingenuidades. Nesse sentido, buscou-se iniciar um debate que possa fomentar uma crítica à esquerda da “naturalização do virtual”.
Todavia, para que esta crítica possa ser feita é preciso reconhecer, em primeiro lugar, que não podemos permanecer em um uso meramente “panfletário” dos meios virtuais. Isto é, imaginar que possamos atuar no virtual sem que essa atuação não retroaja sobre nós. Pois como anteriormente afirmamos, independentemente de nossas posições políticas, o modus operandi do virtual segue à revelia de nossos desejos e vontades. Movimentamos-nos no espaço virtual não segundo o nosso absoluto arbítrio, mas segundo as condições que são previamente dadas e estabelecidas. Em suma, propomos uma prática que seja seguida do pensamento crítico, que não seja cega, que não caia nas armadilhas do espontaneísmo e do voluntarismo. Se é grande nosso afã de lutar e mudar a ordem das coisas, agarrar-se às facilidades oferecidas sem desnudar suas condições não apenas nos será muito custoso, como poderá diminuir nossas capacidades críticas sem as quais não poderemos seguir.
O segundo dos objetivos é dar continuidade ao exercício crítico que iniciamos, desnudando um aspecto que fundamentou parte das reações que se seguiram às Notas I. Tal aspecto é o que podemos denominar (e mesmo denunciar) de pensamento fácil. Todavia, antes que possamos defini-lo mais acuradamente, devemos recordar um elemento que torna propícia a sua expansão.
Com efeito, recorde-se, uma vez mais, que a internet não é um simples meio de comunicação. Seu uso retroage sobre nós, nos modifica, altera nossas capacidades, e se não nos apercebemos destas alterações é justamente porque o discurso da “naturalização do virtual” faz com o virtual nos pareça, de fato, natural. Ademais, esta naturalização difusa do virtual e este retroagir dos seus usos sobre nós é completamente diferente daquilo com ocorria antes com mídias como o rádio e a tv. Nestes últimos, estamos destinados a ser meros receptores; no virtual, porém, tudo se passa em um nível babélico de interação, no qual, em tese, todos têm o mesmo direito de fala, todos podem ser ao mesmo tempo “emissores” e “receptores”. Se todos podem mostrar-se, todos podem ser vistos: se todos podem falar, todos podem ser ouvidos. Ocorre, todavia, que se todos falam ao mesmo tempo, ninguém se ouve; se a visão é chamada a olhar para vários lugares ao mesmo tempo, ela não fixa o olhar em nenhum ponto.
Ora, mas se os pontos dos “emissores” e “receptores” não são mais fixos, porém fluidos, a velocidade e o número de informações e notícias crescem infinitamente. Os fatos não pertencem mais apenas àqueles que os narram, isto é, aos “emissores”, pois para que circulem devem ser replicados, “curtidos”. Assim, o que se narra, se expõe, se faz ver, para o bem ou para mal, pertence a todos aqueles que com um simples click tomam parte de tudo. Se segundo o discurso da liberdade e da criatividade do indivíduo empreendedor “você pode ser seu próprio patrão”, no virtual tem prevalecido uma lógica semelhante, de você estar livre para ver e ouvir o que quiser, e gerar você mesmo a própria informação, de acordo, claro, com sua criatividade. Desse modo, é forçoso admitir que a internet repõe no campo virtual, aos seus usuários, aquilo que a lógica do livre mercado impõe cotidianamente ao mundo.
Ora, a lógica meritocrática neoliberal que diz aos indivíduos que seus sucessos profissionais dependem exclusivamente de seus esforços opera da mesma forma no virtual. Na Babel em que todos podem falar ao mesmo tempo, irão se sobressair aqueles que se fizerem mais vistos, claro que por seus próprios meios. Todavia, como todos podem falar, o número de coisas a serem vistas e ouvidas é infindável, de tal modo que para que se possa tomar parte neste circuito que se quer infinito: tudo deve ser feito segundo o critério da facilidade. Tudo deve ser fácil de ver, de ouvir, de interagir. A time line da rede social será melhor vista, isto quer dizer, mais rapidamente vista, quanto mais fáceis forem as coisas que se apresentem. Nesta faceta, a internet mostra-se muito mais conformista que revolucionária. E todos aqueles que objetivam ganhar e aumentar visibilidade devem assim proceder, não importa a direção política que sigam. É esta mesma lógica que antes se fazia presente nos hábitos alimentares através da expansão das redes de alimentação fast food, e que agora enseja os usos dos aplicativos, estes últimos com as mais diversas utilidades. Tudo deve estar ali, à mão: rápido e fácil.
A lógica da facilidade que antes orbitava nas condições objetivas da existência, como, por exemplo, na alimentação, com a expansão do virtual, o critério da facilidade, par inseparável da rapidez, passa aos bens simbólicos e ao circuito afetivo que lhe sustenta. Acostumando-nos, por meio do hábito excessivo, com o critério da facilidade como algo natural, tendemos a expandir este critério para tudo. Qualquer ato que possa demandar um maior tempo e esforço é, de imediato, rechaçado, posto que se identifica com a encarnação da chatice. Assim, são os nossos desejos, afetos e pensamentos que também devem se acomodar ao critério da rapidez e da facilidade.
Esta acomodação sustenta as alterações que nos lançam diretamente para o vislumbre de um novo tipo de comportamento, um novo modo de ser que deve conformar-se a uma nova ordem das coisas iniciada pela expansão do virtual. Este modo de comportar-se indica que a frequentação do virtual deixa de ser ela mesma um hábito, o hábito de usarmos algo hodiernamente, para se transformar em criadora de novos hábitos. Um destes hábitos é o pensamento fácil. O pensamento fácil é, em primeiro lugar, a nova forma prevalente de interação, com o mundo e consigo mesmo. Sendo forma não é apenas um modo de concepção, mas também de expressão. O pensamento fácil se impõe cada vez mais como o “preço a ser pago” pela velocidade da informação. Ele é uma das características mais exemplares do modo como os usos do virtual retroagem sobre nós. O pensamento fácil é o modo difuso como raciocina o indivíduo deste começo de século. É a renúncia antecipada a qualquer resquício de complexidade. Pois esta última implica demora, esforço, e tais coisas são abominadas como sendo os antônimos absolutos da facilidade. Conformando-se aos tempos informacionais, o pensamento fácil abole a barreira entre o simples e o simplório. Trabalha com definições curtas, como na lógica do estabelecimento do número máximo de caracteres.
Ante o pensamento fácil não pode haver resquícios, resíduos. Tudo deve estar limpo: como uma imagem nítida, sem falhas. Aquilo que demora por se fazer entender é identificado como que possuindo uma falha congênita, por isso mesmo deve ser excluído, marginalizado. É o resto que entreva a interação. Ao se conformar ao informacional, o pensamento fácil demanda um tipo de transparência absoluta dos enunciados, que não devem possuir qualquer opacidade, devem ser privados de qualquer sentido que não seja o aparente. Desse modo, também a linguagem, as capacidades expressivas são alteradas pelo critério da brevidade, que é a regra linguística do pensamento fácil. As palavras cedem lugar às suas abreviações, tendendo a tornar-se apenas siglas. O alargamento da realidade que tanto é atribuído ao virtual, em verdade, é feito de encurtamentos. Aos indivíduos deve-se diminuir qualquer trabalho de elaboração, portanto sua autonomia.
Exemplos do hábito do pensamento fácil não faltam. São os emoticons que nos oferecem um modo pronto da expressão das nossas emoções; é a “# somos todos (…)” que passou a ser nossa forma mais elaborada de nos solidarizarmos, e que por tratar-se de um vínculo identitário imediatista, na maioria das vezes nos impede de reconhecer melhor a causa dos problemas com os quais nos solidarizamos; é a ojeriza aos textos longos, o que antes era um mero parágrafo de seis linhas, hoje chamamos de “textão”. Escrevê-los tornou-se até um ato revolucionário, pois ele é sempre precedido pelo brado: “Vai ter textão, sim!”.
O mundo ao qual nos relega o pensamento fácil é uma realidade de resumos, de bens simbólicos prontos. Todavia, o pensamento fácil, quando desnudado, nos posiciona ante um denso paradoxo: a tecnologia mais complexa é justamente aquela que pode nos impor uma visão simplista, empobrecida da realidade, uma realidade “pré-fabricada”, como as “bolhas” que se formam das relações das redes sociais. Ora, o pensamento fácil enseja algo ainda mais negativo. Por acomodar as coisas à superficialidade simplista, ele contribui para uma visão naturalizada dos problemas histórico-sociais. Estes não são compreendidos conforme a multiplicidade de fatores que os causam, pois o pensamento fácil não consegue acessar contradições. Ele os concebe segundo uma causa única, em geral, aquela que pode reunir maior passionalidade, que pode congregar em torno de si afetos fortes, que não demandem um tempo de elaboração muito longo.
Assim, não é simples coincidência que os grupos mais fascistóides que se mostram sem receios hoje nas ruas tenham antes se articulado bem nas redes sociais. Estas oferecem todas as condições para que uma causa social (a corrupção, por exemplo) possa ser concebida segundo o pensamento fácil. Por isso, a corrupção é sempre apresentada como culpa de uma só pessoa, de um só partido, de uma só ideologia. O pensamento fácil trabalha com generalizações, e por isso é propício à criação dos bodes expiatórios. Veja-se o quanto é comum o achincalhamento da vida privada dos sujeitos. Sabemos que os bodes expiatórios de hoje já foram escolhidos, só não sabemos ainda se serão sacrificados.
Veja-se, pois, quanto o pensamento fácil enseja comportamentos de tipo fascista. Ou se é contra, ou a favor: “simples assim”! Ele, o pensamento fácil, simplifica a realidade, reduzindo a complexidade das coisas aos discursos daqueles que dizem serem as coisas complexas. No varejo das facilidades, os problemas são rapidamente desnudados, para que depois, pela vontade de um, encontrem resolução. Na maioria das vezes, o sujeito escolhido para apontar as resoluções é o medíocre vestido com trajes de herói. Este último é sempre um sujeito de ação, uma vez que a simplicidade do pensamento fácil é usada para impelir uma ação imediata, a ação que põe fim à “bagunça” da multiplicidade, impondo a sobriedade da ordem. A ordem que subjaz em todo pensamento fácil, pois onde tudo está antecipadamente posto em seu devido lugar não há espaço para a desordem, que é confundida com a multiplicidade. Para os desnudamentos dos problemas já temos os intelectuais de youtube. Agora, a massa fascistóide busca o líder. Em verdade, já o encontraram, mas como sua mediocridade oratória é gritante, seu poder de convencimento e de adesão é baixo. Todavia, não se devem subestimar as capacidades do pensamento fácil, pois seu grau de difusão é crescente, expande-se junto com o virtual.
Resta-nos perguntar se nós, que estamos à esquerda, vamos endossar a acomodação ao pensamento fácil, nós que sempre buscamos desmascarar as contradições que perfazem a desigualdade do mundo, portanto que opomos a complexificação à naturalização do âmbito histórico-social. Se também nós nos acomodarmos ao pensamento fácil, cada vez mais perderemos a capacidade de realizar a crítica do presente, pois enquanto nos dão a facilidade como regra, o mundo se complexifica, nos pedindo cada vez mais o forjar de alternativas novas. Estas demandam sempre esforço, pertinácia e tempo. Um tempo que não é o das facilidades e um pensamento que não se contenta com simplismos. O desafio é, então, atuar no virtual sem se deixar seduzir pelo pensamento fácil, nem endossá-lo.