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terça-feira, 17 de julho de 2018

O Nazismo de esquerda ou o argumento do vesgo, por Fernando Horta.




O Nazismo de esquerda ou o argumento do vesgo
por Fernando Horta
Em uma Democracia, os espaços em que se pode ouvir os candidatos ao o maior cargo da nação deveriam ser sagrados. Deveriam ...
O programa “Roda Viva” pulou na frente e se propôs a fazer programas em que os pré-candidatos seriam ouvidos e teríamos uma melhor perspectiva sobre o conjunto de ideias, planos, posicionamentos de quem se predispõe e recebe apoio para se candidatar ao cargo de presidente – ou presidenta – da República.
No caso de Manuela D’Avila, tudo o que não se conseguiu fazer foi “ouvir” a candidata. Se com Ciro e Boulos as bancadas do programa tinham sido de péssima qualidade, com Manuela não só pioraram, como adicionaram-se novos ingredientes. Não sei quem foi o iluminado que acreditou que chamar um coordenador de campanha de Bolsonaro seria uma boa opção, ou quem foi que deu o aval para um rapaz que se diz “economista e filósofo” acreditasse que reunia condições necessárias para estar ali. Mesmo as duas mulheres chamadas para o programa eram sofríveis. Machistas, mal informadas, malformadas e uma série de outros problemas que me levariam o texto todo a mencionar. O intuito, certamente, caro leitor, não é este.
No meio do festival de besteiras, ignorâncias, preconceitos, machismo, grosserias (de todas as partes, incluindo da própria Manuela que, em certo momento, partiu também para o ad hominem) sobra muito pouco do programa. Em determinados momentos eu pensei que estava assistindo um debate de DCE da História. Me formei na UFRGS e presenciei debates na conhecida “Toca” com muito mais qualidade do que os entabulados no programa citado.
Uma coisa que está cansando a todos nós, que estudamos a fundo o tema, é o argumento do vesgo de falar que o “nazismo era de esquerda”. Me interessa acabar com este absurdo. O argumento vem das obras sobre história e política escritas por Hayek. O economista austríaco emigrado para os EUA criou uma nova definição para “direita” e “esquerda”. Registre-se que Hayek é um economista normal, sem qualquer ponta do brilhantismo de ideias de outros ganhadores do prêmio Nobel. Quando Hayek ganhou (1974), ele estava esquecido e só o fez porque o conselho de escolha do Nobel tinha indicado premiação para Gunnar Myrdal, um economista sueco que tinha estudado a fundo as diferenças econômicas e sociais entre as populações brancas e negras dentro dos EUA. Myrdal afirmava que o crescimento econômico de países ricos e pobres não se dá de forma conjunta, não se dá de forma semelhante e que poderiam, em muitos casos, serem excludentes. Com países pobres sendo colocados na posição de fornecedores de matéria prima barata eternamente.
Na década de 70, os trabalhos de Myrdal justificavam por outros meios uma parte da crítica marxista sobre o capitalismo. E Myrdal não era “comunista”, nem “comedor de criancinha”. Quando o concelho do Nobel de Economia escolheu Myrdal, os EUA entraram em campo não permitindo que ele ganhasse. O concelho recrudesceu e a saída foi um prêmio “repartido”. Os EUA indicariam um nome e o concelho indicaria Myrdal. Hayek foi desencavado do esquecimento imposto, inclusive, pela própria Escola de Chicago, exatamente porque seus estudos sustentavam que apenas em ambientes descentralizados e com liberdade as escolhas econômicas dos agentes, tomadas como resultante, atingiriam o nível ótimo e seriam coletivamente benéficas ao conjunto da sociedade.
Pois é esta figura soturna, contestada, comum e conservadora que inventa uma nova forma de dividir o mundo em “esquerda e direita”, logo após a segunda guerra. Para Hayek a diferença seria entre “coletivistas” e “individualistas”. Todas as ideias que defendessem qualquer noção de que o coletivo traria melhores resultados do que as ações livres individuais (auto-interessadas) seriam de “esquerda” e toda teoria ou ideia que defendesse o mérito da liberdade individual seria de “direita”. Baseado nisto, Hayek atacava a URSS no seu conhecido livro “O caminho para a servidão”, ao mesmo tempo que afirmava a superioridade dos EUA e seu “capitalismo individualista”
O argumento de Hayek não convenceu a quase ninguém na academia, mas o governo norte-americano achou maravilhoso. Imprimiu milhões do seus livros e os distribuiu pelo mundo afora. Fez isto também como Hannah Arendt, George Orwell e Boris Parternak.
Acontece que os jovens apedeutas que se informam por vídeos no youtube não leram Hayek. E por não lerem Hayek tornaram um argumento ruim (o original de Hayek) numa peça insustentável de anti-intelectualismo tacanho. Segundo os textos originais escritos em inglês para serem repetidos pelos “liberais” da Terra de Vera Cruz, tudo que defendia o “coletivismo” era de esquerda. O nazismo era “coletivo”, então o nazismo é de esquerda.
Ocorre que mesmo Hayek, em sua tacanhice, fazia diferenciação entre “coletivo” e “individual” através da visualização DA AÇÃO DO SUJEITO. Defendia Hayek que os sujeitos são os portadores da força política e se eles hipotecam esta força política dentro de um sujeito coletivo que age, então temos uma política “de esquerda”. O argumento de Hayek era contra os sindicatos e partidos de esquerda dentro dos EUA. Foi muito usado no Macarthismo.
Onde o argumento falha? Falha porque TODA AÇÃO POLÍTICA é sempre coletiva. Se os agentes hipotecam sua ação política e o fazem para dar força ao Partido Comunista dos EUA ou para o Partido Republicano, fazem exatamente a mesma coisa. Tentar dividir o mundo em “coletivistas” e “individualistas” é impossível do ponto de vista prático. A própria democracia exige que nós hipotequemos nossa vontade política a quem ganhou a eleição (ou deveria ser assim). Será que todos os que elegeram Trump e se submetem a obedecer às decisões por ele tomadas são “de esquerda”? É claro que não.
O argumento não faz sentido nem sequer do ponto de vista econômico. Criou-se um erro imenso – politicamente importante para o neoliberalismo – de opor mercado e estado como se eles fossem antípodas. Ocorre que não existe mercado sem Estado. Não existe, nem nunca existiu. Não existe propriedade privada (no sentido econômico) sem Estado. Não existiu industrialização sem estado. Ou os jovens apedeutas acham que a Inglaterra se industrializou no século XVIII a partir dos gênios da física e da economia como James Watt (inventor da máquina à vapor) e Edmund Cartwright (inventor do tear mecânico)?
(Apenas para fins de informação, Cartwright morreu na pobreza e Watt não ficou rico com seu invento. Como ocorre de forma muito comum no capitalismo, os inventores e criadores das ideias não são os que se beneficiam financeiramente delas.)
A Inglaterra se industrializou porque o seu Estado na época obrigou os ingleses a saírem do campo e irem mendigar trabalho nas cidades (Enclosures). A Inglaterra se industrializou e enriqueceu porque o seu governo criou “Leis contra a vadiagem”, prendendo, açoitando e até matando quem fosse pego sem trabalhar ou sem ir à Igreja. A Inglaterra se industrializou, ficou rica e pode acumular imensas partes de terra pelo mundo porque seu Estado criou uma marinha de Guerra e uma Marinha mercante capazes de subjugar nações inteiras obrigando a elas destruírem suas indústrias nacionais e comprarem produtos dos ingleses.
Se você duvida dê uma pesquisada nas “Guerras do Ópio”, na “Política de Portas Abertas” para a China ou mesmo em como os produtos ingleses chegaram no Brasil antes da Família Real Portuguesa e destruíram qualquer traço de desenvolvimento econômico nacional.
Não há capitalismo sem Estado. O que os liberais defendem é que o Estado seja só para eles. Polícia para proteger a propriedade, juízes para encarcerar opositores políticos e cobrar dívidas e diplomatas para negociarem internacionalmente. E só. Este é o verdadeiro “estado mínimo”.
Mas a questão central é: o nazismo era de esquerda?
E a resposta é não.
O nazismo defendia o capitalismo. Apenas não concordava com o capitalismo transnacional financeiro. Empresas como Bayer, Thyssen, Krupp, Hugo Boss, IBM, Hoechst entre outras, lucraram muito durante o regime nazista.
O nazismo nunca defendeu qualquer ideia de “revolução” para o proletariado. Chamava-se “Nacional socialista” exatamente porque, como disse Hitler em seu Mein Kampf, era preciso “tomar” o termo “socialista” dos marxistas. Para Hitler, os trabalhadores deveriam estar organizados e trabalhando para a “grande pátria”, exatamente como fazem as abelhas ou as formigas. A sociedade nazista defendia um operariado dócil à propriedade privada e cumpridor dos “seus deveres”. Sem vagabundagem e preguiça.
Em nada esta noção se assemelha aos escritos de Marx e Lênin. Para os fundadores do pensamento socialista científico era dever da classe operária se levantar contra a propriedade privada. O proletariado deveria formar a “consciência de classe” que em nada tinha a ver com qualquer ideia de “pátria” ou “nação”. Daí a instituição criada pelos comunistas chamar-se “internacional socialista”. Segundo Marx, o nacionalismo seria um véu que dificultava a visão do proletariado e colocava proletários alemães, por exemplo, a odiarem os proletários russos e ambos entrarem em guerra para proteger a burguesia alemã e russa.
Enquanto o nazismo dizia que qualquer dissenso dentro de uma sociedade deveria ser suprimido porque as diferenças enfraqueciam o Estado, Marx defendia que a “a luta de classes é o motor da história”. Para um, o conflito interno deve ser extirpado (nazismo), para o outro, o conflito interno é o que faz a humanidade progredir (marxismo). Para os nazistas as diferenças sociais são importantes para manter a ordem e que cada indivíduo saiba o seu “papel” na sociedade, tal qual um corpo. Para o marxismo as diferenças sociais devem ser erradicadas e são a verdadeira causa da estagnação social, política, cultural e mesmo econômica da sociedade.
É claro que eu entendo que uma pessoa que só lê a capa e as orelhas de um livro ache que “nacional-socialismo” e “internacional socialismo” sejam “parecidos”, afinal só tem o “in” de diferente. A mesma pessoa deve achar que “peixe-boi” pasta embaixo d’água. Talvez até dê leite, como o famoso “Ornitorrinco da Amazônia” descoberto por Bolsonaro.
O que eu não consigo entender é como ignorantes que pensam assim se acham no direito de interromperem Manuela mais de 80 vezes para demonstrar não apenas seu machismo, mas também seu completo despreparo. Este argumento do vesgo, que olha para a direita pensando ver a esquerda, é uma demonstração clara da ignorância destampada pelo golpe.
Se bem que em tempos de “a terra é plana”, “menos constituição, mais bíblia”, pastores que retiram a aorta e o coração de fiéis nos cultos, “soldadas de cristo” marchando com roupa camuflada e gente confundindo a bandeira do Japão com dominação comunista no Brasil, Hayek e suas inconsistências chegam a ser um “biscoito fino” na boca de banguela.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O destino dos negros alemães sob o nazismo, por Even Rosenhaft.


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Eram poucos, quase todos oriundos das antigas colônias africanas. Foram designados “apátridas” de “sangue estrangeiro”. Cerca de vinte foram internados nos campos. Um sofreu eutanásia
Por Eve Rosenhaft, no The Independent | Traduzido por El Coyote
O fato de comemoramos oficialmente o Holocausto em 27 de janeiro — data da libertação de Auschwitz — resulta em lembrar os crimes nazistas focando principalmente o assassinato em massa dos judeus da Europa.
As outras vítimas do racismo nazista, incluindo os sinti e os roma europeus, são citadas rotineiramente nas comemorações, mas nem todos os sobreviventes tiveram as mesmas oportunidades de ter sua história conhecida. Um grupo de vítimas que ainda precisa ter suas memórias publicadas são os alemães negros.
Quando Hitler chegou ao poder em 1933, havia alguns milhares de pessoas negras vivendo na Alemanha. Elas nunca foram contadas e as estimativas variam muito. No coração de uma comunidade negra emergente havia um grupo de homens das colônias alemãs na África (perdidas com o tratado de paz que pôs fim à Primeira Guerra Mundial) e suas esposas alemãs.
Eles estavam conectados por toda a Alemanha  por laços de família e por associação. Alguns eram ativos em organizações comunistas e anti racistas. Entre os primeiros atos do regime nazista estava a supressão da militância negra. Havia também de 600 a 800 crianças filhas de soldados coloniais franceses – muitas, mas nem todas, africanas – quando o exército francês ocupou o Vale do Reno como parte do acordo de paz de 1919. As tropas francesas foram retiradas em 1930 e o Vale do Reno foi desmilitarizado até que Hitler posicionou unidades alemãs lá, em 1936.
Negação de direitos e trabalho
Em 1935 as leis de Nuremberg retiraram a cidadania alemã dos judeus e os proibiram de se casar ou ter relações sexuais com “pessoas de sangue alemão”.
A regra seguinte afirmava que pessoas negras (ou “ciganas”) seriam consideradas “de sangue estrangeiro” e sujeitas aos princípios de Nuremberg. Muito poucos descendentes de africanos tinham cidadania alemã, mesmo quando haviam nascido na Alemanha, mas isso se tornou irreversível quando receberam passaportes que os designavam como “negros apátridas”.
Em 1941, crianças negras foram oficialmente expulsas das escolas públicas, mas a maioria delas sofreu abuso racial nas salas de aula muito antes. Algumas foram forçadas a sair da escola e nenhuma tinha permissão para ir à universidade ou receber treinamento profissional. Entrevistas já publicadas e memórias tanto de homens quanto de crianças , testemunhos não publicados e pedidos de indenização do pós-guerra  comprovam essas e outras experiências.
As ofertas de emprego, que já eram poucas antes de 1933, diminuíram depois. Sem a possibilidade de encontrar trabalho regular, alguns foram convocados para o trabalho forçado como “trabalhadores estrangeiros” durante a Segunda Guerra Mundial. Filmes e shows de teatro que faziam propaganda pelo retorno das colônias alemãs na África tornaram-se uma nova forma de renda, especialmente após as pessoas negras serem banidas dos outros tipos de performance pública em 1939.
Quando o comandante das SS , Heinrich Himmler, fez um inquérito sobre todas as pessoas negras na Alemanha e na Europa ocupada em 1942, ele provavelmente estava pensando em  algum tipo de algum tipo de  ataque mas não houve concentração maciça.
As pesquisas nos registros dos campos de concentração e os testemunhos dos sobreviventes até agora apontam cerca de 20 negros alemães que cumpriram pena em campos de concentração e prisões – e pelo menos um que foi vítima de eutanásia. Há o caso de uma pessoa negra que foi enviada para um campo de concentração claramente por ser um Mischling(mulato) — Gert Schramm, internado em Buchenwald em 1944, aos 15 anos.
Os processos que terminavam com encarceramento geralmente começam com uma acusação de comportamento pervertido ou antissocial. Como os negros eram visados pela polícia, isso tornou-se uma razão para não libertá-lo, uma vez que eram postos em custódia.
A esterilização: um ataque às famílias
Foi o medo nazista da “poluição racial” que levou ao trauma mais comum sofrido pelos negros alemães: a desagregação das famílias. Casais “mistos” foram perseguidas até se separarem. Enquanto outros solicitaram licenças para casamento, quando era descoberto que uma mulher estava grávida ou tinha um bebê, o  parceiro negro tornava-se alvo para a esterilização involuntária.
Em uma ação secreta em 1937, algumas das 400 crianças do Vale do Reno foram esterilizadas à força. Outros alemães negros tiveram que se esconder ou fugir do pais para escapar da esterilização, enquanto as notícias de amigos ou parentes que não  conseguiram fugir intensificaram o medo que dominava a vida das pessoas.
A comunidade negra alemã era nova em 1933; na maioria das famílias a primeira geração nascida na Alemanha estava chegando à maioridade. Nesse aspecto ela era similar às comunidades na França e no Reino Unido, que estavam formando famílias iniciadas por homens das colônias.
A perseguição nazista rompeu os laços dessas famílias e dessa comunidade. Um legado desse processo foi o longo silêncio sobre o rosto humano da história colonial da Alemanha: a possibilidade de que negros e brancos alemães pudessem compartilhar um espaço social e cultural.
Esse silêncio ajuda a explicar as respostas mistas dos alemães para a atual crise dos refugiados. As boas vindas oferecidas pela chanceler alemã, Angela Merkel, e muitos alemães comuns deu voz ao humanitarismo, que sempre esteve presente na  sociedade alemã e que foi reforçado pelas lições do Holocausto.
A reação contra os refugiados  revela o outro lado da moeda: alemães com medo da imigração não são os únicos na Europa. Mas suas ansiedades nos mostram uma visão que continuou muito poderosa na sociedade alemã desde 1945: a ideia de que o que quer que mereçam, pessoas que não são brancas não podem ser alemãs.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Contra a estupidez, por Luiz Ruffato.



Racistas e antifascistas entram em confronto no último sábado, nos EUA.
Racistas e antifascistas entram em confronto no último sábado, nos EUA. REUTERS

Não sei se também para você leitor, mas para mim manifestações neonazistas (fascistas, de maneira geral) são absolutamente incompreensíveis, por vários motivos, sendo, talvez, o principal deles a dificuldade que tenho de aceitar a ideia de que o ser humano é por natureza perverso. O problema é que dia a dia os fatos vêm esfregar em nossa cara que, por mais que caminhemos, voltamos sempre ao mesmo lugar da barbárie de onde saímos.
Basta um mínimo descuido da inspetora da civilização para revelarmo-nos egoístas, xenófobos, racistas, machistas, exclusivistas, nacionalistas, sexistas. Todos esses adjetivos, aliás, convergem para o mesmo sentimento de intolerância em relação ao outro, seja o outro mulher, homossexual, negro, indígena, judeu, muçulmano, estrangeiro, imigrante, pobre ou, simplesmente, alguém que não pensa exatamente como nós e que, portanto, não reconhecemos como pertencente à nossa tribo.
A demonstração de força dos neonazistas norte-americanos em Charlotteville, na Virgínia, no dia 11, que resultou na morte por atropelamento intencional de uma mulher que protestava contra os supremacistas, é chocante, não só pelo número de pessoas envolvidas – “centenas”, segundo as agências de notícias, sem especificar quantos –, como também pela participação de mulheres e crianças que, unidas aos homens, jovens e adultos, gritavam palavras de ordem contra “negros, judeus, gays e imigrantes”. Vários afirmavam sua filiação ao ideário nazista e muitos seguravam tochas e vestiam capuzes – símbolos da Ku-Klux-Klan –, em perfeito acordo com as pregações racistas e antissemitas de Richard Spencer, criador do Alt-Right, Direita Alternativa, grupo que conta com representantes no governo de Donald Trump, incluindo o estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon. Trump, aliás, concluiu, após cinco dias de meditação, que “ambos os lados” têm culpa pelo confronto...
Inacreditável também é saber que, por meio de uma campanha de crowfunding na internet, um grupo supranacional de extrema-direita chamado Geração Identitária, que reúne militantes da França, Itália e Alemanha – que tem até página em português –, arrecadou dinheiro suficiente para comprar um barco, o C-Star, que neste momento navega pelas águas do Mar Mediterrâneo à caça de botes infláveis e embarcações vindas da África, com o objetivo de impedi-las de abordar as costas dos países europeus levando refugiados, se preciso usando a força.
A intolerância, sob qualquer aspecto, é injustificável, pois contraria a própria noção de cultura, patrimônio civilizacional construído a partir das experiências comuns. O conceito de supremacia – seja ela étnica, religiosa, de gênero, de nação – é fruto da estupidez de quem desconhece a trajetória do ser humano sobre a Terra. E, em particular, o ressurgimento do ideário nazista é realmente nefasto, porque ressuscita um cadáver que julgávamos enterrado, e bem enterrado, responsável direto pela maior catástrofe da história da Humanidade, a Segunda Guerra Mundial, cujas cenas pavorosas estão disponíveis a qualquer pessoa na internet.


Como a estupidez não tem fronteira, aqui mesmo, nessas plagas tupiniquins, temos visto o crescimento da extrema-direita, encarnada pelo deputado federal Jair Bolsonaro
Recapitulando: entre 1939 e 1945, os conflitos entre aliados e supremacistas (os países do Eixo: Alemanha, Itália e Japão) deixaram mais de 50 milhões de vítimas (a maioria civis) – e seis milhões de judeus foram mortos em campos de concentração nazistas e outros cinco milhões foram assassinados por serem homossexuais, ciganos, portadores de deficiências físicas ou mentais, comunistas, anarquistas ou simplesmente opositores. E a guerra terminou com o advento da bomba atômica, que arrasou duas cidades japonesas, Hiroshima e Nagasaki...
Como a estupidez não tem fronteira, aqui mesmo, nessas plagas tupiniquins, temos visto o crescimento da extrema-direita, encarnada pelo deputado federal Jair Bolsonaro – o mais votado do estado do Rio de Janeiro –, entusiasta da tortura, inimigo público do que chama de maneira genérica de “comunistas”, e que deseja ser um presidente “honesto, cristão e patriota”. Seu filho, o também deputado federal Eduardo Bolsonaro, postou, no ano passado, uma fotografia em que aparece, junto com dois amigos, portando armas de fogo, tendo ao fundo uma bandeira criada no século XVIII pelos confederados escravocratas e usada pela Ku Klux Klan e pelos supremacistas brancos. Este Eduardo Bolsonaro é o mesmo que apareceu em cima de um carro de som, durante as manifestações pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff na avenida Paulista, portando uma pistola na cintura. Já seu irmão, Carlos Bolsonaro, vereador mais votado da cidade do Rio de Janeiro, postou em seu twitter, em 11 de setembro de 2014: “Condicionar o bolsa-família às cirurgias de laqueadura e vasectomia é estancar a ferida econômica e ainda combater a miséria e a violência”. Essa prática tem nome, eugenia, e era muito popular entre os discípulos de Adolf Hitler...
A barbárie bate à nossa porta.

Longe de Charlottesville, São Paulo também celebra o “lado errado da história”, por Ana Maria Gonçalves

A manifestação neonazista e o atentado ocorridos na semana passada em Charlottesville giram em torno da disputa simbólica da herança representada pelos monumentos confederados. A cidade da Virgínia, seguindo o exemplo de algumas outras cidades do sul dos Estados Unidos, pretende remover a estátua do general Robert E. Lee, e os supremacistas brancos estavam por lá para defendê-la.
Lee foi o militar que comandou o exército da Virgínia contra a União, numa guerra separatista que queria manter a escravidão no Sul do país. A discussão tomou fôlego em 2015, depois que um supremacista branco matou nove pessoas negras em um atentado a uma igreja em Charleston, na Carolina do Sul. A cidade de New Orleans, por exemplo, comemorou, em maio passado, a remoção do último dos quatro monumentos confederados, exatamente uma estátua do general Lee.
O prefeito Mitch Landrieu, que é branco, reconheceu que tais monumentos celebram a supremacia branca, e disse que tal ato poderia fazer com que o estado da Louisiana finalmente começasse a se curar [dos males da escravidão], pois “não é bom continuar reverenciando uma falsa versão da história e colocar a Confederação em um pedestal”, completando que há que se reconhecer que os confederados estavam no lado errado da história.
“Não é bom continuar reverenciando uma falsa versão da história e colocar a Confederação em um pedestal”
Por “lado errado da história”, por mais que se tente amenizar ou mesmo mascarar a intenção dos estados do sul durante a Guerra da Secessão, deve-se entender:o lado que defendia a manutenção de uma economia baseada na escravidão.
Não é apenas nos Estados Unidos que o “lado errado da história” é celebrado e mascarado. Aqui no Brasil, em Santa Bárbara D´Oeste (SP), há mais de 30 anos acontece a Festa Confederada. Com patrocínio estatal e incluída no calendário oficial do Estado de São Paulo, a festa, segundo os organizadores, foi organizada para “manter viva a memória dos nossos ancestrais” – ou seja, os confederados que, depois de derrotados nos sul dos Estados Unidos, vieram procurar abrigo no Brasil, onde ainda havia escravidão.
A história desses ancestrais e de como chegaram a esta região do estado de São Paulo pode ser lida no livro “Brazil: the Home for Southerners” (“Brasil, lar dos sulistas”, em tradução livre), do reverendo Ballard S. Dunn. Na festa dos descendentes dos confederados brasileiros, assim como nas casas e nas manifestações dos supremacistas estadunidenses, a bandeira confederada está em todos os lugares: nas roupas, na decoração, nos uniformes, pintada no palco onde acontecem shows e apresentações.

O contexto dessa imigração

Um dos grandes problemas deixados por séculos de escravidão foi o que fazer com o enorme contingente de negros libertos ou libertados, que nunca seriam totalmente integrados à sociedade. Aos olhos dos ex-senhores e das autoridades, representavam tanto uma ameaça à ordem pública, em locais onde eram muito numerosos, como uma ameaça à composição étnica, por serem considerados inferiores.
Os Estados Unidos fundaram uma colônia na África (Libéria), para onde enviaram todos os negros que se dispunham a deixar o país, com todas as despesas pagas. A ideia de uma colônia de negros norte-americanos no Brasil, mais especificamente na região amazônica, também era bastante atraente, por ser mais perto e por acreditarem que tínhamos aqui um modelo de sociedade menos racista.
O governo brasileiro chegou a ser consultado em algumas ocasiões, abortando a ideia porque, na época, mesmo antes da Abolição por aqui, já se pensava em um processo de branqueamento da população. Havia leis que proibiam a entrada de africanos livres no país e, ainda em 1945, imigrantes deveriam ser selecionados de acordo com a “necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes de sua ascendência européia.” A política de incentivos para atrair imigrantes europeus brancos acabou atraindo também os brancos norte-americanos.
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Descendentes de sulistas americanos na Festa Confederada de 2017
Reprodução: Festa Confederada / Facebook
Com o fim da Guerra Civil, alguns sulistas brancos escravocratas se sentiram humilhados com a derrota imposta pelo norte abolicionista, acreditando que não havia mais condições de permanecerem no país. Na década de 1860, o reverendo Ballard S. Dunn fez uma longa expedição pelo Brasil e acabou escolhendo, com o aval do Imperador, uma região no interior do estado de São Paulo. Mudando-se para lá junto com várias famílias, fundou os povoamentos que dariam origem às cidades de Americana e Santa Bárbara D´Oeste. A ligação com o passado é tão forte que até 1998, o brasão de Americana ainda fazia alusões à bandeira confederada.
Nenhum problema que os descendentes de confederados brasileiros queiram continuar reverenciando seus antepassados, mas que o façam com a verdade, em respeito à História e aos descendentes de escravizados.
Os descendentes dos confederados de Santa Bárbara D´Oeste, representados por uma associação chamada Fraternidade Descendência Americana, soltaram uma nota condenando e lamentando o atentado em Charlottesville. A nota contém trechos de uma mesma nota emitida em 2015, quando do atentado na igreja de Charleston, como podemos ver reportagem, e  pode ser lida na íntegra aqui , mas da qual destaco:
“A Fraternidade Descendência Americana representa milhares de descendentes de imigrantes Americanos que escolheram o Brasil como novo lar após sofrerem os horrores da guerra da secessão. Este conflito resolveu todas as divergências filosóficas, políticas, econômicas e sociais, onde o lado vencedor ditou as regras para todos daquele país, cujos efeitos refletem no atual sistema de vida dos Norte Americanos. Nossos ancestrais encontraram no Brasil o abraço acolhedor e a paz para recomeçarem suas vidas, sendo seus descendentes os maiores demonstradores da integração entre raças e povos frutos dos casamentos inter-raciais que ocorrem desde das primeiras gerações de descendentes.”
E:
“Aproveitamos para ressaltar que o General Robert E. Lee é considerado um dos melhores generais da história dos EUA e que ele não possuía escravos e entendia que a escravidão era um grande mal. Ele liderou as tropas confederadas na sua luta pela independência. Desta forma, o General Robert E. Lee não representa os grupos extremistas de direita estadunidense.”
Há tantos problemas nestes dois parágrafos acima que fica difícil começar, mas vou me ater ao que se refere ao general Lee. Nenhum problema que os descendentes de confederados brasileiros queiram continuar reverenciando seus antepassados, mas que o façam com a verdade, em respeito à História e aos descendentes de escravizados.
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O palco da Festa Confederada é uma bandeira da Confederação, um símbolo da luta para manter escravidão no sul dos Estados Unidos.
Divulgação: Festa dos Confederados / Facebook
“Informações sobre a vida de Lee foram editadas para apresentá-lo sob uma luz favorável, começando imediatamente após sua morte – até mesmo no Norte”, diz este artigo, que ainda traz a seguinte declaração do ex-escravo, escritor e abolicionista Frederick Douglass: “Dificilmente podemos pegar um jornal que não esteja cheio de bajulações nauseantes” acerca de Lee, sobre quem “parece que o soldado que mais matou homens em batalhas, até mesmo por má causa, é o maior dos cristãos, qualificado por um lugar no paraíso.”
O artigo também dá conta de que Lee teve escravos sim, ao contrário do que muitos tentam negar: “Lee possuía escravos próprios antes da Guerra Civil, até 1852 [sua esposa continuou possuindo depois disto], e considerou comprar mais depois desta data, de acordo do a biografia escrita por Elizabeth Brown Pryor, que se baseia nas correspondências de Lee.” Em carta para a esposa, o general diz o que acha da escravidão:  “A escravidão, como instituição, é um mal moral e político em qualquer país”.
A Guerra Civil foi, sim, uma luta pela manutenção da escravidão
Deve ser daqui que a Fraternidade Descendência Americana tirou a declaração sobre Lee, esquecendo-se, no entanto, do que complementa essa sua declaração. Lee afirma que a escravidão era pior para os brancos do que para os negros, e que era necessário que os negros a suportassem, para que fossem civilizados:
“A dolorosa disciplina pela qual estão passando é para a instrução de sua raça… Por quanto tempo esta instituição será necessária é sabido e ordenado por uma sábia Providência Misericordiosa.”
Ou seja: só Deus sabia, e não cabia aos homens libertá-los. Aqui se confirma o argumento de que a Guerra Civil foi, sim, uma luta pela manutenção da escravidão,  na qual a religião foi forte componente. O que pode ser confirmado neste artigo, que a coloca no centro das declarações dos vários estados confederados.
Ou seja, naquele tempo e agora, os símbolos confederados, como a bandeira e as estátuas do general Lee, representam um ideal defendido tanto por Trump quanto pelos supremacistas brancos: a américa para os americanos –  e apenas os brancos protestantes. Os mesmos que migraram para o Brasil e deram origem às cidades de Americana e Santa Bárbara D`Oeste. Que seus descendentes queiram honrar sua memória é completamente entendível, mas que também assumam a verdade histórica da herança que trouxeram com eles.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O casamento do nazismo com a escravidão no Brasil, por Marcos Sacramento

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A história do país é cheia de episódios indigestos, que não viram enredo de escolas de samba ou pretexto para as aventuras da Glória Maria no Globo repórter.
Mas uma vez ou outra surge um documentário para invocar fantasmas do passado, como “Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil”, de Belisario Franca, lançado no mês passado e em exibição em Florianópolis, Niterói, Rio de Janeiro, Santos e Vitória.
Baseado na tese de doutorado do historiador Sidney Aguilar Filho pela Unicamp, o trabalho conta a história de 50 crianças órfãs levadas do Educandário Romão de Mattos Duarte, no Rio de Janeiro, para uma propriedade rural no interior de São Paulo, onde foram submetidas a trabalho escravo.
O traslado sinistro ocorreu nos primeiros anos da década de 1930. Iludidos com a promessa de que iriam viver em um lugar onde poderiam brincar e estudar livremente, os meninos, a maioria negros, foram levados de trem para a fazenda Cruzeiro do Sul, em Campina do Monte Alegre, pertencente à rica e influente família Rocha Miranda.
Alguns membros dessa família, segundo o documentário, nutriam simpatia pelas ideias de Adolf Hitler e participavam da Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento de extrema-direita liderado por Plínio Salgado com fortes influências do fascismo italiano.
Apesar de soar absurdo hoje, tal alinhamento não era uma degenerescência entre as elites brasileiras numa época em que as teorias de eugenia estavam entranhadas na sociedade.
Eram os primeiros anos do governo Vargas, com inspirações fascistas e laços estreitos com a Alemanha nazista. A seção do partido Nacional Socialista mantida no país era considerada a maior fora da Europa.
Foram justamente os laços dos Rocha Miranda com o nazismo que levaram Aguilar aos meninos escravizados. Em 1998, ao dar uma aula de História para uma turma de ensino médio, o professor foi interpelado por uma aluna que falou de uns tijolos com desenhos de suásticas encontrados em um casarão abandonado na fazenda da família.
Aguilar ficou intrigado com a história e foi a campo em busca de mais informações até que descobriu a história dos meninos retirados do orfanato. Para a maioria deles, a liberdade só chegou em 1942, quando o Brasil cortou relações com a Alemanha e os símbolos nazistas passaram a ser proibidos.
Bandeiras e documentos foram destruídos. O gado de raça, marcado com suásticas, foi desprezado pelo mercado e deixado no pasto até envelhecer.
O senhor Aloysio da Silva, o “Menino 23”, é um dos dois únicos órfãos entrevistados no documentário. Segundo lembra, certo dia eles foram reunidos sem explicações e em seguida liberados da fazenda. Deixados à própria sorte, seguiram sem rumo pela linha do trem.
Houve quem se perdesse pelas ruas ou sucumbisse ao alcoolismo. Os mais sortudos conseguiram subempregos. Era a repetição em menor escala do que acontecera 50 anos antes, quando os negros saíram da escravidão sem receber a mínima assistência do Estado.
A família Rocha Miranda nega que tenha existido trabalho escravo e se defende com um blog, onde dá as suas versões dos fatos. Há um vídeo no Youtube onde um dos descendentes, Maurício Rocha Miranda, coleta depoimentos de antigos moradores da cidade refutando qualquer indício de abusos na fazenda Cruzeiro do Sul.
Por outro lado, a tese de Aguilar foi aprovada “incondicionalmente e por unanimidade” e premiada pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).
De acordo com o documentário, Maurício Rocha Miranda foi procurado para dar o seu depoimento, porém teria se recusado a participar.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

A atualidade brutal de Hannah Arendt, por Ladislau Dowbor.


130905-Arendt
Adolf Eichmann, criminoso nazista. Mas, também, um burocrata preocupado apenas em cumprir ordens…
Filme de Margarethe von Trotta sugere que totalitarismo pode assumir faces “normais” e parece indispensável num cenário de democracia esvaziada e guerra iminente
Por Ladislau Dowbor
O filme causa impacto. Trata-se, tema central do pensamento de Hannah Arendt, de refletir sobre a natureza do mal. O pano de fundo é o nazismo, e o julgamento de um dos grandes mal-feitores da época, Adolf Eichmann. Hannah acompanhou o julgamento para o jornal New Yorker, esperando ver o monstro, a besta assassina. O que viu, e só ela viu, foi a banalidade do mal. Viu um burocrata preocupado em cumprir as ordens, para quem as ordens substituíam a reflexão, qualquer pensamento que não fosse o de bem cumprir as ordens. Pensamento técnico, descasado da ética, banalidade que tanto facilita a vida, a facilidade de cumprir ordens. A análise do julgamento, publicada pelo New Yorker, causou escândalo, em particular entre a comunidade judaica, como se ela estivesse absolvendo o réu, desculpando a monstruosidade.
A banalidade do mal, no entanto, é central. O meu pai foi torturado durante a II Guerra Mundial, no sul da França. Não era judeu. Aliás, de tanto falar em judeus no Holocausto, tragédia cuja dimensão trágica ninguém vai negar, esquece-se que esta guerra vitimou 60 milhões de pessoas, entre os quais 6 milhões de judeus. A perseguição atingiu as esquerdas em geral, sindicalistas ou ativistas de qualquer nacionalidade, além de ciganos, homossexuais e tudo que cheirasse a algo diferente. O fato é que a questão da tortura, da violência extrema contra outro ser humano, me marcou desde a infância, sem saber que eu mesmo a viria a sofrer. Eram monstros os que torturaram o meu pai? Poderia até haver um torturador particularmente pervertido, tirando prazer do sofrimento, mas no geral, eram homens como os outros, colocados em condições de violência generalizada, de banalização do sofrimento, dentro de um processo que abriu espaço para o pior que há em muitos de nós.
Por que é tão importante isto, e por que a mensagem do filme é autêntica e importante? Porque a monstruosidade não está na pessoa, está no sistema. Há sistemas que banalizam o mal. O que implica que as soluções realmente significativas, as que nos protegem do totalitarismo, do direito de um grupo no poder dispor da vida e do sofrimento dos outros, estão na construção de processos legais, de instituições e de uma cultura democrática que nos permita viver em paz. O perigo e o mal maior não estão na existência de doentes mentais que gozam com o sofrimento de outros – por exemplo uns skinheads que queimam um pobre que dorme na rua, gratuitamente, pela diversão – mas na violência sistemática que é exercida por pessoas banais.
Entre os que me interrogaram no DOPS de São Paulo encontrei um delegado que tinha estudado no Colégio Loyola de Belo Horizonte, onde eu tinha estudado nos anos 1950. Colégio de orientação jesuíta, onde se ensinava a nos amar uns aos outros. Encontrei um homem normal, que me explicava que arrancando mais informações seria promovido, me explicou os graus de promoções possíveis na época. Aparentemente queria progredir na vida. Outro que conheci, violento ex-jagunço do Nordeste, claramente considerava a tortura como coisa banal, coisa com a qual seguramente conviveu nas fazendas desde a sua infância. Monstros? Praticaram coisas monstruosas, mas o monstruoso mesmo era a naturalidade com a qual a violência se pratica.
Um torturador na OBAN me passou uma grande pasta A-Z onde estavam cópias dos depoimentos dos meus companheiros que tinham sido torturados antes. O pedido foi simples: por não querer se dar a demasiado trabalho, pediu que eu visse os depoimentos dos outros, e fizesse o meu confirmando a verdades, bobagens ou mentiras que estavam lá escritas. Explicou que eu escrevendo um depoimento que repetia o que já sabiam, deixaria satisfeitos os coronéis que ficavam lendo depoimentos no andar de cima (os coronéis evitavam sujar as mãos), pois veriam que tudo se confirmava, ainda que fossem histórias absurdas. Segundo ele, se houvesse discrepâncias, teriam de chamar os presos que já estavam no Tiradentes, voltar a interrogá-los, até que tudo batesse. Queria economizar trabalho. Não era alemão. Burocracia do sistema. Nos campos de concentração, era a IBM que fazia a gestão da triagem e classificação dos presos, na época com máquinas de cartões perfurados. No documentário A Corporação, a IBM esclarece que apenas prestava assistência técnica.
O mal não está nos torturadores, e sim nos homens de mãos limpas que geram um sistema que permite que homens banais façam coisas como a tortura, numa pirâmide que vai desde o homem que suja as mãos com sangue até um Rumsfeld que dirige uma nota aos exército americano no Iraque, exigindo que os interrogatórios sejam harsher, ou seja, mais violentos. Hannah Arendt não estava desculpando torturadores, estava apontando a dimensão real do problema, muito mais grave.
Adolf Eichmann em seu julgamento em Jerusalém, (Julho 17, 1961), por Ronald Searle
Adolf Eichmann em seu julgamento em Jerusalém, (Julho 17, 1961), por Ronald Searle
A compreensão da dimensão sistêmica das deformações não tem nada a ver com passar a mão na cabeça dos criminosos que aceitaram fazer ou ordenar monstruosidades. Hannah Arendt aprovou plenamente e declaradamente o posterior enforcamento de Eichmann. Eu estou convencido de que os que ordenaram, organizaram, administraram e praticaram a tortura devem ser julgados e condenados.
O segundo argumento poderoso que surge no filme, vem das reações histéricas de judeus pelo fato de ela não considerar Eichmann um monstro. Aqui, a coisa é tão grave quanto a primeira. Ela estava privando as massas do imenso prazer compensador do ódio acumulado, da imensa catarse de ver o culpado enforcado. As pessoas tinham, e têm hoje, direito a este ódio. Não se trata aqui de deslegitimar a reação ao sofrimento imposto. Mas o fato é que ao tirar do algoz a característica de monstro, Hannah estava-se tirando o gosto do ódio, perturbando a dimensão de equilíbrio e de contrapeso que o ódio representa para quem sofreu. O sentimento é compreensível, mas perigoso. Inclusive, amplamente utilizado na política, com os piores resultados. O ódio, conforme os objetivos, pode representar um campo fértil para quem quer manipulá-lo.
Quando exilado na Argélia, durante a ditadura militar, conheci Ali Zamoum, um dos importantes combatentes pela independência do país. Torturado, condenado à morte pelos franceses, foi salvo pela independência. Amigos da segurança do novo regime localizaram um torturador seu, numa fazendo do interior. Levaram Ali até a fazenda, onde encontrou um idiota banal, apavorado num canto. Que iria ele fazer? Torturar um torturador? Largou ele ali para ser trancado e julgado. Decepção geral. Perguntei um dia ao Ali como enfrentavam os distúrbios mentais das vítimas de tortura. Na opinião dele, os que se equilibravam melhor, eram os que, depois da independência, continuaram a luta, já não contra os franceses mas pela reconstrução do país, pois a continuidade da luta não apagava, mas dava sentido e razão ao que tinham sofrido.
No 1984 do Orwell, os funcionários eram regularmente reunidos para uma sessão de ódio coletivo. Aparecia na tela a figura do homem a odiar, e todos se sentiam fisicamente transportados e transtornados pela figura do Goldstein. Catarse geral. E odiar coletivamente pega. Seremos cegos se não vermos o uso hoje dos mesmos procedimentos, em espetáculos midiáticos.
Hannah Arendt,  filósofa política alemã de origem judaica (1906-1975)
Hannah Arendt, filósofa política alemã de origem judaica (1906-1975)
O texto de Hannah, apontando um mal pior, que são os sistemas que geram atividades monstruosas a partir de homens banais, simplesmente não foi entendido. Que homens cultos e inteligentes não consigam entender o argumento é em si muito significativo, e socialmente poderoso. Como diz Jonathan Haidt, para justificar atitudes irracionais, inventam-se argumentos racionais, ou racionalizadores.1 No caso, Hannah seria contra os judeus, teria traído o seu povo, tinha namorado um professor que se tornou nazista. Os argumentos não faltaram, conquanto o ódio fosse preservado, e com o ódio o sentimento agradável da sua legitimidade.
Este ponto precisa ser reforçado. Em vez de detestar e combater o sistema, o que exige uma compreensão racional, é emocionalmente muito mais satisfatório equilibrar a fragilização emocional que resulta do sofrimento, concentrando toda a carga emocional no ódio personalizado. E nas reações histéricas e na deformação flagrante, por parte de gente inteligente, do que Hannah escreveu, encontramos a busca do equilíbrio emocional. Não mexam no nosso ódio. Os grandes grupos econômicos que abriram caminho para Hitler, como a Krupp, ou empresas que fizeram a automação da gestão dos campos de concentração, como a IBM, agradecem.
O filme é um espelho que nos obriga a ver o presente pelo prisma do passado. Os americanos se sentem plenamente justificados em manter um amplo sistema de tortura – sempre fora do território americano pois geraria certos incômodos jurídicos -, Israel criou através do Mossad o centro mais sofisticado de tortura da atualidade, estão sendo pesquisados instrumentos eletrônicos de tortura que superam em dor infligida tudo o que se inventou até agora, o NSA criou um sistema de penetração em todos os computadores, mensagens pessoais e conteúdo de comunicações telefônicas do planeta. Jovens americanos no Iraque filmaram a tortura que praticavam nos seus celulares em Abu Ghraib, são jovens, moças e rapazes, saudáveis, bem formados nas escolas, que até acham divertido o que fazem. Nas entrevistas posteriores, a bem da verdade, numerosos foram os jovens que denunciaram a barbárie, ou até que se recusaram a praticá-la. Mas foram minoria.2
O terceiro argumento do filme, e central na visão de Hannah, é a desumanização do objeto de violência. Torturar um semelhante choca os valores herdados, ou aprendidos. Portanto, é essencial que não se trate mais de um semelhante, pessoa que pensa, chora, ama, sofre. É um judeu, um comunista, ou ainda, no jargão moderno da polícia, um “elemento”. Na visão da KuKluxKlan, um negro. No plano internacional de hoje, o terrorista. Nos programas de televisão, um marginal. Até nos divertimos, vendo as perseguições. São seres humanos? O essencial, é que deixe de ser um ser humano, um indivíduo, uma pessoa, e se torne uma categoria. Sufocaram 111 presos nas celas? Ora, era preciso restabelecer a ordem.
Um belíssimo documentário, aliás, Repare Bem, que ganhou o prêmio internacional no festival de Gramado, e relata o que viveu Denise Crispim na ditadura, traz com toda força o paralelo entre o passado relatado no Hannah Arendt e o nosso cenário brasileiro. Outras escalas, outras realidades, mas a mesma persistente tragédia da violência e da covardia legalizadas e banalizadas.
Sebastian Haffner, estudante de direito na Alemanha em 1930, escreveu na época um livro – Defying Hitler: a memoir – manuscrito abandonado, resgatado recentemente por seu filho que o publicou com este título.3 O livro mostra como um estudante de família simples vai aderindo ao partido nazista, simplesmente por influência dos amigos, da mídia, do contexto, repetindo com as massas as mensagens. Na resenha do livro que fiz em 2002, escrevi que o que deve assustar no totalitarismo, no fanatismo ideológico, não é o torturador doentio, é como pessoas normais são puxadas para dentro de uma dinâmica social patológica, vendo-a como um caminho normal. Na Alemanha da época, 50% dos médicos aderiram ao partido nazista.
O próximo fanatismo político não usará bigode nem bota, nem gritará Heil como os idiotas dos “skinheads”. Usará terno, gravata e multimídia. E seguramente procurará impor o totalitarismo, mas em nome da democracia, ou até dos direitos humanos.
2 Melhor do que qualquer comentário, é ver o filme O Fantasma de Abu Ghraib, disponível no Youtube em http://www.youtube.com/watch?v=_TpWQj0MjvI&feature=youtube_gdata_player ; ver também a pesquisa da BBC http://guardian.co.uk/world/2013/mar/06/pentagon-iraq-torure-centres-link ; sobre Guantanamo, ver o artigo do New York Times de 15/04/2013
3 Sebastian Haffner – Defying Hitler – http://dowbor.org/2003/08/defying-hitler-a-memoir.html/