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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Marketing pós-humano e pós-verdade na ascensão dos influenciadores virtuais, por Wilson Roberto Vieira Ferreira

Lentamente uma nova raça de avatares está se infiltrando nos “feeds” das redes sociais: são os influenciadores virtuais – supermodelos lindíssimas, como vidas cheias de música e ativismo social, promovendo marcas famosas de moda. Mas por trás estão algoritmos probabilísticos combinando o trabalho de fotógrafos, computação gráfica e inteligência artificial. Faz parte da chamada “Revolução Industrial 4.0” que nada mais faz do que estender para o século XXI o espírito do velho capitalismo: redução de custos e enxugamento da cadeia produtiva, aumento de lucros e incremento do controle social e político.  Mas para os seguidores dessa nova geração do Marketing de Influência, pouco importa se os influenciadores são reais ou virtuais – se artistas, celebridades e famosos sempre foram simulacros, então chega de intermediários! Assim como as fake news, o marketing pós-humano está criando a pós-verdade: o mix de autodistanciamento irônico e niilismo. Pauta sugerida pela nossa leitora Alana Pinheiro.



Foi por volta de 1990. O primeiro contato desse humilde blogueiro com um personal computer cujo sistema operacional era o Windows 3.1. Era uma demonstração para professores da então Faculdade Anhembi Morumbi, hoje universidade. 
Aferrado à minha máquina de escrever “Olivetti Lettera 32”, olhava com desdém aquilo que considerava ser um modismo passageiro. 
Para além da minha absoluta incapacidade de sincronizar o movimento do mouse na mesa com a setinha na tela, achava que havia algo de desapontador naquela invenção. Ao ver os ícones de telefone, bloco de notas, um arquivo com suas gavetas estilizadas, uma caixa postal, uma folha de calendário, uma paleta de tintas e um editor de texto com uma caneta tinteiro sobre a letra “A” pensei: ao contrário da prensa de Gutenberg ou do aparelho de TV, que criaram novas mídias, o computador nada mais fazia do que virtualizar mídias já existentes.
Minha primeira impressão do computador era a de uma tecnologia que parasitava mídias do mundo real: nada criava, apenas digitalizava para rotinizar suas funções principais. A passagem do analógico para o digital não inova estética ou culturalmente. Apenas hibridiza as mídias anteriores inserido as velhas mídias em plataformas digitais. Claro, isso puxaria uma longa discussão sobre a diferença (ou não) entre mídia e plataforma. 
Portanto, a maior motivação sempre foi econômica: velocidade, diminuição de custos, automatização, monitoramento e controle de atividades anteriormente feita por humanos, redução e enxugamento das cadeias produtivas e assim por diante.

Alguns ícones do Windows 3.1

Nenhuma novidade. Nada mais do que o capitalismo sempre fez desde a primeira Revolução Industrial quando as máquinas a vapor substituíram a manufatura, poupando tempo e custos – e, principalmente, controlando o ritmo da exploração do trabalho.
Hoje entramos na chamada Revolução Industrial 4.0 (RI 4.0): nanotecnologia, inteligência artificial, biotecnologia, neurotecnologia – a primeira no século XVIII-XIX marcada pela máquina a vapor; a segunda pela eletricidade e a manufatura em massa; a terceira, nos meados do século XX com a chegada da eletrônica, telecomunicações e informática.
Enquanto os computadores com aquele velho Windows 3.1. continham algoritmos determinísticos (sequência finita de ações executáveis que resolve problemas com uma decisão exata a cada passo), na RI 4.0 os algoritmos dominantes são não-determinísticos (deduz os melhores passos através de estimativas heurísticas).
Da automação dos serviços repetitivos e mecânicos (robôs em linhas de montagem, p.ex.), passamos na RI 4.0 a automatizar decisões humanas (decisões de negociações no mercado financeiro, automatizadas por algoritmos de alta frequência), a língua natural (personagens de inteligência artificial em aplicativos como Bia, Alexa, Siri etc.) e algoritmos de mineração de dados dos usuários em redes sociais para fins mercadológicos e, principalmente políticos, como comprovaram as vitórias de Trump nos EUA e Bolsonaro, no Brasil.
Podemos estar na RI 4.0, mas o velho espírito do capitalismo permanece: redução de custos, aumento dos lucros e controle social através do medo e chantagem da automatização e desemprego para erodir o sindicalismo e direitos sociais e trabalhistas.

As supermodelos virtuais Shudu e Lili Miquela

E a moderna e descolada rede social de compartilhamento de fotos e vídeos Instagram nos apresenta mais uma evidência desse persistente espírito do capitalismo: o fascinante mundo das celebridades que não existem na vida real. Uma nova raça de criações geradas por computador que vem se transformando numa plataforma de influenciadores digitais virtuais lucrativa e poderosa.
Influenciador digital é um personagem popular na rede social com um público massivo que acompanha suas postagens. Tornam-se líderes de opinião de tendências e costumes, procurados por grandes empresas para criar tendências e divulgar produtos em áreas de games, fitness, moda e beleza, culinária etc. São modelos, youtubers, atores, comediantes, famosos, celebridades ou subcelebridades.
No início desse ano a marca de maquiagens Fenty Beauty postou uma imagem da modelo chamada Shudu usando um batom laranja. A foto viralizou em 2018, enquanto Shudu já tinha mais de 110 mil seguidores. Shudu ainda “colaborou” com grandes marcas de moda como Oscar De La Renta e a companhia nova-iorquina de langerie The Great Eros.
Shodu é uma modelo negra, incrivelmente linda e perfeita. Mas, não é de carne e osso – trata-se de uma criação de computação gráfica do fotógrafo britânico Cameron-James Wilson – “uma celebração virtual da beleza da mulher negra”, como justifica o criador. Shodu “interage” com seus seguidores, muitas vezes enviando mensagens privadas.


Avatares estão lentamente se infiltrando nas feeds do Instagram desde 2016, quando uma pop-star brasileira-americana chamada Miquela Sousa (“Lili Miquela”) postou sua primeira foto. Ativista, apoia causas sociais como Black Lives Matter e uma organização chamada Black Girls Code. Além de ter lançado um single chamado “Not Mine”, um dos mais tocados no serviço de streaming Spotfy. Posa para marcas como Chanel e Prada.
O caso Lili Miquela é até mais sofisticado, pois cria também uma narrativa: ela tem um rival virtual chamada Bermuda, outra influenciadora digital fake que supostamente teria hackeado a conta de Lili Miquela. Vítima de uma influencer invejosa que, somado a fotos de Miquela supostamente participando do Festival de Música Coachella, cria para os seguidores a imagem de uma vida intensa e cheia de emoções.
Supostamente Lili Miquela conta com agente e um empresário. Mas por trás dela está a Brud, grupo sediado em Los Angeles que oferece soluções em robótica, inteligência artificial com aplicações para empresas de mídia.

Rivalidade virtual: Bermuda (esq.) versus Lili Miquela

O Marketing de influência pós-humano

O chamado “marketing de influência” é focado em indivíduos que exerçam liderança sobre potenciais compradores de marcas de produtos ou serviços porque estabelecem uma relação de confiança legítima – conseguem criar empatia e identificação com seus seguidores por se tornarem modelos de admiração.
Porém, isso desaparece com os influenciadores virtuais – parece se impor uma relação cínica, um estranho mix de realismo e niilismo na relação dos seguidores com os avatares. 
Por exemplo, a resposta da modelo britânica Fatou Suri ao descobrir que supermodel Shodu não era real foi de “estranheza e decepção”, mas "Como modelo, minhas fotos são melhoradas no computador. Às vezes, minha aparência chegava a mudar completamente; então é algo parecido", diz ela. "Obviamente, Shudu é muito perfeita. Fico um pouco feliz em saber que ela não é real!".
Se as celebridades humanas na cultura popular sempre foram virtuais (nada espontâneas e guiadas por roteiros dirigidos por agentes e empresários), então chega de intermediários! Nada mais prático do que criar uma nova raça de influenciadores verdadeiramente virtuais, modeladas por algoritmos probabilísticos – aqueles que “aprendem” quanto mais interagem com humanos.
"Fiquei fascinado por Miquela não apenas por sua estética artística, mas por seu ativismo", diz ele. "Miquela é Miquela, não importa se ela é real ou virtual. As pessoas tentaram desacreditá-la devido à maneira como ela se apresenta, mas elas estão perdendo o foco. Apesar de ganhar muitos seguidores, Miq continua sendo alguém que se preocupa com eles", defende o fervoroso fã de Lili Miquela, Anthony Reys, artista de 18 anos de Michigan.
Obviamente, o fator humano é eliminado no cálculo dos riscos do negócio – a equipe criadora da Inteligência artificial tem total controle do conteúdo. Assim como no século XVIII a máquina a vapor deu ao Capital total controle da produção, até então nas mãos dos artesãos.


Nada de posts comprometedores do influenciador, principalmente de posts passados, antes de se engajar em alguma marca – o risco “seu passado o condena” está erradicado! O influenciador está sob o controle das linhas de comandos executáveis.
Sem falar no enxugamento dos custos e, muito além, o recrudescimento do controle social sob a ameaça da obsolescência humana – depois da obsolescência dos influenciadores humanos, quem sabe no futuro, roteiristas, criadores, artistas e marqueteiros serão também eliminados dessa cadeia produtiva dominada pela inteligência artificial.

Hiper-real e pós-verdade

O caráter hiper-real e pós-humano é intrigante: se as tradicionais celebridades humanas já eram simulacros ou simulações que emulavam personagens ficcionais (fotos pesadamente editadas, filtros e Photoshop), hoje a IA cria mais uma camada de simulação sobre as camadas de simulacros anteriores – é a hiper-realidade: cópia de uma cópia que, por sua vez, era outra cópia...


Portanto, nesse cenário qual a importância da autenticidade de um influenciador virtual? 
O fato é que o pós-humano parece complementar o fenômeno da pós-verdade. Se tudo é fake, simulado ou retocado, acaba a distinção entre verdade e mentira, ficção e realidade. Entramos na era em que cada influenciador virtual cria sua própria realidade paralela, uma storytelling na qual os seguidores embarcam com muito autodistanciamento irônico – cinismo e niilismo mesclados.
Quem se importa? Tentar especular se Lili Miquela ou Shudu são modelos reais ou virtuais é um mero álibi para viralizar ainda mais o negócio. No fundo, continua o movimento de autoabdicação humana, iniciado pelas máquinas a vapor do século XVIII. E agora potencializado pelos algoritmos das IAs. 
Nosso futuro é a obsolescência programada.
Com informações da BBC Brasil, Influencer.uk e Inverse.com

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O Brasil desassombrado pelas palavras-fantasmas, por Eliane Brum.



Exposição 'Osso', em cartaz no Instituto Tomie Othake.
Exposição 'Osso', em cartaz no Instituto Tomie Othake.






Como as palavras podem voltar a dizer no Brasil? A atual crise é também uma crise de palavra, como já escrevi aqui. No sentido de que o movimento das palavras está interditado, como cartas enviadas que não chegam ao seu destinatário. Em parte isso se deve ao fato de que o absurdo tece o cotidiano, como a realidade brasileira não se cansa de provar. E o absurdo se alarga um pouco mais a cada dia. O que se chama de realidade objetiva tornou-se uma vivência do inconcebível. Embora hiperconectados por redes sociais, as palavras são apenas repetições que voltam para si mesmas. Dizer o absurdo – e até gritar o absurdo, já que os gritos se tornaram a preferência nacional – não é suficiente para sair do absurdo ou para minimizar o sentimento de estar à deriva. É como se o remetente e o destinatário das cartas fossem o mesmo, voltando sempre para si, em looping, numa espécie de encarceramento da linguagem.
Penso que em parte isso acontece porque priorizamos uma forma de acesso à realidade. E também porque tomamos o que costumamos chamar de realidade objetiva como toda a realidade. E damos à sua “notícia” a representação por excelência. Damos a ela o status de “verdade” – mesmo quando nos debatemos com a “pós-verdade”. Sujeita a interpretações e até a falsificações, mas absoluta. Tomamos por todo o que é apenas parte.
Suspeito que seja necessário voltar a ampliar as formas de acesso à realidade, para retomar a tessitura da linguagem, para que as palavras-cartas voltem a chegar ao seu destino, recuperando a potência de produzir movimento, efeito e transformação. E para que sejamos capazes de romper essa forma de prisão que é a palavra que não diz – e que volta para cada um depois de um percurso vazio, volta para cada um como um bumerangue. Para que sejamos capazes de romper a paralisia provocada pela condenação ao absurdo.
O sonho e a arte são dois caminhos de resgate da palavra. O sonho não só como via de acesso à realidade e como elaboração do real, mas como realidade também. A arte não só como via de acesso à realidade e como elaboração e reinvenção do real, mas como realidade também.


Para romper a paralisia é preciso que as palavras-cartas voltem a chegar ao seu destino e a produzir movimento
Para pensar sobre isso, trago dois exemplos que me parecem bastante extraordinários. Um deles é um livro da década de 60 do século 20 que acaba de ser editado no Brasil pela Três Estrelas: Sonhos no Terceiro Reich, da jornalista alemã de origem judia Charlotte Beradt. A edição brasileira tem a excelente tradução de Silvia Bittencourt e um belo prefácio do psicanalista Christian Dunker. O outro é Osso Exposição-Apelo ao Amplo Direito de Defesa de Rafael Braga, promovida pelo Instituto Tomie Ohtake, de São Paulo, e o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD). Um grupo de 29 artistas colaborou para criar essa exposição que busca romper a barreira do absurdo que é a prisão de Rafael Braga, detido nas manifestações de junho de 2013 por portar dois frascos: um contendo água sanitária, o outro desinfetante.
Primeiro, o sonho. Como este, que teve um médico de 45 anos depois de ter vivido um ano sob o regime do Terceiro Reich, na Alemanha. Numa noite de 1934, ele assim sonhou: “Perto das nove da noite, depois de minhas consultas, quando quero me esticar calmamente no sofá, com um livro sobre Matthias Grünewald, minha sala e meu apartamento ficam de repente sem paredes. Olho apavorado ao meu redor e, até onde meus olhos conseguem alcançar, os apartamentos estão todos sem paredes. Ouço gritarem em um megafone: ‘De acordo com o edital sobre a eliminação de paredes, datado do dia 17 deste mês...’”.
Charlotte Beradt coletou os sonhos de alemães vivendo sob o Terceiro Reich de 1933 a 1939. Antes, portanto, do início da Segunda Guerra Mundial. “Sonhos poderiam ajudar a interpretar a estrutura de uma realidade prestes a se tornar um pesadelo”, diz ela. “Meus exemplos mais elucidativos vêm dos primeiros tempos de um regime ainda disfarçado.”


“Sonhos podem ajudar a interpretar uma realidade prestes a se tornar um pesadelo”
Como também ela estava sob o regime de opressão, teve que camuflar em suas anotações os sonhos obtidos por meio de relatos orais. Em vez de partido, por exemplo, usou “família”. “Tio Hans”, “Gustav” e “Gerhard” para, respectivamente, Hitler, Göring e Goebbels. Prisão era disfarçada como “gripe”. No início, escondeu esses relatos atrás de livros, numa ampla biblioteca. Depois, passou a enviá-los como cartas, a endereços diversos de diferentes países. Só foi voltar a acessá-los quando ela mesma foi obrigada a emigrar da Alemanha.
Christian Dunker chama a atenção no prefácio para algo que me parece fundamental também para pensar sobre o que chamo de crise da palavra: “Os sonhos são parte da realidade factual. Eles não provêm de outra realidade, que seria então qualificada como ficcional ou virtual. Sonhos são uma experiência real em si mesma. (...) O real não é individual ou coletivo, psicológico ou sociológico, científico ou religioso, o real é o que é. Mas estamos acostumados demais a pensar o real apenas como os fatos positivos, presentes e atuais. Contra isso o sonho nos apresenta uma curiosa combinação de fatos futuros e passados imersos em uma situação de perturbação do presente”.
O médico que sonha com a vida sem paredes, imposta por um ato burocrático do Estado totalitário, ao anotar seu sonho noturno encontrou o fato ocorrido na vigília que o teria provocado: “O vigilante nazista dos quarteirões chegou perguntando porque eu não havia içado a bandeira. Tranquilizei-o e lhe servi um aguardente, mas pensei: ‘Nas minhas quatro paredes, nas minhas quatro paredes...’ (...) Apesar de eu não ser uma pessoa política, todos os ingredientes do meu sonho e das minhas fantasias são políticos”.
O sonho torna-se para o médico, como aponta a jornalista, “a única possibilidade de se afastar da vida sem paredes, a única possibilidade real de emigração interior”. O médico ainda diria: “Já que os apartamentos se tornaram públicos, vou viver no fundo do mar para permanecer invisível”. A vastidão do oceano como metáfora para o território do inconsciente onde os sonhos são produzidos a partir dos vestígios do dia, o inconsciente muito mais presente e mobilizador na vida de cada um do que o consciente. Também por isso em algumas culturas os sonhos carregam algum poder premonitório. Mas o que aparece é aquilo que o indivíduo intui ou percebe no seu cotidiano, mas esse saber sobre a realidade ainda não emergiu à consciência.


Nos sonhos emerge um saber sem saber nascido daquilo que é percebido e intuído nos vestígios do dia
O horror totalitário irrompe nestes sonhos coletados, como aponta aquela que os recolheu, muito antes de o horror se instalar por completo. “O que hoje são fatos políticos, até mesmo do cotidiano, não eram naquela época nem fatos de romance”. Muito antes da publicação de 1984, a clássica distopia de George Orwell, os alemães no Terceiro Reich sonhavam com aparatos de controle do Estado que sequer existiam. “Eles representavam na escuridão da noite, de maneira distorcida, o que ocorria com eles no mundo sombrio do dia”, escreve a autora. Sabiam – sem saber.
Os sonhos de quem sonhou no Terceiro Reich trazem a singularidade de cada experiência individual, mas compartilham traços comuns. Outra mulher tem o seguinte sonho, em 1933, logo que Adolf Hitler chega ao poder: “Quadros são colocados em cada esquina para substituir as placas de rua, proibidas. Esses quadros anunciam, em letras brancas sobre um fundo negro, vinte palavras que o povo está proibido de pronunciar. A primeira palavra é Lord – por precaução devo ter sonhado em inglês, e não em alemão. As outras esqueci ou provavelmente nem cheguei a sonhar com elas, com exceção da última: Eu”.
Como expressar melhor o esmagamento do indivíduo pelo Estado totalitário? Esse livro que fala sobre sonhos de cidadãos que se sentem impotentes de várias maneiras diante do absurdo que se torna o cotidiano – e do impossível que acontece ao seu redor – tem uma potência enorme para falar da realidade daquele momento histórico e das realidades que transcendem aquele momento histórico. Mesmo para quem se debruça sobre o nazismo e sobre tudo o que o produz e é produzido por ele, há algo que só se ilumina a partir da realidade desta coleção de sonhos de cidadãos comuns.


O que sonham os brasileiros neste momento em que as palavras não são proibidas, mas sim esvaziadas de substância?
Isso me faz pensar: o que sonhamos nós neste momento do Brasil? Neste momento em que as palavras não estão proibidas, como no sonho da alemã, mas esvaziadas de substância? Nesta condição, as palavras são como fantasmas que atravessam o corpo do outro sem produzir nenhum efeito. E então voltam para nós, falantes compulsivos, gritadores contumazes, que produzem som, mas não movimento. E esta talvez seja uma versão contemporânea, uma versão dos tempos da Internet, de um outro tipo de censura. E de encarceramento pela linguagem. Palavras-fantasmas, é preciso dizer, não assombram. Desassombram.
E então chegamos à exposição: Osso. É, como o nome anuncia, uma Exposição-Apelo ao Amplo Direito de Defesa de Rafael Braga. Jovem, negro, favelado, Rafael Braga encarna uma esquina histórica. O catador de latas foi preso durante as manifestações de junho de 2013, no Rio de Janeiro. Carregava dois produtos de limpeza. E por isso foi acusado de “portar material incendiário”, embora o próprio laudo do Esquadrão Antibombas da Polícia Civil afirmasse que dificilmente poderia ser produzido um coquetel molotov com aquilo.
Depois de cumprir parte da pena de cinco anos e dez dias de prisão em regime fechado, ele passou para o regime aberto. Trabalhava como auxiliar de serviços gerais e usava tornozeleira eletrônica quando foi novamente preso. Com base apenas no relato dos policiais militares, um juiz o condenou a 11 anos e três meses de prisão por supostamente estar carregando 0,6 grama de maconha e 9,3 gramas de cocaína.


O único condenado das manifestações de junho de 2013 é o negro que estava passando
Por que Rafael Braga encarna uma esquina histórica? Porque ele é o único cidadão brasileiro condenado à prisão no contexto das manifestações de junho de 2013. Sem pertencer a qualquer grupo político, é o negro, jovem e favelado que passava com desinfetante e água sanitária que é preso. Para mantê-lo na prisão, basta a versão da PM que o prendeu uma vez e o prendeu outra vez. Em sua prisão, encontram-se os Brasis.
Junho de 2013 é insurreição. A prisão de Rafael Braga é a regra. A regra que atravessou a ditadura civil-militar. A regra que se manteve na redemocratização do país sem provocar suficiente incômodo naqueles que tinham poder para mudar essa realidade, nem suficiente incômodo para perturbar o sonho dos cidadãos brasileiros não sujeitos à ela.
Ao contrário: o Brasil saltou de 90 mil presos no início da década de 90 para os atuais mais de 600 mil. O encarceramento em massa aumentou enormemente no período democrático. E a violência não diminuiu. Ao contrário: a violência multiplicou-se. Neste sistema carcerário superlotado, os mais pobres, a maioria negros, são submetidos a condições torturantes como política de Estado. Apenas nos primeiros 15 dias deste ano, 133 pessoas presas foram assassinadas sem que nada mudasse depois da comoção inicial.
A punição vem rápida para os brasileiros pobres. A impunidade é para os brancos, os mais ricos e os escolarizados. Enquanto se discute as prisões dos políticos e empresários no contexto da Lava Jato, a mãe de quatro filhos que furtou 19 ovos de Páscoa num supermercado do interior paulista teve mantida a sua condenação de mais de três anos em regime fechado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Está lá, junto com o bebê de um mês de vida, trancafiada com outras 18 numa cela onde só cabem 12.


Junho de 2013 é insurreição. Rafael Braga é repetição
Contra os mais pobres, como aponta um dos textos de Osso, “a justiça penal é extraordinariamente rápida e eficiente”. Ou a (in)justiça. Num vídeo na sala da exposição dedicada a Rafael Braga, escuta-se a voz de homens e mulheres capturados pelo sistema punitivo. Eles vão relatando o que acontece com eles ao entrarem em corredores dos quais já não conseguem mais sair, subjugados a uma série infindável de abusos e de ilegalidades. E assim os anos se sucedem entre grades, com julgamentos adiados e processos obstruídos, enquanto a vida não só passa, como se esvai. Para estes brasileiros pobres, a maioria negros, O Processo de Kafka não é literatura, mas a própria existência.
É também por isso que Rafael Braga encarna uma esquina histórica: o absurdo, para brasileiros como ele, dura 500 anos. Junho de 2013 irrompe – e lá está ele. Rafael Braga é o não acontecimento que acontece.
O Brasil não vai mudar de forma estrutural porque a Lava Jato responsabiliza e prende empresários e políticos corruptos, por mais importante que isso seja – e é. O Brasil vai mudar de forma estrutural quando Rafael Braga não for preso. O Brasil vai mudar quando brasileiros como Rafael Braga tiverem amplo direito de defesa.
O absurdo da prisão repleta de ilegalidades de Rafael Braga está dito. Mas, como as palavras deixaram de dizer, elas não provocam movimento. Osso, a exposição, é a busca por alcançar essa realidade pela arte. E, quem sabe, produzir marca, memória e acontecimento. Logo na abertura, o belo texto do curador do Instituto Tomie Ohtake, Paulo Miyada, anuncia:


O Brasil não vai mudar porque a Lava Jato prende: vai mudar quando brasileiros como Rafael Braga tiverem direito de defesa
“A arte insiste. A arte pode insistir. (...) Obras de arte podem ser feitas de muito pouco, quase que só de insistência e de abertura para o mundo. Obras podem sobreviver mesmo no limite da escuridão e da invisibilidade. Não se deve confundir isso, no entanto, com o elogio da precariedade da vida e, muito menos, com o argumento de que tudo é aceitável em contextos de crise. (...) Em algum ponto é preciso traçar uma linha demarcando o que não se deve aceitar, o que não pode ser ultrapassado em nenhuma circunstância. Se sobram escândalos, urgências e disputas, onde traçar essa linha? Toda tentativa parece vaga demais. Parcial demais. O esboço de um limite: não deveríamos aceitar, por exemplo, a arbitrariedade das prisões de Rafael Braga”.
Essa exposição “no osso”, quase que só “lâmina”, traça o limite que aponta para o que deve ser inegociável em qualquer construção de um futuro para o Brasil: todas as vidas importam.


A política da “Guerra às Drogas” produz uma trilha de crianças assassinadas
Na semana passada, Vanessa Vitória dos Santos, uma criança de 10 anos, foi morta com uma bala na cabeça quando policiais militares invadiram a casa dela atirando, supostamente em busca de um suspeito, numa favela da zona norte do Rio de Janeiro. A menina tinha acabado de voltar da escola quando foi convertida em mais um corpo na trilha de crianças assassinadas da “Guerra às Drogas”, uma política que enriquece quem não mora na favela, encarcera e mata os mais pobres e desamparados e se tornou uma das principais causas dos crimes de Estado. Como a maioria dos mortos, Vanessa é negra.
A tia da menina deu um depoimento cortante porque desesperado e desesperador. Ela diz: “Alguma coisa tem que acontecer pra acabar com isso! Alguém tem que fazer alguma coisa!”. E ela diz: “A Polícia Militar entrou na casa dela sem ser convidada e sem ter permissão pra entrar. Não pode entrar na casa de ninguém atirando!”.
Ela diz o óbvio: “Não pode entrar na casa de ninguém atirando”. Ela nomeia o absurdo. Mas crianças como Vanessa seguem morrendo sem sequer ganhar as manchetes da maioria dos jornais. Apenas um espasmo e logo viram estatística. E se o absurdo é nomeado, é dito e é repetido e nada muda, o que fazer para que as palavras voltem a dizer? Para que as palavras deixem de ser espectros desencarnados que apenas atravessam sem produzir marca?


Os sonhos e a arte capturam o olhar indiferente, o olhar que desvia do horror
Nos sonhos dos alemães sob o Terceiro Reich, há um tema recorrente: aquele que sonha se vê vivendo o absurdo diante da indiferença e da impassibilidade dos demais. Ora isso aparece como “rostos inexpressivos”, ora como olhos e expressões “vazias”. Ora como “mudez”. O horror se realiza e os olhares atravessam. “Pessoas bem diferentes empregam o mesmo código para apresentar um fenômeno oculto do ambiente, ou seja, a atmosfera de indiferença total, que é produzida pela coerção e sufoca o espaço público”, escreve a autora e coletora de sonhos.
Não é assim o nosso olhar que desvia e desvia de Rafael Braga, da menina Vanessa e de tantos? Mesmo hoje, quando vídeos com esse horror viralizam na Internet, o olhar fixado na cena – vídeo após vídeo – não é uma outra forma de desviar ou mesmo de atravessar os corpos que morrem? Esse olhar que desvia não é o que conecta o absurdo gritado de hoje com o absurdo silenciado de sempre?
Mas não vivemos um sempre. Há que se ter muito cuidado com o sempre. Há um degrau a mais neste momento do Brasil. Há isso. Há as palavras que podem ser ditas. Há este tudo que pode ser dito, como se constata nas redes sociais. Tudo pode ser dito porque as palavras já nada dizem. Depois de tanto silenciamento, alcançamos o grito que produz som, mas não movimento.
Imaginar um futuro passa obrigatoriamente por descobrir caminhos para voltar a encarnar as palavras. Ao deslocar o lugar da realidade, o sonho e a arte podem ajudar a derrubar os muros que impedem as palavras-cartas de chegarem ao seu destino. E nos arrancar do grito espasmódico e da paralisia convulsiva. Nos puxar pelos cabelos do encarceramento da linguagem.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A semana da pós-verdade brasileira, por João Filho.

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Muito se falou nessa semana sobre a eleição da “pós-verdade” como a palavra do ano pelo dicionário Oxford. O verbete é assim definido: “circunstâncias em que os fatos objetivos têm menos influência sobre a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”

Impossível discordar da eleição. 2016 está sendo o ano em que a verdade dos fatos não está importando para a opinião pública, e despontando como o mais representativo dessa nova era.

Basta fazermos uma retrospectiva para atestar que a pós-verdade é mesmo a palavra definidora do nosso zeitgeist. O Brasil derrubou uma presidenta com deputados admitindo que votaram por motivos diferentes do único que poderia legalmente promover o impeachment. Mesmo diante de tantas confissões, a grande imprensa brasileira ignorou o fato e continuou rechaçando a narrativa de que havia um golpe parlamentar em curso.

Michel Temer confessou indiretamente o golpe ao admitir que o impeachment aconteceu porque Dilma não aceitou seguir seu plano de governo. A imprensa novamente cumpriu seu papel e fingiu que a declaração nunca existiu.

Nos EUA, a nação mais rica e poderosa do mundo, elegeu-se um palhaço mentiroso apoiado pela Ku Klux Klan. Mesmo com um repertório de mentiras assustadoras, milhões de pessoas decidiram votar em Trump. Não importa se os fatos comprovaram sua compulsividade em mentir. O que vale é a emoção a mesma que levou a população a apoiar uma guerra para impedir que o inimigo usasse armas de destruição em massa que nunca existiram.


A última semana brasileira foi toda trabalhada na pós-verdade e é dela que vamos falar.

Começamos bem na segunda-feira, com uma TV estatal paulista convidando apenas jornalistas de veículos apoiadores do impeachment para entrevistar um dos grandes beneficiários do processo: Michel Temer. Tirando uma ou outra pergunta espinhosa para dar aquele verniz jornalístico, o que se viu foi um grande bate-papo informal entre amigos, em que perguntas de cunho pessoal claramente buscavam humanizar a figura de Temer. O presidente não-eleito ficou bastante à vontade para enrolar nas respostas, sem nenhum tipo de contestação por parte dos entrevistadores. Ao final da entrevista, Eliane Cantanhêde  que já veio a público pedir uma trégua para Temer apareceu em vídeo gravado nos bastidores bastante animada, dizendo: “Cá entre nós, bem baixinho para que ninguém nos ouça: de romance o presidente entende, hein!”.  Na era da pós-verdade, em que os fatos objetivos são pouco ou nada relevantes, não há o mínimo pudor em enfatizar o lado romântico do presidente justamente no período em que o país vive a maior crise política da sua história.

Parece que o grupo Globo virou mesmo um grande armazém, já que o Hipster da Federal apareceu mais na Globo que os milhões recebidos por um ministro em uma conta na Suíça. E para isso bastaria ele ter aparecido uma única vez.

Na quarta-feira, tivemos outro caso emblemático dessa nova era. A Câmara foi invadida por um bando de lunáticos pedindo o “fim do comunismo” e uma intervenção militar. Esse caso específico parece ser de ordem psiquiátrica, mas faz parte do fenômeno social. O sentimento anticomunista que persiste desde a Guerra Fria tem muito mais poder de enfeitiçar mentes e corações do que a frieza da realidade. Um dos manifestantes teve a proeza de ver no círculo vermelho da bandeira do Japão  exposta num painel artístico em homenagem aos 100 anos da imigração japonesa uma prova cabal do comunismo do governo Michel Temer.

A turba ensandecida chegou a subir à mesa da presidência para gritar “General aqui! General aqui!”. Isabella Trevisani, uma intervencionista militar de apenas 20 anos, confirmou o delírio: “A ideia é não sair daqui enquanto não aparecerem os militares”. Depois de agredirem e cuspirem em seguranças da Câmara, um dos paranoicos afirmou: Nós vamos sair. Somos ordeiros e pacíficos. Só estamos aguardando a presença do General que está vindo.”  Certamente esperavam um triunfante Napoleão adentrando a Câmara montado em seu cavalo branco.

O programa Radioatividade da rádio Jovem Pan falou durante mais de 6 minutos sobre a invasão e achou por bem ignorar o fato de que os invasores eram intervencionistas militares fazendo apologia da ditadura. Os ouvintes que se informaram apenas pelo programa, ficaram com a informação de que aquilo era apenas o povo revoltado contra a “política da safadeza”.

Na quinta-feira, um dia após a prisão de Sérgio Cabral,  a Rádio Gaúcha perguntou a Aécio  se ele tinha medo da Lava Jato. Uma pergunta óbvia, já que o senador é um dos recordistas em citações nas delações da operação e, em uma delas, aparece preocupado com as suspeitas em torno do seu amigo Cabral. Com tom indignado, Aécio respondeu com outra pergunta: “Por que teria medo? Não entendo. Não entendi bem a pergunta. Por favor, seja mais claro.” O senador, visivelmente perturbado com a questão, parece não estar acostumado com jornalistas que o tiram da zona do conforto da pós-verdade. Ainda mais ele, que “seria o primeiro a ser comido” pela Lava Jato, segundo Machado em conversa com Romero Jucá.

E por falar em Romero, temos aqui mais um magnífico exemplo de pós-verdade dessa profícua semana. Ele se afastou do governo após ser pego articulando maneiras de interromper a Lava Jato e, passado um tempo em off, foi escolhido por Temer para ser o líder do governo no Congresso. A Operação Estanca Sangria volta a ter um de seus mentores na linha de frente.

João Doria Jr, invasor de terra pública e acusado por correligionários de comprar votos nas prévias tucanas, comentou as prisões de Garotinho e Cabral com essa pós-verdade gourmetizada: “Esses são temas do Rio de Janeiro. Aqui em São Paulo é Geraldo Alckmin e João Doria. É outra história.” Paulo Preto e Fernando Capez que o digam! A fartura de fatos que comprova o contrário já não interessa nem faz mais sentido. Junior parece estar mesmo em perfeita sintonia com o espírito da atualidade, tanto que foi eleito vendendo uma imagem de não-político, após construir sua carreira escorado na mais pura politicagem.

Ainda na quinta, o Cabo Daciolo usou o plenário da Câmara para tentar converter o infiel Michel Temer. Munido de uma missão dada por Jesus Cristo, esse grande expoente da pós-verdade brasileira sapateou na laicidade do Estado e gritou: “Presidente Michel Temer, assim mandou dizer o Senhor para ti: abandone o satanismo e venha correndo para Deus!”. Ou seja, o nobre deputado usou seu mandato para tentar catequizar o presidente com base num boato antigo que diz que Temer é satanista. É surreal, mas coerente com seu currículo político, já que Daciolo defendia arduamente Jair Bolsonaro quando estava no PSOL.

Que semana, meus amigos! Tivemos um episódio de Black Mirror por dia. Um mais perturbador que o outro. Não quero assustar ninguém, mas gostaria de lembrar que 2018 é logo ali, e Jair Messias Bolsonaro será candidato à Presidência da República.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A pós-verdade e o ódio levando à opressão à moda antiga, por Luis Nassif.



Leia “Xadrez da Mídia Golpista Global – 1” (http://migre.me/vbsMB)

Uma reportagem do The Economist de semanas atrás é fundamental para se entender a maneira como a notícia tornou-se elemento de segunda classe.
Nos Estados Unidos, a luta política falsificou a certidão de nascimento de Barack Obama, transformou-se em fundador do Estado Islâmico, tornou os Clinton assassinos, porque pai de um rival estava com Lee Harvey Oswald antes que ele matou John F. Kennedy.
The Economist trata esse fenômeno como a "pós verdade política" - um mundo em que a política se faz em cima de afirmações em que basta acreditar, mesmo sem nenhuma base na realidade.
Tudo vale. A afirmação de membros do governo da Polônia de que o antigo presidente, morto em um acidente de aviação, na verdade foi assassinado na Rússia; que políticos turcos afirmam que os autores da tentativa de golpe de Estado estavam agindo sob comando da CIA.
A conclusão da reportagem é que democracias fortes podem recorrer a defesas contra pós-verdades; países autoritários são mais vulneráveis. A lição vale para o Brasil.
O The Economist não tem ilusões sobre a arte de mentir na política. Lembra as lorotas de Ronald Reagan, negando a troca de armas com o Irã para garantir a libertação de reféns; ou para financiar os rebeldes na Nicarágua. Lembra que ditadores e democratas sempre procuraram desviar a culpa pela própria incompetência, assim como perdedores sempre acusaram o outro lado de mentira.
As pós-verdade política, diz a revista, é mais do que apenas uma invenção das elites. Nela, não se discute se a verdade é falsificada ou contestada, porque ela passa a ter importância secundária.
Há uma enorme diferença em relação ao Brasil. Nos Estados Unidos, essa “pós-verdade” é praticada por outsiders da política, em contraposição às elites. No Brasil, tornou-se elemento central do jogo político, brandido tanto pela mídia quanto poe agentes públicos.
Economist cita Trump como exemplo acabado, em contraposição à elite - o setor intelectualmente superior que avaliza os valores intrínsecos da democracia. Segundo ela, Trump não tem a intenção de convencer as elites, que não têm a confiança sequer de seus eleitores-alvo, mas reforçar os preconceitos.
No Brasil, a mídia passou a explorar unanimemente esse eleitor-alvo, disposto a reforçar os preconceitos. No Brasil, a suposta elite nacional corresponde ao lúmpen do pensamento politico estadunidense.
O que move esse tipo de campanha não são fatos, mas sentimentos, a ideia de que a prosperidade é limitada aos que vêm de fora. Para seus adversários enfrentarem essa pó-verdade, não adianta mostrar seus erros: eles têm que chafurdar no terreno escolhido por Trump.
Diz o Economist que forças corrosivas estão em jogo. Uma delas é o ódio. Muitos eleitores se sentem abandonados enquanto as elites que estão no comando prosperam. Esse novo eleitor desdenha os tecnocratas. A confiança popular na opinião dos especialistas e das instituições despencou em todas as democracias ocidentais.
Em parte, se deve aos novos meios de comunicação. A fragmentação das fontes de notícias criou um mundo atomizado em que residem rumores e fofocas propagados com velocidade alarmante. Mentiras que são amplamente compartilhados on-line dentro de uma rede, cujos membros confiam muito mais uns nos outros mais do que em qualquer fontes de mídia podem assumir rapidamente a aparência de verdade, diz a revista.
Pesa nisso também a desinformação da própria mídia, que dá o mesmo peso para o cientista da NASA que diz que Marte é provavelmente desabitada; e para o Professor Snooks que diz que está repleta de alienígenas.
É tudo uma questão de opinião. E tudo discutido sob a ótica do senso comum.
A pior parte da política pós-verdade, porém, é que essa autocorreção não pode ser invocada, diz a revista. Quando as mentiras tornam o sistema político disfuncional, seus maus resultados podem alimentar a alienação e falta de confiança nas instituições.
E aí, o risco da pos-verdades para países que vivem o Estado de Exceção. A revista cita a Rússia e Turquia. Falta ainda esmiuçar os novos entrantes, como o Brasil.
Diz a revista:
A preocupação mais profunda é com países como Rússia e Turquia, onde autocratas usam as técnicas de pós-verdade para silenciar oponentes. À deriva em um mar de mentiras, as pessoas de lá não terão nada para se agarrar. Para eles, a novidade do pós-verdade pode levar de volta à opressão à moda antiga.
Alguma semelhança com o Brasil?
Apenas o fato de que, por aqui, o principal agente da pós-verdade é o setor que mais deveria resistir a ela: a mídia.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A TV como fator de desinformação, por Francisco Julio Xavier.





Estamos vivendo a era do desespero. Gritam por socorro os noticiários, desesperados – essa é a palavra, estão a sombra do desastre – por sucumbirem depois de uma era em que os meios tradicionais de comunicação reinaram no cenário midiático. Pode parecer uma teoria negativista, mas não é; seria positivista – creiamos.
Tem se tornado um constante drama para meios hegemônicos a queda em receita vindo da publicidade, causa maior, devido ao seu enfraquecimento em audiência e alcance de público, que agora não tem apenas o controle remoto, mas a vastidão das redes sociais e da internet como toda.
Algo que podemos constatar é a luta diária travada pelos meios em reverter essa situação de distanciamento do público para a internet. Uns se preparam para esse novo cenário e tentam a convergência, mesmo que tímida. Outros abrem espaço amplo para as pautas oriundas da rede – em massa, das mídias sociais.
Dada a carência de audiência, cada vez mais visível, a hora de reverter a nova onda está se deslanchando em desespero nítido e ridículo. A televisão tenta, a todo custo, destruir a nossa inteligência, já que não consegue combater a nossa migração para a rede mundial de computadores.
Vem sendo postas em prática, diariamente, formas de barrar o nosso distanciamento do meio hegemônico de décadas, a televisão. Querem que coloquemos novamente em destaque na nossa sala, aquele aparelho receptor que escabrosamente consentíamos doses cavalares de manipulação diária em nossas residências.
Barrando a concorrência
Para maior desespero, não foi somente o público que migrou, mas também os anunciantes, para os quais existe a expectativa de investimento em publicidade nos meios eletrônicos, ainda nesta década, de US$ 500 bilhões por ano – como afirma relatório da WFA (World Federation of Advertisers), publicado no Financial Times.
Em reportagem, O Globo deu destaque para as fraudes do Google, pelo qual, em anúncios feitos na grande rede mundial, empresas poderiam perder em média 10% para os fraudadores de visualizações. Com esse enfoque na reportagem, a artimanha tenta desestimular os empresários em anunciar em concorrentes indiretos da TV, o YouTube e similares.
Mas de igual forma, indícios de falcatrua também são apontadas para empresas que avaliam a audiência na TV, deixando margem e passividade para fraudes. Além do mais, está cada vez improvável saber se o público-alvo está sendo impactado com a propaganda veiculada em televisão, tendo em vista que os telespectadores não estão sendo empolgados a continuar assistindo aos intervalos comerciais. Com a multiplicidade de telas (celulares, tablets e desktops), o telespectador tende a fugir, nos reclames da TV, para atividades que acha ser mais interessante e menos maçante – como ver postagens em redes sociais – do que ver anúncios e publicidade na velha mídia.
Recentemente quiseram jogar a contragosto da população a lei que autoriza o limite de uso de internet no país. Para a Rede Globo de Televisão foi uma oportunidade de defesa – não da população e dos seus diretos, mas dos empresários, ou melhor, dos anunciantes.
Em reportagem do dia 24 de abril, o Fantástico desenhou que estamos mesmo à mercê da manipulação e dos grandes interesses empresariais e políticos. O programa dominical vendeu na reportagem que, nós, consumidores de internet, estamos abusando no uso, ou seja, gerando desperdício. Faltou nas entrelinhas o informe que a reportagem era encomenda em acordo de livre comércio pelas empresas de telecomunicações do país. Insistimos que faltou informar esse detalhe na matéria veiculada.
Não se dá crédito à crise política
A população virou ré na questão, por assistir vídeos demais; ver postagens demais em redes sociais. Como sempre, defendeu o lado dos anunciantes. Pelo título já dava para saber: “Internet fixa ilimitada pode estar com os dias contados no Brasil”. Com isso, o maior grupo de comunicação do país passou a informação curta e grossa: estamos do lado dos lucros e contando os dias para que isso aconteça de fato, e deu o veredito: corte a internet, ganharemos ambos com isso. Com essa tática, a Globo ganharia de duas formas: anunciantes voltariam a atuar na TV – por cair o acesso em horas diárias dos consumidores na internet; e da volta dos internautas para a frente da TV – ganharia mais horas de público assistindo o grotesco da programação.
O que constatamos nessa reportagem é que a mídia não está preocupada em garantir direitos, mas em retirá-los – quando isso ameaça seus interesses mesquinhos: o lucro desenfreado e abusivo. Sentimos reféns de uma jogatina em prol da receita particular.
Não houve na reportagem um detalhamento de como o consumo de dados impactaria a receita das empresas de telecomunicações. Apenas repassaram a culpa para os usuários e a conta também. Em nenhum momento se preocuparam em informar que o acesso à internet é um direito básico nos dias de hoje, tendo em vista que a comunicação flui mais descentralizada e que foi garantida pelo Marco Civil da internet. O poder da rede causa desespero nos empresários e políticos. Chegaram a defender a restrição a filmes e séries através de plataformas, como é o caso da Netflix.
O péssimo serviço prestado pelas operadoras (entre os 10 piores do mundo) não é relatado, nem levado em consideração, mas os lucros são lembrados sem demora para o raciocínio do grande público. Apenas basta a fala: somos nós, os usuários, os culpados.
Não é só essa questão que é distorcida nesse jogo de cartas marcadas. Para demostrar que não estamos no caminho certo, que a economia está em profundo desastre, não se dá os devidos créditos a outra crise, a política, que tem feito arruaça no país.
Uma nota brevíssima e a desculpa
Mas, bem antes, quando o rumo era destruir um governo, fez-se em seus noticiários o Brasil idealizado como uma “nova Grécia”, prestes a dar o calote e a se afundar no rio de amarguras da economia. Muitas notícias bombas eram jogadas nos jornais, e de mesmo modo eram escondidos os reais motivos de outras bombas estarem em curso no congresso, as pautas do desastre econômico, que os nobres representantes do povo não hesitaram em votar.
Disso também notamos o descarado financiamento político à imprensa. Com a alta queda de anunciantes, não se dá por vencida e procura outros meios de receita. Escancarou o partidarismo em tendenciosas reportagens, onde se destaca o favorecimento de grupos políticos, em repressão a outros. Nota-se o descaramento do: Pagando bem, que mal tem em defender políticos comprovadamente corruptos e gerar receita valiosa com isso?
Para senadores e deputados envolvidos em escândalos é dado, sem cerimônia, espaço demasiado de defesa em telejornais. Bem sabemos que em TV, três minutos de construção de uma defesa pode demostrar muitos acordos ilícitos. Não somos ingênuos em pensar que meios dariam o valioso tempo de programação em defesa de corruptos, por simplesmente estarem contribuindo com a ética jornalística. Não! Definitivamente não acreditamos nisso. Interesses escusos existem nessa tática sórdida e desleal. No dia 15 de março de 2016, a Globo deu ao senador Aécio Neves – citado em delação premiada na Lava Jato – tempo amplo de defesa em seus noticiários.
Enquanto para alguns políticos é dada a premissa de defesa pela oralidade televisionada e com reportagem tendenciosa a converter o culpado em vítima, para outros é dada uma nota brevíssima e para os demais, apenas a desculpa: “Nossa equipe não conseguiu entrar em contato com o acusado”.
Encontros a portas fechadas
Não se cansaram em levar a nação ao calabouço, desenharam o Brasil como uma Grécia, fadada ao fracasso e logo depois, a uma Venezuela, progressista e ditatorial. Porém não relatam em alto e bom som, que foi ela, a rede Globo, que recepcionou com muita satisfação a ditatura militar. Moniz Sodré destaca em seu livro Antropológica do Espelho a fala do ditador Médici em 1972. “Sinto-me feliz todas as noites quando assisto TV porque no noticiário da Globo o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz… É como tomar um calmante após um dia de trabalho.”
Depois de ter ajudado o golpe militar de 1964, a Globo tenta passar uma borracha no passado promíscuo 50 anos depois, após ter lucrado com a idade das trevas no país. Em editorial por ocasião da inauguração do site Memória da Instituição Globo, destacou que foi um erro apoiar a ditadura. Pelo que parece, não passa de uma grande farsa, tendo em vista que foi uma das medidas para conter a onda de protestos pelo país que demostrava grande insatisfação, por onde se ouviam os gritos “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”. Não convence que a empresa esteja realmente arrependida. Mais recentemente um outro golpe, o impeachment – provado em áudios vazados do líder do governo interino e ilegítimo Romero Jucá, também conta com o apoio da Organização Globo (que se leia, grande apoio).
Os países que ficaram correlacionados em uma série de reportagens no Jornal Nacional foram Brasil e Venezuela. Essa foi mais uma cartada. Lá, diz, tem uma ditadura, aqui, caminharia para uma também se não fosse tirada a presidente, mesmo que isso sacrificasse a nossa imatura democracia.
Mas como vemos, com tanto retrocesso do governo interino, pelo qual: investigados são nomeados ministros; ainda mais, extingue ministério de cultura e instala o desprazer com a educação, podemos concluir que tempos difíceis para o progresso do país estão sendo reprisados, como em um programa vespertino: Vale a Pena Ver de Novo… olha novamente o golpe, ele voltou! Engomadinho, bonitinho, mas ainda sim, um golpe baixo. Poderíamos dizer que é um golpe como manda o figurino no século 21.
Ver-se que existe uma outra ditadura no país, que ameaça a sua seriedade como uma nação democrática. Tanto a TV Globo, quanto a TV Bandeirantes, agendaram a crise na Venezuela para abordar nos telejornais. Uma tentativa de vincular o Brasil, com destino similar, caso continuasse com um governo chamado por eles de bolivariano e progressista.
Depois da Grécia e da Venezuela, como em um passe de mágica agora – logo após a usurpação do Planalto pelo vice – nos tornamos o “sonho americano”, posta em uma frase, acompanhada de mando e desmando de fanfarrões hipócritas, que são mestres em corrupção e com tamanha desfaçatez proclamam em rede nacional: “Não fale em crise, trabalhe”.
Como vemos claramente em manchetes e focos de manipulação agendadas nos meios hegemônicos (GloboFolhaEstadão), a banda podre debanda desenfreada para o lado do neoliberalismo e com o descaramento, escancarando o plano de fundo, a politicagem flertando com a mídia chula as bancarrotas: no tudo ou nada.
A imprensa mudou o rumo da conversa e agora conclama a um país sem corrupção e sem crise. Para que saibam e fique claro, querem um país sem corrupção nas manchetes, porém defendendo que ela continue esclusa e reinando de onde nunca deveria ter saído, de encontros às portas fechadas e sem as vozes dos ouvidores.
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Francisco Júlio Xavier é jornalista e pós-graduando em Comunicação Digital