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terça-feira, 14 de maio de 2019

Treze de maio, por Urariano Mota


Do meu canto, saúdo com um cafezinho negríssimo todos os negros. Todos os negros que somos, claros, mulatos, brancos e homens livres do Brasil.
 
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Foto Repórter Brasil

Treze de maio 

por Urariano Mota

No café da manhã, de passagem minha mulher lembrou o dia treze de maio. Não fosse a sua lembrança, eu não escreveria esta crônica.
Os primeiros trezes de maio que lembro, em mistura aos goles do café, me vêm do Ginásio Ipiranga na infância. Olho para o lado agora como se nada visse, assim como os colegas negros em 1961 olhavam de lado, ou baixavam os olhos, ao ouvirem a lição lida em voz alta no livro didático:
“ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO – A escravidão negra foi introduzida no Brasil em 1550. Não tendo os portugueses conseguido escravizar os índios para obrigá-los a trabalhar na lavoura, resolveram utilizar negros africanos nessa tarefa…”
E mais adiante, todos haviam que decorar a resposta certa da pergunta no questionário: “Por que foi introduzida a escravidão negra no Brasil?”. Ora, respondíamos todos (negros, brancos e mulatos), “porque os portugueses não conseguiram escravizar os índios para obrigá-los a trabalhar nas lavouras”.
O espaço daquele aprendizado era um círculo fechado, redundante: os índios não quiseram trabalhar como escravos, daí que a solução foi importar negros da África. E, naturalmente, os negros foram escravizados porque os índios eram rebeldes. Então, para dar substância ao círculo, era ensinado que os negros vinham mansos, passivos, cordatos, porque assim era a sua natureza, ser negro e escravo em uma só pessoa. Então os meus antigos amigos, colegas, olhavam de lado.
É interessante notar que, no Brasil de 1961. negros eram os meninos de pele mais escura que a nossa. Negros eram os meninos de cabelo mais duro que o nosso. Negro não era uma raça, era uma cor do lápis de cor, ou a cor do grafite em toda a pele. E por isso líamos todos as lições que confirmavam a exclusão geral, como se fosse uma exclusão particular de outros, dos outros negros, diferentes de nós mesmos:
“A PRINCESA ISABEL ASSINA A LEI ÁUREA – … A Regente vai lançar o nome no pergaminho, quando, em nome do povo, recebe uma caneta de ouro, cravejada de pedras preciosas. E é com a bela caneta de ouro que assina a lei que a Nação enternecida cognominou de ‘áurea’. Da rua, a multidão, em altos brados, exige a presença de Isabel. E a Princesa aparece à janela, tendo ainda na mão a pena com que acabou de dar liberdade à raça negra do Brasil. Na praça inteira, o povo agita os braços festivamente, bradando em coro, em pleno delírio: – Redentora! Redentora! Redentora!…”
Um dia ainda vou escrever sobre o grande mal que esse tipo de educação fez a todos nós. Uma educação mitificadora, preconceituosa, de omissões e mentiras. Todos nós aprendíamos um Brasil sem conflitos e sem história. Aprendíamos um Brasil ideal para as sinhazinhas prendadas. Lá na sala de aula, em todos os trezes de maio nos virávamos para os negros, para os de pele mais escura que a nossa. Os meus colegas, os meus amigos, incapazes de uma resposta plena da rebeldia dos quilombos, baixavam os olhos. Os meus irmãos de pele e coração às vezes sorriam, sorriam com o seu riso mais branco que os detergentes da televisão, sorriam só com os dentes brancos, quando ouviam: “hoje é teu dia, negão”.
E com isso passávamos adiante a formação da escola burra, uma escola que passava o apagador até mesmo em nossa história familiar de negros, com a pregação da redentora Princesa Isabel, Santa Isabel, que libertara os negros do Brasil. Somente muitos anos depois, em São Paulo, vi um treze de maio diferente. Em 1978, vi um treze de maio de negros de todas as cores, de todas as raças, que repunham em lugar da salvadora dos pobres negrinhos um orgulho e uma disposição de puxar o véu da história.
Mas então já não estavam ao meu lado os amigos, irmãos, colegas do Ginásio Ipiranga. Aqueles, de pele mais escura que a minha, que baixavam os olhos. Eles haviam carregado para o resto das suas vidas as lições de perguntas fechadas e respostas prontas. Quem salvou os negros do Brasil? “A Princesa Isabel”, os antigos colegas sabiam na ponta da língua. E por isso viraram médicos medíocres, funcionários servis, engenheiros mesquinhos, indivíduos sem humanidade que mantêm distância dos negros mais pobres.
Vocês não sabem o quanto é bom ter chegado a um 13 de maio, agora, quando as novas gerações sorriem e zombam da redentora, da princesa que salvou os negrinhos de alma branca. Viva este novo tempo. Do meu canto, saúdo com um cafezinho negríssimo todos os negros. Todos os negros que somos, claros, mulatos, brancos e homens livres do Brasil.

sábado, 18 de março de 2017

O cumprimento impossível dos 10 mandamentos, por Uraniano Mota.





“O dia mais belo: hoje
A coisa mais fácil: errar
O maior obstáculo: o medo
O maior erro: abandonar
A raiz de todos os males: o egoísmo
A distração mais bela: O trabalho
A pior derrota: o desânimo
Os melhores professores: as crianças
A primeira necessidade: comunicar-se
O que traz  felicidade: ser útil aos demais
O pior defeito: o mau humor
A pessoa mais perigosa: a mentirosa
O pior sentimento: o rancor
O presente mais belo: o perdão,
O mais imprescindível: o lar
A rota mais rápida: o caminho certo
A sensação mais agradável: a paz interior
A maior proteção efetiva: o sorriso
O maior remédio: o otimismo
 A maior satisfação: o dever cumprido
A força mais potente do mundo; a fé
As pessoas mais necessárias: os pais
A coisa mais bela de todas: O AMOR!”
À primeira vista, me pareceram versinhos de autoajuda. Depois, sem querer, me dei conta da sua impraticabilidade, assim como de abusos conservadores na bondosa pregação da Madre Teresa de Calcutá. Pois notem primeiro: o dia mais belo pode não ser o de hoje. E, se o cidadão não ganhou um grande prêmio de felicidade, este não é, como deseja a bondosa mensagem. Outra: se errar, por exemplo, for a coisa mais fácil, observo que não cometemos erros por buscá-los, por querer cometer o mais fácil. Depois, “o maior obstáculo: o medo” não é verdade. Ora, o maior – ou um dos maiores obstáculos – é vencer o medo. E se a distração mais bela for o trabalho, como canta outro verso, por que diabos 99% da humanidade penam infelizes em miserável trabalho  todos os dias? Mas o que me despertou mesmo para o absurdo do poema da piedosa Madre Teresa de Calcutá foram estes, digamos, dois versos – supondo que ela os tenha cometido:
“O mais imprescindível: o lar.
A rota mais rápida: o caminho certo”.
Será que o meu lar é mesmo o espaço mais imprescindível do mundo? Será que vivemos todos bem, bovinos à parte, no lar, doce lar? Se assim fosse, os jovens não gostariam tanto de sair de casa. E os mais velhos, os pais, não pensariam duas vezes entre beber em casa e beber na rua.  “Na Rua!”, propõem esses degenerados. Pior: e aquele cometimento terrível que reza o versinho “A rota mais rápida: o caminho certo”?. Atentem bem, se errar é o mais fácil, como acharemos tão fácil o caminho certo?  E que diabo – nos perdoem a Madre Teresa – e que diabo é o caminho certo? Eu seria capaz de dar toda a minha vida, as minhas melhores e felizes décadas reais ou sonhadas para descobrir o que é o caminho certo. Pois o que é mesmo “o certo”? E existe um só caminho certo? E não será o errado, sempre, uma aproximação do que é certo?  A santa madre não me respondia;.
Depois, ao descer do ônibus, me veio uma iluminação à beira do transcendental. No meu caminho de damasco, sem ouvir a voz do Senhor, vi: se a gente observar certo, ou quase certo, é do impossível, do enaltecimento da ação impossível, que se alimenta toda religião. Então me ocorreu ler com detida atenção os Dez Mandamentos. Como aqui, nesta versão resumida:
1º - Amar a Deus sobre todas as coisas.
2º - Não usar o Santo Nome de Deus em vão.
3º - Santificar os Domingos e festas de guarda.
4º - Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores).
5º - Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo).
6º - Guardar castidade nas palavras e nas obras.
7º - Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo).
8º - Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo).
9º - Não cobiçar a mulher do próximo. Ou: Guardar castidade nos pensamentos e desejos.
10º- Não cobiçar as coisas alheias.
De imediato, é fácil perceber a ausência do contraditório em leis tão rígidas. Nesses mandamentos há princípios absolutos, idealizados na época da sociedade tribal. Eles vêm de uma fase civilizatória muito anterior à Grécia de ouro. Se fossem guiados por tais imperativos, os trágicos gregos não teriam escritos suas maiores obras. Antes deles até, pois não existiria a Ilíada, essa conspurcação geral dos Dez Mandamentos. Mas vamos para o nosso cotidiano, menos ilustrado. Olhem o que vem a seguir.
“Amar a Deus sobre todas as coisas”. Eu não sei como se pode cumprir essa tripla impossibilidade:  na primeira delas, devemos ter amor ao que não se pode abraçar, beijar, sorrir, conversar, dançar, beber, cheirar, a não ser em alucinação, mais conhecida por “transporte não perguntem para onde”. Na segunda impossibilidade, é de uma violência extrema exigir amor, um afeição essencial a que somente se chega por direito e inclinação natural. No terceiro impossível, manda-se amar, amar um impalpável acima de todas as coisas concretas, amáveis e amoráveis.
“Não matar”. Perguntaria:
- Senhor, e se formos atacados de modo mais vil?
– Morre e cumpre o mandamento.
- Senhor, e se atacam o que temos de mais honroso, o que é mais importante que a própria vida?
– Sacrifica tudo e te cala.
- Então devermos deixar crescer e imperar o nazismo, o fascismo, sem lhe opor qualquer resistência?
– Sim. Corre e te esconde.
Já se vê, não se deve matar nunca. Mas se deve, claro, nas guerras, na opressão de Estado, no extermínio de povos e, pessoas que representem o Mal e o Mau.
O leitor já vê que os Dez Mandamentos só são possíveis de cumprimento se a cada um deles se agregar uma conjunção adversativa. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, não obstante... Olhem como ficam praticáveis, bem possíveis e próximos de um comportamento moral, que suponho ser o seu objetivo:
1º - Amar a Deus sobre todas as coisas. Mas Deus pode ser o que você mais ama.
2º - Não usar o Santo Nome de Deus em vão. Porém, se for para objetivos maiores, como ajudar a própria sobrevivência, sim.
3º - Santificar os Domingos e festas de guarda. Contudo, santificar é uma homenagem a Deus conforme a natureza de cada um.
4º - Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores). Todavia, honrar não é seguir os passos dos antepassados de qualquer maneira.
5º - Não matar. Entretanto, se não houver outra saída, não se deve matar a decência.
6º - Guardar castidade nas palavras e nas obras. No entanto, manter a castidade não é gerar neurose. Relaxe.
7º - Não furtar. Não obstante, furtar para não morrer de fome é de justiça.
8º - Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo). Mas se for para evitar um mal maior, como entregar pessoas ao inimigo, minta à vontade.
9º - Não cobiçar a mulher do próximo. Porém discutir com ela que não devia cobiçá-la,  pode.
10º- Não cobiçar as coisas alheias. Mas se as alheias forem tuas porque foram de ti roubadas,  legítima é tua cobiça.
Enfim, os Dez Mandamentos com as conjunções adversativas são possíveis, factíveis e justos. Nada mais legal, dos gregos até os mais jovens. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O filme Aquarius e o sucesso internacional, por Urariano Mota.


Por Urariano Mota
Quando este artigo se publicar, Aquarius terá recebido uma consagração mundial até hoje não alcançada por filme pernambucano. Na quarta-feira em que escrevo, não sei se ele terá o prêmio máximo em Cannes. Mas a esta altura já é conhecido o sucesso da crítica de cinema e política, a partir do protesto da equipe do Aquarius  contra o golpe no Brasil. Foi lindo ver a capa de jornais da Europa aos Estados Unidos com a cara dos nossos artistas. Antes, no tempo da Rádio Jornal dos anos 50 e 60, era Pernambuco que falava para o mundo. Agora, não, com Kleber Mendonça é o Brasil que fala para a sensibilidade e denúncia onde houver gente. Perdoem o tom ufanista, típico de recifense, mas não encontro outro.
No entanto, mesmo agora não posso esquecer as resistências que eu possuía em relação ao chamado “cinema pernambucano”. Em dois parágrafos tentarei explicar a razão.
Eu sempre quis e esperei que entre nós houvesse um cinema de Nelson Pereira dos Santos, de Vidas Secas e Memórias do Cárcere, por exemplo, ou  Cidade de Deus, ou daquela obra genial Deus e o Diabo na Terra do Sol, ou de imagens  próximas a O Pagador de Promessas. ”Faz tempo”, sei que estão dizendo. Respondo que o passado fecundante não passa. O meu erro era de outra natureza. É que para mim o grande cinema tinha a ver com a literatura, com o desejo que o filme devia ter com a humanidade total da obra literária. Mas estamos falando de cinema, de imagens, “de outra linguagem”, poderia ser dito. Ainda assim resistia aquela ambição de querer para nós a profundidade do cinema argentino, por exemplo, cujos diretores mantêm boa vizinhança com os seus escritores.
Daí a minha implicância, peitica, com o cinema de Pernambuco. Para mim, em sua franca maioria ele era iletrado. Quero dizer, ele não sabia nada do mundo fundamental da literatura. Os seus roteiros eram precários, com personagens mal realizados (mas “estamos falando de cinema”). A sua realidade era lúmpen, a pretexto de mostrar o real popular.
O que dizer disso? Talvez o meu conceito de esperança e ambição não batesse com a realidade. E quando isso acontece, o conceito tem sinais de um preconceito, ou de uma inadequação à moda, movimento e movie. Uma rejeição ao movie árido de poesia nas telas. Então a política me acordou.  Quando vejo a direita no Brasil cair em campo contra o filme Aquarius numa repetição, pois a direita é um longo replay, do que fizeram contra Dom Helder Câmara para que ele não fosse premiado com o Nobel da Paz, quando leio a repetição dos golpes conservadores, acordo e vejo. O filme Aquarius está consagrado. Em uma coletiva de imprensa concorrida, repleta de jornalistas estrangeiros, o diretor Kleber Mendonça Filho nos mandou este recado:
"Essa divisão no Brasil está trazendo o pior dos dois lados, especialmente da direita, com atitudes fascistas. Há deputados que dizem no Congresso que uma mulher não deve trabalhar porque engravida. Aquarius é um filme de resistência e um pouco filme de sobrevivência, mas mais filme sobre a energia que é necessário para existir. Cansa, mas dá mais energia para continuar a lutar”. 
Talvez Aquarius não seja o filme que a minha equivocada ambição sonhou. Talvez todo o cinema de Pernambuco ainda não fale para o mundo, como se anunciava na voz do locutor da Rádio Jornal do Comércio: “Pernambuco falando para o mundo”. Mas Aquarius na voz do cinema fala. A sua repercussão nos jornais do planeta é prova, e nos presenteia com a melhor notícia da semana. Tanto que a gente estava precisando de uma boa-nova.  Este é um filme que não vimos e já gostamos.