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terça-feira, 28 de maio de 2019

Com Trump e Bolsonaro, o video game molda a política, por Wilson Roberto Vieira Ferreira.




Depois de Trump e Bolsonaro a política nunca mais será a mesma: são duas figuras que despontaram na superfície de um movimento mais profundo que vem intrigando pesquisadores que estudam as transformações da política através da tecnologia: como na nossa sociedade os elementos lúdicos vem invadindo diversas esferas com a proliferação dos jogos, principalmente os eletrônicos. O cinismo e desilusão com a democracia representativa combinados com elementos inerentemente lúdicos das tecnologias digitais, plataformas e aplicativos estariam gerando uma “gamecracia”, “casual política” ou simplesmente uma “neodemocracia”. Assim como nos games, a política estaria sendo moldada por uma irresponsabilidade lúdica, como se tudo fosse apenas um jogo eletrônico no qual as consequências do erro são minimizadas para dar fluência à partida. Afinal, num videogame temos muitas vidas para perder. E até aqui, no espectro político, a direita é aquela que está mais antenada nessas transformações. 

Foi no extinto programa de humor da Globo Tá no Ar: a TV na TV(2014-19). Em um esquete vemos uma cliente, acompanhada pelo vendedor, procurando itens de compra em uma espécie de loja de departamentos. Ela se detém diante de um estande no qual posa um general ombreado por dois soldados empunhando fuzis. Todos eles trajados com modelos antigos de uniformes do exército brasileiro. Alguma coisa datada dos anos 1960. 
“Gostei desse... ele é bom?” - pergunta a entusiasmada consumidora. O vendedor é cuidadoso com as palavras, dizendo que “pode ser” sem muita convicção. “Ah... mas, qualquer coisa, eu posso trocar, né?”, pergunta a mulher, insegura. O general, até então imóvel como uma estátua, intervém irritado: “Trocar nada! Vai ficar com a gente por 21 anos!” ... E ordena aos soldados armados: “podem prendê-la!”, arrastando a assustada consumidora que não entende nada.
O esquete era uma evidente ironia não só ao tempo que durou a ditadura militar brasileira, como ao estranho nostalgismo pós-moderno de pessoas que não viveram aquele período, mas são capazes de acreditar que foram os melhores momentos da recente história brasileira. E certamente serão esses que estarão nas manifestações convocadas pelo capitão da reserva dublê de presidente, para esse domingo, clamando por intervenção militar no Congresso e STF.

Irresponsabilidade lúdica

A felicidade desse esquete é que ele retrata uma certa maneira de focar a política que cresce na atualidade  – apresenta de forma engraçada uma espécie de irresponsabilidade lúdica, como se a Política fosse um jogo eletrônico (“qualquer coisa, a gente troca...”) que permite diversas tentativas, minimizando os erros e dando fluência ao game e passagens de níveis na partida.
Nesse curto e simples esquete encontramos uma síntese preocupante daquilo que muitos pesquisadores atuais como Alex Gekker (“Gamocracy: Political Communication in the Age of Play”), Alexander Galloway (“Protocol: How Control Exists After Decentralization”) ou Jodi Dean (“Why the Net is not a Public Sphere”) chamam de “neodemocracia”, “política casual” ou, simplesmente, “gamecracia” (“Gamocracy”).
O ponto em comum em todos esses pesquisadores é que o elemento inerentemente lúdico está se tornando proeminente na sociedade atual pela grande proliferação de jogos (principalmente eletrônicos) e que as teses em torno dos estudos culturais sobre jogos e entretenimento seriam fundamentais para compreendermos as atuais estratégias de comunicação na política.

Alex Gekker e o aplicativo da campanha de Obama em 2008

Casual política

A confluência das mídias de convergência com as mídias tradicionais, junto com a perda da legitimidade das formas tradicionais de representatividade na política (partidos, sindicatos etc.) transformariam o espaço midiático num decisivo campo onde o poder se confundiria com o lúdico. Em outras palavras, o elemento lúdico, presente nos jogos formais e incorporado nos designs de jogos, estariam contaminando campos que, por sua natureza, não se constituem como “games” – política, economia, processos seletivos corporativos etc. – sobre a gameficação corporativa, clique aqui.
Por exemplo, para Gekker os meta-processos dos games resultam na “casual política”: além da utilização de aplicativos (vide o caso de aplicativos desenhados exclusivamente para a campanha de Obama em 2008 ou o papel das redes sociais e WhatsApp no caso Trump e Bolsonaro) a política passa a priorizar interfaces tecnológicas marcadas pela imediaticidade visual, controle intuitivo, simplificação das tarefas e clara definição de objetivos. A “usabilidade” passa a ser um dos principais quesitos para esse novo ativismo político, assim como nos designs de jogos.
A casual política é pensada para um tipo de ativismo bem distinto da velha militância centrada por motivações político-ideológicas – ela é desenhada para intervenções rápidas (“short bursts”), em pequenas ações de acordo com o tempo ou expertise que o ativista tem disponível. 
Mas principalmente, assim como nos jogos, o engajamento ocorre em um game que exibe uma atitude de perdão em relação ao erro. Permite diversas tentativas, sempre no sentido de manter a fluidez e a ininterruptibilidade do jogo – o game pode ser sério ou difícil, mas permite em caso de erro não ser necessário repetir fases anteriores do jogo.


Minimização do erro

Esse humilde blogueiro jamais esquecerá as primeiras experiências perceptivas ao passar de uma máquina de escrever para um editor de texto em um computador. Tudo parecia lúdico, como fosse um jogo. Mas, principalmente, percebi assombrado que as consequências do erro eram minimizadas: enquanto numa máquina de escrever, diante do erro datilográfico, ou você pacientemente tentava bater a tecla sobre o corretor para encobrir a letra errada, ou arrancava o papel, amassava, jogava na lixeira e começava tudo de novo. 
Para meu assombro, num computador bastava apertar a tecla “delete” ou dar um “backspace”.
Lembro-me que naqueles anos 1990, muitos pesquisadores (prontamente qualificados como “tecnofóbicos”) apontavam as consequências ético-morais para essa espécie de irresponsabilidade do erro. Por exemplo, Michel Heim no livro “Metaphisics of Virtual Reality” (Oxford Press, 1993) apontava para essa perda do peso erro: bastaria apertar a tecla “esc” ou “delete” e poderíamos abandonar uma tarefa, eliminar um erro, sem enfrentar consequências de perder tudo e recomeçar um trabalho.
Nesse simples evento corriqueiro no qual a tecnologia nos salvaria de nós mesmos, estaria a eliminação das âncoras que nos prenderiam ao mundo real: finitude, temporalidade e senso de fragilidade corporal. Em outras palavras, esse alívio frente as consequências do erro geraria uma visão de mundo amoral.
Claro que poderíamos afirmar que a tecnologia é regida pela lei do menor esforço, desempenho e praticidade. O problema é quando esse paradigma começa a contaminar as outras esferas de natureza não-tecnológica da sociedade, como a Política.


Da estética à gameficação

Sabemos que, no espectro político, a extrema-direita historicamente sempre foi mais antenada com a aplicação das novas tecnologias do momento no campo político. Desde o nazi-fascismo no século XX, no qual a política foi estetizada por meio da propaganda política através do cinema e do rádio.
No século XXI, mais uma vez, a extrema-direita inova com a verdadeira blitzkrieg através dos algoritmos das redes sociais. Os casos do Brexit e as eleições de Trump e Bolsonaro mostram que foi dado mais um passo à frente: da estetização do século passado, agora temos a gameficação da política– a política levada a termo através dos paradigmas dos jogos eletrônicos: usabilidade, ininterruptibilidade e, principalmente, a irresponsabilidade do erro.
“Qualquer coisa, a gente troca!”, dizia a incauta compradora sem entender as consequências da sua opção. A política reduzida à interface dos aplicativos parece ter reduzido a complexidade político-ideológica em um simples jogo, com tarefas facilmente identificadas (por meio da polarização do espectro político) e a possibilidade de desbloquear etapas e subir nos níveis da partida – através do incremento dos laços nas redes sociais através do compartilhamento de fotos, memes etc.
 Essa irresponsabilidade feliz (típica de gamers que sabem ter infinitas tentativas e várias vidas a perder) é certamente o que está por trás das galhofas da chamada “direita alternativa” (alt-right): mãos fazendo arminha, fetichização de revólveres, fuzis, balas, munições e meganhagem (sobre esse conceito, clique aqui). 
Como falam nas “raids” (ataques de surpresa em sites, fóruns e salas de bate papo), é tudo “zoeira” ou “for the lulz” – apenas “por diversão”.  


O pesquisador canadense Arthur Kroker, em 1994, parece ter pressentido esse caráter lúdico regressivo, próprio da adolescência, na crescente virtualização das relações sociais:
“A masculinidade burguesa sempre foi pré-adolescente: pensamentos de pequenos garotos achando que poderão controlar o mundo, mas agora o mundo é ciberespaço. O sonho de ser deus do ciberespaço – ideologia pública como fantasia de garotos pré-adolescentes: uma regressão do sexo para uma autística forma de poder” (KROKER, Arthur & WEINSTEIN, Michael. Data Trash: the theory of the virtual class.N. York, St. Martin Press, 1994, p. 11.)
Diante de tudo isso, passamos a desconfiar da função ideológica diversionista de todo o debate sobre a suposta influência ou efeitos negativos dos videogames no comportamento dos jogadores como ações violentas ou doenças emocionais. A questão não são os videogames em si, mas como os meta-processos dessas plataformas está moldando múltiplas esferas sociais que passam a acomodar uma certa lógica midiática.
Na política, o cinismo e desilusão com a representação e engajamento políticos combinados com essa espécie de “democracia direta” pelas plataformas digitais produz essa gameficação: a transformação do drama político num mero jogo de ganha/perde no qual as consequências são desprezadas. Afinal, temos muitas vidas para perder...

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A direita pop e a memificação da política, por Patricia Fachin.

Entrevista especial com Esther Solano


 

O desabafo, o mal-estar e o descontentamento com a política são alguns dos fatores que explicam a popularidade do candidato à presidência Jair Bolsonaro, diz a pesquisadora Esther Solano, que tem entrevistado os eleitores do candidato desde 2017. Esses sentimentos caracterizam o que ela denomina de uma “rebeldia conservadora”. “Digo que é uma rebeldia conservadora porque as pessoas não votarão nele para que se construa uma coisa nova, de vanguarda, de futuro, mas, sim, para voltar ao passado mais tradicional, aquele dos valores cristãos, da ordem e da tradição, da hierarquia”, explica. O voto em Bolsonaro também é fomentado pelo discurso antiesquerda e antipetista e por um “descontentamento muito claro e uma rejeição às pautas identitárias, aos movimentos feminista, negro e LGBT, que têm crescido muito no mundo inteiro”, afirma.

A pesquisadora tem entrevistado pessoas de diferentes estratos sociais, sexo e idade e pontua que o discurso do candidato “tem uma penetração nos setores populares, mas tem muito mais capilaridade e potência nas classes médias e altas”. De outro lado, menciona, “a pesquisa também captou que as denominadas novas classes médias, que foram favorecidas por programas petistas, como FIES, ProUni, Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, também compram o discurso da meritocracia, do individualismo, da rejeição aos pobres e aos programas sociais, ou seja, as novas classes médias também fazem parte desse discurso conservador”.

Segundo ela, uma parte dos eleitores que irá votar em Bolsonaro já votou em Lula ou Dilma em outras eleições, mas eles “não veem uma incoerência nisso porque dizem o seguinte: quando votei em Lula, ele era uma pessoa honesta, era diferente, era alguém de fora do sistema político, um pouco como acham que Bolsonaro é agora. Lula também era carismático — como Bolsonaro é agora —, era alguém que falava para o povo, que sabe se comunicar, enfim, uma pessoa em que se pode confiar por conta da sua ética”, relata.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Estherclassifica a direita representada por Bolsonaro como a “direita pop”, que adota um “discurso de ódio” que “nasce nas redes sociais”. “É esse tipo de manifestação que tem no Facebook, do meme; é a ‘memificação’ da política”. A consequência da memificação da política, adverte, é o seu “efeito perverso, porque as pessoas acabam não identificando o discurso de ódio nos memes, e acabamos lendo essa mensagem como se fosse algo divertido, legal, mas é claramente antidemocrático”.

Esther Solano é mestra e doutora em Ciências Sociais pela Universidad Complutense de Madrid. Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal de São Paulo no curso de Relações Internacionais e professora do Mestrado Interuniversitário Internacional de Estudos Contemporâneos de América Latina da Universidad Complutense de Madrid. A pesquisadora acaba de lançar o livro “O ódio como política. A reinvenção das direitas no Brasil” (São Paulo: Boitempo, 2018).

Confira a entrevista.

IHU On-Line — Como tem sido feita a sua pesquisa sobre os eleitores de Bolsonaro e quais são os primeiros resultados apresentados?

Esther Solano — Essa pesquisa iniciou em 2017, antes das eleições, porque a ideia era captar um momento mais tranquilo para ver quem eram não somente os possíveis eleitores de Bolsonaro, mas também os simpatizantes dele. A ideia era que naquele período eles poderiam se expressar com mais liberdade, porque agora a situação está mais tensa. Em 2017 selecionei 25 pessoas de diferentes perfis econômicos em São Paulo, portanto, pessoas ricas, da periferia, homens, mulheres, gays, totalizando um grupo de 25 pessoas, e depois grupos de adolescentes de uma escola de São Paulo. A ideia era tentar identificar qual era o denominador comum que essas pessoas têm para se colocarem como votantes e simpatizantes do Bolsonaro.

IHU On-Line — Qual é o denominador comum verificado?

Esther Solano — Fundamentalmente, o movimento que chamo de “rebeldia conservadora”: trata-se de um grito de desabafo, de mal-estar, de descontentamento, um pouco dessa ideia do antissistêmico, do anti-establishment. Por outro lado, digo que é uma rebeldia conservadora porque as pessoas não votarão nele para que se construa uma coisa nova, de vanguarda, de futuro, mas, sim, para voltar ao passado mais tradicional, aquele dos valores cristãos, da ordem e da tradição, da hierarquia. Digo que há uma politização da antipolítica, por um lado, e um discurso muito antiesquerda, antipetista, anticomunismo, de outro. Isso mostra um descontentamento muito claro e uma rejeição às pautas identitárias, aos movimentos feminista, negro e LGBT, que têm crescido muito no mundo inteiro. Então há uma reação a tudo isso.

IHU On-Line — Como essa noção que você denomina de “rebeldia conservadora” se manifesta no discurso dos entrevistados? O que eles dizem que o leva a inferir que esse é o núcleo comum que os fazem votar no candidato?

Esther Solano — Basicamente eles dizem que estamos em um momento de desordem social e de desordem política provocado pelas crises política e econômica, mas também há uma desordem de valores. Eles dizem que esse momento caótico existe porque as feministas e o movimento negro subverteram a ordem natural das coisas, fazendo a parada LGBT. Isso ameaça a perspectiva deles de família tradicional, heteronormativa e os valores tradicionais. Logo, sentem-se ameaçados por esse progresso. É como se fôssemos uma ameaça à família tradicional e seus valores. Assim, eles dizem o seguinte: para lutar contra isso nós precisamos de um cidadão de bem, ou seja, temos que retomar a ideia do cidadão de bem, que é aquele que sempre anda direito. Para recolocar as coisas no seu devido lugar, precisamos de uma pessoa forte, confiável, religiosa, com valores, que cumpra ordens.

IHU On-Line — A motivação por esses valores é expressa do mesmo modo pelos entrevistados de diferentes estratos sociais?

O discurso de Bolsonaro tem uma penetração nos setores populares, mas tem muito mais capilaridade e potência nas classes médias e altas - Esther Solano

Esther Solano — O discurso de Bolsonaro tem uma penetração nos setores populares, mas tem muito mais capilaridade e potência nas classes médias e altas — isso é muito importante. Isso explica muito, primeiro, o sentimento classista do Brasil, a ideia de que os pobres são uma classe indesejada. É por isso que o discurso dele é muito forte nas classes médias e altas. Além disso, tem um sentimento antipetista muito forte, que é uma reação conservadorade rejeição aos programas sociais de mobilidade criados pelo PT, como Bolsa Família, e o programa de cotas. As classes média e média alta se sentiram ameaçadas porque os pobres ascenderam socialmente e economicamente e, nesse sentido, todo aquele discurso que já existia no Brasil, de que o país é muito desigual, racista e machista, fez com que explodisse esse sentimento reacionário das pessoas que se sentiram ameaçadas por essa mobilidade ascendente.

A pesquisa também captou — e vou analisar isso agora — que as denominadas novas classes médias, que foram favorecidas por programas petistas, como FIES, ProUni, Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, também compram o discurso da meritocracia, do individualismo, da rejeição aos pobres e aos programas sociais, ou seja, as novas classes médias também fazem parte desse discurso conservador.

IHU On-Line — Outras pesquisas que também estão sendo feitas para analisar o perfil do eleitor de Bolsonaro demonstram que as intenções de voto no candidato são motivadas, basicamente, por duas pautas, a da segurança e a da corrupção. Essas preocupações também aparecem entre os entrevistados da sua pesquisa?

Esther Solano — Sim. Iria falar exatamente sobre isso. A questão da segurança aparece, porque ninguém consegue resolver os crimes graves que acontecem, mas isso surge com aquela proposta de que “bandido bom é bandido morto”, que é muito simplória, demagógica, mas na qual parte da sociedade brasileira acredita. Essa é uma proposta construída em cima daquela noção de que o cidadão de bem está desprotegido e o bandido é aquele jovem negro da periferia. O bandido é aquele que tem que ser tratado com a força da lei, a autoridade policial etc. A agenda da corrupção também aparece porque o Bolsonaro se apresenta como um político honesto, que não se deixa comprar. Ele representa a retomada da questão da ética na política.

IHU On-Line — Como, na sua avaliação, tem se dado a reação à candidatura de Bolsonaro do ano passado para cá? Diria que houve mais rejeição ou adesão à candidatura dele?

Esther Solano — Diria que as duas coisas. Ele ficou mais conhecido, especialmente de um ano para cá, após o impeachment. Agora, como candidato, ficou mais em evidência. A popularidade de Bolsonaro aumentou, de fato, do ano passado para cá, mas a rejeição a ele também aumentou. Como o discurso dele está radicalizado ao extremo, por um lado, existe um discurso fácil, o que faz aumentar a popularidade, mas isso também cria rejeição. Imagino que agora ele está atingindo, provavelmente, os níveis mais altos de popularidade; ele já chegou ao teto de intenção de votos.

IHU On-Line — Como interpreta a rejeição a ele?

Esther Solano — Isso acontece porque embora ele tenha um discurso apelativo, demagógico, fácil, que captura sentimentos de raiva da população, de frustração com o sistema, de desabafo, de outro lado tem um discurso com um conteúdo altamente antidemocrático, racista, xenofóbico e, muitas vezes, fascista. Isso cria uma repulsa e gera a rejeição. Ele cria, de fato, essa tensão social, e ele divide muito porque ele não é uma figura conciliadora, é uma figura que causa uma fratura interna, pois é claramente antidemocrático e divide o mundo entre os que estão com ele ou estão contra ele.

IHU On-Line — Como você avalia a popularidade de Bolsonaro depois de quase quatro mandatos do PT à frente da presidência e também depois das manifestações de Junho de 2013?

Esther Solano — Isso acontece porque Bolsonaro canaliza o sentimento de frustração: ele tem o voto do descontentamento, do desabafo, do mal-estar, da crise, pois captura muito o descontentamento. Portanto, é aquele voto de negação da política. Ele é um político tradicional, sempre foi político, mas as pessoas dizem que ele é uma pessoa que nunca se vendeu, nunca pertenceu ao coração mais sujo da política, nunca foi corrupto, sempre permaneceu íntegro, honesto.

IHU On-Line — Uma parte da sua pesquisa busca compreender as motivações das mulheres que votam em Bolsonaro. Quais são as razões apresentadas pelas mulheres que têm a intenção de votar no candidato e as razões daquelas que não votarão nele?

Essa nova direita é muito antifeminista - Esther Solano

Esther Solano — É interessante destacar que o papel da mulher nessa eleição será prioritário, porque a maioria das indecisas são mulheres, e a rejeição de Bolsonaro é muito mais alta entre as mulheres. As mulheres que votam nele, primeiro, culpabilizam os movimentos identitários pela crise que está acontecendo. Essa nova direita é muito antifeminista. Basicamente elas dizem que reconhecem a existência de problemas relacionados ao machismo, mas se dizem antifeministas porque o feminismo também é visto como um causador de problemas à medida que as feministas provocam diferenças entre homens e mulheres, são muito exageradas, loucas. Os movimentos feministas e LGBT são vistos como um problema, são culpabilizados. Elas também dizem que a solução para o país deixar de ser machista, ou seja, para que haja igualdade, não passa pela luta coletiva numa eleição; a solução passa pela meritocracia, pelo individualismo, pelo trabalho, pelo esforço, ou seja, se a mulher que ser igual a outro homem tem que trabalhar e vai conseguir. Também entrevistei duas pessoas que se denominavam gays de direita, que falavam a mesma coisa: o Brasil é um país homofóbico, mas você tem que trabalhar na vida para ser igual a outro homem.

Por outro lado, o grupo das mulheres contra Bolsonaro é muito interessante, pois com ele conseguimos ver que o Brasil é um país muito patriarcal na política, é um dos piores países do mundo para as mulheres na política, porém tem um movimento feminista muito importante, muito organizado. Portanto, vivemos esse paradoxo. As mulheres são bloqueadas no campo institucional, mas estão muito ativas no campo da política das ruas.

IHU On-Line — Através da sua pesquisa é possível identificar se os eleitores de Bolsonaro já foram eleitores de Lula ou de Dilma? O que explica o voto anterior em Lula ou Dilma e o voto em Bolsonaro neste momento?

Esther Solano — São muitos, até porque a maioria dos brasileiros em algum momento da vida já votou no Lula. Acerca disso, precisamos considerar alguns aspectos importantes. Um deles é que existe uma retórica muito forte de que o PT se transformou em um partido corrupto.

Outra coisa que capto na pesquisa é que as pessoas que votaram em Lula e que agora votam em Bolsonaro não veem uma incoerência nisso porque dizem o seguinte: quando votei em Lula, ele era uma pessoa honesta, era diferente, era alguém de fora do sistema político, um pouco como acham que Bolsonaro é agora. Lula também era carismático — como Bolsonaro é agora —, era alguém que falava para o povo, que sabe se comunicar, enfim, uma pessoa em que se pode confiar por conta da sua ética. Quando vejo essa narrativa da pessoa que votou em Lula e agora vota em Bolsonaro, percebo que uma das razões é o antipetismo, mas também está muito presente a ideia do líder forte, confiável, que é diferente, que fala com o povo, que é carismático.

IHU On-Line — É comum ouvir que os eleitores de Bolsonaro são fascistas. Alguns pesquisadores, entretanto, advertem para o equívoco dessa associação. Como você vê esse tipo de classificação em relação aos eleitores?

Esther Solano — Sim, há uma diferenciação: Bolsonaro é claramente fascista, porque no fascismo você silencia o outro. Ele é uma pessoa absolutamente intolerante, acredita que “bandido bom é bandido morto”, tem um discurso xenofóbico; ele é uma figura fascista. Mas acredito que uma minoria vota nele porque também é fascista. Essas são pessoas com um discurso altamente violento, racista; é um eleitorado muito violento e intolerante. Mas tem uma massa mais silenciosa que vota nele por uma razão antissistema, de desabafo, que de fato não pode ser considerada fascista. Uma parte do voto em Bolsonaro se justifica por causa da crise política e econômica: a população está abandonada, perdida, sem norte, não confia no sistema. Acredito que tem que diferenciar Bolsonaro, que tem uma personalidade fascista, gente que também é fascista e vota nele, e essa grande massa silenciosa que está um pouco perdida, que migra seu voto porque não confia em ninguém.

IHU On-Line — Os eleitores de Bolsonaro entrevistados para a sua pesquisa comentam sobre a política econômica proposta por ele?

As mulheres são bloqueadas no campo institucional, mas estão muito ativas no campo da política das ruas - Esther Solano

Esther Solano — Quando se pergunta sobre a política econômica, por exemplo, praticamente ninguém a conhece. Pouquíssimos sabem quem é Paulo Guedes, por exemplo, e muitas pessoas estão enganadas ao acreditar que ele vai levar a cabo uma política nacionalista que vai conduzir o país. Poucas pessoas sabem que ele vai praticar uma política ultraliberal, que será privatista, que votará pela reforma da Previdência. Ele não mostra isso, até porque se apresenta muito como alguém que irá proteger o país, no entanto essa agenda ultraliberal do Paulo Guedes é contrária a isso. Essa é uma agenda que não mobiliza, que não aprova, que se mantém secundária, por isso as pessoas não têm conhecimento. Se houvesse mais conhecimento sobre a agenda econômica dele, haveria mais rejeição a ele.

IHU On-Line — Como tem se dado o contraponto a Bolsonaro entre os demais candidatos nessa eleição? Suas manifestações têm reforçado ou repelido o voto em Bolsonaro?

Esther Solano — Quando são feitas manifestações contra Bolsonaro de forma direta, a militância dele se mobiliza. Mas acredito que a crítica programática a ele, ao seu programa econômico, se intensificará mais a partir de agora. O que acho interessante não é tanto a crítica dos candidatos, mas o movimento dos mercados, da imprensa, um certo movimento contra a candidatura dele, pois vemos, por um lado, como os poderes estão se movimentando — imprensa, empresariado, bancos — e, por outro lado, o voto do eleitorado; parece haver certa divergência entre esses atores.

IHU On-Line — Qual é o futuro da militância dele após as eleições? A militância que existe em torno do candidato poderá ter continuidade como outras militâncias se constituíram ou ela tende a se dissipar?

Acredito que é complicado a militância dele conseguir se articular politicamente, porque Bolsonaro é uma figura muito isolada politicamente - Esther Solano

Esther Solano — É difícil pensar nisso, mas acredito que é complicado a militância dele conseguir se articular politicamente, porque Bolsonaro é uma figura muito isolada politicamente; ele praticamente não tem partido, o partido dele é pequeno, ele não tem alianças. Portanto, é uma pessoa que não está articulada politicamente, como MDB, como o PT.

O que vai acontecer, caso ele não vença as eleições, é o que chamo de “mobilização da esfera pública”. Ou seja, um certo discurso de ódio, de intolerância irá permanecer, porque isso está capilarizado. Irá persistir a ideia do politicamente correto, de poder se manifestar com comentários racistas com a justificativa de que há liberdade de expressão. O antiesquerdismotambém irá se popularizar muito na esfera pública. Talvez seja difícil organizar isso tudo no campo político pela falta de estrutura que o Bolsonaro tem, mas na esfera pública isso capilarizou muito.

IHU On-Line — Deseja acrescentar algo?

Esther Solano — Um ponto que gostaria de destacar é que o discurso de ódio que Bolsonaro apresenta é o que chamo de “direita pop”. Trata-se da ideia de que o discurso de ódio não é apresentado de forma dura ou clássica, mas é um discurso que nasce nas redes sociais. É algo visto de forma folclórica, lúdica, juvenil. É esse tipo de manifestação que tem no Facebook, do meme; é a “memificação” da política. Isto acaba tendo um efeito perverso, porque as pessoas acabam não identificando o discurso de ódio nos memes, e acabamos lendo essa mensagem como se fosse algo divertido, legal, mas é claramente antidemocrático.

*Publicado originalmente em ihu.unisinos.br