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terça-feira, 14 de maio de 2019

O HOSPEDEIRO (CONTO - PARTE IX), POR ALEXANDRE MEIRA



Foi engraçado como Celeste o acordou nesse dia. Nunca ela fizera antes tal molecagem, esperou ele virar de barriga para cima, dormindo, e encheu seu rosto de penas de galinha. Resquício da vítima da canja magra que sua mãe produzira no almoço do dia anterior. Acordou aos espirros, assustado procurando se desembaraçar das penas. As gargalhadas da irmã chamaram as outras duas meninas para que entrassem no quarto e pulassem em cima dele ainda todo coberto.
              Realmente foi engraçado. O jovem João colheu aos poucos um sorriso sem-graça enquanto segurava as duas irmãs nos braços. Olhou para Celeste como se agradecesse. Um sorriso verdadeiro pela manhã é sempre bom.
                 -  Qualquer hora eu não vou conseguir segurar mais vocês duas! - Disse João segurando Celina e Paixão, uma com cada braço.
                  - Aguenta sim! - Respondeu Celeste sentada a sua cama ainda se recompondo das gargalhadas.
                     O garoto então, com orgulho, levantou as duas o mais alto que pôde. As meninas se divertiram quando conseguiram tocar o madeirame exposto que sustentava o telhado da casa.  Celina tinha dez  anos e Maria da Paixão oito. Mesmo não estando acima do peso, não eram leves, puxaram ao pai principalmente na altura. Não eram tampouco pequenas. Celeste olhou admirada até perder-se e abrir a boca sem perceber. João perguntou:
                     - Cadê o pai, Cel?
                     - E eu sei?... Respondeu-lhe com uma leve ironia.
                    João percebia já do alto de seus quase dezoito anos que a adolescente Celeste tinha uma imagem construída do pai a partir da distância que sempre existiu entre eles. Talvez por isso João tenha sentido a irmã nos últimos tempos mais doce, mais brincalhona, mais carente de atenção. Uma transferência de expectativas a menina poderia estar fazendo da imagem do pai ausente, para o quase-adulto irmão.  Mesmo diante do claustro que vivia João em relação a cidade, dentro daquela casa ele era a alternativa na referência masculina para as irmãs.
                            João desceu as duas dos braços e as viu partir para o corredor. A sós com Celeste procurou contemporizar:
- Cel, o pai deve estar cheio de serviço. Para de implicância.
- Quando ele tá de serviço ele tá fora de casa. Quando ele tá aqui, ele só bebe e briga com a gente.- desabafou a menina.
- Vocês todas pegam muito no pé dele. Tem dar um desconto, pô. Imagina você trabalhar viajando o tempo todo, cheio de responsabilidade lá no batalhão que ele fica? Tem que chegar em casa e descansar um pouco. Ele tem direito. A mãe regula muito a vida dele. Deixa ele lá! - Exaltou-se um pouco João enquanto ajeitava sua própria roupa de cama.
A menina de braços cruzados apenas olhava.
- Você também quase não fica em casa...
João cresceu estudando fora da cidade. A mãe com medo de matriculá-lo nas vizinhanças do bar, por conta da perseguição do povo, inscrevia-o sempre na cidade vizinha. Mais de vinte quilômetros de ida e mais de vinte para voltar para casa. Não era todo mundo que gostava de dar carona, pra falar a verdade quase ninguém, por isso na maioria das vezes fazia o percurso a pé. Transporte público ainda era artigo de luxo no interior. Nessa toada o garoto saia de manhã e chegava quase sempre de tardinha. Na mesma toada quase não passava de ano na escola. Aos finais de semana João enfurnava-se em casa. Assim foram os dias em sua infância e adolescência. O episódio da perda dos primos, netos conhecidos que eram da finada Yolanda, o isolou ainda mais de tudo e de todos. Dessa forma pode-se dizer que ele não se misturou a própria cidade, os vizinhos, etc. Embora os vizinhos o conhecessem muito bem, ou pelo menos achavam que o conheciam. Celeste continuou:
- Você que tinha que ser o pai da gente, João...
O garoto levantou-se de sua cama e sentou-se ao lado da irmã:
- Você não ia gostar de ter um pai que nem eu. - brincou João esfregando os olhos ainda sob efeito do sono.
- Mas pelo menos quando você está aqui você fica com a gente. - disse a menina descruzando os braços.
- Mas eu só tenho isso pra fazer... - confidenciou o garoto enquanto esticava os braços espreguiçando-se.
A menina então rapidamente abraçou o irmão pela cintura e encaixou a cabeça em seu peito quase pegando-o no susto:
- Tive o sonho horrível hoje... - murmurou bem baixinho, Celeste.
O rapaz sorriu.
João largou o peso dos braços sobre o corpo leve da irmã e pareceu querer sufocá-la com um abraço.  Disse:
- Então é isso, né? Por isso que você está toda manhosa assim! Já não basta os meus pesadelos, você tem que ter os seus agora é?!
A menina deixou-se apertar. E não procurou se desvencilhar. Ambos permaneceram assim alguns segundos. E aquele foi o último abraço que João recebera da irmã.
                          O dia corria naturalmente com seu calor de fim de tarde e o pouco movimento de costume. Para um fim de semana os pés descalços que sortidamente riscavam a rua empoeirada davam impressão ao que poderia ser um quadro, estático que pareciam aqueles transeuntes em suas modorrentas rotinas. A casa sempre escura escondia vultos aqui e ali, e o silêncio era prova viva de que “não se podia conversar para não espantar os fantasmas”. Esse era mais um bordão de finada Yolanda, quando questionada pelo silêncio da casa. Bordão esse adotado por qualquer uma das filhas em situações similares.
“Até que enfim uma missão!”. Pensou o garoto quando viu Margarete romper a sala com uma pequena lista para comprar. Pondo-se de pé diante de Margarete, João parecia um titã a frente de uma jovem senhorinha:
- Vai até a Fazendinha pra mim e compra isso aqui lá naquela mercearia do lado da Casa de Macumba! Lá no Inácio! É bastante coisa, vai de bicicleta! Não esquece a notinha de fiado, que eu tenho que bater com as minhas contas aqui!! - intimou a voz forte de Margarete.
Esse tipo de ordem deveria sempre ser dada às costas de Mariana, uma vez que a cada saída de seu filho de casa, sua mãe ficava extremamente nervosa. João, já irrequieto com o passar do tempo lodoso daqueles idos, apenas procurou constatar:
- A senhora falou com a mãe?
- Já sim, por que?
- Por nada...
- Vai logo garoto!! - gritou erguendo os braços obesos, Margarete.
João andando rápido pegou a bicicleta do padrasto. Velha, mas útil. E chegou a conclusão que levaria a tarde toda para trazer tudo, uma vez que a mercearia do Inácio ficava a pelo menos meia hora de bicicleta depois de sua escola! E lá foi o gigante saindo do quintal com a bicicletinha abrindo espaço na poeira da rua. Olhou pra trás e viu sua tia Mirtes varrendo a porta do bar. Um cão sarnento começou a latir perseguindo-o, e tratou de pedalar mais forte. O que não era uma dificuldade pra ele, logicamente. Após um arranque vigoroso, ficou de pé sobre os pedais e logo pôde sentir o vento da rua bater no rosto negro e amenizar o calor daquelas bandas.
Passou por algumas casas e o que era de costume se repetiu. Alguns olhares, alguns comentários. Cumprimentos nem pensar! Salvo alguns bêbados, mas isso não contava pra ele. O filho do capeta então riscava a cidade de bicicleta cuidando-se apenas de não atropelar ninguém. João se lembrou: “Imagina se soubessem que estou indo a mercearia do lado da casa de Macumba!”. E se ouviu rir enquanto pedalava.
Sofrera tanto na vida com aquela rejeição toda que agora se ocupava de fazer piadas. Quebrava-se então um sentimento de autopiedade. A ironia é certamente uma das saídas mais inteligentes de um ser humano para lidar com uma condição desproporcionalmente inferior. João estava começando a perceber isso. Só não poderia saber, até pela pouca idade, que sua conseqüência direta é um descomprometimento ácido. Uma atitude blasé que resseca o coração aos poucos.
O calor distorcia imagens distantes, mas começou a reconhecer que a pessoa que vinha andando no meio da estrava em sua direção era seu padrasto. Freou com os pés cascudos no chão a bicicleta e parou diante de Bento:
- Quer que eu te dê uma carona até em casa rapidinho? Depois eu volto! - ofereceu João.
- Que carona, o quê!! - respondeu rispidamente Bento que seguiu rumo trocando as pernas.
“Êêêêêê... Manguaça desgraçada!” pensou João. Observou por mais alguns segundos o caminhar sinuoso daquele senhor envelhecido pela bebida. E era início de tarde, ainda! A barriga de chopp já saltava a blusa daquele velho oficial. O cabelo outrora irretocável confundia-se com uma barba igualmente grisalha e mal aparada. “Deixa minha mãe ver isso!? A casa vai cair!”, pensou alto o rapaz enquanto retomava impulso para continuar a pedalada.
E seguiu.
No distrito da Fazendinha, na cidade ao lado, João não viu a tarde passar. Fez criteriosamente o que sua tia determinou e ainda pechinchou pra cartelinha do fiado. Sabia como era a tia, e passar a tarde lá não era lá de todo ruim. Exercitava um pouco sua capacidade de se comunicar. Não tinha consciência disso é óbvio, mas matava uma espécie de sede íntima. Interagir com outros de igual para igual não era uma constante em sua cidade. Por isso aproveitava o quanto podia. Até porque volta e meia reconhecia nos olhares que sua história vinha a tona em alguns comentários à boca miúda. “Não dá muito pra arriscar um desconto”, pensava jocosamente o moleque quando percebia um tipo de olhar “familiar”.
Voltou pra estrada um pouco antes de escurecer com dois pares de sacolas cheias de mercadorias e presas com dois cabos de madeira. Colocou-as sobre os ombros, um par em cada.
À noitinha despontou na estrada que dava em sua casa e ouviu o barulho dos grilos anunciando sua chegada. Faltando metros pra o bar fechado viu um pequeno amontoado de gente a sua porta. Saltou da bicicleta e viu o grupo se dissipar. Entrou e deu de cara com Mirtes na porta dos fundos.
- Cadê as compras? Olha vai falar com sua mãe, Bento e ela estão se pegando lá em cima... - disse Mirtes olhando para as sacolas em suas mãos..
- Ahhh! Sei o que foi, quando tava saindo vi o pai bêbado chegando... resignado disse João, entregando uma sacola de cada vez.
- Não é só isso, não. Eles estão se pegando feio. Você saiu sem avisar a sua mãe! Margarete já tentou mas não conseguiu nem entrar no quarto. Todo mundo que passa, pára e pergunta o que é que tá acontecendo...
Só depois disso que prestando mais atenção passou a ouvir os gritos. Olhou para o segundo andar, na parte dos quartos da antiga pensão, viu apenas a luz acesa ensaiando apagar. Lembrou de um detalhe:
- Ué, mais eu avisei! Quer dizer, a tia Margarete avisou! - elevou a voz João.
Mirtes deu de ombros e entrou na cozinha carregando o peso. “A mãe também não dá trégua...” pensou alto João dando a volta pelo quintal para pegar a escadaria e subir até os quartos do segundo andar.
Após os passos longos, na parte sem iluminação do quintal pisou o primeiro degrau e reconheceu a irmã Celeste de cabeça baixa. Olhou novamente e reconheceu-a com mais nitidez. A irmã levantou a cabeça.  A luz da lua, brilhante no céu limpo iluminou seu rosto. Ela havia chorado, saberia reconhecer até no escuro quando sua irmã chorava. Olhando pra ele, ela disse:
- O pai me bateu...
João fez um muxoxo. Passou a mão cascuda no rosto da irmã e não viu machucado. Perguntou pra menina:
- O que você fez, Cel?
A garota ficou indignada. Levantou-se. Sobre os degraus ficou a altura dos olhos do irmão. Ensaiou um choro novamente, descrente do que havia ouvido, e vociferou para ele:
- O que eu fiz, João??? Não fiz nada!!!!!!!!!
Passou feroz trombando-lhe e correu para a portinhola da rua. Já iluminada pela luz da entrada da casa olhou para trás e viu João parado taciturno. A garota gritou:
- Ele bateu na mãe, também!!!
Saiu pela rua e sumiu. João balançou a cabeça negativamente e retomou a escada. Subiu alguns degraus e parou. Ouviu a mãe gritar. Era uma discussão feia. O padrasto também falava alto. Pensou... Retornou. Desceu a escadaria e entrou pela cozinha onde Mirtes ainda guardava as compras, ouviu da tia:
- Foi ver sua mãe?
João meio desatento com a informação da irmã respondeu baixo: “Não...”. Bento e Mariana brigavam constantemente, e várias vezes sob efeito da bebida o pai se exaltava. Nunca vira o pai bater na mãe. Mas tinha consciência de que isso acontecia. O pai sempre foi muito duro com as mulheres da casa. Perguntou:
- Ele bateu na mãe, tia? - perguntou ainda meio descrente.
Antes de ouvir a resposta, entra Margarete. Pisando forte como se marchasse abriu a despensa atrás de alguma coisa. João interpelou-a:
- Você não avisou pra mãe, tia? Eles estão brigando por causa disso? Não acredito.
- Não sei, garoto! Achei que tivesse avisado!! Eles começaram a brigar porque seu pai te deixou ir sozinho. Depois porque ele tá bêbado. Depois não sei mais o quê... E tá assim pra mais de uma hora.. Desisti de fazer eles pararem...
Nesse instante ouviu o choro alto de sua mãe. Ela gritara coisas que não entendeu bem. Não conseguiu decifrar. As agressões se intensificaram. O garoto respirou fundo. As meninas Celina e Paixão entraram na cozinha, quietas permaneceram, sentaram-se à mesa. Não sorriram. João percebeu o clima ainda mais pesado da casa. Levantou. Ficou inquieto. O pranto de sua mãe estava o incomodando. Perguntou novamente a tia:
- Ele bateu na mãe tia?
A tia respondeu sem piedade:
- Sim. Na frente de todas nós. Sobrou até pra Celeste.
- O que a Celeste fez? - perguntou com os olhos arregalados, João.
Dessa vez a resposta veio de Margarete:
- Não fez nada, João. Apenas olhou pra ele quando ele esmurrou sua mãe. Olhou com aquela cara que a Celeste faz quando  não gosta de alguma coisa. Tomou um tapa na cara de estalar.
                         João olhou para todas as mulheres. As únicas que retornaram o olhar eram as irmãs. Celina e Paixão olhavam com um ar de expectativa incomum. João andou de um lado para o outro. As tias mexiam nas compras. João se sentou. O garoto ainda tentou  tergiversar:
- Vocês vão ver... Vai passar, eles sempre se resolvem depois... - e trançou os dedos sobre a mesa.
Um grito de horror tomou conta da cozinha. Era Mariana que chorava desesperadamente. Aos gritos ela pedia que Bento parasse. Um silêncio sepulcral se pôs a mesa logo depois. Cada um fazendo alguma coisa. Celina apoiou o queixo na madeira em tristeza. Paixão olhou com os olhos grandes para João. Ele se perdeu nos olhos negros da irmã. Seu olhar já não era o mesmo. A menina aos poucos teve seus lindos olhos ressumados.
Sua tia sem olhar para ninguém, atenta aos legumes na pia, disparou com a frieza de um caçador:
- Essas horas é que faz falta um homem na casa...
Sentiu o golpe da tia profundamente.
João levantou-se, após. Girou em silêncio em direção ao corredor interno da casa e subiu as escadas para chegar ao segundo andar. Bem devagar João andou em direção aos gritos. Eles ficaram insustentáveis aos seus ouvidos. Pensava em entrar no quarto e pedir que se acalmassem e pronto: Sair. Sabia que nunca gozara de crédito, muito menos de autoridade frente aos pais, mas aquilo não podia continuar daquele jeito. Parou diante do quarto girou a tramela que segurava a porta e esperou alguns segundos para entrar. A luz escassa ameaçava apagar. Alguns instantes de silêncio o esperavam no quarto. João entrou.
Preferiu mais tarde nunca ter entrado naquele quarto.
Sua mãe estava de joelhos com o rosto coberto de sangue. Era segura pelos cabelos por Bento que completamente desfigurado de raiva cerrava o outro punho a ponto de tremê-lo. Com os olhos de ódio Bento fitou João atrás da porta entreaberta e antes que ele pudesse falar qualquer coisa, atacou:
- Sai daqui agora e fecha porta!
João com o coração disparado olhou para a mãe totalmente indefesa e a viu ainda balançar seu rosto fremente corroborando o intuito do pai. Ele nunca havia visto a mãe daquele jeito. Suas mãos estavam inquietas. Olhou novamente o padrasto e saiu, fechando a porta lentamente. Virou as costas e foi andando devagar pela sacada do segundo andar. Do corredor olhou para baixo e no portão entreaberto lembrou da irmã e do que ela disse. Pois bem. Ele precisava acalmar Bento. O padrasto talvez estivesse precisando mais dele naquela hora do que em qualquer outro momento. Era necessário agir até para que pudesse mostrar que era útil e que Bento poderia contar com ele. Lembrou de si mesmo perdido na floresta envolto de corpos destrinchados e como o abraço do padrasto o acalmou. Confiava plenamente nele. Precisava mostra-lo que era confiável também. Isso seria útil até para que a mãe não o zelasse tanto, e para isso exigisse igualmente de Bento.
O garoto parou e deu a volta. Retomou o rumo dos gritos. Dessa vez, sem pensar muito, entrou e fechou a porta por trás de si.
Bento segurava a mãe pelo pescoço parecendo sufocá-la contra a parede. O cheiro de álcool no quarto era absurdamente forte. Ela o viu entrar, o marido não. Quando viu que os olhos da mulher se viraram para a porta. Bento gritou:
- Já falei pra sair, desgraçado!!
João novamente com as mãos trêmulas argumentou:
- Pai, fica calmo. A mãe vai se acalmar também. As meninas estão assustadas lá embaixo.
Bento arremessou a mulher em direção a cama. Ela cai de mau jeito e continuou um choro sem fazer barulho. Bento ajeitou as calças e com a camisa aberta olhou fulminante para o garoto.
João pôde ver que um grande corte na testa de sua mãe vazava. As mãos de Bento tinham sangue também. João continuou:
- Pai, vamos descer, eu estou bem... A mãe precisa descansar também. Vamos descer.
Não foi o suficiente.
Um tapa desproporcional explodiu no rosto de João fazendo-o levar a mão rapidamente em direção ao rosto. O garoto apoiou a outra mão na maçaneta da porta atrás de si. Bento berrou:
- Macaco fedido!! Quando eu mandei você sair era pra você sair!!!
João olhou pra mãe. Nunca seu pai havia lhe encostado a mão. A predileção por João era algo que nunca fora questionada por ele, mesmo intimamente. Aquela mão que acertou-lhe o rosto com violência era a mesma que segurava a sua na rua quando ainda era muito pequeno. Era a mesma que o defendia do mundo fora daquela casa. Junto ao pai nunca sentiu vergonha dos olhares venenosos.
Sua mãe conteve o choro por alguns momentos e suplicou antecipando-se:
- Filho, pode sair! Vai ficar tudo bem!
João ajoelhou-se com uma das pernas. Não conseguia crer no que aconteceu. Um aperto no peito roubou-lhe algumas lágrimas. Precisava ser forte. E ser forte naquele momento para ele era insistir no bom senso do pai. Com o queixo estremecido João pediu calmamente sem levantar os olhos para o padrasto:
- Pai, por favor, desculpa eu estar aqui. Mas a tia me pediu pra vir aqui pra vocês pararem de brigar. - e continuou com a voz embargada - As meninas estão com muito medo, e já tem gente juntando na rua pra ver, vocês estão brigando há muito tempo.
Bento, tomado de ira, gargalhou inexplicavelmente. Gritou pra Mariana:
- Tá vendo Mariana, o que você fez com esse bosta. Até pra agir feito homem ele se borra todo!!! Quem tinha que tá levando essa surra Mariana é esse merda aqui! Pra aprender a ser homem!
João parou de tremer. Os olhos marejados secaram.
Um arrepio infernal correu toda a sua nuca quando a luz do quarto piscou duas vezes.
Mariana se desesperou e gritou:
- Sai daqui João!!! Por favor!!! Não escuta o Bento, ele tá bêbado!
O garoto inerte pareceu desligado por alguns segundos.
Bento virou-se para a cama e tirou o cinto. Dobrou em forma de chicote e foi em direção a mulher. “Você não respeita nem o que eu já fiz por você, sua vadia!!!” foi o que ele disse antes de erguer o braço para desferir uma chicotada na altura do rosto da mulher.
Ele não conseguiu.
Seguro pelo punho por uma força descomunal, Bento olhou para trás e viu seu enteado como uma sombra de olhos fechados e semblante duro. Mariana reiniciou o choro e tentou a despeito de suas dores, sobre a cama, esticar o braço para tocar no filho. Não conseguiu.
Numa atitude de defesa Bento tentou soltar-se de João, inocentemente.  O garoto ainda de olhos fechados trouxe o corpo de Bento para perto de si. Centímetros separavam o rosto dos dois. “Me larga, João!”. O grito do pai não surtiu efeito. Ele insistiu:
- Olha pra mim, João! Estou mandando você me largar! - disse Bento sem o tom imperativo de antes.
João permaneceu segurando o punho de Bento junto ao peito e de olhos fechados a frente dele. O garoto parecia um touro  ofegante. Mariana apenas chorava. Bento recuperando a sanidade falou:
- João, meu filho, olha pra mim... - disse Bento com insegurança.
E João abriu os olhos.
O que Bento viu foi um ser irreconhecível a sua frente com os olhos totalmente esbranquiçados. Não teve tempo sequer de gritar.
Com o outro braço João segurou o pescoço de Bento e arremessou seu corpo como um boneco velho em direção a parede. Os gritos de Mariana só serviram para amedrontar Bento que mesmo com o choque se levantou ainda tonto e tentou proteger o rosto. João desferiu impiedosamente um chute na altura do queixo do padrasto que o fez cair sem vestígio algum de dentes na boca. O sangue de Bento passou a se misturar com as manchas de sangue de Mariana no local. Com o velho padrasto caído, João iniciou uma seqüência de chutes  letais na altura das costelas. O homem passou a urrar como um porco a beira do abate. Sem forças algumas para se levantar passou apenas a defender o rosto dos chutes e clamar por piedade.
João não ouvia nada.
Os gritos alarmantes de Mariana chamaram a atenção do resto da família que subiu rapidamente a escadaria em direção ao quarto. Quando estavam a iminência de abrir a porta João puxou uma das camas e travou a entrada. O espetáculo dantesco agora dependia apenas de João para acabar. Bento nesses poucos segundos ameaçou se arrastar para longe do enteado, mas foi impedido quando João o ergueu pelos cabelos. O olhar do velho era de pânico.
João já conhecia e se alimentava vorazmente do cheiro do medo.
O rosto de Bento foi arremessado três vezes pela nuca contra a quina da penteadeira velha, que remontava a época da infância de Yolanda naquela casa. O rosto da vítima já tomava formas irregulares cercando apenas um par de olhos encharcados de desespero. Os murros na porta dados por suas tias apenas geravam um trilha sonora horrenda para o estava acontecendo. João jogou o corpo do padrasto, após os golpes, no chão. A luz do quarto tremelicava e ameaçava apagar. Sentado com a cabeça para trás, apoiada na cama, Bento espumava e emitia sons guturais erguendo os braços insustentáveis. As feições humanas de ambos se desfaziam, por motivos diferentes, eu diria opostos. João pisou o peito do velho e com os dedos grossos da mão segurou a base da cabeça da vítima em posição para arrancá-la. Os dedos forçavam a entrada na garganta de Bento. Os olhos do oficial ameaçavam saltar. Vendo o que estava acontecendo, Mariana, começou a gritar pelo nome de João, e se arrastou na cama até tocar seu braço rígido, sob os gritos mortais de Bento.
- Filho... Olha pra mim. Por favor não estraga a sua vida. Não se transforma nisso por favor...
João olhou para a mãe, e disse com uma voz bestial:
- Eu não disse que ele era meu...
A luz se apagou.
Na rua a casa já era cercada por pessoas instadas pelos vizinhos a praticamente invadi-la. Os gritos de horror de Bento jamais foram ouvidos naquelas bandas. Mulheres chorando imaginavam  que o pior estivesse acontecendo naquela casa marcada pelo sofrimento, mas talvez não esperassem por isso. Homens já forçavam a porta do quarto onde os gritos de Bento provinham, contudo há alguns minutos um silêncio desalinhou os ânimos.
- Vamos ter que arrombar!! - gritou para alguns homens o velho Sebastião amigo da família, observado pelas mulheres da casa.
Apenas nessas situações que a pensão fechada ou o bar estiveram tão cheios. Uma ironia triste. Os arroubos intermitentes na porta de madeira logo a fizeram cair desvelando a realidade mais triste que aquela casa já havia presenciado.
Um verme bravio eclodiu o seu hospedeiro e deixara para trás uma carcaça velha e fedida. A janela aberta, escancarada sendo cuidada por uma mulher em estado de choque sobre a cama. Nenhum homem teve coragem de entrar, e logo as crianças foram encaminhadas para o andar de baixo da casa.  As primas de Mariana tampouco a ofereceram colo, uma vez que o que estava dentro do aposento, além de assustador, transformou a história de todas elas.
Alguns restos mortais estavam espalhados por todo o quarto, como que dispostos em uma oferenda. O oficial Bento estava morto e irreconhecível, em pedaços, espalhados pelo quarto. As paredes sem tintas dos quartos estavam assinaladas fortemente com sangue e surdas permaneceram diante da barbárie. Mariana olha hipnoticamente para a janela aberta por onde viu seu filho sair. A mesma janela que quase dezoito anos antes ela rompera grávida para tentar fugir de sua sina. Neste dia a sina de João fugiu ao controle de Mariana.
O barranco logo depois, e a trilha pelo mato em direção a rua, agora tinham as pegadas monstruosas de um menino.
O cenário em muito lembrava o da pedra do Gavião, no episódio da morte dos gêmeos Esaú e Jacó. Onde alguns homens que lá estavam acompanhando Bento, hoje estão diante de seus restos. Manifestações de indignação, se misturaram com o medo e nada mais assegurava a vida em paz dentro daquela casa. O que era precário, se desfez totalmente.
Ainda perto dali um gigante na noite corria, mas de medo.
***

quarta-feira, 17 de abril de 2019

KARMA (CONTO - PARTE VIII), POR ALEXANDRE MEIRA


Azulejo Frida Kahlo Cordel  de Ana Ruizna #colab55. Tags: ilustração, folhas, desenho, flor, pintura, frida, mexicana, nordeste, méxico, kahlo, espinhos, cordel, ana ruiz, sobrancelha
Descalço João caminha. Já é noite. Esaú a frente grita:
- Vamos Joãozinho!!!
O menino para. Está com medo.
- Vamos!! O Jacó já tá lá na frente!!
João intimidado não segue. Atrás de Esaú surge a imagem sinistra da mulher no alto. Bem na copa das árvore. Ela não tem rosto.  Flutua lutuosamente. João estático força o grito mas som algum lhe sai. Ele tenta em vão. Esaú olha-o com estranhamento.
- Que foi?? Fala!!!
João em um relance olha para as próprias mãos. Elas tem muito sangue. Um grito alarmante explode a frente. A voz era de Jacó. João olha novamente, a imagem ainda está no alto, sombria. Esaú vira-se e corre atrás de Jacó para socorrê-lo. Some da vista do garoto. João fica só.
Ele e ela frente a frente. O garoto parece tremer com toda sua alma. Não tira os olhos francos da entidade a sua frente. Um rosnado de cão selvagem e um hálito quente parecem estar colados ao seu ouvido. O coração dispara. João sente uma mão roçar-lhe o rosto. Ele grita!
- Calma João.
João ergueu o corpo em um solavanco. Não havia mais nada. Apenas imagens desconexas. Aos poucos reconheceu sua tia Mercedes. Em algum quarto iluminado da pensão João está deitado em uma cama entre lençóis. O menino boquiaberto recosta aos poucos a cabeça e fecha os olhos entregando-se ao cansaço. Sua tia acariciava seu rosto carinhosamente. João olhou mais uma vez para o rosto da tia: Uma pele morena jambo em um rosto arredondado, olhos levemente amendoados, cabelos encaracolados e macios, castanhos que pareciam quase avermelhar. Um rosto familiar. O menino acalmou-se. Sentiu falta do sorriso largo da tia. A única pessoa que sorria para ele naquela casa. O padrasto talvez. Mas pouco. Os primos sim. Os primos...
João escuta ao fundo muitos gritos. Uma voz de mulher descontroladamente brada:
- Demônio!! Demônio!! Esse demônio matou meus filhos!! Meus dois filhos!! Ahh Meu Deus!!
Uma multidão gritava junto com ela e tentava a conter. Assim poderia estar acontecendo no andar de baixo.
João segurou a mão da tia que acarinhava seu rosto e se contraiu. Mercedes apertou o menino. Beijou-lhe a cabeça. Os gritos ressoavam com múltiplas vozes. Muitas vozes. Cada vez mais alto. Os gritos e choro eram de sua tia Mirtes, seguramente. João voltou a sentir medo. Seu cansaço, porém o impedia de perguntar algo. Ouviu algo do tipo... “Maldição!” ou “Maldito”.
O menino virou o corpo na cama aconchegando-se, sob os carinhos da tia. Quando estava com o rosto colado ao travesseiro enxergou a cama do outro lado do cômodo. Sobre ela uma mulher está sentada. Prostrada com as mãos abertas ao lado do quadril. Olha para ele fixamente com o rosto debulhado de lágrimas. Apenas olha. Quase sem piscar e com o queixo trêmulo. Era sua mãe. Ela olha para o filho com uma dor que fez o menino ficar com os olhos totalmente marejados. Sem mais conseguir se manter consciente, João dormiu.

***

terça-feira, 19 de março de 2019

A MORTE (CONTO - PARTE VII), POR ALEXANDRE MEIRA


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Frio. Era madrugada. A mata fechada chiava horrendamente em seus múltiplos sons. Um mal cheiro tomava aquele pedaço de selva onde um menino de seis anos abraçava os joelhos e com os olhos trêmulos e arregalados olhava para tudo que se movia. Eventuais lampejos de luz o assustavam. Uma tempestade se aproximava. Não chorava, apenas um ruído triste como uma lamúria emitia com a boca contraída de medo. O barulho constante da cachoeira invisível no fundo lhe dava a certeza de que água haveria caso precisasse, mas o medo profundo o impedia sequer de se mexer.
Algo como um grito grave se ouviu de longe.
O que João vira após acordar naquele lugar, era tão assustador que o congelou em estado de choque. A fome e a sede ficavam em segundo plano, e o seu lamento compulsivo como um animal acuado e ferido se misturavam com os sons indescritíveis da madrugada. Outro raio iluminou o seu derredor, e novamente aquele panorama se apresentava nocivo a sua frente. Quase doze horas se passaram desde que ele acompanhou seus primos Esaú e Jacó para a trilha da Pedra do Gavião. Caminhara horas com eles dentro da mata até quase anoitecer, o medo e o cansaço crescentes de todos ele lembrava bem. Depois disso não se recordava de mais nada.
Passos! Talvez não... Outro grito monstruoso.
Ele não sabia. Mas sob aquela mesma árvore sua mãe passara chorando em processo de parto seguindo pela trilha morro acima. João não sabia onde estava exatamente, mas ali naquela mata ele nasceu. Os olhos esbugalhados miravam a seqüência sombria da trilha, como se esperasse que algo saísse de lá, já que seus primos não sairiam mais. As histórias daquele lugar para um menino de seis anos ressoavam em sua memória como uma tortura sem fim.

E ele sempre ouviu dizer que era parte dessas histórias.
João se arrepiou. O pelo de seus braços eriçaram quando uma imagem pareceu se formar por detrás da escuridão.
Enfiou a cabeça entre as pernas para não ver. Ouviu uma gargalhada ao longe. Um arrepio fino correu sua nuca.
- Mãe...- o menino falou pra si.
Algo correr sobre seus pés.
Não havia lua que iluminasse completamente a mata, já que toda luminosidade esbarrava na copa das árvores. Apenas os clarões dos relâmpagos permitiam revisitar o que havia a sua volta.
João ouvia sua respiração forte. Ofegante.
Na saída da trilha escutou algo se mover.
                      Com a cabeça comprimida entre as pernas João também ouviu alguns passos intermitentes. Seu coração disparou. Trancou os olhos. Os passos se aproximavam cada vez mais. Cerrou os punhos de medo.
                    Quando os passos pareciam estar diante de si, não aguentou e gritou de desespero:
- Mãe!!!!!!!!!!!
                       Os passos cessaram. A expectativa fez o menino não respirar.
Uma voz irregular e sombria respondeu:
- Estou aqui...

A razão de todo o seu medo se revelou.

João ergueu a cabeça e tomado por um suor gelado pôde ver de baixo para cima, a sua frente, a sombria imagem de uma mulher, imensa, com uma saia negra, que escondia as pernas, a pele muito branca, e uma vasta cabeleira escura. Em seu rosto, procurou os olhos, não havia, não se via semblante. Era noite, mas sua imagem pareceu resplandecer dentro de sua identidade funérea. Parecia flutuar a meia altura. Aterrorizado, o menino João iniciou um choro copioso ao abaixar a cabeça novamente, mas ouviu a voz reincidente como um sussurro desafinado:
- Eu sabia que você viria. Você é parte de mim João. O medo que tens de mim é o medo que terão de você...
João lembrou das brincadeiras dos primos sobre a Mãe Naná. Ele se aterrorizou por imaginar que poderia ser ela. Diante dela os segundos não passavam, achou que fosse morrer. O garoto num lapso de coragem ergueu os olhos novamente. Ela não estava mais a sua frente. Respirou fundo. Suas mãos tremiam incontrolavelmente. Queria olhar para os lados mas o medo era sempre maior. Lembrou do cenário que vira ao acordar. Aquilo tudo estava ainda ali em sua volta, não poderia sequer correr.
Terror era a palavra.
Outro clarão seguido de um estrondo e um vento quente anunciavam a tempestade iminente. O menino pareceu tonto, uma confusão mental aliada a fome e sede o fizeram quase deitar em vertigem. O pavor, entretanto, o manteve acordado. Com os olhos fechados ele recostava a cabeça na árvore atrás de si para tentar  liberar a tensão dos músculos, quando sentiu seu corpo se erguer lentamente. Foi a pior sensação que tivera em sua curta vida. Ninguém o segurava. João começou então a gritar desesperadamente, embora não consiguisse se mexer nem enxergar nada. João estava levitando.
Um arrepio seguido de uma dor aguda na nuca o atacou.
Aquela mesma voz reverberava agora dentro de sua cabeça:
- Hoje é um dia importante pra mim João, e pra você também... Obrigado por me trazer essa oferenda...
Seus primos. João chorou implorando piedade sem saber ao certo naquela tenra idade o que aquilo significaria. Repetiu o que ouvira dos lamentos religiosos de sua família. Sua vida, mal sabia ele, lhe reservaria mais pedidos de piedade. Muitos mais. Nenhum deles, porém, proferidos por sua própria voz. Sentia seu corpo flutuar a metros de altura, quase na copa das árvores, quando um último clarão se deu no local, e com incalculável temor, pode ver, enfim.
A imagem sinistra de uma mulher estranha de olhar implacável o encarava causticamente a centímetros do seu rosto. Um hálito quente e um cheiro forte de perfume doce foram inesquecíveis pra ele. João gritou mas sem sair a voz:
- Mãe!!!!!
Um barulho ensurdecedor de trovão iluminou toda a mata e o fez cair rápido sob o grande susto. João desmaiou com o impacto no solo por alguns minutos.
Ainda recuperando os sentidos o menino procurou esconder o rosto entre as mãos para não ouvir mais aquela voz. Sentiu suas mãos molhadas. Quando um raio iluminou pode vê-las encharcadas de sangue. Era sangue. Subitamente o sussurro bizarro e desafinado retornou.
- Veja o que nós fizemos...
Ele mal podia entender.
Trêmulo João procurava esfregar as mãos na terra. Esfregava com muita força. Lembrou de seus primos, e começou a soluçar. “Eu não fiz isso.” - dizia o menino pra si com o coração disparado. Dosando o respirar, pela primeira vez naquele tempo todo sentiu muita fome. João envelheceu anos naqueles instantes. Ele tinha que se acalmar. Precisava rezar como sua mãe lhe ensinara, mas não conseguia se lembrar. Ajoelhou-se e baixou a cabeça procurando se distanciar de tudo. Lembrou de Bento e sua mãe. Lembrou de sua tia Mercedes. Contou até três.
João deu um grito de pavor.
Uma mão forte segurou sua cabeça e uma luz o ofuscou.  O pesadelo havia recomeçado.
- Graças a Deus!
A voz era de Bento. Com mais algumas pessoas que chegavam procurando os meninos, eles logo se espalharam pela mata em torno de João. O menino mal conseguia abraça-lo, encarnou apenas um choro desmedido e uma respiração frenética com os olhos intranqüilos.
- Fala filho! Onde estão seus primos?!Onde estão seus primos!?!? - Inquiriu Bento militarmente.
Bento iluminou o corpo de João com a lanterna em busca de algum machucado ou algo do tipo. Logo esbarrou com as manchas de sangue em sua própria blusa. Eram as marcas deixadas pelas mãos pequenas de João ao agarra-lo com medo. Viu que João também estava com sangue nas mãos, mas sem nenhum machucado. Sem entender, Bento deixou escapar:
- João... O que...?
Logo um dos homens o interrompeu:
- Sargento, dá uma olhada nisso aqui...
Abraçando o menino contra o corpo, Bento levantou e mesmo com os olhos ofuscados pôde ver o círculo formado pelos homens munidos de lanterna. Eles iluminaram todo aquele espaço exibindo um dos piores cenários que já vira em sua vida de militar.
- Meu Deus...
Era real. Terrivelmente real.
Uma série de pedaços irreconhecíveis de corpos descarnados e dilacerados estavam espalhados exalando um cheiro forte de sangue e carne. Os homens simples que acompanhavam Bento passaram a sentir medo. Era visível em seus olhos. Um misto de pavor e susto fizeram Bento sequer se aproximar. Mas ali naquele cenário, identificou algo que irremediavelmente mudaria a vida de toda aquela família, e principalmente daquele menino em seu colo. Tão simples e tão cruel.
Bento reconheceu os inconfundíveis chinelos dos gêmeos. Os dois pares espalhados de maneira disforme, quase o fizeram chorar.
Esaú e Jacó, amicíssimos e inseparáveis, não mais retornariam para casa.
Ainda assim pode sentir o coração de João contra seu corpo aos poucos se acalmar.


***