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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Haddad: “Não sei o que levou Gleisi a Caracas. É preciso cuidar do gesto, mas também da comunicação do gesto”,

Haddad: “Não sei o que levou Gleisi a Caracas. É preciso cuidar do gesto, mas também da comunicação do gesto”

Ex-prefeito diz que o ambiente na Venezuela "não é democrático" e faz crítica à ida de presidenta do PT à posse de Maduro. Sobre Ciro Gomes, diz: "Você retoma o diálogo com quem quer dialogar"

Entrevista Fernando Haddad
Fernando Haddad em sua casa em São Paulo.


Indagado se está de férias "desde o fim das eleições", Fernando Haddad, candidato derrotado por Jair Bolsonaro na disputa pelo Planalto em 2018, se surpreende. "Férias? Você acha que professor tem férias desse jeito? Estou preparando curso", afirma o petista em entrevista ao EL PAÍS. O ex-prefeito paulistano, professor de administração e gestão pública no Insper, volta ao trabalho em 11 de fevereiro. Com relação à política, seu papel ainda é incerto. Sem mandato e com seu maior padrinho eleitoral —Lula— atrás das grades,  Haddad tem pela frente o desafio de se manter relevante para não sofrer o mesmo destino de Marina Silva, de ver se esvair o capital político dos 47 milhões de votos que obteve nas urnas. O professor rejeita o papel de "líder" da oposição ao Governo de Bolsonaro e diz que vai atuar sem almejar qualquer posto no PT. Em conversa de pouco mais de uma hora em sua casa em São Paulo, em 14 de janeiro, o ex-prefeito falou sobre a Venezuela ("o ambiente lá não é democrático") e deixou sugerida uma crítica a ida de Gleisi Hoffmann a Caracas para a posse de Nicolás Maduro. “Não sei o que levou Gleisi a Caracas. É preciso cuidar não só do gesto, mas da comunicação.”

Pergunta. O PT enviou sua presidenta para a cerimônia de posse de Nicolás Maduro, isolado por quase todos os países da região. Por que o PT apoia Maduro?
Resposta. Eu gostaria de situar essa discussão em um plano um pouco diferente. Se não fosse a mediação pessoal do Lula durante seu Governo, já teria ocorrido uma intervenção dos Estados Unidos na Venezuela.
P. Mas passaram-se anos, muitas coisas aconteceram depois disso...
R. A obsessão da esquerda brasileira tem que ser com a paz, com a não ingerência. Evidentemente a situação na Venezuela se deteriorou. E o ambiente na Venezuela hoje não é democrático. Porque as partes não reconhecem os processos.
P. Mas essa degradação do ambiente democrático, você credita isso só à oposição?
R. Acredito que o Governo Maduro tem uma parte de responsabilidade. É evidente que não há por parte da oposição um enorme compromisso. Seria ingenuidade imaginar que a oposição não tem seus interesses, inclusive de buscar um status quo anterior, que era o da Venezuela como um quintal cheio de petróleo para os americanos. A obsessão do PT é buscar um caminho no qual possamos restabelecer o ambiente democrático na Venezuela. Que está difícil. Não é uma tarefa fácil. Mas pode se tornar mais difícil ainda se houver uma intervenção militar.

P. Você teria ido à posse do Maduro?
R. Não participei da discussão, não sei os argumentos e o que levou a Gleisi (Hoffmann) a ir para Caracas. Existe uma questão que considero importante, que é da mensagem que você passa ao tomar qualquer decisão. É preciso cuidar não só do gesto que você considera mais adequado, mas da comunicação desse gesto para a opinião pública mundial.
P. A justificativa do PT para não comparecer à cerimônia de posse do Bolsonaro é que o processo democrático foi inadequado devido à prisão de Lula. Você acha que a Venezuela tem um processo democrático mais transparente que o Brasil?
"A obsessão do PT é buscar um caminho no qual possamos restabelecer o ambiente democrático na Venezuela"
R. São situações diferentes.
P. Por quê?
R. A questão do Brasil é que o líder das pesquisas foi impedido de participar da eleição.
P. Na Venezuela também. O opositor Leopoldo López está em prisão domiciliar.
R. O que eu digo e repito: a obsessão do PT com a qual eu compartilho é evitar um conflito militar na região. Brasil está há mais de 140 anos sem conflito militar com seus vizinhos. A obsessão da centro-esquerda pacifista é buscar uma solução negociada. Outra questão é comunicar adequadamente o que você quer comunicar com seu gesto [a ida de Gleisi à posse de Maduro].
P. A ida dela não pode ser entendida como uma chancela do PT ao Governo Maduro?
R. O PT nasceu do questionamento de ditaduras de esquerda.
P. Considera o Governo de Maduro uma ditadura?
R. O que eu disse na campanha e eu repeti é que o ambiente na Venezuela não é democrático. As forças políticas venezuelanas hoje não respeitam o resultado de qualquer consulta que você faça. Veja quantas consultas foram feitas nos últimos três anos ao povo venezuelano, nenhum resultado foi considerado legítimo.
P. Em que medida o PT tenta se aproximar da oposição venezuelana?
R. Aí você está perguntado para mim, o que eu penso não é necessário o que o PT pensa. Para saber o que o PT pensa você tem que fazer uma entrevista com a Gleisi. O que eu penso e defendi na campanha foi isso, não mudei de ideia. Considero a situação da Venezuela grave do ponto de vista democrático, porque as partes não se reconhecem.
"O PT nasceu do questionamento de ditaduras de esquerda"
P. Você já disse que Bolsonaro era uma ameaça à democracia. Ainda enxerga assim?
R. Se você tem um conceito estrito, tanques de guerra na rua, alguém está armado te ameaçando... Nesse conceito de democracia a ameaça pode estar mais distante. Mas se você entende democracia enquanto ambiente onde são cultivados certos valores, inclusive de proteção às minorias, sem dúvida, neste conceito, a democracia está ameaçada. Os indígenas estão se sentindo ameaçados, a comunidade LGBTQ, os professores e líderes de movimentos sociais também, porque podem ser considerados terroristas a qualquer momento pelo presidente. A oposição está se sentindo ameaçada, porque ele anunciou que ela terá dois caminhos, a cadeia ou o exílio. Este conceito que eu acredito de democracia, sim, está ameaçado. As instituições tem que funcionar com um propósito, de fazer as pessoas se sentirem seguras independente do que pensam, de sua orientação sexual.
P. O Congresso e o Supremo Tribunal Federal não estão preparados para exercer um contrapeso a estas medidas?
R. Veremos. Os sinais do Executivo são os piores possíveis, então temos que ver se os contrapesos funcionarão. Veremos como reagem a imprensa, o Judiciário e o Congresso a estas ameaças, que são reais.
P. Qual o papel do PT na oposição?
R. O PT já foi oposição no Brasil. Até 2002 nós éramos um partido de oposição. E o PT fez uma oposição bastante qualificada à época. Tanto é que logrou resultados na campanha de 2002 [quando Lula foi eleito pela primeira vez], e a transição do Fernando Henrique para o Lula foi uma transição muito tranquila e civilizada, o que demonstra de certa forma que as relações entre oposição e situação no Brasil mantinham um padrão adequado. Estamos voltando à oposição desde o impeachment da Dilma, mas tendo a experiência de 13 anos de Governo, o que significa que vamos poder fazer uma oposição muito mais qualificada do que fizemos antes.
P. Qual seria seu papel no PT nos próximos anos?
R. Meu papel é o que exercia antes e passo a exercer agora: não tenho cargo, mas nunca tive antes de o PT chegar ao poder, e nem por isso deixava de exercer na plenitude minha cidadania como professor e articulista. Lembrando que o próprio Lula nunca precisou de cargos para exercer cidadania, para conversar com o país, conversar com outras forças democráticas do continente e da Europa.
P. Você gostaria de assumir a presidência do PT?
R. Não está nos meus planos. Eu nunca fiz parte da burocracia partidária, nunca participei da vida interna do partido a não ser quando convidado, na condição de professor universitário.
Fernando Haddad em sua casa em São Paulo. ampliar foto
Fernando Haddad em sua casa em São Paulo.
P. Você pretende liderar a oposição no Brasil?
R. Eu não acredito que alguém possa ter essa pretensão. Estamos em um sistema multipartidário, nós ainda temos 30 partidos. Acredito que ninguém possa se arvorar a ser o chefe da oposição.
P. Durante a campanha o rapper Mano Brown fez um discurso forte com relação ao PT, dizendo que o partido tinha perdido contato com suas bases. O que vocês têm feito de diferente para reverter isso?
R. Em primeiro lugar, o PT foi para o segundo turno com 30% dos votos, e chegou ao final da eleição com 45% dos votos. Contra 51% de 2014. Então nós não perdemos [as bases]...
P. Tem uma base ampla, mas não o suficiente para ganhar...
R. Estamos falando de um partido que ganhou quatro eleições consecutivas. E perdeu a quinta tendo disputado em condições competitivas. Eu acredito que, se não fosse a ação das fake news e o dinheiro de empresários para disseminá-las, nós iríamos dar muito mais trabalho.
P. Mas na época da campanha você deu razão ao Brown...
R. Dei.
P. E agora está falando que houve desgaste no Governo, fake news...
"Quando você é Governo durante quatro mandatos existe um processo de distanciamento das bases"
R. Uma coisa não tem a ver com a outra. As duas são verdadeiras. Quando você é Governo durante quatro mandatos existe um processo de distanciamento das bases em função do fato de que a maioria dos quadros são assimilados pela máquina estatal. Isso é um processo muito desagradável, infeliz, mas acontece. O sucesso eleitoral do PT enfraqueceu o próprio partido em sua conexão com as bases. O outro fenômeno é a crise política, ética, e econômica que aconteceu.
E a outra questão é que há novos atores no Brasil. Por exemplo, as igrejas evangélicas tinham um tamanho quando ganhamos em 2002, e têm outro tamanho agora. E nós não aprendemos a dialogar com a base dessa igreja, muito menos com os líderes, que são em geral bastante conservadores.
P. Como recompor o cinturão vermelho, tradicional reduto petista em São Paulo e onde desde as eleições municipais de 2016 vocês perdem terreno?
R. Acho que vai haver um processo natural de migração do partido da máquina do Estado para a base. E nessa reconexão vai haver um aprendizado. Vamos nos deparar com outro país. Muito fruto inclusive do sucesso dos nossos Governos, mas que não necessariamente se identificam com nossos valores. Não está dado que um pobre que deixa a pobreza mantenha seus valores igualitários, por exemplo.
P. Alguns analistas dizem que o PT foi vítima do seu próprio erro, ao tirar pessoas da pobreza, mas não formar cidadãos. Como analisa essa crítica?
R. Eu acho que deveríamos ter trabalhado mais a questão da consciência política. O avanço objetivo tinha que ter sido acompanhado de um avanço subjetivo. O avanço material tem quer vir acompanhado de um avanço espiritual. Essas coisas tem que vir juntas para que o processo se consolide. Espiritual não no sentido religioso, mas no sentido ético, de valores. A ética tem que ser uma obsessão de um partido que transforma a vida material das pessoas. Se você dissocia isso as pessoas atribuem o próprio êxito a questões que... Claro que tudo depende do esforço individual também, mas isso tem que vir acompanhado de um processo de formação política.
P. O pilar da crítica feita ao PT é a corrupção. Como enfrentar isso?
"Cabe a um Governo progressista fortalecer todos os mecanismos estatais de combate à corrupção. E ninguém fez isso melhor do que o PT"
R. O que cabia ao Governo fazer? Fortalecer os mecanismos de combate à corrupção. Cabe a um governo progressista fortalecer todos os mecanismos estatais de combate à corrupção. E ninguém fez isso melhor do que o PT. A Polícia Federal nunca esteve tão bem quanto no Governo do PT. O ministério Público Federal idem. O Tribunal de Contas, o Judiciário, a Controladoria Geral da União...Nunca atuaram tanto. Jamais haveria combate à corrupção sem essas medidas. E nunca houve orientação do Governo para parar investigação. Toda a legislação usada na Lava Jato foi aprovada durante os Governos do PT.
Isso é um ponto. Outro ponto: além de fortalecer os mecanismo de combate, você tem que fortalecer as instituições de maneira a que se evite a corrupção. Nesse ponto acho que nós falhamos em não aprovar a reforma política. Porque nós sabíamos, está no nosso plano de Governo, a defesa do financiamento público de campanha. O PT sabe desde sempre que havia uma vulnerabilidade muito grande no sistema ao permitir, e não fomos nós que inventamos a regra, o financiamento privado, mais do que privado, empresarial, das campanhas eleitorais. E isso afetou todo o sistema político, sem exceção.
Quando você permite o financiamento empresarial você cria um ambiente em que as decisões individuais importam. E quando o comportamento individual fala mais que o institucional, você está com um risco elevadíssimo de alguém estar cometendo um erro em seu nome e te tornando vulnerável. A verdade é que se pedia dinheiro no sistema político sem nenhum protocolo. E isso foi se tornando a regra em todos os partidos. E abriu espaço para crimes pequenos e para crimes enormes.
P. Que peso o Lula terá na coordenação do PT enquanto oposição?
R. O Lula vai ser sempre ouvido.
P. Você considera que o Lula ainda é mais um ativo do que um fardo para o partido?
R. Vamos supor que tivesse acontecido o seguinte cenário: acharam uma conta em dólares do Lula e da Marisa num paraíso fiscal. Se fosse algo assim, "tá aqui". Se tivessem apresentado uma prova que tivesse convencido o partido de que realmente houve uma falha, um crime, e que sendo ele cidadão brasileiro teria que responder por aquilo, acho que nós teríamos lamentado, mas teríamos seguido adiante. Mas não foi o que aconteceu. Eu me envolvi pessoalmente com o processo do tríplex e lhe asseguro: ele não se sustenta. Não há prova cabal, como aconteceu com os outros que estão presos. Com eles está lá: conta no exterior, dinheiro na mala, diálogo gravado... Então, sim, ele é um ativo.
Fernando Haddad, excandidato del PT a la presidencia de Brasil, en su casa de São Paulo
Fernando Haddad, excandidato del PT a la presidencia de Brasil, en su casa de São Paulo

P. Qual o campo onde a oposição deve agir?
R. Há dois componentes importantes. Um que é mais amplo, que é o campo da defesa dos direitos civis, que no meu juízo estão ameaçados no Brasil. Estamos vendo aí os direitos indígenas sendo atacados, na contramão do que reza a Constituição Federal. Temos visto questões ambientais muito delicadas sendo questionadas pelo Governo, tratados internacionais assinados pelo Brasil [ameaçados]... As Nações Unidas sendo questionadas em todas suas decisões e orientações, acabamos de sair do pacto de imigração, sendo que somos um país que foi feito por imigrantes. Nós estamos vendo a comunidade LGBTQ sendo ameaçada nas ruas sem que as autoridades emitam nenhum juízo a este respeito. Estamos vendo professores sendo ameaçados de monitoramento. Então são sintomas muito preocupantes.
Há um outro plano de direitos sociais e econômicos. Aí inclui política de valorização do salário mínimo, o destino do nosso patrimônio público, nossas reservas de petróleo, cambiais, nossas estatais, o destino das políticas de promoção da igualdade de renda em um dos países mais desiguais do mundo, direitos trabalhistas, que já passaram por uma primeira onda de reformas liberalizantes e desprotetoras do trabalhador, e se anuncia uma segunda rodada de reformas que colocariam, se aprovadas, o trabalhador em uma situação de maior vulnerabilidade perante o capital. Direitos sociais ligados a serviços públicos, sobretudo saúde e educação, que estão na mira do Governo...
P. O PT é muito cobrado a fazer uma autocrítica com relação aos erros. Você falou da reforma política, há algo mais?
R. Eu faço sempre a mesma consideração. Erramos muito ao não fazer a reforma política, tínhamos que ter tentado fazer, e acho que a condução da política econômica depois de 2012 teve problemas. E a maneira como se pretendeu resolver esses problemas depois da reeleição também foi um equívoco.
"Erramos muito ao não fazer a reforma política, tínhamos que ter tentado fazer, e acho que a condução da política econômica depois de 2012 teve problemas"
P. O PT aparentemente foi surpreendido por uma rede bem estruturada de WhatsApp por parte da campanha de Bolsonaro. Vocês pretendem investir nessa ferramenta de olho em 2022?
R. Fala-se do WhatsApp, mas na verdade essa ferramenta foi acompanhada de três expedientes ilegais [por parte da campanha de Bolsonaro]: o primeiro foi turbinar o aplicativo com caixa 2. O segundo foi usar cadastro de terceiros. E o último foi caluniar os opositores com mentiras. De que eu era dono de Ferrari, tinha relógio de 500.000 reais, que eu era a favor do incesto... Então foram três ilegalidades cometidas.
P. Mas aparentemente a campanha dele tinha uma rede estruturada há mais tempo, e mais experiência no seu uso.
R. Isso sim. Nós poderíamos ter feito. Mas o que de fato alavancou a candidatura dele no final do segundo turno não foi isso. Porque se fosse isso ele já teria avançado previamente. Ele batia sempre no patamar de 18% das intenções de voto. Não passava de 20%. O que fez ele passar este patamar foi, em primeiro lugar, a facada, que levou ele para 26%. E depois disso ele só cresceu com o uso ilegal do WhatsApp.
P. O Ciro Gomes, a quem você chamava de amigo, bateu muito no PT durante a campanha. Retomaram o diálogo?
R. Olha, você retoma o diálogo com quem quer dialogar. As declarações do Ciro têm sido muito duras. Acho que existem episódios que ele descreve que não são dessa maneira. O episódio do PSB, por exemplo. O PSB fez um acordo com o PT, divulgado com transparência: nós apoiávamos o Paulo Câmara em Pernambuco em troca do apoio deles ao Fernando Pimentel em Minas, e da neutralidade no plano nacional. Foi uma construção do PSB. Isso é do jogo democrático.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O presente de Lula e Gleisi para Bolsonaro, por Juan Arias.

Gleisi Hoffmann vai à posse de Nicolás Maduro
Entrevista coletiva de Gleisi Hoffmann, em outubro. Agência Brasil

A ida de Gleisi a Caracas, representando ao PT, abre as portas para quem defende que essa é uma esquerda que ficou atada aos velhos clichês do passado


O ex-presidente Lula, da prisão, e Gleisi Hoffmann, como presidenta do Partido dos Trabalhadores, deram um grande presente a Bolsonaro e à extrema direita brasileira, que acaba de chegar ao poder em boa parte porque milhões de eleitores não queriam que a esquerda voltasse a governar. Nada, de fato, deixará o Governo de Bolsonaro tão feliz como a ida de Gleisi à posse de Nicolás Maduro, que foi abandonado pela grande maioria dos Governos do continente, os quais se negaram a ir festejar o que um editorial deste jornal chamou de “a farsa de Maduro”.
O EL PAÍS, que sempre foi prudente antes de considerar o regime da Venezuela como ditadura, desta vez foi taxativo ao afirmar que o Governo venezuelano submeteu à tortura o seu povo, o qual “se consome em uma tragédia que deveria ser intolerável no século XXI”. A decisão do PT de Lula, que é quem continua mandando no partido, e sem cuja bênção Gleisi não se atreveria a ir prestar homenagem a Maduro, já considerado como ditador por todas as maiores democracias, representa uma triste e trágica tolerância por parte de um partido como o PT.
Trata-se de um partido que sempre foi considerado moderado e democrático na esquerda da América Latina. É verdade que o PT se colocou ao lado do regime venezuelano mesmo quando já soavam os alarmes de que este estaria traindo todos os direitos humanos e pisoteando as liberdades democráticas. Hoje, entretanto, frente ao grito quase unânime inclusive de Governos progressistas que discordam da tragédia venezuelana que está causando fome, exílio e morte, o PT deveria ter aproveitado a ocasião para fazer um exame de consciência e se colocar ao lado dos Governos democráticos que disseram “basta!” à loucura ditatorial de Maduro.
Isso, ainda por cima, num momento em que o PT está sendo apontado pelo novo Governo direitista de Bolsonaro como a causa dos males econômicos e de outras índoles que assolam o Brasil, e por outros como o responsável por ter permitido que a ultradireita chegasse ao poder. O PT, que foi outrora um agente de esperança renovadora com forte sentido social na esquerda democrática da América Latina, encontra-se hoje no papel de fazer oposição a um Governo que já anunciou seu desejo de aniquilá-lo. Sua decisão de novamente dar apoio a Maduro e ao grotesco das últimas eleições venezuelanas é o pior presságio para quem pretende ser o fulcro da oposição à onda autoritária de Bolsonaro. Foi um gol contra que pelo qual poderá acabar pagando caro.
No editorial do EL PAIS se diz que Nicolás Maduro deveria “olhar hoje ao seu redor e sentir a solidão e o isolamento em relação à América Latina e às potências democráticas do mundo”, assim como deveria “agir de acordo com isso, pondo fim à tortura a que tem submetido o seu povo”. A ida de Gleisi a Caracas, representando ao PT, abre as portas para quem defende que essa é uma esquerda que ficou atada aos velhos clichês do passado e inclusive isolada no continente. Seria até mesmo corresponsável pelas atrocidades que estão sendo perpetradas num país martirizado por uma ditadura que não sabe chorar por suas vítimas. Que continua encastelada numa ideologia que causou tantas ou mais atrocidades que a direita no mundo.
A dor das vítimas inocentes não tem cor política. Há momentos em que não é possível não tomar partido, porque fechar os olhos significaria ser cúmplice da morte e dos rios de sofrimento de milhões de inocentes. Gente que acaba sendo sacrificada por ideais que, se um dia foram vistos como libertadores, hoje, na Venezuela, aparecem como verdugos dos mais fracos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

'Bolsonaro tem apoio e vai durar anos', por José Dirceu.

O ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu (PT) afirmou nesta segunda-feira, 12, que o governo de Jair Bolsonaro (PSL) deve durar muito anos, pois tem base popular. "É uma luta de longo prazo, não nos iludamos, não é de curto prazo. É um governo que tem base social, muita força e muito tempo." O petista afirmou que a derrota do partido na última eleição não foi apenas "política, mas ideológica".



José Dirceu em noite de autógrafos, no teatro Tuca, nessa segunda-feira (12/11/2018)
José Dirceu em noite de autógrafos, no teatro Tuca, nessa segunda-feira (12/11/2018)
Foto: SANDRO DE SOUZA/FRAMEPHOTO / Estadão Conteúdo
Dirceu estava no Tuca, o teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), lançando seu livro de memórias. Começou sua palestra com uma autocrítica. "Muitas vezes nós nos desviamos. Temos que ter a coragem de dizer isso e eu tenho." Sua autocrítica se estendeu a práticas petistas no governo. Disse que o partido se distanciou do cotidiano da população nos 13 anos em que esteve no poder. Completou sua crítica às relações da sigla com o combate à corrupção - Dirceu está condenado a 30 anos e 9 meses de prisão na Lava Jato.
Lembrou o uso político que esse combate teve no passado. "Digo isso não porque não tenhamos que combater a corrupção, porque não precisemos rever nossos erros principalmente sobre o sistema de financiamento de campanhas."
Por fim, classificou o momento em que o País passa como uma contrarrevolução. "Uma regressão cultural e política." Para ele, as forças de oposição não devem se perder em debates que as dividem. "Cada um tem de cumprir seu papel. Lá na frente a gente se encontra."

Freixo: “Quem tem movimento de rua é o PSOL e o PT, não o PDT” , por Miguel do Rosário

(Marcelo Freixo/Flickr)

12 de novembro de 2018 : 20h16

Na Época
“A pauta não pode mais ser o Lula Livre”, diz Marcelo Freixo
Deputado eleito pelo PSOL do Rio afirma que soltura do ex-presidente não unifica a esquerda e que é preciso olhar para evangélicos e debate na segurança pública
Decidi procurar o deputado federal eleito Marcelo Freixo, do PSOL, após ler, na última terça-feira, uma entrevista do petista histórico e ex-ministro Gilberto Carvalho ao site da BBC Brasil. Estão lá todos os elementos que revelam a dificuldade que a esquerda terá para virar a página da derrota para Jair Bolsonaro neste ano. Destaco duas frases de Carvalho:
“Então, para nós é muito importante retomar a denúncia de que o Lula foi preso para não ganhar a eleição. Vamos relançar agora a campanha ‘Lula livre'”, disse o ex-ministro, para depois concluir: “Esse antipetismo que surgiu aí, que para mim é uma pena que voa, é um antipetismo baseado na mentira. Mentira de que nós iríamos ‘venezuelizar’ o país, a mentira de ter um kit gay contra família, toda essa multidão de fake news que não permanece”.
Para Freixo, é evidente que o PT ainda tem ativos para seguir relevante na política nacional. Elegeu a maior bancada da Câmara e será o partido com mais governadores do Brasil. Ressalto aqui ainda que seu candidato Fernando Haddad alcançou 47 milhões de votos para presidente. No entanto, restringir o repertório a pedir a soltura de Lula, atacar a operação Lava-Jato e dizer que Bolsonaro se elegeu apenas por causa da guerra suja na internet é não entender o que aconteceu no Brasil em 2018.
O psolista chegará a Brasília no ano que vem após um longo período como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio. Neste ano, foi o segundo mais votado no estado para deputado federal, perdendo para Hélio Negão (PSL), ou Hélio Bolsonaro, que usou no Rio o mesmo número do filho do presidente eleito, Eduardo, parlamentar mais votado de São Paulo. Abaixo alguns trechos da conversa:
Bolsonaro teve apoio maciço entre lideranças e eleitores evangélicos. Por que a esquerda tem dificuldades de entrar nesse segmento?
Não tem como ter um projeto popular se não envolvermos os evangélicos. Eles já são 30% da nossa sociedade. É preciso fazer uma reflexão importante. Nos anos 80, três pilares ajudaram a construir o PT. Sindicatos, universidades e um setor progressista na igreja muito forte que formava a Teologia da Libertação. Hoje, as universidades se fecharam e vivem crise de identidade. Os sindicatos estão mais frágeis com a precarização do trabalho, nem greve no setor privado existe mais. O setor evangélico foi crescendo com uma pauta de costumes muito diferente da teologia da libertação e se consolidou. A esquerda criou uma pauta identitária importante para setores como gays e mulheres, mas sem voz em setores populares.
Em entrevista ao Globo neste ano, Ciro Gomes fez exatamente essa crítica à esquerda…
 Não acho que seja por isso que a esquerda vá ganhar ou perder. Só que, nesse sentido, o Ciro tem alguma razão. Esse tipo de pauta é importante, mas não pode levar a esquerda para um gueto que não dialoga com a população. A esquerda precisa entender que vai precisar fazer uma disputa entre os evangélicos, esse setor não é necessariamente reacionário. Temos que achar lideranças progressistas no meio para debater outros temas. Estou encontrando várias para o PSOL.
Na área da segurança pública, a esquerda também não falha na apresentação de propostas para combater a criminalidade?
Sim, a esquerda errou ao se empenhar apenas nos debates sobre reforma agrária, educação e saúde. Não houve dedicação ao tema segurança pública mesmo com o crescimento da população carcerária e o aumento da violência policial. A esquerda não fez esse movimento e parece que vivemos ainda na década de 80. O mundo tornou-se mais urbano, as contradições das cidades ficaram mais agudas e sequer apresentamos intimidade para falar do tema. Não temos propostas para os 62 mil homicídios por ano do Brasil. Demos para a direita a possibilidade de diálogo com a principal pauta que gera medo nas pessoas. Outra coisa: não enxergamos o policial como um agente trabalhador. E ele é trabalhador, assim como qualquer outro.
Qual deve ser a prioridade da esquerda em 2019?
Essa nova esquerda que vai surgir terá inevitavelmente uma pauta reativa a partir do governo Bolsonaro. Isso vai acontecer naturalmente. Com reforma da previdência ou as mudanças na carteira de trabalho, teremos agenda em sintonia com os movimentos sociais. E aí vamos ter uma unificação do nosso campo como há muito não tínhamos. Isso vai empurrar a esquerda para uma rearrumação. A dificuldade será de fazer a agenda que não é reativa.
Como assim?
Vamos ter que ser propositivos também, mas a pauta não pode ser mais o ‘Lula Livre’. Isso não vai unificar a esquerda. Até porque a frente que tem que se construir hoje é democrática. Mais do que uma frente de esquerda. Tem um setor do PSDB, por exemplo, que se recusa a acompanhar o João Doria e não irá para o colo do Bolsonaro. É nesse ponto que acho que o Ciro Gomes sai fragilizado do processo eleitoral.
Por quê?
Ele sai muito chamuscado pela incapacidade de pensar no país. Olhou apenas para a sua trajetória futura. Enfrentar a hegemonia do PT, como ele quer, não significa deixar o partido de fora de uma resistência ao fascismo do Bolsonaro. Não tem cabimento, o PT elegeu mais deputados que o PSL. Imaginar que o Ciro vai fazer uma oposição com a Marina sem o PT não dialoga com o mundo real. Até porque a Rede só elegeu um deputado. Isso não vai acontecer na realidade das ruas. Quem tem movimento de rua é o PSOL e o PT, não o PDT.
Mas o PSOL do Rio não é muito ‘Zona Sul’ e pouco povo?
Em 2016, de cada dez votos que tive, cinco foram na Zona Norte, três na Zona Oeste e dois na Zona Sul. Neste ano, meu voto repetiu a lógica. Tive 48% de eleitores na Zona Norte, 37% na Oeste e o resto no Centro e Zona Sul. Isso está mudando.
Thiago Prado é editor-adjunto de País de O Globo. Trabalhou na revista Veja (2010-2018) e no jornal O Dia (2006-2010)
Leia mais: https://epoca.globo.com/thiago-prado/a-pauta-nao-pode-mais-ser-lula-livre-diz-marcelo-freixo-23229184

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

E o PT resiste, por Wilson Gomes.

E o PT resiste
O PT espantosamente ressurge da tragédia dos cinco anos do seu Apocalipse e volta ao estágio anterior (Foto: Reprodução)

Resiliência é a propriedade que alguns corpos têm de voltar à forma original depois de terem sido deformados por alguma pressão exercida sobre eles. Você pisa, esmaga, amassa, eles deformam, mas, de um jeito ou de outro, voltam a ficar como eram antes. Resiliência é a capacidade que alguns demonstram de resistir às condições mais adversas e de sobreviver onde outros geralmente sucumbem.
Desde o final da semana passada, começaram a aparecer as primeiras pesquisas da corrida eleitoral que refletem as candidaturas registradas até o momento. E há, naturalmente, muita coisa de que se pode falar sobre a fotografia que elas apresentam. Eu escolho falar do que mais me chamou a atenção em tudo isso: a resiliência da candidatura de Lula e do Partido dos Trabalhadores.
O Datafolha divulgou no dia 23 de agosto mais uma rodada de uma sondagem, cuja série histórica inicia no longínquo ano de 1989, que busca identificar a preferência partidária dos brasileiros. Emergiu do levantamento que, a despeito de tudo por que passou – e por tudo, entenda-se escândalos a não mais poder, conspirações, impeachment, intensa cobertura negativa, prisões, inclusive a prisão de Lula e o agigantamento do antipetismo etc. -, o PT não apenas continua sendo o partido preferido dos brasileiros, mas a simpatia pelo partido voltou a crescer depois da baixa ocorrida durante a crise de 2015 e 2016. O PT é o partido preferido dos brasileiros desde 1989, quando pela primeira vez superou o PMDB. Atingiu o pico de preferências em fevereiro de 2010, com 24% de adesão popular versus 6% do PMDB, em segundo lugar. Mas eis que a predileção pelo PT despencou na aferição de junho de 2015, para apenas 11%. Ano em que também foi a primeira única vez em que o PSDB ocupou o segundo lugar isolado em preferência partidária, com 9%. O ponto mais baixo de preferência partidária do PT viria mais tarde, em 9%, e foi detectado logo depois das eleições de 2016, momento em que muitos analistas, torcedores e analistas-torcedores decretaram (e celebraram) a morte do partido.
Mas eis que agora, às vésperas das eleições de 2018, o PT ressurge como o partido preferido de 24% dos brasileiros e recupera a sua máxima histórica. O PSDB e o MDB dividem o segundo lugar, como os preferidos de apenas 4% dos entrevistados. As demais 32 siglas partidárias brasileiras, somadas, chegam a 5%. O que significa que, pelo menos do ponto de vista da preferência partidária dos brasileiros, o PT espantosamente ressurge da tragédia dos cinco anos do seu Apocalipse e volta ao estágio anterior. Talvez até o supere, mantido o ritmo de recuperação.
A preferência partidária pelo PT é algo que para muita gente deve ser assombroso. Antes de tudo, porque os números demonstram que, a rigor, há realmente apenas uma sigla que os brasileiros reconhecem como significando um partido político. Apesar dos 35 partidos registrados no TSE e apesar de muitos deles terem extrema densidade ideológica, à direita ou à esquerda.
Hoje, 52% dos brasileiros dizem não ter preferência partidária. E, curiosamente, mesmo quando as pessoas se afastam do PT, como registrou o Datafolha em 2015 e 2016, não cresce significativamente a preferência por outros partidos. De fato, neste período, os sem-preferência partidária chegaram a 75%, o que indica que quando as pessoas se afastam do PT se afastam também de qualquer partido. Provavelmente isso também signifique que o sentimento do antipetismo também aumenta o sentimento antipolítica em geral, em vez de gerar preferência por outras agremiações partidárias.
Agora, sugiro pegarmos essa informação para cruzá-las com os resultados das pesquisas eleitorais da semana: a do instituto MDA, a do Ibope e, enfim, o último Datafolha. Na estimulada do MDA, Lula tem 37,3%, o dobro de Jair Bolsonaro, em segundo. Na estimulada do Ibope, os dados são os mesmos: Lula tem 37%, Bolsonaro, 18%. Na estimulada do Datafolha, Lula tem 39% e Bolsonaro 29%. Notem, além disso, que os eleitores de Lula são os mais convictos:  só 18% dizem que podem mudar o voto, segundo o MDA, enquanto no caso dos eleitores de Alckmin, por exemplo, o percentual dos que “estão pra jogo” supera 60%. E, o que é mais curioso, segundo o Datafolha, 45% dos eleitores entre 16 e 24 anos de idade dizem que votarão em Lula (contra 24% do segundo preferido). Lula é, então, de longe, o mais forte candidato entre os meninos que não tinham idade quando Lula foi presidente, para lembrar dele, que cresceram durante o massacre público do PT e de Lula e que, não obstante isso, preferem-no a qualquer outro.
Não há como certeza disso sem ir a campo pesquisar, mas provavelmente a recuperação do PT e de Lula pode não estar acontecendo apesar da cobertura negativa e das astúcias da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal, que claramente manobram para enterrar politicamente o partido e o seu líder mais importante. Talvez esteja acontecendo justamente por causa disso. Acho pouco provável, por exemplo, que os que preferiam o PT como partido político até 2012 estejam voltando para casa depois do terrível quinquênio de lamaçais e furacões que complicou a vida do partido. Há certamente mais ex-petistas nas falanges antipetistas do que a filosofia da senadora Hoffmann consegue imaginar. Assim, me parece mais razoável supor que sejam novos simpatizantes se juntando à tripulação. Por que o fazem, não sei, mas tendo a pensar que, para muita gente, o cerco a Lula, e as tramas e os jeitinhos envolvidos neles, parecem já ter há muito superado o limite de uma divergência justa e de um constrangimento limpo e leal. Não sei, mas desconfio que, a este ponto, o morismo & assemelhados, com seus truques e as suas ações “ad hoc” e “ad hominem”, estejam paradoxalmente jogando água no moinho do Partido dos Trabalhadores.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

PT: construindo uma nova derrota?, por Aldo Fornazieri.




PT: construindo uma nova derrota?
por Aldo Fornazieri
O PT vem colhendo derrotas sucessivas desde o início de 2015. Erros de avaliação, imobilismo e falta de comando foram os principais móveis dessa desditosa caminhada. A rigor, os sinais de perda de combatividade e virtude já se verificavam nas eleições de 2014. Na reta final do embate entre Dilma e Aécio foi a mobilização de setores da sociedade civil, da intelectualidade e de petistas afastados e desgostosos que garantiu a vitória ante a ameaça do triunfo do tucano.
Nas andanças pelas sendas espinhosas das derrotas o mais duro revés foi ter sido o PT apeado do poder pelo golpe do impeachment. A segunda vicissitude duríssima, que se equivale à primeira, consiste em ver Lula preso, com forte tendência de ficar fora do pleito de 2018. No meio desses dois tormentos, o devastador resultado das eleições municipais de 2016, que reduziu praticamente pela metade o número de prefeituras comandadas pelo partido. Se o PT não havia respondido de forma satisfatória ao longo de todo o processo do golpe-impeachment, o mesmo aconteceu durante via crucis judicial de Lula. A direção pareceu acreditar mais nos juízes e nos embates advocatícios do que na mobilização social.  
Acomodado às sombras do poder nos anos de bonança, adoentado pelo burocratismo, comandado por direções fracas nas últimas gestões, o PT foi perdendo o vigor da luta e as virtudes do combate dos tempos de ascensão, ao mesmo tempo em que foi perdendo a capacidade de formulação e enfraquecendo sua competência para ler corretamente as conjunturas e de deduzir ações eficazes a partir dessas leituras.
O PT dos últimos tempos está longe de ser o PT dos comandos de Lula, de José Dirceu e de José Genoino. Naqueles tempos, o partido tinha unidade de comando, mesmo sendo uma agremiação de formação plural. Já em 2014 Lula fez várias admoestações sobre a necessidade de o PT mudar, se renovar, se revigorar. A rigor, com a atual direção, ocorre o mesmo que ocorria durante o movimento pela derrubada de Dilma: os dirigentes são generais sem exército e os militantes são um exército sem generais.
A partir de uma tática correta - a de manter a candidatura Lula - a direção do PT vem dando sinais, nas últimas semanas, de que está disposta a construir uma nova derrota. A presidente do partido, Gleisi Hoffmann, vem se especializando em dar declarações politicamente inconvenientes. O seu maior feito nesta arte consistiu em emitir uma nota em defesa do mandato de Aécio Neves quando o STF o havia suspendido.
Agora, declarou que o nome de Ciro Gomes não passa no PT "nem com reza brava". Declaração desnecessária e inconveniente. Rendeu-lhe uma retribuição de Ciro dizendo que sente pena dela. Ademais, a declaração derruba pontes num momento em que é preciso agregar as forças progressistas para enfrentar a direita, o conservadorismo e o neofascismo. Mas parece que Gleisi e outros dirigentes do PT estão dispostos a empurrar forças para o lado do inimigo.
A partir da declaração de Gleisi as redes sociais foram tomadas por uma onda de sectarismo de setores petistas contra Ciro. Engraçado que estes setores se incomodam com Ciro e não se iraram com Michel Temer, repetido duas vezes como vice de Dilma. Agora, tomados pela síndrome da traição, adquirida com Temer e sua quadrilha, já antecipam uma suposta traição de Ciro. Não se pode negar a Ciro o direito de fazer o que Lula fez: tornar-se palatável às elites (Carta ao Povo Brasileiro) e encaminhar uma reforma da Previdência, entre outras coisas. Um eventual governo Ciro será conciliador como foram os governos petistas e como será um eventual novo governo do PT. Quem não concorda com este caminho precisa, por coerência, votar em Guilherme Boulos.
Gleisi e os setores sectários do PT deveriam aprender com Boulos e Manuela: mesmo criticados inúmeras vezes por petistas, colocaram-se na linha de frente na solidariedade a Lula e na defesa do direito de ele ser candidato. Boulos, inclusive, convenceu a maior parte do PSol, partido recorrentemente atacado por petistas, a defender Lula. A liderança política, além da coragem, precisa ter autocontrole, não deixar se dominar pelas emoções próprias descurados das consequências políticas que eles proporcionam. Dirigentes não podem jogar palavras ao vento sem pressupor que elas não geram consequências.
Parece que o PT não consegue se curar do vício da arrogância - mal adquirido quando o partido estava no poder. O PT quer a solidariedade de todos, mas se mostra pouco propenso a ser solidário com os outros; quer a compreensão de todos e se mostra pouco compreensivo com os erros e com os acertos dos outros. Sua arrogância o leva para o unilateralismo e para o isolamento. Pensa ser a encarnação de uma verdade superior e não aceita críticas. Vê-se portador de um destino manifesto e não consegue aceitar a ideia de que boa parte da crise que está aí se deve aos seus erros. Foge de sua responsabilidade.
Aqui é preciso registrar duas coisas: o PT tem um imenso capital político e social acumulado por mais de três décadas de lutas. Os dirigentes do partido e seus setores sectários não têm o direito de destruir esse capital, pois ele pertence ao povo. Da mesma forma em que foi erguido, pode ruir se não houver virtude e competência para comandá-lo. A virtude combativa e a boa fortuna podem estar se deslocando para outros pontos e encarnar-se em outros partidos e outros líderes. Sem as virtudes e a capacidade de comando de outrora, a direção do PT não consegue mais manter a fidelidade daqueles tempos. Em que pese toda a mobilização de vontades em torno de Lula, o fato é que a direção partidária suscita muitas desconfianças.
Da tática correta à estratégia da ilusão
Gleisi e outros dirigentes vêm declarando que Lula sairá da prisão para a presidência da República. De três uma: ou se acredita que o Judiciário libertará Lula, algo inverossímil até o momento; ou se acredita que o PT tem força de mobilização capaz de libertá-lo, coisa que não está sendo vista; ou se acredita que Lula é um novo Daniel, que será salvo na cova dos leões pelo Anjo do Senhor. Admitindo-se a hipótese de que Lula seja liberto nesta semana pelo STF, haverá pela frente a enorme encrenca da viabilização legal de sua candidatura.
Dizer que Lula sairá da cadeia para a presidência da República cria, na militância, a crença de uma vitória sagrada. Criaram-se crenças em torno do "não passarão", do "nenhum direito a menos" etc., e tudo  ruiu. A condução errada do partido vai gerando a despolitização de uma militância ressentida que vai assumindo a tese igualmente despolitizada do "Lula ou nada".
Assim, da tática correta da manutenção da candidatura Lula, dirigentes petistas parecem estar construindo a estratégia da ilusão. O que fazem com isso? Correm todos para o muro das lamentações e choram o infortúnio de Lula, fazem a exegese de seu sofrimento. Enquanto isso a política real continua correndo e o PT bloqueia a sua própria tática, se ausenta do debate eleitoral e programático e não oferece uma perspectiva de poder. A sua perspectiva está encarcerada em Curitiba, exilada no  silêncio e na dúvida.
É um direito de qualquer partido, que tenha condições para tal, querer exercer a hegemonia de um campo político determinado, dirigindo-o, agregando-o, ampliando-o e reforçando-o. Mas hegemonia implica concessões aos aliados, capacidade persuasiva de convencer esse campo pela justeza das propostas, da distribuição do poder e da capacidade e virtude de comando.
Hegemonia é diferente do hegemonismo. Este significa a tentativa de imposição pela força real ou pressuposta e/ou pela suposição de uma superioridade qualquer. Normalmente, o hegemonismo é exercido por forças políticas (e militares) que alcançaram o poder em seus patamares mais altos. Quando o hegemonismo se manifesta em um Império, Estado ou partido é um sinal de declínio e decadência. Tais forças não conseguem mais manter as lealdades pela evidência de sua força própria e pela justeza de suas propostas e de seu comando.
O mundo partidário brasileiro, ou o que resta dele, caminha para uma redefinição de campos e de linhas de força. À esquerda do PT, parte do que era hegemonizado por ele se desgarrou, como é o caso do PCdoB e, parte, busca constituir-se como uma força própria, que é o PSol. Outros parceiros do PT, o PSB e o PDT, também buscam caminhos próprios. Os principais aliados do PT em seus governos - o PMDB e partidos do centrão - foram para o golpe. Se Lula puder concorrer e vencer, o PT poderá ganhar tempo para se reconstituir, buscar um prumo, lembrando sempre que o poder torna arrogantes forças pouco  virtuosas, degradando-as. Se Lula não concorrer, o PT será submetido a poderosas forças centrífugas internas e externas e terá que enfrentar a sua própria verdade - algo que não fez até agora.
Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Eu não posso brigar com a cadeia, nem me render; vou ler, estudar e fazer política, diz Dirceu

Eu não posso brigar com a cadeia, nem me render; vou ler, estudar e fazer política, diz Dirceu

Ex-ministro revela rotina do cárcere, da faxina com Eduardo Cunha à conversa com PalocciRelated image

Folha Como o senhor se sente hoje, prestes a ser preso de novo?
Dirceu - O país vive uma situação de insegurança e instabilidade jurídica, de violação dos direitos e garantias individuais. O aparato judicial policial se transformou em polícia política.
Como a minha vida é o PT e o projeto que o Lula lidera, eu tenho que me preparar para continuar fazendo política. Eu não posso me render ao fato de que vou ser preso.
O senhor está com 72 anos e foi condenado a 41 anos de prisão. Estamos falando de um regime fechado de sete anos.
É. E eles acabaram com a progressão penal. Você só pode ser beneficiado se reparar o dano que dizem ter causado. E como, se todos os seus bens estão bloqueados? Acabaram com o indulto [para crimes de colarinho branco]. Vamos cumprir a pena toda.
Então o senhor pode entrar agora na cadeia para não sair nunca mais?
É uma hipótese.
E como se sente?
Não muda nada. Preso ou aqui fora, vou fazer tudo o que eu fazia: ler, estudar e fazer política.Eu tenho que cumprir a pena. Eu não posso brigar com a cadeia. O preso que briga com a cadeia cai em depressão, começa a tomar remédio.
Os presos antigos, de forma jocosa mas a sério, quando veem um de nós não aceitando... porque é duro perder a liberdade. Quer dizer, não perde porque não perde a liberdade de criar, de pensar, e também não perde o afeto, o amor. Milhões de pessoas vivem numa condição subumana por causa da pobreza, da exploração. E criam, né? Fazem música, arte, criam os filhos, batalham.
Mas eles [presos antigos] dizem [para quem chega na cadeia]: "Já chorou bastante? Já rezou? Já chamou mamãe? Já leu a Bíblia? Então agora, cidadão, começa a trabalhar! Arruma emprego aqui dentro pra fazer remissão [da pena]. Estuda, viu?
Outra coisa: arruma a tua cela. Transforma aquilo num mocozinho seu, num apartamentinho, põe fotografia da tua filha, põe a bandeira do teu time. Limpa ela direitinho, melhora o que você come. Joga futebol. Porque você vai ficar aqui quatro anos. [Aumentando o tom de voz]. Tá entendendo o que eu tô te falando? Ou você quer ficar igual àqueles lá? [referindo-se a presos deprimidos].
Aquilo ali é três Frontais [remédio para ansiedade] por dia. Olha como ele já tá andando durinho. É o crack em parte que queimou a cabeça dele. Mas o resto é a depressão.
O senhor ouviu esses conselhos quando entrou no sistema penitenciário?
Ouvi. Eu cheguei muito deprimido no CMP [Complexo Médico Penal de Pinhais, em Curitiba]. A minha filha estava denunciada —depois ela foi inocentada—, o meu irmão estava preso.
Eu tomava indutor do sono. Mas logo parei. Fui buscar emprego na biblioteca. Li cem livros no um ano e nove meses em que fiquei lá.
Outros presos vão trabalhar na lavanderia, consertam roupa, outros vão para a censura para ver se os Sedex [enviados pelas famílias] estão dentro da norma, orientados por um agente.
E eu virei, né? Todo sábado e domingo, quando fazíamos almoços coletivos, eu também escrevia as minhas memórias, na cela, à mão.
E como era a convivência com Eduardo Cunha?
Normal. Você está preso. Convive com [condenados pela lei] Maria da Penha, com um pedófilo condenado a cem anos de prisão. Ele é o chefe de um setor. É uma pessoa normal, quieta.
A primeira reação é "não vou falar nunca com ele". Depois de três anos, minha cara, não adianta. Tem que falar.
Lá tá todo mundo na mesma m., entendeu? Há uma solidariedade. "Vamos evitar que o velhinho pegue sarna, vamos limpar a cela dele, vamos levar ele para tomar banho".
Se contamina uma cela, pode contaminar todas as 32 celas da galeria, com sarna, com pulga. Temos que cuidar para que todo mundo ferva a água.
E o Eduardo Cunha?
Ele é muito disciplinado. Dedica uma parte do tempo para ler a Bíblia, frequenta o culto. Conhece a Bíblia profundamente. E em outra parte do tempo se dedica a ler os processos.
É uma convivência normal. Vamos limpar os banheiros? Vamos. Vamos lavar os corrimões? Vamos.
Tem que limpar o xadrez todos os dias, lavar as portas e a galeria, para evitar doenças. Nós ficamos na sexta galeria, [que abriga] os presos da Lava Jato, Maria da Penha, advogados, empresários, alguns condenados por crimes sexuais. São 60 presos, separados dos 700 [do complexo penal].
Falavam de política?
Falávamos. Sempre tem uma hora em que um preso joga xadrez, dominó, o outro toca música, ou está acabando de almoçar, voltando do trabalho. Nessas horas você sempre conversa.
E todo mundo é inocente, né? O cara matou a avó, fritou o gato dela, comeu. Mas ele começa a conversar com você e a reclamar que é inocente.
Ficam mais tempo trancados ou circulando?
Ficamos na tranca quando tem rebelião no sistema porque se tem em uma cadeia pode ter na outra. No dia a dia, levantamos às 6h30. Os carros chegam entregando o café da manhã. São muito barulhentos. Todo mundo acorda. Aí sai da cela. Quem tem que trabalhar vai trabalhar.
Às 11h30, chega o almoço. Tudo lá é simples, mas honesto. A comida é simples —de pensão, de quartel—, mas honesta. A roupa de cama é simples, mas honesta. Às 13h30, alguns presos vão ao médico, outros ao parlatório [falar com os advogados]. Todos podem ir na biblioteca retirar um livro.
Desce no pátio duas horas por dia para jogar futebol e tomar sol. E volta. Desce uma vez por semana para ver a família. E volta. Por três, quatro, dez anos, você passa a maior parte do tempo numa galeria de 120 m por 30 m com várias celas. Essa é a realidade do preso.
E as visitas da família?
Você não pode receber a tua família mal. A gente briga muito com os outros presos: "Tua família não pode te ver assim. Fique melhor. Se arruma. Levante o ânimo. Imagine como vai ficar a tua mãe".
E, se a família chega chorando, o preso volta da visita, deita na cama e cai. É duro ver a família indo embora. É duro. Muitos choram.
O senhor conviveu com Antonio Palocci?
Estive com ele uma só vez, na Polícia Federal. Foi quando ele me disse —ele usou esta expressão: "o Leo [Pinheiro, ex-executivo da OAS] vai salgar o Lula [o empreiteiro revelou à Justiça que pagou a reforma do tríplex do petista]".
E me disse que ele mesmo ia relatar, em depoimento, como era o caixa dois no Brasil. Deu a entender que ia falar do sistema bancário, eu entendi que ia falar da TV Globo. E fiquei apreensivo. Voltei e conversei com o Eduardo [Cunha] e com o [João] Vaccari [ex-tesoureiro do PT que está preso]: "Tô achando que o Palocci vai fazer delação".
Os dois ficaram indignados comigo. Principalmente o Eduardo, que disse: "Eu convivi com ele. Em hipótese nenhuma". Eu deixei para lá.
É verdade que o marqueteiro João Santana contou para o senhor que delataria?
O que fizeram com a Mônica [Moura], mulher dele, foi terror psicológico. Colocaram ela na triagem de Piraquara, uma das piores penitenciárias do Paraná, totalmente dominada pelo crime.
Colocar na triagem significa o seguinte: te colocam numa cela pequena, sem luz, sem nada. Te dão a comida pela bocuda. Sai para tomar banho dez minutos e volta. Em dois dias você faz delação, né?
E isso não é uma tortura psicológica?
Ele falou para mim depois, um pouco como desabafo, angustiado: "Não tenho condição". Preocupado, né? Porque as pessoas têm vergonha de fazer delação.
Eu falei: "João Santana, da minha parte você vai continuar tendo o meu respeito. Essa é uma questão de vocês". Já os empresários têm as razões deles, salvar a empresa, o patrimônio, os empregos.
O senhor também conviveu com o Marcelo Odebrecht.
Ele ficava sozinho numa cela. É afável, educado. Mas tem uma vida muito própria. Faz ginástica oito, dez horas por dia. Então não convive, né? Todo mundo sabia que ele era assim e todo mundo respeitava.
Ele se comportou muito bem. Até poderia ser de maneira diferente, pelo que representava. Mas ali é todo mundo igual. Preso não aceita [comportamento diferente]. Quando você entra no sistema, tem que pôr na cabeça o seguinte: "Eu sou preso. Aqui eu sou igual a todo mundo". Os presos te respeitam se eles veem que você é um deles.
Como vê a perspectiva de Lula ficar preso sozinho? Ele suporta o isolamento?
Como o tratamento é respeitoso e ele recebe advogados todos os dias, e a família uma vez por semana, vai se adaptando.
O pior para ele já aconteceu: a indignidade de ser condenado e preso injustamente. Depois disso, tem que se adaptar às condições e transformar elas em uma arma para você. Esse é o pensamento. Mas eu acho que raramente um ser humano suporta ficar um ano num banheiro e quarto vendo três vezes por dia alguém trazer comida para ele.
Agora surgiu a ideia de o Lula ir para um quartel. Seria pior ainda. Porque eles não querem ninguém lá. A função do quartel não é ser presídio. Ele vai ficar mais isolado.
E ele não consegue?
Eu acho que ele não deve. É uma questão política. Ele deve conviver com outras pessoas, pensar o país, pensar no que está acontecendo. Ele não está proibido de fazer política só porque está preso.
Se o Lula vier para a sexta galeria [unidade do complexo penal em que Dirceu ficou detido], verá que é uma convivência normal. É muito raro ter um incidente. E na prisão você conversa, aprende muita coisa. As pessoas têm muito o que ensinar.
Às vezes você acredita no mito que criam sobre você. Que você é especial, que teve uma vida, no meu caso, que dá até um filme. Mas você começa a conversar com um preso comum, e descobre que é fantástica a vida de cada um lá.
O que o senhor sentiu quando viu Lula sendo preso?
Eu sou muito frio para essas questões, sabe? Acho que ele fez o que tinha que fazer, aquela resistência simbólica foi necessária. E nós ganhamos essa batalha política e midiática.
Mas nada mexeu com o senhor?
Eu fiz da minha vida praticamente o Lula. E me mantive leal a ele. Não faltaram oportunidades, amigos e companheiros que me empurravam para romper com ele, em vários episódios. Mas eu sempre achei que a obra do Lula, a liderança dele, o que ele fez pelo país, compensava qualquer outra coisa. Então eu não dei importância. Depois de uma semana, já não lembrava.
Em 2011, eu estava num barco alugado, pescando, e recebi um telefonema com a informação de que o Lula estava com câncer. Eu chorei. Me deu a sensação de que poderia ser o começo do fim da vida do Lula. Mas agora, como já passei três vezes pela prisão, é diferente.
Você tem que lutar por todos os meios, legais e políticos, para ser solto. Mas sempre tenho a ideia de que, se souber levar a prisão, ela pode se transformar numa melhora para você mesmo. De estudo, de pesquisa, de reflexão.
Em algum momento dessas reflexões na prisão o senhor concluiu que errou e cometeu crimes?
Eu não cometi crimes. Não há nenhuma prova, nenhum empresário ou diretor afirmando que eu pedi alguma coisa na Petrobras. O que eu errei? Na minha relação com [o lobista e delator] Milton Pascowitch. Eu comprei um imóvel, financiei, paguei a entrada.
Ele reformou o imóvel. Eu não paguei. Foi um erro meu. Eu não poderia ter estabelecido essa relação.
Era um empréstimo não declarado. Que virou propina. Foi uma relação indevida. Admito. Mas não criminosa.
O senhor já disse que a militância é solidária mas que vocês cometeram muitos erros.
Eu estava falando de mim. Eu sempre digo: eu tenho apoio da quase absoluta maioria da militância do PT porque ela é generosa. E essa solidariedade não é porque todos concordam com minhas ideias nem pelo que fiz na minha vida profissional recente. É pelo que eu fiz pelo PT, pelo Brasil, pelo Lula. É pelo que eu represento.
Querer ser consultor e ganhar dinheiro foi um erro?
Eu não queria ganhar dinheiro. Eu queria sustentar a minha defesa e a minha vida política. Eu não tenho patrimônio. A casa da minha mãe eu tinha comprado antes, o apartamento do meu irmão foi financiado.
Eu tenho R$ 2.000 na minha conta. É só ver como eu vivo, no apartamento da minha sogra. É só perguntar para o prédio sobre o IPTU. Vai na escola da minha filha perguntar sobre a mensalidade.
Quais foram os erros que o senhor cometeu então?
Eu não deveria ter feito consultoria. Ela cria um campo nebuloso entre os meus interesses como consultor e o interesse público. Eu ficava me lamentando: "Por que eu fui fazer essa coisa [consultoria] com a Engevix [pela qual foi condenado]?"
O Vaccari falava: "Para com isso, Zé Dirceu. Você não foi condenado por isso". Depois fui condenado em outro processo sem ter nada a ver com nada. E o Vaccari falou: "Tá vendo?".
Então eu às vezes fico dividido. E concluo que na verdade eu fui condenado por razões políticas. Eu não fui condenado pelas consultorias que prestei.
Lula fez um governo aprovado por 83% dos brasileiros. Por outro lado, desvios de milhões foram comprovados. O fato de vocês terem financiado campanhas com dinheiro de estatais e caixa dois não seria razão para um arrependimento, uma autocrítica?
Nós temos que denunciar o que fizeram conosco, e não foi por causa de nossos erros. O legado do Lula, o nascente estado de bem-estar social que ele consolidou, está sendo todo desmontado. Estão desfazendo a era Lula como quiseram desfazer a era Getúlio.
Eu faço o balanço histórico: estamos do lado certo e o saldo de tudo o que fizemos é fantástico. Eu vou dizer uma coisa para você: a Igreja Católica Apostólica Romana tem uma história de crimes contra a humanidade.
Não vou nem falar das Cruzadas ou da Inquisição. Se eu for olhar para ela, vou mandar prender todos os padres e bispos porque a pedofilia é generalizada. Ou não é? Mas é a Igreja Católica Apostólica Romana. A vida é assim. O mundo é assim.
O PT cometeu erros? Muitos. Mas tem uma coisa: o lado do PT na história, o nosso lado, é o lado do povo, do Brasil.
Não tinha outro jeito de financiar campanha?
Tem: o autofinanciamento com apoio popular. Mas, nas condições que estávamos enfrentando, era impossível fazermos isso. Porque a dinâmica da vida política, do sistema, é essa. A solução seria financiamento público com lista [partidária]. O PT lutou, o Lula lutou também por isso. Mas ninguém quis fazer.
Alguma vez o senhor imaginou que a história terminaria com o senhor e o Lula presos?
A tentativa de derrubar o nosso governo eu sempre imaginei. Toda vez que no Brasil há um crescimento muito grande das forças políticas sociais, populares, de esquerda, nacionalistas, progressistas, democráticas, isso acontece.
De 1946 a 1964, o Brasil viveu sob expectativas de golpe contra governos trabalhistas, getulistas. O Juscelino [Kubitschek] só tomou posse porque o [marechal Henrique Teixeira] Lott deu o contragolpe.
Só teve a posse do Jango porque [Leonel] Brizola se levantou em armas. Aliás, só derrotamos tentativas de golpe quando a gente tem armas. Estou falando sério.
Mas essa seria uma possibilidade?
A solução hoje é igualzinha à que eles fizeram. Desestabilizaram o governo Dilma. Impediram que ela aprovasse uma pauta de ajustes. Colocaram milhões de pessoas na rua e buscaram uma solução legal. Nós devemos fazer a mesma coisa.
E têm força para isso?
Temos. Pode demorar dois, quatro, seis anos, mas temos. Você não desmonta a estrutura de bem-estar social que o país tem sem consequências. As forças políticas e sociais vão ganhando consciência. Vão surgindo novas lideranças, novos movimentos.
O país vai ter um longo ciclo de lutas. Mas primeiro é ganhar a eleição. No segundo turno, se as esquerdas se unirem, teremos força para isso.
Quem o senhor coloca como esquerda?
Os candidatos do PSOL, do PC do B, o PT, o PDT e o PSB.
O senhor então inclui o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, hoje no PSB?
É um candidato que pode ser cooptado pela direita. Mas pode ser que não. É uma incógnita.
O senhor votaria nele no segundo turno contra contra alguém da direita?
Bem, essa hipótese... vamos esperar. O meu candidato é o Lula. Nós temos que lutar pela liberdade dele, mantê-lo como candidato e registrá-lo em agosto.
Se não fizermos isso, será um haraquiri politico. Nós dividiremos o PT em quatro ou cinco facções. Nós temos que manter o partido unido. Daqui a 60 dias, o Lula vai tomar a decisão do que fazer, consultando a executiva, os deputados.
Como ele fará uma consulta de dentro da prisão?
Da prisão você consulta quem quiser. Lula vai transferir de 14% a 18% de votos para o candidato que ele apoiar.
De dentro da prisão?
É a coisa mais fácil que tem. É só ele falar o que ele pensa.
Mas a gente sabe o trabalho que deu para ele transferir votos em outras eleições. Ele aparecia na TV todos os dias, viajava pelo país.
Sabe qual é a diferença de 2014? É que o lado de lá tem a TV Globo, o aparato judicial militar e o poder econômico. Mas está mais desorganizado e enfraquecido do que nós.
Eu tenho confiança de que o fio da história do Brasil não é o fio das forças da direita. O fio da história do Brasil é o fio que nós representamos.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Feitiço do tempo, por Xico Sá.



Lula em ato de recebimento de novos filiados do PT no Distrito Federal, em dezembro.
Lula em ato de recebimento de novos filiados do PT no Distrito Federal, em dezembro.





“Uma cerveja antes do almoço é muito bom/ pra ficar pensando melhor.” Chico Science na vitrola, na primeira sextança de Oxalá, e um mote pra começo de 2018, à beira de uma churrasqueira em Jandira, novo Oeste da metrópole, arredores de São Paulo de Piratininga, podemos começar os trabalhos?
Prefiro não, estimado amigo Bartleby. Para que pressa, leitorxs? Muita marcha lenta nessa hora. “Pianinho, pianinho”, pede o Benito de Paula. Slow-food, fumacê, maresia, uma vasta rede cearense à sombra dos buritis, para que pressa se a inevitável Velha da Foice nos espera em alguma esquina do acaso? Tira esse pé do acelerador, menino, agita apenas as partículas do desejo de um lento papai-mamãe na siesta — a vagarosa e bela luta de um amor sem data de validade.
Sou da época em que o ano só começava mesmo depois das cinzas dos pecados carnavalescos. Sigo, anacrônico e solitário, como um homem dessa ordem, desse tempo.
Sim, caríssimo Humberto Werneck, colega de dores crônicas e agudas, o veraneio está com os dias contados. O ano está começando cada vez mais cedo, antes do último pipoco colorido do foguetório de Copacabana. Os botões da ansiedade fumegam nos dedos dessa gente a queimar falanges, falanginhas e falangetas.
Mal arrotamos a uva passa e a sensação térmica é que Jesus Cristo, na demarcação do calendário, já vive os mistérios dos 40 dias no deserto. Querem fazer da quaresma quase um CarNatal, uma Micaralho — a micareta da cidade pernambucana de Paudalho —, algo muito fora de época. Mesmo. Passa o bacalhau, passa o ovo de Páscoa...
Permitam-me, avexados de todas as ordens, bom mesmo era quando, a essa altura da peleja, ainda estávamos remoendo as dúvidas do século XIX: Capitu traiu ou não o Bentinho? Um mistério literário bem melhor que a condenação de véspera de um crime que poderia ter acontecido, mas não parece, nem de longe, o caso: o rolo do tríplex. Vou acabar me juntando aos sem-teto e tornando útil esse imóvel. Maldito 2018 que começa a decidir as eleições pela turma da toga, não pelas urnas.
E ainda estamos em janeiro. Ah essa pressa sem veraneio, amigo Werneck, não leva a nada. Repare no presidente do tal Mercado, que humilhação, teve que cumprir a agenda das grandes sacanagens políticas com uma sonda para urinar. Imagina tomar uma decisão que ferra a maioria dos brasileiros -ah, as reformas!-, enquanto solta um xixizinho dolorido ladeira abaixo. Que cena, amigos. Sou do tempo em que até o golpismo se dava direito a um recesso.
Vamos tirar férias da política. Eu tento. Do futebol, consigo, só vejo pelada que não envolva a roubalheira da CBF/Del Nero, inimputável aos olhos das autoridades locais. Reza a lenda, não tão lenda assim, que a PF, nos seus encontros turísticos, sempre usufruiu de colaborações da CBF de Ricardo Teixeira e seus bons companheiros. Você já viu, amigo, a PF investindo meio dia de serviço a sério contra a bandalheira futebolística? Gostaria de ser desmentido.
Só me resta chupar — fazer o quê? — o frio chicabon da nostalgia e lembrar do tempo em que o ano só começava depois da folia de Momo. Muita gente reclamava. A queixa antropológica: que país atrasado, que preguiça ibérica, que falta de modernidade. Eu diria que maravilha. Ridícula essa pressa. Vede quanta desgraça antecipada, quanta treta, quanta sede de vingança, quanto ressentimento histórico. E o bando de Brasília, com ou sem sonda, despejando os dejetos nas nossas cabeças, como na velha imagem dos estádios.
Relaxa, cronista, mal os estaduais começaram e você já está nesse stress. É ano de Copa, do samba-exaltação da pátria em chuteiras, se liga no pagode russo, malandragem.
Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de Os machões dançaram -crônicas de amor & sexo em tempo de homens vacilões (editora Record), entre outros livros.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A confirmação da estratégia prevista no Xadrez de Lula, por Luis Nassif.

A respeito do artigo “O Xadrez de Lula”, converso com um dos conselheiros não-petistas de Lula que confirma que a última avaliação feita a Lula por Marcos Coimbra, da Vox Populi, bate integralmente com o cenário antecipado no Xadrez.
O raciocínio é o seguinte.
A última pesquisa do Vox Populi apresentou os seguintes resultados:
1. Na votação estimulada (em que os nomes são informados ao pesquisado) Lula aparece em primeiro com 43% e Bolsonaro em segundo com 17%.
2. Na pergunta sobre simpatia por algum partido político:
  • 75% não tem por nenhum
  • 1% pelo PSDB
  • 2% pelo PMDB
  • 17% pelo PT
No pior momento, na saída de Dilma Rousseff, o PT tinha 12%; no melhor momento, 29%.
3. Na questão: em quem não votaria de jeito nenhum,
  • Lula: 39%
  • Alckmin:  52%
  • Bolsonaro: 75%
33% têm ódio visceral a Lula, dos quais 10% provavelmente em São Paulo.
4. Na questão: se concordam com a condenação imposta por Sérgio Moro a Lula, 52% concordam, contra 45% que não concordam.
O dado é relevante porque, antes de perguntar a opinião do entrevistado, ele é informado sobre as acusações contra Lula e a condenação. Mesmo assim, 60% consideram Lula o melhor presidente da história.
A partir daí, chega-se a duas conclusões:
Conclusão 1 - Se Lula tem 43% das preferências e o PT tem 17% de simpatia, significa que 60% do eleitorado potencial de Lula é composto por não-petistas. Logo, o discurso de campanha terá que focar prioritariamente esse contingente.
Conclusão 2 - Se 80% dos 17% De simpatizantes votarem em deputados do PT, a bancada poderá ficar entre 55 e 60 deputados. Poderá ser a maior bancada, pela primeira vez, mas ainda assim sem condições de assegurar, sozinha, a governabilidade. Daí a necessidade primordial de uma nova política de alianças.
Essas conclusões foram apresentadas a Lula na última reunião que organizou para discutir as estratégias de campanha.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Bolsa Família distribuiu renda, mas não reduziu abismo social, diz Lena Lavinas.

 A professora da UFRJ Lena Lavinas
A política social inaugurada com o Bolsa Família garantiu que brasileiros há gerações à margem do mercado de consumo adquirissem a primeira televisão, a primeira geladeira. Ela falhou, contudo, em promover o acesso universal a direitos básicos previstos na Constituição - educação, saúde, saneamento - e em equalizar oportunidades, que ainda são muito menores para as famílias mais pobres.
Com o sucateamento dos serviços públicos, ressalta a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Lena Lavinas, cresce o "abismo social" que divide as classes populares e médias - os padrões quase opostos de qualidade de vida que separam quem tem dinheiro para pagar por serviços que deveriam ser prestados pelo Estado de quem não tem.
Pesquisadora do impacto de políticas públicas e sociais, a economista discute esses temas no recém-lançado The Takeover of Social Policy by Financialization - The Brazilian Paradox (A Tomada da Política Social pela Financeirização - o Paradoxo Brasileiro, em tradução livre). Publicada nos Estados Unidos pela editora Palgrave Macmillan, a obra chega ao Brasil em 2018 pela editora Todavia.
Lavinas é graduada pela universidade francesa Sorbonne e fez mestrado e doutorado na mesma instituição. Foi professora visitante da Universidade de Princeton e da Universidade da Califórnia (UCLA). Até o início do ano, estava na Alemanha fazendo pesquisa na Wissenschaftskolleg zu Berlin (Wiko), o Instituto para Estudos Avançados de Berlim.
Veja os principais trechos da entrevista concedida à BBC Brasil.
BBC Brasil - Uma de suas críticas à política social brasileira é que ela se fixa na redução da pobreza, deixando para segundo plano a proteção social. Como se dá essa distinção?
Lena Lavinas - A gente tem que entender o que é política social. A finalidade da política social é romper o vínculo entre ter acesso a educação, saúde, do fato de alguém ter renda para pagar por esses serviços. É de "desmercantilizar" o acesso a determinados bens e serviços que são considerados direitos, tal como estipulado na Constituição de 1988.
O que a política social no Brasil fez nos últimos anos foi fortalecer a dimensão das transferências de renda. Isso teve um impacto muito grande, muito positivo, na redução da pobreza, porque toda vez que eu transfiro algum tipo de renda mínima para as famílias mais pobres, eu estou reduzindo o grau de destituição dessas famílias.
Mas se ao mesmo tempo eu não estou garantindo que essas pessoas tenham acesso a saúde, a saneamento básico, eu não estou realmente ampliando o grau de cobertura da proteção social.

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Image caption Política social foi usada como "colateral" para dar aos mais pobres acesso ao sistema financeiro, diz Lavinas
O que eu estou fazendo ao dar dinheiro para as famílias é incorporando-as ao mercado. Na medida em que elas entram no mercado, se eu não estou oferecendo serviços de saúde, atendendo às suas necessidades de acesso a saneamento, segurança, o que vai acontecer? As pessoas vão ter que usar essa renda que recebem para financiar determinados bens e serviços que elas deveriam estar recebendo gratuitamente.
Ora, como não é possível atender a todas as necessidades com tão pouca renda, as pessoas vão acabar tendo que se endividar para cobrir outras necessidades.
BBC Brasil - É nesse sentido que o Bolsa Família seria uma "inovação incompleta", como a senhora definiu?
Lavinas - A Constituição de 1988 havia criado, pela primeira vez, com o BPC (Benefício de Prestação Continuada), uma política para reduzir o grau de destituição da população pobre brasileira. Ocorre que ele, desde o seu início, tinha como público alvo apenas os idosos pobres com mais de 65 anos ou os portadores de deficiência. Mas a pobreza é muito mais ampla.
O Bolsa Família, quando surge, em 2003, supre uma lacuna gravíssima, porque, pelo desenho da política assistencial na Constituição, a maior parcela dos pobres não era atendida. Foi uma inovação institucional muito importante, que infelizmente jamais se tornou lei de fato.

Image caption Uma das falhas do Bolsa Família, diz a professora, é ser uma política cíclica, ampliada apenas em períodos de crescimento da economia | Crédito: Agência Senado
O problema do Bolsa Família é que ele funciona com linhas de pobreza muita baixas. Hoje o benefício médio pra uma família de quatro pessoas é de R$ 182, muito pouco. E justamente em um momento de recessão como o que vivemos agora a cobertura deveria ser expandida, porque o número de pobres aumenta.
O que a gente está vendo é que a finalidade precípua do Bolsa Família não está sendo atendida. Ele está funcionando como uma política cíclica, ou seja, ele se amplia à medida em que há crescimento econômico e tende a estabilizar nos momentos de descenso do ciclo econômico - e não contracíclica.
O segundo ponto importante é que a maior parte do gasto com assistência no Brasil foca essencialmente nas transferências de renda, que correspondem mais ou menos a 68% de toda a despesa social, enquanto que a provisão "desmercantilizada" de serviços é uma parcela equivalente a um terço do gasto social.
A pobreza não se resume à falta de renda. Ela tem outras dimensões, como moradia, como ter uma cobertura de serviços para a população idosa, para as crianças, uma série de outros serviços que poderiam mais rapidamente reduzir a distância que separa a qualidade de vida e as oportunidades dos muitos pobres dos outros.
Isso não aconteceu. A gente fez uma política de combate à pobreza no Brasil na década de 2000 essencialmente voltada para a incorporação dos pobres ao mercado.
BBC Brasil - Se o ideal seria aumentar o nível de proteção social, como fazer isso em um Estado que tem cada vez mais dificuldade para pagar as contas?
Lavinas - Isso é uma questão ideológica. Nós temos um governo que diz que está ali para reduzir o deficit público. Só que o deficit, que era muito pequeno, está em R$ 159 bilhões e vai se estender até 2022.
O que a gente está inferindo? Que essa política de austeridade não está contribuindo para a retomada do crescimento econômico. O problema da dívida pública, que não pode ter dívida pública, levou a uma transferência daquilo que antes era responsabilidade do Estado à esfera individual.
Isso é uma ideologia, se a gente olhar exclusivamente para o caso brasileiro, a gente vai ver que a política de austeridade só está nos levando a ir mais e mais para o fundo do poço.
Se não há consumo, se o salário das pessoas foi cortado e a taxa de desemprego é extremamente elevada, se eu não estou elevando as transferências monetárias para sustentar a demanda, se eu estou cortando benefícios previdenciários, fica muito difícil a gente sair da crise.
Nós estamos em uma lógica de austeridade que reduz justamente a participação da população no mercado de trabalho, que corta benefícios. Tudo isso leva a uma redução do crescimento, o desempenho econômico fica inibido e, em função disso, agravam-se mais ainda as condições de financiamento (da proteção social), porque a arrecadação cai.
BBC Brasil - O livro chama atenção para o paradoxo da política social implementada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Qual seria ele?
Lavinas - O que a gente viu na gestão do PT - e eu posso falar isso tranquila, porque sempre fui petista, e essa é uma crítica contundente - foi que houve uma retração da esfera pública. E esse é o paradoxo.

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Image caption Para pesquisadora, ponto mais fraco da gestão de política social do PT foi a redução da esfera pública
Primeiro a gente teve ambiguidade, a expansão de alguns direitos e, ao mesmo tempo, a mercantilização de outros, porque as coisas avançaram no front da privatização, das despesas crescentes para as famílias.
Do outro lado, o paradoxo é que quem definiu esse modelo de desenvolvimento foi justamente o partido que deveria estar preocupado em ampliar a esfera pública, e não foi isso o que aconteceu.
BBC Brasil - Por que é importante ter esfera pública?
Lavinas - Na primeira eleição do presidente Lula, também na segunda, ele teve grande apoio da classe média. Não foram só os setores populares que elegeram o presidente Lula. Mas a coisa foi virando.
Por que nós tivemos 2013, o movimento nas ruas? Aquilo foi a classe média na rua dizendo: "Nós queremos serviços públicos. A gente quer transporte mais barato. A gente não quer passar cinco horas em um ônibus de má qualidade". Foi isso que as pessoas disseram: "Nós queremos mais esfera pública".
Por quê? Veja, se a gente olhar entre 2004 e 2014, enquanto o salário médio cresceu 1,9% ao ano, os custos com serviços de saúde privados cresceram, em termos reais, 8%, as despesas com educação, 7,7%. A renda estava subindo, mas a classe média passou a ter cada vez mais dificuldade de fazer frente às suas necessidades.


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Image caption Deterioração da esfera pública foi combustível para protestos de 2013
Houve uma ruptura do apoio desses amplos setores chamados de classe média com um governo que poderia ter contribuído, com a ampliação da esfera pública e da oferta de serviços públicos, para aproximar isso que é o grande abismo social que temos: as classes populares e as classes médias. Porque de fato são padrões, em termos de acessibilidade e de qualidade de vida, muito diferentes.
Se a gente pusesse todas as crianças na escola pública, se déssemos oportunidade para todo mundo se tratar gratuitamente em clínicas públicas no seu bairro, por exemplo, estaríamos criando um espaço de aproximação entre classes sociais, reduzindo esse abismo no qual vivemos. O que a gente vê é que esse abismo aumentou.
O ponto mais falho no que foi a gestão do Partido dos Trabalhadores, sem dúvida nenhuma, foi ter reduzido a esfera pública e, portanto, tolhido os direitos, impedindo que a gente de fato caminhasse para ter uma sociedade mais homogênea. Porque a redução da desigualdade de renda não contribuiu pra que a gente tivesse uma sociedade mais homogênea em termos de oportunidades.
O que universalizou foi o mercado: todo mundo tem televisão, todo mundo tem geladeira. Isso também é importante, mas não é suficiente. Quando as pessoas foram para a rua, elas não foram pedir geladeira nem televisão de tela plana. Elas foram pedir transporte, saúde e educação.