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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O socialismo chinês e a equação desafiadora de Xi Jinping, entrevista com Yann Moulier-Boutang.

Na entrevista, Boutang reflete sobre o papel geopolítico e econômico da China no mundo de hoje, sobre a influência de Mao na política chinesa, sobre a liderança de Xi Jinping e sobre as revisões que o Partido Comunista Chinês tem feito da Revolução Cultural


11/01/2018 08:18
 

Por: Patricia Fachin | Tradução André Langer

Apesar da autoridade de Xi Jinping, atual presidente chinês e Secretário-Geral do Partido Comunista da China - PCC, “as relações de força são menos favoráveis a Xi do que parecem”, diz Yann Moulier-Boutang à IHU On-Line, ao analisar o 19º Congresso do Partido Comunista da China, que aconteceu em outubro do ano passado. Na avaliação do economista francês, “Xi Jinping ganhou a batalha do 19º Congresso do PCC, mas não a guerra que será travada no 20º Congresso em 2022”. Segundo ele, “de acordo com alguns analistas estrangeiros, mas também de acordo com a opinião de chineses que acompanham de perto a situação, as aparências de unanimidade em torno de Xi escondem um confronto abafado com Jiang Zemin e, especialmente, com Hu Jintao. Esse confronto não se refere à política econômica nem ao uso da força repressiva do Estado central, mas a três pontos cruciais: 1) à personalização e à centralização do exercício do poder; 2) à questão dos direitos da oposição dentro e fora do Partido; 3) uma ruptura quase agressiva com os valores ocidentais”. E adverte: “O presidente Xi não diz outra coisa; ele quer do Ocidente apenas a ciência e o mercado, mas não as ciências humanas. É uma combinação tradicional no Extremo Oriente, especialmente na Coreia e no Japão: ciência ocidental e cultura oriental”.
Na avaliação dele, o mandato de Xi Jinping dependerá da resolução da seguinte equação: “como perseguir um desenvolvimento econômico na harmonia social (entenda-se reduzindo as desigualdades sociais) ao mesmo tempo que luta contra o aquecimento global e a poluição sufocante nas principais cidades”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Boutang reflete sobre o papel geopolítico e econômico da China no mundo de hoje, sobre a influência de Mao na política chinesa, sobre a liderança de Xi Jinping e sobre as revisões que o Partido Comunista Chinês tem feito da Revolução Cultural. “Após a condenação oficial dos erros teóricos da Revolução Cultural (e não apenas os erros esquerdistas da “Camarilha dos Quatro”), especialmente a tese errônea do primado da luta de classes, percebe-se uma distância crescente em relação ao pai fundador da China moderna. Não há dúvida de que as próximas etapas serão, nos próximos Congressos, o reexame dos efeitos desses mesmos erros no período do Grande Salto Adiante (até o presente imputa-se a responsabilidade dos milhões de mortos dessa tentativa de forçar o desenvolvimento e transformar os camponeses ao zelo obsequioso dos funcionários públicos nas Províncias e ao... clima!). O gigantesco retrato de Mao ainda fica no portão de entrada da Praça da Cidade Proibida Tiananmen, assim como o seu corpo embalsamado, mas pode-se imaginar o que será em 2032”.


Yann Moulier-Boutang | Foto: Ricardo Machado/IHU

Yann Moulier Boutang é professor de Ciências Econômicas na Université de Technologie de Compiègne - Sorbonne Universités, na França, membro do laboratório Connaissance, Organisation, Systèmes Techniques - COSTECH EA 22 23, Trivium CNRS. Leciona também na China, na Universidade de Shanghai - UTSEUS, na Ecole Nationale Supérieure de Création Industrielle - ENSCI, Paris, no curso Master Innovation by Design. É um dos fundadores e coordenadores da revista Multitudes. Trabalha com o tema das migrações internacionais, a escravidão, as transformações contemporâneas do capitalismo, a economia digital, os direitos de propriedade intelectual, a inovação. Entre suas obras mais recentes, estão Cognitive capitalism (2012, Polity Press, Cambridge, UK) e L’abeille et l’économiste (Paris 2010).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que avaliação o senhor faz do 19º Congresso do Partido Comunista da China, que aconteceu em outubro passado? O que o Congresso do Partido Comunista sinaliza para as próximas décadas?

Yann Moulier-Boutang - Uma advertência: eu sou apenas um de muitos observadores do que está acontecendo na China. Durante a minha última estadia para ensino na Universidade de Xangai, o 19º Congresso do Partido Comunista Chinês - PCC estava reunido. E eu não sou um cientista político, mesmo que considere ser um dever político de todo o cidadão (francês acessoriamente, europeu de coração e “do mundo” por necessidade) prestar uma atenção escrupulosa a este evento.

Da modéstia à retórica assertiva

Aparentemente, este Congresso representou uma vitória para o presidente e secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping. A linha de constante renovação do Partido Comunista, para manter sua liderança infalível na condução do país mais populoso do mundo sob sua autoridade pessoal, obteve a aprovação unânime dos 2.800 delegados da Assembleia Nacional anual. Uma comissão disciplinar do partido, encarregada de monitorar a campanha contra a corrupção, que é uma das principais características da primeira presidência do presidente Xi desde 2012, foi oficializada.
O presidente fixou um programa para o desenvolvimento econômico e social da China até 2030 que nenhum social-democrata europeu rejeitaria a priori: desenvolvimento econômico com vistas a tirar definitivamente a China do status de país ainda pobre ou de “renda modesta mas suficiente” (para retomar as palavras de Deng Xiaoping), perseguição da redução de desigualdades gritantes (uma proporção de 1 a 36 entre a região rural da província de Gansu e as áreas urbanas mais ricas, Xangai ou Shenzen, começou em 2009 com um plano de apoio massivo às regiões mais pobres), modernização do aparelho produtivo, especialmente das grandes empresas estatais.
Em termos da presença da China no cenário internacional, assistimos à passagem de uma posição de reserva cautelosa e de modéstia a uma retórica mais assertiva de afirmação da legitimidade dos interesses nacionais da China sempre insistindo na sua compatibilidade com as relações de boa vizinhança e a paz mundial.
A China não responde ao “America First” de Trump com um “China First” ameaçante, mas antes com “A peaceful world needs a strong China”. Este poder chinês recuperado mostrou três lados cuidadosamente organizados:
1) Acalmar Trump na situação muito tensa com a Coreia do Norte e suas gesticulações para negociar o mais caro possível, a exemplo do Irã, uma renúncia à arma atômica;
2) Mostrar sinais de firmeza para com os poderes fracos – Filipinas e o Vietnã no Mar da China do Sul;
3) A iniciativa de grande amplitude das novas rotas da seda (One road, one Belt combinada com o Banco Asiático de Investimentos e Infraestruturas).

Condenação da Revolução Cultural Proletária

O que surpreendeu os observadores oficiais (penso na inteligente, mas orientada China Global Television Networks) é a garantia afável de seu dirigente e sua sua entronização no 'panteon' ainda em vida, já que sua “doutrina” foi incorporada à Constituição com o mesmo título que o pensamento de Mao Tsé-Tung, uma honra que Den Xiaoping não teve. A China está segura nos trilhos até 2030, diz-se. Acabaram-se os dias da digestão do período dos “grandes problemas” – a “Revolução Cultural Proletária”, 1966-1976: alguns dias antes da abertura do 19º Congresso do Partido Comunista, esta última foi abertamente condenada não mais apenas pelos seus erros circunstanciais, mas por seus erros teóricos (particularmente o banimento violento de Confúcio e a afirmação do princípio da luta de classes).
Quanto ao período das grandes reformas de Deng Xiaoping (1978-1998), ele foi confirmado (o que foi o caso dos dois sucessores de Deng (Jiang Zemin e Hu Jintao), mas também superado por um programa iniciado pelo primeiro mandato do Xi Jinping (2012-2017). Da China da decolagem industrial e econômica, àquela da prosperidade interna, da redução das desigualdades, da auto-afirmação, da proposição ambiciosa de uma reativação moderna da rota da seda tanto para o Norte (Rússia), como para o Sul (Indochina, Índia, Paquistão, Oriente Médio, África Oriental, Turquia, África), tudo em uma ordem mais centralizada do que nunca e em “harmonia”, conceito neo-confuciano de respeito filial da autoridade e da rejeição da violência.

Retorno a Mao

Aos olhos da população culta não comunista ou comunista (mas pouco favorável a Xi Jinping), a onipresença do líder, a personalização do poder, sua apresentação midiática de todos os aspectos positivos do balanço do governo, mas também sua centralização dos poderes de Chefe dos Exércitos, de Presidente da República, de secretário-geral do PCC, sua gestão da campanha anticorrupção, suas diatribes contra a democracia ocidental, os direitos humanos e as liberdades formais (na mais pura tradição soviética) evocam um retorno preocupante ao período de Mao, um Mao afável, mas com mão de ferro. Xi Jinping se reivindica ao mesmo tempo como o grande e o pequeno timoneiro, mas, na realidade, ele se afasta deles.

“Internamente, sem que a noção tenha desaparecido completamente, a oratória pública está fazendo cada vez menos referência ao ideal de uma sociedade “moderadamente próspera” herdada da antiga história chinesa “ xiaokang shihui”, ao passo que no flanco externo, o “sonho chinês ” do renascimento afirma-se sem complexos, dando as costas aos conselhos de prudência dos últimos anos de Deng, que, antes da sua morte, aconselhava a “cultivar seus talentos na sombra – tao guang yang hui” (François Danjou – http://www.questionchine.net/un-nouveau-bureau-politique-sans-asperites-devoue-au-volontarisme-renovateur-de-xi).

Confrontos abafados

Mesmo dentro do Partido Comunista Chinês, apesar das aparências de unanimidade e rigor, mais forte do que nunca, havia sérios confrontos de tendências, clãs e pessoas. É sempre mais interessante procurar os debates on-line e de conteúdo atuais por trás das eternas brigas de pessoas e da luta pelo acesso ao poder e pela sua manutenção.
De acordo com alguns analistas estrangeiros (pensamos em Alex Payette, “Le 19ème Congrès du Parti Communiste Chinois: clôture sur l’ancien régime et ouverture de la Chine de Xi JinPing” (pdf)), mas também de acordo com a opinião de chineses que acompanham de perto a situação, as aparências de unanimidade em torno de Xi escondem um confronto abafado com Jiang Zemin e, especialmente, com Hu Jintao. Esse confronto não se refere à política econômica nem ao uso da força repressiva do Estado central, mas a três pontos cruciais:
1) à personalização e à centralização do exercício do poder. Os predecessores de Xi são alinhados à ala “modesta” inaugurada por Deng – o exercício do poder não ocupando o centro do palco, mas manipulando as cordas de um poder colegiado sem a personificação à maneira de Mao;
2) à questão dos direitos da oposição dentro e fora do Partido, à qual aspira parte das novas classes médias que têm apenas apetites materiais;
3) uma ruptura quase agressiva com os valores ocidentais (universalismo, direitos humanos, democracia plural representativa que compreende eleições de sufrágio universal, o fim do monopólio do PCC, portanto o pluripartismo, o Estado de direito de acordo com os critérios da independência do Poder Judiciário).
Ora, ou Xi Jinping toma posições muito rígidas em relação a essas questões por temperamento “autoritário”, por ambição pessoal ou por medo de uma degradação da situação que poderia resultar de falhas na questão de Taiwan, tensão com a Coreia do Norte, com os países que fazem fronteira com o Mar da China Meridional, de uma crise financeira com grandes consequências para o emprego ou, enfim, de uma explosão ecológica e social vinculada ao agravamento da poluição do ar ou ao envenenamento de rios, solos, alimentos, o resultado está aí, ele quer ter as mãos livres e trabalhar no longo prazo.
O primeiro desses longos prazos diz respeito ao seu mandato de secretário-geral do PCC (as eleições para Presidente da República serão em 2018) e Xi está certo de que será eleito para um terceiro mandato. Se retornarmos ao posto chave, o de secretário-geral do PCC, ele começa seu segundo mandato de 5 anos e a verdadeira questão é a possibilidade de ele se suceder a si mesmo em 2022 e depois em 2027. A Constituição não autoriza um terceiro mandato. Por outro lado, as aposentadorias são imperativas. A idade foi ampliada de 65 para 68 anos. Em 2017, o Presidente Xi está com 64 anos de idade. Ao final do seu novo mandato (2017-2022), ele estará com 69. A regra definida pela prática em vigor propõe que seu sucessor seja escolhido entre os 5 a 8 membros do Comitê Permanente do Birô Político do PCC (instância com cerca de 25 membros, incluindo vários do Exército), a instância suprema de governo. À primeira vista, o resultado final é uma vitória total para o Presidente Xi: o Comitê Permanente do Birô Político formado por um grupo restrito.
Ora, depois do voto do Birô Político previamente eleito pelo Comitê Central do PCC, os 5 membros do Comitê Permanente em formação limitada pertencem todos a gerações nascidas nos anos 50 e 60, o que significa que não estarão em condições de se candidatarem ao cargo de secretário-geral do Partido, assim como Xi Jinping: eles teriam entre 67 e 69 anos no início de um novo mandato, quase a mesma idade que Xi. Isso deixaria o campo aberto para esse último se apresentar para um terceiro mandato.
No entanto, a Secretaria-Geral tem, em uma lista complementar muito menos apresentada oficialmente, o nome de Hu Chunhua, que tem apenas 54 anos e pertence à geração dos anos 1960, membro do Birô Político desde 2012. Ao contrário de Sun Zhengcai, protegido por Xi Jinping, que tem a mesma idade que ele, outra estrela ascendente, ele não deve a sua ascensão ao atual presidente chinês, mas a Hu Jintao. Como escreve François Danjou (5 de junho de 2017), “ele foi, desde os 38 anos, o n. 1 no Tibete (2001-2007) e, aos 45 anos, foi governador de Hebei (2008-2009). Imediatamente depois, ele assumiu a Mongólia interior (2009-2012), onde teve que administrar a revolta dos criadores, um episódio durante o qual mostrou grande habilidade política”.
Com a saída de Sun Zhengcai do Birô Político e que não será elegível para a secretaria permanente no próximo turno para suceder Xi Jinping, esse último não poderá mais agir indiretamente, como seus predecessores Deng, Jiang Zemin e Hu Jintao, como “imperador retirado” (no Japão, o imperador retirado em um mosteiro exercia mais poder do que durante o seu reinado). Ele estará condenado a tentar alterar a Constituição.
Hu Chunhua, a esperança da oposição
Hu Chunhua, protegido de Hu Jintao (sem nenhuma relação familiar) e de Li Keqiang, parece carregar todas as esperanças da oposição interna contra a via autoritária de Xi na questão-chave do 20º Congresso de 2022, mesmo que não apareça explicitamente na lista restrita de membros oficiais da Secretaria Permanente excluídos de uma sucessão automática, o que preocupa os liberais (no sentido político americano do termo), isto é, a verdadeira esquerda, diante de uma direita autoritária que defende o desenvolvimento econômico na linha do que foi praticado de 1978 a 2008 a qualquer preço. Contudo, as relações de força são menos favoráveis a Xi do que parecem. Do contrário, o primeiro-ministro teria sido substituído, Hu Chunhua não teria sido nomeado para o Birô Político e Sun Zhengcai o teria substituído. O presidente Xi enterrou de vez as pretensões de Jiang Zemin, e seus partidários não hesitam em deixar perseguir Zeng Qinghong por corrupção, mas teve que compor seriamente com Hu Jintao.
Isso significa dizer que a linha do poder pessoal e a luta ideológica de cara aberta contra as “visões ocidentais equivocadas sobre a China” e os valores “ditos universais” não prevaleceram completamente. Xi Jinping ganhou a batalha do 19º Congresso do PCC, mas não a guerra que será travada no 20º Congresso em 2022. Os seus sucessos ou fracassos tanto em questões internas (Taiwan e Hong Kong, as questões do Tibete, da Mongólia Interior e de Xinqian, a questão ecológica, a questão da dívida) como externas (as relações com seus vizinhos e os Estados Unidos) desempenharão um papel decisivo na manutenção ou em uma inflexão estratégica da evolução para uma “democracia com características chinesas”.

IHU On-Line - Qual é a composição do Comitê Central?

Yann Moulier-Boutang - O Comitê Central do PCC é composto por 204 membros. Ele é eleito pela Assembleia de Representantes do Povo (2287 delegados no último Congresso), além dos membros ex-ofício (da cúpula do Estado, do Partido e das minorias não-Han). Esta assembleia de representantes é uma representação complexa e indireta da realidade política da China, pois seus membros são designados para um mandato de cinco anos. Esses delegados são eleitos em listas preparadas pela hierarquia do Partido, que oferecem as possibilidades que os eleitores têm. Neste sentido, há boas escolhas para os 90 milhões de membros do PCC. A principal função da Assembleia de Delegados do Partido é escolher o Comitê Central, que elege os 25 membros do Birô Político e os membros da Secretaria Permanente do Birô Político, o verdadeiro corpo colegiado de poder.

A agência oficial Chine Nouvelle forneceu a composição da Assembleia: “Este ano, os 2287 delegados são distribuídos da seguinte maneira: representando os grupos étnicos, 11,5%; trabalhadores, 8,7%; mulheres, 24,2%; mais de 55 anos, 29,4%; menos de 55 anos, 70,6%; militantes de base, 33,8%; executivos, 66,2%; educação do ensino médio e superior, 94,2% (43% dos quais têm nível universitário)”. A feminização, o rejuvenescimento e a progressão do nível de escolaridade são as principais novidades.

IHU On-Line - Como explica a ascensão do presidente Xi Jinping no Partido Comunista da China, que é visto hoje como o homem mais poderoso da China, e terá seu nome inscrito na Constituição, junto com outros nomes, como o de Mao Tsé-Tung? Como ele obteve esse poder?

Yann Moulier-Boutang - Xi Jinping teve uma carreira clássica no PCC. Ele percorreu metodicamente todas as etapas necessárias para os dirigentes, especialmente a de ter trabalhado em muitas províncias. Ele tem a reputação de ter construído metodicamente em cada etapa da sua ascensão colaboradores e amigos leais, não hesitando em ir além do seu clã. Por outro lado, ele aproveitou, em 2012, a oportunidade para chegar ao seu primeiro cargo supremo, no contexto da turbulenta queda de Bo Xilai entre 2010 e 2012.

Este último, muito bonapartista, havia construído a partir da tentacular cidade de Chong Qing (mais de 35 milhões de habitantes) um verdadeiro império. Ele defendeu um retorno a uma linha mais à esquerda, neomaoísta, insistindo na luta contra as desigualdades. Seu autoritarismo visível surtiu pouco efeito no centro e na direita do Partido. A habilidade de Xi Jinping consistiu em aparecer como o continuador das políticas de estabilidade econômica, sendo suficientemente ambíguo sobre a questão das liberdades e uma possível liberalização do regime e sobre a colegialidade do poder, para se apresentar como sucessor mais liberal de seu antecessor, da Província de Guandong, ao contrário de Bo Xilai, que assustou a direita do Partido Comunista por seu lado bonapartista, seus métodos autoritários para diminuir a grande criminalidade em Chong Qing e sua invocação de Mao.

Concentração do poder

Mas, desde que foi conduzido à frente do país e do Partido, ele começou a concentrar os poderes e a se apoiar em um clã de dirigentes muito leais. Nunca desde Mao um dirigente chinês concentrou tanto poder sobre o Exército, a inteligência, o Estado e, claro, sobre o Partido. Ele quebrou gradualmente o tabu que havia sido estabelecido pelos sucessores de Mao: a colegialidade, os pequenos arranjos para obter esta última. Ao lançar a luta contra a corrupção, que é um fractal na sociedade chinesa e que existia em todos os níveis, colocou todos os seus possíveis rivais políticos na defensiva.

IHU On-Line - Por quais razões o Partido Comunista da China tem conseguido se manter no poder desde 1949? Como era a China antes desse período e como ela foi se transformando ao ser governada pelo Partido Comunista?

Yann Moulier-Boutang - O Partido Comunista Chinês conseguiu se manter a partir de 1949 atravessando vários acontecimentos terríveis: o fracasso do Grande Salto Adiante (1959-1961), a ruptura sino-soviética e os Grandes Distúrbios (com outras palavras, a Revolução Cultural, 1966-1976). De fato, o Partido Comunista passou por testes ainda mais difíceis desde a sua fundação (seu virtual aniquilamento nas grandes cidades com a insurreição fracassada de 1927 em Xangai, a guerra civil com o Kuomintang, a retirada ou Longa Marcha de 12 mil km (1934-35) da Província de Jiangxi a Sichuan passando pela Província de Guizhou e, finalmente, pela de Shaanxi. Mao tornou-se o líder do Partido nesta situação de considerável adversidade, não lhe restando mais de 30 mil homens dos 86 mil que teve no início.
Mas a guerra com os japoneses, que começou em 1931 com a conquista da Manchúria e que se tornou geral em 1937, salvou o Partido do aniquilamento pelas tropas nacionalistas. A habilidade de Mao, a qualidade do grupo dirigente do Partido e a sorte desempenharam o seu papel; mas o extremo cansaço da população chinesa, que a partir de então sofreu tratados desiguais, a humilhação sob a última dinastia manchu dos Qing para conhecer a década dos Senhores da Guerra de 1911 a 1921, a sanguinária guerra civil, as atrocidades japonesas, a corrupção e o cinismo do governo nacionalista, acolheu com grande esperança a entrada das tropas do Exército Nacional de Libertação em Pequim e a proclamação da República Popular da China em 1º de outubro de 1949.

Quatro estrelas ao redor do PCC

Na bandeira adotada pelo novo regime, a maior estrela representa o Partido Comunista Chinês, e quatro outras estrelas ao redor simbolizam as quatro classes sociais do povo chinês mencionadas por Mao Tsé-Tung na Ditadura Democrática Popular: os operários, os camponeses, a “pequena burguesia”, ou mais classicamente os comerciantes e os “capitalistas patrióticos”, e os intelectuais. Os empresários capitalistas não vendidos, ou seja, aqueles que não se vendiam ao exterior, faziam parte da unidade nacional proposta pelos comunistas. Até 1953, data do endurecimento do regime numa direção classicamente soviética, o pequeno patronato decepcionado pelo Kuomindang foi incluído nesta união nacional. Mas, a partir de 1953-54, ele foi tratado como um inimigo de classe. Os intelectuais ou letrados (estenda-se conjuntamente estudantes e professores) foram, às vezes, convidados a se expressar (a Campanha das Cem Flores, em 1957) e, às vezes, brutalmente reprimidos (durante a Revolução Cultural, em 1986 e em 1989-90).
Erros do PCC e a visão ortodoxa sobre Mao
Os graves erros de Mao e do Partido que se seguiram, no Grande Salto Adiante, depois na Revolução Cultural contra o Partido que o marginalizou (erros que só foram tratados como tais muito tardiamente – em 1978, em relação ao primeiro acontecimento, e pouco antes do 19º Congresso que acaba de ser realizado, em relação ao segundo, notadamente a famosa tese do primado da luta de classes), não apagaram o “mandato do céu” do Partido Comunista, porque ao seu líder supremo foi creditado o fato de ter devolvido à China seu lugar no mundo após 150 anos de eclipse. A popularidade do Grande Timoneiro permanece forte no campo e, até o último Congresso do Partido, a opinião ortodoxa sobre Mao foi que ele teria sido “tudo de bom” não fosse a Revolução Cultural.

Após a condenação oficial dos erros teóricos da Revolução Cultural (e não apenas os erros esquerdistas da “Camarilha dos Quatro”), especialmente a tese errônea do primado da luta de classes, percebe-se uma distância crescente em relação ao pai fundador da China moderna. Não há dúvida de que as próximas etapas serão, nos próximos Congressos, o reexame dos efeitos desses mesmos erros no período do Grande Salto Adiante (até o presente imputa-se a responsabilidade dos milhões de mortos dessa tentativa de forçar o desenvolvimento e transformar os camponeses ao zelo obsequioso dos funcionários públicos nas Províncias e ao... clima!). O gigantesco retrato de Mao ainda fica no portão de entrada da Praça da Cidade Proibida Tiananmen, assim como o seu corpo embalsamado, mas pode-se imaginar o que será em 2032.

Quanto ao pequeno timoneiro, Deng Xiaoping, ele ganhou seu mandato do céu alcançando a “decolagem industrial” da China; seus dois sucessores imediatos administraram esse legado e o consolidaram mesmo durante a prova de fogo que foi a terrível crise de 2008. E isso não foi nada: lembremo-nos dos muitos “milagres econômicos” que o Brasil conheceu desde a era de ouro do pau-brasil no século XVI, dos diamantes no século XVIII, do algodão, da seringueira, do café nos séculos XIX e XX, todos sem futuro. A nova dinastia Han, após o primeiro primeiro Imperador Qin Shi Huang Di (Mao), tem seu contrato cumprido.

A equação de Xi Jinping

Mas, para Xi Jinping, o mandato do céu dependerá em grande medida de outro tipo de mandato do céu – a resolução da seguinte equação: como perseguir um desenvolvimento econômico na harmonia social (entenda-se reduzindo as desigualdades sociais) ao mesmo tempo que luta contra o aquecimento global e a poluição sufocante nas principais cidades.

O sucesso do objetivo da luta contra a corrupção ocupa o segundo plano, mesmo que dependa da possibilidade de o país ter sucesso na melhoria de sua indústria e na manutenção de seus excedentes de exportação. Desde a virada de Tiananmen em 1989, a alternativa para manter o domínio indiviso do Partido (a grande estrela da bandeira chinesa) parecia ser a liberalização ou a democratização política. O medo da desordem recorrente na China, suscetível de ser alimentado pelo crescimento das desigualdades, e a natureza aguda dos problemas ecológicos tornam-se, paradoxalmente, os melhores aliados para manter a solução “autoritária”. Xi Jinping foi capaz de jogar admiravelmente bem. Ordem e progresso, como o lema de Auguste Comte na bandeira brasileira.

IHU On-Line - Quais foram as influências da então Internacional Comunista, sediada em Moscou, na orientação do Partido Comunista da China? Ainda nesse sentido, qual é a influência do marxismo-leninismo na formação e constituição do Partido Comunista da China? Que aspectos dessas influências ainda se mantêm?

Yann Moulier-Boutang - A influência da Terceira Internacional dominada União Soviética teve várias fases muito distintas e opostas. Desde a fundação do PCC até 1927, a linha soviética marxista-leninista do papel de líder da classe trabalhadora urbana domina e Mao destaca-se como um suspeito herético de convicções enfadonhas sobre o papel do campo (a centelha que incendeia a planície, o cercamento das cidades pelo campo, o papel determinante do Exército de Libertação Nacional). O giro de 1934 da Internacional, que substitui a linha classe contra classe por aquela da frente unida contra o fascismo, e a preservação das posições de poder do PCC em Yan'An após a Longa Marcha, farão evoluir lentamente a Terceira Internacional, que é obrigada a levar em consideração a liderança absoluta de Mao. Na prática, a Internacional mais estalinista que Stalin aplica à carta da Frente Unida com a burguesia nacional contra o fascismo japonês e quer impor novamente ao PCC a união com o nacionalista Guo Mindang. Ela acredita que Mao não pode ser uma alternativa por si só, especialmente porque as forças de Chiang Kaichek (em pinyin: Ji%u0CEngJièshí) ocupam a China útil desde que os japoneses, que as forçaram a se refugiar em Chong Qing, se retiraram.

Tratado de cooperação e amizade entre Stalin e Mao

Entre 1945 e a vitória final de Mao, quatro longos anos correm e Stalin mantém dois ferros no fogo. Com o líder nacionalista, ele assinou, em 15 de agosto de 1945, o primeiro pacto de “amizade e cooperação” sino-soviético. A URSS ocupa então uma grande parte da Mongólia e o norte da Manchúria. Mas Stalin, no fundo, financia o PCC apesar dos compromissos com os nacionalistas. Isso explica as relações bastante frias por trás de uma unidade de fachada entre os dois gigantes do comunismo mundial. Em 1949, surgiram as primeiras dificuldades do regime na China continental para fazer funcionar um setor moderno construído em grande parte pelos japoneses na Manchúria para que se observe um degelo. Dada a escala dos problemas econômicos e as dificuldades para este país tentacular romper com os Estados Unidos e o mundo capitalista que penetrou profundamente na sociedade desde a década de Nanking (1927-1937), Mao fez uma longa viagem (a primeira de sua vida fora da China) a Moscou. Os dois chefes de Estado são muito desconfiados e levam quase dois meses para assinar um tratado de cooperação e amizade.

Os primeiros três anos (1950-53) foram bem: técnicos soviéticos e engenheiros ajudaram no desenvolvimento da indústria pesada da China. Dois obstáculos rapidamente aparecem: as ambições nucleares da China e a desestalinização realizada por Kruschov no XXº Congresso em 1956, inicialmente mantida em segredo. Se durante os levantamentos na Alemanha Oriental, depois na Hungria, a China apoia a União Soviética, Zhou Enlai participa da Conferência de Bandung em abril de 1955, que vê o nascimento do movimento dos Não Alinhados, e Mao não faz nenhum segredo que esse Sul é aquele de onde virá a centelha que porá fogo na planície muito mais do que o bloco socialista proletário.
Desde a dissolução da Terceira Internacional, decidida por Stalin mas implementada em 1943, a União Soviética não pode se imiscuir abertamente em questões teóricas. Mas Mao, que já submeteu à rude prova o “marxismo ortodoxo” de antes da guerra, que flerta abertamente com o Terceiro Mundo rural, que inicia o programa nuclear, acaba exasperando os soviéticos com sua crítica do economicismo do socialismo que subordina a libertação socialista ao desenvolvimento das forças produtivas por uma acumulação extraindo dos camponeses o excedente necessário para a criação do setor 1, o dos meios de produção. E isso não para apoiar uma heresia do tipo iugoslava (autogestão das cooperativas industriais e desenvolvimento de bens de consumo), mas por querer criar um novo camponês nas brigadas dos Comuns que ultrapasse o caminho clássico da industrialização sob a liderança do partido do proletariado, tudo em uma atmosfera de culto da personalidade que lembra desagradavelmente o culto de Stalin denunciado no Relatório Secreto do XXº Congresso.

O cisma sino-soviético

O Grande Salto Adiante lançado em 1958, portanto, pelo aventurismo de Mao, a ambição atômica que frustrou a proposta de Khruchchov de uma coexistência pacífica para substituir a Guerra Fria e a denúncia do “revisionismo soviético” levaram, no verão de 1960, à retirada brutal dos cooperadores russos, no momento em que o Grande Salto Adiante estava em pleno marasmo. Mais precisamente, os soviéticos precipitam Liu Xaoqi e Deng Xiaoping como possíveis sucessores de Mao, desacreditado pelo fracasso do Grande Salto.

O cisma sino-soviético entra em uma fase aguda: terá consequências significativas no resto do mundo e particularmente no Ocidente. Dois modelos de socialismo se enfrentam abertamente: durante a invasão da Checoslováquia de Alexandre Dubcek pelas tropas do Pacto de Varsóvia em agosto de 1968, depois os distúrbios da Polônia em 1970, a China – que está muito longe das aspirações democráticas da Europa Oriental, todas tão “revisionistas” para ela quanto a direção do PCUS – não apoia mais a URSS como na década de 1950; os partidos comunistas pró-russos e pró-chineses entram, doravante, em conflito. Uma parte da esquerda extraparlamentar europeia sairá dessas divisões. Durante a Grande Revolução Cultural Proletária, os dois gigantes do comunismo se enfrentam no rio fronteiriço Amur de 02 de março a 11 de setembro de 1969.

China pós-Mao

Com a morte de Mao (1976) e após a liquidação da Camarilha dos Quatro, o retorno ao poder do Pequeno Timoneiro Deng Xiaoping, as relações se aquecem levemente, já que a linha “modesta” deste último inclina-se para os soviéticos, especialmente depois da intervenção no Afeganistão, mas ambos os países enfrentam graves dificuldades internas; na China, Deng tem grandes dificuldades para impor reformas econômicas radicais diante dos conservadores sem liberalizar o regime da oposição democrática sobre a sua esquerda. Em 05 de junho de 1989, o Partido chinês escolhe a repressão: o destino caótico da URSS da Perestroika de Gorbachev.

A queda do Muro de Berlim, a explosão centrífuga da União Soviética e a desastrosa transição para a economia de mercado sob Yeltsin, a guerra da Chechênia, tudo isso funciona como um contraste perfeito para os dirigentes chineses. Pode-se dizer, paradoxalmente, que a influência da Rússia comunista nunca foi tão grande quanto no momento da sua queda, quando se tornou para os chineses o contra-exemplo perfeito. Com a chegada de Vladimir Putin e a marginalização do Partido Comunista Russo e as relações sino-russas tornam-se muito melhores e muito convergentes: regime autoritário, reafirmação do poder do Estado, nacionalismo, insistência nos valores morais tradicionais (na China, Confúcio; na Rússia, a Igreja Ortodoxa), lugar para a economia de mercado sob o controle de um poderoso setor estatal. A referência ao socialismo desapareceu sob Putin, mas o socialismo com características chinesas compartilha amplas características comuns. A China tem tanto menos complexos quanto possui a significativa vantagem de se tornar a segunda maior economia do mundo por seu peso.

IHU On-Line - O que foi a chamada “Revolução Cultural” realizada pelo Partido Comunista, que tentou laicizar o Estado, a religião e a população chinesa? Ainda nesse sentido, qual é o significado do conceito de sinização?

Yann Moulier-Boutang - A revolução cultural, hoje os chineses referem-se a este período como “os anos de turbulências”, corresponde a três coisas:

1) substituição do sistema de purgas controlado de cima por um sistema de renovação de baixo canalizando a oposição da juventude (que estava em fase e mesmo adiantada antes do movimento mundial de 1968);
2) a um questionamento profundo das “virtudes tradicionais da cultura chinesa”, como a obediência à autoridade; nisto, o movimento, no princípio, se assemelhava ao de 1921 em Pequim e Xangai;
3) o meio para Mao, marginalizado após a catástrofe do Grande Salto Adiante, recuperar o controle do Partido e do Exército e retomar o seu projeto de transformação voluntarista da China pela chegada de um homem novo que dificultaria a submissão às necessidades econômicas.

A partir de 1969-70, o projeto escapou das mãos de Mao; ele fez a China entrar num verdadeiro caos: as universidades foram fechadas por quase 10 anos, a produção foi extremamente prejudicada e o medo e a delação se instalaram em quase todas as famílias. As vítimas colaterais deste período são estimadas em quase 16 milhões.

Sinização
A chamada “sinização” é uma reação aos excessos da revolução cultural que se queria universal. O cauteloso Deng Xiaoping, que detesta esse longo período de desgraça que ele conhecia, achou conveniente, até mesmo indispensável, não conjugar uma revolução econômica com valores iconoclastas do passado. Vale lembrar que a grande palavra de ordem de Mao durante a Revolução Cultural foi: abaixo Kong (Confúcio) e abaixo Liu (o revisionismo de tipo soviético em questões de desenvolvimento)! Confúcio entrou gradualmente em graça e a destruição de evidências do passado da China pré-1949 foi considerada vandalismo.

A afirmação do passado chinês como componente essencial do socialismo com características chinesas foi uma consequência lógica, especialmente porque os defensores de uma liberalização do regime se referiam à liberdade, à separação dos poderes, às eleições, à democracia como valores universais ocidentais (especialmente a estátua da Democracia erguida na primavera de 1989 durante os eventos de Tiananmen). Os adversários desses valores progressivamente apontaram que havia variações chinesas e, portanto, nacionais, do Estado de Direito e dos regimes representativos do Povo.
Neste sentido, Xi Jinping não fez outra coisa senão levar essa lógica até o fim. Ele teve, recentemente, palavras particularmente duras e críticas para com a tradição ocidental e os liberais a ponto de atrair a resposta irônica do presidente da Universidade de Beida (abreviação para Beijing Dasue): atenção camarada Xi, Marx, Engels e Lênin também eram ocidentais. Mais seriamente, o presidente Xi Jinping não faz outra coisa senão retomar uma tradição que remonta à última dinastia Qing, Feng Gufeng %u9AE%u642%u8AC (1809-1874). Este pensador da modernização, necessária para ele, mas no limite da China humilhada pelos tratados desiguais, escreveu sobre a ocidentalização dizendo que era necessário tomar as ciências (matemática) e as armas, mas não o resto. O presidente Xi não diz outra coisa; ele quer do Ocidente apenas a ciência e o mercado, mas não as ciências humanas. É uma combinação tradicional no Extremo Oriente, especialmente na Coreia e no Japão: ciência ocidental e cultura oriental.

IHU On-Line - Quais são os principais impactos da Revolução Cultural nos dias de hoje?

Yann Moulier-Boutang - Os valores de contestação da autoridade, de Confúcio, dos mandarins do concurso de recrutamento dos funcionários públicos, abolido em 1906, e dos modernos mandarins, quase desapareceram por completo da China atual: os manifestantes da Revolução Cultural, especialmente se persistiram e assinaram os movimentos de 1986 e 1989, pagaram seus “erros” muito mais caro que os franceses de 68. Por outro lado, slogans anti-autoritários (falamos na França de anarco-maoístas) como, “temos razão em nos revoltar”, persistiram além da Grande Muralha da China.

IHU On-Line - Como a China lida com a tradição confucionista?

Yann Moulier-Boutang - Periodicamente na história chinesa, de acordo com as dinastias, o verdadeiro pensamento de Confúcio foi objeto tanto de ataques como de apropriação interessada. Sob a dinastia Han e mais tarde a dinastia Song, o pensamento de Confúcio (um verdadeiro catecismo) foi objeto de uma síntese e de trechos habilmente selecionados de sua obra. Foi extraído deste grande pensador e conselheiro político (cujo destino em vida [551-479 a.C.] não é diferente de Maquiavel, o de um fracasso em aconselhar o Príncipe) aquilo que interessava acima de tudo à autoridade (ênfase na educação, respeito pela tradição, obediência aos pais e ao imperador %u5E0, (a lealdade), xiào, %u55D (a piedade filial) e a observância dos ritos, l%u0D0.

Ao mesmo tempo abandona alguns aspectos muito menos tradicionais, como a legitimidade de “retificar o nome da dinastia”(Zhèngming %u663%u50D), caso o governante fosse incompetente ou violasse a lei, o desprezo do sábio e do educador pela riqueza e o poder e a universalidade da noção de humanidade e de levar em consideração esse caráter humano(ren %u4C1), seja qual for o lugar e o país. O fato de que a China de Deng tenha dado o nome de Confúcio aos seus institutos criados no exterior (uma rede de promoção da língua e da cultura chinesas) é emblemático do desejo do Partido Comunista Chinês e de seus líderes de retratar uma dinastia sábia, poderosa, pacífica e que promove “a harmonia, a paz e a prosperidade”.

IHU On-Line - O senhor sabe como estão as relações entre o Vaticano e o Governo chinês nos dias de hoje? Notícias da imprensa informam que o governo não aceita que o Vaticano tenha autonomia na escolha dos bispos.

Yann Moulier-Boutang - A China, assim como todos os poderes temporais fortes (os poderes comunistas não escapam a esta regra), quer ter uma palavra a dizer sobre a nomeação de um clero, especialmente se for de obediência estrangeira. A Idade Média europeia, a era moderna napoleônica e até mesmo republicana até 1905, experimentaram em todas as suas formas a disputa das investiduras. Como o Rei Sol (Luís XIV) ou os regimes franceses após a Revolução, o poder pretende ter o controle sobre as nomeações de bispos (aprovação a posteriori ou a priori).

O fato de que no catolicismo haja o primado do Papa e a centralização da organização da Igreja dotada com um governo e um estatuto de Estado, torna o Estado chinês muito cauteloso, mais do que no caso dos cristãos ortodoxos e especialmente protestantes quando não são episcopais. Isso é verdadeiro no caso do budismo do Grande Veículo tibetano, que promete fidelidade ao Dalai Lama. A China obrigou esse último ao exílio na Índia e escolheu Panchen Lama, um líder temporal muito “compreensivo” em relação ao governo comunista. Trata-se de configurações que a Igreja experimentou na Europa, o que deve permitir-lhe adaptar-se a esta situação. Imputar-lhe o ateísmo ou o anticlericalismo do regime seria ilusório.
O regime age acima de tudo em função dos seus objetivos de controle de sua população. Ele não quer deixar qualquer espaço para possíveis fatores de cristalização da oposição, assim como não deixa espaço para uma “oposição” independente do Partido sobre questões ecológicas, por exemplo. Nos últimos 15 anos, ele liberalizou em grande medida o culto budista, desde que não expresse nenhuma solidariedade com o budismo tibetano.
IHU On-Line - No Congresso do Partido Comunista da China, o presidente chinês disse que continuarão as políticas de combate à corrupção. Hoje, fala-se que embora o governo adote esse tipo de medida, há muita corrupção dentro do próprio governo. Que informações o senhor tem sobre isso? Por que a pauta da corrupção tem sido central para o governo?

Yann Moulier-Boutang - A corrupção na China é uma praga recorrente. O Partido Comunista tomou o poder sendo muito menos corrupto do que o Partido Nacionalista. Sessenta e sete anos de exercício do poder mudaram a situação. O método de resolução das tensões políticas, inevitáveis seja qual for a forma democrática ou despótica de um regime, pode encorajar ou desencorajar a corrupção. Com os princípios de Mao de prioridade conferida à luta de classes (“um se divide em dois”) e inclusive no Partido e no Estado e, portanto, na administração, a corrupção não era bem vista e os ricos deviam se sentir culpados.
Sob Deng e seus sucessores, o conselho dado à população para se enriquecer (Guizot fez o mesmo na França sob a Monarquia de Juillet) levantou a proibição sobre a exibição da riqueza e fez eclodir os milionários (900 novos por ano). Por outro lado, a regra da colegialidade oficial não eliminou as tensões e forçou todos os níveis a encetar uma unanimidade de fachada. Para alcançar esse consenso, a corrupção permitiu suavizar as tensões. Em todos os níveis, do Birô Político aos dez milhões de quadros do Partido, desde esses últimos até os 90 milhões de comunistas, e destes ao bilhão e trezentos milhões de chineses, a corrupção provou ser o lubrificante da máquina e, portanto, um verdadeiro fractal.

Aumento da desigualdade

Se acrescentarmos a isso o fato de que o aumento das desigualdades desde 1978 não foi compensado pela criação de um Estado Providência (uma tímida inflexão nesse sentido só apareceu após 2009), a corrupção tornou-se o modo normal de redistribuição de renda. O presidente Xi foi o primeiro a se dar conta da gravidade do problema e a fazer da luta contra esse fenômeno em todos os níveis a ponta de lança de sua política e um poderoso fator de popularidade para além do Partido. Por que ele teve esta convicção? Pode-se apenas fazer suposições, mas é provável que não seja por simples exigências morais ou pelo cuidado de colocar sob a defensiva os seus adversários políticos. A motivação econômica certamente exerce um papel importante.
De fato, o país deve passar por uma nova fase: após ter sido a fábrica do mundo de produtos de base, a preços baixos, deve ser de luxo, introduzir a robotização, incorporar mais tecnologia e inovação para poder vender mais caro produtos e serviços com alto valor agregado, no momento em que a introdução de um embrião de segurança social, de um sistema de aposentadoria em um país envelhecido pode ter um impacto significativo na remuneração e na competitividade das exportações. A troca que o poder pode propor aos funcionários do setor privado e público é, por um lado, garantir uma vida melhor sem aumentar os salários, graças a uma clara melhoria na vida urbana (especialmente menos poluição), e, por outro lado, consentir um aumento salarial de 30% em troca de maior produtividade dos trabalhadores. Mas se uma grande parte dessas pessoas já obtém uma boa parte desses 30% através da corrupção (e a redistribuição da renda que ela implica), por que você quer que haja um grande entusiasmo para esse esforço e grande zelo para pagar contribuições sociais por um Welfare State consequente? A luta contra a corrupção está se tornando uma passagem obrigatória de uma estratégia industrial de elevação de categoria.

IHU On-Line - No Congresso do Partido Comunista da China, o presidente chinês disse que o partido não irá tolerar visões separatistas, como a de Dalai Lama, nem a reunião de líderes mundiais com o líder espiritual tibetano. Quais são hoje as tentativas de dissidência na China e quais são as razões dessas tentativas?

Yann Moulier-Boutang - A única coisa que eu me permito dizer sobre este assunto tão delicado é que as regiões chinesas, onde há um risco separatista, por menor que seja, representam um desafio considerável para o governo chinês. Mongólia Interior, Xin Qiang, Tibete e o extremo sul da China limítrofe com o Vietnã e o Laos, Mianmar e a Tailândia representam para a China útil e tradicional dos Han desafios estratégicos tão consideráveis (em termos de matérias-primas, terras raras, água, petróleo, gás, carvão) que o Partido tomou muito a sério as políticas de desenvolvimento econômico e de monitorando da população pelos meios mais modernos. O peso demográfico muito baixo dessas Províncias, possivelmente (mas não atualmente) irredentes, é tão pequeno que não acredito que seja uma prioridade ou mesmo um problema muito grave para o governo. Mas posso estar enganado não sendo absolutamente um especialista nestas questões.

IHU On-Line - Considerando o desenvolvimento da economia chinesa nos últimos anos, alguns historiadores têm dito que o comunismo na China é apenas de fachada, porque o país já se tornou um país capitalista e é hoje a segunda maior economia do mundo. Concorda com esse tipo de avaliação?

Yann Moulier-Boutang - Este tipo de julgamento expeditivo me incomoda por duas razões. A primeira é que já se poderia dizer da URSS no seu auge que era uma forma de acumulação de capital, portanto, capitalismo de Estado. Esta classificação feita por “esquerdistas históricos” (os da época de Lênin e da revolução bolchevique), como Gorter e Pannekoek, não levou em conta as observações feitas por Trotsky. Para traduzir a não-redutibilidade da URSS a um Estado capitalista, este último preferiu usar a expressão “Estado Operário degenerado”. E, de fato, como mostrou a desagregação da URSS em 1990-91, esse império não era realmente um país capitalista como os outros. Caso contrário, como explicar que a transição para uma economia de mercado foi tão caótica? A Rússia, a Ucrânia e as repúblicas autônomas da Federação Russa que emergiram também não são países capitalistas como os outros. No caso da China, a fortiori, onde o Partido Comunista não perdeu o poder e mostrou-se capaz de dominar e domesticar o tigre da economia de mercado, falar de capitalismo não ajuda muito. Um otimista como Michel Aglietta diria que o regime chinês tomou o melhor do capitalismo e o melhor do socialismo. Um pessimista poderia facilmente argumentar que o híbrido realizado na China reúne o pior do capitalismo e o pior do socialismo.

Eu acredito que a formulação que o Regime encontrou – “socialismo com características chinesas” – é bastante fiel à realidade, se entendemos por “socialismo” uma forma particular de acumulação de capital e por “características chinesas” a superposição tradicional da autoridade e do poder sem qualquer outro rival: hoje no Partido Comunista, ontem na burocracia e na pessoa do Imperador.
IHU On-Line - Alguns historiadores também têm dito que a China vem se abrindo econômica e politicamente. Em que contexto, como e por que esse processo de abertura iniciou e qual diria que é o grau de abertura econômica e política na China hoje?

Yann Moulier-Boutang - Se a abertura da China é uma previsão determinista que subordina mecanicamente o grau de desenvolvimento político ao da economia, trata-se de uma ilusão enganosa. Parafraseando Keynes, eu diria que a abertura da China a uma perspectiva de democracia liberal representativa ao estilo ocidental é um caso de longo prazo e que, no longo prazo, estaremos todos mortos!

Por outro lado, a China sempre forneceu a ilustração de que dois ou três séculos de estabilidade de uma dinastia podem ser riscados do mapa e dar lugar ao caos. As revoltas na China são violentas e imprevisíveis. Elas podem ter causas endógenas (desigualdades, desastres econômicos, lutas pelo poder das classes dominantes) ou exógenas (invasores do Norte, depois do Oriente e do Sul). E muitas vezes por conjugação desses dois tipos de fatores, como o encontro de duas séries independentes. Na China, como em toda configuração particularmente complexa, pequenas causas podem ter efeitos gigantescos. Pensemos no grão de areia de pequenos separatismos, ou pensemos também na península coreana ou no Mar da China.

IHU On-Line - Qual é o impacto da China na geopolítica, especialmente em termos políticos e econômicos?

Yann Moulier-Boutang - Esta é uma questão muito ampla. Limito-me a dizer que, pelo seu peso econômico atual de segunda maior economia do mundo do ponto de vista quantitativo (a massa do PIB) e por seu futuro de maior economia do mundo em 2035 (mesmo se em termos de PIB per capita a China esteja apenas entre as 15 primeiras potências), este país figura como central e está prestes a ter um peso político, o que até agora tinha feito pouco (isolado sob Mao e confundido com a URSS, modesto sob Deng). Xi Jinping mostrou com a iniciativa das duas novas Rotas da Seda que a China oferecerá ao mundo sua visão e sua concepção de prosperidade. Se para nós, na Europa e nos Estados Unidos, ainda não passa de um programa, para a Rússia, a Índia, o Sudeste Asiático, a América Latina e a África, trata-se de uma realidade de todos os dias.

IHU On-Line - O governo chinês é conhecido por manter um rígido controle sobre a imprensa e à internet, e não tolera dissidências. Qual é a sua leitura sobre a autoridade exercida pelo Partido Comunista nesse quesito e sobre a possibilidade de democracia no país?

Yann Moulier-Boutang - Como todos os regimes que temem que a internet não estatal seja um fator de desordem, a China não poupa seus esforços internamente, mas também na arena internacional, para exigir uma reordenação da web. Como a Rússia de Putin, ela é mais bem sucedida nesta forma, embora não seja certo que os regimes ocidentais sejam exemplares defensores da liberdade da internet. A recente ofensiva de Donald Trump sobre o fim da neutralidade da rede nos Estados Unidos abre a porta para um amaldiçoamento muito mais eficaz dos cibernautas do que o autoritarismo aberto. Não ficaria surpreso se na China o Estado acabasse por dar às suas próprias grandes empresas acesso aos mesmos privilégios e delegasse a elas a caça aos potenciais dissidentes.
IHU On-Line - Como os chineses em geral reagem a esse controle do Estado, e ao fato de muitos chineses que vivem no campo serem considerados estrangeiros dentro do próprio país? Ainda nesse sentido, qual é a adesão da população ao Partido Comunista da China?

Yann Moulier-Boutang - Os chineses têm um ótimo costume de um Estado e de um Partido muito dotado no controle, na censura implícita. Isso os obrigou a serem muito mais reativos, inteligentes e vigilantes entre os ativistas da internet do que o público da Europa ocidental. Há uma corrida constante em relação ao policiamento das palavras-chave, as palavras criptografadas, para despistar os censores ainda muito atenciosos. O problema com um controle capilar do mundo dos internautas chineses é o seu número – mais de 700 milhões de usuários da internet. Cerca de cem milhões de chineses usam línguas estrangeiras. E, como sempre, a censura na China não tem como objetivo proibir qualquer disseminação, mas circunscrever a divulgação de notícias consideradas subversivas a uma elite e impedir que o “bom povo” seja contaminado por más ideias. O único problema é que, dado o número de usuários da internet, a diversidade e a quantidade de informações elaboradas, a censura é forçada a mobilizar muitas pessoas. E a automação desse processo pelo uso de algoritmos de extração de sentidos permite subterfúgios recorrentes e resilientes.

IHU On-Line - Qual é o papel da China no mundo hoje? Alguns falam que ela está emergindo como a única potência mundial e que teria condições de vencer uma guerra mundial. Como o senhor vê a China nesse sentido?
Yann Moulier-Boutang - A China voltou a ser a potência que já era na época do Império Romano, na Idade Média. Seu eclipse manifestou-se apenas no século XIX, mesmo se no fundo ela começou quando perdeu simultaneamente o mundo muçulmano (século XIV-XVI) e a virada da ciência moderna. A China voltou como sujeito da história universal, depois que ela tinha sido o homem doente do Extremo Oriente, o que a Turquia tinha sido no Oriente Médio.

As discussões sobre o papel hegemônico da China parecem-me muito enganosas e interessadas. Esta é a nova forma do “terror amarelo”, visado pelo Japão quando surgiu na década de 1920. O que eu percebo, excetuando a área regional do sul da China, do Mar da China Meridional e da fronteira da Índia com o Vietnã e a península coreana, é que a China desempenha um papel cauteloso e não atiça as tensões. Transtornos internos sérios podem mudar o jogo. Mas, por enquanto, até mesmo o fracasso da estratégia de sedução de Taiwan (devida principalmente à situação em Hong Kong na sequência da “Revolta dos Guarda-chuvas”) não se traduziu em manobras belicosas. Se compararmos a China com a Rússia, o contraste é muito grande.
IHU On-Line - Quais diria que são hoje os principais parceiros da China e, de outro lado, seus principais opositores em termos políticos?

Yann Moulier-Boutang - Os parceiros da China, agora uma grande potência econômica do mundo, são muito numerosos: os Estados Unidos, a União Europeia, a Europa em geral, a Federação Russa, a América Latina, os países da África, particularmente a África oriental, a Índia, o Paquistão, Bangladesh, para não falar do Japão, que investiu fortemente aí, estão fazendo negócios ativamente com ela.
Em termos políticos, é muito diferente. A China suscita sérias preocupações nos Estados Unidos; em alguns países da África e da América Latina teme-se esse “novo imperialismo”.
Podemos comparar a forma da expansão global da China com a colonização holandesa por “feitorias”. Isto significa que o Império do Meio faz, principalmente, comércio e consolida esse comércio através da sua diplomacia. Ela tem pouco de a priori ideológico e leva em consideração as realidades muito mais do que as intenções não seguidas de efeitos.
Os inimigos políticos da China em seu ambiente imediato são a Coreia do Sul (e, pior ainda, a perspectiva de uma Coreia reunificada que se tornaria rival), o Japão, mesmo se as realidades econômicas não coincidem com um imaginário de filmes de guerra (todos se concentrando na guerra de 1937-1945) muito antijaponês. Com o Vietnã e as Filipinas, as relações são tensas pelas disputas territoriais que realmente visam o compartilhamento dos direitos de exploração subaquática de hidrocarbonetos.
IHU On-Line - Qual é a relação da China com país como os EUA e Trump, e de outro lado com países como Japão e Índia?

Yann Moulier-Boutang - A diplomacia chinesa sabia que estava na mira de Donald Trump quando comparada com as relações que existiam com Barack Obama. Mas ela jogou um jogo hábil e pagou.
Ela não enfrentou um adversário cujos conhecimentos econômicos são muito sumários: em suas diatribes contra as deslocalizações da indústria para fora do território americano, Trump não considerou a complexidade da cadeia de valor global que faz com que o coeficiente de importação das exportações norte-americanas garantisse à China os seus mercados de exportação. E, como, além disso, ela quer sofisticar sua indústria, uma limitação voluntária das exportações de produtos básicos com baixo valor agregado só pode acelerar essa transformação. Índia, Paquistão, Bangladesh, Vietnã, Indonésia e Etiópia suportarão a fúria protecionista dos Estados Unidos. Em relação à Coreia do Norte, a China é o árbitro que viu com satisfação o presidente Trump pedir sua ajuda para resolver a questão nuclear, com as condições de uma reunificação das duas Coreias.

IHU On-Line - De outro lado, qual é a relação da China com a América Latina?

Yann Moulier-Boutang - A relação da China com os países da América Latina cresceu muito (como de resto com a África) na última década. Inicialmente, a China representou uma saída para os produtos primários (agricultura, energia) desses países. Rapidamente, no entanto, a China investiu nos setores manufatureiros locais para se tornarem fornecedores da indústria e dos projetos de desenvolvimento da
América Latina. Também implantou vários mecanismos de ajuda econômica através do investimento direto, mas também empréstimos ou ajuda vinculada. De sorte que alguns puderam apontar que a América Latina se tornou menos dependente dos países europeus e norte-americanos para cair na dependência da China. O que é impressionante, no entanto, é a natureza ainda bastante exploratória e muito modesta da cooperação política.
IHU On-Line - Como é para o senhor viver, de um lado, na China, onde há restrições da liberdade de expressão e, de outro, na França, onde a liberdade é um elemento central?

Yann Moulier-Boutang - Conheço as restrições de liberdade e de expressão que existem para os opositores chineses e espero profundamente que desapareçam, porque confio na contribuição de uma oposição liberal de esquerda para o desenvolvimento de uma “democracia com características chinesas”, de um Estado de direito no sentido de Montesquieu, bem como para uma redução das desigualdades e os progressos de uma prosperidade pacífica deste imenso país.

Eu não teria a pretensão e a arrogância de medir a liberdade do povo chinês ou de meus colegas chineses que fazem o mesmo trabalho que eu com a liberdade que desfruto na China como professor, pesquisador e hóspede.

Quando você vai para a China durante dois meses por ano para ensinar, você deve observar uma neutralidade política rígida. Se alguém sente a necessidade de prestar atenção ao que se faz e diz, é uma experiência útil que desenvolve a inteligência. Isso faz com que você compreenda que uma grande parte do mundo pode legitimamente se beneficiar de todos os espaços de liberdade que desfrutamos na Europa, mas dos quais devemos fazer bom uso, ou seja, contribuir para fazer deles um verdadeiro bem comum da humanidade.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Na Ásia, a disputa geopolítica do século, por Pepe Escobar.

Trump e Xi Jinping durante encontro em abril. Iniciativas dos chineses questionam poder imperial americano
Trump e Jinping, em abril de 2017. Iniciativas chinesas questionam poder imperial americano
China investe suas reservas de dólares num projeto gigantesco de infraestrutura. EUA articulam, com a Índia e o Japão, uma resposta — mas podem ter chegado tarde demais…
Por Pepe Escobar | Tradução: Vila Vudu
No contexto do Novo Grande Jogo na Eurásia, as Novas Rotas da Seda, conhecidas como Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) integram todos os instrumentos do poder nacional da China –político, econômico, diplomático, financeiro, intelectual e cultural– para modelar a ordem geopolítica/geoeconômica do século 21. ICE é o conceito que organiza a política externa da China para o futuro que se pode antever; o coração do qual foi posto em termos de conceito antes até do presidente Xi Jinping, como “a ascensão pacífica da China”.
A reação do governo Trump ao fôlego e aos objetivos da ICE foi, pode-se dizer, minimalista. Por hora, resume-se a uma mudança de terminologia, do que antes se conhecia como Pacífico Asiático, para o que hoje se conhece como “Indo-Pacífico”. O governo Obama, até a última visita do ex-presidente à Ásia, em setembro de 2016, sempre falou de Pacífico Asiático.
O Indo-Pacífico inclui o sul da Ásia e o Oceano Índico. Assim, de um ponto de vista norte-americano, implica elevar a Índia ao status de superpotência global ascendente capaz de “conter” a China.
O secretário de Estado dos EUA Rex Tillerson não poderia ter dito em termos mais claros: “O centro de gravidade do mundo está mudando, para o coração do Indo-Pacífico. EUA e Índia – com nossos objetivos partilhados de paz, segurança, liberdade de navegação e uma arquitetura livre e aberta – devem servir como faróis oriental e ocidental do Indo-Pacífico. Como o porto e as luzes de estibordo entre os quais a região pode atingir sem maior e melhor potencial.”
Tentativas para pintá-la como “abordagem holística” podem mascarar uma clara mudança geopolítica de rumo, na qual “Indo-Pacífico” soa como remix “movimento de pivô para a Ásia”, de Obama, estendido à Índia.
Indo-Pacífico aplica-se diretamente ao trecho do Oceano Índico na Rota Marítima da Seda, o qual, como uma das principais rotas de conectividade da China, aparece com grande destaque na “globalização com características chinesas”. Tanto quanto Washington, Pequim é completamente favorável a livres mercados e acesso aberto às mercadorias. Mas isso não tem de implicar necessariamente que, de um ponto de vista chinês, uma rede institucional única, gigante e supervisionada pelos EUA.
“Eurasáfrica”
No que tenha a ver com Nova Delhi, abraçar o conceito de Indo-Pacífico implica assumir um risco de caminhar na corda bamba.
Ano passado, Índia e Paquistão foram incorporados como membros formais da Organização de Cooperação de Xangai, elemento chave da parceira estratégica Rússia-China.
Índia, China e Rússia são países BRICS; o presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, com sede em Xangai, é indiano. A Índia é membro do Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura liderado pela China. E até recentemente a Índia também participava da Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE.
As coisas começaram a se complicar, em maio passado, quando o primeiro-ministro Narendra Modi recusou-se a comparecer à reunião de cúpula da ICE em Pequim, por causa do Corredor Econômico China-Paquistão (CECP), entroncamento chave da ICE e que atravessa o Gilgit-Baltistão e a sensível região que o Paquistão define como Azad Caxemira e a Índia como a Caxemira ocupada pelo Paquistão.
Na sequência, numa reunião do Banco de Desenvolvimento da África em Gujarat, Nova Delhi apresentou-se o que pode ser definido como projeto rival da ICE: o Corredor para Crescimento Ásia-África (CCAA) – em parceria com o Japão. Esse CCAA não poderia ser mais “Indo-Pacífico”, e realmente demarca um Corredor Liberdade no Indo-Pacífico, pago pelo Japão e com o know-how da Índia sobre a África, capaz de rivalizar com – e o que seria? – a Iniciativa Cinturão Estrada.
Por enquanto, nada há além de um já confesso “documento de visão geral” partilhado por Modi e seu contraparte japonês Shinzo Abe para fazer várias coisas em tudo assemelhadas ao que faz a ICE, tipo desenvolver infraestruturas e conectividade digital de ponta.
E com o CCAA vem o Quadrilateral, que o Ministério de Relações Exteriores do Japão divulga como projeto de “uma ordem internacional livre e aberta, baseada no Estado de Direito no Indo-Pacífico.” Mais uma vez se opõe a “estabilidade da região do Indo-Pacífico” e o que Tóquio define como “a agressiva política exterior da China” e “beligerância no Mar do Sul da China”, que gera riscos contra o que a Marinha dos EUA define como “liberdade de navegação”.
Apesar de Xi e Abe terem comemorado um novo início das relações sino-japonesas, a realidade indica outra coisa. O Japão, invocando a ameaça que viria da República Popular Democrática da Coreia, mas, na verdade, temendo a rápida modernização militar da China, comprará mais armas dos EUA. Ao mesmo tempo, Nova Delhi e Canberra estão preocupadíssimas com o massacre econômico militar pelos chineses.
Essencialmente, o CCAA e o Quadrilateral conectam a Política Act East Policy da Índia, e a estratégia japonesa de Free and Open Indo-Pacífico. Se se leem esses dois documentos, não é exagero concluir que a estratégia indo-japonesa visa a constituir uma “Eurasáfrica”.
Na prática, à parte a expansão na África, Tóquio também visa a espalhar projetos de infraestrutura por todo o Sudeste da Ásia, em cooperação com a Índia – alguns que competem ou se sobrepõem à ICE. O Banco Asiático de Desenvolvimento, enquanto isso, pesquisa modelos alternativos de financiamento para projetos de infraestrutura externos à ICE.
No pé em que estão as coisas, o Quadrilateral é ainda obra em progresso, com seu foco na “estabilidade da região do Indo-Pacífico” apostando contra o desejo confesso de Pequim de criar uma “comunidade com futuro partilhado” no Pacífico Asiático. Há razões para que nos preocupemos com a evidência de que essa nova configuração possa realmente evoluir para clara e violenta polarização econômica/militar da Ásia.
Racha no coração dos BRICS
A Ásia precisa de estonteantes $1,7 trilhões por ano, para projetos de infraestrutura, segundo o Banco Asiático de Desenvolvimento. Em teoria, a Ásia como um todo tem muito a ganhar com essa chuva de projetos da ICE chinesa acrescida de mais projetos financiados pelo BDA e conectados ao CCAA.
Considerando o âmbito e o escopo extremamente ambiciosos de toda a estratégia, a ICE largou à frente e tem hoje considerável vantagem de partida. As vastas reservas de Pequim já estão orientadas para investir numa rede asiática gigante de infraestrutura, com o que exportam seu excedente de capacidade para construir e melhoram a conectividade em todo o mundo.
Diferente disso, Nova Delhi mal tem capacidade industrial para atender às necessidades da Índia. De fato, a Índia precisa muitíssimo de investimentos em infraestrutura; segundo extenso relatório, a Índia precisa de pelo menos $1,5 trilhão ao longo da próxima década. E para piorar, a Índia amarga um persistente déficit comercial com a China.
Sucesso tangível provável é o investimento indiano no porto de Chabahar no Irã, como parte de uma estratégia comercial afegã (vide a segunda parte do relatório).
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Além dos projetos de energia/conectividade como o sistema nacional digital ID Aadhaar (1,18 bilhões de usuários) e investimentos numa série de usinas de energia solar, a Índia tem muito que andar. Segundo o recentemente publicado Índice Global da Fome [ing. Global Hunger Index (GHI)], a Índia está em 100º lugar dentre 119 countries pesquisados sobre fome infantil, considerados quatro indicadores: subnutrição, mortalidade infantil, crianças abandonadas e doenças infantis. A Índia está preocupantes sete pontos abaixo da Coreia do Norte. E só sete pontos acima do Afeganistão, o último da lista.
Nova Delhi não perderia se construísse projeto consciente para construir uma parceria de cooperação Índia-China, no quadro dos BRICS. Aí se inclui aceitar que os investimentos da ICE são úteis e essenciais para desenvolver a infraestrutura indiana. As portas continuam abertas. Todos os olhos estão postos nos dias 10-11 de dezembro, quando a Índia hospeda uma reunião trilateral Rússia-Índia-China – em nível ministerial.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Ocidente não sabe nem do cheiro do que a Eurásia está cozinhando Pepe Escobar.

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OCX já é não apenas a maior organização política - por área e por população - do mundo; ela também reúne quatro potências nucleares; o G-7 é irrelevante, como se viu claramente na recente reunião em Taormina
Uma mudança geopolítica tectônica aconteceu em Astana, Cazaquistão, há poucos dias. Pois ainda não se viu nem qualquer mínima repercussão nos círculos atlanticistas.
Na reunião anual da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), fundada em 2001, os dois países, Índia e Paquistão foram admitidos como membros plenos, como Rússia, China e quatro '-stões' da Ásia Central (Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão e Tadjiquistão).
Assim sendo, a OCX já é, não apenas a maior organização política – por área e por população –, do mundo; ela também reúne quatro potências nucleares. O G-7 é irrelevante, como se viu claramente na recente reunião em Taormina. Ação à vera doravante, à parte o G-20, virá desse G-8 alternativo.
Permanentemente desqualificada no Ocidente já há uma década e meia como se não passasse de mero salão de conversas, a OCX, lentamente, mas sem parar nunca, continua a promover um quadro que o presidente Xi Jinping da China qualifica, de forma discreta muito atenuada, como "um novo tipo de relações internacionais com vistas a cooperação ganha-ganha".
É o mínimo que se pode dizer, do grupo no qual se reúnem China, Índia e Paquistão.
A marca OCX, sob o jogo do radar, é muito sutil. A ênfase inicial, quando se entrava no mundo pós-11/9, foi combater contra o que os chineses chamam de "os três males" do terrorismo, do separatismo e do extremismo. Pequim – e Moscou – desde o início pensavam nos Talibã no Afeganistão, e nas suas conexões centro-asiáticas, especialmente por conta do Movimento Islamista do Uzbequistão (MIU).
Agora, a OCX está ativamente alertando para a "deterioração" da segurança no Afeganistão e conclamando todos os membros a apoiar o processo de "paz e reconciliação". É a senha para a OCX, daqui em diante, engajar-se diretamente em encontrar uma solução "completamente asiática" [ing. "all-Asian"] para o Afeganistão – com ambos, Índia e Paquistão também a bordo –, que transcenda o "remédio" sempre fracassado do Pentágono: mais soldados.
OTAN, por falar dela, perdeu miseravelmente a guerra que fez no Afeganistão. Os Talibã controlam hoje pelo menos 60% do país – e continuam a avançar. E para acrescentar insulto supremo a ofensa previsível, o Estado Islâmico do Corasan, EIC – braço do Daech no Afeganistão – acaba de capturar Tora Bora, onde, nos meses finais de 2001, os B-52s do Pentágono insistiam em bombardear Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri, que já estavam muito longe de lá.
Que ninguém se engane: a OCX agirá, sim, no Afeganistão. E essa ação incluirá levar os Talibã à mesa de negociações. A China acaba de assumir a presidência rotativa da OCX e se empenhará para colher resultados práticos a exibir na próxima reunião de cúpula em junho de 2018.
Ponha o pé no gás, pague em yuan
A OCX evoluiu muito também em termos de cooperação econômica. Ano passado, Gu Xueming, presidente da Academia Chinesa de Comércio e Cooperação Econômica Internacionais no Ministério do Comércio, propôs que se faça uma aliança com um think-tank econômico da OCX, também para estudar a implantação de zonas de livre comércio da própria Organização de Cooperação de Xangai.
É movimento que sugere fortemente integração econômica ainda maior – que já está em curso para muitos negócios de pequeno e médio porte. A tendência é inevitável, paralela à interpenetração das Novas Rotas da Seda, também chamadas "Iniciativa Cinturão e Estrada", ICE, e a União Econômica Eurasiana, UEE, liderada pela Rússia.
Assim sendo, nem chega a ser surpresa que, na reunião em Astana, Xi e o presidente Putin mais uma vez tenham promovido a possibilidade de fusão entre ICE e UEE. E ainda não estamos falando do trio ICE, UEE e OCX – o que diz respeito ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, BAII; o Novo Banco de Desenvolvimento, NBD; o Fundo Chinês da Rota da Seda – todo um potente arranjo de mecanismos político-econômicos.
As coisas movem-se com incrível rapidez – em todos os fronts. Numa recente conferência "Future of Asia" em Tóquio, o suposto ferozmente anti-China primeiro-ministro Shinzo Abe anunciou, embora ainda sujeito a muitas condições, que o Japão está pronto a cooperar com a ICE, com seu "potencial para conectar Oriente e Ocidente, e também as diversas regiões que há entre um e outro." Um possível reset China-Japão daria impulso definitivo à interpenetração de ICE, UEE e OCX.
Crucialmente importante é que ambas China e Rússia estão em perfeita harmonia em termos de aprovar rapidamente a admissão do Irã como membro pleno da OCX.
Agora, comparem esse tipo de projeto-ação, com o secretário de Estado "T.Rex" Tillerson a 'exigir' mudança de regime no Irã.
Com a integração da Eurásia avançando inexoravelmente por saltos e elos, o contraste com a proverbialmente pantanosa e repugnante arrogância atlanticista não poderia ser mais flagrante.
Quando Moscou decidiu a favor de agir na tragédia síria e mudar aquele jogo, nenhum analista no ocidente, exceto Alastair Crooke, viu o quanto esse movimento configurava uma espécie de operação 'estilo-OCX'. OK, Irã, Síria e Hezbollah não são membros da OCX, mas o modo como coordenaram seus movimentos com os russos já evidenciava uma alternativa factível, diferente do imperialismo 'humanitário' da OTAN e das aventuras tipo 'mudança de regime'.
O mecanismo "4+1" – Rússia, Irã, Iraque, Síria e Hezbollah – silenciosamente apoiado pela China foi instituído para combater todas as formas de terrorismo jihadista salafista e, ao mesmo tempo, para prevenir qualquer tentativa de 'mudar o regime' em Damasco – sonho molhado da OTAN-CCG.
Agora, com a estrambótica política exterior de Trump, em que nada se coordena com coisa alguma, exceto com provocar o Irã, ambos os países, Rússia e China, compreendem como é realmente chave que o Irã torne-se, sem demora, membro pleno da OCX.
Pequim já compreendeu, via suas relações com o Qatar – fornecedor chave de gás natural –, as apostas extremamente altas de o Qatar, mais dia menos dia, aceitar pagamento em yuan, pela energia.
O silencioso movimento de pivô do Qatar na direção do Irã – razão chave que enlouqueceu completamente a já encurralada Casa de Saud – tem tudo a ver com a exploração em comum do maior campo de gás do mundo, North Dome/South Pars, que os dois países partilham no Golfo Persa.
Divulgação

Reunião da OCX aconteceu no começo do mês de junho em Astana, no Cazaquistão

Demorou um pouco para que Doha se desse conta de que, depois que os "4+1" estabeleceram fatos em campos, um gasoduto do Qatar até a Turquia via Arábia Saudita e Síria até o mercado europeu jamais acontecerá. Ancara também sabe disso. Mas pode talvez eventualmente haver um gasoduto Irã-Iraque-Síria – mesmo com uma possível extensão para a Turquia —, de gás fornecido conjuntamente pelo campo North Dome/South Pars.
Esse evento revolucionaria toda a equação da energia no Sudoeste da Ásia; e a hegemonia do petrodólar pode bem ser principal 'dano colateral' nesse quadro, o qual Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos aceitam devidamente.
Imaginem Qatar/Irã vendendo seu futuro gás para a Europa em euros, não em dólares norte-americanos, bem como os chineses que passarão a pagar em yuan, a energia que comprarem do Qatar – e da Arábia Saudita.
Que ninguém se engane: o futuro – inexorável – indica que o comércio de energia deixará de ser feito em petrodólares, para ser feito em yuan, moeda que pode ser convertida em ouro.
Longa vida ao novo Califado
Jamais será demais destacar a importância da parceria estratégica Rússia-China coordenando todas as suas políticas para a integração da Eurásia, inclusive com os incansáveis esforços, pelos suspeitos de sempre, para impedir que a integração aconteça.
Durante a primeira metade de 2017, a hipótese de trabalho de Moscou e Pequim foi que o governo Trump teria interesse em assumir a Rússia como parceira para novos projetos de petróleo e gás na Eurásia. Ideia de traços Kissingerianos, sugerida a Trump, a parceria estratégica Rússia-China seria assim enfraquecida, com Washington aumentando a pressão em múltiplas frentes, sobre Pequim.
Bem, talvez não aconteça já – se se considera a enlouquecida vasta histeria anti-Rússia que consome o governo dos EUA.
O que continua é a Guerra Global ao Terror, GGaT, corolário da política de Trump: conter – por todos os meios necessários – e impedir que avance a influência já crescente do Irã em todo o Sudoeste da Ásia. Para isso, é preciso inflar o poder geopolítico do CCG – comandado pela nociva Casa de Saud.
Isso explicaria o surto entusiástico de Trump, no Twitter, a favor da guerra relâmpago da Casa de Saud contra o Qatar – que se desdobra em movimento contra o Irã. Pequim, por sua vez, observa de perto, e já identificou a coisa pelo que realmente é: tentativa de perturbar o avanço das Novas Rotas da Seda.
Ao mesmo tempo, Pequim e Moscou não podem deixar de observar com gosto as flagrantes inconsistências. O Pentágono não parece inclinado a anexar o resto do Qatar; bastam a base aérea Al Udeid e o quartel-general do Centcom. O chefe do Pentágono, Mattis "Cachorro Louco" adorou vender $12 bilhões em F-15s para Doha "apoiadora de terroristas". Trump "apoia" a Casa de Saud. Mattis "Cachorro Louco" "apoia" Doha. Tillerson declara-se superior e abre mão de escolher lado.
O CCG como o conhecemos pode já estar morto e enterrado – como também o embrião de 'OTAN Árabe' que Trump tanto festejou com aquela patética dança das espadas em Riad. Mesmo assim, Moscou e Pequim – como também Teerã – estão perfeitamente conscientes de como esses revezes só farão exacerbar o ambiente no Excepcionalistão, codinome, o pântano; codinome, o estado profundo; para que subam as apostas e os riscos, e continuem a gerar conflito e tumulto.
O Califato no deserto do "Siriaque" está morto – especialmente se os russos confirmarem que o próprio Califa foi-se mandado encontrar o Criador. Não é bom – porque uma Síria totalmente desestabilizada seria excelente para desestabilizar a Rússia, do Cáucaso à Ásia Central; a inteligência russa sempre se concentrou naqueles 900 km, de Aleppo a Grozny.
Como o Terminator, o estado profundo dos EUA voltará. Um sonho molhado ampliado ainda é criar as condições para a desestabilização de vasta faixa, do Levante ao Sul da Ásia — com possíveis futuras ondas de terror a se expandirem para o norte da Rússia e leste, para a China. O alvo: a interpenetração de ICE, UEE e OCX.
Para completar, o Pentágono recusar-se-á a abandonar o Afeganistão – cabeça de ponte para gerar tumulto e caos na Ásia Central. O que poderia talvez dar errado?! Afinal, o Daech está virtualmente plantado na Ásia Central, não distante de Xinjiang e do Corredor Econômico China-Paquistão (CECP) – nodo chave da Iniciativa Cinturão e Estrada.
Ainda assim, a guerra relâmpago dos sauditas contra o Qatar – que parece estar continuando – pode, no médio prazo, precipitar uma mudança sísmica, acelerando a entrada para a Organização de Cooperação de Xangai, do Irã e também da Turquia; consolidando o movimento de pivô de Doha na direção de uma entente com Rússia e Irã; e antecipando golpe grave na hegemonia do petrodólar. Tudo isso deve ter sido discutido em detalhes na reunião de cúpula da OCX em Astana – sobretudo no encontro bilateral Putin-Xi.
Com o Excepcionalistão mais errático a cada dia, todas as decisões estratégicas chaves ficarão para Xi-Putin – e ambos sabem disso. Certo é que a OCX com certeza se envolverá mais e mais profundamente nas ações para proteger o projeto chave do jovem século 21: a integração da Eurásia.

sábado, 27 de maio de 2017

Vem aí uma Globalização chineza? por Pepe Escobar.

Xi elogiou o mestre da navegação da dinastia Ming, almirante Zheng He – como "emissário amistoso" – antes de oferecer uma metáfora da nova ordem comercial mundial que acabava de delinear.
“Xi elogiou o mestre da navegação da dinastia Ming, almirante Zheng He, antes de oferecer uma metáfora da nova ordem comercial mundial que acabava de delinear”
Pequim lança Nova Rota da Seda, megaprojeto de infraestrutura que terá enorme impacto na Ásia e chegará à Europa Ocidental. Presidente Xi afirma que não se trata de neocolonialismo disfarçado
Por Pepe Escobar
O presidente Xi Jinping invoca heróis da dinastia Ming, estratégias geopolíticas de desenvolvimento e analogias com os gansos selvagens asiáticos para retratar a iniciativa chinesa Novas Rotas da Seda como nave madrinha de uma nova ordem mundial focada no comércio.
O presidente Xi Jinping usou o Fórum Internacional Nova Rota da Seda, de dois dias, em Pequim, para fixar a China como a nave madrinha de nova ordem mundial benigna, focada no comércio. Esse é, disse Xi, um “novo modelo de ganha-ganha e cooperação” que prevalecerá sobre a diplomacia dos canhões.
No início da conferência, a rede estatal chinesa Xinhua cuidou de esclarecer que a iniciativa – oficialmente chamada, antes, de “Um Cinturão, Uma Estrada” [ing. One Belt, One Road (OBOR)] e chamada agora “Iniciativa Cinturão e Estrada” [ing. Belt and Road (BRI)] — nada tinha de “neocolonialismo disfarçado”.
“A China não carece de estados fantoches” – disse Xinhua, repetindo, na essência, o que Xi disse em seu discurso histórico.
“A China quer partilhar sua experiência de desenvolvimento com o resto do mundo” – disse Xi –, “mas não intervirá nos assuntos internos de outros países, não trabalhará para exportar nosso sistema social e nosso modelo de desenvolvimento, nem forçará outros países a aceitá-los.”
O Comunicado que o Fórum distribuiu – um resumo dos pontos principais do discurso de Xi – registrava que as nações representadas em Pequim comprometiam-se a promover “cooperação prática por estradas, ferrovias, portos, vias marítimas e internas de transporte por água, aviação, oleodutos e gasodutos de energia, eletricidade e telecomunicações “.
170516-China
O Big Business também estava lá representado e, pelo que se diz, entusiasmadíssimo.
Jack Ma de Alibaba, tão comprometido com promover uma Plataforma eletrônica de Comércio Mundial, falou à mídia chinesa durante o Fórum e saudou o movimento da iniciativa BRI para “incluir jovens, mulheres, empresas pequenas e países em desenvolvimento.”
No último dia do Fórum, Pequim construiu até uma espécie de Nações Unidas da Nova Rota da Seda, no formato de uma Mesa Redonda de Líderes, com microfones igualmente abertos e acessíveis a todos. O evento foi ilustração elegante e cheia de estilo de como Xi deseja que o mundo veja a iniciativa chinesa.
“A intenção primária e mais alto objetivo da ‘Iniciativa Cinturão e Estrada'” é permitir que cada membro se associe ao processo de enfrentar os desafios econômicos globais, encontre novas oportunidades e motores de crescimento, alcance situação de ganha-ganha e continue a andar na direção de uma comunidade com destino coletivo” – disse Xi.
Xi elogiou o mestre da navegação da dinastia Ming, almirante Zheng He – como “emissário amistoso” – antes de oferecer uma metáfora da nova ordem comercial mundial que acabava de delinear.
“Os gansos-cisnes selvagens“, disse ele, de uma grande ave selvagem, rara, encontrada na Ásia, mas não na Europa” – voam muito longe e em plena segurança vencendo ventos e tempestades, porque voam em bandos e ajudam-se uns os outros, como equipe.”
Monte num cisne selvagem
Não há dúvidas de que as Novas Rotas da Seda encontrarão turbulência pela frente. No Fórum, a ministra de Economia e Energia da Alemanha, Brigitte Zypries, ameaçou não assinar o comunicado final, se não houvesse firmes garantias para livres concorrentes – sem favoritismos para empresas chinesas – relacionados a outros projetos futuros de OBOR/BRI.
Sim, mas… em termos de expansão/exploração/construção de ferrovias, quem poderia competir com a China?
Trens de carga partem já regularmente da China oriental e da China central, atravessando as estepes da Ásia Central e apontam pontualmente a milhares de quilômetros de distância em 17 dias, antes de chegar a Londres, Madrid, Duisburg ou Lyon. Partem lotados de produtos domésticos, roupas e peças de reposição de maquinário, e voltam com produtos químicos, vinhos e produtos para bebês.
É duas vezes mais rápido que o comércio por mar, ainda que um trem de carga carregue menos de 100 contêineres, comparados com os mais de 20 mil que viajam por navios cargueiros. Mas o que realmente interessa é que até aí é só a primeira perna de uma futura rede de ferrovias para trens de alta velocidade que ligarão o leste da China à Europa via a Ásia Central.
Estão previstas no plano de expansão também parcerias público-privadas. Por exemplo, o primeiro ramo da Ferrovia Rota da Seda, que liga Chongqing a Duisburg, foi promovida na verdade, há seis anos passado, não por políticas de Pequim, mas pela gigante Hewlett-Packard do Vale do Silício, para embarcar milhões de notebooks para a Europa, por trem.
Mas agora a política da China avança rapidamente por toda a Europa. No Fórum, a Europa Oriental estava pesadamente representada e a região está sendo ajudada por um fundo criado há três anos, para investir, inicialmente, US$10 bilhões de euros.
Ano passado, China Everbright comprou o aeroporto de Tirana, na Albânia. O China Exim Bank está financiando a construção de rodovias em Macedônia e Montenegro. Em 2014, China Road & Bridge Corporation construiu uma ponte sobre o rio Danúbio em Belgrado, a chamada “ponte da amizade sino-sérvia”, a maior parte da qual foi financiada pelo China Exim Bank.
E há a ferrovia de trens de alta velocidade entre Atenas e Budapeste, via Macedônia e Belgrado. O ramo crucial Budapeste-Belgrado – não liberado pela União Europeia – deve entrar em operação finalmente ainda esse ano.
Mais uma vez, a geoeconomia empurra a geopolítica. Ao investir num corredor do Mar Egeu até a Europa Central, Pequim estará estimulando ativamente o comércio a partir do famoso porto grego de Pireu, que na verdade já está sob controle chinês desde 2010.
E agora a batalha por soft power
Zhou Wenzhong, secretário-geral dos fóruns regionais de negócios de alto nível, o Boao Forum para Ásia, fala das Novas Rotas da Seda como “a resposta da China à globalização”. Mas é realmente mais que isso. É realmente a visão do novo mundo. Visão composta de tantas partes, todas em movimento constante, que até agora continua difícil de definir.
Xi usou o Fórum para tentar esclarecer o conceito, mas verdade é que só as condições e circunstâncias em campo definirão as diferentes estratégias no futuro. Incluirão, para cada projeto, coordenação política e de financiamento que tenham potência para empurrar a iniciativa além de um boom de infraestrutura.
O Fórum já deixou claro como atores muito significativos disputam posições. Já se observa surto de competição entre Hong Kong e Londres sobre quem será a fonte privilegiada de financiamento. Enquanto Hong Kong mantém-se como centro offshore número um do mundo para compensações em yuan, o chanceler britânico Philip Hammond já enfatiza que Londres continua a ser o principal centro financeiro do mundo, insuperável para prover as necessidades “de banking internacional” das Novas Rotas da Seda.
A revoada dos gansos-cisnes já começou. A próxima grande pergunta é com que ênfase as Novas Rotas da Seda reescreverão as regras do jogo do comércio global, sem agitar demais atores ultrassensíveis, como a Índia. Mas é bem aí que se insere o chip do soft power.
Agora, os gansos-cisnes de Pequim começam a trabalhar para seduzir o Sul Global e trazê-lo para uma parceria irresistível que transcende o mero comércio