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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A estrela de Macron começa a perder o brilho?, por Milagros Pérez Oliva.

STEPHANE MAHE REUTERS
A súbita queda de popularidade acendeu todos os alarmes de uma presidência sustentada pela comunicação.

Estaria Emmanuel Macron perdendo o estado de graça após três meses de sua chegada ao Palácio do Eliseu? Uma pesquisa do instituto Ifop mostrou esse sinal de preocupação no governo. Realizada entre 17 e 22 julho, a sondagem constatou uma perigosa queda de 10 pontos em apenas um mês. O grau de aceitação do jovem presidente passou de 64% a 54%, e isso que ainda não lançou suas medidas mais polêmicas, como a reforma trabalhista ou as mudanças de status de aposentados e funcionários. É a segunda maior queda de popularidade nos primeiros cem dias de mandato de um presidente, depois da sofrida por Jacques Chirac em 1995, e talvez esta coincidência não seja uma casualidade.

Tanto Chirac quanto Macron se beneficiaram de uma concentração inusual de votos emprestados para frear a ameaça ultra direitista dos Le Pen. Os analistas políticos comentam agora os sinais demográficos, tentando entender se é o caso de uma volta ao princípio de realidade ou se, pelo contrário, a erosão de Macron se deve a uma nova característica, mais peculiar e imprevisível, dos novos tempos: a absoluta volatilidade dos estados de ânimo e das preferências dos cidadãos.

Os recentes casos de corrupção afetaram sua equipe, o conflito com um Exército que reclama pela falta de melhores condições como em outros tempos, ou a inquietude pelas reformas anunciadas podem ter algum peso nessa queda de Macron. Se for assim, tudo pode piorar quando a parte dura do programa comece a ser aplicada. Mas o próprio diretor do Ifop, Jérôme Fourquet, se pergunta se a queda tem a ver com uma presidência baseada na comunicação. Ninguém discute a capacidade de Macron neste aspecto. Sem essa habilidade, por muitas que sejam as circunstâncias favoráveis, não se explica que alguém que era praticamente desconhecido há três anos pudessem ser hoje o presidente mais jovem da França. Embora ele tenha méritos dialéticos, e muitos recordam sua intervenção no debate eleitoral, no qual afundou Marine Le Pen ao mostrar que era uma candidata que se atrevia a falar de temas que não conhecia totalmente, em especial a economia.

A campanha de Macron se baseou numa combinação deliberadamente ambígua de mensagens que visavam debilitar o fenômeno Le Pen e fazer com que muitos pudessem votar por ele por diferentes razões. Inclusive opostas. Tudo foi minuciosamente estudado para cultivar as emoções positivas e levar a imagem idílica de uma França forte e confiante até o máximo. Seus primeiros passos no Eliseu também foram orientados a projetar sua figura de jovem presidente-imperador repleto de entusiasmo juvenil, como mostrou recentemente em Barcelona o cineasta Costa Gravas. O diretor provavelmente mais politizado da cinematografia francesa não esconde sua admiração por Macron e sua habilidade para conectar com esse espírito tão disseminado do “francês que quer ser revolucionário sem deixar de ser burguês”. Mas a equação pode se romper quando muitos se vejam na iminência de perder o bem-estar e as seguranças burguesas em detrimento da modernidade líquida que Macron encarna. O tempo dirá.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Xi Jinping não perde tempo, por Pepe Escobar.


Chinese President Xi listens to U.S. President Obama during joint news conference in the Rose Garden of the White House in Washington
Presidente chinês aproveita confusão aberta em Washington, com eleição de Trump, e lança vasta ofensiva diplomática na Ásia, Europa e América do Sul
Por Pepe Escobar
Em capítulo ainda mais espetacular de sua saga reversa à Marco Polo, o presidente Xi Jinping da China fez, em 16/11, uma parada estratégica na Sardenha, Itália, em sua rota para participar da reunião de cúpula da Cooperação Econômica do Pacífico Asiático [ing. Asia-Pacific Economic Cooperation, APEC]) em Lima, Peru.
Por que a bela Sardenha? Com certeza não para cruzeiro em iate pela Costa Esmeralda. Trata-se, mais uma vez e sempre, das Novas Rotas da Seda puxadas pelos chineses.
A Huawei está construindo seu maior quartel-general europeu na Sardenha. Os chineses querem comprar o porto de Cagliari. E o fabuloso Pecorino sardo – sério aspirante ao título de melhor queijo de cabra do planeta – oferecido em pó, já está alimentando milhões de bebês chineses.
Como espécie de bônus extra, Xi Jinping, “Marco Polo da China”, exortou seus compatriotas, pela TV nacional chinesa, a investir numa maciça invasão turística na Sardenha. Agora, é disso que trata qualquer pacote de estímulo na Europa.
Enquanto isso, o presidente Obama pato-manco, também a caminho da cúpula da APEC, está na Alemanha passando o bastão de “líder do mundo livre” a Angela Merkel, mais desentendida que veado surpreendido pela luz dos faróis. Os faróis atendem pelo nome de Donald Trump.
TTP enterrado a sete palmos de profundidade

A imagem de um Xi efervescente ao lado de um Obama reduzido a pó de traque, contra o pano de fundo da costa do Pacífico sul-americano, será impagável. Longe vão os anos 1990s, quando Bill Clinton comandava a APEC e lhe aplicava o sinete da agenda dos EUA. Agora o Pacífico Asiático tem de se entender não só com a
Trumponomics protecionista, mas também com o fato de que a Parceria Trans-Pacífico (TTP), que Obama tanto prezava – o braço mercantil do “pivô para a Ásia” – está morto e enterrado, para todas as finalidades práticas.
A equipe de transição de Trump, comandada por Mike Pence, aconselhou o presidente eleito a enterrar a Parceria Trans-Pacífico (que reuniria os EUA mais 11 países de todo o anel do Pacífico), sem mais delongas, logo nos primeiros 100 dias de governo. O  mapa do caminho vai ainda mais longe e aconselha Trump a esquecer também o Acordo de Livre Comércio da América do Norte [ing. NAFTA], a menos que uma longa lista de “concessões” sejam atendidas.
Aliados abatidos dos EUA – sobretudo Japão, Cingapura, Austrália e Nova Zelândia – que contavam com a ascensão de Hillary e a entronização da Parceria Trans-Pacífico, estão decididos a trabalhar em reuniões “secretas” no Peru, para construir um artigo revisto. Para isso, será preciso assumir que os republicanos no Congresso podem concordar com que Trump conduza algum tipo de renegociação.
Há também a – distante – possibilidade de uma taxa de corte, excluindo os EUA. EUA e Japão respondem por cerca de 60% do PIB somado dos países da TTP. A TTP sem os EUA vira outro bicho, absolutamente diferente.
E isso nos leva à sutil contraofensiva de Pequim: promover a liga anti-TTP, na linha da Parceria Econômica Regional Compreensiva [ing. Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP). O leste da Ásia, Japão e Malásia, além da Austrália não asiática – três atores chaves – apoiam a RCEP.
Apesar de o relacionamento Trump-China poder sempre acabar nos proverbiais mares tenebrosos, Pequim já pode ter certeza que o braço mercantil do pivô para a Ásia, que excluía a China, já é história.
Aqui, a palavra oficial, do vice-ministro de Relações Exteriores da China Li Baodong: “A China acredita que devemos fixar um plano de trabalho novo e muito prático, para responder positivamente às expectativas da indústria, manter o atual impulso e estabelecer uma área de comércio no Pacífico Asiático, e sem demora.” Nada de TTP; mais parecida com a RCEP.
Todos aqueles resets

Um novo acordo comercial do Pacífico Asiático representará, definitivamente um reset nas relações EUA-China.
Há também aquele outro reset crucial: com a Rússia.
O chefe pato-manco do Pentágono, Ashton Carter, “aconselhou” Trump e a equipe dele a não cooperar com a Rússia na questão da Síria. Foi solenemente ignorado.
O vice-ministro de Relações Exteriores, Sergey Ryabkov, disse que Moscou não quer cooperação. Mas disse também que Moscou não cogita de “persuadir a liderança do Pentágono a modificar qualquer coisa relacionada a isso.”
Tradução diplomática: Vocês – o governo Obama – no que diga respeito à Rússia, estão mortos.
Assim sendo, haverá um reset. Será extremamente complicado, e em bases trumpianas de acordo-a-acordo: expansão da OTAN para as fronteiras da Rússia; Crimeia; defesa de mísseis dos EUA; tentativas de revoluções coloridas. Dirá respeito a toda a Eurásia. E começará com cooperação na Síria.
Pequim e Moscou chegaram à conclusão de que Trump não é ideólogo (à moda dos neoconservadores): é homem pragmático. São inevitáveis os resets. Bem como algumas surpresas.
Trump pode estar inclinado a que os EUA incluam-se no Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), furiosamente demonizado pelo moribundo governo Obama. O projeto de Trump, 1 trilhão de dólares para infraestrutura é coisa que a China já faz – iniciado no final dos anos 1990s. Ellen Brown tem uma sugestão: imprima dinheiro e construa toda a infraestrutura de que você precisa.
Um eventual acordo EUA-Rússia na Síria beneficiaria, afinal de contas – e quem poderia ser? – a China. Espelhando-se na Rota da Seda original, a China vê a Síria como nodo crucial das Novas Rotas da Seda, atualmente bloqueado. Imaginem um dia, em futuro não muito distante, em que Xi desembarcará em Damasco para assinar acordos comerciais. E requererá pacote de estímulos para que turistas chineses possam visitar uma Palmyra restaurada…