Marcadores

Mostrando postagens com marcador REVOLUÇÃO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador REVOLUÇÃO. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

E se o Haiti se levantar de novo?, por Outras Palavras


O país onde os escravos africanos primeiro tomaram o poder; a nação humilhada por uma intervenção internacional que já dura 15 anos está em pé de guerra. Por que?
Manifestantes tomam as ruas da capital do Haiti | Foto: Jeanty Junior Augustin
Por Lautaro Rivara | Tradução: Felipe Calabrez
O clima social está esquentando no Haiti, enquanto as frustrações sociais se acumulam em um barril de pólvora que nunca é desativado. Depois das intensas mobilizações do ano passado, com epicentros maciços e radicais nos meses de julho, outubro e novembro, a trégua tácita no final do ano deu lugar a um período natalino materialmente pobre, porém tranquilo. Mas as festividades não foram mais que o um breve interlúdio, Em breve recomeçariam as batalhas contra o alto custo de vida, a corrupção endêmica, a crise social e econômica e a ausência de um modelo de nação para a primeira república independente surgida na História deste lado do Rio Bravo. Os protestos já ocorrem há oito intensos dias e nada parece indicar que cessarão.
Os primeiros sintomas deste novo ciclo de protestos apareceram quando jovens insatisfeitos com a ação policial em uma disputa de terras incendiaram a delegacia de polícia na cidade de Montrouis, no departamento de Artibonite.
A resposta, previsível, foi a rápida militarização de uma cidade pacífica. No dia seguinte ao incidente, as forças especiais dos Corpos de Intervenção e Manutenção da Ordem (CIMO) já estavam fazendo sua longa siesta em frente ao mercado da cidade, e ninguém conseguia se lembrar de como haviam chegado lá ou com qual propósito. Mas logo o conflito começou a se multiplicar em diferentes áreas do país até o dia explosivo de 7 de fevereiro, aniversário da fuga do país do ditador Jean-Claude Duvalier. Desde então começaram a se combinar todo o repertório de ações de rua imagináveis: concentrações esporádicas, imensas mobilizações espontâneas, caravanas de motos, greves de transportadores, a queima de delegacias de polícia e prédios do governo e, sobretudo, milhares de barricadas que rapidamente tomaram a capital e os dez departamentos do país.
***
Há semanas a escassez de combustível não para de se agravar. As longas filas se formavam nos postos de gasolina deram lugar a portas fechadas e a pistas vazias, sem carros ou transeuntes. Os últimos litros de circulação legal foram engolidos pelo contrabando, e agora só é possível obter combustível nas ruas, depois de negociações árduas e a preços impossíveis. Nestas escaramuças está o pequeno consumidor, que arca com toda a perda — desde o motorista que precisa ligar sua motocicleta para comprar seu consumo diário de arroz com feijão, até a vendedora que precisa acender su mechero para continuar suas vendas no varejo nas horas sem sol As causas da escassez têm a ver com os empréstimos contraídos pelo deficitário Estado haitiano, que deve pagamentos milionários à empresa que concentra as importações. Os monopólios, sem remorsos, acertam contas esmagando os dentes de toda a população com o poder de paralisar o país. As ruas estão quase vazias e os preços de todas as coisas, desde o transporte até a comida, estão nas nuvens. A economia diária é desfeita, e a rotina daqueles que lutam por sua subsistência no país mais pobre (ou melhor,  empobrecido) de todo o hemisfério está paralisada.
***
Enquanto a agenda internacional volta todos seus holofotes para a golpeada Venezuela, a grave crise haitiana passa, uma vez mais, praticamente despercebida. E às razões do isolamento sofrido pela nação caribenha, onde fatores políticos e econômicos são ainda mais decisivos que sua condição insular ou sua singularidade linguística, acrescenta-se um fato fundamental. O ensimesmado governo nacional de Jovenel Moïse, atravessado por oito dias de protestos e rejeitado por praticamente todos os setores da vida nacional haitiana, acaba de sinalizar um alinhamento à diplomacia de guerra dos EUA, reconhecendo junto à OEA a legitimidade do auto-proclamado Juan Guaidó, o “Cão branco”, como foi chamado o “presidente” recentemente ungido pelo Departamento de Estado.
A política abstencionista que o Haiti vinha mantendo com outras nações do Caribe tinha sido determinante para evitar que os Estados Unidos e o Grupo de Lima expulsassem a Venezuela desse organismo inter-regional, em fevereiro de 2018. A política pragmática e mendicante de Moïse, no entanto, dificilmente poderia ser confundida com a afinidade ideológica com o socialismo do século XXI. Puxado do cinturão, Moïse voltou rapidamente ao redil, traindo os laços históricos do país com a Venezuela e, especialmente, a política generosa mantida por Hugo Chávez Frias e a plataforma de integração energética Petrocaribe desde 2005.
Portanto, hoje quase ninguém aponta que, se é para combater emergências humanitárias, êxodo migratório, insegurança alimentar, repressão estatal e ausência de democracia, o foco de preocupação deve ser o Haiti devastado e os olhares cautelosos sobre sua classe política e seus adereços internacionais. Mas é evidente, dado o apoio irrestrito dos Estados Unidos ao apartheid israelense ou o regime desordenado da monarquia absolutista saudita, que o objetivo é garantir a exploração do petróleo bruto venezuelano e completar o processo de recolonização continental inaugurado com o golpe em Honduras exatamente uma década atrás. Os demais são apenas álibis mais ou menos imaginativos, como as armas de destruição em massa do Iraque ou o patrocínio do terrorismo por Cuba.
A esta ressonante indiferença à crise haitiana devemos acrescentar uma explicação ligada ao racismo secular de um mundo colonialmente estruturado desde os tempos da escravidão das lavouras e do comércio triangular. O racismo que faz com que vários setores, mesmo progressistas ou “esquerdistas”, se deslumbrem com a “elegância” com que brigam nas ruas de Paris milhares de coletes amarelos (certamente dignos), mas desprezem as batalhas desesperadas de um povo negro e do terceiro mundo que não parou de mobilizar centenas de milhares, e até milhões, desde a revolta popular de julho de 2018
***
A palavra “ladrão” tem no crioulo, a língua nacional dos haitianos, uma conotação muito mais forte do que em outras línguas continentais, como português, espanhol e inglês. Não é um termo de uso frequente ou uma palavra de conotações leves. O roubo é considerado uma ofensa grave para toda a comunidade. Por isso, em algumas áreas rurais ainda é severamente punido, com métodos de justiça auto-geridos pelas próprias comunidades. É por isso que caracterizar o presidente da república e toda a classe política como ladrões vis, é um fato menos frequente e ainda mais significativo do que em muitos dos nossos países. A acusação está relacionada ao desvio de fundos públicos, comprovado pelo Senado haitiano e investigado pelo própio Tribunal Superior de Contas, que acusa altos funcionários do atual governo e do governo presidencial anterior de Michel Martelly. A soma dilapidada pela classe política local, em conluico com diversas corporações, é de cerca de 3,8 billhões de dólares, destinados a atender às necessidades infra-estruturais infinitas do país. São fundos que a Revolução Bolivariana concedera generosamente no âmbito dos programas de desenvolvimento da Plataforma Petrocaribe.
Se a essa corrupção endêmica adicionamos a delicada situação da economia e da sociedade haitiana, podemos facilmente compreender o rancor acumulado e desejo de transformação social, expressos nas ruas por meio de um mosaico que contraditoriamente expressa a união e setores políticos, urbanos e rurais, eclesiásticos e empresários, conservadores e radicais. Alguns indicadores econômicos podem nos ajudar a resumir rapidamente a situação: a desvalorização da moeda nacional, o gourde, de 20% ao longo de 2018; inflação de dois dígitos que alguns analistas estimam na ordem de 14 ou 15%; o desperdício de recursos públicos em gratificações de todos os tipos absorvidos pela classe política; má gestão econômica de um Estado que não tem sequer um orçamento oficial desde que foi retirado o previsto para o ciclo 2018-2019 ; os níveis alarmantes de desemprego e a completa informalidade do mundo do trabalho; a ruína pronunciada da produção agrícola; o contínuo êxodo de jovens, expulsos do campo para a cidade e de lá para países onde são discriminados e sobre-explorados; e, finalmente, a fome que assola quase 60% da população.
***
Um carro blindado das Nações Unidas, conduzido por militares estrangeiros, perdeu o controle e bateu em um tap tap, o meio popular de locomoção haitiana. O saldo, trágico, foi de quatro mortos e nove feridos. Um acidente involuntário, sem dúvidas. Mas o espanto e raiva dos cidadãos comuns não parece ser devido à inexperiência do condutor, mas à incapacidade de entender por que um carro blindado, um veículo de guerra, circula ameaçadoramente por um país pobre, sem forças armadas e que não representa uma ameaça para a segurança de países terceiros. Há 15 anos começou a chamada pacificação do Haiti, liderada pelas Nações Unidas e consagrada na intervenção de uma força militar e civil multilateral, a MINUSTAH (agora MINUJUSTH). Mas hoje, a principal ameaça para a população, em vez de insegurança local (baixa, se comparada com o resto da região), e até mesmo mais do que o poder representado pelas suas próprias forças policiais, é a presença de forças de ocupação. Abusos sistemáticos contra as mulheres dos chamados “guetos”, entre 7000 e 9000 mortes pela epidemia de cólera trazida ao país por um contingente de soldados nepaleses, e um número desconhecido de jovens mortos nas favelas, são contados da capital Port-au-Prince. No Haiti, como poderia acontecer na Venezuela, a chamada “ajuda humanitária” nada mais é do que um excelente álibi para violar a soberania territorial de nossas nações.
***
Dez mortos já reconhecem as forças policiais. Cerca de meia centena e igual número de feridos, afirmam enfaticamente setores da oposição e movimentos sociais. Nos últimos dias, as ruas e redes sociais mostram uma série de imagens escabrosas. Jovens e crianças deitadas, morrendo, nas ruas da capital. Um militante popular resgatado por seus colegas, depois de ser abatido por uma bala policial nas proximidades do parlamento. Uma densa fumaça preta que cobre a cidade quase permanentemente, gerando um clima irrespirável. O mercado de Croix-des-Bossales, mil vezes incendiado, mil vezes reconstruído, novamente reduzido a um emaranhado de ferro retorcido. Mas também há, sem dúvida, imagens heróicas, com esse heroísmo típico de pessoas simples, sem ter para onde correr, que se encorajam. Estar nas ruas do Haiti hoje é muito mais que uma opção política e um gesto de coragem: é uma necessidade vital, o cross desesperado de um povo contra as cordas. Homens em cadeiras de rodas ou com muletas marchando ao sol escaldante do meio-dia. Vendedores e mulheres idosas gritando seus slogans ultrajantes em face da repressão policial. E também, pequenos gestos de solidariedade internacional que brilham como luzes fracas e chegam ao país, quebrando as barreiras da linguagem e da preguiça.
Nou gen dwa viv tankou moun. “Temos o direito de viver como gente”, diz uma faixa que sintetiza um programa mínimo, elementar e meramente humano. O programa de um povo que ainda se lembra das glórias do passado, que ainda acredita nas possibilidades de regeneração nacional e que fanaticamente, e pela segunda vez, busca sua independência e dignidade. Um povo que sofre, sim, mas jamais se resigna.
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Sobre a necessidade de se rebelar: apologia ao motim, crítica à revolução, por Ramon T. Piretti Brandão.

Uma postura realista e sólida frente à nossa atualidade exige que não somente desistamos de esperar pela revolução, mas, igualmente, que paremos de deseja-la.

necessidade rebelar apologia critica revolução

Ramon T. Piretti Brandão*, Pragmatismo Político
A trajetória histórica padrão: revolução (à direita ou à esquerda), reação, traição e re-fundação de um governo ainda mais forte e opressivo (por favor, não compreendam a palavra opressivo apenas como sinônimo de tanques de guerra nas ruas, toques de recolher e militares carniceiros em nossas casas). Falo de algo tanto mais complexo quanto mais imperceptível. Trata-se de algo que se atualiza, que se desenvolve; trata-se do que se chama um “eterno retorno da história”, cada vez mais aprimorado, cada vez mais preciso, cada vez mais invisível e, por isso mesmo, cada vez mais presente. A regra, única regra neste eterno renascer da humanidade são as botas marchando sobre nossos corpos.
Aceitemos: o chamado “ciclo do progresso” não passa de um vício. As revoluções, por mais – ou menos – virtuosas que sejam suas ideias, não passam de uma armadilha do destino, de um pesadelo no qual, não importa o quanto lutemos, sempre seremos capturados e submetidos ao infinito ciclo da roda cármica de um eterno retorno que incuba Estados e governos.
A História nos diz que o Estado existe para garantir a permanência da cultura, das tradições e dos hábitos. No entanto, foram os levantes, as insurreições, os motins, enfim, esses movimentos que não chegam a se tornar um ciclo, os responsáveis pelas transformações estruturantes da vida cotidiana. Que seria da escravidão se não fossem os rebeldes e os inconformados transgressores da lei? Que seria da inclusão feminina na vida pública se não fossem as rebeldes e as inconformadas transgressoras da lei? A rebeldia, a rebelião, a desobediência e a transgressão das normas possuem um espaço fundamental no desenvolvimento da humanidade. Sem eles, que seríamos nós?
Se o Estado é história, então os movimentos rebeldes são o “momento proibido”, são a interrupção de uma maquinaria violenta que nos congela enquanto potência de transformação. São, portanto, esses motins os viabilizadores de uma espécie de fresta, de um rasgo, de uma rachadura que nos possibilita a busca por novas realidades possíveis; são, enfim, uma espécie de manobra xamanística que se realiza num espaço improvável, num ângulo impossível.
O Estado, através da História, busca permanência. Esses movimentos proibidos, por sua vez, são temporários. São como que “experiências de pico” quando comparadas aos padrões de normalidade da consciência e de experiência no mundo. Tal como os grandes festivais, esses movimentos não podem acontecer a todo tempo; se assim o fosse, não seriam extraordinários. Ademais, em seus relâmpagos, tais experiências proporcionam vitalidade, intensidade e potência de maneira a transformar toda uma vida individualmente. Creio, aliás, que seja este um dos motivos de a humanidade ainda permanecer viva.
É aí, então, que aquela maquinaria com suas botas bem lustradas retornam – afinal, o eterno retorno é implacável – e percebem que algo mudou, que trocas e interações ocorreram nas experiências cotidianas e que isso, efetivamente, constituiu alguma diferença.
A revolução, que muitos aguardam ainda hoje, jamais nos levou a lugar algum. Aliás, que é a revolução? Qual é sua cara, sua forma, sua cor, seu cheiro? No que foram transformados os sonhos revolucionários? Onde está o sonho anarquista? Onde estão a sociedade e a cultura livres?
Assumamos que a equação homem deu errado ou transformemos, de uma vez por todas, o mundo.
As transformações somente ganham vida nos momentos de motim. E são destruídas no instante mesmo em que o motim se torna revolução, em que a derrubada de um governo lança ao topo um “novo” governo. Quero lhes dizer, com isto, que o sonho e o ideal revolucionário já estão capturados, apropriados e, por isso mesmo, traídos. Todo o aparato bélico do Estado está apontado para o centro de nossos crânios e somente a consciência rebelde nos trará algum vigor.
Gilles Deleuze, filósofo francês, foi preciso ao analisar a figura caricata de Adolf Hitler, dizendo que ele representava algo que estava acima da própria instituição ou Estado nazista. Diz ele:
Se Hitler conquistou o poder mais do que o Estado Maior Alemão, foi porque dispunha em primeiro lugar de micro-organizações que lhe davam um meio incomparável, insubstituível de penetrar em todas as células da sociedade”.
Assim, a maquinaria moderna do Estado e dos governos, sempre sedentas e abertas a incorporar algo que a aperfeiçoe, compreendeu muito bem a experiência nazista. Com isso, transformou um Estado que se manifestava exclusivamente através de governos e instituições em algo ultra sofisticado. Hoje, o Estado sou eu, você, seus pais, filhos e todos os agentes sociais.
Você deve estar se perguntando: o que fazer, então? Bem, primeiro, assumir que a luta é desigual. O Estado nos esmaga com o mesmo esforço que nós esmagamos a uma barata. Assim, talvez, possamos nos rebelar, insurgir de modo a não confrontar o Estado frontalmente, mas pelas frestas, pelas rachaduras deixadas em aberto por Ele.
Tal como uma guerrilha, liberemos espaços de terra, de tempo, de imaginação e dissolvamo-nos entre as vísceras desde aparato para, depois, nos re-fazermos em outros espaços, antes que sejamos descobertos e que nos esmaguem. Deixemos de pensar em limites geográficos e passemos a pensar em zonas, em círculos, em becos. Que nos tornemos invisíveis tais como os mecanismos de poder contemporâneos, passando-nos desapercebidos justamente por não nos relacionarmos com o espetáculo, por não nos expormos a ele e por conduzirmos uma vida que, real, não se faz visível aos agentes da simulação.
Nosso grande trunfo estará em nossa invisibilidade. Ocultação que não se fará ver pelo Estado exatamente por não se permitir definir pela História. O instante em que aparecemos é o mesmo em que nos fazemos desaparecer, deixando um invólucro de vazio até que brotemos em outro espaço, sob outra forma e outra linguagem. Eis uma tática possível num contexto onde o Estado, que nos agride, é onipresente mas, ao mesmo tempo, repleto de fendas e rachaduras. Que sejamos, então, uma espécie de microcosmo ativo dos antigos sonhos de liberdade.
Que os levantes nômades ganhem força. Levantes que, na maioria dos casos, serão radicais a ponto de se recusarem a participar da carnificina promovida pelo espetáculo, se retirando deste território de simulação e desaparecendo.
Que os nossos ataques sejam direcionados às zonas de controle, sobretudo às ideias. Que nossa defesa resida na arte marcial, na arte oculta das artes marciais, que não se faz visível. Essa máquina de guerra nômade e praticamente incorpórea da qual lhes conclamo a fazer uso conquista sem ser notada e se move antes de ser descoberta.
Quanto ao futuro, bem, apenas o autônomo consegue planejar a autonomia a cria-la e a se organizar para e por ela. Digamos que o primeiro passo reside na constatação de que tudo isso nasce a partir de um simples ato de percepção.
Uma postura realista e sólida frente à nossa atualidade exige que não somente desistamos de esperar pela revolução, mas, igualmente, que paremos de deseja-la.
*Ramon T. Piretti Brandão é mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e colabora para Pragmatismo Político

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Receita para fazer uma Revolução Popular Híbrida... mas não conte para a esquerda!, por Wilson Roberto Vieira Ferreira



“Primaveras”, “levantes”, “jornadas”, “protestos”, não importa o nome. Egito, Ucrânia, Síria, Brasil: em todos eles, a mídia corporativa viu os acontecimentos sob a narrativa do “espontâneo”, do “novo”, da “renovação na política”. E sempre pelo mesmo viés: a “velha política” não conseguiria dar mais conta das insatisfações, principalmente dos jovens. O roteiro de todas essas “primaveras” é praticamente idêntico (ONGs e fundações educacionais dando apoio financeiro e operacional, jovens lideranças formadas em universidades dos EUA, faixas e cartazes em inglês, vítimas em manifestações principalmente femininas, vazamentos oportunos do Wikileaks etc.) sugerindo algo como uma receita de bolo com ingredientes bem definidos.  Propaganda, branding management, técnicas avançadas de psicologia de massas fermentam toda essa “espontaneidade” com objetivos geopolíticos bem definido contra o governo-alvo. Mas não conte para a esquerda – afinal, tudo não passa de “teorias conspiratórias”.
Em uma sequência do filme MIB – Homens de Preto o agente Kevin (Tommy Lee Jones) introduz o novo agente James (Will Smith) na Organização. Kevin para em uma banca de jornais e folheia um tabloide sensacionalista. “Vamos ver os relatórios”, diz diante do incrédulo agente James. Percebendo a estranheza do pupilo, Kevin explica: “são as melhores fontes do planeta... às vezes também se encontra algo no New York Times”.

Tão previsível e clichê como o último atentado em Barcelona (sempre com a mesma narrativa ao mesmo tempo fatal e enfadonha que caracterizam os “não-acontecimentos”, “false flags” e “inside Jobs”) são também as “revoltas populares” ou “primaveras” que nos últimos anos pipocaram em países como Jordânia (2013), Egito (2013), Ucrânia (2014), Georgia (2003), Hong Kong (2014), Síria (2012), Tunísia (2010), Líbia (2011) e, finalmente, Brasil (2013-16).

O modelo desses “levantes populares” de protestos desse século estão lá no século passado como a “Primavera de Praga” na Checoslováquia em 1968 ou a chamada “Revolução de Veludo” no Leste Europeu em 1989.

Previsíveis e com uma narrativa tão fixa e recorrente que falar sobre isso sempre faz o locutor ser rotulado de “sensacionalista” ou “teórico da conspiração”. Mas, principalmente as esquerdas, deveriam seguir o conselho do agente Kevin: há mais verdades nas maquinações conspiratórias e sensacionalistas do que na séria Ciência Política.

“Primaveras”, “levantes”, “jornadas”, “protestos”, não importa o nome. Em todos eles, sempre a cobertura midiática relata os acontecimentos sob a narrativa do “espontâneo”, do “novo”, da “renovação na política” ou, como no recente giro de “primaveras” pelo planeta, do papel das novas tecnologias digitais (redes sociais e dispositivos móveis) nesse processo. E sempre com o mesmo viés: a “velha política” supostamente não conseguiria dar mais conta das insatisfações, principalmente dos jovens.


A cilada do “novo”


E as esquerdas e intelectuais acabam sempre caindo nessa cilada do “novo”. Por exemplo, durante as “jornadas de junho” em 2013 esse humilde blogueiro assistia, incrédulo, professores da ECA/USP rumando para a Avenida Paulista para sentir, de dentro das manifestações, o irromper do “novo” na política brasileira, que a supostamente carcomida política tradicional não conseguiria enxergar.

Por isso, as esquerdas parecem evitar discutir esse assunto: uma guerra híbrida da geopolítica dos EUA por trás das “primaveras”? Isso é “teoria conspiratória!”, “sensacionalismo!”, teme a esquerda, talvez preocupada em ser levada à sério para ganhar espaço em colunas e entrevistas na mídia corporativa e não ser confundida com "chavistas" ou "bolivarianos". 

E toca a fazer “autocrítica” dos supostos “erros de avaliação” por não ter dado “respostas” ou informações “na hora certa” para a opinião pública.

Agentes políticos surgem do nada, em geral vindos de alguma universidade norte-americana e turbinados por alguma ONG ou fundação financiada por algum empresário brasileiro com preocupações na área da “educação”. Enquanto isso, a esquerda ou patina nas incansáveis auto-avaliações (lembrando as impagáveis sequências das reuniões da inerte e burocrática Frente de Libertação contra a dominação romana do filme A Vida de Brian do grupo Monty Python) ou joga fora jovens lideranças com origens na própria esquerda.

 Então, esse Cinegnose vai dar uma humilde e didática contribuição descrevendo uma receita para criar o bolo das revoluções populares híbridas, diretamente inspirada nas chamadas “teorias da conspiração”.  

Se o agente Kevin estiver correto, as melhores fontes de informações do planeta estão nos tabloides sensacionalistas... mas não conte para a esquerda!


Receita para fazer uma Revolução Popular Híbrida (RPH)


Ingredientes:



  • Toneladas de dólares da CIA, MI6 e/ou George Soros e/ou irmão Koch
  • Empresários nacionais financiadores de Fundações, principalmente em áreas de Educação e Meio Ambiente
  • Grupos nacionais de defesa de “Direitos Humanos” ou “Pró-Democracia”
  • Jovens universitários idealistas e aspirantes libertários facilmente manipuláveis
  • Faixas profissionalmente confeccionadas e escritas em inglês
  • Agentes provocadores violentos para ação direta – black blocs ou policiais infiltrados (P2)
  • Jornalistas corrompíveis ou chantageáveis
  • Políticos corrompíveis ou chantageáveis
  • Acadêmicos corrompíveis ou chantageáveis

Modo de preparação


Passo 1


Despachar agentes da CIA, de ONGs turbinadas por George Soros e/ou irmãos Koch para a nação alvo. Eles poderão facilmente se passar como estudantes de intercâmbio, turista, ativista comunitário, jornalista, empresário, diplomata. O que importa é ser criativo.


Passo 2


Inicie ONGs no país-alvo. Use pretextos humanitários como “Pró-Democracia”, “Direitos Humanos”, “transparência” ou “Liberdade de Informação”. Contate empresários brasileiros que financiam fundações, principalmente na área educacional. Aquelas organizações com ideais altruístas como “formar gente boa que capacita jovens para mudar o Brasil” ou “comprometida em formar líderes no País”.

Baixando do céu das boas intenções e colocando em prática na Terra, essas organizações tornam-se úteis para ter em mão aqueles “jovens idealistas” (vide ingredientes) no bolo final da Revolução Popular Híbrida. Essas organizações acabam dando cobertura para descontentes locais e idealistas ingênuos.


Passo 3


Recrutar a rede de traidores nacionais – alvos intelectuais, políticos e acadêmicos e, se possível, militares. Suborno é uma boa maneira para formar essa rede. Se não for suficiente, chantagear aqueles que têm alguma mancha na sua vida privada ou profissional é a solução mais drástica.

Agora estamos prontos para começar a cozinhar!

Passo 4


Escolha um tema cativante ou cor para sua Revolução Popular Híbrida (RPH). Revolução Laranja (Ucrânia), Primavera Árabe (Egito, Tunísia, Líbia, Síria), Umbrella Revolution (Hong Kong), Revolução Verde (Irã). No Brasil tivemos uma interessante combinação de temas: “Jornadas de Junho” ou “Manifestações dos 20 centavos”.

Faça um verbete na Wikipedia sobre o tema e crie perfis nas redes sociais. Revolução é uma questão de marketing.


Passo 5


Lance sua revolução como um “protesto espontâneo”. Use aqueles agentes da CIA (aqueles sob identidade de “estudantes de intercâmbio”, “jornalistas” etc.) e os ativistas e “novos líderes” das ONGs.

Proteste contra alguma coisa do tipo “violações de direitos humanos”, “fraude eleitoral”, “governo corrupto” ou “Saúde e Educação Padrão FIFA”. Pouco importa se as alegações são verdadeiras. O que importa é criar paixões, polarizações e o inevitável efeito de manada.

Nesse momento descobrirá a importância daquelas fundações educacionais que formam “líderes para o futuro”: por exemplo, no Brasil a Fundação Estudar, criada pelo empresário Jorge Paulo Lemann, financiou e deu apoio operacional ao Movimento Vem Pra Rua.

Iranianos orientados pela CIA para protestar contra "eleições roubadas"

Passo 5.1. (opcional)


Em certos casos Wikileaks pode dar uma ajuda a sua RPH através de “vazamentos” de segredos embaraçosos sobre personagens-chave dentro do governo-alvo.

No caso do Brasil, a “Carta Aberta ao Povo Brasileiro” do funcionário dissidente da NSA, Edward Snowden, denunciando que a agência dos EUA teria espionado e-mails da presidenta Dilma e Petrobrás só aumentou a temperatura da fritura do governo-alvo: virou prova da fraqueza de uma presidenta à beira do abismo.

Passo 6


Estenda suas faixas “espontâneas” e cartazes de protesto escritas em inglês nas manifestações. Afinal, é necessário ganhar a simpatia da opinião pública internacional e, principalmente, dos políticos norte-americanos.

Irã - Brasil

Passo 7


Adicione aos seus agentes e líderes políticos em tempo integral que, a essa altura, já ganharam espaço na mídia corporativa (alguns até ganharão coluna fixa em jornais e internet), acadêmicos e universitários aspirantes a uma geração globalizada e “antenada”.

Isso vai engrossar a fileira de manifestantes, incluindo descontentes, pessoas com queixas legítimas, desinformados que acabam seguindo a manada ou simplesmente gente entediada que não tem coisa melhor para fazer.


Passo 8


A essa altura a grande mídia norte-americana e europeia já está retratando a sua RPH como “popular”, “espontânea” e “renovação política” . Uma reação natural à tirania, ditadura, corrupção ou fraude do governo-alvo.

Agora que o mundo está assistindo, encene um incidente. Se você não conseguir encontrar algum fanático que ateie fogo contra si mesmo, simule uma atrocidade. Sangue falso, gás lacrimogêneo ou simplesmente fotos encontradas na Internet. Certifique-se que a vítima seja mulher.

Por exemplo, no Brasil pegou bem o episódio de mulheres salvando cães beagles cobaias em um Instituto farmacêutico em São Roque/SP em 2013: mulheres de classe média salvando animaizinhos em meio a fogo e quebradeira de black blocs. Claro, para jogar a culpa no Governo e Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) – clique aqui.

Ou o fusca incendiando com uma família dentro (marido, esposa e filhos) pegos “de surpresa” em uma manifestação em São Paulo.

Ou ainda os “lindos olhos amendoados do anarquismo” (Caetano Veloso) das fotos de black blocs femininos, capas de revistas nacionais.


Transforme black blocs em editorial de alguma revista moda feminina. Algo assim como o ensaio fotográfico da atriz Bárbara Paz.

Mas avise aos seus agentes para não olharem ou rirem para as câmeras. Como aconteceu nos atentados terroristas false flag em Berlim e Paris – em plena cena de tragédia, a câmera pegou policiais rindo e conversando descontraidamente até perceberem que estavam no enquadramento. Para de imediato ficarem em alerta e correr para algum lugar apontando armas.

Ou o caso da iraniana Neda Agha-Soltan (intitulada pela grande mídia “o anjo da liberdade”) checando o ângulo da câmera enquanto aplicava sangue falso em si mesma.

Blogueiras que inacreditavelmente conseguem wi-fi no meio de uma guerra civil como na Síria ou num país supostamente isolado como Cuba, também cai bem.


Passo 9


Se, mesmo assim, tudo isso não der certo você poderá contar com o levante de alguma armada rebelde ou ainda a ameaça de sanções econômicas ou de “zona de exclusão aérea”  imposta pelos EUA, ONU ou União Europeia. Até convencer ou derrubar um governo contrário a agenda geopolítica dos globalistas.

Mas, claro, tudo isso não passa de “teoria da conspiração”... mas não conte para esquerda. Eles não entenderão mesmo...

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Para uma revolução no complexo de posse que corrói a humanidade, por Giorgio Agamben.


Para uma revolução no complexo de posse que corrói a humanidade

"Em seu novo livro, Giorgio Agamben oferece um modelo para uma revolução no complexo de posse que corrói a humanidade, um paradigma para a reinvenção do que significa 'comum'."


Por Christian Ingo Lenz Dunker.

“A obra do escravo é o uso de seu corpo.” Em O uso dos corposcom sua característica habilidade para comentar os antigos de modo a torná-los mais que contemporâneos, Giorgio Agamben faz dessa afirmação de Aristóteles um ponto de partida para rediscutir o estatuto do que significam posse e propriedade. Esse trabalho sem obra, vida sem memória e desejo sem criação é uma espécie de último capítulo inconcluso e perspectivo da maior saga filosófica do século XXI, conhecida como Homo sacer.
Neste volume, o filósofo italiano, mestre da filologia retórica – herança heideggeriana –, reinventa, foucaultianamente, a problemática do cuidado de si e do conhecimento de si, introduzindo um terceiro termo: o uso de si. Do sadomasoquismo em Freud ao gozo em Hegel, passando pela disciplina estóica da corporeidade, Agamben dedica-se ao estudo da subalternidade da noção de uso. “O si não é mais que o uso de si”, máxima pragmática que reformula nossa concepção concêntrica entre narcisismo e individualismo.
O uso precede quer a essência, quer a existência. É pelo uso que passamos de escravos a senhores. É pelo uso, essa contemplação sem conhecimento, que praticamos uma forma de vida, na qual subordinamos hábitos e saberes. Curiosa potência irônica se esconderá por trás do uso: quanto mais tomamos o mundo e o outro como instrumento, mais nos sentimos usados – pequena tragédia do romance moderno. Nada menos do que o sacrifício de Cristo segue essa máxima do uso, do meio e do instrumento da vontade do Outro. Origem também do caráter bífido da relação entre técnica e arte, o dispositivo do uso parece uma sítnese disjuntiva entre zoè e bios, entre physis e nomos.
Contudo, o ponto crucial da investigação aqui realizada é a pesquisa urgente de uma forma de relação com o corpo que não seja de propriedade. Em vez do corpo próprio, o corpo impróprio. O autor oferece um modelo para uma revolução no complexo de posse que corrói a humanidade, um paradigma para a reinvenção do que significa “comum”. O leitor de língua portuguesa tem agora à disposição uma obra que é, antes de tudo, um ajuste de contas e também o tributo de Agambem a todos os que tornaram possível seu pensamento.

***
Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012 e um dos autores da coletânea Bala Perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação (Boitempo, 2015). Seu livro mais recente é Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015), também vencedor do prêmio Jabuti na categoria de Psicologia e Psicanálise. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Xadrez do Hommer Simpsom e o Desmonte Nacional II, por Akrx.

1.  o reacionarismo brasileiro é atávico. desde que o Brasil é Brasil. não nascemos como nação, e sim como empresa exportadora. nosso berço não é a luta de libertação nacional, e sim a escravidão. o que esperar de uma sociedade constituída sobre estas bases?
2. a web apenas amplificou a visibilidade, e portanto retroalimentou, um fascismo latente, mas sempre fortemente presente no tecido social brasileiro. jamais superamos a escravidão, os documentos foram queimados e os “senhores de escravos” receberam indenização pelo prejuízo lhes causado com a “libertação de sua peças”;
3. em nossa História jamais enfrentamos com determinação o elitismo, o autoritarismo, o racismo, o moralismo e a repressão, todos herdados de nossas raízes fundadas na escravidão. foi assim com a Lei da Anistia, e depois com a Comissão da Verdade. foi assim com a não auditoria da privataria tucana, e depois com o abafamento da operação Satiagraha. e está sendo assim agora, com a opção da maior parte da Esquerda pela não resistência ao golpe nas ruas, como se fosse possível derrotar os golpistas apenas dentro de uma lógica eleitoral pautada por eles;
4. mas o reprimido sempre volta. volta como sintoma de alguma patologia. precisa ser enfrentado e transformado. seja no plano individual ou social, sempre se trata de uma guerra. de uma guerra de libertação, seja de pessoas ou de nações. nossa recusa em enfrentar nossos mais nocivos problemas, nos torna pessoas doentes numa sociedade doente;
5. da mesma forma que na web os múltiplos nichos fechados da Direita e do fascismo se reforçam mutuamente, numa produção incessante de pós-verdade, ocorre exatamente o mesmo mecanismo nos ditos sites de “Esquerda”. são redomas virtuais e grupos sociais que obedecem ao mesmo recorrente padrão. segregam o contraditório, interditam o debate, cultivam o maniqueísmo, exercem a violência. os estreitos círculos de giz são inimigos do diálogo, da conexão e, portanto, de uma sociedade plural e libertadora;
6. no processo político recente brasileiro, primeiro PT x PSDB, depois lulismo e anti-lulismo, coxinhas e paneleiros x Dilma Bolada e Amigos do Presidente Lula, são posições políticas que se alimentam uma das outra. reforçam-se mutuamente, paralisando o Brasil em meio a uma travessia, obrigando a sociedade a girar em círculos numa falsa encruzilhada. um pensamento binário que nega uma realidade complexa. ao se desconectar da realidade, por negá-la, o que foi reprimido retorna como sintoma de um tipo de Alzheimer político;
7. mas assim como os organismos, as sociedades tendem desesperadamente a autoregeneração. nosso desejo é desejo de vida, de conexão, de liberdade. é preciso doses monumentais de repressão para que acabemos desejando nossa própria morte. e isto sempre cobra um preço muito mais alto do que podemos pagar. os indivíduos adoecem precocemente, as sociedade se auto destroem em guerras e genocídios;
8. nenhuma Nação conquista a si mesma sem uma guerra de libertação. vivemos agora no Brasil uma guerra deste tipo. não vai ser com a negação de nossos erros que nos capacitaremos para vencer esta guerra. não vai ser nos escondendo confortavelmente em grupos fechados, na web ou não, onde apenas lambemos as feridas uns dos outros, sem nunca encararmos de frente aquilo que precisamos superar. não haverá qualquer futuro para nós na auto complacência, na auto indulgência, na auto comiseração e no mútuo enaltecimento de nossos enganos e fracassos;
9. toda esta destruição e todo este sofrimento terá sido em vão? ou chegou a vez de encerrarmos nosso exasperante ciclo de duro aprendizado? haverá novos tempos. mas dessa vez, não faremos prisioneiros. só a antropofagia nos une!
10. feliz Ano Novo!

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Vitória de derrotados, vazio de poder no Brasil é estágio pré-revolucionário, por Helena Sthephanowitz.

Consumado o golpe que tirou o mandato da presidenta eleita, Dilma Rousseff, o país está dividido entre a capital federal, de um lado, com seus poderes formais ocupados por Vossas Excelências – que renegam o voto popular e impõem um programa de governo derrotado nas urnas –, e de outro, o resto do Brasil, os 99% que estão sem quem os represente.
Brasília hoje lembra muito a Versalhes pouco antes da Revolução Francesa. Uma corte composta pelo clero que se identificava com a nobreza e a própria nobreza, incluindo a togada, com seus privilégios. Todos eles mal chegavam à 2% da população francesa. Aos outros 98% do povo cabia trabalhar como burros de carga para levar uma vida miserável e oprimida a pagar os impostos que sustentavam a Corte, já que o clero e os nobres não só eram isentos de impostos como viviam às custas do Tesouro.
Dois anos antes da queda da Bastilha, o rei Luiz XVI, enfrentando uma crise econômica, tentou convencer o clero e os nobres a contribuírem com impostos. Não quiseram ceder os anéis para não perder os dedos. Dois anos depois, deu no que deu. Brasília também não aceita sequer um governo trabalhista e popular legitimamente eleito, se recusa a fazer uma reforma política que empodere o povo e faça as transformações desejadas, se recusa a tributar grandes fortunas, dividendos e, pior, promove uma volta às políticas de concentração de renda para os mais ricos, depauperando a população mais pobre e a classe média. Temer ficará no lucro se conseguir ter os dois anos que Luiz XVI teve antes da queda da Bastilha.
O vácuo de poder popular só pode ser preenchido por lideranças que aglutinem seus anseios. Lula ainda é a maior liderança, apesar da perseguição implacável que sofre. Afinal todo o povo quer de volta um governo como o que Lula fez, principalmente se for sem o contrapeso que foi necessário à governabilidade de oportunistas traidores, safados e corruptos que a Justiça Eleitoral diploma como se tivessem a ficha limpa.
Dilma também tem seu papel. Livre das amarras da governabilidade com forças políticas hostis aos interesses públicos, deposta pelo que uma caricatura do New York Times desenhou ser um bando de ratos, tem credibilidade para contar ao povo "como são feitas as salsichas" na política, ou seja, apontar os defeitos e caminhos para as transformações políticas, livrando da banda podre que, ao que tudo indica, só tem conserto pra valer com novas eleições diretas para presidente, seguida de uma nova Assembléia Nacional Constituinte exclusiva, com delegados eleitos diretamente pelo povo, sem a participação de atuais e futuros parlamentes, para não legislarem em causa própria, e com as principais regras propostas sendo levadas a plebiscito para a população decidir diretamente sem intermediários.
Mas não é só Lula e Dilma que podem preencher o vazio de poder deixado por Brasília. Aliás nem prender e arrebentar ambos para aniquilá-los, como tentou a ditadura no passado, adianta. Ainda pode parecer invisível, mas nos últimos 13 anos cresceram milhares de Lulas e Dilmas que, como disse o senador Roberto Requião (PMDB-PR), não retornarão submissos à senzala.
A farsa do golpe foi tão grande que Dilma foi destituída por suposto crime de responsabilidade mas, imediatamente depois foi absolvida dos supostos crimes, ao não a condenarem à perda de direitos como ocorreu com Collor. Ora, se houvesse convicção de fato de que houve crimes de responsabilidade, deveria haver convicção suficiente para impor a pena cabível, o que não foi feito. É a consciência pesada de quem fez uma injustiça e a confissão de parte do Senado de que Dilma sofreu de fato um golpe parlamentar, como ela diz e toda a imprensa estrangeira vê.