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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A Primavera Catalã ousa desobedecer, por Redação.

 170928-Barcelona
De navios estrangeiros, descem soldados espanhois para impedir o referendo. A internet está sob censura. Mas a população resiste, abraça-se nas ruas e cultiva cravos — para lembrar Portugal de 1974
Por Flávio Carvalho
Se tu puxas A Estaca forte por aqui e eu puxo A Estaca forte, por lá,
seguramente ela vai cair; cairá e nós poderemos nos libertar

L’Estaca, de Lluís Llach, músico perseguido pela ditadura franquista,
atualmente deputado independentista catalão
Pense num militante de extrema esquerda no Brasil. Sabes que ele não se dá muito bem com a Polícia. Agora imagine aqui em Barcelona um policial chorando enquanto os manifestantes cantam o hino nacional. Nesse momento, um militante de extrema esquerda, catalão, abraça o policial que chora, emocionado. Por outro lado, na cidade de Zaragoza, centenas de neonazistas espanhóis atacam violentamente um carro da TV pública catalã, enquanto as câmeras filmam a Guardia Civil, a polícia política de Mariano Rajoy, Presidente da Espanha e do PP, aplaudindo os violentos neonazistas e nada fazendo para defender os jornalistas catalães que pagam o seu salário.
Pois a esse ponto chegamos, a poucos dias do Referendo perseguido, que fez com que dezenas de eurodeputados, de dezoito países europeus diferentes, perguntassem aos dirigentes da União Europeia o que estão esperando para fazer algo que impeça os limites de violência que se estão ultrapassando na Espanha. Não esqueçamos que é essa mesma União Europeia, dirigida por políticos conservadores, de direita, que envergonhou o mundo na crise dos refugiados (ainda em andamento). Desta vez pode ser diferente. Não se trata de um problema dos países árabes, pois agora a crise é no interior da Europa Ocidental.
Enquanto isso, a reação do governo espanhol é mais repressiva: em navios de luxo, cruzeiros italianos pintados com desenhos animados (empresas locais se negaram a isso), a polícia espanhola desembarcou em Barcelona e está declarando sua guerra particular contra os cidadãos e contra as instituições de uma boa parte do seu próprio país. Franco fez o mesmo, décadas atrás. E desencadeou a guerra civil mais duradoura da história do mundo ocidental. Fuzilou o presidente eleito da Catalunha, no castelo militar de Montjuic, mesmo lugar onde se concentram a cada 12 de Outubro, os neonazistas, protegidos por um cordão policial. 12 de outubro é o Dia da Raça, tal como proclamado na ditadura: o dia que Colombo começou a impor, em nome dos Reis da Espanha, a “raça espanhola” sobre os indígenas das Américas. Agora imaginem como será, este ano, em toda a Espanha, o 12 de outubro, que se hoje chama o Dia da Hispanidade!
Quando meus amigos indecisos me perguntam se me tornei nacionalista, sempre digo que a grande fábrica de independentistas é o Partido Popular (PP, de direita, no poder), porque isso lhe dá votos em Madri. Logo, insisto que nunca serei nacionalista. E os esclareço que votarei no Referendo exatamente contra o pior nacionalismo que já vi na minha vida: o violento nacionalismo espanhol, herdado diretamente do franquismo, sem necessidade de intermediários. Sua última expressão foi enviar pra tomar o comando da polícia catalã (nunca o assumem, por não terem coragem de enfrentar a cada vez mais crítica opinião pública internacional), o irmão do ex Presidente do Tribunal Constitucional, ambos reprovados (sim, o PP perdeu estas votações no parlamento espanhol) pela máxima instância política.
Referências a Hitler, aqui não faltam. Nem no resto da Europa. Os resultados das eleições alemãs acabam de devolver ao seu parlamento um partido de extrema direita. É a primeira vez, depois da morte de Hitler, que o neonazismo entra no poderoso parlamento alemão. Os próximos passos da diplomacia espanhola são tão significativos que falam por si mesmos: Rajoy visitou Trump ontem. Esta semana fez novamente referência a sua visita a Temer…
Jovens informáticos (que clonaram centenas de páginas na Internet quando Rajoy fechava as webs públicas, criadas pelo governo catalão) estão ameaçados pela justiça, assim como o Presidente da Catalunha e do Parlamento catalão, diretores de jornais, líderes estudantis, sindicalistas, políticos eleitos e diretores de escolas, ameaçados às penas de prisão e multas milionárias. Sermões inteiros em missas catalãs estão sendo reproduzidos na Internet pela veemência com que os padres católicos estão defendendo os direitos humanos. Impressores pela democracia é o nome (traduzido) de uma página da Internet criada pela recentemente criada associação de empresários de indústrias gráficas. Estão dispostos a imprimir, de graça, diariamente, milhões de cédulas eleitorais para o Referendo, depois que a polícia espanhola apreendeu mais de dez milhões de cédulas e urnas.
Numa referência à pacífica Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura de Salazar, em Portugal, já não se encontram cravos para comprar nos mercados floristas da Catalunha. Os anunciantes de previsão do tempo na rádio hoje foram substituídos por floricultores que ensinavam o povo sobre como plantar e cuidar destas plantas, os pés-de-cravos, a tempo de serem colhidos nesta Primavera Catalã, em pleno começo de outono europeu. Resistência pacífica é a ordem popular nas ruas. Os vizinhos do pueblo onde eu moro imprimiram eles mesmos cartazes em casa e saíram pra colar nos postes, com seus filhos, domingo, em festa: “sem desobediência não haverá independência”, neles estava escrito.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Não se engane: é primavera no Brasil!, Francisco Carlos Teixeira da Silva

Francisco Carlos Teixeira da Silva
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Muitos brasileiros tinham esperança, ou ao menos expectativas, na atuação da Justiça. Mesmo sabendo que os tribunais brasileiros são lentos, formais e que se expressam num leguleio que poucos entendem – mesmo assim! – esses brasileiros tinham esperanças. Não podíamos crer, materializar, o dito antigo de que a Justiça no Brasil é feita – e com dureza! – apenas para ladrão de galinhas. “Para os amigos tudo, para os inimigos a Lei!”.  Nem muito menos podíamos imaginar que seria através de tribunais brasileiros que interesses estrangeiros declarariam guerra ao Brasil.

Uma guerra de novo tipo: uma guerra sem guerra, ou seja, uma guerra que usa meios não bélicos para destruir, solapar, aniquilar a capacidade do adversário. Assim, utilizando-se de modernos meios tecnológicos – mídias digitais, propaganda massiva, formação de quadros de elite em universidades estrangeiras, sistemas de estágios e bolsas de estudos em centros de treinamentos, etc... arma-se uma elite para atuar a serviço, consciente ou inconscientemente, desse poder estrangeiro.

O Brasil não seria o primeiro alvo. Na verdade Ucrânia, Líbia, Egito, Tunísia, Síria, Geórgia e Turquia foram alvos anteriores desse modelo novo de guerra – uma guerra que não precisava recorrer aos custosos meios tradicionais de luta com canhões, bombardeios e destruição de cidades. Podia-se fazer a guerra a bem dizer... sem guerra. Por outros meios. Não era exatamente uma “guerra híbrida” ainda. A guerra híbrida misturaria meios novos e meios tradicionais. Por enquanto, nas chamadas “primaveras”, a guerra seria “sem guerra”.

Para funcionar a “guerra sem guerra”, precisa-se conhecer bem o ponto fraco do inimigo. No caso brasileiro foi fácil: homens do talho de Victor Nunes Leal e Raymundo Faoro já apontavam para a chaga aberta do país – o caráter patrimonial do Estado brasileiro. O patrimonialismo, no perfeito conceito de Max Weber, permitiu que uma elite parasitária colonizasse o Estado e cooptasse tudo e todos que se apresentem como “o novo”, “o transformador”, “o renovador”. Trata-se do velho “transformismo” das elites, e de seu poder de cooptação, tão bem descrito por Jorge Amado em seu personagem “Doutor Mundinho”, de “Gabriela, cravo e canela”.

Cabia, posto, utilizar-se dos males propiciados pela elite corrompida do país como brecha para iniciar o ataque à soberania nacional. O interessante é que tal ataque a nossa soberania seria feita pela parcela, aparentemente, não corrompida dessa mesma elite. Estrangeirada, imbuída do élan “renovador”, tal elite embora inteiramente colonizada, vestida, como no dizer de Frantz Fanon, com a máscara do colonizador para impor ao seu próprio povo um modelo importado e alienado.  A elite “renovadora”, capacitada em centros estrangeiros,em nome de uma pureza que só o “outro perfeito”, “o estrangeiro”, “o espelho” em que devemos nos mirar e, assim, deixar de ser o que somos para ser a cópia mascarada do “Outro” colonizador, renega sua própria gente, sua história e suas tradições.

Com tudo isso destrói as bases da própria soberania nacional.

A Operação Lava-Jato abriu, sim, para muitos, a esperança de que as coisas mudariam,  o patrimonialismo de mais de quatro séculos seria arrancado pelas raízes e que o país seria “passado a limpo” – mas, infelizmente, só miravam no espelho do Outro, do estrangeiro. Depois de seus cursos e estágios no exterior se sentiam prontos para a hercúlea tarefa de “limpar” o Estado brasileiro, tomando-a como “missão”. De qualquer ponto que puxassem o fio viria o novelo de pecados da história-pátria: propinas, sinecuras, prebendas, filhotismo, estelionato, favoritismo, peculato, e tanto mais... Contra uma “história feia”, a nossa, a da própria pátria, considerada viciosa, apunham a história virtuosa d´“Outro”, sem saber que a história desse “Outro” é uma pura construção mítica, ideológica, benzida na pia da religião.

Incultos na sua erudição tomaram o mito d´Outro como história.

Iniciaram-se, então, os procedimentos jurídicos, o flanco da “guerra sem guerra”, a primavera do Brasil: afinal poderosos iriam para prisão. E realmente foram. Foram mesmo? Bem, Eduardo Cunha – uma unanimidade nacional, uma espécie de “meu malvado predileto” da Nação – mas, só depois que cumpriu seu papel, o de defenestrar Dilma Rousseff do seu cargo via acusações que seriam nos meses seguintes “fichinha”, “crime” de freira de colégio interno, face ao chorume a vazar do Congresso Nacional nos meses seguintes ao seu impeachment.

Bom, prendeu-se Cunha com seu aspecto melífluo, sua voz dissimulada,  suas mãos felinas e seu cabelo oleoso e com aparência de caspa severa – está lá! Condenado a 15 anos de prisão! No entanto, sua esposa – uma jornalista de grande experiência foi considerada inocente, pois não sabia de onde caía o dinheiro no seu generoso cartão de crédito... Há quem mais? Ah, não... Esse está livre; este outro... Fez delação e foi solto; aquele... hum,  foi liberado e.... acolá outrem está em prisão domiciliar.

O próprio Cunha é personagem central de tramas noturnas da República e continua sendo personagem central no “esquema” (ou será “organização”, um sinônimo talvez de “quadrilha”)  que sustenta com propinas e malas cheias o presidente em exercício. Portanto, é, em verdade, um homem mais livre que a maioria dos 204 milhões de brasileiros que não escolheram seu presidente e com passes de equilibrista esticam seus salários até o mês seguinte!

Ah, temos sim um prisioneiro da Lava-Jato: o Almirante Othon Silva, condenado a 43 anos de reclusão. Um homem que prestou inúmeros serviços à Pátria, que enfrentou terríveis forças internacionais para dotar o país de uma tecnologia única e avançada, resistindo heroicamente às pressões ocultas de grandes potências. Envergonhado, após a prisão, tentou o suicídio. Mostra caráter! Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, qual outro político escreveu sequer uma linha de arrependimento? Nada!

Muito pelo contrário continuam, com recursos escusos, conspirando contra a ordem constitucional da República. No entanto o tribunal entendeu que o homem que dotou o país de alta e exclusiva tecnologia de ponta, um saber estratégico para a Nação, merecia uma pena 3.7 vezes superior ao mago do mal que presidiu o Congresso Nacional, o senhor Eduardo Cunha. Decidiu-se punir um Almirante muito mais do que quaisquer um dos malfeitores que roubam não só o dinheiro, mas principalmente o bem maior do povo, roubam o voto dos cidadãos.

Temos, contudo, como explicar mais esse paradoxo: como permitir que um país com tantas riquezas como o Brasil pudesse se dotar de uma tecnologia nuclear autônoma? Tinha-se que exemplificar em alguém o castigo para parar, deter e nunca mais permitir a ousadia de uma mera colônia neo-extrativista de ser, de fato, um país verdadeiramente soberano.
                           
Como se não bastasse, o mesmo tribunal, aliado a governos estrangeiros, condenam as empresas brasileiras. Isso mesmo, as empresas. Não condenam apenas os executivos responsáveis pelos atos de corrupção, condenam as empresas. Ou seja, em vez de julgar “CPFs”, o tribunal julga “CNPJs”. Condenando as empresas  com multas bilionárias a serem pagas a governos estrangeiros, conseguem gerar desemprego massivo, destruição de postos de trabalho, extinção de modernas tecnologias, subdesenvolvimento e a retirada do Brasil de mercados duramente conquistados. E os executivos? Bem, esses são “premiados” e vão para casa! Uma tornozeleira aqui, outra ali; uma retenção de passaporte de um e de outro não... e para outros nenhuma punição! Ou seja, as empresas, os “CNPJs”, são condenadas, caminham para extinção, o desemprego campeia, os trabalhadores sofrem e os executivos – “CEOs”, gostam de dizer! – vivem feliz o resto da história!

Nem as empresas que colaboraram, e mesmo colocaram em funcionamento o Holocausto durante o Terceiro Reich, foram punidas desta forma. A punição recai sobre seus proprietários e executivos e hoje são orgulho da nova Alemanha. Aqui, como se não bastasse a contaminação de valores intangíveis das empresas, devora-se a própria capacidade das empresas sobreviverem. Assim, a engenharia, a pesquisa geológica, a mineral, agropecuária, ferroviária, a engenharia de alimentos, os laboratórios das universidades, transportes e logística passam a ser alvo de uma operação profunda de desmonte.

Enquanto isso, outros produtores/fornecedores internacionais, concorrentes do Brasil, ocupam fatias crescentes de mercados tradicionalmente do país. A capacidade de agregação de valor despenca e cada vez mais nos aproximamos de uma situação de colônia neo-extrativista.

Trava-se, assim, uma “guerra sem guerra” na qual o futuro da soberania nacional está em jogo. E o mais triste de tudo é que o povo brasileiro nada sabe sobre guerras.

Francisco Carlos Teixeira da Silva, historiador, ganhador do Prêmio Jabuti, 2014.